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	<title>Socialismo em construção | Tricontinental: Institute for Social Research</title>
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	<description>international, movement-driven institution focused on stimulating intellectual debate that serves people’s aspirations.</description>
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		<title>O movimento de cooperativas no estado de Kerala, na Índia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ricardo Vaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Dec 2025 08:00:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socialismo em construção]]></category>
		<category><![CDATA[Estudos]]></category>
		<category><![CDATA[Partido Comunista da Índia]]></category>
		<category><![CDATA[India]]></category>
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					<description><![CDATA[Apoiado por poderosos movimentos da classe trabalhadora e camponesa, bem como por governos de esquerda que estiveram no poder intermitentemente, o movimento de cooperativas de Kerala deu origem a milhares de cooperativas, cada uma delas uma incubadora de futuros possíveis para além do capitalismo. &nbsp;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="single-post--content--logos-block">
<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-106162 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/06/Tricontinental.png" alt="Tricontinental: Insitute for Social Research logo" width="600" height="104" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/06/Tricontinental.png 600w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/06/Tricontinental-300x52.png 300w" sizes="(max-width: 600px) 100vw, 600px"></p>
<p><img decoding="async" class="alignnone size-large wp-image-132676 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/ULRC_LOGO-1-1024x1024.png" alt="" width="1024" height="1024" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/ULRC_LOGO-1-1024x1024.png 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/ULRC_LOGO-1-300x300.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/ULRC_LOGO-1-150x150.png 150w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/ULRC_LOGO-1-768x768.png 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/ULRC_LOGO-1-1536x1536.png 1536w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/ULRC_LOGO-1-2048x2048.png 2048w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px"></p>
<p class="single-post--content--logos-block--text">Instituto Tricontinental de Pesquisa Social em colaboração com o Centro de Pesquisa UL (Uralungal Labour Contract Cooperative Society)</p>
</div>
<p class="single-post--content--text-small">A arte deste estudo foi produzida por integrantes da Young Socialist Artists (YSA). Desde 2020, esse grupo reúne artistas e trabalhadores culturais de toda a Índia, inseridos em movimentos sociais e políticos em suas regiões. A maioria dos membros da YSA que criou as ilustrações para este estudo é originária de Kerala, onde vivem, e onde essas cooperativas fazem parte do cotidiano. As ilustrações são baseadas em fotografias tiradas pelos pesquisadores que produziram este texto durante suas visitas de campo.</p>
<hr class="single-post--content--separator-narrow">
<p class="single-post--content--text-small"><strong>Ashique Ali Thuppilikkat</strong> é cofundador e diretor da Fundação SAFAR, um centro de pesquisa-ação com sede em Bengala Ocidental, na Índia. Ele participou ativamente do movimento estudantil na Universidade de Delhi e na Universidade Jawaharlal Nehru, onde pesquisou cooperativismo durante seu mestrado em ciência política. Atualmente, Ashique é estudante de doutorado na Universidade de Toronto, no Canadá, e pesquisador no STREET Lab. Sua pesquisa se concentra em projetos sociotécnicos de resistência, explorando a intersecção entre tecnologia e organização de movimentos sociais/trabalhistas.</p>
<p class="single-post--content--text-small"><strong>Aswathi Rebecca Asok</strong> é economista do desenvolvimento e formada em direito, com experiência em pesquisa interdisciplinar, baseada em evidências e orientada para políticas públicas. Ao longo dos últimos nove anos, Aswathi realizou uma extensa pesquisa sobre a trajetória de desenvolvimento de Kerala e explorou uma série de temas, como inclusão financeira, pobreza, gênero, migração, trabalho e descentralização. Ela foi uma ativista estudantil em diversas universidades e campi na Índia.</p>
<p class="single-post--content--text-small"><strong>Najeeb VR</strong> é cientista social e coordenador de pesquisa no Centro de Pesquisa da UL em Kozhikode, Kerala, onde integra abordagens transdisciplinares ao desenvolvimento cooperativo, à transformação social e aos sistemas de conhecimento. Ele também é membro do comitê de especialistas do Subgrupo do 14º Plano Quinquenal do Conselho de Planejamento do Estado de Kerala e contribui ativamente para a divulgação acadêmica, o desenvolvimento curricular e a pesquisa pública. É doutor em sociologia pela Universidade Jawaharlal Nehru e é bolsista do programa Revise PhD Fellowship do Conselho de Pesquisa Histórica de Kerala.</p>
<p class="single-post--content--text-small"><strong>Vijoo Krishnan</strong> é secretário-geral da All India Kisan Sabha (AIKS) e membro do comitê político do Partido Comunista da Índia (Marxista). Como líder da AIKS, desempenhou um papel crucial na histórica mobilização dos agricultores em Delhi, em 2021-2022. Antes de se tornar um ativista político em tempo integral, era chefe do Departamento de Ciência Política do St. Joseph’s College, em Bangalore. Entre 1998 e 1999, foi presidente da União dos Estudantes da Universidade Jawaharlal Nehru. Vijoo também é fotógrafo e retrata o cotidiano da classe trabalhadora.</p>
<p class="single-post--content--text-small"><strong>Nidheesh J Villatt</strong> é membro do Comitê Central de Agricultores da All India Kisan Sabha e coordenador de pesquisa do P Sundarayya Memorial Trust, um instituto de pesquisa que se concentra em questões agrárias e movimentos do campo. Nidheesh dedica-se ao estudo e à construção da aliança operário-camponesa, com foco em economia política e filosofia. Ele escreveu sobre lutas de classes agrárias e industriais, “competição” no capitalismo, ecologia política e Hindutva.</p>
