<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss version="2.0"
	xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/"
	xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/"
	xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/"
	xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom"
	xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/"
	xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/"
	>

<channel>
	<title>Feminismos | Tricontinental: Institute for Social Research</title>
	<atom:link href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/estudos/feminismos-pt/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" />
	<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/estudos/feminismos-pt/</link>
	<description>international, movement-driven institution focused on stimulating intellectual debate that serves people’s aspirations.</description>
	<lastBuildDate>Sat, 04 Oct 2025 22:49:47 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-PT</language>
	<sy:updatePeriod>
	hourly	</sy:updatePeriod>
	<sy:updateFrequency>
	1	</sy:updateFrequency>
	
	<item>
		<title>Josie Mpama</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/estudos-feminismos-5-josie-mpama/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[ariana]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 Mar 2023 10:49:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Feminismos]]></category>
		<category><![CDATA[colonialismo]]></category>
		<category><![CDATA[Federação das Mulheres Sul-Africanas]]></category>
		<category><![CDATA[feminism]]></category>
		<category><![CDATA[Josie Mpama]]></category>
		<category><![CDATA[feminist]]></category>
		<category><![CDATA[feminismo popular]]></category>
		<category><![CDATA[feminista]]></category>
		<category><![CDATA[Internacional Comunista]]></category>
		<category><![CDATA[Josie Palmer]]></category>
		<category><![CDATA[Communist Party of South Africa]]></category>
		<category><![CDATA[Federation of South African Women]]></category>
		<category><![CDATA[África do Sul]]></category>
		<category><![CDATA[apartheid]]></category>
		<category><![CDATA[Feminismo]]></category>
		<category><![CDATA[Partido Comunista da África do Sul]]></category>
		<category><![CDATA[Colonialism]]></category>
		<category><![CDATA[organização popular]]></category>
		<category><![CDATA[south africa]]></category>
		<category><![CDATA[Universidade Comunista dos Trabalhadores do Leste]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://thetricontinental.org/?p=75279</guid>

					<description><![CDATA[Este estudo discute a vida e as lutas políticas de Josie Mpama, uma líder na resistência contra a opressão colonial e o sistema de apartheid na África do Sul.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="wp-image-75302 alignnone img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-0.jpg" alt="" width="1000" height="1000" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-0.jpg 1417w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-0-300x300.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-0-1024x1024.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-0-150x150.jpg 150w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-0-768x768.jpg 768w" sizes="(max-width: 1000px) 100vw, 1000px"></div>
<div class="single-post--content--image-acknowledgments">Poucas fotografias de Josie Mpama podem ser encontradas nos arquivos ou online. A arte neste estudo recupera a presença amplamente desconhecida de Josie em importantes espaços políticos e processos dentro das lutas anticoloniais e anti-apartheid nas quais ela desempenhou um papel importante. Sua figura é recortada, um reconhecimento de que, devido às condições materiais e políticas de então e agora, hoje temos poucos registros visuais de seu envolvimento na formação da história da África do Sul. A arte coloca Josie em momentos políticos importantes, refletindo a tentativa do estudo de recuperar um legado que foi “ignorado e amplamente excluído do registro histórico convencional”, como escrevemos na introdução.</div>
<p>O século 20 foi marcado pelas lutas de libertação nacional que surgiram na África e na Ásia, assim como na América Latina, em que as estruturas neocoloniais haviam subordinado os países formalmente independentes. As conquistas da Revolução Russa de 1917 inspiraram o campesinato e a classe trabalhadora em todo o Sul Global. A luta pela igualdade e libertação sob a liderança dos trabalhadores continua nas lutas anti-imperialistas de nosso tempo. As mulheres, de inúmeras maneiras, moldaram vigorosamente e continuam a moldar todas essas lutas.</p>
<p>Na série <em>Mulheres de Luta, Mulheres em Luta</em>, do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, apresentamos as histórias de mulheres lutadoras que contribuíram não apenas mais amplamente para a política, mas também foram pioneiras no estabelecimento de organizações de mulheres, abrindo caminhos de resistência e luta feminista ao longo do século 20.</p>
<p>A práxis, como conhecimento da teoria e dos métodos de organização de luta conforme mudam e respondem à história, dá sustentação às lutas contínuas contra a opressão. Como militantes, estudamos as diversas vidas, contextos e métodos organizacionais dessas mulheres não apenas para entender melhor suas contribuições políticas, mas também para nos inspirar enquanto construímos as organizações necessárias para vencer a luta contra a atual opressão e a exploração.</p>
<p>No quarto estudo desta série, discutimos a vida e as lutas políticas de Josie Mpama (1903–1979), uma liderança na resistência contra a opressão colonial e o sistema de <em>apartheid </em>na África do Sul. Josie foi uma figura chave na história das mulheres lutadoras na África do Sul e uma liderança do Partido Comunista da África do Sul. Sua vida nos ensina sobre a importância da organização de base e de massas, bem como os desafios que acompanham esse trabalho. Como tantas mulheres envolvidas na política radical, particularmente no Sul Global, as extraordinárias contribuições políticas e perspicácia teórica de Josie foram negligenciadas e amplamente excluídas do registro histórico dominante.</p>
<hr class="single-post--content--separator-section">
<p>Nascida Josephine Winifred Mpama, em 21 de março de 1903, Josie – como era conhecida por familiares, amigos/as e camaradas – chegou a ter muitos nomes em função das manobras que precisava realizar em diferentes contextos. Onde a língua inglesa dominava e permitia maior mobilidade social e econômica, seu sobrenome foi anglicizado e ela atendia por Josie Palmer. Em outras ocasiões, quando ela estava com seu companheiro, Edwin, com quem tinha uma união estável, e a política de respeitabilidade entrava em jogo, ela utilizava o sobrenome dele e se tornava Sra. Mofutsanyana. Em trabalhos mais secretos, seus pseudônimos conhecidos incluíam Winifred Palmer, Beatrice Henderson e Red Scarf.</p>
<p>Josie nasceu um ano após o fim da Guerra da África do Sul (1899–1902), durante a qual o Império Britânico e os Boers (descendentes de colonizadores holandeses) lutaram pelo controle da região. Ela cresceu e se tornou politicamente ativa durante um dos períodos políticos mais tumultuados da história de seu país, quando a minoria branca tentava consolidar seu controle sobre a terra, o trabalho e o poder político. Ao mesmo tempo, profundas mudanças e conflitos também ocorriam no cenário político e econômico internacional: antes de completar 40 anos, Josie viveria a Primeira Guerra Mundial, a Revolução Russa, a Grande Depressão, a formação da Internacional Comunista (Comintern), a ascensão do fascismo europeu e a eclosão da Segunda Guerra Mundial.</p>
<p>Embora o Tratado de Vereeniging, assinado em 31 de maio de 1902, tenha encerrado a guerra entre o Império Britânico e os bôeres, a paz não se fez presente na África do Sul. Durante as décadas que se seguiram, foram lançadas as bases para a ascendência sistemática e estrutural do domínio branco e da segregação racial, expropriação de terras e imposição de mão de obra migrante barata. O estabelecimento da União da África do Sul em 1910, que consolidou várias colônias britânicas e assentamentos bôeres em um estado unitário, iniciou uma fase que construiu as bases para o surgimento do sistema de <em>apartheid </em>de governança racialmente segregada. A aplicação mais intensa desse sistema viria após a vitória eleitoral de 1948 do Partido Nacional Africânder branco de direita, cujos líderes, como John Vorster, tinham conexões diretas com o fascismo alemão.</p>
<p>Em meio a essas convulsões políticas mais amplas, a jovem Josie experimentou em casa turbulência pessoal e pobreza. Aos sete anos, seus pais se divorciaram, iniciando uma longa batalha por custódia e um período em que ela passou continuamente entre os cuidados de diferentes familiares, alguns dos quais eram altamente abusivos (Mpama, 2003). Sua família operária também estava dividida pelas categorias raciais impostas pelo Estado colonial: seu pai era zulu e trabalhava como intérprete da corte, enquanto sua mãe era designada como “de cor” e trabalhou como empregada doméstica por vários anos, embora estivesse entre as mais bem pagas.<a href="#_prol_ftn1" name="_prol_ftnref1"><sup>1</sup></a> De acordo com a designação do Estado, Josie era considerada “de cor”, o que significava que ela poderia ter escolhido viver separada e “acima” da maioria africana, aceitando vantagens econômicas e políticas, por mais limitadas que fossem, de acordo com a hierarquia racial imposta pelo sistema do <em>apartheid</em>. Em vez disso, Josie rejeitou e escolheu se identificar e trabalhar entre os africanos durante toda a sua vida, vivendo em comunidades predominantemente africanas da classe trabalhadora ou em áreas racialmente diversas, como Sophiatown, que desafiava a segregação sancionada pelo Estado.</p>
<p>Josie chegou à militância por meio de protestos da comunidade por melhores condições e direitos de moradia durante o final dos anos 1920 e início dos anos 1930 em sua cidade natal, Potchefstroom, localizada a cerca de 120 quilômetros a sudoeste de Joanesburgo. Foi lá, nas trincheiras da luta, que ela se tornou uma das primeiras mulheres negras a ingressar no Partido Comunista da África do Sul (PCAS) em 1928 e, posteriormente, a ocupar um alto cargo de liderança no partido.<a href="#_prol_ftn2" name="_prol_ftnref2"><sup>2</sup></a> O movimento comunista influenciou profundamente seu pensamento e ação. Em uma comemoração da Revolução Russa organizada pelo CPSA em novembro de 1932, Josie afirmou a relevância da revolução para “todos os trabalhadores, independentemente da cor”, e continuou a ter profunda admiração pelo projeto soviético até sua morte (Edgar, 2020, p. 133, 221).</p>
<p>Na década de 1930, Josie se envolveu na seção sul-africana da Ajuda Vermelha Internacional do Comintern, conhecida como <em>Ikaka la Basebenzi</em> [escudo dos trabalhadores], criada em 1931 após o assassinato do militante comunista Johannes Nkosi pela polícia em um protesto em Durban.<a href="#_prol_ftn3" name="_prol_ftnref3"><sup>3</sup></a> Alguns anos depois, Josie viajou para a União Soviética e ganhou mais experiência em primeira mão com o Comintern.</p>
<p>Embora algumas de suas contribuições mais importantes tenham sido feitas para as campanhas nacionais contra a Lei do Passe do <em>apartheid</em>, seu foco na organização de mulheres, como ser fundadora da Federação Multirracial de Mulheres Sul-africanas (FEDSAW, sigla em inglês) em 1954, é particularmente significativo. Josie foi uma das poucas a defender publicamente o aumento da participação política das mulheres e o avanço das mulheres da classe trabalhadora, e foi uma das primeiras mulheres negras a falar publicamente sobre as conexões entre gênero, raça e classe (Edgar, 2020, p. 113 e 128; Lodge, 2021, p. 313; Roth, 1996, p. 122).</p>
<p>Devido a vários preconceitos – antigos e atuais – sobre quem pode ser considerado intelectual e o que é o trabalho intelectual, os papéis de Josie como intelectual orgânica, pensadora política e líder são frequentemente negligenciados.<a href="#_prol_ftn4" name="_prol_ftnref4"><sup>4</sup></a> Embora sua educação em teoria marxista fosse um tanto informal e irregular por natureza, ela valorizava claramente a necessidade da luta de classes organizada. Para Josie, a teoria e a ideologia serviam ao seu propósito na medida em que avaliavam as realidades e condições concretas para dar base ao plano de ação. Embora guiada pela linha partidária, como observa seu biógrafo Robert R. Edgar, “ela não hesitava em assumir posições independentes e criticar duramente as políticas do PCAS, que ela acreditava não estarem enraizadas nas realidades sul-africanas” (Edgar, 2020, p. 131).</p>
<p>Como muitos intelectuais orgânicos, Josie chegou à política por meio de suas experiências, no caso dela, crescendo sob o domínio branco na África do Sul do <em>apartheid </em>e participando de protestos comunitários. Encontrando o marxismo e a teoria revolucionária em cacos e fragmentos, ela – como muitos intelectuais orgânicos e organizadores políticos do Sul Global durante a era da libertação nacional – integrou os conceitos que aprendeu e os aplicou ao seu contexto específico para promover a luta popular.<a href="#_prol_ftn5" name="_prol_ftnref5"><sup>5</sup></a></p>
<p>Fora de sua vida política pública, ela assumiu tantos papéis quanto nomes, incluindo os de mãe, avó e, em seus últimos anos, militante comunitária eclesial e curandeira popular. Em última análise, seu compromisso duradouro de mudar a realidade social de seu povo foi baseado em sua afeição genuína por sua comunidade e estimulado por uma estrutura de revolução social.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<p><img decoding="async" class="wp-image-75166 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-1.jpg" alt="" width="680" height="680" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-1.jpg 680w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-1-300x300.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-1-150x150.jpg 150w" sizes="(max-width: 680px) 100vw, 680px"></p>
<div class="single-post--content--caption-block">
<p class="single-post--content--caption-block--text">Os protestos contra a taxa cobrada de inquilinos em Potchefstroom no final da década de 1920 frequentemente se opunham às autoridades do município, fotografados à distância. Essas foram experiências políticas formativas para Josie.</p>
<p class="single-post--content--caption-block--credit">Fotografia de referência de Gawie van der Walt, proveniente de Lennie Gouws.</p>
</div>
</div>
<h2 style="margin:3em 0;">Servindo a florescente economia branca</h2>
<p>Durante a virada do século 20, homens africanos de áreas rurais na África do Sul e países vizinhos foram atraídos para o emergente centro industrial de Joanesburgo como mão de obra para as minas da cidade. Somente os homens eram autorizados a realizar esse tipo de trabalho e, ao chegarem, viviam em conjuntos semi carcerários de trabalhadores, remunerados a uma taxa tão baixa que não podiam sustentar suas famílias em casa. A criação da moderna África do Sul estava enraizada em uma organização segregada e segmentada do trabalho, contando não apenas com a exploração implacável de uma maioria racializada da classe trabalhadora, mas também se beneficiando substancialmente das divisões de gênero do trabalho dentro dessa força de trabalho. Como a principal jornalista e comunista sul-africana Ruth First escreveu em 1978:</p>
<blockquote><p>É um sistema de mão de obra barata, de mão de obra migrante, que primeiro arrasta os homens para fora das reservas rurais para servir à economia branca, depois os retira dessa economia quando estão velhos e doentes demais para trabalhar; manda-os embora, de volta às reservas quando estão desempregados. Assim, os governantes brancos se absolvem simultaneamente de qualquer responsabilidade pelos idosos, doentes, desempregados e suas famílias; e removem a fonte de revolta da classe trabalhadora.</p>
<p>…</p>
<p>São as mulheres que carregam os fardos mais pesados desse sistema migratório. Elas são deixadas para trás com o fardo da família; e são deixadas para trás como produtoras, para manter a agricultura funcionando. Assim, elas são responsáveis tanto pela família quanto pela produção (First, 2006, p. 300).</p></blockquote>
<p>Esse trabalho consistia não apenas em cuidar de jovens e idosos doentes e desempregados, para garantir que famílias e comunidades sobrevivessem nas “reservas” rurais africanas (conceito retirado das reservas indígenas dos Estados Unidos), mas, posteriormente, também incluía o trabalho reprodutivo doméstico e social que era essencial para manter a classe dominante branca.</p>
<p>Embora as mulheres africanas tenham sido inicialmente excluídas das indústrias florescentes, as duras condições nas reservas rurais – juntamente com o fato de receberem pouca ou nenhuma remessa de seus parentes homens urbanos – acabaram levando-as a procurar trabalho ou meios de subsistência nas cidades. A maioria trabalhava como empregada doméstica, cervejeira, pequena comerciante e lavadeira. A precariedade e os baixos salários caracterizavam esse novo exército de reserva de mão de obra precária, que foi empurrado para as periferias das cidades e fortemente controlado e policiado.</p>
<p>No início da adolescência, Josie se juntou a essa força de trabalho informal, assumindo uma variedade de empregos domésticos precários e de curto prazo, como lavar roupas, limpar casas e cozinhar, além de dois aprendizados de costura. Ela ganhava salários extremamente baixos, em parte devido à sua pouca idade.</p>
<p>Após a Guerra da África do Sul, os britânicos e os bôeres (ou africâneres) firmaram uma aliança para estabelecer a União da África do Sul em 1910 e promulgar um sistema de leis opressivas e processos discriminatórios para consolidar o domínio branco. Famílias, lares, trabalho e terras africanas foram visados de várias maneiras, principalmente por meio do sistema instaurado pela Lei do Passe, que impôs várias restrições à maioria africana e sua capacidade de viver nas cidades, circular livremente e trabalhar. O sistema incluía medidas que criminalizavam as greves para os trabalhadores africanos, proibindo-os de certos tipos de emprego e fornecendo-lhes menos compensações por lesões do que os seus homólogos brancos. Essas políticas buscavam controlar e limitar sua capacidade de trabalhar em áreas urbanas, que tinham o maior potencial de ganho salarial, e limitar sua existência social e, em última instância, política. No entanto, as leis de aprovação também foram usadas para garantir um suprimento barato de mão de obra em cidades designadas quase exclusivamente para a florescente economia branca. Em vários pontos, o sistema de <em>apartheid </em>foi aplicado por meio de policiamento sistemático e do uso de cadernetas de passe, que os africanos tinham que carregar o tempo todo e que continham informações de identificação pessoal, incluindo detalhes biométricos e de emprego. Sob esse regime, os africanos estavam sujeitos à constante vigilância, assédio e ameaça de multa ou prisão.</p>
<p>A resistência popular e organizada para aprovar leis surgiu em todo o país no início da década de 1910, sendo uma das primeiras a histórica campanha liderada por mulheres em 1913 em Bloemfontein. Embora essas lutas tenham conseguido obter concessões em alguns casos, o sistema da Lei de Passes continuou a se expandir. A Lei dos Nativos (Áreas Urbanas), aprovada em 1923, abriu caminho para o reforço do sistema de controle de fluxo que se desenvolveria durante a era do <em>apartheid</em>, que restringiu ainda mais os movimentos e a conduta dos africanos nas áreas metropolitanas. Sob a lei de 1923, os africanos foram definidos como “peregrinos temporários” que só eram permitidos nas cidades na medida em que servissem “às necessidades da população branca”, como afirma a lei.<a href="#_prol_ftn6" name="_prol_ftnref6"><sup>6</sup></a> Embora as leis promulgadas em 1902 e 1913 já tivessem estabelecido as bases para a segregação racial e desapropriação de terras (alocando menos de 10% das terras aráveis para os africanos), a Lei dos Nativos de 1923 deu às autoridades locais maiores poderes para impor controles dentro de seus municípios.<a href="#_prol_ftn7" name="_prol_ftnref7"><sup>7</sup></a>Foi nesse contexto que Josie fez sua estreia política.</p>
<h2 style="margin:3em 0;">Resistência em Potchefstroom</h2>
<p>Potchefstroom foi um reduto político para o projeto de colonização africâner e, mais tarde, para o sistema do <em>apartheid</em>. Ao contrário de Bloemfontein, onde as lutas anti-passe se desenvolveram em um contexto de escassez de mão de obra, as lutas em Potchefstroom aconteceram pelo excesso de mão de obra (Wells, 1994, p. 66). Em uma tentativa de controlar a crescente população africana na área, o governo colonial impôs uma série de restrições, incluindo toque de recolher noturno e taxas de serviços públicos (como a construção de encanamentos de água), muitas das quais afetaram profundamente as mulheres africanas.</p>
<p>Fartas da onda de restrições e do aumento dos custos da sua vida cotidiana, em 28 de setembro de 1927, um grupo organizado de cerca de 200 mulheres africanas marchou contra o fechamento dos poços de água. As mulheres, muitas das quais ganhavam a vida lavando roupas de famílias brancas, marcharam até o magistrado local com uma faixa vermelha, branca e azul com as palavras “Por Misericórdia”, para mostrar seu descontentamento (Edgar, 2020, p. 65).</p>
<p>O Estado promulgou tais medidas para extrair receita das famílias africanas para cobrir <em>déficits </em>financeiros públicos que, de outra forma, teriam de ser pagos pelas famílias brancas (Edgar, 2020, p. 68-69). A oposição mais intensa surgiu em resposta à política de permissão do inquilino, que exigia que qualquer pessoa com mais de 18 anos morando em uma casa de propriedade de outra pessoa se registrasse e pagasse às autoridades municipais uma licença mensal. Isso significava que os próprios filhos e parentes tinham que pagar uma taxa mensal para morar na casa de sua família. Aqueles que não pagaram enfrentaram processos, despejos e expulsões, minando ainda mais a coesão social da família africana já desfeita pelo sistema de trabalho migrante.</p>
<p>Ao lado de outros líderes comunitários e quadros comunistas (incluindo Edwin Thabo Mofutsanyana, que mais tarde se tornou seu marido), Josie liderou protestos importantes contra o município local e moradores brancos em relação às autorizações do inquilino, incluindo uma campanha de resistência passiva que exigia a recusa em pagar a taxa. As mulheres foram particularmente criativas e resilientes durante esse período, usando várias táticas de resistência coletiva, como devolver rapidamente os moradores despejados e seus móveis de volta para suas casas (Wells, 1994, p. 84). Embora os protestos tenham começado espontaneamente, o PCAS forneceu apoio organizacional e legal, bem como direção política ao movimento. Em 1928, o crescente PCSA local tinha cerca de mil membros, com Josie entre as primeiras recrutadas nessa onda (Edgar, 2020, p. 54; Lodge, 2021, p. 222).</p>
<p>Antes de uma reunião massiva de mais de 500 pessoas realizada em 16 de dezembro de 1929, com o objetivo de agitar e recrutar pessoas para lutar contra o regime racista, os panfletos do PCAS declararam:</p>
<blockquote><p>Venham aos milhares! Trabalhadores africanos! Vocês não têm armas ou bombas como seus mestres, mas têm seus números; vocês têm seu trabalho e o poder de organizá-lo e recusá-lo. Estas são suas armas; aprenda a usá-las, colocando assim o tirano de joelhos (Edgar, 2020, p. 82-83).</p></blockquote>
<p>A luta em Potchefstroom atingiu o pico em janeiro de 1930, quando uma greve geral fechou grande parte da cidade. As mulheres africanas lideraram o ataque, organizando piquetes, bloqueando estradas importantes e impedindo outros africanos de irem trabalhar.</p>
<p>Embora essas lutas tenham criado obstáculos para as autoridades locais, que finalmente capitularam e retiraram as taxas de permissão do inquilino em maio de 1931, em maio de 1930 a resistência ativa havia diminuído, a organização do partido quase deixou de existir e Josie foi forçada a deixar a cidade (Wells, 1994, p. 84-85). As autoridades brancas usaram a luta em Potchefstroom como um experimento para melhorar os mecanismos de controle, que encontrariam expressões novas e mais duras nos anos posteriores.</p>
<p><strong> </strong>As lutas comunitárias que se desenrolaram em torno da resistência às autorizações de inquilino em Potchefstroom foram experiências formativas para Josie, tanto em termos de organização de mulheres quanto de introdução ao comunismo. Cultivaram nela um profundo senso de que, para avançar, a luta política tinha que se alicerçar em questões sobre o “ganha pão”, o que mais afetava a maioria. Quando membros do CPSA ou funcionários do Comintern minimizaram a importância dessas lutas, Josie continuou a insistir que o partido precisava apoiá-las para se tornar mais relevante para as massas trabalhadoras (Roth, 1996, p. 122; Edgar, 2020, p. 124-126).</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<p><img decoding="async" class="wp-image-75204 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-3.jpg" alt="" width="680" height="680" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-3.jpg 680w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-3-300x300.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-3-150x150.jpg 150w" sizes="(max-width: 680px) 100vw, 680px"></p>
<div class="single-post--content--caption-block">
<p class="single-post--content--caption-block--text"><i>Umsebenzi</i>, o jornal do Partido Comunista da África do Sul, foi uma das ferramentas do partido para compartilhar seus pontos de vista e trabalho. Josie escreveu para o jornal e defendeu mais contribuições dos trabalhadores negros.</p>
<p class="single-post--content--caption-block--credit">Fotografia de referência fornecida de Corinne Sandwith/Revolutionary Papers através da Historical Papers Library, University of the Witwatersrand.</p>
</div>
</div>
<h2 style="margin:3em 0;">Vestindo o lenço vermelho</h2>
<p>Após meses de discussão e debate entre várias organizações de esquerda sobre a possibilidade de formar um partido comunista, o PCAS iniciou sua conferência de fundação em 30 de julho de 1921. Foi o primeiro desse tipo no continente. O objetivo inicial do partido era, conforme declarado em seu manifesto de fundação, “estabelecer o contato mais amplo e próximo possível com trabalhadores de todas <em>as classes e raças </em>e propagar o evangelho comunista entre eles”, inspirando-se e orientando-se no Comintern (Bunting, 1975, p. 26-27). O partido reconheceu a importância de apoiar as lutas africanas, particularmente relacionadas à habitação, desapropriação de terras, controle de fluxo de trabalho e emancipação política (Lodge, 2020, p. 69).</p>
<p>Moses Kotane, que se tornou o segundo secretário-geral africano do partido em 1939, lembrou que, dos primeiros quadros negros, Josie foi uma das primeiras a ingressar no partido (os registros do Comintern indicam que ela foi a integrante número 516, com ingresso em 1928) (Bunting, 1975, p. 53; Mpama, 2003, p. 160). O partido organizou aulas aos sábados à noite sobre ideologia e organização comunista, às quais novos recrutas como Josie passaram a ir depois de se mudarem para Joanesburgo no final de 1931. Mais tarde, ela abriu uma filial em Sophiatown e abriu uma escola noturna de formação ideológica, além de matemática básica e inglês (Edgar, 2020, p. 161). Em meados da década de 1930, Josie havia entrado para a liderança sênior do partido. Ela esteve no Bureau Político em vários momentos e no Comitê Central até pelo menos 1946. Talvez tenha sido a única mulher negra a ocupar tais cargos em qualquer partido político na África do Sul na época (Mpama, 2003, p. 160; Roth, 1996, p. 123).</p>
<p>De um modo geral, faltava ao partido mulheres ativas e líderes. Isso se deveu em grande parte às condições materiais, ou seja, encargos domésticos, divisões raciais, práticas patriarcais, restrições sociais e geográficas e falta de acesso à educação. No que diz respeito à percepção da capacidade das mulheres em realizar efetivamente o trabalho político, as atitudes patriarcais prevaleceram tanto na sociedade quanto no partido, e o trabalho partidário foi às vezes considerado o reflexo de uma cultura de “intelectualismo exclusivo” que marginalizava aqueles sem uma base educacional formal ou política (Klein, 2006, p. 19). No entanto, embora em pequeno número, as mulheres desempenharam um papel importante no PCAS do final da década de 1920 até a década de 1940. Isso permaneceu assim depois que o partido foi banido em 1950 e forçado à clandestinidade, reconstituindo-se como o Partido Comunista Sul-Africano (PCSA). Entre essas mulheres estavam Ray Alexander, Molly Wolton, Hilda Bernstein, Dora Tamana, Fatima Seedat, Cecilia Rosier, Rebecca Bunting, Sonia Bunting, Rica Hodgson, Thoko Mngoma, Winifred Seqwana, Florence Mkhize, Letitia Sibeko, Violet Weinberg e Ruth First.</p>
<p>Para subir na hierarquia do partido, era preciso ter formação e experiência política. Quando surgiu a oportunidade de se formar no exterior, Josie aproveitou a chance, acompanhando Matilda First, mãe da jornalista sul-africana e ícone comunista Ruth First, a Moscou em 1935 para estudar na Universidade Comunista dos Trabalhadores do Oriente (Bunting, 1975, p. 79; Edgar, 2020). Usando os pseudônimos Red Scarf e Beatrice Henderson, Josie participou de várias atividades durante seu tempo na União Soviética, incluindo o Sétimo Congresso Mundial do Comintern.</p>
<p>Enquanto estava em Moscou, ela testemunhou e forneceu relatórios perante uma comissão sobre a África do Sul em relação aos conflitos internos entre grupos opostos dentro do PCAS, que chegaram a tal ponto que muitos consideraram que o partido estava à beira do colapso. O então secretário-geral Moses Kotane levantou a importante crítica de que o partido não era suficientemente “africanizado”, referindo-se ao fato de que uma parte significativa da liderança, encabeçada por Lazarus Bach, conhecia pouco as realidades das massas africanas e estava preocupada com debates europeus, desvinculando os ideais da organização e da atividade partidária.<a href="#_prol_ftn8" name="_prol_ftnref8"><sup>8</sup></a> Embora ela tenha pedido maiores esforços para “africanizar” o partido e reconhecer as divisões raciais existentes, Josie, ao lado de Kotane, se opôs a posições que defendiam dividir a estrutura organizacional do partido racialmente, incluindo a proposta de Edwin de formar alas no partido com base em raça em 1938 (Roth, 1996, p. 122; Edgar, 2020, p. 131 e 155).</p>
<p>Josie teve o cuidado de não tomar partido durante a comissão e priorizou manter o partido unido. Ela não se esquivou, no entanto, de compartilhar suas preocupações, como a falta de iniciativas para organizar os trabalhadores em células nas fábricas, bem como a fraca retenção de membros, a formação insuficiente de quadros africanos para cargos de liderança e a decisão de priorizar a união de todas as raças em uma frente, em detrimento de abordar os problemas únicos enfrentados pelo povo africano (Mpama, 2003, p. 182-185). Josie também apontou para a abordagem do partido em relação à escrita e publicação de artigos, expressando sua frustração com as lideranças por não estimularem os esforços literários dos trabalhadores (Edgar, 2020, p. 149). “Se algo estava errado com o artigo”, ela perguntou, “não poderia ter sido corrigido? (Mpama, 2003, p. 193)”.</p>
