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	<title>Boletim de Arte | Tricontinental: Institute for Social Research</title>
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	<description>international, movement-driven institution focused on stimulating intellectual debate that serves people’s aspirations.</description>
	<lastBuildDate>Fri, 03 Jul 2026 18:04:15 +0000</lastBuildDate>
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		<title>Cinquenta anos depois de Soweto; uma luta sem documentação não é uma luta</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Amilcar]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 28 Jun 2026 03:00:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Boletim de Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Nakba]]></category>
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					<description><![CDATA[Os fotógrafos sul-africanos que lutaram contra o apartheid não se limitaram a registrar a brutalidade. Eles preservaram evidências, construíram uma memória coletiva e transformaram a câmera em uma arma de educação política e solidariedade internacional.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h4 style="text-align:center;">Boletim de Arte n. 28 (junho de 2026)</h4>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-148168 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/AB28_Header.jpg" alt="" width="950" height="550" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/AB28_Header.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/AB28_Header-300x174.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/AB28_Header-768x445.jpg 768w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px"></div>
<div>
<div class="rm-b-e-md">

<p class="single-post--content--text-small text-center">Este boletim de arte é dedicado a Abdullah Ibrahim (1934–2026), o lendário músico de jazz sul-africano e ativista <em>anti-apartheid</em> que faleceu este mês. Durante sua vida, ele transformou a expressão cultural – e em particular o piano – em um ato profundo de resistência política, inclusive através de sua canção “<a href="https://www.youtube.com/watch?v=HhACPRwzIOo">Soweto</a>“.</p>
</div>
</div>
<p>Imagina-se na esquina das ruas Moema e Vilakazi em Orlando West, Soweto, África do Sul. Hector Pieterson, de 12 anos, <a href="https://sahistory.org.za/people/hector-pieterson">foi baleado aqui</a> às 9h30 da manhã do dia 16 de junho de 1976 – meio século atrás, neste mês. Agora olhe para baixo. Perto deste local, o fotógrafo Masana Samuel “Sam” Nzima <a href="https://sahistory.org.za/people/hector-pieterson">fez seis fotos com uma Pentax SL e uma lente de 50mm</a><a href="https://sahistory.org.za/people/hector-pieterson">. A t</a><a href="https://sahistory.org.za/people/hector-pieterson">erceira </a><a href="https://sahistory.org.za/people/hector-pieterson">imagem </a><a href="https://sahistory.org.za/people/hector-pieterson">viajou o mundo: Mbuyisa Makhubo, de 18 anos, correndo com o corpo de Hector, e sua irmã Antoinette Sithole correndo ao lado deles. No chão abaixo deles, uma sombra profunda cai sobre o asfalto. Essa sombra é uma evidência – registra o ângulo do sol da manhã, o trecho específico da estrada de Soweto, o exato momento em que o Estado do </a><a href="https://sahistory.org.za/people/hector-pieterson"><em>apartheid </em></a><a href="https://sahistory.org.za/people/hector-pieterson">disparou contra uma criança em idade escolar.</a></p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_148060" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-148060" class="wp-image-148060 size-large img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/01_Sam-Nzima-Hector-Pieterson-June-16-1976-830x1024.jpeg" alt="" width="830" height="1024" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/01_Sam-Nzima-Hector-Pieterson-June-16-1976-830x1024.jpeg 830w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/01_Sam-Nzima-Hector-Pieterson-June-16-1976-243x300.jpeg 243w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/01_Sam-Nzima-Hector-Pieterson-June-16-1976-768x948.jpeg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/01_Sam-Nzima-Hector-Pieterson-June-16-1976-1245x1536.jpeg 1245w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/01_Sam-Nzima-Hector-Pieterson-June-16-1976-1660x2048.jpeg 1660w" sizes="(max-width: 830px) 100vw, 830px"><p id="caption-attachment-148060" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Hector Pieterson sendo carregado por Mbuyisa Makhubo, 16 de junho de 1976. Crédito: Sam Nzima.</small></p></div>
</div>
<p>Esta imagem se tornou um símbolo internacional, reproduzida infinitamente em cartazes e serigrafada em milhões de camisetas ao longo da década de 1980 pelo movimento internacional de solidariedade <em>anti-apartheid</em>, desde a Organização de Solidariedade com os Povos da Ásia, África e América Latina (Ospaal) em Havana e o Movimento Anti-Apartheid (AAM) em Londres até o <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-71-medu-art-ensamble/">Medu Art Ensemble em Gaborone</a>, Botswana. Juntos, esses grupos tornaram visíveis as brutalidades do regime de <em>apartheid </em>e ajudaram a mobilizar um movimento global em direção à sua derrota. Este boletim, no entanto, não é sobre uma única fotografia, mas sobre uma geração de fotógrafos que documentaram o <em>apartheid</em>, revelando suas sombras e a luta pela libertação travada contra ele.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">Fotografando a Revolta de Soweto</h3>
<p>Em 16 de junho de 1976, entre 3 mil e 10 mil estudantes marcharam em onze colunas em direção ao Estádio Orlando. Sua queixa imediata era a imposição do africâner como língua de instrução nas escolas africanas, decretada sem consulta. A reivindicação mais ampla era a <a href="https://sahistory.org.za/archive/bantu-education-act-act-no-47-1953">Educação Bantu</a> – ou, como o primeiro-ministro Hendrik Verwoerd havia planejado ao longo de duas décadas, um sistema “separado e inferior” projetado para ensinar às crianças negras que não havia lugar para elas além de sua força de trabalho. O Conselho Representativo dos Estudantes de Soweto – liderado por Teboho “Tsietsi” Mashinini, de 19 anos, Murphy Morobe, de 19 anos, e Seth Mazibuko, de 16 anos – havia decidido iniciar a marcha na Escola Secundária Naledi no dia 13 de junho.</p>
<p>Os primeiros tiros foram disparados por volta das 9h30. Lesley “Hastings” Ndlovu, de 15 anos, foi a primeira criança morta; Hector Pieterson foi a segunda. Ao final do dia, havia pelo menos 23 mortos em Soweto, a maioria deles estudantes e jovens; ao final do ano, mais de 700 foram mortos em todo o país.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_148068" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-148068" class="wp-image-148068 size-large img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/02_Ernest-Cole-Students-kneel-on-floor-to-write.-Government-is-casual-about-furnishing-schools-for-blacks.-South-Africa-1960s-1024x696.png" alt="" width="1024" height="696" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/02_Ernest-Cole-Students-kneel-on-floor-to-write.-Government-is-casual-about-furnishing-schools-for-blacks.-South-Africa-1960s-1024x696.png 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/02_Ernest-Cole-Students-kneel-on-floor-to-write.-Government-is-casual-about-furnishing-schools-for-blacks.-South-Africa-1960s-300x204.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/02_Ernest-Cole-Students-kneel-on-floor-to-write.-Government-is-casual-about-furnishing-schools-for-blacks.-South-Africa-1960s-768x522.png 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/02_Ernest-Cole-Students-kneel-on-floor-to-write.-Government-is-casual-about-furnishing-schools-for-blacks.-South-Africa-1960s-1536x1045.png 1536w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/02_Ernest-Cole-Students-kneel-on-floor-to-write.-Government-is-casual-about-furnishing-schools-for-blacks.-South-Africa-1960s-2048x1393.png 2048w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-148068" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Estudantes ajoelhados no chão para escrever, anos 1960. Crédito: Ernest Cole.</small></p></div>
</div>
<p>Ao lado dos estudantes estavam alguns fotógrafos, entre eles Sam Nzima, que trabalhava para <em>The World</em>, o jornal negro mais proeminente do país na época; Peter Magubane fotografava para o <em>Rand Daily Mail</em>; e Alf Kumalo, que  trabalhava para o <em>Sunday Times</em>. Eles fotografaram; foram espancados; alguns foram presos. Eles contrabandeavam os negativos por qualquer canal disponível.</p>
<p>Kumalo, que viveu em Soweto e documentou a cidade por meio século, foi perseguido pelas mesmas forças do <em>apartheid </em>que estava fotografando. “Fui preso, espancado. Quebraram meu crânio”, <a href="https://www.npr.org/sections/pictureshow/2012/10/25/163557205/remembering-alf-kumalo-chronicler-of-life-under-apartheid">lembrou</a>.</p>
<p>Não foram apenas fotógrafos que testemunharam as atrocidades naquele dia em Soweto. No interior do Hospital Chris Hani Baragwanath, o Dr. Malcolm Klein <a href="https://brandsouthafrica.com/109018/hastings-ndlovu-150605/">notou</a> que algumas das vítimas chegaram com “feridas estranhas: pequenos buracos de entrada em seus corpos superiores, com feridas de saída maiores mais abaixo”. Os médicos perceberam mais tarde que a polícia estava disparando de helicópteros. Quando a polícia exigiu uma lista de todos os pacientes admitidos com ferimentos de bala para que os sobreviventes pudessem ser processados por “rebelião”, os médicos e os funcionários de admissão se recusaram. Em vez disso, registraram o motivo da admissão como “abscesso”. “Dessa forma”, disse Klein, “protegemos um número desconhecido de pacientes de serem vitimados duas vezes pela brutalidade policial”.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">A câmera era minha arma</h3>
<p>As câmeras continuaram funcionando após aquela manhã e, ao longo das décadas, a fotografia se tornou mais do que um registro de eventos: tornou-se uma prática de educação política, memória coletiva e resistência. “Uma luta sem documentação não é uma luta”, <a href="https://www.thejournalist.org.za/kau-kauru/camera-gun-legend-peter-magubane/">recordou</a> Peter Magubane aos jovens manifestantes que se recusaram a tirar suas fotos naquela manhã em Soweto. O próprio Magubane passou 586 dias em confinamento solitário em 1969 por seu trabalho fotográfico, muitas vezes escondendo sua câmera em uma Bíblia oca.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_148077" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-148077" class="wp-image-148077 size-large img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/03_Peter-Magubane-funeral-procession-in-Zwelitsha-King-Williams-Town-Eastern-Cape-1978-1024x917.png" alt="" width="1024" height="917" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/03_Peter-Magubane-funeral-procession-in-Zwelitsha-King-Williams-Town-Eastern-Cape-1978-1024x917.png 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/03_Peter-Magubane-funeral-procession-in-Zwelitsha-King-Williams-Town-Eastern-Cape-1978-300x269.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/03_Peter-Magubane-funeral-procession-in-Zwelitsha-King-Williams-Town-Eastern-Cape-1978-768x688.png 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/03_Peter-Magubane-funeral-procession-in-Zwelitsha-King-Williams-Town-Eastern-Cape-1978.png 1342w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-148077" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Procissão fúnebre em Zwelitsha, King William’s Town (agora Qonce), Eastern Cape, 1978. Crédito: Peter Magubane.</small></p></div>
</div>
<p>Olhe para uma das fotografias de Magubane, publicada em <em>Soweto: O fruto do medo</em> (1986): um ônibus lotado de enlutados, punhos erguidos pelas janelas, mais no telhado, uma fila de carros atrás, colinas abertas além. O ano é 1978. O lugar é o Eastern Cape, a região de <a href="https://sahistory.org.za/people/stephen-bantu-biko">Steve Biko</a>, um co-fundador do Movimento da Consciência Negra que inspirou a Revolta de Soweto. Biko foi morto sob custódia policial em setembro do ano anterior. Aqui, Magubane documenta uma nova forma política sob o <em>apartheid</em>, na qual as procissões fúnebres se tornaram substitutos para as reuniões e marchas que haviam sido banidas. Nesse contexto, as câmeras também adquiriram um novo significado. Como Magubane <a href="https://www.thejournalist.org.za/kau-kauru/camera-gun-legend-peter-magubane/">dizia</a>, “eu consegui carregar minha arma; a câmera era minha arma. Eu consegui matar o <em>apartheid </em>com minha arma”.</p>
<p>Olhe para outra imagem, desta vez de Ernest Cole. Uma fila de homens negros, nus e de frente para uma parede, levantam os braços enquanto passam pela exame médico dos mineiros sob o sistema de trabalho migrante do <em>apartheid</em>. O mesmo aparato que classificava aqueles corpos havia classificado o de Cole: para obter o passaporte que lhe permitiu deixar a África do Sul com seus negativos, ele se reclassificou de negro para “pardo” e mudou seu sobrenome de Kole para o mais anglófono Cole. Os negativos que ele levou – incluindo a imagem dos mineiros – foram publicados nos Estados Unidos em 1967 como o livro <em>Casa da Escravidão</em>. O livro foi banido em seu país. Após a embaixada da África do Sul recusar renovar seu passaporte, Cole passou anos vivendo nas ruas. Em 1990, um dos maiores fotógrafos da África do Sul morreu apátrida em Nova York. Suas cinzas foram posteriormente devolvidas à África do Sul e enterradas em Mamelodi.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_148086" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-148086" class="wp-image-148086 size-large img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/04_Lesley-Lawson-Night-cleaner-polishing-the-boardroom-table-Johannesburg-1984-1024x688.jpg" alt="" width="1024" height="688" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/04_Lesley-Lawson-Night-cleaner-polishing-the-boardroom-table-Johannesburg-1984-1024x688.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/04_Lesley-Lawson-Night-cleaner-polishing-the-boardroom-table-Johannesburg-1984-300x202.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/04_Lesley-Lawson-Night-cleaner-polishing-the-boardroom-table-Johannesburg-1984-768x516.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/04_Lesley-Lawson-Night-cleaner-polishing-the-boardroom-table-Johannesburg-1984-1536x1032.jpg 1536w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/04_Lesley-Lawson-Night-cleaner-polishing-the-boardroom-table-Johannesburg-1984.jpg 1696w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-148086" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><em>Limpeza noturna polindo a mesa da sala de reuniões</em>, Joanesburgo, 1984. Crédito: Lesley Lawson.</small></p></div>
</div>
<p>Veja o <em>Trabalho das mulheres</em> de Lesley Lawson (1985). Lawson passou o início dos anos 1980 fotografando mulheres negras trabalhando em toda a África do Sul, desde trabalhadoras domésticas em cozinhas suburbanas brancas até operárias em linhas de produção e trabalhadores agrícolas em fazendas de brancos. O livro emparelhava suas fotografias com as próprias palavras das mulheres sobre horas, salários e a jornada de trabalho, dando um registro visual a mulheres cujo ofício sustentava a economia do <em>apartheid</em>, mas que era amplamente invisível na iconografia midiática da década. Lawson trabalhou com o Comitê Sul-Africano de Educação Superior (Sached), que era o fundo de educação dos trabalhadores, e <em>Trabalho das mulheres</em> funcionou não apenas como uma ferramenta de ensino para grupos de estudo de trabalhadores, mas também como um registro documental.</p>
<p>Veja a série fotográfica de Santu Mofokeng de 1986, <em>Igreja do Trem</em>. Uma imagem captura um vagão da linha de trem de Soweto-Joanesburgo ao amanhecer: trabalhadores estão de mãos levantadas, no meio da canção, enquanto um homem bate na parede interna do trem como se fosse um tambor. A linha de trem – o mecanismo diário da economia do <em>apartheid </em>que transportava trabalhadores negros para dentro e fora da cidade branca antes do amanhecer e após o escurecer – foi transformada em uma igreja, onde principalmente mulheres de meia-idade vestidas para o trabalho cantavam, pregavam e encontravam consolo. Era “um ritual diário”, como Mofokeng <a href="https://americansuburbx.com/2012/05/santu-mofokeng-photographing-resistance-to-the-menace-and-alienation-of-apartheid-transport-santu-mofokengs-train-churches-1996.html">chamou</a>. Apesar da lógica desumanizadora da economia do <em>apartheid</em>, os trabalhadores negros estavam ativamente construindo a vida cultural e espiritual que o sistema foi projetado para negar. O compromisso de Mofokeng era fotografar “sul-africanos negros comuns levando a vida cotidiana” – sobrevivência e vida coletiva como resistência.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_148094" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-148094" class="wp-image-148094 size-large img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/05_Santu-Mofokeng_Hands-in-Worship-From-Train-Church-1986-1024x671.webp" alt="" width="1024" height="671" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/05_Santu-Mofokeng_Hands-in-Worship-From-Train-Church-1986-1024x671.webp 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/05_Santu-Mofokeng_Hands-in-Worship-From-Train-Church-1986-300x197.webp 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/05_Santu-Mofokeng_Hands-in-Worship-From-Train-Church-1986-768x503.webp 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/05_Santu-Mofokeng_Hands-in-Worship-From-Train-Church-1986-1536x1007.webp 1536w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/05_Santu-Mofokeng_Hands-in-Worship-From-Train-Church-1986.webp 1654w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-148094" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><em>Mãos em adoração, Linha Joanesburgo–Soweto da série Igreja do Trem</em>, 1986. Crédito: Santu Mofokeng.</small></p></div>
</div>
<p>Nenhum desses fotógrafos trabalhou sozinho; todos estavam imersos nessa vida coletiva, e muitos estavam envolvidos na organização política. <a href="https://sahistory.org.za/people/omar-badsha">Omar Badsha</a>, nascido na comunidade indiana de Durban em 1945, foi um sindicalista antes de se tornar fotógrafo, servindo como o primeiro secretário-geral do Sindicato dos Trabalhadores Químicos. Ele comprou sua primeira câmera em 1975 para documentar as condições das fábricas e para ensinar trabalhadores. Em 1981, Badsha ajudou a iniciar a Afrapix, um coletivo de cerca de quarenta mulheres e homens fotógrafos que operava a partir da Casa Khotso do Conselho Sul-Africano de Igrejas em Joanesburgo – invadida e posteriormente bombardeada em 1986 – e mantinha câmaras escuras em Durban e na Cidade do Cabo.</p>
<p>Um fio conectando todo esse trabalho fotográfico e político era a Consciência Negra, um movimento e um conjunto de ideias articulados pela primeira vez por Steve Biko. No <a href="https://consciousness.co.za/the-definition-of-black-consciousness-by-bantu-stephen-biko/">Manifesto de política da organização dos estudantes sul-africanos de 1973</a>, Biko escreveu que o Movimento da Consciência Negra “busca infundir à comunidade negra um novo orgulho em si mesma, em seus esforços, em seus sistemas de valores, em sua cultura, em sua religião e em sua visão de vida”. O “homem negro”, conforme definido por Biko, era uma categoria política, nomeando todos aqueles que o estado do <em>apartheid </em>havia classificado em suas camadas não brancas – os trabalhadores africanos das minas e dos subúrbios, os trabalhadores mestiços das fábricas e docas do Cabo, os descendentes dos trabalhadores indianos e chineses contratados que a Grã-Bretanha enviou para cortar açúcar ou trabalhar nas minas de ouro – e os mantinha como uma maioria definida por sua relação com o capital branco. Por essa razão, Biko enfatizou que “a importância da solidariedade negra para os diversos segmentos da comunidade negra não deve ser subestimada”. A fotografia do movimento <em>anti-apartheid</em> também visava visibilizar toda uma ordem visual e racial colonial e construir a solidariedade para desmantelá-la.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">Apenas uma pequena atrocidade, nas profundezas da cidade</h3>
<p>Cinquenta anos depois, mais de três décadas após o fim legal do <em>apartheid</em>, o sistema racial-capitalista permanece. A fotografia de Hector Pieterson e a comemoração anual de 16 de junho em Soweto continuam inspirando novas gerações de jovens na África do Sul, em todo o continente e em toda a diáspora em suas próprias lutas pelo trabalho inacabado da libertação.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_148102" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-148102" class="wp-image-148102 size-large img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/06_Alf-Kumalo_Youths-in-Diepsloot-Soweto-are-silhouetted-against-the-night-sky-1970s-1024x689.png" alt="" width="1024" height="689" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/06_Alf-Kumalo_Youths-in-Diepsloot-Soweto-are-silhouetted-against-the-night-sky-1970s-1024x689.png 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/06_Alf-Kumalo_Youths-in-Diepsloot-Soweto-are-silhouetted-against-the-night-sky-1970s-300x202.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/06_Alf-Kumalo_Youths-in-Diepsloot-Soweto-are-silhouetted-against-the-night-sky-1970s-768x517.png 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/06_Alf-Kumalo_Youths-in-Diepsloot-Soweto-are-silhouetted-against-the-night-sky-1970s-1536x1034.png 1536w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/06_Alf-Kumalo_Youths-in-Diepsloot-Soweto-are-silhouetted-against-the-night-sky-1970s.png 1682w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-148102" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Jovens em Diepsloot, Joanesburgo, silhuetados contra o céu noturno, anos 1970. Crédito: Alf Kumalo.</small></p></div>
</div>
<p>A luta não é apenas sul-africana. Desde que o genocídio contra os palestinos cometido por Israel e apoiado pelos EUA começou em outubro de 2023, mais de duzentos jornalistas palestinos – entre eles fotógrafos – foram mortos. Entre aqueles que forçaram o mundo a continuar vendo Gaza estão <a href="about:blank">Bisan Owda</a>, cujos vídeos diários nas redes sociais de Gaza alcançaram dezenas de milhões, e Wael Dahdouh, o chefe de escritório da Al Jazeera que continuou a reportar após enterrar seu filho, o cinegrafista Hamza Dahdouh, em janeiro de 2024. Ao lado deles estão incontáveis fotógrafos, jornalistas e pessoas comuns palestinas documentando a destruição de seu próprio mundo à medida que se desenrola. O dossiê do Tricontinental, <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-resistencia-cultural-palestina/"><em>Apesar de tudo: resistência cultural por uma Palestina livre</em></a><u>,</u> traça o arco mais longo dos trabalhadores culturais palestinos ao documentar a resistência desde a Nakba, insistindo que uma luta sem documentação não é uma luta.</p>
<p>Como Miriam Makeba cantou em “<a href="https://www.youtube.com/watch?v=YGbEQ210_J4">Soweto Blues</a>“, o Estado tentou reduzir o massacre a “apenas uma pequena atrocidade, no fundo da cidade”. Cinquenta anos depois, as fotografias, canções, testemunhos e arquivos da luta continuam a recusar essa anulação:</p>
<blockquote><p>As crianças receberam uma carta do mestre<br>
Dizia: sem mais Xhosa, Sotho, sem mais Zulu<br>
Recusando-se a obedecer, enviaram uma resposta<br>
Foi então que os policiais vieram em socorro<br>
Crianças estavam voando, balas, morte<br>
Mães gritando e chorando<br>
Os pais estavam trabalhando nas cidades<br>
O noticiário da noite trouxe toda a publicidade:<br>
Apenas uma pequena atrocidade, nas profundezas da cidade</p></blockquote>
<p>Em solidariedade,</p>
<p>Tings Chak</p>
<p>Diretora de arte do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Uma revolução só pode ser filha da cultura e das ideias</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/boletim-arte-cultura-e-ideias-na-revolucao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Stephanie Sandoval]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 31 May 2026 03:00:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Boletim de Arte]]></category>
		<category><![CDATA[cultural resistance]]></category>
		<category><![CDATA[dignidade humana]]></category>
		<category><![CDATA[Cold War]]></category>
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		<category><![CDATA[Mario Benedetti]]></category>
		<category><![CDATA[arte socialista]]></category>
		<category><![CDATA[José Martí]]></category>
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					<description><![CDATA[Os fotógrafos sul-africanos que lutaram contra o apartheid não se limitaram a registrar a brutalidade. Eles preservaram evidências, construíram uma memória coletiva e transformaram a câmera em uma arma de educação política e solidariedade internacional.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h4 style="text-align:center;">Boletim de Arte Tricontinental nº 27 (maio de 2026)</h4>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-144984 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/AB27_Header-1.jpg" alt="" width="950" height="550" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/AB27_Header-1.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/AB27_Header-1-300x174.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/AB27_Header-1-768x445.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></div>
<div class="rm-b-e-md">