<p class="single-post--content--text-small"><strong>Nitheesh Narayanan</strong> é pesquisador de movimentos, escritor e trabalha no Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. Estuda a história dos movimentos da classe trabalhadora, incluindo as cooperativas, e foi vice-presidente da Federação Estudantil da Índia e editor do jornal <i>Student Struggle</i>. É doutor pela Universidade Jawaharlal Nehru. Ele é autor de vários livros em inglês e malaiala, incluindo <i>A Rebelião de 1921 em Malabar: Uma coletânea de escritos comunistas</i>, editada com Vijay Prashad, e <i>Se a humanidade é um país: dias cubanos</i>.</p>
<p class="single-post--content--text-small"><strong>Sarga TK</strong> é professora assistente na Universidade Azim Premji, em Bhopal. Sua pesquisa aborda temas como mobilidade urbana, migração laboral e cooperativas de construção, explorando como o trabalho e o deslocamento moldam a paisagem urbana. Sarga também já lecionou na Universidade de Kannur, em Kerala.</p>
<p class="single-post--content--text-small"><strong>Subin Dennis</strong> é economista e pesquisador do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. Antes de ingressar no Tricontinental, trabalhou como correspondente no portal de notícias online NewsClick. Subin também fez parte do movimento estudantil e atuou como vice-presidente estadual de Delhi da Federação Estudantil da Índia. Os escritos de Subin em inglês e malaiala sobre assuntos relacionados à economia e à política aparecem em diversos periódicos e sites. Atualmente, reside em Kerala.</p>
<p class="single-post--content--text-small"><strong>Vijay Prashad</strong> é diretor do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. Ele é autor de quarenta livros, incluindo <i>Uma história popular do Terceiro Mundo</i>, <i>The Poorer Nations: A Possible History of Global South</i>, e (com Grieve Chelwa) <i>How the International Monetary Fund Suffocates Africa</i>. Vijay é editor da LeftWord Books (Nova Delhi), Inkani Books (Joanesburgo) e La Trocha (Santiago).</p>
<h2 style="margin:3em 0;">Introdução: Comunismo possível</h2>
<blockquote><p>Mas ainda estava por vir uma vitória ainda maior da economia política do trabalho sobre a economia política da propriedade. Falamos do movimento cooperativo, especialmente das fábricas cooperativas erguidas pelos esforços independentes de algumas poucas “mãos” ousadas. O valor dessas grandes experiências sociais não pode ser subestimado. Por meio de fatos, e não de argumentos, demonstraram que a produção em larga escala, e em consonância com os preceitos da ciência moderna, pode ser realizada sem a existência de uma classe de mestres que emprega uma classe de trabalhadores; que, para dar frutos, os meios de trabalho não precisam ser monopolizados como forma de domínio e extorsão contra o próprio trabalhador; e que, assim como o trabalho escravo e o trabalho servil, o trabalho assalariado é apenas uma forma transitória e inferior, destinada a desaparecer diante do trabalho associativo, realizado com boa vontade, mente preparada e coração alegre.</p>
<p>– Karl Marx, <i>Discurso de posse da Associação Internacional dos Trabalhadores</i>, 1864.</p></blockquote>
<p>A miséria saúda o planeta. A pobreza persiste para bilhões de pessoas em todo o mundo. As mudanças climáticas – produto do expansionismo capitalista – ameaçam a sobrevivência da vida na Terra. Guerras de enormes proporções se alastram pelo globo em inúmeras formas, incluindo o genocídio contra os palestinos em Gaza promovido por Israel, enquanto fomes provocadas pelo comportamento humano assolam vastas áreas da população. É como se os cinco cavaleiros do apocalipse já não fossem suficientes – em vez disso, inúmeros cavaleiros percorrem o planeta sufocando as possibilidades da vida humana.</p>
<p>Tudo isso contribui para a sensação de que nada além desse pesadelo é possível, que alternativas não podem ser imaginadas. Quando pessoas resilientes ousam pensar em um futuro melhor, como inevitavelmente acontece, aqueles que detêm o poder as recebem com escárnio e se esforçam para sufocá-las. É melhor para os poderosos e os proprietários de terras garantir que nenhuma alternativa floresça. A sobrevivência de um único resquício de esperança colocaria em xeque a afirmação de que a História chegou ao fim.</p>
<p>Um desses núcleos é o estado indiano de Kerala (com uma população de 35 milhões), que possui uma rica história de construção socialista. Dez anos após a Índia conquistar sua independência em 1947, o Partido Comunista da Índia venceu as eleições estaduais em Kerala. Desde o início, o governo de esquerda em Kerala adotou uma agenda para destruir hierarquias e costumes sociais ancestrais, fornecer bens sociais que não estavam prontamente disponíveis à população no resto da Índia (incluindo educação pública de qualidade, saúde e transporte) e construir as bases do poder da classe trabalhadora e dos camponeses, defendendo o direito dos trabalhadores de se organizarem em sindicatos e criarem cooperativas. Embora o governo nacional em Délhi tenha destituído inconstitucionalmente o governo estadual comunista de Kerala em 1959, a agenda estabelecida pela esquerda permaneceu em grande parte inalterada. A esquerda retornou ao poder periodicamente (1967-1969, 1980-1981, 1987-1991, 1996-2001, 2006-2011 e 2016-presente), expandindo a cada vez a agenda de descentralização, incentivando a ação pública e construindo as bases para instituições estatais social-democratas.<a href="#_edn1" name="_ednref1"><sup>1</sup></a> Mesmo quando a direita chegou ao poder nos anos seguintes, não conseguiu minar a dinâmica que havia sido iniciada pelos governos de esquerda. Foi nesse contexto que o movimento cooperativo se desenvolveu em Kerala.</p>
<p>As pessoas que criticam o sistema capitalista costumam ser igualmente críticas das alternativas que estão sendo construídas dentro dos parâmetros desse sistema, pois argumentam que tais instituições são reféns da lógica do capitalismo. Mas essa é uma avaliação falha das cooperativas, que são, na verdade, incubadoras de diferentes lógicas de vida e trabalho, servindo como faróis de inspiração e esperança, oferecendo uma janela para o que a humanidade é capaz de fazer quando os grilhões do capitalismo são transcendidos. As cooperativas oferecem escolas para a classe trabalhadora e o campesinato, ensinando-os a construir relações sociais baseadas em uma base econômica diferente. Em seu terceiro volume de <i>O Capital</i>, Marx escreveu:</p>
<blockquote><p>As fábricas cooperativas dos próprios trabalhadores representam, dentro da forma antiga, os primeiros brotos da nova, embora naturalmente reproduzam, e devam reproduzir, em toda a sua organização real, todas as deficiências do sistema vigente. Mas a antítese entre capital e trabalho é superada dentro deles, ainda que inicialmente apenas através da transformação dos trabalhadores associados em seus próprios capitalistas, ou seja, permitindo-lhes usar os meios de produção para o emprego de seu próprio trabalho. Eles mostram como um novo modo de produção surge naturalmente de um antigo, quando o desenvolvimento das forças materiais de produção e das formas correspondentes de produção social atingem um determinado estágio (Marx, 2010, p. 440).</p></blockquote>