<p>Um tema importante nas críticas de Josie relacionava-se com a falta de engajamento do partido com a realidade concreta e de vitalidade política. Ela expressou preocupação com a natureza mecânica das reuniões de liderança, dizendo que “costumávamos apenas discutir o trabalho do grupo e nunca discutíamos questões políticas” (idem, p. 182). Ela argumentou que essa abordagem levou a um problema fundamental: a negligência geral do partido em relação às questões levantadas e que afetam o povo africano. Para Josie, o partido não estava suficientemente enraizado na realidade social do país, concentrando-se nas discussões teóricas marxistas ortodoxas e nos desenvolvimentos políticos europeus (Edgar, 2020, p. 120).</p>
<p>Notavelmente, Josie alertou o partido contra a demissão de lideranças nacionalistas africanas, argumentando que eles constituíam uma “burguesia nativa” e que, dentro da ampla frente de resistência, eles iriam “nos ajudar a nos unir e lutar contra o imperialismo” (Mpama, 2003, p. 195). Ela explicou que “se subestimamos a burguesia como classe, isso significa que ainda não entendemos o poder do capitalismo”, e que “não devemos fugir do fato de que, embora sejam reformistas, eles têm influência sobre as massas” (idem, p. 195; Lodge, 2021, p. 189-190, 216). Em seus primeiros anos, o PCAS explicitamente desencorajou alianças com grupos nacionalistas africanos, apesar da posição do Comintern que defendia o apoio tático aos principais movimentos de libertação nacional e descolonização.<a href="#_prol_ftn9" name="_prol_ftnref9"><sup>9 </sup></a>As conclusões do Comintern da comissão sobre os conflitos internos do partido ecoaram muitas das preocupações de Josie em relação ao fracasso do Partido em construir uma base de massas e alianças táticas, que, segundo eles, surgiram de uma incapacidade em compreender adequadamente o contexto sul-africano. Aqui, os esforços de Josie e outros foram bem-sucedidos: na década de 1940, o PCAS havia aumentado sua cooperação com o Congresso Nacional Africano (CNA), um movimento de libertação nacional que começou como um projeto burguês em 1912, na tentativa de construir uma frente de luta mais ampla e de massas.</p>
<p>Embora o processo de participação nas reuniões do Comintern fosse em si parte da formação política de Josie, seu principal motivo para viajar para a União Soviética foi estudar na Universidade Comunista dos Trabalhadores do Leste. Um dos mandatos da universidade era fornecer educação e formação política marxista-leninista para lideranças anticoloniais e comunistas do Sul Global, com ex-estudantes como Jomo Kenyatta, Ho Chi Minh, Deng Xiaoping e Harry Haywood. Na década de 1930, a universidade oferecia um curso de 14 meses para estudantes internacionais que se concentrava principalmente na teoria, mas também incluía dois meses de trabalho prático (incluindo três dias em uma fazenda coletiva e quinze dias em organização partidária) (McClellan, 1993, p. 375). Os assuntos incluíam economia política, história, leninismo, materialismo histórico, construção de partidos, ciência militar, política contemporânea e educação em língua inglesa (ibidem).</p>
<p>Embora os estudos de Josie tenham sido interrompidos por vários surtos de problemas de saúde e hospitalização, essa experiência internacional teve um impacto profundo sobre ela, aprofundando sua perspectiva internacionalista e consciência de classe e solidificando ainda mais sua crença na centralidade da organização para o avanço da luta. Durante o Sétimo Congresso do Comintern, ao discutir as mobilizações dos estivadores negros na Cidade do Cabo, que se recusavam a carregar ou tripular carregamentos italianos durante a invasão da Itália na Abissínia (Etiópia), em 1935-1936, Josie destacou a importância do internacionalismo da classe trabalhadora: “embora tenham ocorrido protestos, não fizemos o suficiente. Se todos os africanos estivessem organizados como os estivadores, nenhum barco teria sido carregado com suprimentos para as tropas italianas (…) Os trabalhadores africanos devem ajudar os trabalhadores da Europa a lutar por sua liberdade. A paz só é possível pela ação dos trabalhadores” (Mpama, 2003, p. 215-216). No mesmo discurso, ela também falou sobre a “necessidade de organização”, argumentando que a “composição do PCAS é ruim”, pois não tinha africâneres e muito poucos africanos, argumentando que seu mandato central deveria ser criar uma organização que “vai atrair todos os pobres e se tornar um poderoso partido de massas” (ibidem).</p>
<p>Ao retornar à África do Sul no final de 1936, Josie concentrou-se na construção do caráter de massas do Partido, alimentada pela urgência de construir uma oposição ampla e organizada ao crescente sistema de <em>apartheid</em>. Ela era membro do comitê de coordenação do PCAS, que foi formado em 1937 para trabalhar na “questão da organização em escala nacional” (Bunting, 1975, p. 87). Essa mudança para a organização de um movimento de massas em todo o país marcou uma nova fase para o PCAS, o movimento trabalhista e a luta de libertação como um todo. Isso foi em parte favorecido pelas consequências políticas e econômicas da Segunda Guerra Mundial, como o afluxo de africanos para as áreas urbanas, resultante das exigências de mão de obra por conta do aumento da industrialização em um contexto de duras condições econômicas (inflação, escassez de alimentos, superlotação, etc).</p>
<p>Para Josie, a prioridade era clara: como ela disse em um debate partidário, “os camaradas devem estar entre as massas” (Edgar, 2020, p. 156). Em uma reunião da Frente de Unidade Não-Europeia, em 1939, ela encorajou as pessoas ali presentes a “ir para as fábricas, ir para o campo, e onde quer que os não-europeus estejam trabalhando para o benefício dos empregadores, diga-lhes que eles têm um direito a uma parte e que temos direito a uma parte dos lucros da riqueza da África do Sul” (idem, p. 164).</p>
<p>O PCAS tornou-se uma força de liderança nesse momento e depois da guerra. Um papel fundamental que desempenhou foi entre os grupos políticos que se reuniram para a Conferência Contra o Passe em novembro de 1943, na qual concordaram em buscar todos os meios possíveis para aumentar a pressão pela abolição dos passes, inclusive trabalhando mais de perto com grupos menos alinhados ideologicamente, mas com interesses comuns que se sobrepõem. Josie estava à frente dos esforços de várias mulheres nessa luta, incluindo a organização de uma conferência sobre leis de passe em março de 1944, antes do lançamento de uma campanha oficial em maio (Lodge, 2021, p. 242 e 245). Esses esforços estabeleceriam as bases para campanhas posteriores para combater o sistema de <em>apartheid, </em>depois que ele foi formalmente inaugurado com a eleição do Partido Nacional em 1948.</p>
<p>Ao longo da década de 1940, o PCAS construiu uma ampla frente contra a dominação colonial, formando novas alianças táticas e campanhas nacionais, como o movimento contra o passe. Como descreve o autor Tom Lodge, isso resultou na “ampliação do apoio público à organização, [maior] militância das atividades comunistas, e no desenvolvimento de percepção e entendimento mútuos entre o Partido e o Congresso Nacional Africano” (idem, p. 280–283). Josie costumava ser encontrada ao lado de uma ampla gama de lideranças políticas em reuniões do CNA e outros grupos que organizavam encontros multirraciais, defendendo o não-racialismo e a participação de mulheres negras, além de oferecer perspectivas de resistência enraizadas em uma análise de classe.<a href="#_prol_ftn10" name="_prol_ftnref10"><sup>10</sup></a></p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-75194 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-2.jpg" alt="" width="680" height="680" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-2.jpg 680w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-2-300x300.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-2-150x150.jpg 150w" sizes="auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px"></p>
<div class="single-post--content--caption-block">
<p class="single-post--content--caption-block--text">Muitos líderes anticoloniais, incluindo Josie, receberam formação política na Universidade Comunista dos Trabalhadores do Leste em Moscou. Seu prédio principal (à esquerda), não mais existente, localizava-se em frente à Praça Pushkin.</p>
<p class="single-post--content--caption-block--credit">Fotografia de referência de I. N. Pano, proveniente de Rossen Djagalov.</p>
</div>
</div>
<h2 style="margin:3em 0;">Abram caminho às mulheres que lideram</h2>
<p>À medida que o PCAS enfrentava o desafio de se organizar em um movimento nacional de massas, deparava-se com a necessidade de dar mais atenção aos problemas únicos enfrentados pelas mulheres e fazer um esforço mais concentrado para organizá-las. Embora o partido tivesse certas posições progressistas, a questão da libertação das mulheres existia “mais no espírito do que de fato”, nas palavras da historiadora Mia Roth (1996, p. 128). Por que organizar mulheres era necessário para o sucesso geral do partido?</p>
<p>Na década de 1930, o trabalho organizado e o PCAS começaram a voltar sua atenção para as mulheres trabalhadoras e seu papel nas indústrias de manufatura e processamento. No entanto, as mulheres africanas estavam principalmente restritas ao serviço doméstico e constituíam uma pequena fração da força de trabalho formal (menos de 1%, de acordo com os dados disponíveis na década de 1950) (Schmidt, 1992). Aqui, Josie desempenharia um papel indispensável, construindo conexões entre o partido, outros grupos políticos, o movimento trabalhista e as mulheres. Desde sua estreia política em lutas comunitárias lideradas por mulheres, Josie sempre defendeu os direitos das mulheres, com foco particular nas lutas das africanas. Como disse um historiador, “através dela, o PCAS foi capaz de disseminar ideias mais radicais sobre o papel que as mulheres deveriam desempenhar na política de oposição negra, entre as mulheres negras” (Walker, 1978. p. 83-84).</p>
<p>Para Josie, a participação das mulheres era uma necessidade estratégica para a classe trabalhadora conseguir derrubar o domínio colonial racista. Como resultado, ela defendeu ferozmente a participação política das mulheres em uma época em que poucas delas participavam de um discurso público tão radical. Nesse sentido, ela fez o seguinte apelo no jornal do partido contra o Projeto de Emenda às Leis dos Nativos de 1937, que limitaria ainda mais o tamanho das populações africanas em áreas urbanas de acordo com o número mínimo de trabalhadores necessários, além de outras restrições:</p>
<blockquote><p>Nós, mulheres, devemos entrar em campo como lutadoras, pois somente com a nossa ajuda nossos homens podem lutar com sucesso contra esse novo projeto de lei. Somente pela luta conjunta podemos obrigar [a retirada] dessa nova lei escravagista.</p>
<p>Mulheres, não podemos mais ficar em segundo plano ou nos preocupar apenas com assuntos domésticos e esportivos. Chegou a hora de entrar no campo político e ficar lado a lado com os homens na luta (Mpama, 2003, p. 248).</p></blockquote>
<p>Ao mesmo tempo, ela não se absteve de apontar e criticar como as relações patriarcais foram infundidas não só na sociedade, mas também dentro do partido, limitando a participação política das mulheres:</p>
<blockquote><p>Entre todos os nossos líderes, é muito raro alguém ver suas esposas ou amigas acompanhando-os às reuniões, e em todas as suas lutas apenas algumas mulheres participam ativamente, exceto em locais em que tais lutas por taxas de inquilino são travadas, então algumas que não podem pagar tais taxas, e porque isso afeta a família como um todo [quando] eles descobrem que não há outra saída senão unir-se aos outros e assistir às reuniões. Então, assim que descobrem que ganharam ou perderam, voltam para casa e se voltam para suas esferas domésticas (Edgar, 2020, p. 245-246).</p></blockquote>
<p>Junto com o combate às influências patriarcais, Josie também lutou para encorajar as mulheres a participar de lutas que pareciam distantes de suas realidades imediatas. No caso de uma proposta para dar aos homens africanos direitos limitados de voto e representação, ela refletiu que “muito poucas mulheres participaram da luta contra os Native Bills, provavelmente porque não tendo o voto, elas não achavam importante ajudar seus homens para manter o voto” (Mpama apud Edgar, 2020, p. 249).</p>
<p>Embora as mulheres africanas tenham resistido ao controle colonial de seu trabalho, terras e vida cotidiana ao longo do início do século 20 (e bem antes), suas primeiras atividades de organização na África do Sul reforçaram os papéis de gênero conservadores, exigindo voz e voto enquanto mães, donas de casa etc., ou se limitaram a funções de apoio na luta contra o racismo. Em certas estruturas limitadas, as mulheres alavancaram consciente e taticamente conceitos como a maternidade, que eram muito valorizados, para promover sua emancipação de forma mais ampla, usando-os intencionalmente para manobrar dentro de espaços políticos limitados e atrair mulheres que não eram politicamente ativas (apesar de os tons essencialistas que tais conceitos retiveram).</p>
<p>Após a emancipação política das mulheres brancas em 1930 e o consequente aumento da participação das mulheres na atividade política, em 1931 o PCAS criou um departamento de mulheres que Josie lideraria. Inicialmente, predominavam as visões conservadoras, com as mulheres sendo vistas apenas como partidárias dos homens na luta. No entanto, isso começou a mudar à medida que o partido deu maior ênfase à possibilidade de as mulheres trabalharem lado a lado com seus colegas masculinos, encorajou concepções mais radicais de papéis de gênero e forneceu maior flexibilidade para as mulheres se organizarem em seus próprios termos.</p>
<p>Embora elas permanecessem uma minoria na filiação e liderança do partido, como observa o historiador CJ Walker, “na área da emancipação das mulheres, o PCAS trouxe novas perspectivas para o incipiente movimento de libertação nacional da época” (1978, p. 76). A evolução progressiva da abordagem do PCAS em relação à questão de gênero surgiu de seu entendimento de que a principal contradição na sociedade era aquela entre os donos de propriedade e capital e aqueles que vendiam e dependiam de seu trabalho para sobreviver. Como resultado, embora suas palavras muitas vezes falassem mais alto que seus atos, essa análise, bem como sua defesa do não-racialismo, posicionou o partido para entender melhor os problemas enfrentados pelas mulheres trabalhadoras em comparação com outras organizações da época. Por exemplo, em comunicado divulgado em fevereiro de 1932, o partido declarou:</p>
<blockquote><p>Trabalhadoras nativas, trabalhadoras brancas, realizem seus interesses, acordem para lutar por melhores condições lado a lado com seus maridos, pais e irmãos: somente por uma frente unida vocês poderão se livrar de toda a exploração que vocês sofrem sob o capitalismo no qual vocês como mulheres são as maiores sofredoras (idem, p. 90).</p></blockquote>
<p>No início dos anos 1930, o partido planejou realizar uma conferência nacional de mulheres trabalhadoras, que visava “unificar e consolidar a luta seccional das mulheres (…) e trazer à existência uma organização permanente de luta pelas mulheres trabalhadoras da África do Sul”. Apesar dessa conferência não ter se concretizado devido à agitação política dentro do partido, entre 1935-1937, Josie, junto com outros membros do partido, como Ray Alexander, continuou a convocar a organização e a atividade de mulheres militantes (idem, p. 85). Como Josie afirmou ao criticar uma organização conservadora de bem-estar social de mulheres por não conseguir organizar com sucesso campanhas em torno de questões que as afetavam: “eles devem abrir caminho [para] mulheres que liderarão e farão um movimento para realizar o trabalho” (Mpama apud Edgar, 2020, p. 252).</p>
<p>À medida que a campanha contra a Lei do Passe começou a crescer no final da década de 1940, aumentou a necessidade de uma organização feminina de base mais ampla. Em 1947, as mulheres do PCAS reuniram-se em Joanesburgo para estabelecer uma organização feminina não racial, a Transvaal All-Women’s Union, elegendo Josie como sua presidenta. Apesar de pequeno e localizado, foi de certa forma o protótipo de uma organização nacional de mulheres mais ampla que se formou nos anos posteriores (Sturman, 1996, p. 65-66). Pouco tempo depois, o sistema legal repressivo ganhou força com a aprovação da Lei de Supressão do Comunismo de 1950, que efetivamente baniu o PCAS, e uma proposta renovada para emitir cadernetas para mulheres africanas, entre muitas outras medidas, foi mais uma vez colocada na mesa.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-75216 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-4.jpg" alt="" width="680" height="680" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-4.jpg 680w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-4-300x300.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-4-150x150.jpg 150w" sizes="auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px"></p>
<div class="single-post--content--caption-block">
<p class="single-post--content--caption-block--text">Policiais verificam cadernetas de passes, que os negros eram obrigados a carregar sob o sistema do apartheid para restringir e controlar sua mobilidade socioeconômica e política.</p>
<p class="single-post--content--caption-block--credit">Fotografia de referência proveniente de South African History Online, fotógrafo desconhecido.</p>
</div>
</div>
<h2 style="margin:3em 0;">Mulheres em marcha</h2>
<p>A crescente repressão do Estado de <em>apartheid </em>apenas estimulou o movimento das mulheres a aprofundar seus esforços de organização. Em 1954, 146 delegadas representando cerca de 230 mil mulheres em todo o país de uma variedade de origens políticas reuniram-se em Joanesburgo para a conferência de fundação da Federação das Mulheres Sul-Africanas (FEDSAW, na sigla em inglês). Na conferência, os delegados prometeram seu apoio à emergente Aliança do Congresso, uma coalizão multirracial que foi formalmente estabelecida no ano seguinte e lançaria uma campanha nacional <em>antiapartheid </em>que gerou a maior participação em massa já vista. Josie participou da conferência em nome do Transvaal All-Women’s Union e tornou-se presidente da filial do Transvaal da FEDSAW.</p>
<p>Apesar da historiografia pública propagada pelo CNA, após o fim formal do <em>apartheid </em>em 1994, tenha retratado a federação como sendo liderada quase exclusivamente por mulheres liberais afiliadas ao CNA, é importante notar que o FEDSAW foi, de fato, ideia da integrante do PCAS, Ray Alexander, e teve uma participação considerável de mulheres trabalhadoras de esquerda, de sindicalistas como Francis Baard a comunistas como Josie. Mesmo que apresentasse amplas demandas e objetivos liberais, como o direito de voto, seu documento fundador, a Carta das Mulheres, também incluía uma série de elementos mais radicais que provavelmente foram adicionados devido à participação e esforços de mulheres de esquerda. Essas incluíam provisões que exigiam “pagamento igual e possibilidades de promoção em todas as esferas de trabalho”, “direitos iguais aos dos homens em relação à propriedade, casamento e filhos” e “a organização das mulheres em sindicatos” (FEDSAW, 1954). Enquanto a carta delineava as particularidades dos fardos reprodutivos sociais das mulheres e pedia que elas se auto-organizassem para alcançar direitos políticos e condições econômicas equitativas, também pedia que as mulheres lutassem ao lado dos homens em “uma luta comum contra a pobreza,  discriminação de raça e classe, e os males do colorismo”. A Carta das Mulheres acabaria por se tornar a base para certos direitos constitucionais na África do Sul <em>pós-apartheid</em>.</p>
<p>Mesmo que a FEDSAW trabalhasse dentro da Aliança do Congresso, a Federação também tinha um mandato independente. No ano seguinte à sua criação, a FEDSAW e suas filiais organizaram mulheres em torno de questões de gênero, bem como campanhas mais amplas da Aliança do Congresso. Josie podia ser ouvida falando em eventos como a comemoração do Dia Internacional da Mulher em Joanesburgo em março de 1955, interpelando mulheres de várias origens sobre a situação das africanas.</p>
<p>O primeiro protesto nacional em grande escala da FEDSAW ocorreu em 27 de outubro de 1955, quando duas mil mulheres de todas as raças marcharam contra as Leis do Passe e o sistema de <em>apartheid</em>. No entanto, um mês antes da marcha, Josie recebeu ordens de restrição, o que tornou crime para ela participar de reuniões políticas públicas e participar de várias organizações políticas, incluindo a FEDSAW. Aos 52 anos, essas medidas repressivas obrigaram Josie a retirar-se publicamente das manifestações e dos principais órgãos de luta. Em sua última comunicação oficial do FEDSAW, Josie declarou a seus companheiros e companheiras:</p>
<blockquote><p>Nunca as mentes dos seres humanos foram controladas. Nunca os olhos dos seres humanos foram fechados… Portanto, é natural que toda alma viva finalmente veja e siga o caminho para a LIBERDADE.</p>
<p>Josie ou não Josie, a luta continuará e o nosso será o dia da vitória (Mpama, 1995).</p></blockquote>
<p>Um ano depois, em 9 de agosto de 1956, após décadas de trabalho, 20 mil mulheres desceram ao Union Buildings em Pretória, a sede oficial do governo colonial, carregando consigo pacotes de petições assinadas exigindo a abolição de todos as Leis do Passe do <em>apartheid</em>. A marcha, mostrando o sucesso dos esforços para organizar em massa as mulheres de todas as raças em um período de tempo relativamente curto, inaugurou uma nova fase que transbordava de esperança. A Aliança do Congresso decidiria mais tarde que 9 de agosto seria comemorado como o Dia da Mulher na África do Sul. Hoje, o aniversário da histórica e multirracial Marcha das Mulheres para Pretória é um feriado oficial no país.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-75324 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-5-1.jpg" alt="" width="680" height="680" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-5-1.jpg 680w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-5-1-300x300.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-5-1-150x150.jpg 150w" sizes="auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px"></p>
<div class="single-post--content--caption-block">
<p class="single-post--content--caption-block--text">A Federação de Mulheres Sul-Africanas realizou sua conferência inaugural em 17 de abril de 1954 no Trades Hall em Joanesburgo, onde Josie presidiu a sessão “Women’s Struggle for Peace”.</p>
<p class="single-post--content--caption-block--credit">Fotografia de referência de Eli Weinberg, proveniente do Arquivo de Pesquisa de Artigos Históricos, Universidade de Witwatersrand, por meio do Arquivo da Universidade de Western Cape Mayibuye.</p>
</div>
</div>
<h2 style="margin:3em 0;">Sempre colocando as pessoas pra cima</h2>
<p>A partir do final da década de 1940, Josie tornou-se mais ativa na Igreja Anglicana e em grupos religiosos femininos, como a Sociedade Feminina da Igreja Mzimhlophe e o Comitê da Igreja Ekurhuleni, os quais desempenharam um papel importante na obtenção de bolsas para crianças, cestas básicas para famílias pobres e outras formas de assistência (Zwane, 2012, p 81-82). Vários fatores levaram Josie a fazer essa mudança, incluindo o desejo de se reconectar com sua família e comunidade após décadas priorizando o trabalho político, bem como o desejo de melhorar sua saúde física e bem-estar espiritual. Talvez o mais importante, para muitas mulheres que, como Josie, estiveram ligadas ao FEDSAW e foram banidas da vida política pública, os grupos religiosos de mulheres serviram como refúgio e forma alternativa de organização social dentro de um clima político hostil moldado pela repressão da atividade política <em>antiapartheid </em>(Zwane, 2012, p. 215).</p>
<p>Josie não via contradição entre o comunismo e o cristianismo (Davidson et al. 2003, p. xxvii). Em vez disso, como observa Edgar, ela via ambos como “expressões de seu compromisso com a justiça social” (Edgar, 2020, p. 214). Muito parecido com as tradições da teologia da libertação que se enraizaram em várias lutas de libertação nacional em todo o mundo, o envolvimento de Josie em comunidades religiosas de base nas últimas décadas de sua vida pode ser melhor compreendido como sendo incorporado em uma compreensão libertadora semelhante de teologia e reconhecimento das funções sociais que a religião pode cumprir.<a href="#_prol_ftn11" name="_prol_ftnref11"><sup>11</sup></a></p>
<p>Apesar de seu afastamento da vida política pública, Josie continuou sendo alvo do Estado. Ela foi detida e presa por várias semanas durante o Estado de emergência declarado após o Massacre de Sharpeville em 1960 (a morte de 69 pessoas pela polícia durante um protesto público contra as leis de passe) e permaneceu no radar da polícia do <em>apartheid </em>nos anos que se seguiram (idem, p. 211-213). Isso não a impediu de, em suas próprias palavras, continuar a “colocar o povo para cima” (idem, p. 240). Ela apoiou seus netos quando eles atingiram a maioridade nas lutas políticas do final dos anos 1970, particularmente durante as revoltas estudantis de 1976, e continuou a encorajar as mulheres a “se levantarem e se mexerem” (ibidem).</p>
<p>Após sua morte em 1979, Josie foi sepultada no Cemitério Avalon em Soweto ao lado de muitos conhecidos e desconhecidos baluartes da luta.</p>
<h2 style="margin:3em 0;">Josie ou não Josie, a luta continuará</h2>
<p>De altos índices de violência a desemprego crônico, baixos salários e trabalho precário, os africanos, e as mulheres africanas em particular, vivem em um estado de profunda crise aninhada em um contexto social mais amplo de crise do capitalismo. Na África do Sul moderna, o feminismo é rotineiramente entendido como uma profissão, um modo de trabalho acadêmico e de ONGs, e não um projeto político popular. As feministas de base são sistematicamente ignoradas e prejudicadas pelo discurso da elite. Hoje, não há nenhum movimento feminista nacional popular organizado que esteja promovendo o legado de Josie.</p>
<p>O estrangulamento do feminismo de elite só pode ser desafiado e desfeito com o desenvolvimento de um feminismo genuinamente popular, um feminismo que entenda a agência e a organização política anticapitalista como essenciais para transformar nossa realidade social. Como disse Josie, “somente quando [os oprimidos] são politicamente avançados é que eles podem avançar educacionalmente, socialmente, economicamente e comercialmente” (Mpama, 2003, p. 247-48). Ao contrário de muitas mulheres de seu tempo, para Josie, ser membro e liderança de uma organização comunista desempenhou um papel importante para possibilitar esse avanço político.</p>
<p>Ao longo de sua vida, Josie nunca vacilou em seu compromisso de mudar a realidade social da maioria. Em uma carta ao ministro da justiça do governo do <em>apartheid</em>, protestando contra o banimento de Josie da vida política pública, a ativista da Congress Alliance e secretária nacional da FEDSAW, Helen Joseph, a descreveu como alguém que “sempre trabalhou para o bem do povo como um todo” (Joseph, 1955). Para o bem do povo como um todo: esse é o legado de Josie Mpama.</p>
<hr class="single-post--content--separator-section single-post--content--separator-section-end">
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-75236 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-6.jpg" alt="" width="680" height="680" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-6.jpg 680w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-6-300x300.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-6-150x150.jpg 150w" sizes="auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px"></p>
<div class="single-post--content--caption-block">
<p class="single-post--content--caption-block--text">Esta fotografia de membros do Comitê Distrital de Joanesburgo do CPSA em 1945 é uma das únicas imagens disponíveis em domínio público que captura Josie engajada no trabalho partidário.</p>
<p class="single-post--content--caption-block--credit">Fotografia de referência proveniente de South African History Online, fotógrafo desconhecido.</p>
</div>
</div>
<h3 class="single-post--content--citations-title" style="margin:2em 0;">Notas</h3>
<div class="footnotes">
<div class="single-post--content--citations-block">
<p><a href="#_prol_ftnref1" name="_prol_ftn1"><sup>1</sup></a> Os governos coloniais e de <em>apartheid </em>na África do Sul desenvolveram um sistema de classificação racial que separou os africanos dos colonos europeus e designou indivíduos miscigenados como uma terceira categoria separada, identificada como “de cor”. Hoje, a designação continua a ser usada e passou a ser associada aos africanos na África do Sul que têm ascendência racial “miscigenada” ou são descendentes de escravos trazidos para a Colônia do Cabo de várias partes do mundo. Porém, é importante lembrar que o termo foi uma imposição colonial que servia para separar famílias e comunidades. Também apagou as identidades únicas e diversas dos grupos indígenas ao categorizar aqueles que não pertenciam aos clãs étnicos de língua bantu como “de cor” como um método da elite dominante para dividir e conquistar a população africana. Para uma leitura mais aprofundada sobre este tópico, consulte “The Lie of 1652: Race and Class in South Africa, Interview with Patric Mellet”, <em>Amandla!</em>, n. 73/74, dez. 2020. Disponível em: <a class="footnote-link" href="https://aidc.org.za/the-lie-of-1652-race-and-class-in-south-africa-interview-with-patric-mellet/">https://aidc.org.za/the-lie-of-1652-race-and-class-in-south-africa-interview-with-patric-mellet/</a>.</p>
<p><a href="#_prol_ftnref2" name="_prol_ftn2"><sup>2</sup></a> Na África do Sul, o termo “africano” refere-se a pessoas que descendem de grupos que migraram da África Ocidental e Central entre 2.000 a.C. e 1.500 d.C. Eles foram classificados pela primeira vez pelos colonos brancos como “nativos” e “bantos” sob o colonialismo e “africanos” sob o <em>apartheid</em>. O termo “negro” refere-se a todos os que não são classificados como “brancos” sob o <em>apartheid</em>, incluindo pessoas classificadas como “indianas” e “de cor”.</p>
<p><a href="#_prol_ftnref3" name="_prol_ftn3"><sup>3</sup></a> A Ajuda Vermelha Internacional, também conhecida por sua sigla russa MOPR, foi fundada pelo Comintern em 1922 “para organizar assistência material e moral aos combatentes de vanguarda pela causa do comunismo que estão presos na prisão, forçados ao exílio ou por qualquer motivo excluídos contra sua vontade de nossas fileiras de combate”. Ver John Riddell, “International Red Aid 1922–1937: Uniting to Defend Class War Prisoners”, <em>Monthly Review Online</em>, 5 ago. 2021, <a class="footnote-link" href="//mronline.org/2021/08/05/international-red-aid-1922-1937-uniting-to-defend-class-war-prisoners/%22">https://mronline.org/2021/08/05/international-red-aid-1922-1937-uniting-to-defend-class-war- prisioneiros/</a>; Roth, ‘Josie Mpama’, 122; Hakim Adi, <em>Pan-africanismo e comunismo: The Communist International, Africa, and the Diaspora, 1919–1939</em> (Africa World Press, 2013), 386.</p>