<p class="single-post--content--text-small text-center"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=tPvHCfYDIik">Ouça</a>: “Por qué Cantamos / Canción Nueva” do disco <em>A dos Voces</em>, uma parceria entre Mário Benedetti e Daniel Viglietti.</p>
</div>
<p>Na América Latina, os caminhos das lutas dos povos e o desenvolvimento de sua cultura se entrelaçam constantemente. Desde a colonização espanhola e portuguesa nos séculos XV e XVI, passando pelas lutas de independência e pela Doutrina Monroe (1823), os povos latino-americanos resistem à dominação. José Martí, uma das figuras centrais na luta pela independência, formulou o conceito de <em>Nuestra América</em>,  em texto de mesmo nome, sobre a unidade política e cultural do continente.</p>
<p>Para Martí, a noção de <em>Nuestra América</em> não se restringia a um aspecto geográfico sobre esse vasto território que vai “do Rio Bravo ao estreito de Magalhães”, mas também um projeto baseado nas diversas culturas, histórias e lutas do povos originários dessa região. Essa era a força anti-imperialista da reflexão de Martí: a América Latina só pode se libertar se se conhecer ao valorizar as raízes indígenas, africanas, camponesas e populares que o colonialismo e a intelectualidade europeia desprezaram.</p>
<p>Como o próprio Martí coloca em seu texto, “resolver o problema depois de conhecer os seus elementos é mais fácil que resolvê-lo sem conhecê-los. […] Conhecer é resolver. Conhecer o país e governá-lo conforme o conhecimento é o único modo de livrá-lo da tirania”. A literatura latino-americana ao longo de sua história foi uma das principais maneiras pelas quais foi possível conhecer a diversidade de povos e culturas desse território. Por meio de poemas, romances e canções, os povos do continente representaram suas distintas realidades não como abstrações, mas como experiências vivenciadas.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_144815" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-144815" class="size-full wp-image-144815 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/01_writers-on-the-truck.jpeg" alt="" width="994" height="426" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/01_writers-on-the-truck.jpeg 994w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/01_writers-on-the-truck-300x129.jpeg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/01_writers-on-the-truck-768x329.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 994px) 100vw, 994px"><p id="caption-attachment-144815" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Escritores viajando em caminhão para Minas de Frío, Cuba, s.d. Fonte: <em>Revista Casa de las Americas</em>.</small></p></div>
</div>
<p>A América Latina é marcada por profundas transformações políticas e sociais na segunda metade do século XX. A revolução cubana, em 1959, rompe com a dependência direta dos EUA, inicia a construção do socialismo e soa como um sopro de esperança para os povos em luta nos outros países da região. Esse processo desencadeia mais uma onda ofensiva imperialista em <em>Nuestra América</em> por meio da invasão frustrada à Baía dos Porcos, em Cuba, em 1961; pelo patrocínio e apoio político ao golpe empresarial-militar no Brasil, em 1964; no golpe contra o governo da Unidade Popular e derrubada do presidente Salvador Allende, no Chile, em 1973, além de apoiar outras ditaduras e projetos de contrainsurgência sanguinários na região na década de 1970.</p>
<p>A literatura, neste contexto, continua desempenhando um papel importante de resistência, principalmente pelo fato de ter ocorrido o chamado <em>boom </em>da literatura latino-americana nos anos 1960-1970, quando alguns escritores ganharam fama na Europa. Também assume relevância um debate já antigo sobre a relação entre arte e política, tendo a revolução política e cultural cubana como um dos eixos principais da polêmica.</p>
<p>Ainda em 1959, primeiro ano da revolução, foram criadas várias instituições culturais na ilha, como o Teatro Nacional, o Instituto Cubano de Arte e indústria cinematográfica (Icaic) e a <em>Casa de las Américas</em>, dirigida por Haydée Santamaria, referência incontestável para se pensar cultura, arte e literatura na América Latina. O escritor uruguaio Mário Benedetti (1920-2009) também teve um papel central no aprofundamento do trabalho cultural da <em>Casa de las Américas</em>, ao reforçar o papel da literatura como frente de resistência na América Latina. Seu próprio desenvolvimento literário e intelectual, assim como o de muitos outros escritores latino-americanos da segunda metade do século XX, está diretamente vinculado com a política e as atividades desenvolvidas na <em>Casa de las Américas</em>.</p>
<p>A <em>Revista da Casa</em>, cujo primeiro número foi publicado em 1960, foi responsável por circular e divulgar o pensamento em torno da cultura e da arte latino-americana e caribenha sob uma perspectiva emancipatória, de modo a fortalecer a construção de uma nova sociedade.</p>
<p>No que toca à revolução cubana, é preciso destacar a atenção dada ao tema da cultura. Além das diversas instituições criadas no primeiro ano da revolução, as reflexões de Fidel Castro em seu discurso <em>Palavra aos intelectuais</em>, de 1961, traça as linhas gerais de uma política cultural para a revolução, ao destacar a iniciativa das brigadas Conrado Benitéz, que acabaram com o analfabetismo em Cuba, ou a impressão de milhões de exemplares de livros da literatura clássica para a população da ilha. Vale destacar que o primeiro título impresso e distribuído pela revolução cubana foi o clássico<em> Dom Quixote de la Mancha</em>, de Miguel de Cervantes.</p>
<p>No entanto, a ofensiva imperialista estadunidense contra Cuba também ganha força no âmbito cultural. Ela buscava combater a projeção e o prestígio cada vez maior da <em>Casa de las Américas </em>entre a intelectualidade mundial, que ganhava cada vez mais projeção com sua revista e seu prêmio literário. Para tanto o famigerado Congresso pela Liberdade da Cultura, organização financiada pela CIA e que criou a revista <em>Mundo Nuevo,</em> com vistas a reunir escritores para fazer frente às iniciativas da instituição cubana. Dirigida pelo crítico uruguaio Emir Rodriguéz Monegal, <em>Mundo Nuevo </em>disputou a atenção das principais figuras literárias da época, apresentando-se como uma publicação literária independente, ao mesmo tempo que trabalhava para afastar os escritores do <em>boom </em>latino-americano em torno do projeto cultural da Revolução Cubana, e procurava aproximá-los da órbita do anticomunismo liberal.</p>
<p>À medida que a contradição entre revolução e contrarrevolução avançava na região, escritores e escritoras se posicionaram de diferentes maneiras frente à construção do socialismo, à guerra cultural estadunidense, à Guerra Fria e à tentativa de conter e abafar as experiências revolucionárias. Escritores de projeção mundial da época, como Júlio Cortázar, Mário Vargas Llosa, Gabriel García Márquez, Carlos Fuentes, se posicionaram, cada qual a sua maneira, diante desse debate fundamental que expressava a estreita relação entre literatura, arte e política.</p>
<p>Nesse sentido, é importante recuperar uma formulação de Mário Benedetti sobre o papel do escritor na luta de classes durante uma entrevista para a revista <em>Cuba,</em> em 1968, logo após o Congresso Cultural de Havana:</p>
<blockquote><p>Se o dever de todo revolucionário é fazer a revolução, o dever de todo escritor, como tal, é fazer literatura […] a literatura, entre outras funções, cumpre a de ampliar os horizontes do homem. Na medida em que o povo pode captar os significados, últimos ou intermediários, de uma grande literatura de ficção, ele estará mais próximo de nossa luta, e ainda mais se for capaz de analisar a alienação que o inimigo lhe impõe. Por isso, não vemos motivo para colocar a obrigação de que o escritor militante se reduza genérica ou tematicamente a uma linha muito estreita.</p></blockquote>
<p>O potencial da literatura vai além da posição política pessoal do escritor, ainda que num contexto de ofensiva imperialista esta seja fundamental para o fortalecimento ou enfraquecimento de um processo político. O ponto central de Benedetti era o de que a força revolucionária da literatura não pode ser reduzida a um tema, gênero ou palavra de ordem determinados. A literatura pode ampliar os horizontes dos povos, aguçar sua capacidade de reconhecer a alienação e levá-los à luta justamente pela sua potencialidade formal que toca a sensibilidade humana.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">Cultura não é luxo, é um direito</h3>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-144831 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/03_Mario-Benedetti_950x950.jpg" alt="" width="950" height="950" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/03_Mario-Benedetti_950x950.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/03_Mario-Benedetti_950x950-300x300.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/03_Mario-Benedetti_950x950-150x150.jpg 150w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/03_Mario-Benedetti_950x950-768x768.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></div>
<p>Mario Benedetti foi um dos mais importantes escritores latino-americanos do século XX, por sua literatura engajada e sensível, que retratou as complexidades sociais e afetivas de seu país. Sua obra abrange poesia, romance, conto e ensaio, sempre marcada por uma linguagem direta e profundamente humana.</p>
<p>Além da sua importância na literatura, ele teve uma atuação fundamental no cenário político cultural de esquerda na América Latina. Na <em>Casa de las </em><em>Américas</em>, atuou primeiro como jurado do prêmio literário da instituição, e depois como fundador e diretor do Centro de Investigaciones Literárias (CIL). Nesse sentido, Benedetti contribuiu para se pensar uma cultura literária latino-americana – que valorizava o desenvolvimento literário europeu ao mesmo tempo que enfatizava a importância política, estética e cultural das produções literárias de <em>Nuestra </em><em>América</em>. Entre outros aspectos, vale destacar suas reflexões sobre o papel do intelectual e dos trabalhadores da cultura no processo revolucionário.</p>
<p>Em 1968, Benedetti fez uma exposição no Congresso Cultural de Havana sobre as contradições entre as pessoas da ação e as do intelecto. Em um contexto no qual a luta armada era uma das principais formas de ação política, os intelectuais e artistas eram instados a participar na linha de frente da batalha. O escritor uruguaio delineia alguns traços da atividade intelectual importantes para o desenvolvimento revolucionário. Segundo ele, “o intelectual, por sua vez, é quase por definição alguém inconformado, um crítico de seu meio social, uma testemunha de memória implacável”.</p>
<p>Além disso, ele também destaca o papel da cultura e dos trabalhadores da cultura como um direito e não um luxo: “[…] o artista que defende seu direito de sonhar, de criar beleza, de criar fantasia, com a mesma obstinação, a mesma convicção com que defende seu direito de comer, de ter um teto, de cuidar de sua saúde, esse artista será o único capaz de demonstrar que seu ofício não é um luxo, mas uma necessidade, não só para si mesmo, mas também para seu semelhante”.</p>
<p>Para Benedetti, a cultura revolucionária não pode ser tratada como algo secundário na luta política. Arte e literatura são expressões que possibilitaram aos povos compreender suas condições de vida e defender sua dignidade e luta por uma nova sociedade.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_144823" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-144823" class="size-full wp-image-144823 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/02_mario_benedetti_jurado_premio_casa_americas_haydee_santamaria_alejo_carpentir_1978_s.jpg" alt="" width="300" height="445" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/02_mario_benedetti_jurado_premio_casa_americas_haydee_santamaria_alejo_carpentir_1978_s.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/02_mario_benedetti_jurado_premio_casa_americas_haydee_santamaria_alejo_carpentir_1978_s-202x300.jpg 202w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px"><p id="caption-attachment-144823" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Benedetti no júri do Prémio Casa de las Américas com Haydée Santamaría e Alejo Carpentier, 1978. Fonte: <em>Fundación Mario Benedetti</em>.</small></p></div>
</div>
<p>A poesia é responsável pela maior parte de sua obra e dentro dela transitou entre as várias formas poéticas. No fim da vida, por exemplo, ele se dedicou aos <em>haikais, </em>uma estrutura poética de origem japonesa composta por apenas três versos. Sua poesia, assim como toda sua escrita, é marcada pelo cotidiano e, principalmente, pela abertura ao outro, como podemos ver nesse haikai:</p>
<blockquote><p>la más cercana<br>
de todas las fronteras<br>
es con mi prójimo</p></blockquote>
<p>A prosa também é fundamental em sua contribuição literária. Com mais de nove volumes de contos publicados e três romances, Benedetti trata de temas como a memória, a ditadura uruguaia, o amor e a vida cotidiana. Entre os seus livros de contos, vale mencionar <em>Geografias</em>, <em>Correio do tempo</em> e <em>Montevideanos</em>. Entre suas obras mais impactantes está <em>Primavera num Espelho Partido</em> (1982).</p>
<p>A vida e a obra de Benedetti são expressões de uma vivência militante no campo da cultura e da arte – aspectos fundamentais da construção revolucionária. Seus poemas e sua prosa são sutis e profundas, trazendo à tona as contraditórias relações cotidianas e afetivas que vivemos e que são perpassadas pelos dilemas políticos para a construção de um novo ser humano em uma nova sociedade.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">Por que cantamos?</h3>
<p>A dinâmica da luta de classes no século XXI segue acirrada; o império em decadência, segue realizando uma ofensiva cada vez mais feroz sobre os territórios e povos do Sul Global; estes, por sua vez, continuam resistindo, como nos casos da Palestina, Venezuela e Cuba. A batalha de ideias e de sentimentos, na formulação de Fidel Castro, assume cada vez mais uma centralidade em nossa época.</p>
<p>O legado de Mário Benedetti como escritor e como ser de ação é fundamental para pensarmos como um intelectual pode e deve agir não apenas como um trabalhador da cultura, mas também como um organizador e militante de um projeto revolucionário. A <em>Casa de las Américas</em> segue sendo uma das mais importantes instituições culturais em <em>Nuestra América</em> para divulgar e fomentar a produção artística enraizada nas experiências de nossos povos. Ao mesmo tempo, mantém viva a convicção de que a cultura não apenas faz parte da luta política, mas é uma das suas formas mais necessárias.</p>
<p>Neste momento em que a ofensiva estadunidense tenta sufocar Cuba, é mais que fundamental a solidariedade das diferentes organizações populares para manter acesa a chama da revolução e para que as gerações atuais e futuras continuem lutando e respondam como o poema de Benedetti <em>Por que cantamos?</em></p>
<p>[…] Cantamos porque chove sobre o sulco<br>
e somos militantes desta vida<br>
e porque não podemos nem queremos<br>
deixar que a canção se torne cinzas.</p>
<p>Atenciosamente,</p>
<p>Miguel Yoshida</p>
<p>Membro do Departamento de Arte e Cultura e do escritório <em>Nuestra América</em> do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social e editor da Expressão Popular.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Não se pode engolir uma agulha, por menor que seja: o escultor da resistência de Okinawa</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/boletim-arte-escultor-resistencia-okinawa/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Amilcar]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 26 Apr 2026 03:00:45 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Boletim de Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Japan]]></category>
		<category><![CDATA[imperialismo estadunidense]]></category>
		<category><![CDATA[war]]></category>
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		<category><![CDATA[Imperialism]]></category>
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		<guid isPermaLink="false">https://thetricontinental.org/?p=142573</guid>

					<description><![CDATA[Enquanto as ofensivas imperialistas instrumentalizam a cultura para neutralizar a resistência, uma verdade radical permanece: a arte, a literatura e a imaginação nunca estão separadas da luta política, mas são uma forma necessária de resistência coletiva na construção de uma nova sociedade.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h4 style="text-align:center;">Boletim de Arte n. 26 (abril 2026)</h4>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-142359 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/AB26_Header.jpg" alt="" width="950" height="550" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/AB26_Header.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/AB26_Header-300x174.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/AB26_Header-768x445.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></div>
<div class="rm-b-e-md">