<p>A percepção de Marx aqui é crucial. As cooperativas não estão inerentemente presas à lei capitalista do valor, nem são capazes de transcendê-la facilmente. São “brotos”, escreve ele, de uma alternativa através da qual a classe trabalhadora pode experimentar a anulação da gestão capitalista. Marx observava com grande orgulho a utopia operária que estava sendo construída na Comuna de Paris de 1871, em que viu como os comunardos desenvolveram cooperativas operárias e outros meios de construir uma nova sociedade frente à euforia da queda do Segundo Império de Luís Napoleão III (1852-1870).<a href="#_edn2" name="_ednref2"><sup>2</sup></a> Em <i>A Guerra Civil na França</i>, Marx escreveu que, durante os dois meses de existência da comuna, de março a maio de 1871, ela foi a “forma finalmente descoberta” para o futuro Estado operário. Foi nesse texto que Marx escreveu sobre as ideias das cooperativas:</p>
<blockquote><p>Se a produção cooperativa não deve permanecer uma farsa e uma armadilha; se deve suplantar o sistema capitalista; se as cooperativas unidas devem regular a produção nacional segundo um plano comum, assumindo assim o seu controle e pondo fim à anarquia constante e às convulsões periódicas que são a fatalidade da produção capitalista – o que mais, senhores, seria senão o comunismo, o comunismo “possível”? (Marx, 1986, p. 335).</p></blockquote>
<p>O presente estudo, <i>O movimento de cooperativas no estado de Kerala, na Índia</i>, faz parte de uma série do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social denominado <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/estudos/socialismo-em-construcao/">“Socialismo em construção”</a>. Trata-se do comunismo possível, das possibilidades que temos em nosso tempo para uma sociedade futura. Esta pesquisa, uma avaliação honesta de uma empreitada heroica, mostra que as cooperativas de Kerala não só conseguiram sobreviver em um nicho pequeno, como também crescer e se tornar instituições substanciais que se integraram à vida social da região. Atualmente, existem 16.429 cooperativas registradas em Kerala (das quais 12.278 estão ativas, 3.354 estão inativas e 797 estão prestes a encerrar suas atividades) (Governo de Kerala, 2025). As cooperativas atuam em uma ampla gama de setores, desde a produção e distribuição de bens e serviços até hospitais e restaurantes, passando pela produção agrícola e construção de moradias. A maior cooperativa (embora não esteja estritamente registrada como tal), a Kudumbashree, possui 4,8 milhões de integrantes, todas mulheres. Uma em cada quatro mulheres em Kerala está nesta cooperativa. Existem também muitas organizações semelhantes a cooperativas que estão registradas como sociedades e fundações de caridade, como a Brahmagiri Development Society, com foco no desenvolvimento agrário, e a Janatha Charitable Society, uma importante produtora de leite. A maioria das cooperativas ativas possui filiais em diferentes partes do estado.</p>
<p>Existem, naturalmente, desafios e contradições, e estes são discutidos com clareza: não faz sentido exagerar as possibilidades apresentadas pelas cooperativas que precisam lutar para sobreviver em um mundo em que a lei capitalista do valor é a lei vigente. Também não faz sentido minimizar as importantes contribuições dessas cooperativas para as pessoas que vivem em Kerala, tanto em termos materiais quanto espirituais. Essas cooperativas não são meramente uma fonte de inspiração: elas fornecem um modelo para cooperativas em todo o mundo, como sementes de um futuro justo que existem dentro dos limites do capitalismo atual.</p>
<h3 style="margin:2em 0;"><i>Cooperativas de Kerala</i></h3>
<p>Em 1943, na 7ª Sessão da All India Kisan Sabha (AIKS, a maior união de agricultores do país), em Bhakna Kalan, Punjab, os delegados discutiram uma série de questões, incluindo a criação de cooperativas. Em uma de suas resoluções, a AIKS argumentou que as cooperativas poderiam ajudar os agricultores a combater a “angústia e a humilhação” da agricultura capitalista e colonial e capacitá-los a alcançar a “liberdade econômica, social e nacional”. Durante as deliberações, o líder comunista EMS Namboodiripad (1909-1998), ou apenas EMS, como era conhecido, escreveu uma nota intitulada “Organização – não uma máquina”. Na nota, EMS salientou que as resoluções não significariam nada sem uma organização militante que vá além da “política abstrata”. As cooperativas precisariam ser construídas pelos camponeses e trabalhadores agrícolas para expandir a revolução democrática e fortalecer a confiança dos trabalhadores rurais (Thuppilikkat, 2024).</p>
<p>Em outubro de 1956, o Partido Comunista da Índia realizou uma reunião em Thrissur, Kerala, com foco em cooperativas. A reunião foi presidida pelo Professor Joseph Mundassery, que se tornaria o primeiro ministro da educação e cooperação durante o mandato de EMS como ministro-chefe de Kerala (1957-1959), e decidiu que, em vez de permitir que as cooperativas se tornassem um “bairro de bolso” das classes feudais, os próprios trabalhadores as construiriam e haveria educação política sobre o papel que essas cooperativas desempenhavam na construção da democracia e do socialismo. A liderança do partido também enfatizou a necessidade de sociedades de crédito rural e bancos cooperativos bem-sucedidos, controlados por comunistas e trabalhadores, como forma de eliminar o domínio dos agiotas, impulsionar a produção agrícola e melhorar as condições de vida dos camponeses e trabalhadores rurais. Foi a partir dessa clareza ideológica que as cooperativas de Kerala emergiram para se tornarem um farol para as cooperativas democráticas lideradas por trabalhadores em todo o mundo.</p>
<p>O restante deste estudo é composto por breves retratos de algumas cooperativas de Kerala. Esses perfis foram escritos por acadêmicos e lideranças políticas que trabalharam em estreita colaboração com as cooperativas para conhecer e refletir sobre elas. Os dados apresentados nos ensaios foram em grande parte compilados a partir de cooperativas e documentos governamentais. Agradecemos ao Centro de Pesquisa da UL por nos auxiliar neste trabalho.</p>
<p>Estes ensaios revelam alguns fatos importantes:</p>
<ol>