<p><a href="#_prol_ftnref4" name="_prol_ftn4"><sup>4</sup></a> Para saber mais sobre intelectuais orgânicos, ver Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, <em>O novo intelectual</em>, dossiê n. 12, 11 fev. 2019. Disponível em: <a class="footnote-link" href="//thetricontinental.org/the-new-intellectual/%22">https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/o-novo-intelectual/</a>.</p>
<p><a href="#_prol_ftnref5" name="_prol_ftn5"><sup>5</sup></a> Para ler mais sobre esse tópico, ver Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, <em>Amanhecer: Marxismo e Libertação Nacional</em>, dossiê n. 37, 8 fev. 2021. Disponível em: <a class="footnote-link" href="//thetricontinental.org/dossier-37-marxism-and-national-liberation/%22">https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossier-37-marxismo-e-libertacao-nacional/</a>.</p>
<p><a href="#_prol_ftnref6" name="_prol_ftn6"><sup>6</sup></a> Ver (em inglês): a Lei de Nativos (Áreas Urbanas), Lei n. 21 de 1923. Disponível em: <a class="footnote-link" href="//disa.ukzn.ac.za/leg19230614028020021%22">https://disa.ukzn.ac.za/leg19230614028020021</a>.</p>
<p><a href="#_prol_ftnref7" name="_prol_ftn7"><sup>7</sup></a> Ver (em inglês): Centenário da Lei da Terra dos Nativos de 1913. Disponível em:<a class="footnote-link" href="//www.gov.za/1913-natives-land-act-centenary%22">https://www.gov.za/1913-natives-land-act-centenary</a>.</p>
<p><a href="#_prol_ftnref8" name="_prol_ftn8"><sup>8</sup></a> Na mesma época, Josie assinou uma carta escrita por doze membros do partido que foi enviada ao Bureau Político, criticando uma pequena “camarilha” por promover políticas incorretas que isolavam o partido das massas e por tentar remover Kotane de sua posição. Ver Bunting, <em>Moses Kotane</em>; Lodge, <em>Red Road</em>, p. 317.</p>
<p><a href="#_prol_ftnref9" name="_prol_ftn9"><sup>9</sup></a> Durante o Segundo Congresso do Comintern, o líder soviético Vladimir Lênin apresentou uma tese sobre a questão nacional e colonial, descrevendo como, naquele momento específico, “a Internacional comunista deve entrar em uma aliança temporária com a democracia burguesa no colonial e atrasados, mas não devem fundir-se com ele, e devem em todas as circunstâncias defender a independência do movimento proletário”. Ver V. Lenin, “Draft Theses on the National and Colonial Questions”, 2 jun. 1920, Second Congress of the Communist International, <a class="footnote-link" href="//www.marxists.org/archive/lenin/works/1920/jun/05.htm%22">https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1920/jun/05.htm</a>; Lodge, <em>Red Road</em>, p. 69.</p>
<p><a href="#_prol_ftnref10" name="_prol_ftn10"><sup>10</sup></a> O não-racialismo é uma ideologia proeminente e uma tradição política na África do Sul que nasceu da oposição ao sistema racializado do apartheid. O termo é consagrado como um valor fundador no capítulo um da Constituição da África do Sul, embora seu significado preciso seja contestado por diferentes forças políticas. O PCAS era uma organização líder de política não racial, enquanto, por exemplo, o CNA reservou sua filiação exclusivamente para africanos até 1969. Ver Imraan Buccus, “The Dangerous-Collapse of Non-Racialism”, <em>New Frame</em>, 30 jul. 2021. Disponível em: https://www.newframe.com/the-dangerous-collapse-of-non-racialism/.</p>
<p><a href="#_prol_ftnref11" name="_prol_ftn11"><sup>11</sup></a> Para saber mais sobre a relação entre religião e política, ver Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, dossiê n. 59, <em>Fundamentalismo religioso e imperialismo na América Latina: ação e resistência</em>, 19 de dezembro de 2022, <a class="footnote-link" href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-59-fundamentalismo-religioso-e-imperialismo-latinoamerica/">https://dev.thetricontinental.org/dossier-59-religious-fundamentalism-and-imperialism-in-latin-america/</a>.</p>
</div>
</div>
<h3 class="single-post--content--citations-title" style="margin:2em 0;">Referências bibliográficas</h3>
<div class="footnotes">
<div class="single-post--content--citations-block">
<p>Bunting, Brian. <em>Moses Kotane: South African Revolutionary</em>. Western Cape: Mayibuye Books, 1975.</p>
<p>Edgar, Robert R. <em>Josie Mpama/Palmer: Get Up and Get Moving</em>. Athens: Ohio University Press, 2020.</p>
<p>Federation of South African Women, Women’s Charter, Johannesburg, 17 abr. 1954.</p>
<p>First, Ruth. “Appendix:Transcription of Ruth First’s Speech on South African Women’s Day”, 9 ago. 1978′, In: Klein, D. R. Negotiating Femininity, Ethnicity, and History: Representations of Ruth First in South African Struggle Narratives. Dissertação de PhD, University of Cape Town, 2006.</p>
<p>Joseph, Helen. Helen Joseph to Josie Mpama, 19 nov. 1955, Historical Papers Research Archive at the University of Witwatersrand, collection n. AD1137. Disponível em:</p>
<p>Lodge, Tom. Red Road to Freedom: A History of the South African Communist Party, 1921–2021. Johannesburg: Jacana Media, 2021.</p>
<p>McClellan, Woodford. “Africans and Black Americans in the Comintern Schools, 1925–1934”, The International Journal of African Historical Studies 26, n. 2, 1993.</p>
<p>Mpama, Josie. “Autobiography of J. Mpama”. In: Davidson et al. (eds.) <em>South Africa and the Communist International: A Documentary History</em>. Vol. 2 Bolshevik Footsoldiers to Victims of Bolshevisation 1931–1939. London: Frank Cass, 2003.</p>
<p>Mpama, Josie to the Federation of South African Women, 26 out. 1955, Federation of South African Women 1954–1963, Historical Papers Research Archive at the University of Witwatersrand, collection n. AD1137. Disponível em:</p>
<p>Roth, Mia. “Josie Mpama: The Contribution of a Largely Forgotten Figure in the South African Liberation Struggle”, Kleio 28, n. 1, 1996.</p>
<p>Schmidt, Elizabeth S. “Now You Have Touched the Women: African Women’s Resistance to the Pass Laws in South Africa, 1950–1960”. In: Redd, E. S (ed.). <em>The Struggle for Liberation in South Africa and International Solidarity: A Selection of Papers Published by the United Nations Centre Against Apartheid</em>, New Delhi: Sterling Publishers, 1992.</p>
<p>Sturman, Kathryn. <em>The Federation of South African Women and the Black Sash: Constraining and Contestatory Discourses About Women in Politics, 1954–1958. </em>Tese de doutorado<em>, </em>University of Cape Town, 1996.</p>
<p>Walker, C. J. <em>Women in Twentieth Century South African Politics: The Federation of South African Women, Its Roots, Growth and Decline</em>. Dissertação de mestrado, University of Cape Town, 1978.</p>
<p>Wells,  Julia C. We Now Demand!: The History of Women’s Resistance to Pass Laws in South Africa. Johannesburg: Witwatersrand University Press, 1994.</p>
<p>Zwane, Miriam Jeanette. <em>The Federation of South African Women and Aspects of Urban Women’s Resistance to the Policies of Racial Segregation, 1950-1970. </em>Dissertação de mestrado, University of Johannesburg, 2012.</p>
</div>
</div>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Crisálidas: Memórias feministas da América Latina e do Caribe</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/estudos-feminismos-4-crisalidas-memorias-feministas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[ariana]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 08 Mar 2023 08:00:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Feminismos]]></category>
		<category><![CDATA[Nicaragua]]></category>
		<category><![CDATA[Bartolina Sisa]]></category>
		<category><![CDATA[Sandinista]]></category>
		<category><![CDATA[CSUTB]]></category>
		<category><![CDATA[Plataforma Nacional de Trabalhadoras Rurais]]></category>
		<category><![CDATA[Chrysalises]]></category>
		<category><![CDATA[bolivia]]></category>
		<category><![CDATA[Confederação Unificada de Trabalhadoras Camponesas da Bolívia]]></category>
		<category><![CDATA[Evo Morales]]></category>
		<category><![CDATA[Crisálidas]]></category>
		<category><![CDATA[Feminismo]]></category>
		<category><![CDATA[bartolinas]]></category>
		<category><![CDATA[feminism]]></category>
		<category><![CDATA[Arlen Siu]]></category>
		<category><![CDATA[ALBA]]></category>
		<category><![CDATA[FSLN]]></category>
		<category><![CDATA[Maria Madalena dos Santos]]></category>
		<category><![CDATA[Dona Nina]]></category>
		<category><![CDATA[Via Campesina]]></category>
		<category><![CDATA[ANMTR]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://thetricontinental.org/?p=73924</guid>

					<description><![CDATA[Este estudo discute a vida e as lutas políticas de Josie Mpama, uma líder na resistência contra a opressão colonial e o sistema de apartheid na África do Sul.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-73427 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/02/WF-crisalidas01.jpg" alt="" width="950" height="713"></p>
<p> </p>
<table style="border-collapse: collapse; border-spacing: 0; border: none; width: 100%;">
<tbody>
<tr>
<td style="width: 50%; padding: 20px;"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-73382 alignright img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/02/Logo-ALBA-color-300x158.png" alt="" width="140" height="74" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/02/Logo-ALBA-color-300x158.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/02/Logo-ALBA-color-1024x539.png 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/02/Logo-ALBA-color-768x404.png 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/02/Logo-ALBA-color-1536x808.png 1536w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/02/Logo-ALBA-color.png 1980w" sizes="auto, (max-width: 140px) 100vw, 140px"></td>
<td style="width: 50%; padding: 20px;"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-45081 alignnone img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Tricon-Logos_Logo-EN-300x81.png" alt="" width="160" height="43" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Tricon-Logos_Logo-EN-300x81.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Tricon-Logos_Logo-EN.png 449w" sizes="auto, (max-width: 160px) 100vw, 160px"></td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p> </p>
<nav class="p73361-toc">
<h5 class="p73361-font-active">Neste número:</h5>
<ol>
<li><a href="#section-1"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-73361 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/02/01-Arlen-icono.png" alt="" width="250" height="250" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/02/01-Arlen-icono.png 250w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/02/01-Arlen-icono-150x150.png 150w" sizes="auto, (max-width: 250px) 100vw, 250px"></a></li>
<li><a href="#section-2"><img loading="lazy" decoding="async" class="p-image-73371 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/02/03-Nina-icono.png" alt="" width="250" height="250"></a></li>
<li><a href="#section-3"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-73341 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/02/02-Bartolina-icono.png" alt="" width="250" height="250" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/02/02-Bartolina-icono.png 250w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/02/02-Bartolina-icono-150x150.png 150w" sizes="auto, (max-width: 250px) 100vw, 250px"></a></li>
</ol>
</nav>
<p> </p>
<p> </p>
<h2 class="p73361-title" style="margin:3em 0;">Apresentação</h2>
<p>Iniciar um processo retrospectivo de histórias, lutas e resistências na América Latina e no Caribe implica não apenas uma enorme diversidade de setores, geografias, climas, sabores e sons, mas também todo um universo de mulheres, homens e dissidentes que caminharam, passo a passo, a história que nos deu origem e à qual procuramos homenagear nesta publicação.</p>
<p>Nesse mar de lutas continentais, nos propusemos a rebobinar a fita cassete e nos colocarmos naqueles momentos da história de <em>Nuestra América</em> em que as mulheres protagonistas estiveram na linha de frente da batalha para construir outro mundo possível. Dessa forma, iniciamos uma jornada para recuperar a história das lutas, resistências, insurreições e sonhos de revolução liderados por mulheres, lésbicas, travestis e transexuais em diferentes épocas em toda nossa região, a fim de encontrar as sementes do que hoje são nossos feminismos populares latino-americanos.</p>
<p>Referimo-nos àqueles feminismos silvestres que emergem das lutas populares pelo coletivo, que nascem como autodefesa vital nas margens das periferias. Na América Latina e no Caribe, falar de feminismos populares implica pensar no que fazem cotidianamente todas aquelas mulheres, lésbicas, travestis, trans e não-binárias que lutam pelo comum onde a precariedade habita. É falar dessa intersecção onde o comunitário se torna um espaço fundamental para garantir a vida, sempre em tensão com a pedagogia da crueldade que rege as nossas sociedades. Para nós, o feminismo popular ergue a bandeira do coletivo sobre o individual; transforma tudo o que deve ser transformado para conquistar uma vida digna para os ‘ninguéns’.</p>
<p>Pretendemos resgatar aquelas histórias que até hoje nos inspiram, nos desafiam e nos transformam de forma permanente. De algumas delas temos alguns rastros e de outras temos apenas um fio da meada. Em todas procuramos resgatar processos coletivos de desobediência, de revolução. Algumas são mais emblemáticas, transformadas em referências para outras gerações de militância. E há outras que estão menos perceptíveis, cotidianas, mas sem dúvida fundamentais para sustentar revoluções ao longo do tempo. Saímos em busca de algumas dessas histórias, já outras encontramos em nossos próprios processos de organização e luta.</p>
<p>Nos sentimos contentes em poder compartilhar que todas essas memórias foram selecionadas e produzidas por outras militantes feministas populares da América Latina e Caribe, que, além de serem organizadoras e dirigentes de processos nacionais em vários setores sociais, colocaram sobre seus ombros, juntamente com centenas de companheiros e companheiras, a criação e apoio de uma articulação continental de movimentos sociais em torno da Alba. Fundada em uma madrugada na Ilha Margarita, na Venezuela, por Hugo Chávez e Fidel Castro, a ALBA é um conceito polissêmico caro à nossa região.</p>
<p>Essa articulação de organizações populares do continente, Alba Movimentos, realizou na Argentina de 27 de abril a 1º de maio de 2022 sua terceira Assembleia Continental, que contou com a presença de mais de 300 delegados e delagadas de 20 países de <em>Nuestra América</em> em um momento histórico especial, que busca atualizar e ler a situação continental por meio dos olhos da luta e da mobilização. Para isso, naturalmente, é essencial ter material que recupere a história da luta das mulheres e pessoas LGBTQIA+ de <em>Nuestra América</em>, que precederam a luta do que é hoje um poder transformador da história em cada canto de nossa região.</p>
<p>Nós, do Instituto Tricontinental, nos sentimos contentes de poder compartilhar esse material, e escolhemos um formato fanzine para sua publicação. Esse pequeno formato impresso traz consigo em cada grampo e dobra a mística editorial emergente de uma publicação que passa de mão em mão. Um convite colorido que se multiplica em cada bolso e mochila, para distribuir e compartilhar essas memórias de desobediência de forma simples e contundente, como sabemos fazer em nosso continente.</p>
<p> </p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-73648 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Bartolinas2.png" alt="" width="931" height="950" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Bartolinas2.png 931w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Bartolinas2-294x300.png 294w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Bartolinas2-768x784.png 768w" sizes="auto, (max-width: 931px) 100vw, 931px"></p>
<p> </p>
<p><a name="section-1"></a></p>
<h2 class="p73361-title" style="margin:3em 0;">Arlen Siu</h2>
<h3 class="p73361-subtitle" style="margin:2em 0;">O cenzontle fala de Arlen</h3>
<p><strong> </strong></p>
<p>As vozes que a conheceram dizem que Arlen era uma mulher que, apesar dos tempos em que viveu, tinha ideias revolucionárias e avançadas, incrementou sua inteligência com talentos musicais, tocava violão, acordeão e piano. Também possuía o dom de escrever, desenhar e pintar. Foi poetisa, artista, intelectual, mulher e revolucionária.</p>
<p>Arlen Siu nasceu em Jinotepe, no departamento de Carazo, na Nicarágua, em 15 de julho de 1955. Cresceu no seio de uma família intercultural, seu pai era um migrante de origem chinesa e sua mãe nicaraguense. Levando em conta as possibilidades econômicas de sua família e sua inteligência, Arlen poderia ter alcançado qualquer um dos objetivos que as jovens mulheres de seu tempo e de sua condição econômica estabeleceram para si mesmas. Porém, ela quis ser guerrilheira e reivindicar sua “Maria Rural”.</p>
<p style="padding-left: 40px;">“É por isso que nesta ocasião,<br>
Hoje quero cantar ao seu coração<br>
Hoje quero te dizer o que sinto<br>
Por tanta pobreza e desolação”.</p>
<p> </p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-73659 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Arlen1.png" alt="" width="950" height="716" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Arlen1.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Arlen1-300x226.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Arlen1-768x579.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<p> </p>
<p>E com esse compromisso, ela decidiu ir para as montanhas e se embrenhou no espaço onde as crueldades da ditadura de Somoza eram mais ferozes.</p>
<p>Arlen possuía a virtude da escrita, usava as letras para expressar sua indignação diante das injustiças, e entre seus escritos, um dos mais representativos foi a última carta que ela enviou a seus pais:</p>
<blockquote class="p73361-blockquote"><p>“A luta tenaz do homem pelo perfeito é o verdadeiro amor; somos mais autênticos na medida em que derrubamos barreiras e limitações, enfrentando com valentia e otimismo as vicissitudes que se apresentam em nosso caminho; e se descobre um dia que somos capazes de mais do que o que nos é pedido, e que podemos alcançar o que para alguns é proibido ou impossível”.</p></blockquote>
<p>Arlen tornou-se mais autêntica em cada uma de suas ações revolucionárias, como quando em dezembro de 1974, após acompanhar mais de 500 trabalhadores em rebelião contra os abusos da empresa Sacos Centroamericanos (SACSA) em Diriamba, Carazo, ela se dedicou a organizar círculos de estudo com a liderança dos trabalhadores, aproveitando os dois comunicados emitidos pela Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) durante a invasão à casa do ministro Chema Castillo e no decorrer da troca de presos políticos da FSLN por guardas de Somoza que haviam sido capturados.</p>
<p>Em 1975, ela realizou trabalho guerrilheiro no oeste da Nicarágua, onde se voluntariou para dar cobertura à retirada de seus companheiros, caindo em combate em 1º de agosto de 1975, em El Sauce, León (oeste da Nicarágua) enquanto dava cobertura aos seus companheiros que recuavam durante uma batalha desigual contra 300 guardas nacionais armados.</p>
<p>Arlen Siu não conseguiu ver o triunfo da Revolução Popular Sandinista em 1979, mas foi essencial na luta e na organização dos trabalhadores e das trabalhadoras e do povo. Para a Associação dos Trabalhadores Rurais, Arlen Siu foi a primeira inspiração para a construção de um movimento social de trabalhadores camponeses, por meio de seu poema Maria Rural.</p>
<p> </p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-73669 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Arlen2.png" alt="" width="950" height="906" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Arlen2.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Arlen2-300x286.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Arlen2-768x732.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025; font-size: 18pt;"><strong>María Rural</strong></span></h3>
<p style="text-align: center;">Pelos caminhos do campo<br>
Você carrega sua tristeza<br>
Sua tristeza de amor e de pranto<br>
Em seu ventre de barro e terra</p>
<p style="text-align: center;">Seu pequeno frasco redondo<br>
Que você preenche ano após ano<br>
Com a semente que semeia<br>
O camponês em sua pobreza</p>
<p style="text-align: center;">Hoje eu quero cantar a você María rural<br>
Oh, mãe do campo<br>
Mãe sem igual<br>
Hoje eu quero cantar<br>
Sua pobre descendência<br>
Seus tristes pertences<br>
Dores maternas</p>
<p style="text-align: center;">Desnutrição e pobreza<br>
É o que te rodeia<br>
Cabana de palha silenciosa<br>
Somente o murmúrio da selva</p>
<p style="text-align: center;">Suas mãos são de cedro<br>
Seus olhos crepúsculos tristes<br>
Suas lágrimas são barro<br>
Que você derrama nas serras</p>
<p style="text-align: center;">É por isso que nesta ocasião<br>
Hoje quero cantar ao seu coração<br>
Hoje quero te dizer o que sinto<br>
Por tanta pobreza e desolação</p>
<p style="text-align: center;">Pelos prados e rios<br>
Vai a mãe camponesa<br>
Sentindo frio no inverno<br>
E terrível seu destino</p>
<p style="text-align: center;">Pelos caminhos do campo<br>
Você carrega sua tristeza<br>
Sua tristeza de amor e de pranto<br>
Em seu ventre de barro e terra</p>
<p style="text-align: center;">Hoje eu quero cantar para você Maria rural<br>
Oh, mãe do campo<br>
Mãe sem igual<br>
Hoje eu quero cantar<br>
Sua pobre descendência<br>
Seus tristes pertences<br>
Dores maternas</p>
<p> </p>
<p><a name="section-2"></a></p>
<h2 class="p73361-title" style="margin:3em 0;">Dona Nina</h2>
<blockquote class="p73361-blockquote"><p>“Comecei minha militância muito cedo, sem saber que eu era militante, né? Ser feminista. De casa, na luta pela independência […]”.</p>
<p class="p73361-blockquote-cite">                                                                                                                                  (Dona Nina)</p>
</blockquote>
<p> </p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-73679 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Nina1.png" alt="" width="950" height="625" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Nina1.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Nina1-300x197.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Nina1-768x505.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<p> </p>
<p>Maria Madalena dos Santos, mais conhecida como Dona Nina, nascida em 1949, tem duas filhas e três filhos, três netas e dois netos. Ela nasceu na comunidade Quilombola Cafundó dos Crioulos, na cidade de Santa Maria da Vitória, na Bahia, Brasil, onde iniciou e continua sua militância que, embora tenha se estendido por todo o mundo, manteve suas raízes em seu lugar.</p>
<p>Ela se dedicou à luta e organização das mulheres camponesas no início dos anos 1980, após os ataques aos camponeses de sua região, com a expulsão da terra, a construção de barragens e a enorme exploração do trabalho dos camponeses, que recaiu principalmente sobre as mulheres, que recebiam um quarto do que os homens ganhavam por dia de trabalho. Mais tarde, ela soube que o mesmo fenômeno estava ocorrendo em várias regiões do país e que as mulheres camponesas também estavam em processos de organização.</p>
<p>A década de 1980 foi uma época de ressurgimento de organizações populares no Brasil. Na Bahia, Dona Nina, junto com outras camponesas, percebeu que precisava de processos autônomos e auto-organizados; sem isso, suas reivindicações não seriam incluídas nas agendas de lutas.</p>
<p>Dona Nina foi uma das coordenadoras da Articulação Nacional da Mulher Rural (ANMTR), e participou ativamente das lutas pela Previdência Social na Constituição de 1988. Ela foi coordenadora da campanha nacional “Nenhum trabalhador rural sem documentos”.</p>
<p>A luta por um mundo melhor levou Dona Nina a viajar pelo Brasil e pelo mundo, levando-a a participar de debates sobre a necessidade de uma organização camponesa mundial, e dos primeiros congressos da CLOC/Via Campesina.</p>
<p>Dona Nina foi fundamental no processo de nacionalização do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), em 2004. Como coordenadora das mulheres camponesas do Nordeste, foi a vários estados para debater com as trabalhadoras rurais a importância de se ter um movimento nacional pela luta feminista e camponesa para transformar a realidade. Um movimento que já estava nascendo com a articulação camponesa internacional. “Não foi fácil, algumas pessoas não queriam, atrapalharam, mas sabíamos que era importante, que o nome “camponês” era mais inclusivo, o que hoje está provado”, relembra Dona Dina.</p>
<p>Dona Nina é uma camponesa quilombola, educadora popular, sindicalista, presidente de sua associação comunitária e continua contribuindo para a coordenação política do MMC na Bahia. Guardiã das sementes nativas e do Cerrado, aos 73 anos ela continua sendo uma inspiração de resistência, luta e compromisso das mulheres do campo, das florestas e das águas. É uma história viva do feminismo camponês popular.</p>
<p> </p>
<nav class="p73361-toc">
<h5 class="p73361-font-active">Com o feminismo,</h5>
<h5 class="p73361-font-active">Nós construímos o socialismo!</h5>
<p> </p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-73689 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Nina2.png" alt="" width="807" height="950" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Nina2.png 807w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Nina2-255x300.png 255w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Nina2-768x904.png 768w" sizes="auto, (max-width: 807px) 100vw, 807px"></p>
<p> </p>
<p><a name="section-3"></a></p>
<h2 class="p73361-title" style="margin:3em 0;">Las Bartolinas</h2>
<blockquote class="p73361-blockquote"><p>‘”A dupla discriminação que sofremos por sermos mulheres e por sermos mulheres camponesas e indígenas em nossas famílias, comunidades, organizações e sociedade como um todo, nos levou a lutar contra a violação de nossos direitos fundamentais e a defender nossa participação plena e igualitária na tomada de decisões”. Federación Nacional de Mujeres Campesinas de Bolivia (FNMCB)</p></blockquote>
<p> </p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-73699 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Bartolinas1.png" alt="" width="950" height="808" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Bartolinas1.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Bartolinas1-300x255.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Bartolinas1-768x653.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<p> </p>
<p>O movimento feminino conhecido como “Las Bartolinas” – a organização feminista mais importante da Bolívia e que é prestigiada mundo afora – homenageia a heroína aymara Bartolina Sisa, uma das mulheres mais emblemáticas nas lutas anticoloniais do século 18 na América Latina.</p>
<p>Como organização, foi fundada em 10 de janeiro de 1980 resultado do papel decisivo desempenhado por muitas mulheres nos períodos das ditaduras militares por meio dos sindicatos de mulheres camponesas, que decidiram em um congresso nacional criar a Confederação Nacional de Mulheres Camponesas Bolivianas “Bartolina Sisa”.</p>
<p>Esse movimento surgiu e se desenvolveu quando a Bolívia reconstruiu sua democracia e as organizações populares começaram a se reagrupar. A organização foi criada com a visão de que as mulheres do campo participariam plenamente desse processo por meio de sua própria organização e poderiam realizar bloqueios de estradas, greves de fome, marchas e outras formas de ação coletiva dos camponeses.</p>
<p>Por meio de suas ações, Las Bartolinas buscam recuperar a soberania territorial e alimentar e a dignidade das mulheres camponesas e indígenas da Bolívia. O trabalho da Confederação procura alcançar a participação igualitária das mulheres nas esferas política, social e econômica por meio da estrutura aymara de chacha warmi, como um conceito de equidade de gênero. Além disso, busca promover a formação e o treinamento das companheiras de forma permanente, como único mecanismo para libertar as mentes da opressão e da ignorância e alcançar a verdadeira liberdade.</p>
<p><strong>As Bartolinas lutam </strong>por melhorias sociais, econômicas, políticas e culturais das mulheres camponesas, indígenas e afro-bolivianas, bem como buscam construir uma plataforma política a essas mulheres, com base em sua nacionalidade, programa político, unidade, reciprocidade e solidariedade com as organizações trabalhistas e populares do país.</p>
<p>Além disso, participam da luta contra o analfabetismo no campo, reivindicando educação pública e gratuita para crianças junto aos pais, professores e autoridades educacionais, promovendo laços de fraternidade, solidariedade e reciprocidade entre as mulheres e meninas camponesas e indígenas da Bolívia. Este processo também ajuda a defender os direitos fundamentais, incluindo o direito das mulheres à educação e à soberania alimentar, e garantir a igualdade de gênero e a plena participação das mulheres.</p>
<p>Las Bartolinas também lutam por terra e pelos direitos territoriais, fundamentais para a soberania dos povos indígenas e do campo. Com isso, buscam divulgar e reafirmar a identidade cultural e histórica dos povos indígenas da Bolívia para a construção de um Estado unificado e plurinacional.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><strong><span style="color: #ba2025;">Três períodos na história das mulheres “Bartolinas”</span></strong></h3>
<p>A Confederação Nacional de Mulheres Bartolina Sisa foi moldada por uma sucessão de eventos, começando com seu debate incipiente sobre seu papel dentro do movimento camponês. Isso incluiu a necessidade de construir uma organização autônoma ao invés de se integrar na organização já existente formada por homens, a Confederação Unificada de Trabalhadores Camponeses da Bolívia (CSUTB). Dessa forma, Las Bartolinas construíram sua própria identidade como um movimento autônomo de mulheres camponesas, formando uma confederação própria com a mesma influência e importância no cenário sociopolítico boliviano.</p>
<p>Num segundo momento, a Confederação Bartolina Sisa logo assumiu um papel de destaque no país. Em 1994, Las Bartolinas estava entre as organizações que fundaram o Instrumento Político para a Soberania dos Povos (IPSP), mais tarde conhecido como MAS-IPSP, com o objetivo de assegurar protagonismo e participação direta na política parlamentar da Bolívia. Posteriormente, o MAS-IPSP seria o partido com o qual as classes populares, indígenas e camponesas conquistariam o poder por mais de uma década, a partir da primeira presidência de Evo Morales.</p>
<p>Nesse período, a organização participou diretamente do Estado e da formulação de políticas públicas, como a busca pela garantia da participação política das mulheres bolivianas por meio de uma política de paridade de gênero. Desde então, tornou-se impossível falar da política boliviana sem reconhecer o papel pioneiro das Bartolinas. Hoje, as mulheres que integram a entidade ocupam cargos de destaque no Estado e são lideranças da política regional.</p>