<p class="single-post--content--text-small text-center"><a href="https://www.instagram.com/reel/DJx5FJMzsns/?igsh=MW02emh0MGpqN2J4cA%3D%3D">Ouça</a> o rapper de Okinawa <a href="https://www.instagram.com/kakumakushaka/">Kakumakushaka</a>, a cantora de jazz de Okinawa <a href="https://www.instagram.com/takakogibonnu/">Takako Gibo</a> e o rapper japonês <a href="https://www.instagram.com/kinokobeats0520">Kinoko Beats</a> cantando sobre guerra e paz, de Okinawa à Palestina, em japonês, inglês e uchinaguchi (idioma indígena da região de Luchuan).</p>
</div>
<table class="single-post--content--poem-translation">
<tbody>
<tr>
<td><em>Ikusa yu nu Nuwati<br>
</em><em>Miruku yu nu<br>
</em><em>Iyarichun</em> <em>Nakuna yuu kuninga<br>
</em><em>Nuchi du Takara</em></td>
<td>Depois que a guerra acabar<br>
Quando chegar o mundo de <em>Miruku</em> (paz)<br>
Não repita essa dorA vida é um tesouro</td>
</tr>
<tr style="border: none;">
<td style="padding-top: 1em !important;" colspan="2"><small>– <em>Ryūka</em> de Okinawa, um poema lírico tradicional, atribuído ao rei Shō Tai (尚泰), o último do Reino de Ryukyu.</small></td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>No caminho arborizado que leva à Caverna de Chibichiri, no sul de Okinawa, pequenas estatuetas de pedra se erguem entre as raízes das figueiras-de-bengala. Na altura dos quadris e isoladas, com as cabeças ligeiramente inclinadas e as mãos postas em oração. O musgo e os líquens começaram a tomar conta delas, como se a floresta as estivesse absorvendo lentamente. Ao sair da caverna, percebi as figuras com mais clareza do que quando entrei. Pareciam estar ali como testemunhas silenciosas ou guardiãs, colocadas ali para recordar os mortos e alertar os vivos. Mas sobre o que elas nos alertam?</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_142282" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-142282" class="size-large wp-image-142282 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/01-768x1024.jpeg" alt="" width="768" height="1024" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/01-768x1024.jpeg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/01-225x300.jpeg 225w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/01.jpeg 810w" sizes="auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px"><p id="caption-attachment-142282" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Esculturas de Kinjo Minoru na Caverna Chibichiri.</small></p></div>
</div>
<p>Em 2 de abril de 1945, um dia após o desembarque das forças estadunidenses em Okinawa, cerca de 140 civis — em sua maioria idosos, mulheres e crianças — se refugiaram nesta caverna. Mais de oitenta deles foram levados ao suicídio depois que o Exército Imperial Japonês lhes disse que os soldados estadunidenses que se aproximavam eram “demônios vermelhos” que violariam e torturariam qualquer pessoa que capturassem. Como súditos do Imperador Hirohito, a rendição não era uma opção — a morte era preferível à vergonha de serem capturados vivos. Numa caverna vizinha, no entanto, todos sobreviveram, pois duas pessoas que tinham morado no Havaí e conseguiam se comunicar com os soldados estadunidenses lá se esconderam. Foi a supressão da verdade e a divulgação de mentiras por parte do exército japonês que tiraram a vida das pessoas na Caverna de Chibichiri. Durante as três décadas seguintes, nenhum dos sobreviventes falou dessa tragédia, que assombra a comunidade até hoje.</p>
<p>Ao caminhar das cavernas até a vila vizinha de Yomitan, fui recebida por uma estátua imponente que se erguia acima da tranquila rua da vila — uma mulher com o braço direito estendido em direção ao céu e a cabeça erguida, como se resistisse à violência que se abatia sobre ela. Com o braço esquerdo, ela segura quatro crianças pequenas bem junto ao corpo. Aos seus pés, encontrei as mesmas figuras de pedra solitárias, erguidas entre o cascalho e as ervas daninhas como se formassem uma procissão. Eles nos conduziram por um caminho até um pátio, onde nos deparamos com grandes esculturas em relevo e um senhor de barba branca sentado em uma cadeira de jardim de plástico.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">Somos ryukyuanos, nunca japoneses</h3>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_142293" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-142293" class="wp-image-142293 size-large img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/02-1024x678.jpg" alt="" width="1024" height="678" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/02-1024x678.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/02-300x199.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/02-768x509.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/02-1536x1017.jpg 1536w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/02-2048x1357.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-142293" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Entrada da oficina de Kinjo Minoru.</small></p></div>
</div>
<p>Kinjo Minoru (金城実) tem 86 anos. Nascido em 1939 na pequena ilha de Hamahiga, Kinjo perdeu o pai em 1944, durante a Segunda Guerra Mundial — ou a <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/estudos-em-dilemas-contemporaneos-5-guerra-antifascista/">Guerra Mundial Antifascista</a> —, antes mesmo de ter tido a oportunidade de conhecê-lo. Kinjo passou décadas construindo uma obra monumental de escultura que narra as histórias marcantes de Okinawa antes, durante e depois da Batalha de Okinawa de 1945, uma das campanhas mais sangrentas da Guerra do Pacífico. As obras são feitas de concreto, gesso e armação metálica — os mesmos materiais de construção usados diariamente em Henoko para construir mais uma base militar dos EUA. Kinjo as utiliza para recuperar aquilo que aquelas bases foram construídas para fazer as pessoas esquecerem. As superfícies de suas obras são ásperas, porosas e inacabadas, não porque falte refinamento ao artista, mas porque a história que suas obras carregam ainda é, ela própria, inacabada, crua e contestada.</p>
<p>Na galeria ao ar livre da oficina de Kinjo, você encontra painéis em relevo com cerca de um andar de altura. Figuras quase em tamanho real de civis, soldados, mães e crianças emergem da parede em alto-relevo, inclinando-se em sua direção como se quisessem contar sua história. São uma metáfora concreta do que Kinjo entende como a condição de seu povo: imersos numa história que não escolheram, lutando contra ela, mas ainda não libertos dela.</p>
<p>O próprio Kinjo nos conduz pelos quadros, apontando com sua bengala de madeira e narrando cada cena.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_142304" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-142304" class="size-large wp-image-142304 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/03-1024x768.jpg" alt="" width="1024" height="768" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/03-1024x768.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/03-300x225.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/03-768x576.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/03-1536x1152.jpg 1536w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/03-2048x1536.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-142304" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Kinjo Minoru com sua arte gravada na Caverna de Chibichiri.</small></p></div>
</div>
<p>“Por que uma mãe mataria a própria filha?” Kinjo pergunta, diante de um painel no qual os corpos de mulheres e crianças estão tão entrelaçados que é impossível distinguir quem está protegendo quem, e quem está matando quem. Ele continua: “Por que um irmão mataria o próprio irmão mais novo?” Você deveria fazer essa pergunta. “Por que isso aconteceu apenas aqui em Okinawa, e não no Japão continental?”.</p>
<p>A resposta dele vai direto à raiz colonial. Por mais de quinhentos anos, o Reino de Ryukyu governou essas ilhas como um Estado independente, com suas próprias línguas, culturas, religiões e relações diplomáticas — mantendo relações comerciais com o Leste e o Sudeste Asiático, além de laços tributários com a China e desenvolvendo uma civilização distinta da japonesa. Em 1879, o governo Meiji anexou o reino à força, depôs seu último rei, Shō Tai, e transformou as ilhas na Província de Okinawa, o território mais meridional, mais pobre e mais dispensável de um império em rápida industrialização. O que se seguiu foi uma repressão cultural sistemática destinada a apagar a identidade ryukyuan e formar súditos imperiais leais.</p>
<p>O governo Meiji nomeou um novo governador, Matsuda Michiyuki, e trouxe educadores do Japão continental para transformar as escolas de Okinawa em instrumentos de assimilação imperial. No entanto, o governo Meiji se recusou a criar universidades em Okinawa, apesar de assim ter feito em todos outros distritos. “Por quê?”, Kinjo pergunta. “Para nos controlar”. Os suicídios em massa em Chibichiri não foram exceções — foram o resultado lógico de um sistema educacional colonial que passou décadas ensinando os habitantes de Okinawa a morrer por um imperador que nunca os tratou como iguais. “Somos de Ryukyu”, diz-me Kinjo com ar desafiador. “Eu nunca serei japonês”.</p>
<p>Apesar dessa história angustiante, alguns políticos japoneses afirmam hoje que não houve coerção militar por trás dos suicídios em massa em Okinawa, enquanto outros negam as atrocidades cometidas pelo Japão durante a guerra, incluindo o Massacre de Nanjing, que ceifou a vida de 300 mil chineses em poucas semanas. As esculturas de Kinjo são uma lembrança e uma contestação concreta: uma história difícil e pesada que se recusa a ser suavizada.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">Uma ilha que não pode ser engolida</h3>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_142315" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-142315" class="size-large wp-image-142315 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/04-1024x768.jpg" alt="" width="1024" height="768" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/04-1024x768.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/04-300x225.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/04-768x576.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/04-1536x1152.jpg 1536w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/04-2048x1536.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-142315" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Detalhe da obra de Kinjo Minoru.</small></p></div>
</div>
<p>Hoje, Okinawa representa apenas 0,6% da área territorial do Japão, mas abriga cerca de 70% de todas as instalações militares dos EUA no país. Ao ver o distrito com os próprios olhos, percebe-se rapidamente que não se trata de bases isoladas; trata-se de uma ocupação militar permanente da vida cotidiana. Cercas isolam o litoral, caças rasgam o ar e comunidades inteiras ficam cercadas por infraestruturas construídas para a guerra.</p>
<p>A mesma ilha, que serviu de campo de batalha em 1945, está sendo preparada para voltar a estar na linha de frente, com a China sendo retratada como o “demônio” de uma Nova Guerra Fria. Há novas implantações de mísseis, planos de evacuação estão sendo elaborados, exercícios militares conjuntos entre os EUA e o Japão estão em andamento e uma nova base militar estadunidense está sendo construída na vila de Henoko, em Okinawa. Tudo isso apesar de três décadas de oposição majoritária por parte dos habitantes de Okinawa, expressa por meio de referendos e protestos diários liderados pelos anciãos das comunidades afetadas e organizados em movimentos de base, incluindo o “No More Battle of Okinawa” [Basta de Batalha de Okinawa], que recebeu a visita do Instituto Tricontinental.</p>
<p>Apesar dos corajosos atos de resistência, Kinjo observa essa ocupação com a impaciência de quem já teve paciência demais. “Os habitantes de Okinawa são muito calados, muito gentis”, ele me disse durante nossa visita. “Eles deveriam ficar mais irritados”. “Se [os exércitos dos EUA e do Japão] querem usar Okinawa, deveriam nos tratar como seres humanos”. Mas ele não se desespera. “Enquanto eu estiver vivo, pode ser difícil, mas a próxima geração — tenho certeza de que eles vão se levantar e resistir”.</p>
<p>“Okinawa é pequena”, disse Kinjo. “Mas não dá para engolir uma agulha”.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">Das cavernas de Okinawa aos bunkers de Chongqing</h3>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_142326" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-142326" class="size-large wp-image-142326 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/05-768x1024.jpg" alt="" width="768" height="1024" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/05-768x1024.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/05-225x300.jpg 225w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/05-1152x1536.jpg 1152w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/05-1536x2048.jpg 1536w" sizes="auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px"><p id="caption-attachment-142326" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Obra de arte de Kinjo Minoru retratando o bombardeio de Chongqing.</small></p></div>
</div>
<p>Um painel na oficina de Kinjo merece atenção especial: foi criado em colaboração com artistas de Chongqing, na China, que viajaram até Okinawa para trabalhar ao lado dele. Durante a Guerra Mundial Antifascista, as forças armadas japonesas submeteram Chongqing a anos de bombardeios estratégicos, especialmente entre 1938 e 1943, matando milhares de pessoas e levando a população a se refugiar em cavernas e bunkers escavados nas encostas da cidade. Dois povos que estiveram em lados opostos da mesma guerra imperial, ambos abrigados em cavernas, criam arte juntos oito décadas depois.</p>
<p>A ressonância se intensifica quando Kinjo conta uma história notável que une as histórias de resistência de ambos os povos. Em outubro de 1962, no auge da Crise de Outubro de 1962 (conhecida no Ocidente como a Crise dos Mísseis de Cuba), as tripulações da Força Aérea dos EUA em Okinawa receberam ordens para lançar 32 mísseis de cruzeiro Mace B com ogivas nucleares contra alvos em toda a Ásia, incluindo Pequim, onde moro. Os oficiais de lançamento em terra questionaram a ordem e se recusaram a prosseguir. O fato de os artistas de Chongqing e o escultor de Okinawa estarem agora construindo algo juntos — mãos moldando o mesmo concreto, esculpindo a mesma história a partir de dois lados — não é meramente simbólico. É uma recusa viva à guerra que quase os destruiu a ambos e à <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-76-nova-guerra-fria-nordeste-asia/">Nova Guerra Fria</a> que ameaça fazê-lo novamente.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">Não chore — Estude sua própria história</h3>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_142337" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-142337" class="size-large wp-image-142337 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/06-768x1024.jpg" alt="" width="768" height="1024" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/06-768x1024.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/06-225x300.jpg 225w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/06-1152x1536.jpg 1152w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/06-1536x2048.jpg 1536w" sizes="auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px"><p id="caption-attachment-142337" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Obra de arte de Kinjo Minoru sobre a Batalha de Okinawa.</small></p></div>
</div>
<p>Os pais de Kinjo se casaram aos 18 anos. Depois que seu pai foi morto na guerra, sua mãe nunca mais se casou. Ela chorava todos os anos no dia 23 de junho, Dia da Memória de Okinawa. Certa vez, Kinjo disse a ela: “Não chore. Não estou triste pela morte do meu pai. Era uma época assim. Todos sofreram. Um em cada quatro morreu na guerra de Okinawa. Hoje não é dia para chorar. É um dia para refletir sobre a sua própria história: História de Okinawa”.</p>
<p>Foi isso que Kinjo Minoru fez com a sua vida. Transformando o luto e a raiva em escultura — imprimindo as formas dos mortos no concreto para que os vivos não possam fingir que eles nunca existiram. O seu ateliê não é uma galeria burguesa. As esculturas ficam ao ar livre, sofrendo as intempéries tal como a própria ilha, e são visitadas por estudantes, visitantes internacionais e velhos amigos que vêm ver seu trabalho e ouvir suas histórias.</p>
<p>Mas a questão já não se resume apenas a 1945. Kinjo percebe claramente o que está acontecendo agora. Ele observa que 70% dos jovens de Okinawa não sabem o que o Japão fez na Ásia durante a guerra — na China, na Coreia e no Sudeste Asiático. “Talvez eles não apoiassem o primeiro-ministro”, diz ele, “e a mídia fala da China como uma ameaça”. O mesmo mecanismo que outrora levou as mães de Okinawa a matarem seus próprios filhos — a educação militarizada, o medo induzido e a supressão do conhecimento histórico — está sendo reativado hoje em torno da “ameaça” chinesa. Okinawa, mais uma vez, está sendo preparada para servir de zona de sacrifício. Mas os habitantes de Okinawa, como Kinjo, continuam a se lembrar — e a resistir.</p>
<table class="single-post--content--poem-translation">
<tbody>
<tr>
<td><em>Tinsagu nu hana ya, chimasaki ni sumiti<br>
</em><em>Uya nu yushi gutu ya, chimu ni sumiri</em></td>
<td>A flor de bálsamo tinge as pontas dos dedos<br>
Os ensinamentos dos pais moldam o coração</td>
</tr>
<tr style="border: none;">
<td style="padding-top: 1em !important;" colspan="2"><small>– <em>Tinsagu nu Hana</em> (てぃんさぐぬ花, Flores de bálsamo), canção folclórica de Okinawa.</small></td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>Cordialmente,</p>
<p>Tings Chak</p>
<p>Diretora de arte do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social</p>
<p>PS: Junte-se a nós no dia 30 de abril, no 51º aniversário do Dia da Libertação do Vietnã, para um <a href="https://us06web.zoom.us/meeting/register/TDg4wTKiRSOnOr9FnCfphA#/registration">webinário</a> para lançar “Hands Off Asia! [Tire as mãos da Ásia!]”, a campanha da Assembleia Internacional dos Povos contra o militarismo dos EUA na região.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Contando nossas histórias: quadrinhos argentinos e feminismo para desmistificar crenças populares</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/boletim-arte-argentina-feminismo-quadrinhos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ricardo Vaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 29 Mar 2026 03:00:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Boletim de Arte]]></category>
		<category><![CDATA[8 de março]]></category>
		<category><![CDATA[cultura popular]]></category>
		<category><![CDATA[quadrinhos]]></category>
		<category><![CDATA[Feminismo]]></category>
		<category><![CDATA[violência contra a mulher]]></category>
		<category><![CDATA[Argentina]]></category>
		<category><![CDATA[extrema direita]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://thetricontinental.org/?p=138566</guid>

					<description><![CDATA[O escultor Kinjo Minoru homenageia as vidas dos okinawanos levados ao suicídio coletivo pelo Exército Imperial Japonês na Caverna Chibichiri, em abril de 1945, durante a Guerra Mundial Antifascista.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h4 style="text-align:center;">Boletim de Arte n. 25 (março 2026)</h4>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-138532 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/AB25_Header.jpg" alt="" width="950" height="550" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/AB25_Header.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/AB25_Header-300x174.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/AB25_Header-768x445.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></div>