<li aria-level="1">O setor cooperativo em Kerala não teria prosperado sem uma longa história de reformas sociais que criou a base social para o cooperativismo. Quando as notícias sobre a União Soviética começaram a chegar a Kerala, as pessoas envolvidas nos movimentos de reforma social e anticastas expressaram sua curiosidade sobre as tentativas soviéticas de reconstruir as relações sociais e econômicas. Essa curiosidade levou a estudos sobre o movimento cooperativista na União Soviética, que foram posteriormente apresentados em reuniões públicas de movimentos de reforma social e anticastas.</li>
<li aria-level="1">O setor cooperativo desenvolveu-se devido à vitalidade da luta de classes em Kerala, em que camponeses e trabalhadores organizados impulsionaram o movimento de reforma social para combinar as lutas contra o sistema de castas, o latifúndio e o colonialismo. Foi nessas lutas que o movimento camponês – principalmente no norte de Kerala – tomou a iniciativa de criar cooperativas para ajudar os mais pobres. O surgimento dessas cooperativas enfraqueceu o domínio dos latifundiários, que não podiam mais emprestar dinheiro a juros exorbitantes aos camponeses endividados nem continuar sendo seus principais fornecedores de bens de consumo. Em vez disso, eles observaram como as cooperativas camponesas elevaram a confiança das massas. O sucesso das cooperativas levou à sua replicação em outras partes da região, baseando-se nos hábitos das organizações de movimentos de massa.</li>
<li aria-level="1">O primeiro governo comunista a chegar ao poder em Kerala (1957-1959) recebeu apoio em massa do movimento de reforma social e foi fortalecido tanto pela luta de classes das décadas anteriores quanto pelo sucesso do movimento cooperativista. Por sua vez, o governo comunista utilizou parte da riqueza social de Kerala para financiar o crescimento de mais cooperativas em todo o estado. O governo criou cooperativas de fibra de coco, tecelagem manual e <i>toddy</i> (uma bebida alcoólica feita de seiva de coco fermentada) para fortalecer esses setores da economia e melhorar as condições de trabalho e os salários dos trabalhadores.</li>
<li aria-level="1">A ênfase na criação de cooperativas para garantir o emprego em massa e salários mais altos, bem como para melhorar a eficiência e a produtividade de diferentes empresas, significava que as cooperativas podiam competir com o setor privado.</li>
<li aria-level="1">A liderança das castas oprimidas se sentiu atraída pelo sistema cooperativo e viu nele uma oportunidade de concretizar sua independência e emancipação. Por exemplo, na Conferência Cheramar Samajam de dezembro de 1929, o presidente da organização, Chaajan, disse aos dois mil membros da comunidade Pulaya presentes que essas sociedades cooperativas, juntamente com programas educacionais e uma campanha contra o álcool, seriam cruciais para suas lutas (Malayala Manorama, 1929).</li>
<li aria-level="1">O papel da educação política dentro das cooperativas permitiu que seus membros entendessem o que estavam construindo (socialismo) e como o que estavam construindo era diferente – e melhor – do que o que o setor privado havia construído (capitalismo).</li>
<li aria-level="1">Sem uma extensa rede de cooperativas financeiras, todo o setor teria ficado sem fundos. Esse sistema também dependeu da entrada periódica da esquerda no governo, o que impediu a privatização em larga escala dos mercados de crédito de Kerala.</li>
<li aria-level="1">A estrutura democrática das cooperativas, aliada à inovação de seus membros, permite que elas diversifiquem seu trabalho e se adaptem aos tempos de mudança. Quando os hábitos de consumo de tabaco mudaram, por exemplo, a Sociedade Cooperativa Central dos Trabalhadores Dinesh Beedi<a href="#_edn3" name="_ednref3"><sup>3</sup></a> passou a se dedicar à produção de alimentos.</li>
<li aria-level="1">Um elemento fundamental do movimento cooperativo de Kerala é o seu compromisso com a mudança social, com ênfase no uso da organização cooperativa para transcender o patriarcado (por meio de cooperativas de mulheres), as hierarquias de castas (por meio de cooperativas de castas oprimidas) e a discriminação contra comunidades tribais ou Adivasi (por meio de cooperativas de tribos registradas)<a href="#_edn4" name="_ednref4"><sup>4</sup></a>, e discriminação contra comunidades transgênero (por meio de cooperativas transgênero), bem como a promoção da igualdade para pessoas com deficiência.</li>
</ol>
<p>Este estudo demonstra a eficácia dessas cooperativas na promoção de uma forma social de atividade econômica que oferece uma alternativa às pressões do capitalismo. Na forma regressiva de competição econômica do capital, o sustento dos trabalhadores é o primeiro a ser descartado, enquanto o lucro é endeusado. As cooperativas de Kerala invertem esse sistema de valores, colocando as necessidades – e a dignidade – da classe trabalhadora no centro de suas atividades.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_132502" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-132502" class="size-large wp-image-132502 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Uralungal-819x1024.jpg" alt="" width="819" height="1024" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Uralungal-819x1024.jpg 819w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Uralungal-240x300.jpg 240w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Uralungal-768x960.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Uralungal.jpg 1200w" sizes="(max-width: 819px) 100vw, 819px"><p id="caption-attachment-132502" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Vanshika Babbar (Young Socialist Artists), <em>Trabalhadores da Cooperativa Uralungal</em>, 2025.</small></p></div>
</div>
<h2 style="margin:3em 0;">Sahya Tea Cooperative</h2>
<p class="single-post--content--section-author">Nidheesh J Villatt e Vijoo Krishnan</p>
<p>Na 35ª conferência da All India Kisan Sabha (AIKS), em dezembro de 2022, cada delegado recebeu um pacote de chá Sahya, juntamente com as famosas especiarias de Kerala e outros condimentos. Foi somente meses depois, durante uma visita a Assam para relatar as decisões tomadas na conferência, que um dos participantes notou a marca do chá. Delegados locais perguntaram sobre, afirmando que era melhor do que o chá de Assam, mundialmente famoso. A pergunta deles nos levou a uma busca para descobrir mais sobre a marca e o esforço coletivo que contribuiu para o seu surgimento.</p>