<p>As Bartolinas representam um grande passo adiante em termos de participação política das mulheres na Bolívia, pois se tornaram uma organização de referência entre os movimentos sociais bolivianos e até mesmo em sua capacidade de influenciar as políticas públicas no país. Embora essa experiência bem sucedida de emergência da mulher em espaços tão importantes deva ser ainda mais ampliada, é também o dever de todas as organizações garantir o pleno exercício dos direitos políticos das mulheres bolivianas e de todo o Sul Global.</p>
<p> </p>
<h3 class="p73361-subtitle" style="margin:2em 0;">Contracapa</h3>
<div class="p73361-back-cover">
<p>Aparentemente inativa, a crisálida descansa. Muitos optam por se camuflar e assimilar sua forma e cor ao seu entorno. Elas passam despercebidas enquanto se preparam para a metamorfose final. Com esforço, elas irrompem e despertam. Elas abrem suas asas, se conectam com o mundo transformado.</p>
<p>Crisálidas são Arlen Siu em sua dedicação à luta camponesa e à revolução nicaraguense; Dona Nina com seu incansável compromisso com a organização das mulheres camponesas no Brasil; e as Bartolinas que fizeram seu caminho como atores fundamentais na resistência contra a ditadura e o neoliberalismo e na construção de um projeto político plurinacional na Bolívia.</p>
<p>Com a mística da fanzine – de mão em mão e de boca em boca – que possam crescer as Crisálidas, memórias de desobediência no Sul Global.</p>
</div>
<p> </p>
<div class="cc-by-nc-40">Esta publicação está sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International (CC BY-NC 4.0). O resumo legível da licença está disponível em<br>
<a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc/4.0/">https://creativecommons.org/licenses/by-nc/4.0/</a></div>
<p> </p>
</nav>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Nela Martínez Espinosa (1912 &#8211; 2004)  Mulheres de luta, mulheres em luta</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/estudos-feminismos-3-nela-martinez/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[ariana]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 30 Mar 2022 20:16:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Feminismos]]></category>
		<category><![CDATA[Dolores Cacuango]]></category>
		<category><![CDATA[Joaquín Gallegos Lara]]></category>
		<category><![CDATA[Partido Comunista do Equador]]></category>
		<category><![CDATA[Federação Equatoriana de Índios]]></category>
		<category><![CDATA[Aliança Feminina Equatoriana]]></category>
		<category><![CDATA[A Gloriosa]]></category>
		<category><![CDATA[Aliança Democrática Equatoriana]]></category>
		<category><![CDATA[Equador]]></category>
		<category><![CDATA[União Revolucionária de Mulheres do Equador]]></category>
		<category><![CDATA[feminism]]></category>
		<category><![CDATA[Nela Martínez]]></category>
		<category><![CDATA[Ecuador]]></category>
		<category><![CDATA[Luisa Gómez de la Torre]]></category>
		<category><![CDATA[indigenous]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://thetricontinental.org/?p=58010</guid>

					<description><![CDATA[Com a Alba Movimentos recuperamos as sementes dos feminismos populares latino-americanos, histórias de luta que nos inspiram, protagonizadas por mulheres, lésbicas, travestis e trans em diferentes épocas.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><span style="color: #582e50;"><strong>Nela Martínez Espinosa (1912 – 2004)</strong></span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #582e50;">Mulheres de luta, mulheres em luta</span></p>
<div id="attachment_57885" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-57885" class="wp-image-57885 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/02-F068-CopyBN-1.jpg" alt="" width="950" height="1323" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/02-F068-CopyBN-1.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/02-F068-CopyBN-1-215x300.jpg 215w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/02-F068-CopyBN-1-735x1024.jpg 735w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/02-F068-CopyBN-1-768x1070.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-57885" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #582e50;">Nela Martinez, em agosto de 1988, um mês após a morte de seu marido Raymond Meriguet. <br>Créditos: Nela Meriguet Martínez, Arquivo Martínez-Meriguet</span></small></p></div>
<p> </p>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #582e50;"><strong>Introdu</strong><strong>ção</strong></span></h2>
<p>A segunda metade do século XX foi marcada pelas lutas de independência nos países ainda colonizados da África e da Ásia. Na América Latina, as estruturas neocoloniais subordinaram as repúblicas constituídas como independentes no início do século XIX, consolidando a posição dominada dos novos Estados na divisão internacional do trabalho.</p>
<p>Durante as décadas de crise mundial (1914-1948), foram travados na América Latina combates entre uma corrente oligárquica, que tentava violentamente impor o peso da crise sobre os ombros das classes populares; e uma corrente de esquerda, alimentada por dois processos: a crescente organização popular camponesa e sindical, e uma classe média radicalizada. Ambos os setores da corrente de esquerda, olhando para as novas formas de desapropriação material que impossibilitavam as promessas da democracia republicana, levantaram um discurso sobre as contradições de classe, as dominações patriarcal e neocolonial, ao lado de novas visões do conceito de nacional e perspectivas de internacionalismo democrático e socialista contra o fascismo que surgia. Inspiraram-se nas mobilizações e transformações de poder popular alcançadas pela Revolução Mexicana e pela Revolução Russa. A luta pela igualdade e poder popular com a direção da classe trabalhadora continua nas disputas anti-imperialistas de nosso tempo. As mulheres, de inúmeras maneiras, moldaram e continuam a moldar essa luta contra o capitalismo oligopolista, patriarcal, racista e neocolonial.</p>
<p>Na série <em>Mulheres de Luta, Mulheres em Luta</em> do Instituto Tricontinental de Pesquisas Social, apresentamos as histórias de mulheres que contribuíram não apenas para o campo mais amplo da política, mas que também foram pioneiras na criação de organizações de mulheres, abrindo caminhos de resistência e de luta feminista ao longo do século XX.</p>
<p>A práxis é fundamental como conhecimento da teoria e dos métodos organizacionais de luta. Esses métodos, à medida que mudam e respondem à história, dão sustentação aos movimentos em marcha para enfrentar a opressão. Como militantes, estudamos os diversos métodos das mulheres e suas organizações não apenas para entender melhor suas contribuições políticas, mas também para nos inspirarmos enquanto construímos as organizações necessárias para nossa luta contra a opressão e a exploração.</p>
<p>Neste terceiro estudo analisamos a vida e o legado de Nela Martínez Espinosa, lutadora popular equatoriana. Escritora e militante comunista desde cedo, com ampla trajetória internacionalista, foi a primeira deputada eleita no Equador, criou uma das primeiras grandes organizações políticas de mulheres, em 1938. Como primeira mulher ministra de governo, na prática esteve no comando do país nos caóticos três dias que se seguiram à insurreição chamada <em>La Gloriosa,</em> em maio de 1944.</p>
<p>Sua rica história de militância nos ensina sobre a trajetória das mulheres nas lutas locais, nacionais e internacionais que vinculam os direitos das mulheres às lutas anticapitalistas, antifascistas, antirracistas, anticoloniais e anti-imperialistas ao longo do século XX. Nas palavras da própria Nela, no Congresso Nacional do Equador em 2003, um ano antes de sua morte, referindo-se à primeira vez que esteve lá como deputada em 1945:</p>
<p>Vim, pela primeira vez, no transe do meu amor por esta Pátria que ainda continua em luta consigo mesma, mas já então resgatada de uma ditadura que aumentou a opressão. Aqueles que viram na revolução que nós reivindicamos o maior perigo, e nos negaram o direito de fazê-la e vivê-la, ficaram simplesmente comovidos. Uma mulher no Congresso entre os que falavam e não apenas entre os que ouviam? A norma colonial herdada na prática de pensar e fazer regeu — palavra que vem de reinar, de Rei: o supremo, aquele que comanda — durante a Colônia destruidora da outra cultura, a do índio, a ponto de constituir-se em caráter, em forma de vida daqueles que mais tarde se tornaram republicanos. A prática da que falamos permaneceu deitada nas normas e, mais ainda, na ação social. Por isso minha presença era estranha no Congresso Nacional e, ao cumprimentá-la, os dirigentes políticos reconheceram, pela primeira vez, a cidadania das mulheres também na instância do poder.</p>
<p> </p>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #582e50;"><strong>Primeiros anos</strong></span></h2>
<p>Nela Martínez nasceu em 1912 em Cañar, uma pequena cidade abrigada pela Cordilheira dos Andes, no sul do Equador, em uma família proprietária de terras e muito religiosa. O pai, César Martínez, era membro do Partido Conservador. A mãe, Enriqueta Espinosa, era uma mulher culta e de tendências liberais, que inculcou em seus quinze filhos o gosto pela leitura, conhecimento e cultura.</p>
<p>Desde a infância, Nela conviveu com os filhos e filhas dos trabalhadores indígenas da fazenda de seu pai, submetidos à exploração econômica e racial herdada da Colônia e que continuou na época republicana. “Daí meu apego às questões indígenas. Quando eu era muito jovem, eu via o mundo dos índios muito longe do mundo dos patrões, o índio estava lá, em tudo, mas ao mesmo tempo ausente”. Aos 10 ou 11 anos, participou de um protesto dos indígenas da fazenda contra seu pai (Laurini, 1992).</p>
<p>Aos 12 anos, Nela ingressou no internato do Colégio Católico de los Sagrados Corazones, na cidade de Cuenca. Foi nessa fase da adolescência que teve seu primeiro contato com textos revolucionários: a revista <em>Amauta</em>, editada e publicada por José Carlos Mariátegui, em Lima (Peru), foi uma de suas primeiras leituras. Ela gastou o pouco dinheiro que sua família lhe deu em livros e estudou o socialismo andino. Ela voltou para sua cidade em 1927 sem diploma, porque naquela época as mulheres não podiam se graduar.</p>
<p> </p>
<p> </p>
<p> </p>
<p> </p>
<div id="attachment_57895" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-57895" class="wp-image-57895 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/06_F080.jpg" alt="" width="950" height="732" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/06_F080.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/06_F080-300x231.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/06_F080-768x592.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-57895" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #582e50;">Plenária do Comitê Central do Partido Comunista do Equador, reunido em Quito em 1947. Sentadas, as três mulheres que faziam parte dele: à esquerda Luisa Gómez de la Torre, à direita, Dolores Cacuango, líder da Federação Equatoriana de Índios e Nela Martínez Espinosa<br>Créditos: Arquivo Martínez-Meriguet</span></small></p></div>
<p> </p>
<h2 style="margin:3em 0;"><strong><span style="color: #582e50;">A Revolução Liberal e a crise do projeto liberal radical</span> </strong></h2>
<p>A Revolução Liberal de 1895, liderada pelo general Eloy Alfaro, havia iniciado o árduo processo de remoção das bases do Estado latifundiário-conservador no Equador: o predomínio da Igreja (transnacional) sobre a República; a censura da imprensa e de representação política imposta ao Partido Liberal e ao Radicalismo<a href="#_ftn1" name="_ftnref1"><sup>[1]</sup></a> e o domínio servil das comunidades indígenas da Serra, sustentado na desapropriação de suas terras ancestrais.</p>
<p>Esses novos horizontes políticos mobilizaram amplas camadas rurais, plebeias urbanas e até setores periféricos da burguesia. A bem-sucedida articulação desses grupos sustentou a vitória militar que marcou uma nova via de formação estatal, antagônica à do tradicional partido latifundiário ultraconservador e clerical. O impacto do auge liberal permeou o Estado e marcou as identidades sociais de setores progressistas nas décadas seguintes. No entanto, a expansão da economia em torno do cultivo e exportação de cacau, bem como a dependência financeira e comercial das elites equatorianas de países estrangeiros, marcaram uma trajetória oligárquica ainda mais acentuada durante a crise global pós-Primeira Guerra Mundial.</p>
<p>O ódio político dos conservadores e as disputas internas do Partido Liberal motivaram o cruel assassinato de Eloy Alfaro pelas mãos de uma multidão enfurecida, em 1912. Esse fato não acabou com o regime liberal, mas deu início a um período de recomposição de suas forças. Uma nova aliança entre as oligarquias da costa litorânea, associadas ao comércio e aos bancos, e a incipiente burguesia incrustada nas estruturas do Partido Liberal, fez com que os setores mais progressistas e revolucionários dos trabalhadores, do campesinato e das comunidades indígenas, melhor representados pela corrente de Alfaro, reagissem e questionassem a hegemonia liberal.</p>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #582e50;"><strong><em>As cruzes sobre a água</em></strong><strong>: pujança das organizações classistas</strong></span></h2>
<p>Diante da crescente desigualdade e do consequente descontentamento popular, o governo liberal recorreu à repressão com maior assiduidade e violência. Na cidade com a maior concentração proletária do país, o porto de Guayaquil, estourou uma greve geral vitoriosa, na qual convergiram as demandas de numerosos setores profissionais e do proletariado industrial. Após a paralisação total da cidade por dias, o governo liberal fez uso do Exército para esmagar a mobilização, resultando em um massacre com centenas de vítimas em 15 de novembro de 1922. Joaquín Gallegos Lara imortalizou o massacre de trabalhadores em sua obra <em>Las cruces sobre el agua </em>[As cruzes sobre a água], em alusão aos cadáveres flutuando no rio Guayas.</p>
<p>Longe de extinguir o conflito, esse episódio brutal radicalizou a ação dos setores mais organizados e revolucionários da classe trabalhadora. Em um contexto de crescente antagonismo de classes, consolidou a incorporação de novos atores políticos – o movimento indígena, o movimento camponês, o incipiente proletariado industrial, as mulheres –, antes desprovidos de poder político e de representação efetiva perante o Estado e a oligarquia.</p>
<p>Alguns desses novos atores articularam uma crítica radical ao projeto liberal. Por um lado, dentro da própria estrutura do Partido Liberal, grupos radicais questionaram as novas alianças com a oligarquia comercial e financeira e, finalmente, optaram pelo Partido Socialista Equatoriano. Em segundo lugar, as comunidades indígenas e camponesas despojadas de suas terras, cada vez mais pressionadas pela pujança dos latifundiários (sejam conservadores, sejam novos proprietários aliados às elites liberais), fortaleceram suas demandas por reconhecimento político por parte do Estado liberal. Em terceiro lugar, as massas trabalhadoras urbanas – o novo proletariado industrial – desenvolveram novas ferramentas de organização e luta por meio dos sindicatos setoriais e locais recém-criados, sendo o Partido Comunista do Equador muito importante nesse processo. Outros segmentos insatisfeitos com o regime liberal alimentaram a oposição progressista: grandes contingentes de professores e educadoras, jovens intelectuais, setores progressistas do exército, entre outros.</p>
<p>O Partido Comunista do Equador (PCE) foi formado em 1931, a partir de uma cisão do Partido Socialista Equatoriano (PSE), fundado em 1926. A discussão sobre a adesão ou não ao Comintern – o PCE foi o partido que aderiu à III Internacional – foi o último capítulo na crescente divergência entre as lideranças do PSE, não apenas nas esferas doutrinárias e ideológicas, mas também nas organizativas e táticas.</p>
<p>O Partido Socialista Equatoriano foi um ator fundamental nas reformas do Estado implementadas pelo recém-criado Ministério da Assistência Social e Trabalho: redistribuição de terras para comunidades indígenas, proibição do trabalho servil nas fazendas, consagração de direitos trabalhistas e até mesmo a configuração do Senado, incluindo a representação das classes trabalhadoras, indígenas, professores e funcionários públicos. Apesar de sua aposta por uma intervenção a partir das estruturas do Estado para efetivar uma reforma democrática radical, os militantes socialistas não conseguiram conter a pressão das elites para reprimir as organizações autônomas das classes populares. Aspirações reformistas de justiça social, representatividade, direitos sociais e políticos, bem como o reconhecimento de direitos ancestrais (no caso dos setores indígenas) foram incluídos na Constituição de 1928, tendo sido chave o papel dos quadros e advogados socialistas na formulação dessas reformas na lei.</p>
<p>Por sua vez, o PCE participou ativamente da organização da classe trabalhadora, tanto urbana quanto rural. Consciente da importância de fortalecer a ação coletiva organizada para efetivar os direitos consagrados na nova Constituição, a liderança comunista propôs um intenso trabalho com as comunidades indígenas da Serra Central e os setores camponeses despossuídos; promoveu articulações entre setores da classe trabalhadora para fortalecer a solidariedade entre grupos e a organização de greves, em âmbitolocal como nos setores sindicais e profissionais; e foi fundamental na batalha de ideias, desenvolvendo uma imprensa crítica vigorosa.</p>
<p>Como organização política incipiente, o PCE se organizou em células locais compostas por poucos militantes, mas muito atuantes e bem conectadas entre as regiões. Essa estrutura permitiu a articulação da militância comunista com um grande número de organizações de vários tipos, desde comunidades indígenas do centro e norte da Serra e do Litoral até sindicatos, associações etc. Alguns cálculos sugerem que o Partido conseguiu organizar até 600 mil camponeses em 1943 (Coronel, 2022). Foi esse trabalho militante de base, lado a lado com as organizações sindicais e camponesas nos centros de trabalho, nas localidades, e progressivamente nas instituições – muitas vezes, em coordenação com o Partido Socialista Equatoriano, estrutura com maior número de quadros e inserção institucional –, aquela que colocou o Partido Comunista na vanguarda do processo de acumulação de forças no período 1941-1944, que levaria à insurreição denominada <em>La Gloriosa</em>.</p>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #582e50;"><strong>Militância primeira: sindicatos, Partido Comunista do Equador e a Federação Equatoriana de Índios </strong></span></h2>
<p>O encontro de Nela Martínez com Joaquín Gallegos Lara, em 1930, durante uma visita de Nela, acompanhada de sua mãe, a Guayaquil, mudaria a vida de ambos para sempre. Gallegos Lara, com apenas 21 anos, já era um escritor consagrado, ligado ao mundo sindical e militante do Partido Comunista. Nela descobriu em Gallegos um vínculo de vida e militância, um “amor pelo futuro coletivo”, em suas próprias palavras.</p>
<p>Nela se mudou para Ambato, cidade da Sierra Central, e conseguiu um emprego humilde como professora. Em 1933, ingressou no Partido Comunista, sendo a única mulher do núcleo local, e iniciou sua atividade política por meio de intenso trabalho de organização de base com trabalhadores e camponeses. Durante esse período, estabeleceu relações com sindicatos de diferentes ofícios, publicou textos revolucionários radicais e organizou protestos e manifestações.</p>
<p>A distância física entre Nela Martínez e Joaquín Gallegos Lara não impediu que o relacionamento deles se tornasse cada vez mais íntimo e mais comprometido politicamente. Durante anos, a correspondência entre os dois sustentou a relação amorosa e foi o veículo para a troca frutífera de ideias políticas que enriqueceram o diálogo entre Sierra e Costa. Em uma das cartas que Nela escreve aos 19 anos, ela expressa a Joaquín sua posição sobre a situação da mulher, referindo-se à tentativa de seu pai de casá-la com o filho de um latifundiário:</p>
<p>Ele quer me deter na inconsciência da rotina do viver, fazer dos meus pensamentos ironia, os poucos que ele sabe de mim, na realidade resignada que deveria ser. Dar-me um marido católico para que nem meus filhos nem as gerações futuras mudem, para que eu mesma seja o que minha mãe é, o que são as mulheres infelizes desta terra: a mulher-vítima, a mulher-coisa, a mulher-escrava. Minha recusa direta o exasperou.</p>
<p>(Doc. N-19320102, Arquivo Martínez-Meriguet)</p>
<p>O pai de Nela Martínez nunca viu com bons olhos a relação dela com Gallegos Lara. Apesar da rejeição, eles se casaram em Ambato, em 1934. Pouco tempo depois, fugindo da perseguição política das autoridades locais, Nela e Joaquín se mudaram para Guayaquil. Sua reputação de comunista militante, sindicalista e agitadora impediu Nela de estabilizar sua situação econômica. Apesar das dificuldades, os dois desenvolveram uma intensa atividade política tanto na Serra quanto no Litoral. O papel de ambos como líderes orgânicos e intelectuais do Partido Comunista, forjando vínculos e alianças com diferentes setores da classe trabalhadora e da intelectualidade, foi fundamental para superar as divisões setoriais e regionais que permitiriam a unidade de ação das classes populares.</p>
<p>Em 1935, o PCE envia Nela Martínez a Quito para um encontro com diferentes setores políticos do país. Ela decide se estabelecer na capital, onde Joaquín a encontra logo depois. A convivência se deteriora e eles vivem separados, embora continuem seu casamento e seu trabalho político.</p>
<p>Nesse ano, Joaquín escreve os primeiros capítulos de uma obra fundamental da literatura equatoriana, <em>Los Guandos<a href="#_ftn2" name="_ftnref2"><sup><strong>[2]</strong></sup></a></em>, uma história comovente sobre a desapropriação e subjugação dos povos indígenas da Serra, a brutalidade do sistema de dominação imposto pelas classes latifundiárias e as contradições da modernização. O romance foi concebido conjuntamente por Nela e Joaquín e sua história principal emerge da narrativa da violência da exploração dos indígenas que Nela presenciou em sua infância e juventude. “Um livro índio. O primeiro livro índio que será feito em nosso Equador. Um livro novo. Mas não será só com o meu nome que aparecerá. Vamos escrever e publicar juntos”, diz Gallegos Lara em carta a Nela em 1930 (Doc J-19301123, Arquivo Martínez-Meriguet). Décadas depois, nos anos 1980, seria Nela quem terminaria de escrever e publicaria o texto, que ficou inacabado após a morte de Gallegos Lara. A obra faz parte da literatura indigenista equatoriana, em que autores não indígenas escrevem sobre os indígenas, buscando reivindicá-los no contexto das lutas pela recuperação de seu legado à nação.</p>
<p>Em 1936, após tentar tirar a própria vida, Gallegos Lara decide retornar a Guayaquil acompanhado de sua mãe, que dedicou especial atenão à saúde do filho desde que este nascera com problemas para caminhar. Essa nova separação acabou sendo definitiva: Nela escreveu a Joaquín, expressando seu desejo de se divorciar. O fim de sua história de amor não os impediu de continuar sendo companheiros, de militância e de vida, até a morte de Joaquín, em 1947.</p>
<p>Nela continuou suas tarefas políticas no Partido Comunista e estabeleceu relações com Ricardo Paredes, o primeiro secretário-geral do Partido e arquiteto da cisão com o PSE. Os dois tiveram um filho, que foi criado por Nela, já que Ricardo Paredes, casado, não queria se divorciar. Como mãe solteira, Nela teve que enfrentar a rejeição de uma sociedade profundamente conservadora, o que se deu desde o primeiro dia, andando abertamente na rua com seu filho (Martínez e Costales, 2018). Nela foi morar com a amiga Luisa Gómez de la Torre, também professora e integrante do PCE, que durante uma década a ajudou a cuidar do filho.</p>
<p>Durante esses anos, Nela esteve intimamente envolvida com o processo de formação da Federação Equatoriana de Índios (FEI), a primeira organização nacional de povos indígenas do Equador. A FEI se formou a partir de vários sindicatos e organizações existentes desde a década de 1920, que lutaram contra a brutalidade com os camponeses indígenas que trabalhavam na propriedade branca, exigindo igualdade efetiva, o direito à terra e à sua identidade. Em 1930, foi organizada uma greve na fazenda Pesillo (Cayambe), que acabou por significar o evento de fundação da federação. O Partido Comunista esteve envolvido nessa e nas mobilizações subsequentes e é nesse processo que Nela Martínez conhece a líder indígena Dolores Cacuango, conhecida como “Mamá Dolores de los índios”, figura chave do movimento indígena e do PCE.</p>
<p>Como Dolores Cacuango era analfabeta, Nela atuou como sua secretária. Nesse período, Nela aprofundou sua consciência sobre a importância da educação como ferramenta e processo emancipatório. Já em 1940, Dolores, Nela e sua amiga e companheira de partido, Luisa Gómez de la Torre, começaram a estabelecer centros de educação bilíngue para que as crianças indígenas tivessem uma educação adequada. Esses núcleos de ensino foram pensados ​​para educá-los na perspectiva de que pudessem ser professores, mas também líderes e militantes, e assim favorecer a construção de instrumentos de mobilização popular.</p>
<p>A FEI foi finalmente fundada em 1944 por esses grupos indígenas mobilizados e também por alguns mestiços brancos. Em ambos os grupos havia muitos militantes comunistas, motivo pelo qual desde o início se estabelece uma relação estreita entre a FEI e o PCE.</p>
<p> </p>
<div id="attachment_57905" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-57905" class="wp-image-57905 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/05_AFE_F067.jpg" alt="Meeting of the Ecuadorian Women's Alliance (AFE) at the Workers' House, Quito. Seated at the centre is Nela Martínez and standing, first on the right, is Luisa Gómez de la Torre. Source: Pacheco / Martínez-Meriguet Archive" width="950" height="657" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/05_AFE_F067.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/05_AFE_F067-300x207.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/05_AFE_F067-768x531.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-57905" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #582e50;">Reunião da Aliança Feminina Equatoriana (AFE) na Casa del Obrero, Quito. Sentada, ao centro, Nela Martínez e de pé, primeira à direita, Luisa Gómez de la Torre. </span><br><span style="color: #582e50;">Créditos: Pacheco/Arquivo Martínez-Meriguet</span></small></p></div>
<p> </p>
<p> </p>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #582e50;"><strong>A luta antifascista e a Aliança Feminina Equatoriana</strong></span></h2>
<p>Desde a década de 1930, Nela Martínez participou do movimento antifascista e antitotalitário que resistiu à influência no Equador dos fascistas italianos e espanhóis, bem como dos nazistas alemães. O programa nazista foi amplamente transmitido no rádio e nas universidades equatorianas, e os simpatizantes alemães do nazismo tiveram forte presença nos negócios do país, principalmente na indústria do petróleo. Oficiais da SS dirigiam as operações de espiões alemães independentes e estrategistas militares próximos ao gabinete do presidente, que os consultava sobre como estruturar o governo. Da mesma forma, o governo fascista do general Franco também teve influência no Equador por meio do Partido Conservador.</p>
<p>Em contrapartida, havia um movimento por uma Espanha livre, formado por espanhóis e equatorianos que se opunham à Espanha fascista e vários grupos antifascistas que colaboravam e conversavam, sobretudo, com os governos britânico e soviético.</p>
<p>Em 1941, foi criado em Quito o Movimento Popular Antitotalitário do Equador (MPAE), uma organização de esquerda antifascista, promovida principalmente pelo militante francês Raymond Mériguet. Nela, que se torna secretária de Organização e Propaganda, escreve sobre o antifascismo em diversos meios de comunicação, convocando a mobilização nas assembleias populares que organizam. Nessas assembleias, os militantes antifascistas de várias tendências, equatorianas e estrangeiras, construíram a unidade de ação contra a colaboração com as potências do eixo. Em 1942, Nela se tornou secretária da Organização Feminina do MPAE.</p>
<p>Ao mesmo tempo membro do Comitê Central e do Comitê Executivo do Partido Comunista, Nela Martínez acreditava firmemente na necessidade de um trabalho de organização de base, e seu envolvimento nessa tarefa desafiou as estruturas partidárias em mais de uma ocasião, especialmente no que diz respeito à participação ativa das mulheres. Já em 1931, em carta a Gallegos, ela dizia que:</p>
<p>A ideologia socialista só pode triunfar completamente em sua idiossincrasia ao canalizar as mulheres para seu movimento… Quem são os primeiros a lançar seu anátema contra a nova mulher? Criticá-la, caluniá-la e colocar barreiras impossíveis ao seu gesto redentor? Os homens. (Doc. N19310101, Arquivo Martínez-Meriguet).</p>
<p>A partir da legitimidade construída em anos de militância de base e incidência no debate público por meio de seus escritos na imprensa, Nela Martínez contribuiu para ampliar os espaços de união e articulação, particularmente com os setores indígenas e as mulheres, por meio da formação de organizações autônomas que permitissem a esses setores excluídos se expressarem com sua própria voz. Nela estava ciente da importância de envolver outros líderes e militantes comunistas regionais proeminentes nesses espaços de unidade.</p>
<p>Apesar de as mulheres terem uma importante participação e até liderança nas lutas da classe trabalhadora no Equador, isso não se refletiu na liderança dos partidos políticos. Durante sua viagem a Quito em 1935, Nela soube da existência de organizações de mulheres de direita e religiosas, mas nenhuma que reunisse mulheres de esquerda. Nesse momento, colocou em prática sua visão de unir todas as mulheres de partidos de esquerda e de diferentes origens para lutar por causas comuns e participou da fundação da Alianza Femenina de Ecuador (AFE), em 1938. Tratava-se de uma plataforma ampla e heterogênea de mulheres de diferentes setores sociais e políticos, entre as quais estavam liberais progressistas que lutaram pelo direito ao sufrágio feminino, lideranças indígenas como Dolores Cacuango, militantes comunistas como a própria Nela, outras socialistas, também operárias e mulheres de comitês de bairros. Nela logo se tornou secretária-geral e presidente da entidade, construída a partir de uma proposta de autonomia política das mulheres, para ter expressão própria na esfera política nacional (Salazar, 2018).</p>