<p class="single-post--content--text-small" style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=rQuh983HgK8">Escute</a> “Vivas y Furiosas”, uma cumbia de Sudor Marika com Tita Print. Com um ritmo que poderia ser escutado em qualquer rua dos bairros populares na Argentina, surgem nesta canção versos de resistência feminista.</p>
<p>Na Argentina, por exemplo, o dia 8 de março — Dia Internacional da Mulher — coloca os pés em marcha, tingindo as ruas de violeta feminista e internacionalista. Mais adiante, no dia 24 — Dia da Memória por Verdade e Justiça — o mês é encerrado com uma mobilização massiva de organizações, partidos políticos, estudantes e famílias com crianças, dando continuidade à construção do “<a href="https://elgritodelsur.com.ar/2024/03/nunca-mas-miseria-planificada-se-viene-marcha-historica-48-anos-golpe-genocida/">Nunca Mais</a>”, expressão que une a luta constante para esclarecer os inúmeros crimes da ditadura cívico-militar apoiada pelos EUA (1976-1983). Um <i>Nunca Mais</i> passou a ser <a href="https://argmedios.com.ar/siniestra-provocacion-el-gobierno-publicara-un-video-negacionista-el-24-de-marzo/">mais necessário do que nunca</a>, especialmente sob o governo de extrema direita e negacionista de Javier Milei. Março mobiliza todas as frentes neste país sul-americano e, no campo cultural, renova a força de coletivos como o Feminismo Gráfico, um projeto cultural nascido na Argentina que busca difundir as histórias em quadrinhos a partir de uma perspectiva transfeminista.</p>
<p>A circulação da cultura e da arte é repleta de mitos, obstáculos e maravilhas ocultas e ocultadas. O 8 de março oferece uma oportunidade para dar visibilidade a discussões e práticas realizadas por diversos espaços culturais militantes. A partir da perspectiva específica dos quadrinhos, o arquivo digital “<a href="https://feminismografico.com/?page_id=86">Nosotras Contamos</a>” (Nós Contamos) busca contribuir para isso. Trata-se de um arquivo vivo, onde o Feminismo Gráfico visa compilar, divulgar e recuperar os nomes de autoras, pessoas trans e não binárias da Argentina, do início do século XX até os dias atuais. Em homenagem ao dia 8 de março, iniciamos uma nova atualização neste mês, adicionando autoras contemporâneas e dando continuidade à busca por colegas do passado. Estamos resgatando uma genealogia feminista dos quadrinhos argentinos, uma história brilhante de luta e criação que muitas vezes permanece invisível.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_138500" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-138500" class="size-large wp-image-138500 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/01_Nosotras-Contamos-724x1024.jpg" alt="" width="724" height="1024" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/01_Nosotras-Contamos-724x1024.jpg 724w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/01_Nosotras-Contamos-212x300.jpg 212w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/01_Nosotras-Contamos-768x1086.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/01_Nosotras-Contamos.jpg 1080w" sizes="auto, (max-width: 724px) 100vw, 724px"><p id="caption-attachment-138500" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Jules Mamone (Argentina). Capa do catálogo original de Nosotras contamos, 2019.</small></p></div>
</div>
<h3 style="margin:2em 0;">Um mar de ilustrações e papel barato</h3>
<p>Vamos situar esse campo da produção cultural: quadrinhos, humor gráfico, <i>comics</i>. Certamente você já leu algumas. Os quadrinhos são uma linguagem artística apreciada pelo povo e historicamente vista com desdém pelas formas de arte “eruditas”. Podemos supor que esse caráter popular dos quadrinhos e do humor gráfico vem de suas origens nos periódicos baratos e de grande circulação. Desde o início, se preocuparam com o humor, a sátira, narrar futuros possíveis por meio de imagens ou a representação de monstros em uma variedade de metáforas. Também possuem o enorme poder de contar histórias para aqueles que estão aprendendo a ler. Mais de uma vez na história das lutas populares, os quadrinhos disseminaram declarações de resistência em painéis, na forma de ficção, crônicas jornalísticas ou experimentações poéticas.</p>
<p>Na Argentina, um grande número de histórias em quadrinhos tem sido produzida desde o seu início, sem interrupção, embora com algumas mudanças. Conseguimos manter revistas populares que competiam destemidamente com as que vinham do norte. Algumas delas foram alvo de perseguição e censura, especialmente durante a última ditadura cívil-militar. Héctor G. Oesterheld, roteirista de <i>El Eternauta</i>, entre outros, pertence a esse período. Ele foi escritor, editor e militante de Montoneros — uma organização guerrilheira peronista de esquerda ativa principalmente na década de 1970 — que desapareceu durante essa mesma ditadura, no âmbito da <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-68-golpe-contra-terceiro-mundo-chile-1973/">Operação Condor</a>.</p>
<p>Este mês se comemora o 50º aniversário, na Argentina, do <a href="https://www.instagram.com/reel/DWRG15oFVfk/">golpe</a> que buscou eliminar muito mais do que nossas narrativas. As mudanças provocadas pela violenta imposição do neoliberalismo neste país impactaram a dinâmica da produção nacional de quadrinhos. Mesmo assim, nunca paramos de desenhar. Se não em revistas, então em fanzines, ou livros de cooperativas editoriais, ou <a href="https://www.eldestapeweb.com/webcomicmutante?utm_medium=paid&amp;utm_source=Google&amp;utm_campaign=DSA_Dinamico7&amp;gad_source=1&amp;gad_campaignid=20281113524&amp;gbraid=0AAAAADiqCGQSiW8yiEIU3gzJKq1GfBNzu&amp;gclid=CjwKCAiAkvDMBhBMEiwAnUA9BZF4noa_4cfW7OjLrVexpr6liv2FBkN7rwysO8O19r7p8vzmo5By-BoCRzYQAvD_BwE">webcomics</a>… E em todos esses momentos, as autoras estavam lá.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_138508" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-138508" class="size-large wp-image-138508 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/02_Blanca-Cotta-1024x724.jpg" alt="" width="1024" height="724" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/02_Blanca-Cotta-1024x724.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/02_Blanca-Cotta-300x212.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/02_Blanca-Cotta-768x543.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/02_Blanca-Cotta.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-138508" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Assinando como “Cerebella” ou “Cotta”, a popular cozinheira argentina Blanca Cotta assinava seu humor gráfico na revista satírica <em>Tía Vicenta</em>. Essas duas tirinhas foram publicadas em 1957.</small></p></div>
</div>
<h3 style="margin:2em 0;">O mito da ausência</h3>
<p>Uma das ferramentas do poder é a invisibilidade. Se algo não é nomeado, eventualmente deixa de existir; não conseguimos construir porque estamos sempre começando do zero. Um brilho eterno de lutas sem memória, narrativas suprimidas de modo que construir resistência parece erguer muros na areia.</p>
<p>Em relação ao “lugar das mulheres e pessoas não binárias nos quadrinhos”, surgem questões batidas e mitos persistentes. O mito da ausência é o primeiro a ser desfeito: porque sempre existiram mulheres artistas de quadrinhos. Na Argentina, quando se discute artistas mulheres de quadrinhos e humor gráfico, geralmente se mencionam duas ou três, quando existem <a href="https://feminismografico.com/?page_id=86">mais de cem</a>, e o Arquivo Digital de Artistas Mulheres de Quadrinhos e Humor Gráfico “Nosotras Contamos” [Nós contamos] abrange quase cem anos.</p>
<p>Este arquivo foi criado por <a href="https://www.tebeosfera.com/autores/acevedo_mariela_alejandra.html">Mariela Acevedo</a>, militante feminista, pesquisadora, editora e roteirista de histórias em quadrinhos. Baseando-se em sua experiência como ativista, ela coletivizou uma furiosa curiosidade para encontrar aquelas que não eram mencionadas. Buscou contribuir para a mística do “somos muitas”, empregando a genealogia feminista como metodologia de pesquisa, com a convicção contagiante da importância de responder com informação, sagacidade e militância às afirmações banais que constroem o senso comum do machismo. O <a href="https://feminismografico.com/?page_id=7#equipo">grupo</a> que se constituiu a partir desse espírito contagiante continua o projeto até hoje.</p>
<p>Ao consultar colecionadores, entrevistar autoras e pesquisar em bibliotecas, descobrimos que devemos considerar uma certa margem de dúvida quando alguém afirma categoricamente: “Ela foi a primeira a…”. Constatamos que, sob pseudônimos ambíguos, havia mulheres que eram confundidas com homens. Ao observarmos assinaturas em algumas histórias em quadrinhos e vermos um “G.” antes de “Dester”, talvez imaginemos um “Gonzalo” ou um “Gilberto”, nunca uma “Gisela”. Mas <a href="https://feminismografico.com/?autora=gisela-dester">Gisela</a>, entre outras coisas, desenhava e assinava páginas para <i>Ticonderoga</i>, com roteiro daquele colega desaparecido que mencionamos anteriormente. Descobrimos também que, por trás do trabalho dos criadores homens, estavam as mulheres de suas famílias, que cuidavam de tudo, da manutenção da casa e dos cuidados, ou até mesmo os possíveis vestígios anônimos de irmãs ou esposas que ajudavam a finalizar as páginas para cumprir os prazos.</p>
<p>Parece básico encontrá-las e nomeá-las, mas nesses encontros emerge uma genealogia, revelando a certeza de que o sistema patriarcal permeia todos os aspectos da vida. Para aqueles que estão trilhando seu caminho na área hoje, é importante saber que <a href="https://feminismografico.com/?autora=martha-barnes">Martha Barnes</a> trabalhou ao lado de homens na Editora Columba na década de 1970 (uma das editoras de quadrinhos mais importantes da Argentina), mas sempre recebeu menos e foi relegada a escrever histórias em quadrinhos românticas quando o que queria era trabalhar com terror. Conhecer nossa história e construir uma memória coletiva é fundamental.</p>
<p>Para o feminismo popular, isso não é novidade: o trabalho de cuidado não é visto como trabalho, os trabalhos feminizados são invisibilizados e os papéis ativos na história de campos dominados por homens são ocultados. Mas, ao sairmos dos espaços feministas, descobrimos que as percepções podem permanecer distorcidas. Essa distorção se aprofunda quando está ligada à esfera cultural, na qual é necessário continuar afirmando que aqueles que produzem arte são, de fato, parte da classe trabalhadora.</p>
<p>Também não é segredo que, ao longo dos anos, mulheres e pessoas não binárias têm conquistado seu espaço na mídia, figurativa ou literalmente. Seja <a href="https://elgritodelsur.com.ar/2020/03/vamos-las-pibas-historietas/">criando novos espaços</a> ou ocupando e transformando os já existentes, a presença de autoras nos quadrinhos é inegável hoje em dia. “Okupas”, costumamos dizer entre nós, em parte com humor, em parte de forma provocativa. E quando essa <i>okupación</i> se torna visível, somos “muitas”.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_138516" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-138516" class="size-large wp-image-138516 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/03_Muestra-FED-1024x683.jpg" alt="" width="1024" height="683" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/03_Muestra-FED-1024x683.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/03_Muestra-FED-300x200.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/03_Muestra-FED-768x512.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/03_Muestra-FED.jpg 1080w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-138516" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Mostra de Feminismo Gráfico na Feira de Editores, Buenos Aires, 2025. Foto: Cé, Archivo Intangible.</small></p></div>
</div>
<h3 style="margin:2em 0;">O mito do estilo e temática</h3>
<p>Ao mito da ausência ou exceção soma-se outro: a ideia de um estilo ou estética homogênea. Presume-se que as artistas mulheres abordem apenas certos temas, que desenhem de maneiras específicas (ou simplesmente que “desenhem mal”). Torna-se brutal quando isso é apresentado como um elogio: “Que estranho, você desenha como um homem”. Como se a relação entre mão e mente estivesse misteriosamente ligada ao gênero no momento em que se pega um lápis e um papel.</p>
<p>Quando o arquivo começou sua compilação, encontrou <a href="https://feminismografico.com/?autora=sara-lopez">estilos clássicos</a>, <a href="https://feminismografico.com/?autora=muriel-bellini">linhas experimentais</a>, <a href="https://feminismografico.com/?autora=sole-otero">explorações plásticas</a>, <a href="https://feminismografico.com/?autora=cristina-breccia-2">vislumbres das belas artes</a> e <a href="https://feminismografico.com/?autora=gabriela-binder">tramas típicas de fanzines</a>. Em resumo: encontramos de tudo, sem restrições.</p>
<p>Narrativamente, universos de todas as dimensões também se revelam: terror, ficção científica, crônicas políticas, autobiografias, experimentos narrativos, humor… Talvez uma observação transversal possível é que identificamos uma busca por representar algo diferente do que a indústria <i>mainstream</i> costuma exibir. Vemos corpos diversos, tons de pele geralmente invisibilizados, identidades e demandas que se manifestam de maneiras mais ou menos explícitas. Partindo disso, o arquivo propôs <a href="https://feminismografico.com/?page_id=7#ejes-tematicos">eixos temáticos,</a> uma forma de construir conexões que transcendem a cronologia e ligam as preocupações de um autor de meados do século XX às de uma jovem que está apenas começando sua carreira. É outra forma de coletivização, de nos vermos como parte de algo maior que nos une àqueles que vieram antes, àqueles que compartilham este espaço hoje e àqueles que virão no futuro.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_138524" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-138524" class="size-large wp-image-138524 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/04_Diana-Raznovich-724x1024.jpg" alt="" width="724" height="1024" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/04_Diana-Raznovich-724x1024.jpg 724w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/04_Diana-Raznovich-212x300.jpg 212w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/04_Diana-Raznovich-768x1086.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/04_Diana-Raznovich.jpg 1080w" sizes="auto, (max-width: 724px) 100vw, 724px"><p id="caption-attachment-138524" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Diana Raznovich (desenhos) e Lucrecia Oller (textos). <i>Manual de instrucciones para mujeres golpeadas</i>, Argentina, 1989. Material feito para <a href="https://sexoyrevolucion.cedinci.org/s/la-comunidad-del-archivo/page/coleccion-lugar-de-mujer">Lugar de mulher</a>, coletivo chave para o feminismo organizado na década de 1980. Donado a Feminismo Gráfico para <a href="https://feminismografico.com/?recurso=nulla-non-sapien">sua leitura gratuita</a>.</small></p></div>
</div>
<h3 style="margin:2em 0;">Para fazer cair mitos, nos organizamos e nos (re)presentamos</h3>
<p>O projeto <i>Nosotras contamos</i> está vivo e em constante expansão. Sabemos que jamais poderá estar completo. Sabemos também que esses esforços devem fazer parte de uma rede cultural internacionalista. Existem projetos irmãos na região, como no <a href="https://acceso.prochile.cl/difusion/difusion2021/mayo/mujeres_historieta/catalogo_2021.pdf">Chile</a>, ou na Europa, como o projeto espanhol <a href="https://issuu.com/publicacionesaecid/docs/presentes._autoras_de_tebeo_de_ayer/120">Presentes</a>. Buscamos pistas sobre outros, prestando muita atenção às cenas de quadrinhos e narrativa gráfica, especialmente no Sul Global.</p>
<p>O arquivo do Graphic Feminism representa uma genealogia com lacunas, peças faltantes que (ainda) não conseguimos encontrar. Percebemos obras invisíveis, colaborações mal documentadas e assinaturas ausentes. Percebemos também um potencial imensurável de autoras emergentes nas novas mídias. Por isso, adotamos <a href="https://feminismografico.com/?recurso=catalogo-nosotras-contamos-2019">as palavras</a> de nossa colega Mariela como um estandarte para nós, cartunistas: “Contamos esta história: ela é incompleta e inacabada, mas é coletiva e busca tornar visível que o que está faltando pode ser reconstruído de alguma forma, imaginado, escrito e tornado presente”.</p>
<p>O dossiê deste mês, <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-agenda-direita-contra-mulheres/"><i>A agenda antifeminista da extrema direita latino-americana</i></a>, inclui obras de arte selecionadas em colaboração com o arquivo digital. Para explorar a coleção em constante expansão, visite <a href="http://feminismografico.com">feminismografico.com</a>. Esperamos que, talvez, na próxima vez que alguém ler uma história em quadrinhos, imagine nomes diversos por trás de cada inicial assinada.</p>
<p>Cordialmente,</p>
<p>Dani Ruggeri</p>
<p>Designer do departamento de Cultura do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social<br>
Co-coordenadora de Feminismo Gráfico</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_138492" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-138492" class="size-large wp-image-138492 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/05_Vale-Reynoso-724x1024.jpg" alt="" width="724" height="1024" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/05_Vale-Reynoso-724x1024.jpg 724w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/05_Vale-Reynoso-212x300.jpg 212w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/05_Vale-Reynoso-768x1086.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/05_Vale-Reynoso.jpg 1080w" sizes="auto, (max-width: 724px) 100vw, 724px"><p id="caption-attachment-138492" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Valeria Reynoso (Argentina), fragmento do fanzine <em>Se vos</em>, Editora In Bocca al Lupo, 2017. A frase é uma citação literal de Lohana Berkins, líder travesti trans argentina, fundadora de ATTTA (Asociación de Travestis, Transexuales y Transgéneros de Argentina) que impulsionou a Lei de Identidade de Gênero (Lei 26.743).</small></p></div>
</div>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Um samba para a reforma agrária popular</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/boletim-arte-carnaval-reforma-agraria/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ricardo Vaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Mar 2026 03:00:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Boletim de Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Landless Workers’ Movement (MST)]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)]]></category>
		<category><![CDATA[agrarian reform]]></category>
		<category><![CDATA[Brazil]]></category>
		<category><![CDATA[reforma agraria]]></category>
		<category><![CDATA[Carnaval]]></category>
		<category><![CDATA[red books day]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[culture]]></category>
		<category><![CDATA[Dia dos Livros Vermelhos]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://thetricontinental.org/?p=136481</guid>

					<description><![CDATA[O coletivo cultural Feminismo Gráfico honra o 8M e desmistifica ideias preconcebidas sobre a história de mulheres, pessoas trans e não-binárias que trabalham com quadrinhos na Argentina.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h4 style="text-align:center;">Boletim de Arte n. 24 (fevereiro 2026)</h4>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-136419 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/AB24_Header.jpg" alt="" width="950" height="550" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/AB24_Header.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/AB24_Header-300x174.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/AB24_Header-768x445.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></div>

<p class="single-post--content--text-small" style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=8XCZSM8kvPQ">Escute</a> “Plantar para colher e alimentar: tem muita terra sem gente, tem muita gente sem terra”.</p>
<p>“A palavra ‘cultura’ vem de agricultura”, disse a mim Patrícia Lafalce, diretora de Carnaval da Acadêmicos do Tatuapé, uma escola de samba na zona operária da zona leste de São Paulo. Conversamos na sala da diretora artística, onde cantores, dançarinos e músicos se preparavam para um ensaio antes da semana de Carnaval. No andar de baixo, centenas de membros da comunidade já se reuniam ansiosamente, vestidos com as cores da escola – azul, branco – e muito glitter.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_136451" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-136451" class="size-large wp-image-136451 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/01_Priscilla-Ramos-1024x683.jpeg" alt="" width="1024" height="683" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/01_Priscilla-Ramos-1024x683.jpeg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/01_Priscilla-Ramos-300x200.jpeg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/01_Priscilla-Ramos-768x512.jpeg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/01_Priscilla-Ramos-1536x1024.jpeg 1536w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/01_Priscilla-Ramos.jpeg 1920w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-136451" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Crédito: Priscilla Ramos do MST.</small></p></div>
</div>
<p>Mais do que uma definição linguística, sua observação é material: a cultura, em sua essência, trata da produção e reprodução da vida, desde o cultivo da terra até a nutrição de nossos corpos e espíritos, passando pela formação de novos seres humanos. No dia 13 de fevereiro, primeiro dia do Carnaval, a Acadêmicos do Tatuapé desfilou pelo Sambódromo do Anhembi, em São Paulo, ao som do samba enredo intitulado <i>Plantar para colher e alimentar: tem muita terra sem gente, tem muita gente sem terra</i>. Criada em colaboração com o <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-75-movimento-dos-trabalhadores-rurais-sem-terra-brasil/">Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)</a>, um dos maiores movimentos sociais do mundo, a canção surge em um momento significativo: o MST se aproxima de sua quinta década de luta pela reforma agrária popular, ao mesmo tempo que o Brasil segue enfrentando a extrema concentração de terras, sustentada pelas forças de direita do país, pelos grandes latifundiários e pelo agronegócio.</p>
<p>Aproximadamente 2 mil cantores, dançarinos, músicos e membros da comunidade marcharam com a escola de samba do Tatuapé, vestidos com fantasias e em imponentes carros alegóricos, impulsionados pelo som estrondoso da bateria. Ao lado deles, uma ala inteira com mais de sessenta militantes do movimento e famílias camponesas de acampamentos e assentamentos do MST. Na plateia, centenas de pessoas usavam o emblemático boné do MST, confeccionado especialmente para o Carnaval com as cores da Acadêmicos do Tatuapé e glitter. Nele estava escrito: “Plantar para colher e alimentar”, levando sua mensagem dos assentamentos para as ruas de São Paulo e para as ondas da televisão nacional, em que o gigantesco espetáculo popular brasileiro – assistido por cerca de 45 milhões de telespectadores – se tornou palco da luta pela reforma agrária.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">Samba como a voz dos excluídos</h3>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_136443" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-136443" class="size-large wp-image-136443 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/02_Priscilla-Ramos-1024x683.jpeg" alt="" width="1024" height="683" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/02_Priscilla-Ramos-1024x683.jpeg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/02_Priscilla-Ramos-300x200.jpeg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/02_Priscilla-Ramos-768x512.jpeg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/02_Priscilla-Ramos-1536x1024.jpeg 1536w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/02_Priscilla-Ramos.jpeg 1920w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-136443" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Crédito: Priscilla Ramos.</small></p></div>
</div>
<p>Embora o Carnaval seja hoje uma indústria comercial bilionária, suas raízes – e as do samba – remontam às comunidades e lutas da classe trabalhadora urbana. As primeiras escolas de samba surgiram no Rio de Janeiro no final da década de 1920, embora o próprio gênero possa ser rastreado até as salas da casa de pessoas como Tia Ciata (1854–1924), uma líder comunitária afro-brasileira a quem se atribui o mérito de ter fomentado o surgimento do samba ao acolher músicos e compositores em sua casa no bairro da Pequena África, no Rio de Janeiro, uma comunidade histórica que abrigou muitos africanos após a proibição do tráfico transatlântico de escravos em 1831.</p>
<p>Essas escolas eram organizações comunitárias formadas, em grande parte, por descendentes de africanos anteriormente escravizados vindos da região da Angola e do Congo, que migraram das plantações rurais para as periferias urbanas após a abolição em 1888. Eles trouxeram consigo não apenas sua força de trabalho, mas também sua música, práticas religiosas e formas de auto-organização comunitária e ajuda mútua. O samba nasceu dessas migrações e manteve suas origens raciais e de classe, bem como sua conexão com a vida rural e formas coletivas de organização.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_136459" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-136459" class="size-large wp-image-136459 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/03_Priscilla-Ramos-1024x682.jpeg" alt="" width="1024" height="682" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/03_Priscilla-Ramos-1024x682.jpeg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/03_Priscilla-Ramos-300x200.jpeg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/03_Priscilla-Ramos-768x512.jpeg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/03_Priscilla-Ramos.jpeg 1280w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-136459" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Crédito: Priscilla Ramos.</small></p></div>
</div>
<p>Ao dar destaque à questão da terra no Carnaval deste ano, o samba enredo criado pela Acadêmicos do Tatuapé e o MST remete à origem do próprio gênero e se baseia no legado do samba de conectar a cidade e as preocupações e lutas do campo. “Precisamos comer todos os dias”, diz Lafalce. “De onde vem essa comida? O Brasil tem tanta terra – se você plantar, tudo cresce”. Essa questão ressalta uma contradição central da sociedade brasileira: apesar da vasta riqueza agrícola e das extensas terras do país, muitos brasileiros ainda passam fome e muitos camponeses permanecem sem terra. Em 2019-2020, o Brasil retornou ao “mapa da fome” da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), que monitora a desnutrição crônica. “É impensável”, disse Lafalce, referindo-se aos mais de 30 milhões de pessoas que foram empurradas para a insegurança alimentar grave durante a presidência do presidente de direita Jair Bolsonaro (2019-2022) devido às políticas de austeridade, ao desmantelamento de programas sociais e ao impacto econômico da pandemia de Covid-19, que foi mal administrada.</p>
<p>“Nossa concepção de reforma agrária popular é justamente conectar o campo e a cidade”, disse-me Carla Loop, do Coletivo Cultural do MST. Para o Movimento, a reforma agrária deve incluir o confronto sobre a origem dos alimentos, especialmente nas cidades, bem como a destruição ambiental que impulsiona a catástrofe climática e a violência que expulsa famílias rurais para uma existência urbana precária. Loop argumenta que canções de samba, como a colaboração do MST com a escola do Tatuapé, podem “convidar a sociedade urbana a refletir sobre o consumo e as relações sociais que o sustentam”. A semente dessa colaboração foi plantada em uma palavra de ordem que o MST amplificou em seu <a href="https://mst.org.br/tag/maos-solidarias/">trabalho de solidariedade urbana</a>: “Se o campo não planta, a cidade não janta”.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">A cada enxada erguida, a liberdade florescia</h3>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_136435" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-136435" class="size-large wp-image-136435 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/04_Priscilla-Ramos-1024x683.jpeg" alt="" width="1024" height="683" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/04_Priscilla-Ramos-1024x683.jpeg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/04_Priscilla-Ramos-300x200.jpeg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/04_Priscilla-Ramos-768x512.jpeg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/04_Priscilla-Ramos-1536x1024.jpeg 1536w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/04_Priscilla-Ramos.jpeg 1920w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-136435" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Crédito: Priscilla Ramos.</small></p></div>
</div>
<p>Historicamente, a Acadêmicos do Tatuapé tem destacado temas políticos em suas canções de Carnaval. “Esse é exatamente o objetivo”, explica Loop; “Isso nos permitiu romper a bolha”. Por meio dessa colaboração, o MST e a escola de samba levaram a reforma agrária popular para comunidades além de sua base habitual, ao mesmo tempo em que colocavam no centro “pessoas trans, gays, negros, brancos, trabalhadores da saúde, médicos, empresários, artistas, pessoas de acampamentos e assentamentos – todos juntos”.</p>
<p>No entanto, criar o “espaço democrático” que Lafalce descreveu e assumir uma posição política clara também teve consequências. Em um país no qual o agronegócio exerce enorme poder político e midiático, colaborar abertamente com o MST – um movimento que desafia o modelo agrícola por meio da reforma agrária e da agroecologia – tornou a escola do Tatuapé um alvo. Eles enfrentaram desentendimentos internos e pressões externas, incluindo ameaças de atraso no financiamento público e outras repercussões financeiras. Mesmo assim, a comunidade se manteve firme, escolhendo a colaboração com o MST entre vinte e uma propostas por meio de uma votação interna na qual cada departamento participou.</p>
<p>“Plantar para colher e alimentar” funde duas obras e une dezoito compositores em uma única voz. Essa voz canta a história da terra no Brasil, começando com a criação e as origens sagradas do cultivo, e abordando a violência colonial que se seguiu:</p>
<blockquote><p><em>Tupã! Num sopro de ternura</em><br>
<em>Concebeu a agricultura para os filhos desse chão.</em><br>
<em>Mas veio o invasor e a terra então sangrou</em><br>
<em>Negro plantou resistência</em><br>
<em>Canudos semeou a rebeldia</em><br>
<em>Cada enxada levantada</em><br>
<em>Liberdade florescia </em></p></blockquote>
<p>Impulsionado pelo samba enredo, o desfile avança como um mural em movimento. Cada ala tem suas próprias cores, gestos e figurinos, e juntos “ilustram” os capítulos da canção à medida que passam, pontuados pelos carros alegóricos que dão vida à metáfora. A canção traça a trajetória dos povos – indígenas, africanos, migrantes – que construíram o Brasil e cultivaram sua terra, desde a extração colonial de açúcar, café e algodão até a principal contradição que o país enfrenta hoje: “Mas a ganância por terra sem gente/Faz muita gente sem terra chorar!”. O pulso da bateria impulsiona a escola para a frente, e o coro de milhares carrega o refrão pela avenida à medida que cada ala passa. A colaboração Acadêmicos do Tatuapé-MST mostra o agronegócio, com seus pesticidas e desmatamento – apesar do <i>slogan </i>da indústria “agro é pop, agro é tech, agro é tudo” – pelo que ele é: destruição disfarçada de progresso.</p>
<p>E então vem a virada. Em um desfile de escola de samba, a bateria pode fazer uma pausa repentina, uma respiração suspensa que destaca o momento em que a percussão volta com força. A porta-bandeira e seu mestre-sala – executando um dueto cerimonial no coração da apresentação da escola – conduzem à resposta do MST: produção agroecológica de arroz e cacau orgânicos, e sementes crioulas preservadas contra a monocultura corporativa. A música continua: “Mãos calejadas no cultivo da semente /(…) Floresce da terra a fé dessa gente”. O carro alegórico final, a Festa da Partilha, apresenta um assentamento do MST, uma visão de produção coletiva. A música continua: “Viver é compartilhar e nada em troca esperar!”.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">Alegria como forma de luta</h3>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_136467" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-136467" class="size-large wp-image-136467 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/05_Priscilla-Ramos-1024x683.jpeg" alt="" width="1024" height="683" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/05_Priscilla-Ramos-1024x683.jpeg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/05_Priscilla-Ramos-300x200.jpeg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/05_Priscilla-Ramos-768x512.jpeg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/05_Priscilla-Ramos-1536x1024.jpeg 1536w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/05_Priscilla-Ramos.jpeg 1920w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-136467" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Crédito: Priscilla Ramos.</small></p></div>
</div>
<p>O desfile da escola de samba foi parte de uma competição rigorosa entre 32 agremiações de samba da Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo. Cada uma é pontuada com base em enredo (tema), samba-enredo, harmonia, evolução, bateria, mestre-sala e porta-bandeira, comissão de frente, fantasias e alegorias e adereços. Essa grande produção anual é um pilar da cultura popular de massa do Brasil, e o MST não se esquiva desse momento. Embora o movimento tenha uma longa história de organização no samba e no Carnaval – desde a participação em outros desfiles até a criação de sua própria escola de samba, <a href="https://www.youtube.com/watch?v=X5wtEUvSN_o">Unidos da Lona Preta</a> (nomeada em referência às tendas de lona preta usadas nos acampamentos do MST durante as ocupações de terras) – a colaboração com a Acadêmicos do Tatuapé elevou esse trabalho cultural a um novo patamar.</p>
<p>“É uma grande demonstração da construção da hegemonia cultural”, disse Loop. “Uma comunidade inteira canta o projeto de reforma agrária popular e o transforma em arte – mais de 2 mil pessoas envolvidas durante um ano inteiro”. Ela destaca a capacidade do povo brasileiro, e de toda a América Latina, de transformar a dor em música, fantasia e ironia que “permanece na memória coletiva”. Afinal, como Loop insiste, “a luta não se faz apenas com sofrimento. A alegria também é uma forma de luta”.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">Em outras notícias…</h3>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-large wp-image-136427 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/06_RBD26-calendar-cover-910x1024.jpg" alt="" width="910" height="1024" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/06_RBD26-calendar-cover-910x1024.jpg 910w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/06_RBD26-calendar-cover-267x300.jpg 267w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/06_RBD26-calendar-cover-768x864.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/06_RBD26-calendar-cover.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 910px) 100vw, 910px"></div>
<p>O dia 21 de fevereiro marcou o Dia do Livro Vermelho, aniversário da primeira publicação do Manifesto Comunista de Marx e Engels (1848). Para este ano, o Instituto Tricontinental de Pesquisa Social e a Associação Internacional de Editoras de Esquerda criaram um calendário em homenagem a Fidel Castro no centenário de seu nascimento e no <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-tricontinental-conferencia-60/">60º aniversário</a> da Conferência Tricontinental em Havana. O calendário reúne obras originais de doze artistas e trabalhadores culturais internacionais, todos inspirados no conceito da “Batalha de Ideias”. Faça o <a href="https://iulp.org/downloads/RBD-CALENDAR-2026-ENG.pdf"><i>download</i></a>, compartilhe e organize uma exposição das obras de arte apresentadas, no espírito do internacionalismo de Fidel Castro e da duradoura Revolução Cubana.</p>
<p>Cordialmente,</p>
<p>Tings Chak<br>
Diretora de Arte do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Quando a revolução chegar, nossas canções serão entoadas</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/boletim-arte-coreia-musica-popular/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ricardo Vaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 31 Jan 2026 04:00:29 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Boletim de Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Levante de Gwangju]]></category>
		<category><![CDATA[música popular]]></category>
		<category><![CDATA[Cooperação Econômica Ásia-Pacífico.]]></category>
		<category><![CDATA[Asia-Pacific Economic Cooperation]]></category>
		<category><![CDATA[Gwangju Uprising]]></category>
		<category><![CDATA[Korea]]></category>
		<category><![CDATA[minjung-gayo]]></category>
		<category><![CDATA[popular music]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Coreia]]></category>
		<category><![CDATA[culture]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://thetricontinental.org/?p=135495</guid>