<p>Em uma carta a Wilhelm Bracke, datada de 5 de maio de 1875, Karl Marx escreveu: “cada passo de um movimento real é mais importante do que uma dúzia de programas” (1970, p. 11). A história da Fábrica Cooperativa de Chá Sahya, localizada na área remota de Thankamany, no distrito montanhoso de Idukki, em Kerala, mostra a importância do “verdadeiro movimento” socialista. Inaugurada em 2017, a fábrica foi criada pelo Thankamany Service Cooperative Bank, Ltd (fundado em 1966). O Banco Cooperativo possui 15 mil membros, a maioria pequenos agricultores e trabalhadores, e opera no panchayat da aldeia de Kamakshy<a href="#_edn5" name="_ednref5"><sup>5</sup></a>, habitada principalmente por pequenos produtores de chá. A Fábrica Cooperativa de Chá Thankamany produz principalmente chás pretos, verdes e uma variedade de misturas de chás.</p>
<p>O banco cooperativo e a fábrica de chá devem ser compreendidos dentro da trajetória mais ampla do movimento cooperativo liderado pelos comunistas em Kerala (Raghavan, 2019). A Revolução Russa de Outubro de 1917 teve um impacto tremendo nos movimentos progressistas de Kerala e ajudou a reformular sua orientação dentro do movimento nacional. Em 1934, os setores mais fortes desses movimentos formaram o Partido Socialista do Congresso de Toda a Índia. Cinco anos depois, a unidade do partido em Kerala transformou-se na unidade de Kerala do Partido Comunista da Índia, que eventualmente criou a AIKS e vários sindicatos na região. Foi nesse período e nesse contexto que a AIKS e outras forças progressistas começaram a intervir no movimento cooperativo e a confrontar a estratégia britânica de manter as cooperativas isoladas da intensificação da luta de classes que eclodia nas décadas de 1930 e 1940. Por exemplo, como documentado por EMS, durante a Guerra Popular (1941-1945)<a href="#_edn6" name="_ednref6"><sup>6</sup></a>, os comunistas pressionaram o governo imperialista britânico para que adquirisse grãos dos proprietários de terras e os distribuísse por meio de lojas de racionamento, que posteriormente foram convertidas em cooperativas de produtores e consumidores (Namboodiripad, 1943, p. 137). Os comunistas em Kerala identificaram a criação de cooperativas como parte da crescente luta de classes, distinta da ideia colonial benevolente de cooperativas derivada dos Princípios de Rochdale, que serviram como diretrizes primárias para as cooperativas desde 1844 (Harnecker, 2012).</p>
<p>A relação dialética entre a construção de uma organização forte da classe trabalhadora que se oponha ao imperialismo e a construção de cooperativas já havia sido estabelecida na resolução da AIKS de 1943 sobre cooperativas, aprovada em sua sétima sessão. Esta resolução apelou aos quadros da AIKS para que iniciassem cooperativas como estratégia de combate à subjugação econômica e social dos camponeses. As ideias resultantes desta resolução, em particular a nota de EMS intitulada <i>Organização – não uma máquina</i>, enfatizaram a necessidade de uma organização de classe militante para impedir que as cooperativas se degenerassem em “política abstrata” e forneceram uma estrutura crucial para discussões posteriores sobre a construção de cooperativas.</p>
<p>Quando os comunistas e líderes do movimento cooperativista se reuniram em Thrissur, em outubro de 1956, o foco havia mudado da base teórica estabelecida em 1943 para os desafios práticos da implementação dessa base em Kerala (Menon, 1956). Durante a reunião, os participantes avaliaram as atividades das cooperativas em Kerala e criticaram as ilusões do regime burguês latifundiário do primeiro-ministro Jawaharlal Nehru, que sugeria que a criação de cooperativas por si só levaria ao socialismo. Os participantes salientaram que os comunistas tinham de se envolver conscientemente na organização de cooperativas e inscrever um grande número de trabalhadores nestas e noutras organizações de massas, a fim de garantir a sua educação política ao longo do processo. Foi feita referência às bem-sucedidas cooperativas de crédito rural e aos bancos, que eliminaram o domínio dos agiotas e impulsionaram a produção agrícola, aumentando assim a renda dos camponeses e dos trabalhadores rurais. O que diferenciava essas cooperativas das malsucedidas era o papel dos comunistas em garantir que a forma cooperativa não fosse cooptada por reacionários que tentavam manter antigas formas de poder rural.</p>
<h3 style="margin:2em 0;"><i>O surgimento dos pequenos produtores de chá</i></h3>
<p>No final da década de 1990, a indústria do chá passou por uma reestruturação profunda impulsionada pela obsessão pelo lucro do capital monopolista, marcada por fusões, aquisições e um foco agressivo na construção de marcas. Monopólios verticalmente integrados, como a Unilever e a Tata – conhecidos como “Big Tea” – abandonaram os laços diretos com a produção agrícola e se desfizeram da propriedade e da gestão de plantações de chá. Em março de 2000, por exemplo, a Tata adquiriu o Grupo Tetley, o segundo maior fabricante e distribuidor de chá do mundo, por 271 milhões de libras (The Guardian, 2000). Tanto a Tata quanto a Unilever, a maior empresa de chá do mundo, passaram a criar e comercializar novos chás de marca própria – incluindo chás CTC (crush, tear, and curl), bem como misturas de chá – voltados para uma variedade de gostos e faixas de preço.</p>
<p>Essa transformação coincidiu com uma crise financeira nas plantações de chá em estados que o cultivam e o processam e são, em grande parte, administrados por capital não monopolista. Embora a maioria das propriedades tenha sido vendida para empresas menores, as empresas monopolistas garantiram seu fornecimento por meio de cláusulas contratuais que asseguravam o acesso a uma quantidade suficiente de chá não processado. Como observa a professora Natalie Langford, a indústria passou da “integração vertical” para cadeias de valor em que “as empresas procuraram melhorar sua posição competitiva por meio da terceirização de atividades de menor valor agregado” (Langford, 2021, p. 11). Na prática, as grandes empresas do setor consideravam a produção agrícola e a gestão das propriedades os elos mais problemáticos da cadeia, uma vez que eram fortemente regulamentadas pelas leis trabalhistas e ambientais, e procuravam se distanciar desses setores para evitar a luta de classes. Em vez disso, consolidaram o controle sobre atividades de maior valor agregado, como mescla, embalagem, marcação, distribuição e vendas. Entretanto, os pequenos produtores emergiram como os principais produtores de folhas de chá: sua participação aumentou de 7%, em 1991, para 52% em 2022, e a projeção é de que alcance 70% até 2030.</p>