<p>Dentro da ideologia da AFE estava a defesa da “igualdade de direitos econômicos, sociais e políticos para todos os equatorianos”. As mulheres equatorianas foram as primeiras da região a consagrar o direito ao voto, em 1929, de modo que essa demanda não estava no centro de sua agenda política, como no restante da região nas décadas de 1930 e 1940. As mulheres da AFE buscavam a unificação de todas as “forças femininas” em torno da defesa das mulheres e da transformação de todo o país. Inicialmente combinaram a luta política com campanhas de auxílio social, mas essas logo se tornaram instâncias políticas de apoio mútuo e socialização da reprodução da vida, como aconteceu com a criação de refeitórios sociais, oficinas diversas e alfabetização de mulheres privadas de liberdade na Prisão García Moreno, em Quito. A organização foi fortalecida pela luta pelos direitos trabalhistas das mulheres em meio ao debate nacional sobre o novo Código do Trabalho (1938), quando lutaram por salário igual para trabalho igual, reserva de emprego na gravidez, descanso pós-parto, criação de creches. Embora não a apresentassem nesses termos, naquela época já pensavam na política levando em conta as diferenças de gênero (Salazar, 2017a).</p>
<p>Como uma organização aliada, mas não sujeita à estrutura do Partido Comunista, a AFE desenvolveu suas atividades até 1950, principalmente em Quito, mas também tentou realizar atividades em outras localidades do Equador e até no exterior, chegando a ter delegadas nos Estados Unidos.</p>
<p> </p>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #582e50;"><strong>Revolução <em>A Gloriosa</em> (1944)</strong></span></h2>
<p>O presidente da época, Carlos Alberto Arroyo del Río, que assumiu em 1940, era uma figura da nova elite financeira internacional, que tentava reposicionar o poder do capital sobre os Estados reformistas da América Latina e frear as políticas redistributivas por meio de impostos, nacionalização de setores estratégicos e extensão dos direitos trabalhistas, assumidos por vários governos da região (Equador e México, entre outros) na década de 1930.</p>
<p>A linha reacionária de Arroyo del Río, contrária às Constituições de 1928 e 1938, bem como sua inimizade com os funcionários públicos da educação nacional e das universidades e sua intervenção contra os direitos à terra e ao trabalho conquistados, somados ao uso da força repressiva, condensaram uma oposição de esquerda na luta contra o retorno da oligarquia (Coronel, 2022).</p>
<p>Em julho de 1941, o Peru invadiu o Equador pelo sul e conquistou uma extensão de território na Amazônia equivalente a quase metade do país. Como gatilho para o conflito estavam os interesses de empresas europeias e estadunidenses pelos ricos campos petrolíferos da região. O conflito terminou — e a desapropriação foi sancionada — com a assinatura do Protocolo do Rio de Janeiro em 1942, que estabeleceu as novas fronteiras. A gestão do conflito pelo governo de Arroyo del Río foi vista como uma traição nacional em um momento crítico para a mobilização nacional contra o governo oligárquico.</p>
<p>No curto período entre 1943 e 1946, acelerou-se o processo de construção do poder autônomo das organizações populares no Equador. Embora nos anos anteriores houvessem sido feitos esforços para mobilizar e organizar a classe trabalhadora em nível local e setorial, a prioridade agora era formar alianças em nível nacional, buscando um acúmulo de forças que permitisse um confronto efetivo com os blocos dominantes no âmbito político e econômico. De um lado estava a Confederação dos Trabalhadores do Equador (CTE), uma ampla aliança de sindicatos e organizações camponesas de todo o país, fruto de um longo processo de alianças e criação de espaços de ação conjunta. Por outro lado, a já mencionada Federação Equatoriana de Índios.</p>
<p>Em seu compromisso por um projeto de “reconstrução nacional” que superasse as estruturas feudais e impulsionasse as forças produtivas no caminho em direção ao socialismo, as forças revolucionárias de esquerda, com o PCE na vanguarda, promovem a criação de uma frente. Convocam a unir-se não só a esquerda socialista e comunista, mas também os seguidores liberais do ex-presidente José María Velasco Ibarra e os “democratas conservadores”, para enfrentar com unidade o autoritarismo de Arroyo del Río, a crise oligárquica, a ameaça de fascismo e avançar no programa de desenvolvimento industrial nacional e na defesa da democracia.</p>
<p>O resultado, a Aliança Democrática Equatoriana (ADE), foi uma coalizão que incluiu os partidos Conservador, Liberal Radical Independente, Socialista e Comunista, e as plataformas da Frente Democrática Nacional e da Vanguarda Socialista Revolucionária Equatoriana. A ADE elaborou um documento programático que recolheu as demandas históricas dos setores excluídos e consolidou a unidade de ação para a construção nacional. O programa posicionou a demanda por democracia popular, garantindo liberdade de organização e de imprensa; a organização da economia para o aumento da capacidade produtiva tanto na indústria como na agricultura; a melhoria do nível de vida da classe trabalhadora e do campesinato e o estabelecimento de um salário digno; a plena “integração do índio e do montubio” e a promoção da educação; democratização das Forças Armadas e colaboração continental contra as forças fascistas.</p>
<p>Nessa conjuntura, em 28 de maio de 1944, ocorreu uma grande insurreição popular contra o governo de Arroyo del Río, liderada por forças populares: trabalhadores, estudantes, indígenas e mulheres articuladas através da ADE. Em 29 de maio, quando o presidente Arroyo se refugia pela primeira vez na Embaixada da Colômbia, os carabineiros vão à sede da ADE para indicar que não atacarão, só se defenderão se forem atacados e, finalmente, os militares reconhecem o direito à insurreição e a direção da ADE. Nela Martínez vê o vácuo de poder e decide ocupar o Palácio do Governo acompanhada de estudantes. Nela foi ministra do Governo e esteve à frente do país durante três dias épicos.</p>
<p>Do Ministério eu ordenei a libertação dos prisioneiros, principalmente os do Movimento Antifascista, que se encontravam em diferentes províncias ou confinados no Leste, por lutarem contra o regime de Arroyo del Río. Todo o país foi informado de que o ADE assumiu a Presidência da República; pedimos que fossem organizados governos setoriais para impedir a ação da contrarrevolução – embora o termo não seja exato. Ordenei o que tinha que ser ordenado: a coordenação de toda a atividade em escala nacional (Martínez; Costales, 2018).</p>
<p>Quando Velasco Ibarra finalmente chegou — ele estava no norte do país na época do levante — em vez de convocar eleições, se instalou diretamente no poder. Nela percebeu que a revolta popular havia sido traída e deixou o Palácio sem aceitar nenhum cargo. Velasco fecha imediatamente a repartição pública onde ela trabalhava, deixando-a desempregada.</p>
<p>Uma Assembleia Constituinte, composta por representantes dos trabalhadores e de diversos setores sociais anteriormente excluídos, promulgou uma nova Constituição em 1945, que consagrou os direitos sociais a favor da classe trabalhadora e dos indígenas, subordinando a propriedade privada ao interesse geral e reconhecendo os direitos ancestrais em terras comunitárias. Da mesma forma, garantiu a representação parlamentar de trabalhadores, indígenas, educadores e outros setores anteriormente excluídos por meio do sistema funcional<a href="#_ftn3" name="_ftnref3"><sup>[3]</sup></a> de eleição.</p>
<p>Lideradas por Nela, as mulheres da AFE buscaram representação política formal na Assembleia, pela qual tiveram que lutar apesar de já terem direito ao voto e terem participado ativamente de La Gloriosa. Na assembleia realizada na Central de Trabalhadores do Equador (CTE) para designar os candidatos à Assembleia Nacional Constituinte, os líderes comunistas manobraram para que a candidatura a principal parlamentar não recaísse sobre Nela Martínez, apesar do apoio a seu favor. Apesar disso, Nela concorreu como deputada substituta, conquistou a cadeira e quando finalmente foi eleita, em 1945, tornou-se a primeira mulher deputada no Equador. Essa foi talvez a primeira grande batalha interna que Nela teve que travar contra a discriminação de gênero muito clara de seus próprios companheiros do PCE.</p>
<p>Velasco Ibarra aproveitou as lutas internas da ADE, multipartidarista e interclassista, e manobrou para revogar a Constituição de 1945 e se proclamar ditador em 1946. A contrarrevolução que liderou ajudou a consolidar o poder de setores conservadores no Estado, mas não conseguiu enfraquecer de imediato o ímpeto da organização popular construída nas duas décadas anteriores.</p>
<p> </p>
<div id="attachment_57915" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-57915" class="wp-image-57915 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/04_FDNC14-NME-1-CONGRESO-MUJ-TRA-1956.jpg" alt="" width="950" height="1089" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/04_FDNC14-NME-1-CONGRESO-MUJ-TRA-1956.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/04_FDNC14-NME-1-CONGRESO-MUJ-TRA-1956-262x300.jpg 262w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/04_FDNC14-NME-1-CONGRESO-MUJ-TRA-1956-893x1024.jpg 893w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/04_FDNC14-NME-1-CONGRESO-MUJ-TRA-1956-768x880.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-57915" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #582e50;">Intervenção de Nela Martínez no Primeiro Congresso da Mulher Trabalhadora. Quito, 1956. Créditos: Pacheco/Arquivo Martínez-Meriguet </span></small></p></div>
<p> </p>
<p><strong> </strong></p>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #582e50;"><strong>Militante comunista internacionalista</strong></span></h2>
<p>Após a derrota das forças populares em maio de 1944, Nela Martínez se distanciou completamente do governo e dedicou anos importantes à luta internacionalista.</p>
<p>Em uma longa viagem que começou com um convite para o Congresso Interamericano de Mulheres na Guatemala, em 1946, ela ajudou clandestinamente na reorganização do Partido Comunista daquele país, banido pela ditadura, e na formação de uma organização nacional de mulheres, a Aliança Feminina. Em Honduras e na Nicarágua, ela conheceu em primeira mão a repressão da militância comunista. Na Costa Rica e no Panamá, encontrou partidos comunistas mais organizados que podiam participar da política local. Finalmente, na Colômbia, desempenhou um papel importante na formação da Alianza de Mujeres.</p>
<p>Em 1949, ela inicia uma estadia de um ano na Europa. Viaja a Paris como representante das mulheres comunistas do Equador, convidada pela Federação Democrática Internacional de Mulheres, onde contribui para a organização do Primeiro Congresso Mundial pela Paz. Em seguida foi convidada a participar de um encontro internacional de mulheres comunistas em Moscou. Essa viagem lhe permitiu conhecer dirigentes e militantes comunistas, não só de vários países europeus, mas também de Cuba, escala da sua viagem transatlântica, país onde criou laços que se fortaleceriam ainda mais após o triunfo da Revolução Cubana em 1959.</p>
<p>Após sua viagem, Nela retorna à sua militância no Partido Comunista do Equador e na AFE. Junto com Dolores Cacuango, Luisa Gómez de la Torre e outros militantes comunistas, trabalhou nos anos seguintes na consolidação de escolas indígenas em Cayambe.</p>
<p>Em 1950, Nela se casou com Raymond Mériguet, militante comunista e antifascista francês, como mencionado, um dos fundadores e secretário-geral do Movimento Popular Antitotalitário do Equador (MPAE). Mériguet se estabeleceu no Equador na década de 1930 e os dois se conheciam desde a época do MPAE. Tiveram três filhos e compartilharam vida e militância até a morte dele, em 1988.</p>
<p> </p>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #582e50;"><strong>A União Revolucionária de Mulheres do Equador</strong></span></h2>
<p>Nas décadas de 1950 e 1960, o PCE enfrentou fortes tensões em torno da luta armada e da participação de mulheres e jovens. A morte de Stalin em 1953 coloca em questão o chamado “culto ao líder” e o triunfo da Revolução Cubana em 1959 abre fortes debates sobre a luta armada. O PCE, que em seu congresso de 1962 havia definido que a luta armada era o caminho para a revolução, sancionou e expulsou, em 1964, militantes que organizaram uma tentativa de guerrilha em 1962 com a frente de massas da juventude do partido, a União Revolucionária da Juventude Equatoriana ( URJE).</p>
<p>Entre 1954 e 1955, três projetos foram apresentados ao Comitê Central do PCE para criar uma organização de mulheres. A Comissão Nacional da Mulher do PCE apresentou dois (provavelmente elaborados por Nela Martínez e Luisa Gómez de la Torre): uma Organização de Mulheres Democráticas e depois uma Federação Democrática de Mulheres Equatorianas. Por sua vez, Pedro Saad e Rafael Echeverría, do Comitê Central, apresentaram um “Plano de Organização do Trabalho entre Mulheres”. Finalmente, foi criada a União Democrática de Mulheres Equatorianas (Salazar, 2017b) sobre a qual há muito pouca informação.</p>
<p>Em um incidente pouco claro, mas expresso como “confrontos internos com membros do Comitê Central”, Nela Martínez foi suspensa do PCE em 1957 (ibid). Nos anos seguintes, além de cuidar de seus três filhos pequenos, dedicou-se à ação feminista e à solidariedade com os refugiados que chegaram ao país fugindo das múltiplas ditaduras do continente.</p>
<p>O PCE manteve seu alinhamento com a URSS e a linha de criar alianças com a burguesia e a pequena burguesia para participar das eleições. Além de vários episódios de expulsão de militantes chamados de ultra-esquerdistas, a partir de então o PCE passou a criticar duramente o Partido Comunista Chinês, em repetidas ocasiões. Um grupo de quadros e militantes se separou do PCE em 1964 para criar o Partido Comunista Marxista-Leninista do Equador, de tendência maoísta.</p>
<p>A Revolução Cubana, com seu importante papel feminino e a criação da Federação de Mulheres Cubanas, assim como as guerrilhas vietnamitas, influenciou uma certa abertura do PCE a um maior protagonismo femenino. O PCE entendeu que o papel das mulheres, como o de todos os militantes, era participar da luta de classes para acabar com o capitalismo; porém, suas problemáticas específicas se reduziam à luta pela paz, ao papel materno e à defesa da infância. O PCE sempre considerou que, se houvesse alguma organização de mulheres, ela deveria ser tutelada pelo Comitê Central, tanto pelo perigo do chamado “fracionalismo” quanto por temer a influência reformista do feminismo burguês (Salazar, 2017b, 2018). O compromisso do partido era construir frentes de massas femininas, enquanto a necessidade de melhorar a representação política das mulheres, as condições para sua participação ou o questionamento da divisão sexual do trabalho não faziam parte das propostas da época.</p>
<p>A AFE funcionou apenas até o início da década de 1950, mas boa parte do grupo de mulheres que a formou permaneceu ativo. Estabelecendo vínculos com estudantes universitárias e sindicalistas, essas mulheres criaram em 1962 a União Revolucionária de Mulheres do Equador (URME). Seu objetivo era “a libertação efetiva das mulheres equatorianas que permita a elas exercer seus direitos como cidadãs, sem restrições ou limitações; a real independência do Equador, em pleno exercício de sua soberania; soberania popular como expressão política, social e económica de um povo cujos direitos foram sistematicamente roubados ou traídos” (Estatuto, citado em Salazar, 2017a).</p>
<p>A URME foi criada como uma organização sem uma estrutura hierárquica clássica, que dividiu seu trabalho em torno de comissões. A organização não se identificava como feminista; na verdade, as participantes rejeitaram categoricamente o conceito por considerá-lo burguês e reformista, uma concepção geralmente compartilhada pela esquerda equatoriana da época.</p>
<p>Em 1963, a URME, o Comitê de Unidade pela Paz e Soberania e a União Democrática das Mulheres do Equador convocaram uma reunião para o dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, na qual, além das organizações convocantes, participaram militantes dos partidos socialista, socialista revolucionário e comunista. A reunião foi interrompida por uma briga com membros da Alianza Femenina Universitaria (AFU), organização criada pelo PCE em 1952, que, segundo a URME, compareceu com intenções de “sabotagem”. Após esse incidente, o PCE declarou, em março de 1963, que Nela Martínez já não integrava o partido. Acusaram-na de não ter pedido seu reingresso após se separar em 1957, em uma “atitude contrária à linha do partido” e de atacar os dirigentes. Na mesma situação ficaram os outros dois integrantes de sua célula, Primitivo Barreto e Modesto Rivera. Também foram expulsos do partido Jaime Galarza e José María Roura que foram acusados de sectários: ultraesquerdista o primeiro e maoísta o segundo.</p>
<p>Na realidade, para as dirigentes da URME e especialmente para Nela, a origem do conflito foi que elas se recusaram a permitir que a organização das mulheres fosse totalmente tutelada pelo Comitê Central do PCE. Além disso, Nela (e também sua célula) mantinham diferenças de longa data com o Comitê Central no que diz respeito à relação do PCE com outras forças políticas por considerar que estava influenciado pelo browderismo<a href="#_ftn4" name="_ftnref4"><sup>[4]</sup></a>.</p>
<p>Internacionalmente, a URME estabeleceu relações formais com a Federação Democrática Internacional de Mulheres (FDIM), criada em 1945 e que foi a maior influência do PCE até a década de 1970, especialmente em relação às reivindicações das mulheres comunistas e às formas de organização. Essa filiação foi uma nova fonte de conflito com o PCE, considerado o único interlocutor legítimo da FDIM no Equador.</p>
<p>Nela escreveu sistematicamente para <em>Nuestra Palabra</em>, publicação oficial da URME, fundada em 1963, um marco na imprensa do movimento de mulheres equatorianas. A revista não só publicou sobre a situação da mulher, mas também falava de temas como a dupla discriminação de afro-equatorianas e indígenas, e de questões mais relevantes da situação nacional. O editorial de seu primeiro número expressa a ideologia da organização:</p>
<p>NUESTRA PALABRA vem de um silêncio de séculos, de uma servidão secular, de uma dor que nos pesa como parte de um povo sofredor, cujo fardo aumenta quando se é mulher. Temos que dizer Nuestra Palavra para expressar um pensamento: a libertação das mulheres tem que ser obra delas mesmas. Nossa voz foi silenciada, ignorada, difamada. O selo de uma sociedade injusta pesou como uma lápide no destino das mulheres equatorianas. As sobrevivências patriarcais e feudais, os preconceitos burgueses, o egoísmo das classes dominantes, estendem-se a todos os setores, mesmo àqueles que, por sua natureza revolucionária, deveriam ser os primeiros a limpar as teias de aranha de suas mentes (citado en Martínez y Costales, 2018).</p>
<p><em>Nuestra Palabra</em> deixou de ser publicada após quatro números, quando o quinto foi interrompido após um golpe de Estado. A Junta Militar que tomou posse começou a reprimir todas as organizações de esquerda, mas principalmente as comunistas, declarando oficialmente o comunismo e o PCE ilegais. A URME teve que ir para a clandestinidade. Vários militantes tiveram que se esconder ou se exilar. Nela se refugiou com seus três filhos menores na casa de sua mãe em Cañar, sua cidade natal.</p>
<p>A URME permaneceu ativa até 1966 — o mesmo ano do fim da ditadura —, fora da tutela que o PCE pretendia exercer por meio de algumas de suas integrantes. Continuaram a reunir e distribuir panfletos de resistência em defesa das pessoas privadas de liberdade e perseguidas, contra o imperialismo estadunidense, claramente refletido nas ações da Junta Militar, rejeitando o bloqueio contra Cuba e a favor da soberania mundial, da paz e do desarmamento. Colaboraram constantemente com outras organizações de mulheres, como o Comitê Feminino de Defesa dos Direitos Humanos, a Frente Nacional das Mulheres contra a Ditadura e a Comissão de Direitos Humanos. As razões para a dissolução da organização não são claras.</p>
<p> </p>
<div id="attachment_58023" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-58023" class="wp-image-58023 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/F-180.jpg" alt="" width="950" height="627" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/F-180.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/F-180-300x198.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/F-180-768x507.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-58023" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #582e50;">Aula em uma das escolas bilíngues para indígenas, criadas pela Federação Equatoriana de Índios em Cayambe que Luisa Gómez de la Torre e Nela Martínez contribuíram para formar.</span><br><span style="color: #582e50;">Créditos: Blomberg/Arquivo Martínez-Meriguet</span></small></p></div>
<p> </p>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #582e50;"><strong>Luta contra as ditaduras e solidariedade com a Revolução sandinista</strong></span></h2>
<p>Sempre, mas com maior ênfase na década de 1970, a casa Martínez Meriguet acolheu muitos refugiados políticos das ditaduras que assolaram a América Latina. Em 1983, Nela Martínez participou ativamente da formação da Frente Continental de Mulheres pela Paz e contra a Intervenção. Fez parte da Coordenação, como plataforma para denunciar, tanto no Equador como internacionalmente, o plano intervencionista dos Estados Unidos. A Frente Continental Feminina nasceu sob o signo da solidariedade internacional latino-americana: Cuba, bloqueada e vitoriosa; Nicarágua, sob a guerra imposta por Reagan; Guatemala e El Salvador, em heróica luta pelos direitos de seus povos; o Chile, sob a cruel ditadura civil-militar de Pinochet; Argentina, com sua guerra e seus 30 mil mortos e desaparecidos.</p>
<p>Durante as reuniões internacionais, foram ratificados quatro pontos essenciais:</p>
<ol>
<li>A solidariedade que as mulheres constroem diariamente.</li>
<li>Anti-imperialismo forte e combativo.</li>
<li>A necessidade de autodeterminação.</li>
<li>A consciência da condição da mulher, o aprofundamento da sua autoestima e a vontade de lutar contra todas as formas de discriminação.</li>
</ol>
<p>Durante os anos 1980, o Comitê também convocou as mulheres da América Latina a reconhecer e homenagear Manuela Sáenz, uma heroína de Quito da independência sul-americana, em sua qualidade de política e por sua participação direta nas batalhas pela independência.</p>
<p> </p>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #582e50;"><strong>Solidariedad</strong><strong>e a Cuba</strong></span></h2>
<p>Em 1977, Nela fundou, ao lado de outros intelectuais, o Instituto Cultural José Martí. Dois anos depois, em 1979, com o retorno à democracia, após o último período da ditadura (1971-1979), o Equador retomou as relações diplomáticas com a ilha. Nesse momento, Nela devolve ao novo embaixador a bandeira que lhe havia sido entregue para custódia quando, em 1962, o Equador, pressionado pelos Estados Unidos, rompeu relações diplomáticas com Cuba.</p>
<p>Nela apoiou a iniciativa liderada por Oswaldo Guayasamín, o mais importante pintor equatoriano do século passado, com laços estreitos com a Revolução Cubana e membro destacado do Instituto Cultural Equatoriano-Cuba José Martí, de criar a Coordenação Nacional Equatoriana de Amizade e Solidariedade a Cuba, em 1992, entidade que presidiu por vários anos.</p>
<p>Além disso, em solidariedade com a Nicarágua, Nela Martínez fundou a Casa da Amizade Equatoriano-Nicaraguense e deu continuidade ao trabalho do Tribunal Anti-imperialista de Nossa América.</p>
<p>Nela escreveu artigos e ensaios durante toda a vida, mas também poesia e alguns contos. Os seus textos foram por vezes publicados em jornais, mas sobretudo em publicações e revistas comunistas e nas diferentes organizações feministas e antifascistas nas quais militou. Muitas vezes – mais de 100, ela diz em uma entrevista – publicou sob pseudônimos. Cada vez que uma das frequentes ditaduras ou governos autoritários do Equador descobria que era ela, uma mulher comunista, que escrevia sob um certo pseudônimo, esse pseudônimo era proibido e ela tinha que inventar um novo.</p>
<p> </p>
<div id="attachment_57925" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-57925" class="wp-image-57925 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/07_F082-URME.jpg" alt="" width="950" height="632" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/07_F082-URME.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/07_F082-URME-300x200.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/07_F082-URME-768x511.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-57925" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #582e50;">Mulheres da União Revolucionária de Mulheres do Equador (URME). Quito, 1963. </span><br><span style="color: #582e50;">Créditos: Utreras/Arquivo Martínez-Meriguet</span></small></p></div>
<p> </p>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #582e50;"><strong>Oposi</strong><strong>ção à Base militar em Manta e ao Plano Colômbia</strong></span></h2>
<p><strong> </strong>Nela permaneceu ativa até seus últimos dias. Na década de 1990, <a href="https://www.voltairenet.org/article121639.html">se opôs à participação do Equador no Plano Colômbia</a>, uma iniciativa estadunidense que fazia parte do que chamam de “Guerra às Drogas”, mais um passo nas constantes tentativas de controle geopolítico da América Latina por parte dos EUA, nesse caso por meio da penetração na polícia e exércitos.</p>
<p>Em 2000, como presidenta da Frente Continental de Mulheres, Nela participou de um processo contra o estabelecimento de uma base militar estadunidense no porto de Manta. A base foi estabelecida, mas teve que ser desmantelada após a aprovação em 2008 de uma nova Constituição que proíbe bases militares estrangeiras em território equatoriano. Em maio de 2003, Nela, ao receber o prêmio Dra. Matilde Hidalgo de Prócel,<a href="#_ftn5" name="_ftnref5"><sup>[5]</sup></a> disse:</p>
<p>A colonização retorna. Especificamente, a terra do lutador e presidente Eloy Alfaro é hoje estadunidense. Manta; base de barcos e implementos de guerra e empréstimo para o novo ataque ianque. Também Esmeraldas e toda a sua baía e possivelmente Galápagos. Nós, os sobreviventes, aprendemos – eu em uma escola de freiras – a amar os feitos de Bolívar e seus exércitos de patriotas. Como sairemos dessa colonização? Como podemos nos justificar diante de nossa covardia?</p>
<p>Nos anos 1980 uma doença a deixou quase paralisada, mas conseguiu se recuperar graças a seus enormes esforços e depois de dois anos de intensa reabilitação. Apesar de sua doença, seguiu trabalhando duro nas décadas seguintes.</p>
<p>Em 2004, Nela, já bastante doente, foi a Havana para receber tratamento médico e lá morreu, em julho do mesmo ano. Suas cinzas repousam tanto em Havana quanto em Quito. Recebeu duas homenagens nos dois países.</p>
<p>—</p>
<p>Este estudo foi realizado por uma equipe composta por Pilar Troya, do Instituto Tricontinental de Pesquisas Sociais, a historiadora Valeria Coronel, e Daniela Schroder e Iván Orosa, que fizeram parte do grupo de pesquisa sobre Nela Martínez formado no curso “Marxismo e libertação”, realizado em 2020 pelo Instituto Tricontinental de Pesquisa Social e pela Assembleia Internacional dos Povos.</p>
<p>Esta é uma publicação conjunta com o Arquivo Martínez-Meriguet, instituição a quem agradecemos a enorme abertura e a dedicada colaboração na pessoa de Nela Meriguet Martínez.</p>
<p> </p>
<div id="attachment_57935" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-57935" class="wp-image-57935 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/03_RECORTE-FOTO-10-AGOSTO1993-ANA-NME.jpg" alt="" width="950" height="1203" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/03_RECORTE-FOTO-10-AGOSTO1993-ANA-NME.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/03_RECORTE-FOTO-10-AGOSTO1993-ANA-NME-237x300.jpg 237w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/03_RECORTE-FOTO-10-AGOSTO1993-ANA-NME-809x1024.jpg 809w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/03_RECORTE-FOTO-10-AGOSTO1993-ANA-NME-768x973.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-57935" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #582e50;">Mulheres de vários movimentos políticos na Plaza de la Independencia, Quito, manifestam-se em defesa da soberania nacional; no centro Nela Martínez, em 10 de agosto de 1993.</span><br><span style="color: #582e50;">Fonte: Arquivo Martínez-Meriguet<br></span></small></p></div>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #582e50;"><strong>Referências bibliográficas</strong></span></h3>
<p>Fontes primárias:</p>
<p>Archivo Martínez Mériguet (Quito, Ecuador)</p>
<p>Fondo Epistolario entre Nela Martínez Espinosa y Joaquín Gallegos Lara</p>
<p>Documento N-19300101, Carta de Nela Martínez a Joaquín Gallegos, 1 de enero de 1930.</p>
<p>Documento N-19320102, Carta de Nela Martínez a Joaquín Gallegos, 2 de enero de 1932.</p>
<p>Documento J-19301123, Carta de Joaquín Gallegos a Nela Martínez, 23 de noviembre de 1930.</p>
<p>Becker, Marc</p>
<p>“Comunistas, indigenistas e indígenas en la formación de la Federación Ecuatoriana de Indios y el Instituto Indigenista Ecuatoriano”. <em>Íconos, no 27</em>, Quito: FLACSO, 2006.</p>
<p>“Ecuador, izquierda y movimientos populares”, 1940s-present, en <em>International Encyclopedia of Revolution and Protest: 1500 to the Present</em>, ed. Immanuel Ness (Hoboken, Wiley-Blackwell), 2009.</p>
<p>“Construcciones de nacionalidades indígenas en el pensamiento marxista ecuatoriano”, en <em>Izquierdas, movimientos sociales y cultura política en América Latina</em>, ed. Lazar Jeifets, Víctor Jeifets y Miguel Ángel Urrego. Universidad Michoacana de San Nicolás de Hidalgo; Universidad Estatal de San Petersburgo, 2016.</p>
<p>Cabrera Hanna, Santiago, <em>La Gloriosa, ¿Revolución que no fue?</em> Biblioteca de Historia, 46, Universidad Andina Simón Bolívar, 2016.</p>
<p>Coronel, Valeria</p>
<p>“La Fragua de la Voz: Cartas sobre Revolución, Subjetividad y Cultura Nacional-Popular”, en Alemán, Gabriela y Coronel, Valeria (eds.), <em>Vienen Ganas de Cambiar el Tiempo. Epistolario entre Nela Martínez Espinosa y Joaquín Gallegos Lara 1930 a 1938</em>. Instituto Metropolitano de Patrimonio y Archivo Martínez-Meriguet, 2012.</p>
<p>“La Revolución gloriosa: una relectura desde la estrategia de la hegemonía de la izquierda de entreguerras.” en <em>La Gloriosa: la revolución que no fue</em>. Corporación Editora Nacional y Universidad Andina Simón Bolívar, Sede Ecuador, 2016</p>
<p>“Izquierdas, sindicatos y militares en el bloque democrático del Ecuador de entreguerras (1925-1945)”, en Camarero, Hernán y Mangiantini, Martín, eds. <em>El </em><em>movimiento obrero y las izquierdas en América Latina. Experiencias de lucha, inserción y organización</em>, Volumen I. Contracorriente, 2018.</p>
<p>“The Ecuadorian Left during Global Crisis: Republican Democracy, Class Struggle and State Formation (1919-1946)”. En: <em>Words of Power, the Power of Words. The Twentieth-Century Communist Discourse in International Perspective</em>. EUT Edizioni, Università di Trieste, 2020.</p>
<p><em>El Estado Indoamericano: reforma, democracia y socialismo en el Ecuador de entreguerras</em>. en prensa, FLACSO, Colección Atrio, 2022.</p>
<p>Ibarra, Hernán. <em>El pensamiento de la izquierda comunista (1928-1961)</em>. Quito, Ministerio de Coordinación de la Política y Gobiernos Autónomos Descentralizados, 2013.</p>
<p>Laurini, Tania. “Ser mujer y rebelde nunca fue fácil”. 9 de marzo de 1992. Disponible en: <a href="https://hoy.tawsa.com/noticias-ecuador/nacer-en-1912-ser-mujer-y-ser-rebelde-nunca-fue-facil-61358.html">https://hoy.tawsa.com/noticias-ecuador/nacer-en-1912-ser-mujer-y-ser-rebelde-nunca-fue-facil-61358.html</a></p>