					<description><![CDATA[Para o Carnaval deste ano no Brasil, o MST e a Tatuapé, uma das escolas de samba de São Paulo, colaboraram em um samba-enredo (música tema do Carnaval) por uma reforma agrária popular.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h4 style="text-align:center;">Boletim de arte n. 23 (Janeiro 2026)</h4>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-135512 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/AB22_Header.jpg" alt="" width="950" height="550" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/AB22_Header.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/AB22_Header-300x174.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/AB22_Header-768x445.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></div>

<p class="single-post--content--text-small" style="text-align: center;">Ouça “<a href="https://www.youtube.com/watch?app=desktop&amp;v=WqluwNpO3lc&amp;list=RDWqluwNpO3lc&amp;start_radio=1">March for the Beloved</a>” (임을 위한 행진곡), escrita em 1981 pelo letrista e ativista Paik Ki-wan.</p>
<p> </p>
<blockquote><p>Sem deixar para trás nenhum amor, honra, nem mesmo nomes<br>
Apenas um juramento ardente, feito até o fim de nossas vidas.<br>
Camaradas se foram, mas nossa bandeira ainda tremula.<br>
Não tremamos até que um novo dia chegue.<br>
Anos passam, mas a terra se lembra<br>
Aquele ardente clamor pelo despertar:<br>
Enquanto lideramos o caminho, que os vivos nos sigam!</p>
<p>– “March for the Beloved” (임을 위한 행진곡, 1981)</p></blockquote>
<p>Em 1º de novembro de 2025, manifestantes se reuniram por toda a Coreia do Sul, entoando o cântico “Sem rei: Trump não é bem-vindo!”. Esses protestos foram organizados em resposta à reunião da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec, na sigla em inglês) em Gyeongju, que ocorreu de 31 de outubro a 1º de novembro. À margem dessa reunião, Donald Trump confirmou que imporia tarifas à Coreia do Sul, resultando na <a href="https://dev.thetricontinental.org/asia/peoples-response-against-apec/">extorsão</a> de 350 bilhões de dólares, um plano que ele já havia anunciado no início daquele ano. Esse foi mais um exemplo da agenda “América Primeiro” de seu governo, que subordina a soberania das nações em todo o mundo, sobretudo as do Sul Global. Enquanto a reunião da APEC acontecia em Gyeongju, centenas de pessoas se reuniram nas proximidades, na <a href="https://dev.thetricontinental.org/asia/peoples-response-against-apec/">Cúpula dos Povos</a>, para ler e assinar a <a href="https://againstapec2025.notion.site/2025-APEC-2025-International-People-s-Declaration-29087173f97180049913c07bb6949605">Declaração Popular de Gyeongju</a>, um documento que clama por uma economia para todos, e não apenas para poucos.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><div id="attachment_135448" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-135448" class="size-full wp-image-135448 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/01_A-World-of-Great-Unity.jpg" alt="" width="640" height="484" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/01_A-World-of-Great-Unity.jpg 640w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/01_A-World-of-Great-Unity-300x227.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px"><p id="caption-attachment-135448" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Hong Song-dam, <i>May-27 Daedong Sesang</i> [Um Mundo de Grande Unidade], 1984.</small></p></div></div>
<p>Antes do início da cúpula, a multidão fez um minuto de silêncio em homenagem aos mártires mortos durante o Levante de Gwangju de 1980, um protesto liderado por estudantes contra o regime militar de Chun Doo-hwan (1980-1988) que terminou em um massacre violento, e em seguida cantaram “Marcha pelos Amados”. Escrita em 1981 pelo letrista e ativista Paik Ki-wan para homenagear os massacrados no Levante de Gwangju do ano anterior, a canção tornou-se um hino dos movimentos sociais coreanos. Essa prática de honrar os mártires cantando juntos, um exemplo de <i>minjung-uirye</i> (민중의례, ou “juramento do povo”), começou como uma recusa consciente dos ativistas sul-coreanos em jurar lealdade à bandeira nacional durante a ditadura militar de Chun.</p>
<p>Durante minha estadia na Coreia para a Cúpula Popular, busquei compreender o papel de uma tradição similar, o <i>minjung-gayo</i> (민중가요, “canções do povo”), nos movimentos políticos coreanos contemporâneos. Esse gênero de música de protesto coreana surgiu durante as lutas contra as ditaduras militares que governaram a Coreia do Sul de 1961 a 1988, antes e durante o regime de Chun, e continua sendo utilizado por movimentos sociais até hoje.</p>
<p>Este boletim se baseia em conversas que tive com membros de coletivos artísticos como o <a href="https://youtube.com/@art.maru.2017">Maru</a> (마루), que se apresentou no comício da cúpula, e o recém-formado grupo vocal feminista <i>norae-pae I-eum</i> (이음, “conexão” ou “laços”), integrante da Associação de Mulheres de Seul (서울여성회), que luta pela igualdade de gênero. O que emergiu das minhas conversas foi um retrato da tradição radical viva do <i>minjung-gayo,</i> passando por um renascimento silencioso e até mesmo se cruzando de novas maneiras com questões de gênero e com a indústria do K-pop altamente comercializada para levar adiante a mensagem do povo hoje.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">Música popular contra a ditadura e pela reunificação</h3>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_135456" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-135456" class="size-large wp-image-135456 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/02_APEC-1024x579.jpg" alt="" width="1024" height="579" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/02_APEC-1024x579.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/02_APEC-300x170.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/02_APEC-768x435.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/02_APEC.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-135456" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Uma mobilização durante a Cúpula Popular em Gyeongju, onde manifestantes cantaram “Marcha dos Amados” (à direita).</small></p></div>
</div>
<p><i>Minjung-gayo</i> distingue canções criadas para e pelo povo de daejung-gayo (대중가요), ou música popular convencional. Durante a era da ditadura militar, criar <i>minjung-gayo</i> era perigoso. Em 1971, por exemplo, a junta militar proibiu a canção pioneira de <a href="https://www.koreaherald.com/view.php?ud=20241117050079">Kim Min-gi</a> (김민기) “Orvalho da Manhã” (아침 이슬). No entanto, as pessoas encontraram maneiras de acessar a canção, e ela se tornou um dos hinos mais amados do movimento de democratização, que continua sendo tocado em protestos até hoje.</p>
<p>Segundo Kang Hyo-jun (강효준), do coletivo Maru, embora o <i>minjung-gayo</i> já tivesse surgido como gênero, “explodiu” apenas após a Grande Luta dos Trabalhadores de 1987, quando mais de três milhões de trabalhadores iniciaram greves que finalmente forçaram reformas democráticas na Coreia do Sul. “Muitas músicas novas estavam sendo escritas [durante esse período]”, explicou Kang.</p>
<p>Para muitos no movimento <i>minjung</i> das décadas de 1970 e 1980, a luta pela democracia era inseparável das antigas reivindicações pela reunificação e libertação nacional, desde a partição da Coreia em 1945 até a devastação causada pela Guerra da Coreia imperialista, iniciada na década de 1950, e a presença permanente dos EUA na Coreia do Sul em 1957. Canções como “Nosso desejo é a reunificação” (우리의 소원), composta originalmente por Ahn Byung-won em 1947 com letra de seu pai, Ahn Suk-ju, davam voz ao anseio pela reunificação da Coreia. Outras canções se inspiravam em tradições musicais indígenas, como o <i>pansori</i> (판소리), um gênero de narrativa musical, e os ritmos xamânicos <i>gut </i>(굿), resgatando tradições culturais que sobreviveram à colonização e mobilizando-as como recursos para as lutas contemporâneas.</p>
<p>No entanto, pouquíssimas canções novas foram escritas nas últimas décadas, uma tendência que reflete o próprio enfraquecimento do movimento progressista da Coreia do Sul. “O movimento artístico popular não pôde deixar de acompanhar esse declínio”, refletiu Kang. Coletivos como o Maru trabalham para manter viva a tradição do <i>minjung-gayo</i>: como Kang me disse, “devemos (…) continuar compondo novas canções, expandir nossa solidariedade e ouvir as histórias do povo para transformá-las em ainda mais canções novas”. A visão do Maru visa ampliar a base do seu movimento social por meio de músicas que representem as lutas do povo hoje. “Quando chegar o momento revolucionário e quando um novo mundo surgir”, expressou, “cantarão nossas canções”.</p>
<p>De forma semelhante, o grupo de canto <i>norae-pae I-eum</i>, da Associação de Mulheres de Seul, busca criar <i>minjung-gayo</i> que represente as lutas do povo, incluindo a resistência ao patriarcado. Kim Jee Un (김지은), diretora da associação e líder do grupo, relembrou como a <a href="https://www.youtube.com/watch?v=G84zWxeqEMo">primeira apresentação</a>, no início de 2025, emocionou profundamente o público, “porque quando pensavam em <i>minjung-gayo</i>, geralmente só imaginavam homens cantando”. O grupo valoriza intencionalmente músicas de protesto escritas por mulheres sobre as lutas femininas, já que existem poucas canções desse tipo – e “algumas são escritas por homens com conteúdo sexista”, explicou Kim. Além de expandir o papel do <i>minjung-gayo</i> na libertação feminina, ativistas coreanas também reinventaram a relação do gênero com a música <i>mainstream</i>, como o K-pop, para condenar a violência política e atrair novos membros para a sua luta.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">K-Pop pelo impeachment</h3>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_135464" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-135464" class="size-full wp-image-135464 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/03_Impeachment-vote.jpeg" alt="" width="885" height="498" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/03_Impeachment-vote.jpeg 885w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/03_Impeachment-vote-300x169.jpeg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/03_Impeachment-vote-768x432.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 885px) 100vw, 885px"><p id="caption-attachment-135464" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Uma mobilização em 6 de dezembro anterior à votação do impeachment de Yoon Suk-Yeol na semana seguinte. Crédito: International Strategy Center.</small></p></div>
</div>
<blockquote><p>Estamos cantando; vamos melhorar.<br>
Lembramos dos dias desperdiçados de forma tola.<br>
Ainda assim, não é bom?<br>
Mesmo em meio a um rio de lágrimas,<br>
Estamos aqui juntos.<br>
Não é engraçado?<br>
Se tivéssemos ficado sentados chorando,<br>
Nunca teríamos nos conhecido neste mundo.</p>
<p>– “Isn’t That Good?” (좋지 아니한가), capa de 2022 por YUDABINBAND (YdBB).</p></blockquote>
<p>Em 3 de dezembro de 2024, o presidente de direita Yoon Suk-Yeol declarou lei marcial, alegando que o objetivo era “salvaguardar a ordem constitucional e a estabilidade nacional” contra “elementos antiestatais”, incluindo supostas forças pró-Coreia do Norte que estariam minando o governo. Sua declaração de lei marcial desencadeou protestos e acampamentos massivos em Seul, apesar das noites frias de inverno. Em duas semanas, Yoon foi destituído do cargo pela Assembleia Nacional. O movimento que acabou por derrubá-lo surgiu dos protestos à luz de velas de 2016-2017 contra Park Geun-hye, líder de extrema-direita e filha do ex-ditador militar Park Chung-hee. Ambos os movimentos utilizaram um arsenal musical perceptivelmente híbrido.</p>
<p>Além das tradicionais canções de <i>minjung-gayo </i>apresentadas em manifestações, os organizadores incorporaram o popular gênero K-pop em sua estratégia de mobilização. Por exemplo, músicas do estilo foram tocadas durante os protestos de 2016-2017, intercaladas com discursos e palavras de ordem políticas. Uma dessas músicas é “<a href="https://www.youtube.com/watch?v=0k2Zzkw_-0I">Into the New World</a>” (다시 만난 세계), do Girls’ Generation, cuja letra, que fala sobre um sentimento geral de “não desistir”, e foi reinterpretada como uma visão de libertação coletiva do regime de direita.</p>
<p>Kim descreveu a comoção que isso causou entre militantes veteranos, que reclamaram que o K-pop e os lightsticks (varetas de luz, acessórios populares que os fãs levam aos shows de K-pop) estavam “arruinando a tradição”. No entanto, ela sustentou que um movimento é sobre o povo: se o K-pop desempenhou um papel ao incentivar os jovens a retornarem semana após semana, ele deveria ter um lugar na luta.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">Mais uma vez, avante! 또 다시 앞으로!</h3>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_135472" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-135472" class="size-large wp-image-135472 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/04_Maru-and-SWA-1024x421.jpg" alt="" width="1024" height="421" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/04_Maru-and-SWA-1024x421.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/04_Maru-and-SWA-300x123.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/04_Maru-and-SWA-768x316.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/04_Maru-and-SWA.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-135472" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Members of Maru (left) and <em>norae-pae I-eum</em> (right). Crédito: Maru and Seoul Women’s Association.</small></p></div>
</div>
<blockquote><p>Aqueles anos amargos, aqueles dias sujos e temerosos.<br>
Mais uma vez, vamos nos erguer acima deles<br>
E marchar ao ritmo da história.<br>
Um! Dois! Três!<br>
Avante! Mais uma vez, avante!</p>
<p>– ‘Mais uma vez, avante!’ (또 다시 앞으로)</p></blockquote>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_135480" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-135480" class="size-full wp-image-135480 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/05_Korea-Venezuela.jpeg" alt="" width="800" height="533" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/05_Korea-Venezuela.jpeg 800w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/05_Korea-Venezuela-300x200.jpeg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/05_Korea-Venezuela-768x512.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px"><p id="caption-attachment-135480" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Ação de solidariedade com a Venezuela, 10 de janeiro de 2026. Crédito: Centro de Estratégia Internacional.</small></p></div>
</div>
<p>Os mesmos movimentos coreanos que se mobilizaram contra a visita de Trump durante a APEC convocaram agora uma Ação Popular Internacional para denunciar um ano do regime do presidente estadunidense. Essa declaração condena a violência imperialista da administração Trump em todo o mundo, do apoio e financiamento do genocídio em curso na Palestina até o recente bombardeio de Caracas, na Venezuela, e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, a deputada Cilia Flores, em 3 de janeiro de 2026 (<a href="https://drive.google.com/drive/folders/1vYpv0bJS0BdUOM0ocve07_YEK_G49aT2?usp=sharing">veja o cartaz</a> criado pela Assembleia Popular Internacional – uma imagem entre muitas que serão exibidas em manifestações de solidariedade à Venezuela em todo o mundo). Em última análise, os movimentos populares da Coreia à Venezuela nos lembram que a luta continua, assim como suas canções.</p>
<p>Atenciosamente,</p>
<p>Tings Chak<br>
Diretora de Arte, Instituto Tricontinental de Pesquisa Social</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>São José Gregorio Hernández e o esplendor da resistência popular venezuelana</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/boletim-arte-jose-gregorio-hernandez/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ricardo Vaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 28 Dec 2025 03:00:34 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Boletim de Arte]]></category>
		<category><![CDATA[anti-imperialism]]></category>
		<category><![CDATA[anti-imperialismo]]></category>
		<category><![CDATA[José Gregorio Hernández]]></category>
		<category><![CDATA[nationalism]]></category>
		<category><![CDATA[resistencia]]></category>
		<category><![CDATA[nacionalismo]]></category>
		<category><![CDATA[venezuela]]></category>
		<category><![CDATA[resistance]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://thetricontinental.org/?p=133970</guid>

					<description><![CDATA[Os movimentos sociais coreanos estão reaproveitando a tradição do minjung-gayo (música popular) ao incorporar criativamente o K-pop e mensagens sobre as lutas das mulheres na atualidade.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h4 style="text-align:center;">Boletim de arte n. 22 (Dezembro 2025)</h4>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-133954 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/AB22_Header.jpg" alt="" width="950" height="550" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/AB22_Header.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/AB22_Header-300x174.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/AB22_Header-768x445.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></div>