<p>Antes da formação da Fábrica Cooperativa de Chá Sahya, os cerca de 3.500 pequenos produtores na área de Idukki operavam sob o domínio de um sistema administrado por empresas monopolistas como a Tata e a AVT Beverages (uma das principais empresas do sul da Índia). Essas grandes empresas compravam folhas verdes (folhas de chá recém-colhidas e não processadas) tanto dos agricultores quanto de “agentes” (intermediários que muitas vezes atuam como compradores em nome das fábricas, geralmente cobrando uma comissão sobre as folhas verdes coletadas de pequenos agricultores) a “um preço arbitrário e [sob] termos e condições humilhantes”, nos disse um grupo de agricultores. Muitos agricultores compartilharam conosco histórias sobre como as empresas rejeitavam suas folhas verdes quando tentavam negociar um preço justo, inventando desculpas superficiais que forçavam os agricultores – que haviam trazido as folhas de longe – a descartá-las ou usá-las como adubo. Eram comuns cenas de agricultores desanimados voltando para casa em seus tratores com as colheitas rejeitadas. Essas rejeições metodicamente planejadas tinham como objetivo criar um campesinato dócil, acostumado a vender suas colheitas às companhias a preços baixos. Todo o sistema era extremamente favorável às grandes empresas.</p>
<p>Na ausência de uma cooperação bem-sucedida, os agentes comerciais geralmente cobram dos pequenos produtores em toda a Índia uma comissão de 15% a 20% por quilo de folhas verdes. Uma grande parte disso é vendida para fábricas de chá de folhas compradas, que processam o chá a partir de folhas adquiridas em vez de cultivarem as suas próprias. Outra parte é, por vezes, vendida para fábricas de chá pertencentes a grandes plantações. Os agentes comerciais avaliam a qualidade e o preço das folhas com base na sua “contagem de folhas finas” (a proporção de folhas jovens e tenras e brotos, que determinam a qualidade geral do chá) de uma forma muito subjetiva, comprometendo os interesses dos pequenos agricultores (Solidaridad Network Asia Limited, 2023).</p>
<p>As fábricas que compram folhas de chá geralmente vendem o produto processado em leilões. Como o processo é controlado pelas grandes empresas de chá (os principais compradores), o produto é vendido a preços distorcidos (Sarkar, 2013). Todo o mecanismo de leilões na Índia é concebido de tal forma que o postulado básico da economia neoclássica – de que a interação entre oferta e demanda determina os preços – parece uma farsa. Por outro lado, as fábricas de chá geralmente vendem apenas metade do chá processado em leilões, conforme estipulado pelas normas estabelecidas na Ordem de Controle de Comercialização de Chá de 1983 (que, por sua vez, está sob a Lei do Chá de 1953), e vendem a outra metade por meio de canais privados mais lucrativos.</p>
<p>Os participantes do leilão são as principais empresas de embalagem de chá, agentes comerciais e outras marcas líderes de chá empacotado. Como essas empresas realizam processos de agregação de valor, como mistura, seleção, classificação e embalagem do chá antes de distribuí-lo aos consumidores, os pequenos produtores, que estão na base da cadeia de valor, recebem uma parcela desproporcionalmente menor dos gastos do consumidor com o produto – cerca de 15%. Por outro lado, as empresas de embalagem de chá, que em sua maioria são grandes empresas monopolistas, recebem 50% dos gastos dos consumidores com chá. Por isso, é imprescindível que os pequenos produtores subam na cadeia de valor e obtenham acesso direto aos mercados para garantir melhores preços (Goswami, 2023). É exatamente isso que a Cooperativa de Chá Sahya pretende alcançar com sua ousada iniciativa de entrar no mercado de grandes empresas de chá.</p>
<h3 style="margin:2em 0;"><i>Chá cooperativo</i></h3>
<p>Foram as difíceis circunstâncias enfrentadas pelos agricultores que levaram os membros da AIKS a formar a Cooperativa de Chá Sahya em 2017. Projetada para processar 15 mil quilos de folhas verdes por dia, ela gera emprego para mais de 150 trabalhadores, a maioria recrutada da classe trabalhadora agrícola e do campesinato, ao mesmo tempo que protege os interesses dos pequenos produtores. Quando visitamos a cooperativa e sua área de abrangência em setembro de 2023, o que nos chamou a atenção foi a visível confiança entre os pequenos produtores de chá.</p>
<p>Os três primeiros anos da cooperativa, de 2017 a 2020, foram desafiadores: além de ter que começar a pagar o grande empréstimo contraído a juros de 12%, ela foi assolada por uma série de choques, como a enchente de Kerala em 2018 e a pandemia de Covid-19 (2020–2023). Apesar dos desafios financeiros enfrentados pela cooperativa, ela conseguiu adquirir folhas verdes e pagar aos agricultores 12 rúpias por quilo (valor muito superior à taxa corporativa de 7 rúpias por quilo). Os preços estáveis da cooperativa, por sua vez, forçaram os fornecedores corporativos de chá a aumentarem os valores pagos aos pequenos produtores.</p>
<p>A direção da cooperativa reuniu camponeses e trabalhadores para debater ideias sobre como melhorar sua situação financeira. Como as grandes empresas dominavam o mercado com seus produtos de chá embalados, elas decidiram aprimorar sua estratégia de <i>marketing </i>e lançar uma campanha para conquistar espaço no mercado. KS Chithra, uma cantora popular conhecida como o “Rouxinol de Kerala”, tornou-se embaixadora da marca da Cooperativa de Chá Sahya e ajudou a popularizá-la, recusando-se a receber qualquer pagamento por seu trabalho. Para fortalecer sua presença no mercado, a cooperativa também fez uso do Sistema de Distribuição Pública de Kerala, como a Supplyco (Kerala State Civil Supplies Corporation) e a Consumerfed (Kerala State Cooperative Consumers’ Federation); também fez uso do sistema que fornece mercadorias para os refeitórios da polícia.</p>
<p>Além disso, a cooperativa recebeu outras formas de apoio do estado, como em 2020-2021, quando o governo estadual comprou chá Sahya para os kits de alimentos distribuídos durante a pandemia. Graças a esses mecanismos criativos de <i>marketing </i>e ao auxílio estatal, a cooperativa obteve lucro em seu quarto ano (2020-2021) e passou a pagar 18 rúpias indianas por quilo de folhas verdes, distribuindo os lucros como incentivos aos agricultores que as forneciam. Isso estabeleceu um precedente histórico: pela primeira vez, os agricultores foram remunerados de forma justa por suas contribuições.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_132512" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-132512" class="size-large wp-image-132512 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Udayapuram-819x1024.jpg" alt="" width="819" height="1024" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Udayapuram-819x1024.jpg 819w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Udayapuram-240x300.jpg 240w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Udayapuram-768x960.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Udayapuram.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 819px) 100vw, 819px"><p id="caption-attachment-132512" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Vanshika Babbar (Young Socialist Artists), <em>Cooperativa de Trabalhadores Udayapuram</em>, 2025.</small></p></div>