<p>Löwy, Michael. “Introducción. Puntos de referencia para una historia del marxismo en América Latina”, en <em>El marxismo en América Latina</em>. Santiago, LOM, 2007.</p>
<p>Martínez Espinosa, Nela</p>
<p>“Prólogo”. En Ycaza, Patricio, Historia del movimiento obrero ecuatoriano. Segunda parte. Centro de Investigación de los Movimientos Sociales del Ecuador (CEDIME) – Centro de Investigaciones CIUDAD, 1991.</p>
<p>“Discurso de entrega de la concesión del Premio Manuela Espejo”. 8 de marzo de 2001. Disponible en: <a href="https://www.voltairenet.org/article121639.html">https://www.voltairenet.org/article121639.html</a></p>
<p>“Carta de Nela Martínez a sus camaradas comunistas”, 23 de mayo de 2001. Disponible en: <a href="https://www.voltairenet.org/article121691.html">https://www.voltairenet.org/article121691.html</a></p>
<p>“Manifiesto del Comité Ecuatoriano por la Paz y la Soberanía”. 4 de julio de 2001. Disponible en: <a href="https://www.voltairenet.org/article121693.html">https://www.voltairenet.org/article121693.html</a>,</p>
<p>“Carta a Fidel Castro”. 21 de mayo de 2003. Disponible en: <a href="https://www.voltairenet.org/article121688.html">https://www.voltairenet.org/article121688.html</a></p>
<p>“Discurso de entrega de la concesión del Premio Dra. Matilde Hidalgo de Prócel”. 27 de mayo de 2003. Disponible en: <a href="https://www.voltairenet.org/article121689.html">https://www.voltairenet.org/article121689.html</a></p>
<p><em>Insumisas. Textos sobre las mujeres.</em> Quito: Ministerio Coordinador de Patrimonio, 2012.</p>
<p>Martínez, Nela y Ximena Costales. <em>Yo siempre he sido Nela Martínez Espinosa. Una autobiografía hablada</em>. UNAE, 2018.</p>
<p>Meriguet Cousségal, Raymond. <em>Antinazismo en el Ecuador. Años 1941-1944.</em> Quito, edición del autor, 1988.</p>
<p>Meriguet Calle<em>, </em>Pablo Raymond. “Antifascismo en el Ecuador (1941-1944): Historia del Movimiento Popular Antitotalitario del Ecuador y del Movimiento Antifascista del Ecuador”. Disertación para la obtención de la Licenciatura en Historia, Pontificia Universidad Católica del Ecuador, 2013.</p>
<p>Mora, Galo. <em>Revolucionarias del siglo XX</em>. Quito: Ministerio del Trabajo, 2015.</p>
<p>Muñoz Vicuña, Elías “Temas obreros” en <em>Biblioteca de autores ecuatorianos, 62</em>. Departamento de Publicaciones de la Facultad de Ciencias Económicas de la Universidad de Guayaquil, 1986.</p>
<p>Prashad, Vijay. “Belgrado, la Conferencia del Movimiento de los No Alineados de 1961” y “La Habana, la Conferencia Tricontinental de 1966”, en <em>The Darker Nations, A People’s History of the Third World</em>. The New Press, 2007.</p>
<p>RomoLeroux , Ketty. “Nela Martinez Espinosa, revolucionaria ejemplar”. 18 de febrero de 2016. Disponible en: <a href="https://www.eltelegrafo.com.ec/noticias/columnistas/15/nela-martinez-espinosa-revolucionaria-ejemplar">https://www.eltelegrafo.com.ec/noticias/columnistas/15/nela-martinez-espinosa-revolucionaria-ejemplar</a></p>
<p>Rodas, Germán. <em>La izquierda ecuatoriana en el siglo XX</em>. Editorial Abya Yala, 2000.</p>
<p>Salazar, Tatiana</p>
<p>“La experiencia militante de la Unión Revolucionaria de Mujeres del Ecuador (URME), 1962-1966”. Tesis para la obtención de la Maestría en Historia. Universidad Andina Simón Bolívar. Sede Ecuador, 2017.</p>
<p>“La militancia política femenina en la izquierda marxista ecuatoriana de la década de los sesenta: La URME y el PCE”. <em>Procesos</em>, No 46, 2017.</p>
<p>“Una lectura a la versátil militancia de la Alianza Femenina Ecuatoriana, 1938- 1950”. <em>Trashumante</em>, no 8, 2018.</p>
<p>“Ecuatorianas comunistas entre las décadas de los 60 y 70: estrategias locales para intereses internacionales”, <em>Crisol, N<sup>o</sup> 20: Las mujeres en los Andes (siglos XIX-XXI): entre la participación y la disputa. </em>Centre de Recherches Ibériques et Ibéro-américaines de l’Université Paris Nanterre, 2022.</p>
<p>Ycaza, Patricio. <em>Historia del movimiento obrero ecuatoriano. Segunda parte</em>. Centro de Investigación de los Movimientos Sociales del Ecuador (CEDIME) – Centro de Investigaciones CIUDAD, 1991.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #582e50;">Notas</span></h3>
<p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1"><sup>[1]</sup></a> Ala esquerda do Partido Liberal que ao lado de  algumas organizações sociais de base argumentava a favor da luta armada e por sempre antepor a vontade popular.</p>
<p><a href="#_ftnref2" name="_ftn2"><sup>[2]</sup></a> Na língua quéchua, significa carregadores, em referência aos indígenas que transportavam todo tipo de mercadoria nos ombros.</p>
<p><a href="#_ftnref3" name="_ftn3"><sup>[3]</sup></a> Eleição de uma parte dos deputados do Congresso de modo que representassem especificamente setores da sociedade como professores, estudantes, cientistas, industriais, comerciantes, mas também trabalhadores, camponeses e indígenas.</p>
<p><a href="#_ftnref4" name="_ftn4"><sup>[4]</sup></a> O browderismo foi uma corrente ideológica marxista de curta duração que sustentava a necessidade de que os partidos comunistas fizessem alianças e criassem frentes interclassistas com governos e setores de centro e direita em nome de enfrentar a ameaça do fascismo. Seu nome deriva do secretário geral (1930-1945) e presidente (1932-1945) do Partido Comunista dos Estados Unidos, Earl Browder e teve influência sobretudo na América Latina. Nela Martínez escreveu posteriormente um artigo a respeito: “Pedro Saad e o browderismo”, em <em>Mañana</em>, Época III, n. 225, 11 jan. 1968, p. 16. (citado en Ycaza, 1991).</p>
<p><a href="#_ftnref5" name="_ftn5"><sup>[5]</sup></a> Discurso ao receber este reconhecimento, concedido pelo Congresso Nacional (atual Assembleia Nacional) do Equador, que leva o nome da primeira mulher a votar no país, no ano de 1924 Dra Matilde Hidalgo, além de pioneira na luta pelo sufrágio feminino no país, conquistado em 1929, foi a primeira médica e a primeira mulher candidata a (e eleita) vereadora.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Kanak Mukherjee</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/estudos-feminismos-2-kanak-mukherjee/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Tech Tricontinental]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 08 Mar 2021 07:00:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Feminismos]]></category>
		<category><![CDATA[all india women’s association]]></category>
		<category><![CDATA[crime de honra]]></category>
		<category><![CDATA[Feminismo]]></category>
		<category><![CDATA[All India Women’s Conference]]></category>
		<category><![CDATA[federação de estudantes de toda índia]]></category>
		<category><![CDATA[comunismo]]></category>
		<category><![CDATA[dowry murder]]></category>
		<category><![CDATA[Conferência de mulheres de toda a índia]]></category>
		<category><![CDATA[patriarcado]]></category>
		<category><![CDATA[Eksathe]]></category>
		<category><![CDATA[comitê de autodefesa das mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[bengala]]></category>
		<category><![CDATA[intersectoral]]></category>
		<category><![CDATA[intersetorial]]></category>
		<category><![CDATA[comunalismo]]></category>
		<category><![CDATA[Mahila Atma Raksha Samiti]]></category>
		<category><![CDATA[dalit]]></category>
		<category><![CDATA[MARS]]></category>
		<category><![CDATA[Women’s Self Defence Committee]]></category>
		<category><![CDATA[Adivasi]]></category>
		<category><![CDATA[Associação Democrática de Mulheres de Toda a Índia]]></category>
		<category><![CDATA[AISF]]></category>
		<category><![CDATA[fome de bangala]]></category>
		<category><![CDATA[All India Students’ Federation]]></category>
		<category><![CDATA[assassinato por dote]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://www.thetricontinental.org/?p=37672</guid>

					<description><![CDATA[Nela Martínez Espinosa (1912-2004), militante popular equatoriana, foi uma figura central nas lutas da classe trabalhadora e das mulheres no Equador no século 20.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #582e50;"><strong>Kanak Mukherjee (1921-2005)</strong></span></h3>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #582e50;"><strong>Mulheres de luta, mulheres em luta</strong></span></h3>
<p> </p>
<div id="attachment_37440" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-37440" class="size-full wp-image-37440 img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/03/anti-communal-cover-image-4.jpg" alt="Mulheres e secularismo, um livro de Mythili Sivarama, vice presidenta da AIDWA no estado de Tamil Nadual. Tanto o texto como a ilustração abordam a importância do secularismo para os direitos das mulheres. " width="791" height="950" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/03/anti-communal-cover-image-4.jpg 791w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/03/anti-communal-cover-image-4-250x300.jpg 250w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/03/anti-communal-cover-image-4-768x922.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 791px) 100vw, 791px"><p id="caption-attachment-37440" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #582e50;">Mulheres e secularismo, um livro de Mythili Sivaraman, vice presidenta da AIDWA no estado de Tamil Nadual. Tanto o texto como a ilustração abordam a importância do secularismo para os direitos das mulheres. </span></small></p></div>
<p> </p>
<p>O século 20 foi marcado por lutas de libertação nacional que surgiram na África e na Ásia, bem como na América Latina, continentes em que as estruturas neocoloniais subordinaram os países formalmente independentes. As conquistas da Revolução Russa em 1917 inspiraram o campesinato e a classe trabalhadora em todo o Sul Global. A luta pela igualdade e libertação sob a liderança dos trabalhadores é contínua nas lutas anti-imperialistas de nosso tempo. As mulheres, de diversas maneiras, moldaram e continuam a moldar poderosamente todas essas lutas.</p>
<p>Na série <em>Mulheres de luta, mulheres em luta,</em> do <strong>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social</strong>, apresentaremos as histórias de mulheres lutadoras que contribuíram não apenas no campo da política, mas também foram pioneiras no estabelecimento de organizações de mulheres, abrindo caminhos de resistência e lutas feministas ao longo do século 20.</p>
<p>A práxis, como um conhecimento da teoria e dos métodos organizacionais de luta conforme mudam e respondem à história, dá sustentação às lutas contínuas para enfrentar a opressão. Como militantes, estudamos os diversos métodos de organização dessas mulheres, não apenas para entender melhor suas contribuições políticas, mas também para nos inspirar enquanto construímos as organizações necessárias para nossa atual luta contra a opressão e a exploração.</p>
<p>Neste segundo estudo, abordamos a vida e o legado de <strong>Kanak Mukherjee</strong>, uma lutadora popular que nasceu em Bengala, Índia, em 1921, antes dessa região ser dividida. A rica trajetória de sua militância nos ensina sobre a história das mulheres que se organizaram em lutas locais, nacionais e internacionais e construíram as conexões entre os direitos das mulheres e as lutas anti-imperialistas e anticapitalistas ao longo do século 20. Nas próprias palavras de Mukherjee: “não podemos ver a questão dos direitos das mulheres isoladamente. As raízes da subjugação e das discriminações contra elas residem na exploração de classe”.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #582e50;"><strong>Uma vida de comprometimento com a militância</strong></span></h3>
<p>Kanak Mukherjee nasceu Kanak Dasgupta, em 1921, em Benda, uma pequena localidade no distrito de Jessore, no leste de Bengala, Índia (hoje parte de Bangladesh), em uma família nacionalista e que teve acesso à educação. Ela entrou no Movimento pela Liberdade aos 10 anos de idade, quando se juntou ao <em>Salt Satyagraha</em> [Marcha do Sal] com sua família. Ao longo de todo século 19 e a primeira metade do século 20,  a Índia esteve repleta de movimentos por reforma social, dentro dos quais os debates sobre gênero e as questões dos direitos das mulheres ocupavam um lugar central. A província de Bengala foi um epicentro dessas atividades. Isso claramente causou uma forte impressão na mente da jovem Kanak, profundamente comovida e empática com muitas de suas familiares próximas que ficaram viúvas muito cedo. Em sua autobiografia, ela se lembra da angústia de uma de suas primas forçada a viver uma vida reclusa. Esse foi talvez o primeiro encontro consciente de Kanak com o patriarcado operando sob o manto da tradição e da religião.</p>
<p>Kanak também participou de movimentos anticoloniais clandestinos que buscavam se opor diretamente à ocupação britânica na Índia. Seu irmão e seu primo, membros de uma organização revolucionária armada, escondiam suas armas em casa. Quando criança, Kanak às vezes espiava os militantes durante as reuniões. Ao longo desse período, as mulheres deixaram de ser apenas apoiadoras das atividades de sabotagem anticolonial para se tornarem elementos chave de várias formas de ação direta militante, do transporte de armas à distribuição de panfletos, passando por redação de artigos, tornando-se, assim, participantes ativas. Havia muitos grupos armados clandestinos, como <em>Yugantar</em> e <em>Anushilan Samiti</em>, ativos em Bengala no primeiro quarto do século 20. Seus membros vinham principalmente das fileiras de jovens urbanos, educados e desempregados – incluindo jovens mulheres solteiras. Esses grupos realizaram principalmente assassinatos isolados de oficiais coloniais britânicos. Percebendo gradualmente a limitação desse tipo de atividade na luta contra o colonialismo e a necessidade de uma ação de massa mais ampla, muitos dos militantes se juntaram ao movimento comunista emergente na Índia nas décadas seguintes após sua formação, em 1920.</p>
<p>Enquanto Kanak estava no ensino médio, ela se juntou a círculos de estudo comunistas clandestinos para ler e discutir os principais textos marxistas. Em entrevista concedida em 2001, ela refletiu sobre a luta pela formação política:</p>
<p style="padding-left: 40px;">Houve o período do partido clandestino – <em>ki kosto amader korte hoyechhe ma</em> (“que dores tivemos que suportar, mãe”). Hoje em dia se consegue todo tipo de literatura política, em inglês e bengali, em grande quantidade, são tantos jornais diários, tantas reuniões, tantos discursos públicos – existem essas oportunidades para ampliar a consciência política. Eles nos deram um <em>Manifesto Comunista</em>, que tinha que ser mantido escondido (…) em inglês, e eu estava então na 8ª ou 9ª série (…). De noite, quando outros estavam dormindo, eu lia o <em>Manifesto</em> à luz de uma lâmpada, e com um dicionário ao meu lado.</p>
<p>Em 1937, Mukherjee ingressou no Bethune College, em Calcutá, parte da Universidade de Calcutá. Como muitas das lideranças femininas e comunistas desse período, ela começou a trabalhar em organizações comunistas de massa, como a Federação de Estudantes de Toda a Índia (All India Students’ Federation – AISF). Esse foi o caminho tanto para Renu Chakravartti como para Kanak Mukherjee. Em 1938, aos 17 anos, Mukherjee ingressou no Partido Comunista da Índia (PCI), tornando-se uma das primeiras mulheres integrantes em Bengala. Renu Chakravartti, outra das primeiras integrantes do PCI, apenas quatro anos mais velha que ela, relatou sua impressão de Mukherjee naquele momento como “uma garota pequena, magra e elétrica”. Ela também era a única mulher no conselho executivo da Federação de Estudantes de Bengala. Além do movimento da classe trabalhadora, as organizações de massa de mulheres e estudantes de esquerda foram as duas forças políticas mais significativas que contribuíram para a luta anticolonial e anti-imperialista.</p>
<p>Comunistas como Latika Sen, Manikuntala Sen e Kalpana Dutta Joshi assumiriam mais tarde a liderança na construção do movimento de massa de mulheres. Embora tenha havido um aumento na participação das mulheres na vida pública nos séculos 19 e 20, ingressar na política e se tornar uma militante em tempo integral não foi fácil para elas, tampouco bem aceito em algumas famílias. Shyamoli Gupta, secretária estadual da Associação das Mulheres Democráticas de Bengala Ocidental e editora do <em>Eksathe</em>, jornal iniciado por Mukherjee, disse que essa complexidade era proeminente na vida de Mukherjee. Apesar da falta de apoio familiar, ela deu continuidade à sua militância política por pura convicção e compromisso indomável com a política revolucionária da classe trabalhadora.</p>
<p>Movimentos comunistas e de massa que simpatizavam com a causa da classe trabalhadora e do campesinato experimentaram um crescimento substancial durante as décadas de 1920 e 1930. Calcutá, como uma das principais metrópoles coloniais do Império Britânico, viu um grande fluxo de migrantes de todo o país. Pessoas pertencentes a origens étnicas, linguísticas e culturais variadas vieram para a cidade em busca de empregos, educação superior, militância política e atividades intelectuais. Por duas décadas, a cidade testemunhou o que foi denominado uma “onda de greves” devido à forte resistência sindical e militante da classe trabalhadora, especialmente após a Primeira Guerra Mundial. O aumento dos preços de produtos básicos, o desemprego em massa, as más condições de vida, o racismo galopante e a alienação social deram a essas greves uma dimensão mais ampla. Mukherjee chegou a essa vibrante cidade não apenas em busca de educação superior, mas também para fazer parte de uma luta mais ampla da classe trabalhadora anticolonial. Além de continuar seu trabalho com a organização de alunos em Bengala, Kanak se apresentava como voluntária na campanha de alfabetização empreendida pelas lideranças sindicais em Kashipur, um dos bolsões industriais onde viviam esses trabalhadores migrantes. Ela se matriculou em um curso de hindi de meio período e continuou a estudar o idioma sozinha, a fim de alfabetizar os trabalhadores migrantes em sua própria língua.</p>
<p>Viver em Calcutá não foi fácil para militantes políticos – especialmente para comunistas. A maior parte do trabalho do Partido Comunista era clandestino. Donos de imóveis, por exemplo, não permitiam que os comunistas alugassem suas propriedades quando ficavam sabendo de sua filiação partidária; muitos trabalhadores do partido, tanto homens como mulheres, viviam em casas de simpatizantes. Com os senhores coloniais constantemente os buscando, as estadas nunca eram sem percalços, e frequentemente tinham que se mudar. Esse assédio se estendia a aqueles que davam refúgio aos comunistas. Como resultado, estes buscaram se desenvolver para fornecer condições de vida estáveis aos quadros do partido.</p>
<p>Como muitos comunistas daquela época, Kanak morou em casas de militantes do partido após sua chegada a Calcutá. Posteriormente, mudou-se para uma comuna no centro da cidade, onde se reuniu com Muzaffar Ahmad (“Kakababu”), uma das principais lideranças do movimento comunista na Índia. Kakababu cuidava dos jovens militantes do partido; sua conduta calorosa cativava facilmente aqueles ao seu redor. Logo uma amizade afetuosa cresceu entre os camaradas Kakababu e Kanak.</p>
<p> </p>
<div id="attachment_37451" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-37451" class="size-full wp-image-37451 img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/03/anti-sati-pamplet-cover-5.jpg" alt="" width="791" height="950" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/03/anti-sati-pamplet-cover-5.jpg 791w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/03/anti-sati-pamplet-cover-5-250x300.jpg 250w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/03/anti-sati-pamplet-cover-5-768x922.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 791px) 100vw, 791px"><p id="caption-attachment-37451" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #582e50;">Capa de um panfleto da Associação Democrática de Mulheres de Toda a Índia no estado de Tamil Nadu, de finais da década de 1980. A organização há muito tempo luta contra os assassinatos por dote mediante queima, que se atribuem frequente e falsamente a acidentes com aquecedores de querosene. O texto diz: “Estamos sendo consumidas pelo fogo, que o vulcão desperte!”</span></small></p></div>
<p> </p>
<p>Kanak ficou inconsolável quando teve que aceitar um emprego como professora para sustentar sua família, pois acreditava que assim estaria prejudicando seu compromisso político, já que não conseguiria dedicar tanto tempo ao trabalho político. Ela começou a chorar na frente de Kakababu, que a consolou dizendo que ela não estava se retirando da militância, mas ajudando sua família diante das dificuldades econômicas, e que não deveria se sentir mal por isso. Para um comunista nunca é uma situação de “ou um ou outro”, disse Kakababu. Essa relação de carinho, cuidado e respeito mútuo entre os dois camaradas continuou até sua morte.</p>
<p>Kanak vivia em uma comuna comunista com seu marido, Saroj Mukherjee, um militante que ela conheceu em 1939 quando ambos estavam na clandestinidade, junto a outro casal – cada um com seu próprio quarto – e quatro ou cinco mulheres solteiras e homens que moravam nos outros dois cômodos, separados por gênero. Mukherjee escreveu sobre o papel positivo das comunas em suas memórias, <em>Mone Mone</em> (Em Memória): “A atmosfera de vida em comum em nossa comuna era bastante calorosa (…) Nós que éramos casados não sentíamos nenhum mal em estar vivendo com outras pessoas enquanto tínhamos vida conjugal”. As memórias de Mukherjee se opõem às narrativas dominantes que especulam que essas famílias não convencionais estavam cheias de ciúmes mesquinhos e infidelidades.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #582e50;"><strong>O movimento de mulheres na Índia </strong></span></h3>
<p>A já muito debatida, mas persistente questão sobre se os grupos de mulheres comunistas e de esquerda são parte do movimento feminista mais amplo, precisa ser finalmente posta de lado. As mulheres nos movimentos comunistas há muito fazem reivindicações explicitamente feministas por igualdade econômica, política e social. Elas buscaram ocupar postos de liderança por e para mulheres e têm pressionado todos os movimentos progressistas para que apoiem os direitos das mulheres, seja movimentos de camponeses, de <em>Dalits </em>(casta dos intocáveis) ou <em>Adivasi</em> (povos indígenas). Elas construíram fortes laços entre esses movimentos e as campanhas feministas de coalizão por igualdade de direitos para as mulheres, como o direito à propriedade e ao divórcio. No caso da Índia, durante esse período, essa solidariedade se deu em ambas direções: militantes comunistas mudaram algumas visões e métodos de suas organizações e de suas lideranças e, por outro lado, contribuíram para que os movimentos de mulheres se despisse de seus preconceitos de classe e castas em relação às mulheres camponesas, trabalhadoras e de comunidades <em>Adivasi</em> e <em>Dalit</em>. Se as mulheres e homens da classe trabalhadora precisavam apoiar os direitos das mulheres, elas também precisavam ampliar suas reivindicações para incluir as necessidades de todas as mulheres, não apenas as da classe média e da elite.</p>
<p>Em 1927, o Partido do Congresso formou uma organização feminina, a Conferência de Mulheres de Toda a Índia (All India Women’s Conference – AIWC). No entanto, a AIWC não buscou organizar mulheres de comunidades marginalizadas na luta por seus próprios direitos ou para pensar suas próprias demandas. De acordo com seu desenho, as integrantes da AIWC pertenciam principalmente a famílias principescas aliadas a famílias britânicas e <em>zamindari</em> (grandes proprietários de terras). Muitas líderes comunistas proeminentes como Manikuntala Sen, Phulrenu Guha e Renu Chakravartti, fizeram parte inicialmente da AIWC. No entanto, logo perceberam que os setores marginalizados das mulheres – aqueles pertencentes ao campesinato e às camadas mais baixas da sociedade – não tinham filiação ou representação na organização, além do fato de  seus interesses de classe não estarem presentes nas reivindicações, ou seja, não houve tentativa de alterar radicalmente a estrutura patriarcal fundamental da sociedade.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #582e50;"><strong>Organização de jovens e estudantes  </strong></span></h3>
<p>No final da década de 1930, meninas no ensino médio e mulheres universitárias desempenharam um papel vital no movimento pela liberdade na Índia. Renu Chakravartti relata os motivos que estimularam Mukherjee a criar o <em>Chhatri Sangh</em> ou a Associação de Jovens Mulheres Estudantes (Girl’s Students’ Association – GSA), uma filial da AISF:</p>
<p style="padding-left: 40px;">Quando em 1938 a agitação pela libertação dos prisioneiros de Andaman atingiu seu ápice, um grande número de mulheres estudantes participou das reuniões e manifestações que educandos realizaram em todo o país. Foi nessa fase que se sentiu a necessidade de organizar as estudantes. Mas elas não haviam entrado em grande número em uma organização como a AISF, na qual havia predominantemente estudantes homens. Os tabus sociais ainda eram fortes.</p>
<p>A GSA procurou combater a desaprovação social de mulheres jovens trabalhando com rapazes na mesma organização e possibilitar que elas participassem de protestos em massa e desempenhassem um papel ativo na construção do movimento. Elas procuraram usar uma forma organizacional separada por gênero para quebrar tabus sociais de garotas se misturando com homens jovens em condições iguais. Assim, a GSA desenvolveu habilidades nas lideranças femininas para falar em público, organizar reuniões públicas e navegar nas táticas e estratégias da política anticolonial radical. Também desenvolveram diferentes métodos de organização, bem como campanhas diversas, e lideraram projetos para organizar principalmente mulheres de regiões indígenas em Bengala, incluindo as camponesas. Os efeitos dessas jovens mulheres entrando na política nacionalista no auge da Segunda Guerra Mundial alimentaram alguns dos movimentos anti-imperialistas mais radicais do país.</p>
<p>Em janeiro de 1940, Mukherjee e outras lideranças realizaram a primeira conferência nacional da GSA em Lucknow, estado de Uttar Pradesh. A conferência focou nas reivindicações pelo direito ao divórcio, a abolição da poligamia e educação gratuita para meninas. Na conferência, Mukherjee falou a favor do Projeto de Lei do Código Hindu, que garantiria os direitos das mulheres nas leis voltadas à vida pessoal. Sarojini Naidu, uma liderança feminista nacionalista do movimento de independência, foi a convidada de honra: “junte-se às jovens estudantes”, disse, “e traga sangue novo para a principal corrente da batalha pela liberdade!”. Após a conferência em Lucknow, as líderes estudantis percorreram o país para expandir a GSA, de Madras (atual Chennai) a Bombaim (atual Mumbai) e Punjab. Um grande número de mulheres jovens compareceu às conferências regionais e nacionais da GSA, chamando a atenção e a ira do governo imperialista britânico às vésperas de sua entrada na Segunda Guerra Mundial.</p>
<p> </p>
<div id="attachment_37473" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-37473" class="size-full wp-image-37473 img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/03/photos-pamphlet-7.jpg" alt="" width="791" height="950" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/03/photos-pamphlet-7.jpg 791w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/03/photos-pamphlet-7-250x300.jpg 250w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/03/photos-pamphlet-7-768x922.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 791px) 100vw, 791px"><p id="caption-attachment-37473" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #582e50;">O relatório, “The Brutal Killing of Manjolai Tea Garden Workers” [ A Matança Brutal de Trabalhadoras da plantação de chá Manjolai’, foi publicado pela AIDWA em Tamil Nadu após a reivindicação das trabalhadoras por melhores salários e acomodações, bem como licença maternidade, e o subsequente assassinato de 17 trabalhadoras em 1999 nas mãos da polícia.</span></small></p></div>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #582e50;"><strong>A guerra dos imperialistas</strong></span></h3>
<p>As autoridades britânicas prenderam Mukherjee repetidamente entre 1939-1942, por sua oposição ao que os comunistas indianos chamam de guerra imperialista. Em 1940, foi presa com sua irmã e sua sobrinha. Embora tenha sido libertada depois de sete dias por falta de provas, a polícia colonial emitiu uma ordem especial contra ela após sua libertação, o que a forçou a deixar Calcutá em 24 horas e se abster de visitar as áreas industriais da cidade e o distrito adjacente de Howrah. Ela se mudou para Jamshedpur, onde continuou sua militância, foi presa novamente e também banida dessa cidade. Em Barisal, sua próxima residência, foi detida novamente e proibida de retornar. A essa altura, como trabalhadora em tempo integral do PCI, passou à clandestinidade, mudando-se de casa em casa como medida de segurança.</p>
<p>Em julho de 1942, o Estado colonial britânico suspendeu a proibição contra o PCI que durou nove anos, de 1934 a 1942. Em outubro de 1942, Mukherjee voltou a Calcutá para retomar seu trabalho político, mudando o foco de sua militância para a organização política das mulheres. Nesse contexto, ela continuou a enfrentar o imperialismo britânico e o fascismo.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #582e50;"><strong>A fome em Bengala e Mahila Atma Raksha Samiti</strong></span></h3>
<p>A década de 1940 foi talvez a fase mais agitada e turbulenta na Índia pré-independência, especialmente em Bengala. A grande fome de 1943 (conhecida como <em>tettalisher mannantor</em>), o horrível motim comunalista de 1946 e a divisão religiosa de Bengala trouxeram à luz do dia, repentinamente, tendências cruéis e odiosas da psique humana. A fome de 1943 gerou miséria em grande escala no campo. As epidemias que a acompanharam, como cólera, malária e varíola, exterminaram uma grande parte da população rural. Uma escassez aguda de mão de obra agrária em Bengala forçou os homens a migrarem para lugares distantes em busca de sustento. As mulheres e crianças que sobreviveram ficaram vulneráveis de inúmeras maneiras, inclusive como vítimas de um intenso tráfico humano, à medida que a fome desencadeava um forte aumento da violência de gênero, incluindo agressão sexual contra mulheres.</p>
<p>Foi neste contexto que o <em>Mahila Atma Raksha Samiti </em>[Comitê de autodefesa feminino] (MARS) foi formado em 13 de abril de 1942 durante uma convenção antifascista realizada por mulheres em Calcutá. Mukherjee estava entre as integrantes fundadoras do MARS e conformava seu comitê organizador. Durante esse período, escreveu vários artigos contundentes em jornais sobre os efeitos da fome nas mulheres pobres da zona rural.</p>
<p>O MARS preencheu o vácuo deixado por um Estado colonial indiferente e abordou diretamente os efeitos devastadores da fome realizando trabalhos de auxílio em grande escala. Durante a fome de 1942-1943 e durante a Segunda Guerra Mundial, os militares britânicos priorizaram a distribuição de alimentos para suas tropas ao invés das pessoas comuns, escolha precipitada pela suspensão das importações de arroz da Birmânia, então ocupada pelos japoneses. O MARS se organizou contra distribuidores que estavam armazenando grãos para obter maiores lucros.</p>