<p class="single-post--content--text-small" style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=sKBEhybclvI">Ouça</a> a música “Santo José Gregorio”, de Daniel Santos.</p>
<p>Ao entrar em uma casa típica venezuelana, provavelmente haverá um retrato ou uma pequena estátua de um homem distinto e esguio, de terno e chapéu pretos, com um bigode bem feito, mãos cruzadas atrás das costas e uma vela acesa ao seu lado. Conhecido carinhosamente como “O Médico dos Pobres” e “O Santo do Povo”, São José Gregorio Hernández (1864-1919) não é apenas uma figura de devoção católica, mas uma das imagens mais reconhecidas na cultura popular venezuelana, especialmente entre a classe trabalhadora, que há muito tempo recorre a ele em busca de cura e proteção. Nos últimos anos, e especialmente em meio à escalada de ataques do governo Trump à Venezuela, esse santo popular ganhou um novo significado.</p>
<p>Mais de um século após sua morte, a <a href="https://www.latimes.com/world-nation/story/2025-10-19/pope-gives-venezuela-reason-to-celebrate-by-canonizing-its-beloved-doctor-of-the-poor-as-1st-saint">canonização</a> de Hernández pelo Vaticano em 19 de outubro de 2025 coincidiu com uma nova onda de agressão imperialista contra a Venezuela. Em março de 2025, o governo Trump invocou a Lei de Inimigos Estrangeiros para atacar supostos membros do Tren de Aragua como “inimigos estrangeiros”, alegando – sem apresentar nenhuma prova – que os migrantes venezuelanos nos Estados Unidos tinham vínculos com a gangue. No início do mesmo mês, cerca de 250 migrantes venezuelanos foram <a href="https://www.npr.org/2025/03/16/g-s1-54154/alien-enemies-el-salvador-trump">deportados</a> para o Centro de Confinamento de Terrorismo (CECOT) do presidente salvadorenho Nayib Bukele, uma mega-prisão <a href="https://www.damemagazine.com/2025/05/08/its-not-hyperbole-to-call-cecot-a-concentration-camp/">condenada</a> por organizações de direitos humanos por suas condições semelhantes às de um campo de concentração. Então, no final de agosto de 2025, os EUA começaram a organizar o maior <a href="https://www.msn.com/en-us/news/world/largest-buildup-of-us-firepower-in-caribbean-since-cold-war-as-aircraft-carrier-deployed/ar-AA1QzIbW">destacamento militar</a> no Caribe desde a Crise de Outubro de 1962 (conhecida no Ocidente como a Crise dos Mísseis de Cuba). Nos meses que se seguiram, os EUA realizaram uma série de ataques ilegais a pequenas embarcações nas águas da Venezuela que mataram mais de oitenta pessoas. Nesse contexto, muitos venezuelanos abraçaram ainda mais São José Gregório como um símbolo da capacidade inabalável de seu país de superar esses grandes desafios.</p>
<p>Embora ele não fosse um artista, o significado de São José Gregório para nós está no fato de que um povo sob cerco transformou uma figura religiosa em um símbolo de devoção popular e resistência nacional. Hoje em dia, as representações de São José Gregório não estão mais confinadas às igrejas e às casas dos devotos, mas aparecem em murais e <i>outdoors </i>em todo o país e nas gravuras e estatuetas vendidas por vendedores ambulantes, inserindo sua imagem na vida cotidiana.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">Uma vida a serviço do povo</h3>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_133901" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-133901" class="size-full wp-image-133901 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/01_Sculpture-by-Francisco-Narva%CC%81ez-.jpeg" alt="" width="800" height="600" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/01_Sculpture-by-Francisco-Narváez-.jpeg 800w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/01_Sculpture-by-Francisco-Narváez--300x225.jpeg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/01_Sculpture-by-Francisco-Narváez--768x576.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px"><p id="caption-attachment-133901" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Escultura de Francisco Narváez em homenagem a São José Gregorio Hernández, Universidade Central da Venezuela, 1950.</small></p></div>
</div>
<p>José Gregorio Hernández Cisneros nasceu em 1864 na pequena cidade de Isnotú, aninhada nos Andes venezuelanos, no momento em que o país emergia da devastação da Guerra Federal e se refundava como Estados Unidos da Venezuela sob uma frágil constituição federal. Ele era um dos sete filhos de um vendedor de produtos farmacêuticos e de gado e uma empregada doméstica. Desde muito jovem, Hernández demonstrou ser uma promessa intelectual excepcional. Quando se formou como médico em 1888 – nos primeiros anos do projeto de modernização liberal que se seguiu à longa ditadura de Antonio Guzmán Blanco – ele já <a href="https://inteligenciacreati17.wixsite.com/website/post/jos%C3%A9-gregorio-hern%C3%A1ndez-el-m%C3%A9dico-cient%C3%ADfico-acad%C3%A9mico-y-el-santo">dominava</a> inglês, francês, português, alemão e italiano, e tinha um conhecimento prático de hebraico. Hernández também estudou filosofia, música e teologia em uma época em que o Estado venezuelano estava expandindo a educação secular e, ao mesmo tempo, negociando seu relacionamento difícil com a Igreja Católica.</p>
<p>Depois de se formar em 1888, Hernández exerceu a profissão por um breve período em Caracas, dividindo um pequeno quarto em La Pastora que servia ao mesmo tempo como quarto, consultório e até mesmo uma alfaiataria improvisada, e muitas vezes oferecendo suas próprias refeições aos pobres do bairro. Quando seu mentor, Dr. Santos Dominici, se ofereceu para ajudá-lo a montar um consultório adequado na capital, Hernández recusou, dizendo que desejava voltar para sua cidade natal, Isnotú. “Um dia, minha própria mãe me pediu que voltasse para aliviar as dores das pessoas humildes de nossa terra. Agora que sou médico, percebo que meu lugar é entre os meus”, disse Hernández ao Dr. Dominici. Em agosto daquele ano, ele empreendeu a longa e desconfortável jornada de volta aos Andes – viajando de barco de La Guaira ao longo da costa e passando por Curaçao, atravessando o Lago Maracaibo até La Ceiba e depois de mula para o interior – para trabalhar como <a href="https://web.archive.org/web/20141023052046/http:/causajosegregorio.org.ve/juventud/">médico rural</a>. Em cartas desse período, ele descreveu como cuidava de pacientes que sofriam de disenteria, asma, tuberculose e reumatismo e lutava contra as superstições profundamente arraigadas da época; <a href="https://web.archive.org/web/20141023052046/http:/causajosegregorio.org.ve/juventud/">superstições</a> que complicavam a confiança das pessoas no tratamento médico.</p>
<p>A excepcional habilidade de Hernández como médico e sua dedicação ao povo não passaram despercebidas. Enquanto ele ainda procurava um lugar para estabelecer seu consultório nos Andes, um decreto do presidente Juan Pablo Rojas Paúl criou o novo Hospital Vargas em Caracas e autorizou o Estado a enviar um jovem médico venezuelano de “boa conduta e reconhecida aptidão” a Paris para estudar as mais recentes ciências experimentais — microscopia, bacteriologia, histologia e fisiologia experimental — e depois retornar para modernizar a educação médica no país. Hernández foi escolhido para essa missão. Em 1889, ele viajou para a França e trabalhou no laboratório do eminente histologista Mathias Duval. Hernández voltou para casa, trazendo alguns dos primeiros <a href="https://www.scribd.com/document/822549938/Primeros-Microscopios-Traidos-a-Venezuela-Por-El-Dr-Jose-Gregorio-Hernandez">microscópios</a> para o país e tornou-se um dos pioneiros da medicina científica moderna na Venezuela, especialmente nos campos da bacteriologia e da histologia.</p>
<p>Juntamente com suas realizações científicas, Hernández tentou duas vezes ingressar no sacerdócio, em 1908 e novamente em 1912. No entanto, sua própria saúde frágil o impediu de concluir seus estudos nas duas vezes. Ele continuou exercendo a medicina, ganhando fama em Caracas por seu cuidado altruísta com os pobres, muitas vezes cobrindo ele mesmo o custo do tratamento de seus pacientes. Ele também desempenhou um papel fundamental no atendimento aos pacientes quando a devastadora <a href="https://prodavinci.com/la-pandemia-de-gripe-espanola-de-1918/">pandemia</a> de gripe espanhola devastou o país em 1918, causando mais de 25 mil mortes (cerca de 1% da população).</p>
<p>Em 29 de junho de 1919, Hernández morreu tragicamente após ser atropelado por um carro. Sua vida de serviço abnegado e devoção religiosa, combinada com sua morte repentina, transformou-o imediatamente em um santo popular, cuja importância para a religião popular logo transcendeu as fronteiras da Venezuela. Muito antes de o Vaticano considerá-lo santo, o povo já havia canonizado São José Gregório.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">O esplendor do ser</h3>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_133911" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-133911" class="size-large wp-image-133911 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/02_Palmira-Correa-Jose%CC%81-Gregorio-Herna%CC%81ndez-771x1024.jpeg" alt="" width="771" height="1024" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/02_Palmira-Correa-José-Gregorio-Hernández-771x1024.jpeg 771w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/02_Palmira-Correa-José-Gregorio-Hernández-226x300.jpeg 226w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/02_Palmira-Correa-José-Gregorio-Hernández-768x1020.jpeg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/02_Palmira-Correa-José-Gregorio-Hernández.jpeg 1157w" sizes="auto, (max-width: 771px) 100vw, 771px"><p id="caption-attachment-133911" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Palmira Correa, <i>José Gregorio Hernández</i>, n.d.</small></p></div>
</div>
<p>Embora fosse principalmente um médico, São José Gregório também se envolveu com a filosofia, desenvolvendo uma visão profundamente humanista da arte que se recusava a separar a beleza da ética. Em uma sociedade marcada pelo poder oligárquico liberal, pela cultura latifundiária e pelo avanço desigual do capitalismo, ele tratou a estética não como uma fuga, mas como uma questão de como a dignidade humana é defendida e ampliada.</p>
<p>Para São José Gregório, a beleza era o “esplendor do ser”, que só pode ganhar forma material por meio de ações orientadas para o bem. Em outras palavras, a beleza — como ética — não é apenas algo a ser contemplado, mas algo a ser feito no mundo.</p>
<p>Em 1912, ele escreveu o ensaio em prosa “Visión de arte” [Visão da arte], que culmina com a reação exaltada do narrador a uma cena em que Cristo realiza o Milagre dos Pães e Peixes. O ensaio foi publicado originalmente junto com uma reprodução da obra monumental <i>La multiplicación de los panes y los peces</i> [A multiplicação dos pães e dos peixes, 1897], de Arturo Michelena, pintada para a Basílica Menor de Santa Capilla, em Caracas. Na obra de Michelena, o milagre se desenrola em meio a uma tempestade que se forma na água, emoldurada por palmeiras, enquanto as pessoas distribuem alimentos entre si e Cristo está no centro. Essa imagem fundamenta o ideal estético de Hernández não em uma teoria clássica isolada, mas na forma mais elevada de compaixão e justiça divinas estendidas aos necessitados. Lida por meio de sua compreensão da beleza estética como ação ética, a cena se torna um argumento para a justiça social como esplendor: a beleza é percebida quando os famintos são alimentados, a escassez é respondida pela provisão compartilhada e a compaixão toma forma material entre as pessoas comuns. O esplendor, portanto, não se limita à tela ou à capela. Ela se concretiza em atos de dignidade coletiva, muitas vezes forjados em meio à turbulência, quando a demanda por ela se torna mais urgente.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">Um santo do povo na arte e na cultura</h3>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_133921" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-133921" class="size-large wp-image-133921 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/03_Mural-of-Jose%CC%81-Gregorio-Herna%CC%81ndez-1024x729.jpeg" alt="" width="1024" height="729" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/03_Mural-of-José-Gregorio-Hernández-1024x729.jpeg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/03_Mural-of-José-Gregorio-Hernández-300x214.jpeg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/03_Mural-of-José-Gregorio-Hernández-768x547.jpeg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/03_Mural-of-José-Gregorio-Hernández.jpeg 1035w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-133921" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Mural de São José Gregorio Hernández por @hamktrazos, 2025. Foto: Daniel Hernández García.</small></p></div>
</div>
<p>A veneração a Hernández foi, desde o início, um fenômeno de base. Embora a elite intelectual também tenha lamentado seu falecimento, foram os artesãos, os trabalhadores industriais, os proprietários de pequenas empresas e os trabalhadores domésticos que, em gratidão por seu serviço e em admiração por sua piedade, transformaram-no em um santo popular.</p>
<p>Os jornais informaram que, em seu enterro em 1919, a multidão era tão grande que impediu que a carreata chegasse ao cemitério em Caracas. Algumas pessoas insistiam em carregar seu caixão, enquanto outras jogavam flores de suas varandas como humildes oferendas. As homenagens em seu túmulo rapidamente se transformaram em peregrinações, com as pessoas viajando longas distâncias até o local do túmulo em busca de melhoria da saúde por meio de sua intercessão. A crença em seu poder de realizar milagres se espalhou rapidamente — histórias de orações atendidas e de sonhos em que ele aparecia realizando operações médicas complexas nos doentes. Na década de 1970, o grande número de velas acesas perto de seu túmulo representava um risco de incêndio e, em 1975, seus restos mortais foram transferidos para uma igreja no centro de Caracas.</p>
<p>O <i>status </i>de Hernández como santo popular era tão grande que transcendia a oposição institucional. Em 1957, o renomado nacionalista e cantor porto-riquenho Daniel Santos, conhecido como a voz da classe trabalhadora do Caribe, <a href="https://www.telesurtv.net/jose-gregorio-hernandez-daniel-santos-vatican/">gravou o bolero</a> “Santo José Gregorio”. Em resposta, a Igreja Católica pressionou a ditadura de Marcos Pérez Jiménez a proibir a música na Venezuela porque o Vaticano ainda não havia aprovado a canonização de Hernández. No entanto, a música continuou circulando, um lembrete de que a devoção e a cultura popular se movem mais rapidamente do que a aprovação eclesiástica.</p>
<p>Além disso, Hernández foi incorporado ao maior movimento espiritual popular da Venezuela, a devoção sincrética a María Lionza. Ele se tornou uma figura em uma das “cortes “espirituais do movimento — grupos reverenciados de espíritos reconhecidos por atributos específicos — e era especialmente venerado por seu poder de cura. Em países vizinhos, como a Colômbia, há até mesmo uma congregação autoproclamada de <i>gregorianos</i> (seguidores de José Gregorio) que realizam rituais em seu nome. Essas associações com o espiritismo e o mundo esotérico atrasaram seu reconhecimento formal pela Igreja. Em outubro, o presidente Nicolás Maduro chegou a <a href="https://www.youtube.com/watch?v=Y93W8KpErxU">criticar</a> publicamente autoridades eclesiásticas, incluindo o cardeal venezuelano Baltazar Porras, por tentar obstruir o processo. No final, porém, o fervor popular prevaleceu.</p>
<p>Hoje, com a intensificação da agressão imperialista contra a Venezuela, São José Gregório se tornou, sem dúvida, uma das figuras mais representadas na arte popular venezuelana, perdendo apenas para o herói nacional Simón Bolívar. Semanas antes de ser canonizado, centenas de murais, grafites e esculturas de Hernández apareceram em todo o país. Inúmeros <a href="https://www.aporrea.org/cultura/a346347.html">artistas</a> e artesãos criaram imagens dele, juntamente com obras de escultores e pintores famosos como Francisco Narváez, Marisol Escobar e Alirio Palacios, consolidando ainda mais seu lugar na consciência nacional. Outrora um símbolo religioso de solidariedade com os pobres e doentes, São José Gregório tornou-se uma expressão de orgulho nacional, unidade e insistência obstinada de um povo em sua própria dignidade diante da agressão imperialista.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">Um santo em tempos de paz e guerra</h3>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_133972" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-133972" class="wp-image-133972 size-large img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/art-bulletin-22-1-1024x768.jpg" alt="" width="1024" height="768" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/art-bulletin-22-1-1024x768.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/art-bulletin-22-1-300x225.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/art-bulletin-22-1-768x576.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/art-bulletin-22-1.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-133972" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Esquerda: Rosana Silva, <em>Goyito Miliciano</em>, 2025; direita: Giuliano Salvatore, <em>José Gregorio Hernández</em>, 2024.</small></p></div>
</div>
<p>São José Gregório é frequentemente considerado um homem de paz, uma noção alimentada não apenas por sua vida piedosa, mas também pelo fato de sua morte ter coincidido com a assinatura do Tratado de Versalhes, em 28 de junho de 1919, que encerrou a Primeira Guerra Mundial. Entre seus devotos, essa coincidência não é acidental, mas providencial: muitos acreditam que ele conscientemente ofereceu sua vida como um ato de intercessão para encerrar a guerra. No entanto, as ações do santo durante sua vida revelam não apenas um compromisso com a paz, mas também um profundo compromisso com a soberania nacional. Em 1902, quando a Grã-Bretanha, a Alemanha e a Itália impuseram um bloqueio naval à Venezuela para exigir o pagamento da dívida externa — um dos primeiros exemplos do tipo de diplomacia de canhoneira que vemos hoje — o presidente Cipriano Castro conclamou todos os cidadãos a se unirem e defenderem a pátria. De acordo com o historiador Miguel Yaber, São José Gregório foi o <a href="https://haimaneltroudi.com/jose-gregorio-hernandez-tambien-fue-miliciano/">primeiro homem a se alistar para as milícias</a> em seu escritório de recrutamento local, atendendo ao chamado de pegar em armas para defender seu país.</p>
<p>Talvez hoje — quando a Venezuela enfrenta mais uma vez um cerco imperialista, com mais de 8 milhões de venezuelanos se unindo voluntariamente às milícias populares para defender a soberania da nação — São José Gregório ainda tenha uma mensagem para seu povo: às vezes precisamos lutar para defender a vida e garantir a paz. A mesma imagem que antes representava uma devoção silenciosa agora é vista nos muros e faixas do bairro como uma declaração coletiva de que o povo venezuelano não se renderá.</p>
<p>Carlos Ron,<br>
Co-coordenador da Tricontinental Nuestra América</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O intelectual que não luta pela revolução em todos os momentos é um falso intelectual</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/boletim-arte-literatura-palestina/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ricardo Vaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 30 Nov 2025 03:00:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Boletim de Arte]]></category>
		<category><![CDATA[culture]]></category>
		<category><![CDATA[Mahmoud Darwish]]></category>
		<category><![CDATA[Ghassan Kanafani]]></category>
		<category><![CDATA[resistance literature]]></category>
		<category><![CDATA[Wisam Rafeedie]]></category>
		<category><![CDATA[literatura de resistencia]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Palestine]]></category>
		<category><![CDATA[Palestina]]></category>
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					<description><![CDATA[No meio do cerco imperialista cada vez mais intenso do governo Trump no Caribe, os venezuelanos passaram a ver o recém-canonizado São José Gregorio Hernández (1864–1919) como um símbolo de orgulho nacional, união e firmeza.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h4 style="text-align:center;">Boletim de arte n. 21 (Novembro 2025)</h4>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-132385 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/AB21_Header.jpg" alt="" width="950" height="550" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/AB21_Header.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/AB21_Header-300x174.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/AB21_Header-768x445.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></div>