</div>
<h2 align="left" style="margin:3em 0;">Sociedade Cooperativa de Contratos de Trabalho Uralungal</h2>
<p class="single-post--content--section-author" align="left">Najeeb VR</p>
<p>Em 1925, antes do estabelecimento do movimento comunista no sudoeste da Índia, os seguidores do reformador social Vayaleri Kunhikannan Gurukkal, também conhecido como Sri Vagbhatananda Guru (1885-1939), fundaram o Sociedade Cooperativa de Contratos de Trabalho Uralungal (ULCCS, na sigla em inglês) para fornecer proteção social aos trabalhadores da construção civil. Atualmente, a ULCCS é a maior cooperativa de trabalhadores da Ásia e foi classificada em segundo lugar na lista World Cooperative Monitor de 2021, que classifica as cooperativas industriais e de serviços públicos. A coordenadora residente do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento na Índia, Lise Grande, considera-a um modelo de cooperativa cujo sucesso oferece “grandes lições para o resto do mundo” (The Hindu, 2013). Originária de um grupo de trabalhadores braçais, a ULCCS, localizada em uma área rural de Malabar, no norte de Kerala, agora constrói estradas e pontes, edifícios e sistemas de <i>software</i>. O compromisso da cooperativa com a harmonia e inclusão social, bem como com a cooperação entre os trabalhadores, permitiu que ela tivesse sucesso em áreas da produção social que costumam ser desafiadoras para as cooperativas.</p>
<p>A ULCCS foi formada numa época em que era difícil encontrar trabalho e em que as formas de discriminação de casta e classe eram ainda mais severas do que são hoje. Em 1917, os seguidores de Sri Vagbhatananda Guru inauguraram a escola Atma Vidya Sangham, cujos membros formaram a Cooperativa de Crédito Unida em 1922 para se ajudarem mutuamente, caso algum deles enfrentasse problemas financeiros devido à discriminação no mercado de crédito, que era controlado pelas castas dominantes. Eles também fundaram uma escola para seus filhos, que haviam sido privados de educação pelas castas dominantes da região. Seguindo o conselho de Vagbhatananda, decidiram formar, em 1924, a Sociedade de Ajuda Mútua dos Trabalhadores Diaristas para contornar a proibição de trabalho que a elite lhes havia imposto, numa tentativa de restringir sua luta contra a discriminação de castas. Então, em 13 de fevereiro de 1925, os trabalhadores criaram a Uralungal Kooli Velakkaarude Paraspara Sahaaya Sahakarana Sangham (Sociedade Cooperativa e de Ajuda Mútua dos Trabalhadores de Uralungal, agora ULCCS). Aos poucos, mais e mais trabalhadores se juntaram à ULCCS, que agora tem presença em todo o estado de Kerala.</p>
<p>Durante seus primeiros anos, a ULCCS raramente conseguia obter contratos e, quando conseguia, os valores das licitações (ou dos contratos) eram fixados em um nível muito baixo. Para ser competitiva, a ULCCS apresentou uma proposta com desconto em relação às empreiteiras privadas, oferecendo 27,5% a menos do que as propostas feitas por estas últimas. Embora isso lhes tenha permitido obter alguns contratos, as margens de lucro eram insignificantes. A inexperiência com obras rodoviárias e outras formas de construção em grande escala gerou problemas para a ULCCS. A cooperativa se sustentava obtendo contratos menores de governos locais e recebendo empréstimos de curto prazo dos membros mais abastados da cooperativa. A ULCCS também recebeu fundos de sistemas de microfinanças como <i>payattu</i> (jogos para arrecadar dinheiro) e kurikkalyaanam (anúncios de casamento)<a href="#_edn7" name="_ednref7"><sup>7</sup></a> e usou seu crescente prestígio para fornecer assistência para as necessidades básicas de seus membros, arrecadando doações de comerciantes locais.</p>
<p>Com o passar do tempo, os funcionários da ULCCS aprimoraram suas habilidades e se tornaram mais proficientes em práticas comerciais básicas. O aumento da eficiência e da qualidade do trabalho oferecido atraiu contratos mais lucrativos, e a ética de trabalho da empresa introduziu uma nova cultura de excelência na indústria da construção civil de Kerala. Na década de 1940, começaram a receber financiamento do Malabar Cooperative Central Bank e depósitos a prazo do público em geral em programas da ULCCS.</p>
<p>Ao longo do último século, a ULCCS cresceu de um coletivo com um capital inicial de 0,37 INR (0,13 dólar de 1925) para uma receita anual de 25 bilhões de INR (300 milhões de dólares) em 2023. É composta por 18 mil trabalhadores, incluindo mais de mil engenheiros e 1.200 técnicos. A cooperativa não só promove o bem-estar dos seus trabalhadores e da comunidade envolvente, cumprindo 13 dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, como também garante que a qualidade do trabalho (incluindo a sua conclusão no prazo) seja equilibrada com custos razoáveis. Esses fatores, juntamente com as modernas técnicas de construção da ULCCS, permitem que ela concorra com empresas privadas e ganhe grandes contratos, como os da Autoridade Nacional de Rodovias da Índia, do Ministério da União de Transportes Rodoviários e Rodovias e do Governo de Kerala. A ULCCS concluiu mais de 7.500 grandes projetos e está atualmente trabalhando em 500 projetos no valor de 6,5 bilhões de rúpias indianas. Por operar como uma cooperativa, a ULCCS tem conseguido oferecer aos seus trabalhadores salários melhores do que ganhariam no setor privado ou mesmo no setor público.</p>
<p>Como parte de seu esforço para acompanhar as aspirações dos trabalhadores, a ULCCS ingressou em vários setores da economia do conhecimento, como o desenvolvimento de <i>software</i>, diversificando-se de sua forma inicial como uma cooperativa de trabalhadores da construção civil para enfrentar os desafios que as cidades e o trabalho enfrentam em nossos tempos. Essas iniciativas incluem:</p>
<ol>
<li aria-level="1">O UL CyberPark em Kozhikode é o primeiro parque cibernético do setor cooperativo da Índia e faz parte de uma das Zonas Econômicas Costeiras do governo central.</li>