<p>O papel do MARS durante a fome em Bengala catapultou a organização para a linha de frente do movimento pela liberdade. Durante esse tempo, pessoas famintas, vindas dos arredores da cidade, invadiram as ruas de Calcutá em busca de comida. As militantes do MARS decidiram trabalhar ao lado de companheiras em favelas urbanas e áreas rurais, além da classe média. Frequentemente, as militantes do MARS permaneciam próximas à fila de distribuição de alimentos para garantir que as jovens não fossem apalpadas ou sequestradas enquanto esperavam. Esses setores mais vulneráveis de mulheres emergiram como membros centrais do MARS e, mais tarde, desempenhariam um papel fundamental na expansão e fortalecimento do movimento de mulheres na Índia. A luta por direitos e dignidade e o fim da agressão sexual continua entre as questões centrais da sociedade indiana hoje.</p>
<p>Mukherjee testemunhou os impactos da fome em primeira mão e fez debates sobre a luta e o desespero das mulheres durante esse período. Em uma ocasião, ela viu uma mãe vender sua filha de 7 anos por uma pequena quantidade de grãos, que ela recebeu dois meses depois de vendê-la. Em outro caso, testemunhou uma jovem entrar nos aposentos dos soldados estadunidenses após receber uma ração escassa do centro de distribuição de alimentos. Durante este período de grande angústia, a exploração das mulheres se intensificou, pois muitas recorreram ao trabalho sexual para sobreviver. Soldados, assim como proprietários de terras e outros, também canalizaram brutalmente o desespero da população na agressão sexual contra as mulheres. Mukherjee, como jornalista e militante, aumentou a conscientização sobre esses crimes de estupro, bem como a falta de oportunidades de emprego de muitas mulheres pobres, além do trabalho sexual.</p>
<p>Mukherjee integrou uma campanha de coalizão para vincular a organização rural e urbana de mulheres comunistas e nacionalistas em um esforço unido para combater a fome e o tráfico sexual de mulheres e meninas pobres. Como membro do comitê organizador do MARS, ela viajou pela zona rural de Bengala para organizar as mulheres na luta por necessidades básicas e contra o colonialismo e o imperialismo. Ela foi para a região de plantação de chá do norte de Bengala e Dooars, no distrito de Rangpur, no atual Bangladesh, que sofria de extrema pobreza e angústia por conta da massiva exploração colonial.</p>
<p>Mukherjee descreveu a devastação causada pela fome, bem como a resposta do MARS:</p>
<p style="padding-left: 40px;">Em outubro de 1943, a fome causada pelo homem começou em Bengala. As integrantes do MARS mergulharam no trabalho de auxílio e recuperação. A experiência daqueles dias foi angustiante; vimos mulheres com crianças morrendo nas ruas de Calcutá. Mulheres famintas das aldeias foram trazidas para a cidade por vendedores [traficantes] e vendidas como prostitutas. A palavra <em>kalobajar</em> [mercado ilícito] foi introduzida pela primeira vez em nosso vocabulário. O estupro de mulheres aldeãs por soldados europeus e estadunidenses também não era desconhecido. Assim, ao mesmo tempo que apoiávamos a guerra contra o fascismo internacionalmente, nossa raiva e ódio contra o imperialismo britânico, que estava criando fome e sofrimento infinito ao nosso povo, permaneceram fortes como sempre. Nesse período e imediatamente depois, concentramos nossa atenção na criação de centros de reabilitação nos distritos para mulheres vítimas de fome ou de rebeliões comunitárias. O MARS desempenhou um papel central na recuperação social.</p>
<p> </p>
<div id="attachment_37418" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-37418" class="size-full wp-image-37418 img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/03/aidwa-vol2-2.jpg" alt="" width="791" height="950" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/03/aidwa-vol2-2.jpg 791w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/03/aidwa-vol2-2-250x300.jpg 250w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/03/aidwa-vol2-2-768x922.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 791px) 100vw, 791px"><p id="caption-attachment-37418" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #582e50;"><i>Women’s Equality</i> [Igualdade das Mulheres] v. 1 n. 3 (outubro-dezembro de 1988)</span></small></p></div>
<p>A organização combinou o internacionalismo e o nacionalismo anticolonial com campanhas locais, como uma ação inicial liderada pelo movimento que divulgou o estupro de mulheres bengalis por soldados aliados que estavam em Bengala. Essas campanhas marcaram um chamado radical à mobilização que exigia a defesa das mulheres da nação contra ataques militares e o colonialismo, ao mesmo tempo em que lutava pela autodefesa das mulheres contra a violência sexual que acompanhou a ocupação militar e colonial.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #582e50;"><strong>Partição e motins comunalistas</strong></span></h3>
<p>Em 1946, o sofrimento das mulheres mais uma vez ganhou destaque durante os motins comunalistas. A violência em grande escala em todo o estado foi estimulada pela partição britânica de Bengala, dividida de acordo com a religião. Em apenas três dias, cerca de 4 mil pessoas morreram apenas em Calcutá. A violência sexual generalizada contra mulheres durante os motins teve uma reviravolta horrível na zona rural de Bengala, especialmente na área de Noakhali. Mesmo com sua força limitada, o Partido Comunista estava na vanguarda da campanha contra qualquer tipo de divisão comunalista, clamando pela paz. Por conta dessa campanha, alguns sindicatos, como o dos ferroviários e motoristas de bondes, mostraram notável solidariedade da classe trabalhadora e enfrentaram fisicamente manifestantes em algumas áreas de Calcutá.</p>
<p>Durante os motins e a fome, o MARS desempenhou um papel importante na campanha contra a polarização do comunalismo entre as mulheres do campo. Foi formado um comitê conjunto de auxílio, como feito durante a fome. Voluntárias do MARS foram enviadas para a área rural de Bengala junto com a AIWC, viajando a pé de uma aldeia a outra e distribuindo leite e outros suprimentos básicos para essas localidades, como Chandpur e Haimchar. O impacto da fome, dos motins comunalistas e da partição de 1947 nos setores mais vulneráveis das mulheres na sociedade indiana continuou sendo uma lição importante para o movimento feminista.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #582e50;"><strong>Rua Bowbazar e a repressão aos comunistas</strong></span></h3>
<p>A independência da Índia em 1947 não acabou com a perseguição aos comunistas. Em 27 de abril de 1949, o MARS organizou uma reunião em Calcutá para exigir a libertação incondicional de todos os presos políticos que permaneceram nas prisões mesmo depois do fim da proibição do PCI em 1942. Esse foi um dia triste, mas memorável para a história do movimento das mulheres na Índia. Após a convenção, as participantes marcharam em direção a Bowbazar Street, mas logo foram detidas pela polícia. Durante o confronto, a polícia abriu fogo sob as ordens do governo do Congresso de Bengala Ocidental.</p>
<p>As líderes comunistas Latika Sen, Pratibha Ganguly, Gita Sarkar e Amiya Dutta, que desempenharam um papel importante na construção do movimento feminista na Índia, morreram no local. Yamuna Das Mahato foi levada para um hospital, onde mais tarde morreu em decorrência dos ferimentos. Kanak Mukherjee passou muitos dias na prisão, durante os quais foi separada de seu filho pequeno.</p>
<p>Encarceradas, as mulheres fizeram greve de fome por tempo indeterminado, exigindo liberdade às presas políticas. Embora suprimir a sensação de fome severa fosse muitas vezes difícil, Kanak lembrou a determinação e a energia de algumas das mulheres mais jovens que estavam na mesma prisão:</p>
<p style="padding-left: 40px;">Essas jovens secundaristas – Mamata, Nirupama, Usha, Arati Chaya (…) durante a greve de fome cantavam, dançavam, festejavam e estudavam com grande entusiasmo. Por um tempo, Mamata compartilhou a mesma cela comigo. Quanto mais famintas estávamos, mais alto cantávamos nossas canções revolucionárias. A gente dizia: “nossa, desperdicei aquela comida deliciosa uma vez” ou “este é o meu prato preferido”. Em determinado momento, “proibimos” qualquer discussão sobre comida.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #582e50;"><strong>Organização de refugiados</strong></span></h3>
<p>A década de 1950 marcou outro capítulo de luta na história do movimento comunista de Bengala. Uma onda de refugiados da então Bengala Oriental (agora Bangladesh) começou a migrar para Bengala Ocidental após a divisão, deixando para trás todos os seus bens, casas e terras. Calcutá, a capital do estado, recebeu um grande fluxo de pessoas que viviam em favelas – algumas delas localizadas perto das residências de férias da elite da cidade – onde estavam sujeitas a condições de vida miseráveis.</p>
<p>Quase ao mesmo tempo, o governo local – sob a liderança do Partido do Congresso – desencadeou um ataque constante por meio de leis e decretos rígidos com a intenção de privar os pobres urbanos e salvaguardar os interesses de propriedade das elites tradicionais. O governo do estado de Bengala não estava apenas relutante em fornecer aos refugiados qualquer reabilitação permanente, como moradia; também era abertamente hostil à presença deles e frequentemente usava a força policial para suprimir as demandas dos refugiados. Com o apoio do Partido do Congresso, capangas espalharam o terror sobre os refugiados.</p>
<p>Diante do terror de Estado, os comunistas se organizaram entre os refugiados para levantar suas reivindicações. Como resultado, muitos novos assentamentos de refugiados surgiram enquanto os comunistas, muitos dos quais também eram migrantes, lutavam pelos direitos e meios de subsistência dessa população. Os irmãos de Kanak migraram para um desses assentamentos em Calcutá, onde viveram juntos com ela, seu filho e seu cunhado que estava doente, enquanto Saroj Mukherjee ainda vivia na clandestinidade.</p>
<p>O movimento pelos direitos dos refugiados foi uma das muitas batalhas marcantes travadas pelos comunistas durante esse período, assim como o movimento contra a passagem do bonde e o movimento liderado por mulheres para aumentar a assistência estatal às refugiadas. É nesse contexto que muitas lideranças femininas desses assentamentos de refugiados disputaram e ganharam cadeiras nas primeiras eleições gerais da Índia independente.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #582e50;"><strong>A formação da Associação Democrática de Mulheres de Toda a Índia</strong></span></h3>
<p>Em 1954, Mukherjee ajudou a fundar a Federação Nacional de Mulheres Indianas (National Federation of Indian Women – NFIW), uma organização filiada ao Partido Comunista da Índia que reunia grupos feministas de esquerda de vários estados do país. Em junho de 1954, a conferência de fundação em Calcutá reuniu 602 delegadas representando mais de 129 mil mulheres de quatorze estados da Índia.</p>
<p> </p>
<div id="attachment_37407" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-37407" class="size-full wp-image-37407 img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/03/aidwa-vol1-1.jpg" alt="" width="791" height="950" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/03/aidwa-vol1-1.jpg 791w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/03/aidwa-vol1-1-250x300.jpg 250w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/03/aidwa-vol1-1-768x922.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 791px) 100vw, 791px"><p id="caption-attachment-37407" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #582e50;"><i>Women’s Equality</i> [Igualdade das Mulheres] v. 2 n. 1 (janeiro-março 1989)</span></small></p></div>
<p>Em 1964, foi formado o Partido Comunista da Índia (Marxista) ou PCI (M), após um racha no Partido Comunista da Índia (PCI). Durante muito tempo, uma disputa ideológica se desenvolveu dentro do Partido em torno do debate sobre as tendências revisionistas e a verdadeira luta pela emancipação da classe trabalhadora com base nos princípios marxistas. Mukherjee foi uma das lideranças do movimento feminista na Índia que lutou contra o revisionismo. Esses debates tiveram um impacto no movimento de mulheres, e muitas líderes destemidas e fortes – como Manikuntala Sen – deixaram o PCI. Foram anos tumultuados em Bengala Ocidental.</p>
<p>Apesar da divisão no Partido Comunista e dos debates ideológicos internos, a NFIW permaneceu intacta até os anos 1970. Em março de 1970, foi formada uma organização de mulheres de esquerda afiliada ao PCI (M). Chamava-se <em>Paschimbanga Ganatantrik Mahila Samiti </em>(Associação Democrática de Mulheres de Bengala Ocidental).</p>
<p>Em junho de 1975, a primeira-ministra Indira Gandhi declarou um Estado de Emergência em todo o país, suspendendo uma ampla gama de liberdades civis e tornando os protestos ilegais. Embora a maioria dos comunistas tenha passado à clandestinidade, não deixaram de se organizar. Mukherjee continuou a construir o recém-formado <em>Paschimbanga Ganatantrik Mahila Samiti</em> ao lado de outras camaradas, e se juntou ao comitê estadual do PCI (M) em Bengala Ocidental em 1978, após o fim do Estado de Emergência; ela serviu como membro do comitê central do Partido de 1989 a 1998.</p>
<p>Em 1981, foi fundada a Associação de Mulheres Democráticas de Toda a Índia (AIDWA), uma organização massiva de mulheres ligada ao PCI (M); no primeiro ano, atingiu 590 mil mulheres. Desde o início, a AIDWA desenvolveu uma base ideológica e organizacional sólida. Enfatizou a ligação entre estruturas socioeconômicas como classe, casta e religião com a questão de gênero e, ao mesmo tempo, organizou as mulheres de todas as classes e comunidades em uma organização de massa disciplinada. A AIDWA procurou organizar um grande número de mulheres pobres e da classe trabalhadora em toda a Índia e criar uma ponte para que mulheres radicais de classe média se unissem à sua luta. As principais lutas da AIDWA giraram em torno dos grupos de mulheres mais marginalizadas da Índia, uma consequência da abordagem de classe da AIDWA nas mobilizações.</p>
<p>Mukherjee foi vice-presidente da organização de 1981 a 1999. Por meio de sua militância e de sua escrita, insistiu na importância de colocar as lutas feministas no contexto de uma luta de classes mais ampla, bem como escreveu em seu panfleto sobre a emancipação das mulheres: “Não podemos ver a questão dos direitos das mulheres isoladamente. As raízes da subjugação e das discriminações contra elas residem na exploração de classe”. Ela também foi fundamental para o desenvolvimento da constituição da AIDWA, que compreendia que:</p>
<p style="padding-left: 40px;">Como a opressão das mulheres indianas é parte integrante da exploração do povo indiano em geral, e a luta pela emancipação das mulheres está inseparavelmente conectada às lutas dos trabalhadores, camponeses, jovens e todos os outros setores das massas trabalhadoras oprimidas do povo, empreendida em prol de seus interesses comuns e para provocar uma mudança radical em nossa estrutura socioeconômica, a Associação de Mulheres Democráticas de Toda a Índia estende sua plena cooperação com todos esses setores progressistas e democráticos do povo.</p>
<p>Os métodos de organização da AIDWA durante a década de 1980 foram centrados em campanhas de coalizão com outros grupos de mulheres e com organizações aliadas de jovens de esquerda, estudantes, camponesas, trabalhadoras e sindicatos de trabalhadoras agrícolas. A organização era amplamente conhecida por sua postura intransigente em relação aos assassinatos por dote, em que jovens mulheres eram mortas ou levadas ao suicídio por seus maridos e parentes em disputas em torno do sentimento de posse. Esta campanha lutou para criar melhores leis protetivas às mulheres e lhes garantir independência econômica, fornecendo melhor suporte material e, portanto, lhes permitindo deixar casamentos abusivos.</p>
<p>A luta contra os assassinatos por dote também se deu por meio da organização de mulheres, incluindo sogras, e usando suas organizações fraternas, como sindicatos urbanos e rurais, na luta pelo direito das mulheres a viver sem violência. As militantes da AIDWA lideraram campanhas de bairros em suas unidades em todo o país para pressionar as famílias a acabarem com a prática do dote e a tratar as noras com dignidade. As militantes da AIDWA se tornaram conhecidas por sua coragem, por lutar contra pessoas e instituições poderosas e por sua busca obstinada por justiça.</p>
<p>O que tornou a AIDWA única no movimento de mulheres indígenas durante os anos 1980 foi a atenção que deu às mulheres do campo. Em 1984, a maioria dos setores em crescimento do movimento das mulheres indianas ignorava a perspectiva das mulheres do campo por um futuro melhor. Livros como <em>Some Questions on Feminism and its Relevance in South Asia [Algumas questões sobre o feminismo e sua relevância no sul asiático], de</em> Kamla Bhasin e Nighat Said Khan (1986), quase não mencionam as diferenças que separam as mulheres no sul da Ásia. Um feminismo secular que imaginava uma solidariedade unificada entre as mulheres em toda a região era insustentável sem abordar o poder da maioria hindu na Índia, junto com outros desequilíbrios de poder de casta, classe e região.</p>
<p>A partir da década de 1940, Mukherjee viu claramente como as áreas rurais foram severamente afetadas pelo fundamentalismo religioso, que as dividiu segundo as linhas da identidade religiosa. A abordagem comunista na Índia era inculcar a unidade de classe na luta contra o comunalismo e o fascismo. Nenhum movimento feminista de massa verdadeiro poderia emergir na Índia a menos que abordasse as muitas divisões exacerbadas pela classe dominante, como divisões baseadas em castas e religião.</p>
<p>Em Nova Delhi, em 1993, a AIDWA – junto com sete outros grupos nacionais de mulheres – organizou as primeiras manifestações massivas  contra as ações comunitárias apoiadas pelo governo do Congresso. Isso incluiu a destruição da mesquita Babri Masjid, que os fundamentalistas hindus afirmam ter sido construída em um templo dedicado ao deus hindu Ram. A AIDWA e outros grupos construíram uma coalizão multirreligiosa de ativistas comprometidas com a luta por um tecido social secular. As militantes da AIDWA também elaboraram uma delegação conjunta de organizações nacionais de mulheres para criar uma avaliação imparcial da violência antimuçulmana.</p>
<p> </p>
<div id="attachment_37429" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-37429" class="size-full wp-image-37429 img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/03/aidwa-vol3-3.jpg" alt="" width="791" height="950" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/03/aidwa-vol3-3.jpg 791w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/03/aidwa-vol3-3-250x300.jpg 250w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/03/aidwa-vol3-3-768x922.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 791px) 100vw, 791px"><p id="caption-attachment-37429" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #582e50;"><i>Women’s Equality</i> [Igualdade das Mulheres] v. 1 n. 3 (outubro-dezembro de 1988)</span></small></p></div>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #582e50;"><strong>A estratégia da AIDWA de organização intersetorial </strong></span></h3>
<p>A decisão da AIDWA de concentrar sua energia na Índia rural na década de 1980 levou ao desenvolvimento de novas táticas, como o uso de pesquisas militantes para mobilizar e desenvolver a liderança entre as mulheres do campo, bem como formar todos as integrantes da AIDWA sobre os problemas específicos enfrentados pelas mulheres rurais. Seu foco nas áreas rurais também levou a novas estratégias, incluindo o que a AIDWA chamou de “práxis intersetorial”, que promove a unidade entre as militantes, organizando-as e identificando aliadas que enfrentam injustiças específicas e histórias de opressão de casta, identidade indígena e religião. Esses métodos têm como base as lições que Mukherjee aprendeu como militante rural com o MARS, ao construir unidade contra o latifúndio e o colonialismo entre as mulheres do campo por meio das diferenças materiais de religião, casta, idioma e identidade indígena.</p>
<p>O conceito de “práxis intersetorial” requer alguma elaboração. A sociedade está dividida em grupos que estão em uma relação hierárquica entre si. Ignorar esta diferenciação e tratar a sociedade como um todo pode significar que a opressão e exploração específicas enfrentada por determinados grupos ou setores não sejam identificados e combatidos. Por exemplo, no contexto da ascensão do comunalismo hindu, a opressão vivida pelas mulheres muçulmanas precisa ser enfatizada em qualquer luta. Os partidos políticos de esquerda focam a atenção nas lutas dos grupos de pessoas mais marginalizadas e em suas questões centrais; esses grupos incluem as comunidades indígenas (<em>Adivasis</em>), muçulmanos, <em>dalits</em> e mulheres. Ao focar na experiência e nas lutas específicas desses grupos, partidos de esquerda como o PCI (M) e organizações de massa de esquerda, como AIDWA, são capazes de incorporar a compreensão das vidas e lutas de comunidades importantes na teoria de transformação social da esquerda.</p>
<p>No caso da AIDWA, como Elisabeth Armstrong deixa claro em seu livro <em>Gênero e Neoliberalismo</em>, o método intersetorial de organização trouxe as questões e reivindicações das mulheres mais marginalizadas para o centro das metas políticas, dos métodos organizacionais e das campanhas da AIDWA. A organização intersetorial dentro da AIDWA produziu uma rica análise das diferenças entre as mulheres marginalizadas, colocando a questão da opressão específica ao lado das exigências da luta de classes que beneficiariam todas as mulheres trabalhadoras e pobres que estão no centro da organização.</p>
<p>Ao longo de quarenta anos, com a liderança de mulheres como Mukherjee, a AIDWA construiu um movimento cruzado entre as classes trabalhadoras rurais e urbanas e mulheres progressistas da classe média. A organização lutou pela emancipação das mulheres da classe trabalhadora não como uma massa indiferenciada de mulheres enfrentando os mesmos locais de exploração e opressão, mas em toda a sua complexidade como trabalhadoras agrícolas, mulheres indígenas, <em>Dalit</em> e muçulmanas.</p>
<p>Na vida pública de Mukherjee, ela desenvolveu e estendeu essa visão por meio de seu trabalho como membro do Rajya Sabha, a câmara alta da legislatura bicameral da Índia, e como vereadora em Calcutá. Ela também assumiu a responsabilidade editorial da revista <em>Ghare-Baire</em>, onde foi editora de 1957-1967, e do jornal em língua bengali <em>Eksathe</em>, no qual se tornou a editora fundadora em 1968, e que mais tarde se tornaria o jornal bangla da AIDWA. Por meio de seu trabalho como editora, garantiu que as vidas das mulheres trabalhadoras estivessem no centro dessas publicações.</p>
<p>Mukherjee permaneceu comunista e feminista até sua morte em 2005, quando a AIDWA tinha mais de 10 milhões de membros. Ela compartilhou as estratégias duras da AIDWA para organizar as mulheres rurais contra as relações patriarcais de gênero que difundiram a opressão de casta e o comunalismo religioso em face da crescente escassez neoliberal. Mukherjee deu um exemplo que permanece importante hoje como uma lutadora incansável das mulheres urbanas e rurais da classe trabalhadora em todos os setores da sociedade, religiões e etnias.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #582e50;"><strong>Bibliografia</strong></span></h3>
<p>AIDWA. <em>Aims &amp; Objects Program Constitution of All India Democratic Women’s Association, Adopted at the First Conference of the All India Democratic Women’s Association, Held in Madras on 10–12 March, 1981</em>. New Delhi: no pub., 1981.</p>
<p>AIDWA. ‘Homage: Comrade Kanak Mukherjee’, <em>Women’s Equality.</em> (October–December 2004 &amp; January–March 2005): 3.</p>
<p>Armstrong, Elisabeth. <em>Interview with Kanak Mukherjee</em>, 6 August 1994.</p>
<p>Armstrong, Elisabeth. <em>Gender and Neoliberalism: All India Democratic Women’s Association and the Fight for Socialism</em>. New Delhi: LeftWord Books, 2021.</p>
<p>Bhasin, Kamla and Khan, Nighat Said. <em>Some Questions on Feminism and Its Relevance in South Asia. </em>New Delhi: Kali for Women, 1986.</p>
<p>Bhattacharya, Malini. ‘An Interview with Kanak Mukherjee,’ <em>Women’s Equality.</em> (April–June, 1998): 28-30.</p>
<p>Chakravartti, Renu. <em>Communists in Indian Women’s Movement. </em>New Delhi: People’s Publishing House, 1980.</p>
<p>Chatterji, Joya. <em>Spoils of Partition: Bengal and India, 1947–1967</em>. New York: Cambridge University Press, 2007.</p>
<p>Chattopadhyay, Suchetana. <em>An Early Communist: Muzaffar Ahmad in Calcutta, 1913–1929</em>. New Delhi: Tulika Books, 2012.</p>
<p>Marik, Soma. ‘Breaking Through a Double Invisibility: The Communist Women of Bengal, 1939–1948’, <em>Critical Asian Studies,</em> 45, no.1 (2013): 79–118.</p>
<p>Menon, Parvathi. <em>Breaking Barriers: Stories of Twelve Women.</em> New Delhi: Leftword Books, 2005.</p>
<p>Mukherjee, Kanak. ‘Save from Dishonour Your Bengali Sisters’, <em>People’s War.</em> 9 January 1944.</p>
<p>Mukherjee, Kanak, <em>Narimukti Andolan O Amra</em>. Calcutta: National Book Agency, 1993.</p>
<p>Mukherjee, Kanak. ‘Our Famine-Homeless Sisters’ Plight: Bengal Government’s Work Houses Closing Down’, <em>People’s War. </em>24 September 1944.</p>
<p>Mukherjee, Kanak. <em>Women’s Emancipation Movement in India: A Marxist View.</em> New Delhi: National Book Centre, 1989.</p>
<p>‘Report of the Women’s Delegation to Bhopal, Ahmedabad and Surat’, <em>Equality</em> 5, no. 1 (January–June 1993): 10–22.</p>
<p>Roy, Anwesha. <em>Making Peace, Making Riots: Communalism and Communal Violence, Bengal 1940–1947</em>. Cambridge: Cambridge University Press, 2018.</p>
<p>Sarkar, Paromita. ‘Kanak Mukherjee: Ekti Rajnaitik Jiban (1921–2005)’, (unpublished MPhil, University of Calcutta,2014).</p>
<p>Tricontinental: Institute for Social Research. <em>One Hundred Years of the Communist Movement in India.</em></p>
<p>Sengupta, Amalendu. <em>Uttal Challish: Asamapto Biplab</em>. Kolkata: Parul Publishers, 1957.</p>
<p> </p>
<p> </p>
<p> </p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Estudos Feministas #1 &#8211; Mulheres de luta, Mulheres em Luta</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/estudos-feminismos-1/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Tech Tricontinental]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 05 Mar 2020 08:00:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Feminismos]]></category>
		<category><![CDATA[care]]></category>
		<category><![CDATA[mães]]></category>
		<category><![CDATA[caretaking]]></category>
		<category><![CDATA[reprodutivo]]></category>
		<category><![CDATA[feminist]]></category>
		<category><![CDATA[reprodução]]></category>
		<category><![CDATA[mother]]></category>
		<category><![CDATA[reproduction]]></category>
		<category><![CDATA[violencia machista]]></category>
		<category><![CDATA[reproductive]]></category>
		<category><![CDATA[feminista]]></category>
		<category><![CDATA[sexual division of labor]]></category>
		<category><![CDATA[cuidado]]></category>
		<category><![CDATA[women]]></category>
		<category><![CDATA[desigualdade]]></category>
		<category><![CDATA[igualdade]]></category>
		<category><![CDATA[Feminismo]]></category>
		<category><![CDATA[violência contra as mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[feminicidio]]></category>
		<category><![CDATA[divisão sexual do trabalho]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://www.thetricontinental.org/studies-feminisms-1/</guid>

					<description><![CDATA[&#160; A experiência de todos os movimentos de libertação atesta que o êxito de uma revolução depende do grau de participação das mulheres, já pronunciava Lênin em 1918. Pouco mais de um século depois, resgataremos essa afirmativa para contar a história de mulheres que construíram esses movimentos e outras que seguem construindo a resistência ao [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_16342" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-16342" class="wp-image-16342 size-full img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/Argentina_Ba%CC%81rbara-Leiva-purple.jpg" alt="A women's march in Argentina as part of the Ni Una Menos " width="950" height="631" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/Argentina_Bárbara-Leiva-purple.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/Argentina_Bárbara-Leiva-purple-300x199.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/Argentina_Bárbara-Leiva-purple-768x510.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-16342" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #582e50;"><strong>Marcha das Mulheres na Argentina como parte do movimento Ni Una Menos (‘Nem uma a menos’) que se mobilizou em torno de temas como violência de gênero, aborto e direitos reprodutivos, feminicídio e diferença salarial de gênero, 2018</strong>. Bárbara Leiva </span></small></p></div>
<p> </p>
<p>A experiência de todos os movimentos de libertação atesta que o êxito de uma revolução depende do grau de participação das mulheres, já pronunciava Lênin em 1918. Pouco mais de um século depois, resgataremos essa afirmativa para contar a história de mulheres que construíram esses movimentos e outras que seguem construindo a resistência ao neoliberalismo e ao mais recente populismo reacionário.</p>
<p>O longo século XX demarcou lutas de libertação nacional pela Ásia e pela África, ao mesmo tempo que vivia o crescimento e as contradições das economias capitalistas nos países da América Latina e suas disputas de projeto de nação. A inspiração despertada pela Revolução Russa de outubro de 1917 chegou cedo nos continentes ainda agrários e coloniais do sul global, mas mesmo assim, teve grande influência: a esperança de que a maioria trabalhadora poderia vencer a minoria exploradora motivava as lutas populares e fomentava a organização política ao redor do mundo.</p>
<p>Nesta primeira publicação sobre Mulheres em Luta do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social traremos uma análise introdutória da conjuntura de lutas das mulheres nos três continentes – Ásia, África e América – em tempos de resistência contra o avanço agressivo de um neoliberalismo conservador, cujas mulheres se tornam os primeiros e principais alvos da precarização, opressão e exploração do trabalho e da vida.</p>
<p>Nos próximos lançamentos mensais ao longo deste ano contaremos trajetórias de mulheres de luta que historicamente contribuíram não apenas com o fortalecimento da participação das mulheres na política, mas principalmente com o pioneirismo das organizações próprias de mulheres, abrindo caminhos de luta e resistência feministas ao longo do século XX.</p>
<p>Conhecer a teoria e os diversos métodos organizativos desse legado, além de tarefa histórica-militante, nos inspira a entender nossos movimentos organizativos necessários para enfrentar a opressão dos dias atuais.</p>
<p> </p>
<p> </p>