<p class="single-post--content--text-small" style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=ZT16W-fV6uI&amp;list=RDZT16W-fV6uI&amp;start_radio=1">Ouça</a> “Ya Habib”, da banda palestina Darbet Shams, que inclui a letra: “Voltem, vocês estarão seguros. Não acreditem neles e não tenham medo. Nós construiremos nossa pátria”.</p>
<p>Em 29 de novembro de 1947, a Assembleia Geral das Nações Unidas adotou a Resolução 181, que preparou o terreno para a Nakba, um ato de limpeza étnica que confiscou 78% das terras palestinas, destruiu mais de 500 cidades e vilarejos, deslocou mais da metade da população e levou à criação do Estado de Israel. Setenta e oito anos depois, a luta pela libertação persiste, enquanto o genocídio israelense continua devastando a vida palestina. Ao longo desse extenso período de desapropriação e luta, o trabalho cultural tem sido fundamental para a resistência palestina. Um exemplo é a tradição de literatura de resistência, ou <i>adab al-muqawama</i> (أدب المقاومة), que surgiu das cinzas da Nakba e sustentou a identidade palestina, documentou a violência colonial e mobilizou a solidariedade internacional. Wisam Rafeedie é um dos muitos escritores que contribuíram para essa tradição. Seu romance, <i>A trindade dos fundamentos</i>, publicado originalmente em árabe em 1998, oferece reflexões profundas sobre a subjetividade revolucionária, o engajamento político e o papel da cultura na libertação nacional.</p>
<p>Publicado próximo ao Dia Internacional de Solidariedade com o Povo Palestino, em 29 de novembro, mesmo dia em que a Resolução 181 foi adotada, este boletim de arte examina a tradição da literatura militante palestina por meio da obra de Rafeedie e da recente tradução para o inglês de <a href="https://1804books.com/products/the-trinity-of-fundamentals?srsltid=AfmBOoqHa7GLbYxvapIL8UgJHIBSs5QNgY_VKmbL35jfdWqPt4zaRCay"><i>A</i> <i>trindade dos fundamentos</i></a> (2024), feita pelo Movimento da Juventude Palestina (MJP). Com base em uma entrevista com Kaleem Hawa, pesquisador e militante palestino do MJP, exploramos como a literatura de resistência tem funcionado como uma arma na luta pela libertação palestina.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">O papel da literatura de resistência palestina</h3>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_132405" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-132405" class="size-large wp-image-132405 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/01_ID-Card-1024x644.jpg" alt="" width="1024" height="644" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/01_ID-Card-1024x644.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/01_ID-Card-300x189.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/01_ID-Card-768x483.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/01_ID-Card.jpg 1400w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-132405" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Cartão de identificação de Wisam Rafeedie na prisão israelense.</small></p></div>
</div>
<p>A literatura de resistência palestina emergiu das condições impostas pelo colonialismo de povoamento sionista, apoiado pelo imperialismo ocidental. Hawa explica que os palestinos teorizam essas condições como tendo “pelo menos três características específicas: alienação de terras para acumulação primitiva; substituição populacional, ou limpeza étnica; e um regime racial que produz segregação e uma sociedade organizada com base na supremacia judaica”. Como o sionismo deseja instilar a derrota ideológica, a cultura desempenha um papel importante na resistência. Os palestinos reagem por meio de uma literatura que transmite seu compromisso político, ou <i>iltizam</i> (الْتِزام), e que pode incluir o compartilhamento de estratégias para defender a terra. “Nossa produção cultural também tem uma função ‘ofensiva’”, observa Hawa, “a de combater a propaganda sionista, expandir a base da luta popular e construir uma solidariedade internacional duradoura”.</p>
<p>Contra a dispersão e a desarticulação, a cultura une os palestinos em torno de tradições e histórias compartilhadas. Ghassan Kanafani, escritor palestino e membro da Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP), popularizou teorias sobre a literatura de resistência. Assassinado pelas forças israelenses em Beirute, em 8 de julho de 1972, Kanafani entendia a literatura de resistência como uma forma de produção cultural emergente de formações sociais periféricas engajadas na luta pela libertação nacional. Essa literatura abordava as realidades do sujeito palestino em condições de desapropriação e reconstituição. Para Kanafani, a literatura de resistência era uma literatura de compromisso político na tradição do <i>iltizam</i> árabe. Seu caráter revolucionário estava ligado tanto à produção quanto à circulação: ideias eram articuladas e compartilhadas coletiva e criativamente para combater a dessubjetivação e a desumanização sionistas. A literatura tornou-se uma arma, ou o que Kanafani <a href="https://1804books.com/products/the-trinity-of-fundamentals?srsltid=AfmBOoqHa7GLbYxvapIL8UgJHIBSs5QNgY_VKmbL35jfdWqPt4zaRCay">chamou</a> de “a queixa da perna amputada”.</p>
<p>O mundo árabe em geral tem sido essencial para a produção e disseminação de textos culturais palestinos, tanto literários quanto cinematográficos. Diante da limpeza étnica sionista e dos ataques a instituições produtoras de conhecimento, os palestinos recorreram à região em geral em busca de apoio estratégico. Hawa destaca a importância das editoras árabes, que apoiaram a produção de literatura de resistência palestina, incluindo Dar al-Adab e Dar al-Farabi em Beirute, Ittihad al-Kuttab al-’Arab em Damasco, Dar al-Ahliyyah em Amã e a Organização Geral Egípcia do Livro no Cairo. Além disso, o cinema revolucionário árabe das décadas de 1970 e 1980, produzido pela Organização Nacional de Cinema da Síria, gerou declarações políticas duradouras, como <i>Kafr Kassem</i> (1975), filmado na aldeia síria de al-Shaykh Saad, sobre o massacre de palestinos pelos sionistas em 1956, e <i>Al-Manam</i> (O Sonho, 1987), sobre as memórias coletivas de palestinos no exílio, filmado nos campos de refugiados do Líbano.</p>
<p>O regime sionista não só atacou implacavelmente locais de produção cultural palestina e árabe, como também destruiu espaços de convocação pública e memória coletiva, como demonstrado pelo saque dos arquivos da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) em Beirute, em 1982. No atual bombardeio indiscriminado no sul do Líbano, as forças armadas israelenses têm tido como alvo estratégico praças, mercados, mesquitas e bibliotecas, além de bases da resistência, com o objetivo de dispersar e isolar os palestinos dos espaços comunitários onde a cultura é trocada e desenvolvida. Esse ataque se dá tanto por meio da violência física quanto pela destruição institucional.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">Amor, revolução e vida</h3>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-132415 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/image-2.jpg" alt="" width="1000" height="600" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/image-2.jpg 1000w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/image-2-300x180.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/image-2-768x461.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px"></div>
<p>Wisam Rafeedie personifica a tradição do escritor militante, ou artista que integra uma organização política que luta pela libertação nacional. Ele ingressou na Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP) aos 16 anos. Após viver escondido por nove anos durante a Primeira Intifada, Rafeedie foi capturado pelas forças de ocupação israelenses em 1991. Recebeu uma sentença de 34 meses e foi mantido na prisão no deserto de al-Naqab, localizado ao sul do território da Palestina histórica.</p>
<p>Ali, Rafeedie escreveu <i>A trindade dos fundamentos</i>, em 1993, um romance narrado da perspectiva do protagonista Kan’an Subhi, um revolucionário palestino e membro do partido que se esconde durante um período de reconstituição da resistência na Cisjordânia. Além de “retratar suas lutas contra o tédio, o desespero e a frustração do isolamento, e sua maturação na luta, na disciplina e no compromisso político”, diz Hawa, “o romance também explora vários cenários de <i>tarakum</i> (acumulação política, تَرَاكُم) nesse período e trata principalmente da subjetividade revolucionária palestina, como co-constitutiva da construção de instituições populares e da libertação da mente”. A trindade de fundamentos que estrutura a vida de Kan’an no esconderijo é composta de amor, revolução e a própria vida.</p>
<p>A circulação do romance personifica a prática coletiva da resistência palestina. <i>A trindade dos fundamentos</i> espalhou-se pela prisão de al-Naqab, contrabandeada em cápsulas de comprimidos e dobrada em bolas atiradas pelas celas. Quando um guarda interceptou o manuscrito, Rafeedie acreditou que o havia perdido. Sem que ele soubesse, um companheiro de prisão de Gaza havia escrito à mão outra versão e a contrabandeado de al-Naqab para a prisão de Nafha, engolindo folhas dobradas em cápsulas de comprimidos. De lá, uma segunda cópia do manuscrito circulou pela maioria das prisões da Palestina, tornando-se um elemento básico do currículo do Movimento dos Prisioneiros Palestinos. O romance documenta momentos importantes da luta palestina, como a Primeira Intifada e a Guerra do Golfo, oferecendo aos leitores uma visão dos debates internos entre os partidos políticos palestinos durante esse período.</p>
<p>A trajetória de Rafeedie espelha a de outros trabalhadores culturais revolucionários: Kanafani, que escreveu romances enquanto editava a revista da FPLP, <i>al-Hadaf</i> [O alvo], e elaborava programas políticos; Mahmoud Darwish, que em 1988 escreveu a Declaração de Independência da Palestina enquanto atuava no comitê executivo da OLP (ele se demitiu em 1993 em protesto contra os Acordos de Oslo); e Kamal Nasser, poeta e chefe do departamento de mídia da OLP, martirizado pelas forças israelenses em Beirute em 10 de abril de 1973. Hawa observa que esses trabalhadores culturais e suas lutas mostram como o intelectual “que não luta pela revolução em todos os momentos é um falso intelectual, e seu intelecto é enganoso e superficial”, citando o teórico marxista libanês Mahdi Amel.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">Nosso povo não se quebra tão fácil</h3>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><div id="attachment_132425" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-132425" class="size-full wp-image-132425 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/03_Ilga.jpg" alt="" width="505" height="780" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/03_Ilga.jpg 505w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/03_Ilga-194x300.jpg 194w" sizes="auto, (max-width: 505px) 100vw, 505px"><p id="caption-attachment-132425" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Ilga (Palestina y Chile), <em>Palestina resiste</em>, 2016. [Cortesía de Utopix.]</small></p></div></div>
<p>Em 2023, vários membros do MJP formaram um comitê para editar coletivamente <i>A trindade dos fundamentos</i> em inglês. Publicada em janeiro de 2024 pela 1804 Books e traduzida por Muhammad Tutunji, a nova edição leva a obra de Rafeedie a públicos além do mundo árabe. “Nossa ideia era que esse romance continha diversas formas de conhecimento que seriam valiosas para aqueles que estão despertando para a consciência política e iniciando suas atividades nos movimentos estudantis e trabalhistas, ou em suas comunidades locais”, explica Hawa. “Relendo-o agora, em um momento de sadismo e destruição brutais e intermináveis ​​em Gaza, fico impressionada com o quão verdadeiro ele é como uma representação do revés e como pode nos ajudar a continuar a luta, a nos comprometermos novamente”.</p>
<p>O projeto de tradução exemplifica como a cultura revolucionária funciona hoje. Hawa descreve a característica mais importante como “a conexão entre a cultura jovem e a experiência coletiva dos idosos palestinos”. Depois que os Acordos de Oslo prejudicaram muitas instituições sociais e culturais palestinas por meio da cooptação da burguesia palestina, a juventude recorreu à produção de vídeos e a edição de diários em redes sociais para narrar sua experiência coletiva, incluindo seu sentimento de alienação e sua firmeza. Os idosos palestinos têm lutado contra as tentativas coordenadas dos governos árabes de fazê-los esquecer sua história. “Vemos essa conexão entre gerações e geografias como os ramos do nosso espírito de luta como palestinos, um espírito que precisa ser nutrido por novas instituições conectadas a uma base popular, à luta de massas, e que permaneçam, principalmente, firmes no direito inalienável dos palestinos de resistir ao sionismo”, afirma Hawa.</p>
<p>Um dos maiores desafios tem sido o escolasticídio e o epistemicídio em Gaza — a destruição total de repositórios culturais e intelectuais, como pessoas, instituições e arquivos. “O coração da Palestina e sua cultura revolucionária residem em Gaza, e a perda inimaginável desse conhecimento e prática acumulados representa um retrocesso de magnitude histórica”, afirma Hawa. Mesmo assim, os palestinos permanecem e resistem, escrevendo poesia, canções e testemunhos a partir da zona zero da eliminação sionista. O Centro Popular para a Palestina, a editora 1804 Books e a Liberated Texts concluíram recentemente a tradução de <a href="https://1804books.com/products/witness-to-the-hellfire-of-genocide?srsltid=AfmBOorRvyOEks2tmV_4ZrWRxeXe5pZV_LMx_wqTMMUdSI3Aq-SMl8vY"><i>Witness to the Hellfire of Genocide: A Testimony from Gaza</i></a> [Testemunha do inferno do genocídio: um testemunho de Gaza], de Wasim Said, publicado pela 1804 Books em outubro de 2025. O livro entrelaça relatos das atrocidades perpetradas em Gaza, narrados em parte da casa do autor em Beit Hanoun, agora arrasada. “O programa de contrainsurgência do sionismo busca destruir o espírito palestino — sua vontade de resistir e permanecer, sua promessa de retornar — e, no entanto, nosso povo não se quebra tão fácil”, afirma Hawa.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">Cultura é vida</h3>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-large wp-image-132435 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/portraits-1024x512.jpg" alt="" width="1024" height="512" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/portraits-1024x512.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/portraits-300x150.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/portraits-768x384.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/portraits.jpg 1400w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"></div>
<p>Para Hawa, a libertação palestina significa reconhecer que, “no mundo ocidental, a cultura é mercadoria, e a produção e circulação atuais são uma cultura de morte. De certa forma, isso é inevitável e estamos implicados nisso, mas acredito que há valor em uma prática coletiva, ainda que seja apenas para criar novos espaços para a expressão da cultura palestina, que em sua essência é sobre a vida”. Para os palestinos, a escrita é um canal para universos de pensamento e experiência separados das compreensões populares no Ocidente, uma conexão frágil e ameaçada.</p>
<p>O legado da literatura de resistência palestina — de Kanafani a Darwish e Rafeedie — nos convida a reconhecer a cultura como inseparável da luta política. <i>A trindade dos fundamentos</i>, escrito em cativeiro e contrabandeado por meio de ação coletiva, alcança agora novos públicos pelo trabalho dedicado da juventude palestina. Quase oito décadas após a Nakba, enquanto o genocídio continua em Gaza, a tradição da literatura militante nos lembra que o trabalho cultural permanece essencial para a libertação palestina. Como afirma Hawa, o papel do escritor militante hoje é permanecer engajado na luta; fortalecer o <i>sumud</i> (صُمُود) — o conceito palestino de firmeza e determinação em permanecer na terra; e resistir à colaboração com os regimes sionistas ocidentais e à normalização da violência e do genocídio. A solidariedade internacional construída por meio da literatura de resistência amplia a base da luta popular e mantém viva a promessa de retorno.</p>
<h3 class="western" style="margin:2em 0;">Em outras notícias…</h3>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><div id="attachment_131686" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-131686" class="size-full wp-image-131686 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/1_Kael-Abello-1.jpg" alt="" width="486" height="780" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/1_Kael-Abello-1.jpg 486w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/1_Kael-Abello-1-187x300.jpg 187w" sizes="auto, (max-width: 486px) 100vw, 486px"><p id="caption-attachment-131686" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Kael Abello (Venezuela), <em>Símbolos de resistencia</em>, 2024. [Cortesía de Utopix.]</small></p></div></div>
<p>No início deste mês, publicamos nosso mais recente dossiê, <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-resistencia-cultural-palestina/"><i>Apesar de Tudo: Resistência cultural por uma Palestina livre</i></a>, que examina como artistas palestinos responderam à conjuntura em transformação desde a Nakba por meio de seu trabalho cultural e político.</p>
<p>Em 30 de novembro de 2025, o Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, juntamente com a Assembleia Internacional dos Povos e a Utopix, organizarão um <a href="https://tinyurl.com/2xn2darm">webinar</a> para o lançamento do dossiê. O evento reunirá o romancista palestino Bassem Khandaqji, que foi preso pelo regime israelense por dezenove anos e foi recentemente libertado na troca de prisioneiros, o ator e cineasta palestino Mohammad Bakri e o artista visual chileno-palestino Rasan Abu Apara. Terei a honra de moderar o evento, que busca inspirar nosso trabalho contínuo de solidariedade, tanto cultural quanto político, até que a Palestina seja livre.</p>
<p>Cordialmente,</p>
<p>Tings Chak<br>
Diretora de Arte, Instituto Tricontinental de Pesquisa Social</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Fotografando o que há de mais humano em nós: a luta do Brasil pela terra e pela imagem</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/boletim-arte-mst-fotografia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ricardo Vaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 26 Oct 2025 12:48:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Boletim de Arte]]></category>
		<category><![CDATA[land struggles]]></category>
		<category><![CDATA[agroecology]]></category>
		<category><![CDATA[photography]]></category>
		<category><![CDATA[environment]]></category>
		<category><![CDATA[Sebastião Salgado]]></category>
		<category><![CDATA[agroecología]]></category>
		<category><![CDATA[fotografía]]></category>
		<category><![CDATA[luta pela terra]]></category>
		<category><![CDATA[meio ambiente]]></category>
		<category><![CDATA[Landless Workers’ Movement (MST)]]></category>
		<category><![CDATA[Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://thetricontinental.org/?p=129882</guid>

					<description><![CDATA[Ao longo do extenso período de limpeza étnica promovida pelo sionismo, da apropriação de terras e da migração forçada, os palestinos não deixaram de usar a produção cultural como ferramenta de resistência.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h4 style="text-align:center;">Boletim de arte n. 20 (Outubro 2025)</h4>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-129905 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/AB20_Header.jpg" alt="" width="950" height="550" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/AB20_Header.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/AB20_Header-300x174.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/AB20_Header-768x445.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></div>

<p class="single-post--content--text-small" style="text-align: center;"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=yajHSxmBT7M">Ouça</a> “Samba da Natureza”, de Lupércio.</p>
<p>Parte da luta pela terra é a luta pela imagem. Como aqueles que trabalham a terra, e como a própria terra, encontram expressão visual por meio dos modos dominantes de representação? Essa dupla luta é atualmente exemplificada por uma iniciativa organizada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), um dos maiores movimentos sociais e forças políticas do mundo. Este ano, o MST lançou uma campanha nacional de fotografia chamada <a href="https://mst.org.br/2025/06/16/mst-lanca-campanha-de-fotografias-em-homenagem-a-sebastiao-salgado/?utm_campaign=linkinbio&amp;utm_medium=referral&amp;utm_source=later-linkinbio&amp;fbclid=PAQ0xDSwM5aaxleHRuA2FlbQIxMQABpxTuSB9QqbSYfZlx3KZTZ2Zee8fzMHQodWdQhb_pH_IX7bx79eQ0vhD9lTwI_aem_BOlRpKosWcEJFS1GkNM32g"><i>Registros da Terra: o MST e os biomas brasileiros</i></a>, uma ofensiva político-cultural projetada para redefinir a relação simbólica entre humanidade e natureza. A campanha, que emerge da luta de décadas do movimento por terra, reforma agrária popular e transformação social, coloca a perspectiva dos trabalhadores sem terra no centro da crise ecológica global.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">A luta simbólica pela Terra</h3>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_129867" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-129867" class="wp-image-129867 size-large img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/01-Foto_Juliana-BarbosaIMG_0102-1024x682.jpg" alt="" width="1024" height="682" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/01-Foto_Juliana-BarbosaIMG_0102-1024x682.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/01-Foto_Juliana-BarbosaIMG_0102-300x200.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/01-Foto_Juliana-BarbosaIMG_0102-768x512.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/01-Foto_Juliana-BarbosaIMG_0102.jpg 1250w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-129867" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Crédito: Juliana Barbosa.</small></p></div>
</div>
<p><i>Registros da Terra</i> surgiu diretamente do Plano Nacional de 2020 do MST, <i>Plante Árvores, Produza Alimentos Saudáveis</i>. O plano aprofundou reflexões sobre temas ambientais e sua representação visual nos últimos cinco anos. Como nos explicou Janelson Ferreira, do setor de comunicação do MST, a iniciativa nasceu do reconhecimento de que a fotografia do movimento muitas vezes deixava a desejar e precisava mudar.</p>
<p>Ferreira assinala que, anteriormente, a identidade visual do movimento costumava se resumir a uma imagem genérica da natureza – “sempre aquela grande floresta com os bichinhos e tal, além de seres humanos”. Essa representação “não dialogava com aquilo que a gente compreendia e defendia como perspectiva”. Até mesmo imagens de agroecologia eram pouco imaginativas, como closes de mãos segurando sementes. Essas imagens suscitavam perguntas cruciais como: “mas que mão é essa? De que ser humano? É só a mão, não tem coração, não tem cabeça, não tem história. De onde vem essa pessoa?”</p>
<p>Dessa auto-reflexão emergiu um “salto qualitativo”, nas palavras de Ferreira, que mudou o foco para a relação concreta, real e política entre os povos sem-terra e os biomas do Brasil. Como afirmou Renata Menezes, militante do MST e uma das organizadoras do <i>Registros da Terra</i>, a campanha visa confrontar a ruptura entre seres humanos e natureza por meio da “disputa do simbolismo, da disputa das imagens”. Em outras palavras, a ideia é que o MST enfrente esse desafio concentrando-se na representação de seu projeto popular de reforma agrária e reafirmando a profunda conexão entre seres humanos, sociedade e natureza por meio das próprias imagens.</p>
<p>O objetivo é duplo: condenar e afirmar. Embora a campanha exponha o papel do agronegócio na destruição, no desmatamento e contaminação de fontes de água como “o destruidor dos nossos biomas”, sua missão central é mostrar a alternativa que o MST já está construindo. Menezes afirma:</p>
<blockquote><p>É olhar para essa dimensão de denúncia, que eu acho que é uma das coisas que a gente mais gostaria de trazer, porque a fotografia […] é uma forma da gente olhar o mundo, da gente se relacionar a partir das diferentes visões, diferentes lentes que estão colocadas sobre essa sociedade. Então, é claro que a gente precisa denunciar o modelo, mas é importante também que a gente possa, com essas lentes, afirmar a sociedade de acesso que a gente quer alcançar e como ela já existe em pequenos processos a partir da reforma agrária popular.</p></blockquote>
<p>Camponeses sem-terra, militantes do MST e seus apoiadores estão convidados a enviar fotografias para a campanha, interpretando os seguintes temas:</p>
<ul>
<li aria-level="1">MST: protegendo biomas por meio da luta pela terra;</li>
<li aria-level="1">Agroecologia como modelo de proteção da natureza;</li>
<li aria-level="1">Produzir alimentos saudáveis ​​para proteger a natureza;</li>
<li aria-level="1">Água, bem comum de todo o povo;</li>
<li aria-level="1">Agronegócio, destruidor dos nossos biomas.</li>
</ul>
<p>Menezes também destacou a importância de ressaltar todos os biomas brasileiros, da Caatinga semiárida ao Pampa no sul. Esta é uma escolha intencional para garantir que a representação da natureza não se limite “apenas à supervalorização da floresta densa, como a Mata Atlântica, como a Amazônia”, mas que inclua também a diversidade do Cerrado e outros ecossistemas cruciais.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">Massificação do cotidiano extraordinário</h3>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_129857" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-129857" class="size-large wp-image-129857 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/02-Agrofloresta-Foto_-Juliana-Barbosa-1024x724.jpg" alt="" width="1024" height="724" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/02-Agrofloresta-Foto_-Juliana-Barbosa-1024x724.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/02-Agrofloresta-Foto_-Juliana-Barbosa-300x212.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/02-Agrofloresta-Foto_-Juliana-Barbosa-768x543.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/02-Agrofloresta-Foto_-Juliana-Barbosa.jpg 1250w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-129857" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Crédito: Juliana Barbosa.</small></p></div>
</div>
<p>Um dos aspectos revolucionários desta campanha é o seu compromisso com a massificação da linguagem fotográfica. O MST não busca fotografias profissionais de galeria, mas sim autorretratos de sua própria luta. Como disse Menezes: “um dos sonhos que temos é romper com [o privilégio de] fotógrafos profissionais. Queremos construir um processo que faça desta campanha parte de uma massificação da linguagem [da fotografia] também dentro do movimento”.</p>
<p>O MST incentiva a participação em massa, desafiando ativamente a “posição dominante de que só faz foto quem é fotógrafo”. Em vez disso, Menezes enfatiza: “reforçamos muito que quem  tem ‘só’ um celular pode enviar fotos… A demanda é que qualquer pessoa possa enviar uma foto”. Essa prática democratiza o registro visual, valorizando a perspectiva dos camponeses que trabalham e defendem a terra. Os camponeses não são meros sujeitos fotografáveis, mas autores de suas próprias imagens, histórias e narrativas.</p>
<p>Os organizadores da campanha estão atualmente lidando com o desafio de curadoria que essa prática representa, buscando um equilíbrio delicado que priorize o conteúdo político em detrimento da perfeição técnica. Menezes reconheceu a necessidade de “construir um equilíbrio entre aquela imagem que, às vezes, tecnicamente, não está nos padrões (…) mas carrega um conteúdo e uma história, inclusive uma própria estética de quem tira foto com celular”. Esta é uma declaração política em si mesma: a estética da luta capturada por seus próprios militantes supera os padrões artísticos burgueses formais. A equipe de curadoria garante que o contexto político e histórico seja o principal equilibrador da coleção, incluindo trabalhos de companheiros no campo da fotografia, bem como de muitos militantes sem-terra do MST. Embora o prazo para o fim das inscrições ainda esteja em aberto, as fotografias recebidas até agora comprovam isso. São, em grande parte, retratos da vida cotidiana, “fotos que parecem carregar poesia dentro de si”. Elas são a realidade do “cotidiano extraordinário”.</p>
<p>Estas não são cenas pousadas. São testemunhos da colheita de alimentos, de uma reunião de grupo de base, de um simples momento de beleza testemunhando o voo de uma ave em extinção em um bioma ameaçado. O processo de moldar a própria visão para elevar e ampliar a autoconfiança coletiva e a identidade política dos trabalhadores rurais e dos defensores da terra está no cerne desta campanha fotográfica política.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">O legado do artista militante</h3>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_129847" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-129847" class="size-large wp-image-129847 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/03_Salgado-1024x576.jpg" alt="" width="1024" height="576" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/03_Salgado-1024x576.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/03_Salgado-300x169.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/03_Salgado-768x432.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/03_Salgado.jpg 1366w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-129847" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Direita: Ilustração do nosso mais recente dossiê do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-crise-ambiental/"><i>A crise ambiental como parte da crise do capital</i></a><i>.</i></small></p></div>
</div>
<p>A campanha também homenageia o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado (1944-2025), uma figura que simboliza o poder do artista militante colaborando com movimentos sociais. Salgado, cujo trabalho documenta a vida dos trabalhadores e as paisagens intocadas do planeta, tinha uma longa história de solidariedade e colaboração com o MST. Ele cobriu o massacre de Eldorado dos Carajás em 1996, por exemplo, no qual dezenove membros do MST foram assassinados pela polícia militar durante um protesto pacífico, e criou o livro de fotografias <i>Terra: Luta pelos sem terra</i> (1997), com prefácio de José Saramago e poemas de Chico Buarque. A renda da venda do livro ajudou a construir a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), do MST.</p>
<p>Ferreira reflete sobre esse legado quase três décadas depois, observando que <i>Terra</i> está presente em quase todas as secretarias e outros espaços do MST, tanto no país quanto no exterior. O trabalho serviu como um elemento crucial de unidade nacional e organização política, reforçando a “autoestima coletiva” dos próprios camponeses sem terra por meio da fotografia. Para ela, isso é o “algo de mais concreto” do legado de Salgado. “As pessoas [do MST] começam a se reconhecer… identificar-se nas obras, [é] um elemento importante de unidade (…) que, no fim das contas, cumpre um papel organizativo fundamental”.</p>
<p>Menezes enfatizou três pontos levantados no<a href="https://www.instagram.com/p/DPG4d4IjQQ4/"> evento comemorativo</a> realizado em homenagem a Salgado na ENFF: seus valores humanistas e seu compromisso com as histórias e lutas de diversos povos ao redor do mundo; seu cuidado com a natureza, concretizado por meio das ações do Instituto Terra, que dissemina a documentação fotográfica de Salgado pelo mundo para conscientizar e arrecadar recursos para o reflorestamento da Mata Atlântica; e seu profundo compromisso com a luta internacionalista praticada por meio da fotografia.</p>
<p>Menezes reiterou: “estamos sempre vigilantes”, como forma de honrar, dar continuidade e proteger seu legado de uma potencial despolitização. As fotos de Salgado também estão em nosso dossiê deste mês, “<a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-crise-ambiental/"><i>A crise ambiental como parte da crise do capital</i></a>“.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_129837" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-129837" class="size-large wp-image-129837 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/04-MST-_-Foto-Wellington-Lenon-1024x724.jpg" alt="" width="1024" height="724" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/04-MST-_-Foto-Wellington-Lenon-1024x724.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/04-MST-_-Foto-Wellington-Lenon-300x212.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/04-MST-_-Foto-Wellington-Lenon-768x543.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/04-MST-_-Foto-Wellington-Lenon.jpg 1250w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-129837" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Crédito: Wellington Lenon.</small></p></div>
</div>
<p>A campanha<i> Registros da Terra</i> do MST é uma continuação dessa vigilância. Ela não homenageia apenas o grande artista. Ela lança um poderoso chamado para que uma nova geração de artistas e ativistas militantes – os próprios trabalhadores sem-terra – pegue a câmera para condenar os crimes ambientais que testemunham e exaltar um possível modelo de coexistência entre humanos e natureza. Em outras palavras, a campanha os incentiva a se tornarem autores de uma nova história. É uma afirmação poderosa de que a luta pelo meio ambiente e pelo socialismo é também uma luta cultural e estética, um trabalho diário de poesia contra as narrativas e imagens brutais e hegemônicas do capital que estão destruindo nosso planeta. Esta campanha e esta perspectiva incorporam lindamente as palavras de Salgado: “Eu fotografo o que há de mais humano em nós: a luta, o sofrimento, mas também a resiliência e a esperança”.</p>
<p>Com resiliência e esperança,</p>
<p>Tings Chak<br>
Diretora de arte, Instituto Tricontinental de Pesquisa Social</p>
<p>P.S. Não se esqueça de conferir nossa <a href="https://utopix.cc/descargas/october-portraits-retratos-octubre/">galeria</a> de retratos do mês, homenageando revolucionários do mundo todo.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Xilogravuras contra o fascismo de Xangai à Cidade do México</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/boletim-de-arte-xilogravuras-antifascistas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ricardo Vaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 28 Sep 2025 03:00:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Boletim de Arte]]></category>
		<category><![CDATA[fascism]]></category>
		<category><![CDATA[Woodcuts]]></category>
		<category><![CDATA[fascismo]]></category>
		<category><![CDATA[Xilogravura]]></category>
		<category><![CDATA[world war II]]></category>
		<category><![CDATA[Novo Movimento da Xilogravura]]></category>
		<category><![CDATA[segunda guerra mundial]]></category>
		<category><![CDATA[Mexico]]></category>
		<category><![CDATA[Lu Xun]]></category>
		<category><![CDATA[China]]></category>
		<category><![CDATA[imperialismo]]></category>
		<category><![CDATA[Imperialism]]></category>
		<category><![CDATA[New Woodcut Movement]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://thetricontinental.org/?p=128858</guid>