<h2 style="margin:3em 0;"><strong><span style="color: #582e50;"><b>Mulheres e desigualdades</b></span></strong></h2>
<p>Temos visto crescer uma enorme revolta social e política no mundo, principalmente no sul global, em que trabalhadoras e trabalhadores enfrentam golpes esmagadores da política neoliberal e buscam resistir aos impactos da desarticulação política, da precariedade econômica e do esgotamento do modelo da reprodução social.</p>
<p>Essa revolta está compreendida na recente crise estrutural do capitalismo contemporâneo, quando todas as suas contradições alcançaram o ponto de ebulição. Contradições ecológicas, políticas e de reprodução social emergem como sustentáculos de uma economia oficial que necessita de relações aparentemente não econômicas e práticas de caráter social, político e cultural para manter-se dominante.</p>
<p>As autoras Arruzza, Bhattacharya e Fraser explicam que “por trás das instituições oficiais do capitalismo – trabalho assalariado, produção, troca e sistema financeiro –  estão os suportes que lhes são necessários e as condições que as possibilitam: famílias, comunidades, natureza; Estados territoriais, organizações políticas e sociedade civis; e, em especial, enormes quantidades e múltiplas formas de trabalho não assalariado e expropriado, incluindo muito do trabalho de reprodução social, ainda executado predominantemente por mulheres e muitas vezes sem compensação” (2019, p.102).</p>
<p>Tendo como ponto de partida os próprios desafios – e colapsos – de uma nova economia financeirizada (veja mais detalhes aqui), essas contradições aparecem como consequências de problemas que não parecem ter fácil resolução. O aumento da desigualdade, por exemplo, é uma realidade global e tem crescido sem precedentes. Como mostra o último relatório da Oxfam (2019), além da manutenção do abismo entre os rendimentos de homens e mulheres, a concentração de renda atingiu níveis recordes: a fortuna do 1% mais rico do mundo corresponde a mais do que o dobro da riqueza acumulada por 6,9 bilhões de pessoas, ou seja, 92% da população mundial. E mais, os 22 homens mais ricos do mundo têm uma riqueza superior à de todas as mulheres da África (mais de 650 milhões de mulheres).</p>
<p>Todavia, a exploração e opressão não aparecem apenas na esfera econômica, mas mantêm-se a partir de valores sociais, culturais e morais que sustentam uma lógica conservadora do papel da mulher na sociedade de classes. Isso configura parte do que chamamos de Patriarcado, compreendido como estruturante do conjunto das relações da sociedade. A organização, divisão e hierarquização do trabalho, assim como elementos sociais, políticos e culturais nos espaços de família, do Estado, da sociedade civil e da própria reprodução social, ajudam a manter esse status e estão imbricadas às demais questões de classe e de raça da sociedade.</p>
<p>A forma como a economia capitalista se organizou e estruturou o trabalho de homens e mulheres na sociedade deve ser compreendido a partir do que denominamos divisão sexual do trabalho. Essa estrutura de trabalho considera não apenas uma divisão de tarefas entre homens e mulheres, mas hierarquiza essa divisão e atribui ao trabalho destinado aos homens maior valor que os trabalhos desenvolvidos pelas mulheres. Nesse ínterim, promove a separação entre produção e reprodução – considera “trabalho” apenas a esfera da produção, destinando esse espaço majoritariamente aos homens, e deixa a cargo das mulheres o espaço da reprodução, do cuidado, da família, das tarefas domésticas, que passa a ser o “não-trabalho” ou trabalho pouco reconhecido, (em sua maioria) não remunerado e/ou desvalorizado socialmente.</p>
<p>Conforme dados da Oxfam, os trabalhos mal remunerados são ocupados majoritariamente pelas mulheres. Elas respondem por mais de 75% de todo trabalho de cuidado não remunerado do mundo. Mulheres e meninas dedicam cerca de 12,5 bilhões de horas, todos os dias, a trabalhos não remunerados, seja como cuidadoras de idosos ou cuidando da casa (OXFAM, 2019). Como resultado, 42% das mulheres do mundo em idade ativa estão fora do mercado (entre os homens a fatia é de 6%), muitas delas em decorrência da sobrecarga do trabalho doméstico.</p>
<p>Esse grande abismo baseia-se em um sistema econômico sexista e falho, que coloca as mulheres no centro do debate da atual crise do capitalismo: são as primeiras a sentir os efeitos dessa crise, com a precarização dos seus trabalhos, o aumento da informalidade e salários mais baixos. O colapso de sistemas cruciais de apoio social promovido pelo mais recente avanço neoliberal, como o sistema previdenciário, a educação de crianças (creches) e o cuidado dos idosos, também impõe um ônus adicional à “economia do cuidado” amplamente mantida pelas mulheres. Soma-se a isso a naturalização da violência contra as mulheres, em um mundo que permite que mais de 90 mil mulheres por ano sejam vítimas de “feminicídio”, sendo que em sua maioria é conhecido o endereço da agressão e dos agressores: seus próprios lares, mulheres em situação de violência doméstica.</p>
<p> </p>
<h2 style="margin:3em 0;"><strong><span style="color: #582e50;">Resistência e luta </span></strong></h2>
<p>Esse cenário de brutalização da opressão das mulheres atrai muitas delas para as primeiras fileiras dessa crescente revolta social no globo. Se por um lado estão no centro da exploração econômica promovida pela crise do capitalismo, também – e por isso – passam a assumir protagonismo em diversas lutas sociais que emergiram no último período na Ásia, África e América Latina em forma de protesto, resistência e organicidade para superar suas condições concretas.</p>
<p>Em um cenário político fraturado e heterogêneo, assim incentivado pelo avanço do neoliberalismo sobre os países do sul global, não é tão fácil construir a resistência unificada. Torna-se especialmente importante recuperar as ações históricas de movimentos emancipatórios, bem como ressaltar as atuais mobilizações de resistência de caráter popular para contrapô-las às atuais opções políticas neoliberais e populistas reacionárias, que se apresentam como única alternativa/soluções e invisibilizam as demais manifestações políticas.</p>
<p>Nesta primeira publicação, nos interessa particularmente apontar os processos de resistência de caráter popular, feminista e progressista dos países dos três continentes do sul global, para identificar quais as características das lutas travadas no nosso tempo, inspiradas no legado deixado pelas mulheres em luta ao longo do século XX.</p>
<p> </p>
<p> </p>
<hr>
<div id="attachment_16378" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-16378" class="wp-image-16378 size-full img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/Wikimedia_Ele-na%CC%83o-cartaz-2018-purple-co%CC%81pia.jpg" alt="Across Brazil, hundreds of millions of women, militants, and social movements say #EleNão " width="950" height="633" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/Wikimedia_Ele-não-cartaz-2018-purple-cópia.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/Wikimedia_Ele-não-cartaz-2018-purple-cópia-300x200.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/Wikimedia_Ele-não-cartaz-2018-purple-cópia-768x512.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-16378" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><strong><span style="color: #582e50;">Em todo o Brasil centenas de milhares de mulheres, militantes, movimentos sociais dizem #EleNão ao então candidato à presidência Jair Bolsonaro, em maior marcha de mulheres da história do país, 29 de Setembro de 2018.</span></strong><br><span style="color: #582e50;">Sâmia Bomfim / Wikimedia</span></small></p></div>
<p> </p>
<h2 style="margin:3em 0;"><strong><span style="color: #582e50;">Mulheres em luta na América Latina em tempos de conservadorismo</span></strong></h2>
<p>A guinada à direita dos governos latino-americanos se deu a partir dos últimos processos eleitorais e golpes institucionais, e significou o aceleramento da implementação dos projetos neoliberais da região. Historicamente, países em toda a América Latina, mas especialmente Argentina, Bolívia, Brasil, Equador e Venezuela, sofreram pressões externas nas décadas de 1980 e 1990 do Fundo Monetário Internacional (FMI) para fazer grandes cortes nos gastos públicos em setores da educação, da saúde e da assistência social, além de incentivos à privatização de diversos serviços públicos a partir do avanço das economias liberais de mercado. A retomada mais recente desses cortes por parte dos novos governos conservadores escancara de imediato os efeitos da exploração e precarização que recaem sobre a vida e trabalho das mulheres.</p>
<p>Ao mesmo tempo, houve também uma reação conservadora na região: organizações religiosas e de direita organizaram mobilizações, ataques concertados às políticas públicas em favor dos direitos das mulheres e das pessoas LGBT+ (como a eliminação de qualquer menção à palavra gênero nos currículos do ensino médio ou a limitação das possibilidades de acesso à interrupção da gravidez), e uma campanha permanente nas redes sociais e nos meios hegemônicos contra o que chamaram de “ideologia de gênero”. Embora esses movimentos tenham sido mais fortes na América Central e no Peru, eles estão presentes em todos os países da América Latina e estão começando a ameaçar os ganhos duramente conquistados de várias décadas.</p>
<p>Essa experiência dos cortes na economia do cuidado, a difusão de campanhas ideológicas contrárias aos direitos das mulheres, dentre outros fatores, incentivou a radicalização das mulheres nas organizações de lutas sociais em diversas partes do mundo. Emerge, assim, nos últimos anos, um feminismo reativo às experiências das políticas (patriarcais) de ajuste estrutural. Mais mulheres passam a se organizar, a participar de manifestações e a exigir um novo modelo que assegure uma visão feminista e se tornam mais ativas na luta por um mundo diferente.</p>
<p>Podemos dizer que a tendência do capitalismo e dessa onda neoliberal de aprofundar as consequências da divisão sexual do trabalho, da violência de gênero e da opressão e exploração desenfreada sobre a vida das mulheres, acelerou o trânsito de movimentos de mulheres trabalhadoras, indígenas, negras e sem-terra diretamente para projetos anti-neoliberais ou até socialistas – como na Venezuela.</p>
<p>Além disso, o crescente controle sobre o corpo feminino, por meio da ampliação do cerceamento estatal sobre a sexualidade e a capacidade reprodutiva das mulheres, como teoriza Silvia Federici (2019), desencadeou protestos e organização de mulheres pelo mundo, como tem sido o caso dos pañuelos verdes na Argentina, que lutam pela descriminalização do aborto, por exemplo.</p>
<p>Na Bolívia, as mulheres estão no centro dos protestos contra o golpe e pela restauração do governo, e sabem que sua luta se coloca em caráter socialista contra a indignidade imposta aos povos indígenas e a toda população camponesa de trabalhadoras e trabalhadores.</p>
<p>No Brasil, mobilizações organizadas pelas mulheres ocorreram ao longo do período de campanha eleitoral após o golpe contra o governo do Partido dos Trabalhadores. A famosa marcha do “Ele Não”, em setembro de 2018, foi a maior manifestação de mulheres da história do Brasil, aglutinou milhares de mulheres e militantes pelas ruas de mais de 114 cidades do país, com uma campanha contra o ainda candidato ultraconservador à presidência Jair Bolsonaro.</p>
<p>Em 2019, sob a liderança de Bolsonaro, a repressão, o autoritarismo, o moralismo e os índices de violência contra as mulheres aumentaram no Brasil. No primeiro semestre do novo governo, os casos de feminicídio aumentaram em 44% na maior cidade do país (São Paulo), comparado com o ano anterior. Em um país em que a cada 4 segundos uma mulher é agredida, o investimento em políticas públicas de enfrentamento à violência contra as mulheres caiu de 119 milhões de reais em 2015 – ainda sob o governo do Partido dos Trabalhadores – para 5,3 milhões em 2019. Os programas de atendimento a mulheres em situação de violência do Ministério da Mulher tiveram, no mesmo período, um recuo orçamentário de 34,7 milhões de reais para apenas 194,7 mil reais. O investimento em creches e pré-escolas também teve drástica diminuição, o menor da última década: o repasse para a construção de novas unidades caiu de mais de 506 milhões de reais no primeiro semestre de 2014 para apenas 10,2 milhões de reais no mesmo período em 2019. Este novo cenário, de maior descaso e de cortes no que atinge diretamente a vida e as condições de trabalho das mulheres, vem acompanhado de um processo de ampliação do conservadorismo e autoritarismo político, social e cultural, e exigirá um novo patamar de resistência e organização das mulheres no país.</p>
<p>No Chile, a luta feminista acumulou forças nos últimos anos, refletida nas ruas do último dia 8 de março – dia internacional de luta das mulheres – de 2019. Até recentemente havia sido a maior manifestação das últimas décadas, superada apenas pelas recentes manifestações da revolta popular no país. Juntamente com a massividade alcançada, o movimento de mulheres consolidou sua organização a partir da formação da Coordenação Feminista da 8M, que junto com outras organizações, realizou em janeiro de 2020 a segunda Reunião Plurinacional das mulheres que lutam, quando mais de 3 mil mulheres e LGBT+ se reuniram para discutir o programa e o plano de luta contra o atual cenário.</p>
<p>Durante a revolta que começou em 18 de outubro de 2019 e continua em marcha, as mulheres chilenas saíram às ruas para lutar por uma transformação estrutural do país, enfrentando a repressão brutal da polícia e dos militares, que haviam defendido cegamente os interesses do capital e seus representantes políticos. Durante esse período, a violência sexual policial fez parte das violações sistemáticas dos direitos humanos que foram denunciadas por várias organizações internacionais. Diante da impunidade que o governo sanguinário de Sebastián Piñera pretende instalar, o movimento feminista recorreu a todos os meios para resistir e tornar visível essa violência, alcançando um eco internacional com a atuação do coletivo Las Tesis (link vídeo), replicado em várias partes do mundo.</p>
<p>Mas a violência não impediu o inevitável avanço do feminismo, que continua a trabalhar em solidariedade com outros movimentos sociais que dizem NÃO + à precariedade da vida imposta na ditadura chilena e mantida até hoje. Nesse sentido, uma das principais lutas travadas no Chile tem sido a defesa de um processo constitucional que permita avançar efetivamente na superação do neoliberalismo e que garanta certas condições mínimas para uma participação efetiva do povo mobilizado. Parte dessa luta é a busca pela paridade de gênero no futuro corpo constituinte.</p>
<p>Na Venezuela, conforme apontou o Diretor do Instituto Tricontinental, Vijay Prashad, (veja matéria completa em espanhol) a maioria das pessoas que sai para defender a Revolução Bolivariana são mulheres. Como parte do processo revolucionário na Venezuela, as mulheres têm sido essenciais na reconstrução de estruturas sociais erodidas por décadas de austeridade capitalista. Seu trabalho tem sido fundamental para o desenvolvimento do poder popular e para a criação da democracia participativa. 64% dos porta-vozes das 3.186 comunas estão nas mãos de mulheres, assim como a maioria das líderes dos 48.160 conselhos comunais e 65% da liderança dos Comitês Locais de Abastecimento e Produção. As mulheres não exigem apenas igualdade no local de trabalho, mas também na esfera social, onde as comunas são os átomos do socialismo bolivariano. As mulheres na esfera social têm se esforçado para construir a possibilidade de autogoverno, construindo um poder duplo e, portanto, lentamente corroendo a forma liberal do Estado.</p>
<p>Os atuais processos de luta e resistência na América Latina devem levar em conta a profunda conscientização da importância de colocar as mulheres na sua centralidade e de compreender esses elementos destacados por essas lutas como centrais no debate de construção de um novo mundo.</p>
<p> </p>
<p> </p>
<hr>
<div id="attachment_16369" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-16369" class="wp-image-16369 size-full img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/Vyshakh-T_Women-Wall_Kerala-2-purple.jpg" alt="The Women's Wall in Kerala was a mobilisation of 5.5 million women" width="950" height="633" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/Vyshakh-T_Women-Wall_Kerala-2-purple.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/Vyshakh-T_Women-Wall_Kerala-2-purple-300x200.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/Vyshakh-T_Women-Wall_Kerala-2-purple-768x512.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-16369" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><strong><span style="color: #582e50;">O muro das mulheres em Kerala, Índia, foi uma mobilização de 5,5 milhões de mulheres em defesa da igualdade de gênero, contra a discriminação de gênero e ataques de direita. O muro percorreu 620 quilômetros de norte a sul do estado, 1 de janeiro de 2019.</span></strong><br><span style="color: #582e50;">Vyshakh T.</span> Vyshakh T.</small></p></div>
<p> </p>
<h2 style="margin:3em 0;"><strong><span style="color: #582e50;">A situação das mulheres sob o regime de Modi</span></strong></h2>
<p>Desde a eleição do primeiro-ministro Narendra Modi, em 2014, o Partido Bharatiya Janata (BJP) e sua família de organizações Hindutva aumentaram agudamente a difusão de um discurso generalizado de ódio contra minorias e forças progressistas. Por meio dessa campanha de ódio, as forças de direita tentaram romper o tecido da sociedade indiana e remodelá-lo para se adequar à sua ideologia sectária. Não só existe uma ameaça de violência pairando sobre quem se opõe a esse projeto, mas há também um clima de violência generalizada que se estabeleceu na sociedade. Para piorar, os grupos de direita e multidões de linchadores gozam de impunidade. As mulheres são as mais afetadas nessa atmosfera de violência no país.</p>
<p>Desde 2014, houve um aumento visível da violência contra as mulheres em toda a Índia, particularmente a violência sexual, incutindo medo e cultivando ódio às mulheres em todo o país. Este ano, isso talvez tenha ficado mais visível no estado de Uttar Pradesh (UP). UP é o epicentro da política comunal (ideologia que promove identidades grupais religiosas ou étnicas violentas e incita a luta entre elas) do BJP, cujo pressuposto é dividir a sociedade de acordo com as religiões, castas etc. É o estado em que o ministro-chefe Yogi Aditya Nath, um “homem de Deus” que se tornou líder do BJP, está empenhado em estabelecer sua própria versão do Hindu Rajya (Estado Hindu), usando a máquina estatal para intimidar os muçulmanos e retirar seus direitos de cidadania.</p>
<p>Desde que Aditya Nath assumiu o cargo de ministro-chefe em Uttar Pradesh, os crimes contra as mulheres aumentaram 33%, segundo o próprio governo estadual. A terrível agonia de uma jovem que foi abusada sexualmente por um membro do BJP da assembleia legislativa (MLA) reflete as brutalidades infligidas às mulheres, sob o domínio desse partido. Quando a jovem se atreveu a denunciar o parlamentar à polícia, seu pai foi torturado e morto pela própria corporação. No entanto, ela persistiu com sua luta, e um caminhão bateu em um carro em que estava viajando com membros da família e seu advogado; dois de seus familiares foram mortos no incidente. Ela e seu advogado ficaram gravemente feridos.</p>
<p>Quando as mulheres afirmam seus direitos, as forças Hindutva se opõem com veemência e violência. Depois de anos de ativistas exigindo a entrada no famoso templo Sabarimala, em Kerala, em 2019 a Suprema Corte da Índia decidiu que as mulheres têm o direito de frequentar o local. Os líderes nacionais do BJP e os ministros centrais criticaram os direitos das mulheres menstruadas de entrar no templo sagrado, o que, a seu ver, polui o ambiente. No entanto, quando o governo da Frente Democrática de Esquerda obedeceu esse direito, o BJP e outras organizações de direita mobilizaram multidões para atacar violentamente as mulheres que visitavam o templo.</p>
<p>No centro da ideologia do BJP está o patriarcado Hindutva, que subordina as mulheres e defende o sistema de castas. Uma mulher, de acordo com essa ideologia, é retratada como uma mãe, Bharat Mata (Mãe Índia), que simboliza a honra nacional. O mito de que a Bharat Mata está sob ameaça de seus inimigos internos, ou seja, muçulmanos, é usado para polarizar a sociedade ao redor de identidades religiosas e mobilização política. A inclusão de mulheres sob o BJP não é resultado do enfrentamento de regras ou estruturas patriarcais, mas nos termos da ideologia Hindutva e dentro da estrutura do Hindu Rashtra. A organização-mãe do BJP, Rashtriya Swayamsevak Sangh (RSS), coloca as mulheres no papel de portadoras da castidade e como símbolos de honra na comunidade. O RSS promoveu uma onda de religiosidade por meio de templos e grupos de bhajans (“canções devocionais”) entre as mulheres – com ênfase em superstições e rituais. Por meio desses grupos, a direita do Hindutva está mobilizando a força de trabalho e acelerou a mobilização de mulheres da extrema direita contra seus próprios interesses. Ao longo de várias décadas, houve uma queda drástica na participação de mulheres na força de trabalho em idade ativa, que atualmente está na casa dos 23%, de acordo com os dados da Pesquisa Periódica da Força de Trabalho (PLFS, sigla em inglês), de julho de 2017 a julho 2018.</p>
<p>Há um argumento falso dado por muitos direitistas de que as mulheres ficam em casa em vez de buscar emprego apenas porque os homens ganham mais. Mas também há outros fatores em jogo, como a queda no emprego agrícola, em grande parte devido à mecanização (entre outras razões), que foi a principal fonte de emprego para as mulheres do campo. Enquanto os homens tentam encontrar trabalho nas áreas urbanas por meio da migração sazonal e de longo prazo, esse processo tem sido mais difícil para as mulheres, para as quais as responsabilidades de cuidar das crianças são infinitamente mais exigentes quando são forçadas a se afastar de suas comunidades. O fato de que as mulheres são as principais cuidadoras de suas famílias, por sua vez, torna difícil encontrar um emprego adequado para elas. Longe de suas comunidades, é difícil que elas encontrarem locais de trabalho seguros. No caso de mulheres cujas famílias migraram com elas, ou que já moravam em áreas urbanas, o trajeto caro e demorado – que é uma realidade para a classe trabalhadora urbana – apresenta um desafio adicional, já que muitas vezes é a única responsável por cuidar das crianças, cozinhar, limpar e realizar outras tarefas domésticas.</p>
<p>O governo do BJP não fez nada para melhorar as condições de trabalho das mulheres em termos de políticas, como equiparação salarial, implementação de creches no local de trabalho ou garantia de locais de trabalho seguros e sem assédio. Em vez disso, seus esforços foram voltados para recuos e diminuição das liberdades que as mulheres conquistaram ao longo de décadas de luta, transformando-as mais uma vez em defensores da honra e identidade religiosa.</p>
<p>No entanto, os ataques severos e contínuos contra as mulheres e seus direitos foram enfrentados com uma onda massiva de resistência em todo o país. Elas lideram o movimento contra a Lei de Emenda à Cidadania, o Registro Nacional de Cidadãos e o Registro Nacional de População, que violam fundamentalmente as disposições da Constituição Indiana. Em várias cidades, municípios, distritos e aldeias, as mulheres estão na vanguarda do movimento contra o ataque liderado pelo BJP ao direito à cidadania.</p>
<p> </p>
<p> </p>
<hr>
<div id="attachment_16069" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-16069" class="wp-image-16069 size-full img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/SA_190617_Domestic-Workers-Protest_IH-03.jpg" alt="Domestic workers gather at Church Square in Pretoria, South Africa" width="950" height="633" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/SA_190617_Domestic-Workers-Protest_IH-03.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/SA_190617_Domestic-Workers-Protest_IH-03-300x200.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/SA_190617_Domestic-Workers-Protest_IH-03-768x512.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-16069" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><strong><span style="color: #582e50;">Trabalhadoras domésticas se reúnem na Praça da Igreja, em Pretória, África do Sul, para iniciar uma marcha ao Palácio do Governo em protesto contra as injustas práticas de trabalho e baixos salários, junho de 2019.</span></strong><br><span style="color: #582e50;">Ihsaan Haffejee / New Frame</span> CIhsaan Haffejee / New Frame</small></p></div>
<p> </p>
<h2 style="margin:3em 0;"><strong><span style="color: #582e50;">Resistência e luta na África do Sul desde o Apartheid</span></strong></h2>
<p>Na África do Sul, as mulheres desempenham historicamente um papel central nos processos de lutas – principalmente na luta contra o Apartheid. A Federação das Mulheres da África do Sul foi lançada em Joanesburgo em 17 de abril de 1954. Ela adotou uma Carta das Mulheres que colocava a emancipação das mulheres no centro da luta por um futuro justo. Alguns anos depois, Dorothy Nyembe e Florence Mkhize emergiram como líderes na resistência insurrecional no assentamento da cabana Cato Manor, em Durban, em 1959. Após as greves de Durban em 1973 e o renascimento do movimento sindical negro, mulheres como Jabu Ndlovu e Emma Mashinini tornaram-se protagonistas importantes no movimento sindical. Elas continuaram a desempenhar um papel vital nas lutas comunitárias que surgiram na década de 1980, muitas vezes sob a bandeira da Frente Democrática Unida.</p>
<p>Uma vertente influente do feminismo acadêmico branco tendia a argumentar que a participação das mulheres vinculadas às lutas mais amplas pela libertação nacional não deveriam ser considerada totalmente feministas. Nomboniso Gasa, uma corajosa ativista anti-apartheid e grande intelectual feminista, ofereceu um argumento poderoso contra essa visão em 2007, perguntando: “Por que o Muro de Berlim entre a escuridão e a libertação, por um lado, e o feminismo, por outro?” Este debate já foi resolvido em relação à História. As mulheres que participaram de lutas que vinculavam questões de raça, gênero e classe não são mais excluídas da contagem de quem é realmente feminista.</p>
<p>Mas depois do apartheid, como parte do processo geral pelo qual a “sociedade civil” formada por ONGs veio substituir as organizações populares, o feminismo frequentemente se tornou uma profissão, principalmente em ONGs e na academia. O feminismo popular raramente era reconhecido como feminismo – mesmo quando assumia formas insurgentes. O foco desse tipo de feminismo profissional estava frequentemente na mudança de leis e políticas e na obtenção de representação nas estruturas da elite. Obviamente, houve exceções importantes, incluindo o trabalho realizado em torno da Campanha de Ação para Tratamento no final dos anos 1990 e início dos anos 2000 – uma luta pelo acesso a medicamentos que incluía um foco significativo no empoderamento político popular. Em 2009, os limites do feminismo profissionalizado vieram à tona com a ascensão de Jacob Zuma à presidência. Zuma chegou ao poder com apoio popular significativo, tanto da esquerda quanto das mulheres organizadas no Congresso Nacional Africano (CNA), bem como do eleitorado. Os avanços feministas em termos de política, lei e representação da elite não foram acompanhados pelos avanços na construção do poder popular e na formação do senso comum da sociedade.</p>
<p>Hoje, a África do Sul sofre taxas terríveis de violência contra mulheres, incluindo violência sexual. A oposição a essa crise às vezes exige o retorno da pena de morte, a suspensão do Estado de direito ou que os homens “protejam” as mulheres. Os feminismos populares, que estão florescendo em alguns setores, continuam sendo ignorados na esfera pública de elite e na maior parte da academia e ONGs. No entanto, nem todas as lutas na África do Sul foram cooptadas pela ação das ONGs nas lutas sociais; nesse sentido, Abahlali baseMjondolo é um exemplo-chave de um caso contemporâneo do feminismo popular. Abahlali baseMjondolo é um movimento de moradores de favelas que se tornou o maior movimento social desde o fim do apartheid; o movimento é formado em sua maioria por mulheres e muitas ocupam posições de liderança. Muitas vezes levantam questões feministas expressas na linguagem do empoderamento político das mulheres.</p>
<p>Ao contrário de países como o Brasil ou a Índia, a África do Sul não tem o tipo de movimento nacional de mulheres que conecta intelectuais e profissionais formados em universidades a mulheres ativas em organizações comunitárias, movimentos sociais e sindicatos. Construir essa conexão é uma prioridade urgente, não apenas na África do Sul, mas para todo o continente e em solidariedade com os outros países do Sul Global.</p>
<h2 style="margin:3em 0;"></h2>
<h2 style="margin:3em 0;"><strong>Criatividade, Força, Solidariedade</strong></h2>
<p>Em oposição ao capitalismo da austeridade, em todas as partes do mundo, as mulheres têm mostrado sua criatividade, força e solidariedade não apenas contra políticas neoliberais e contra o aumento do conservadorismo, mas também a favor do experimento socialista. Torna-se fundamental a promoção de uma solidariedade internacional tendo em vista a semelhança desses processos, e também das alternativas que estão sendo criadas pelas mulheres.</p>
<p>O que fica claro com esses exemplos acima descritos é que, não apenas a participação, mas a liderança de mulheres nesses processos, garante a inclusão da diversidade social necessária às revoluções.</p>
<p> </p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-16360 size-full img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/tbts-mulheres2-co%CC%81pia-purple.jpg" alt="" width="950" height="1348" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/tbts-mulheres2-cópia-purple.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/tbts-mulheres2-cópia-purple-211x300.jpg 211w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/tbts-mulheres2-cópia-purple-722x1024.jpg 722w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/tbts-mulheres2-cópia-purple-768x1090.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #582e50;">—<br>
</span></h3>
<p>LENIN, V.I. Discursos no primeiro congresso pan-russo das operárias.1918. IN: ENGELS, F; MARX, K; LENIN, V. Sobre a Mulher. São Paulo: Global Editora, 1979. p. 107-109.</p>
<p>ARRUZZA, BHATTACHARYA, FRASER. Feminismo para os 99% – Um Manifesto. Boitempo. Ed.1, 2019.</p>
<p>FEDERICI, Silvia. Mulheres e a caça às bruxas. Boitempo. Ed.1, 2019</p>
<p>OXFAM. Relatório Tempo de Cuidar. 2019</p>
<p> </p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
	</channel>
</rss>

<!--
Performance optimized by W3 Total Cache. Learn more: https://www.boldgrid.com/w3-total-cache/?utm_source=w3tc&utm_medium=footer_comment&utm_campaign=free_plugin

Object Caching 111/404 objects using Memcached
Page Caching using Disk: Enhanced 
Lazy Loading (feed)
Minified using Disk
Database Caching 15/160 queries in 0.087 seconds using Memcached

Served from: dev.thetricontinental.org @ 2026-07-17 21:26:41 by W3 Total Cache
-->