					<description><![CDATA[Registros da Terra, uma campanha do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), incentiva os trabalhadores a pegarem a câmera para denunciar crimes ambientais e exaltar um possível modelo de coexistência entre humanos e natureza.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h4 style="text-align:center;">Boletim de arte n. 19 (Setembro 2025)</h4>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-128834 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/AB19_Header-1.jpg" alt="" width="950" height="550" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/AB19_Header-1.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/AB19_Header-1-300x174.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/AB19_Header-1-768x445.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></div>

<p class="single-post--content--text-small" style="text-align: center;">Escute “Song of the Guerrillas” (游击队之歌) composta por He Luting em 1937, popularizada entre grupos guerrilheiros chineses posicionados atrás das linhas japonesas.</p>
<p> </p>
<p>Enquanto estudava medicina em Sendai, Japão, entre 1904 e 1906, o intelectual e revolucionário chinês Lu Xun viu em uma palestra um slide com uma fotografia que mudou o curso de sua vida. A imagem retratava uma cena da Guerra Russo-Japonesa (1904-1905) na qual um chinês, acusado de espionar para os russos, estava amarrado e aguardava execução por soldados japoneses. Em vez de intervir ou demonstrar indignação ou pesar, um grupo de espectadores chineses assistia silenciosa e passivamente. Lu Xun, que mais tarde se tornou conhecido como o pai da literatura chinesa moderna, refletiu que o horror dessa cena não era a brutalidade da execução iminente em si, mas a total apatia dos espectadores chineses.</p>
<p>“O povo de um país fraco e atrasado”, <a href="https://www.marxists.org/archive/lu-xun/1922/12/03.htm">escreveu</a> Lu Xun no prefácio de sua obra <i>Na Han</i> [Chamado às Armas], de 1922, “por mais fortes e saudáveis ​​que sejam, só podem servir de exemplo ou de testemunhar tais espetáculos fúteis; e não importa quantos deles morram de doença”. Para ele, “o mais importante” era “mudar o espírito” em vez de curar o corpo do povo chinês, e “a literatura era o melhor meio para esse fim”. Com tais reflexões, Lu Xun decidiu abandonar os estudos médicos para construir um movimento literário que salvasse a nação. Essa necessidade de despertar a consciência nacional e anti-imperialista tornou-se cada vez mais urgente à medida que as forças imperialistas europeias e japonesas intensificavam suas agressões durante o “século da humilhação”, marcado pela Primeira Guerra do Ópio (1839-1842) e pela Guerra de Resistência dos Quatorze Anos contra a Agressão Japonesa (1931-1945).</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-128773 size-large img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/01_Lu-Xun-1024x1024.jpg" alt="" width="1024" height="1024" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/01_Lu-Xun-1024x1024.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/01_Lu-Xun-300x300.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/01_Lu-Xun-150x150.jpg 150w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/01_Lu-Xun-768x768.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/01_Lu-Xun.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"></div>
<p>Há oitenta anos, neste mês, a rendição das forças imperiais japonesas pôs fim à Segunda Guerra Mundial, ou talvez melhor denominada como a vitória da Guerra Mundial Antifascista. Entre 1931 e 1945, mais de 24 milhões de chineses <a href="https://dev.thetricontinental.org/asia/right-prevails-forever/">perderam</a> a vida, tornando o país um dos principais campos de batalha da Guerra Mundial Antifascista, ao lado da União Soviética, que sacrificou 27 milhões de vidas.</p>
<p>Essa resistência se deu não apenas nas linhas de frente, mas também no âmbito cultural. À sombra de bombardeios e bloqueios, uma geração de artistas recorreu a um meio humilde e antigo – a xilogravura – e a transformou em uma ferramenta de educação de massa, agitação e esperança. Isso ficou conhecido como o Novo Movimento da Xilogravura, uma corrente que surgiu nos círculos de vanguarda de Xangai na década de 1930 e posteriormente se enraizou na base revolucionária de Yan’an.</p>
<p>Embora mais conhecido por suas contribuições literárias na promoção de uma forma vernacular democratizada de escrita chinesa conhecida como <i>baihua</i>, Lu Xun também foi um importante defensor do Novo Movimento da Xilogravura. Acreditando que todas as formas artísticas eram necessárias para despertar uma sociedade entorpecida, ele via a xilogravura como um meio particularmente importante, de baixo custo, reprodutível e acessível à população, em sua maioria analfabeta. Em 1931 – na época em que as forças imperiais japonesas lançaram uma operação de bandeira falsa na China, que marcou o início da ocupação japonesa na China – Lu Xun organizou uma oficina de seis dias em Xangai, ministrado pelo gravador japonês Uchiyama Kakichi (1900-1984). A oficina contou com a participação de treze jovens artistas e foi considerada o ponto de partida do Novo Movimento da Xilogravura.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">Das Ruas de Xangai às Cavernas de Yan’an</h3>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_128783" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-128783" class="wp-image-128783 size-large img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/02_Ka%CC%88the-Kollwitz-The-Sacrifice-1922-1024x736.jpg" alt="" width="1024" height="736" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/02_Käthe-Kollwitz-The-Sacrifice-1922-1024x736.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/02_Käthe-Kollwitz-The-Sacrifice-1922-300x216.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/02_Käthe-Kollwitz-The-Sacrifice-1922-768x552.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/02_Käthe-Kollwitz-The-Sacrifice-1922.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-128783" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Käthe Kollwitz, <i>O Sacrifício,</i> 1922.</small></p></div>
</div>
<p>Com a <a href="https://news.cgtn.com/news/2025-08-16/Carving-history-Shanghai-exhibition-of-wartime-woodcut-art-1FSZJT3aZSU/p.html">exposição</a> <i>História da Escultura – Xangai e as Novas Narrativas em Xilogravura da Guerra de Resistência (1931-1949),</i> organizada pelo Museu de Arte da China, em Xangai, revisitamos a história desse movimento e seu lugar em uma história internacional mais ampla de artistas que esculpiram novos futuros a partir das ruínas da guerra. No início da década de 1930, a efervescência cultural de Xangai tornou-se o primeiro palco para o Novo Movimento da Xilogravura. Pequenas sociedades de arte radicais surgiram e publicaram gravuras em jornais de esquerda, as colaram em paredes e as exibiram em exposições improvisadas, recebendo influências de correntes políticas e artísticas internacionais da época.</p>
<p>Lu Xun traduziu pessoalmente textos teóricos e literários e colecionou e expôs obras de diversos artistas, muitos dos quais apresentou ao público chinês pela primeira vez. Entre eles, estavam a expressionista alemã Käthe Kollwitz (1867–1945), o artista gráfico socialista belga Frans Masereel (1889–1972), o gravador e ativista pela paz estadunidense Rockwell Kent (1882–1971) e vários gravadores soviéticos. As linhas pretas ousadas, a intensidade emocional e o foco na vida da classe trabalhadora desses artistas ofereciam uma linguagem visual para expressar o sofrimento e a resistência da própria China. Lu Xun defendia o 拿来主义, que significa tomar ou aprender seletivamente com o que era útil de outras culturas e artistas internacionais, a fim de construir uma arte e cultura nacional chinesa moderna enraizada no povo.</p>
<p>A influência desses artistas internacionais pode ser vista em muitas obras de gravadores chineses desse período, notavelmente em <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/triconart-boletim-ruja-china/">Ruja, China!</a> (1935), de Li Hua, que retrata uma figura musculosa amarrada em cordas, com os olhos vendados e gritando. As cordas simbolizam as opressões gêmeas do imperialismo e do feudalismo, o rugido, um chamado à libertação nacional que foi reproduzido em diferentes formas artísticas, ressoando com povos em todo o mundo colonizado. Embora a gravura chinesa remonte à Dinastia Tang, do século VII ao X, essas novas xilogravuras representaram um afastamento radical das gravuras tradicionais chinesas, como as gravuras decorativas de Ano Novo conhecidas como nianhua, que eram projetadas por elites de “cavalheiros eruditos” e reproduzidas por artesãos. No novo movimento, os artistas eram vistos como criadores politicamente comprometidos e estavam envolvidos no desenho, na escultura e na extração das gravuras.</p>
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<div id="attachment_128823" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-128823" class="wp-image-128823 size-large img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/03_Li-Hua-and-Hu-Yichuan-1024x502.jpg" alt="" width="1024" height="502" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/03_Li-Hua-and-Hu-Yichuan-1024x502.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/03_Li-Hua-and-Hu-Yichuan-300x147.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/03_Li-Hua-and-Hu-Yichuan-768x377.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/03_Li-Hua-and-Hu-Yichuan-1536x753.jpg 1536w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/03_Li-Hua-and-Hu-Yichuan.jpg 1695w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-128823" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Li Hua, <em>Ruja, China!</em>, 1935, e Hu Yichuan, <em>À Frente!</em>, 1932.</small></p></div>
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<p>Outro exemplo notável é <i>À Frente!</i> (1932), de Hu Yichuan, criado após o bombardeio japonês de Xangai, que mostra figuras avançando pelas muralhas irregulares da cidade, um grito de guerra pela mobilização. Usando apenas uma imagem para evocar simpatia ou raiva, essas xilogravuras foram criadas para incitar a ação e canalizar a raiva popular para as linhas de frente da luta anti-imperialista, cumprindo sua função de agitação e propaganda. Quando a invasão em larga escala do Japão eclodiu em 1937 no nordeste da China, muitos artistas de esquerda foram mobilizados para a causa anti-imperialista e deixaram as cidades costeiras ocupadas, como Xangai, para se reagruparem na base revolucionária do Partido Comunista em Yan’an. Durante esse período, o que era uma rede de vanguarda informal, focada nos centros urbanos de Xangai e Guangzhou, tornou-se um braço institucionalizado da teoria e prática artística e cultural do partido. Em 1937, a Academia de Artes Lu Xun foi fundada em <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-yanan-forum/">Yan’an</a> como centro de treinamento para uma geração de quadros das artes.</p>
<p>Essa mudança de Xangai para Yan’an marcou uma transformação profunda. A angústia expressionista da década de 1930 deu lugar à clareza e ao otimismo do realismo socialista, mesclados às cores vibrantes e às formas familiares das gravuras folclóricas rurais. A arte deixou de expor o sofrimento e passou a celebrar a resiliência camponesa, as vitórias da guerrilha e a reconstrução coletiva. Deixando de ser apenas críticos distantes, os artistas se tornaram quadros artísticos que viviam entre os camponeses, retratando suas vidas e ajudando a forjar uma nova cultura revolucionária.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">Um despertar do mundo colonial</h3>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_128793" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-128793" class="wp-image-128793 size-large img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/04_Chittoprasad-and-Zainul-1024x392.jpg" alt="" width="1024" height="392" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/04_Chittoprasad-and-Zainul-1024x392.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/04_Chittoprasad-and-Zainul-300x115.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/04_Chittoprasad-and-Zainul-768x294.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/04_Chittoprasad-and-Zainul.jpg 1400w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-128793" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Obras sem título de Chittoprosad e Zainul Abedin, c. 1943.</small></p></div>
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<p>Embora o Novo Movimento da Xilogravura tenha surgido a partir das circunstâncias particulares da China, ele fez parte de uma resposta continental e internacional mais ampla à ascensão do fascismo e da dominação colonial. Na Índia, a Associação de Escritores Progressistas (fundada em 1936) e a Associação de Teatro Popular Indiano (fundada em 1943) reuniram escritores e artistas para retratar as lutas de trabalhadores e camponeses, marcadamente a fome de Bengala em 1943, por meio das obras de Chittoprosad (1915-1978) e Zainul Abedin (1914-1976). No Vietnã, alunos formados da escola de arte colonial francesa utilizaram técnicas europeias em materiais locais, como laca e seda, para retratar a vida rural e a identidade nacional emergente, a fim de contestar o colonialismo e o imperialismo. Essas frentes culturais compartilhavam a crença de que a arte poderia fazer parte da mobilização de massa e da sobrevivência nacional, não apenas da contemplação estética.</p>
<p>Do outro lado do Pacífico, uma corrente paralela estava emergindo. Em 1937, os artistas Leopoldo Méndez, Luis Arenal e Pablo O’Higgins fundaram o Taller de Gráfica Popular (TGP) na Cidade do México. O TGP reviveu as tradições de gravura popular de José Guadalupe Posada (1852-1913), produzindo milhares de linogravuras e xilogravuras que condenavam a exploração de camponeses e trabalhadores, proprietários de terras corruptos e a brutalidade do fascismo europeu e do imperialismo estadunidense. Seu projeto antifascista mais monumental foi o livro de 1943 <i>El libro negro del terror Nazi en Europa</i> [O Livro Negro do Terror Nazista na Europa], que combinava depoimentos de testemunhas oculares com gravuras impactantes, incluindo <i>Deportación a la muerte</i> (Deportação para a Morte), de Méndez, de 1942, um dos primeiros retratos visuais dos trens da morte do Holocausto. Assim como os artistas da Nova Xilogravura, o TGP utilizou mídia acessível, produção coletiva e um propósito social claro, mostrando como a arte poderia servir como ferramenta de educação política e solidariedade.</p>
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<div id="attachment_128803" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-128803" class="wp-image-128803 size-large img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/05_Covarrubias-and-Ye-Qianyu-1024x415.jpg" alt="" width="1024" height="415" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/05_Covarrubias-and-Ye-Qianyu-1024x415.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/05_Covarrubias-and-Ye-Qianyu-300x122.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/05_Covarrubias-and-Ye-Qianyu-768x312.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/05_Covarrubias-and-Ye-Qianyu.jpg 1400w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-128803" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Esquerda: Miguel Covarrubias, <em>Las dos caras del General Franco</em> (As duas faces do general Franco), 1950; Direita: O cartunista Ye Qianyu e o soldado da Força Aérea Le Yiqin, em uma exposição de “Caricaturas para a Salvação Nacional”, 1937.</small></p></div>
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<p>Apesar das enormes distâncias físicas e culturais entre o México e a China, no início da década de 1930 Lu Xun já havia apresentado aos leitores chineses as correntes culturais e políticas mexicanas. Em 1931, ele publicou o mural de Diego Rivera, <i>La noche de los pobres</i> [A noite dos pobres, 1928], na revista literária chinesa Beidou, elogiando seu caráter público e popular. Enquanto isso, a florescente tradição moderna de caricaturas na China, conhecida como manhua, com figuras como Zhang Guangyu e Ye Qianyu, foi influenciada pelas visitas do caricaturista mexicano Miguel Covarrubias a Xangai em 1930 e 1933.</p>
<p>Embora gravadores chineses e mexicanos tivessem pouco contato direto na época, esses artistas desenvolveram abordagens notavelmente similares. Ambos escolheram a xilogravura de baixo custo, reprodutível e emocionalmente direta como um “meio popular”. Ambos rejeitaram formas de arte de elite em favor de imagens ousadas em preto e branco da luta coletiva e da dignidade humana. Juntos, esses desenvolvimentos e conexões fazem parte das emergentes linguagens visuais internacionalistas e socialistas de solidariedade e resistência anti-imperialista e antifascista que surgiram independentemente em todo o mundo colonizado em resposta a condições semelhantes.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><div id="attachment_128813" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-128813" class="wp-image-128813 size-large img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/06_Colectivo-Subterra%CC%81neos-1024x576.jpg" alt="" width="1024" height="576" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/06_Colectivo-Subterráneos-1024x576.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/06_Colectivo-Subterráneos-300x169.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/06_Colectivo-Subterráneos-768x432.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/06_Colectivo-Subterráneos.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-128813" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Esquerda: Coletivo Subterráneos, <em>Cucarachas fascistas</em> [Baratas fascistas], 2025; Direita: Coletivo Subterráneos, <em>Los nadies</em> [Os ninguém], 2023.</small></p></div></div>
<p>Nosso mais recente dossiê do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-mexico-quarta-transformacao/"><i>México e sua Quarta Transformação</i></a>, apresenta obras de arte do <a href="https://www.instagram.com/subterraneos.oax/?hl=en">Coletivo Subterráneos</a>, um grupo cultural mexicano fundado em Oaxaca em 2021 que se inspira diretamente nas tradições do TGP e do muralismo mexicano. Sua série de murais e gravuras <i>Los Nadies</i> homenageia comunidades indígenas e mestiças apagadas pelo colonialismo e capitalismo, enquanto <i>Cucarachas fascistas</i> satiriza elites autoritárias como insetos grotescos, herdando as formas e práticas visuais de antigas tradições da arte política mexicana.</p>
<p>Oitenta anos após o mundo celebrar a derrota do fascismo, lembramos os jovens artistas, desde os xilógrafos de Xangai até os gravadores da Cidade do México, que viam a arte não como um objeto, mas como uma prática viva de solidariedade e memória, e como uma ferramenta essencial nos processos de transformação social revolucionária. Como Lu Xun sabiamente <a href="https://archive.nytimes.com/www.nytimes.com/books/97/05/11/reviews/21513.html?scp=114&amp;sq=a%20doll%27s%20house&amp;st=cse">escreveu</a> na época do Terror Branco, da censura intensificada e do fascismo ascendente: “Mentiras escritas com tinta não podem esconder uma realidade escrita com sangue”. Hoje, oito décadas após a vitória internacional sobre o fascismo, que as imagens e a palavra escrita ajudem a preservar a memória dessa luta histórica para as gerações futuras.</p>
<p>Cordialmente,</p>
<p>Tings Chak<br>
Diretora de Arte, Instituto Tricontinental de Pesquisa Social</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
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