<li aria-level="1">A UL Technology Solutions é uma empresa de soluções digitais de última geração localizada no UL CyberPark.</li>
<li aria-level="1">As vilas de artes e artesanato Sargaalaya (em Iringal) e Kerala Arts &amp; Crafts Village (em Kovalam), que a ULCSS administra em nome do Governo de Kerala. Essas aldeias ajudam os artesãos a produzirem para os mercados nacional e internacional.</li>
<li aria-level="1">A UL Housing utiliza as habilidades de construção da cooperativa para construir projetos de apartamentos sob a marca UL SpaceUs. O primeiro edifício desse tipo, chamado One Anthem, fica no UL CyberPark.</li>
<li aria-level="1">O Laboratório de Testes e Pesquisa de Materiais de Alta Tecnologia, criado em 2021, ou MatterLab, é um desdobramento do trabalho de construção da ULCCS para desenvolver e testar novos materiais de construção sustentáveis.</li>
<li aria-level="1">O Instituto Indiano de Infraestrutura e Construção, que a ULCCS administra em nome do Governo de Kerala em colaboração com instituições educacionais nacionais e internacionais.</li>
<li aria-level="1">A UL Education desenvolve as competências dos alunos por meio de uma variedade de instituições e projetos, tais como:
<ol style="list-style-type: lower-alpha;">
<li aria-level="2">O Projeto Acadêmico Madappally para Aprendizagem e Empoderamento</li>
<li aria-level="2">O Projeto Educacional Vagbhatananda</li>
<li aria-level="2">Programa de Excelência Acadêmica para Estudantes</li>
<li aria-level="2">O Clube Espacial da UL (para jovens aspirantes a astronautas).</li>
<li aria-level="2">A Escola Primária Centenária da ULCCS, uma escola primária subsidiada em Muttungal, administrada pela ULCCS, oferece aulas do jardim de infância até o 4º ano do ensino fundamental.</li>
</ol>
</li>
<li aria-level="1">A Fundação Beneficente e de Bem-Estar ULCCS, o braço de responsabilidade social da cooperativa, administra três projetos principais sob o nome UL Care:
<ol style="list-style-type: lower-alpha;">
<li aria-level="2">Escola Prasanthi para Crianças com Necessidades Especiais</li>
<li aria-level="2">O Instituto Nayanar Sadanam de Formação Profissional e Colocação para Adultos com Deficiência Intelectual</li>
<li aria-level="2">O Centro Geriátrico Madithattu</li>
</ol>
</li>
<li aria-level="1">A UL Insight é uma empresa de consultoria de gestão gerida em conjunto com a Insight Advisory e a Consulting India.</li>
</ol>
<p>Como cooperativa de trabalhadores, a ULCCS não permite que pessoas que não trabalham se tornem membros. Seu conselho administrativo – eleito pelos trabalhadores e que os representa – é composto por treze diretores, cada um entre 30 e 35 anos de experiência em diversos setores da indústria da construção. Cada local de trabalho, incluindo a gestão do projeto, é supervisionado por um membro do conselho que avalia o trabalho ao final de cada dia.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_132522" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-132522" class="size-large wp-image-132522 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/WhatsApp-Image-2025-05-02-at-3.23.36-PM-768x1024.jpeg" alt="" width="768" height="1024" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/WhatsApp-Image-2025-05-02-at-3.23.36-PM-768x1024.jpeg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/WhatsApp-Image-2025-05-02-at-3.23.36-PM-225x300.jpeg 225w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/WhatsApp-Image-2025-05-02-at-3.23.36-PM-1152x1536.jpeg 1152w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/WhatsApp-Image-2025-05-02-at-3.23.36-PM.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px"><p id="caption-attachment-132522" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Navin S. (Young Socialist Artists), <em>Alfaiates da Dinesh Apparels</em>, 2025.</small></p></div>
</div>
<h2 style="margin:3em 0;">Cooperativas de Crédito em Kerala</h2>
<p class="single-post--content--section-author">Aswathi Rebecca Asok</p>
<p>Cooperativas de crédito – instituições financeiras de propriedade dos membros que fornecem crédito acessível e serviços financeiros para populações rurais e marginalizadas – foram formadas em Kerala mesmo antes da criação do estado, em 1956. Elas atendem principalmente pequenos agricultores e trabalhadores, frequentemente em locais em que os bancos comerciais privados são inexistentes ou insuficientes. Em Kerala, historicamente, eles desempenharam um papel vital no apoio aos beneficiários da reforma agrária e na prevenção da reconcentração da propriedade da terra. Por exemplo, o Banco Cooperativo Central de Trivandrum foi criado em 1915 para fornecer financiamento ao setor cooperativo emergente na região. Posteriormente, cooperativas de crédito semelhantes foram estabelecidas em toda a região norte de Malabar e em Cochin. Em 1956, o Banco Cooperativo Central de Trivandrum se tornou o Banco Cooperativo do Estado de Kerala, consolidando as cooperativas de crédito do novo estado. Atualmente, existem 4.146 cooperativas de crédito em Kerala, representando mais de um terço do total de instituições de crédito no estado (Governo de Kerala, 2025). Essas cooperativas de crédito desempenharam um papel vital na melhoria econômica da situação das pessoas, particularmente nas áreas rurais. Por exemplo, quando o ministério do governo comunista iniciou a reforma agrária em 1957, os pequenos agricultores que receberam terras precisavam de financiamento para começar o cultivo, mas esse crédito não estava disponível no setor privado em volumes suficientes. Foram as cooperativas de crédito que entraram em cena, fornecendo o capital necessário e evitando que os agricultores tivessem que recorrer a agiotas e à classe feudal. Sem a presença de cooperativas de crédito, uma parte substancial das terras distribuídas em Kerala teria retornado à classe feudal e aos agiotas na forma de hipotecas.</p>
<p>Embora o setor bancário comercial privado tenha se desenvolvido nas áreas rurais de Kerala, as cooperativas de crédito continuam desempenhando uma função vital. Kerala é o quinto estado mais bem conectado da Índia em termos de cobertura de agências bancárias comerciais, porém existe uma grande disparidade entre as áreas rurais e urbanas na distribuição dessas agências. Dados do Banco Central da Índia de 2024 mostram que apenas 5,3% dessas agências estão localizadas em áreas rurais, enquanto 22,5% estão em áreas urbanas e 72,2% em áreas semiurbanas (Reserve Bank of India, 2024). No entanto, se incluirmos as instituições de crédito cooperativo nesses números, 25% das agências bancárias do estado estão localizadas em áreas rurais.</p>
<h3 style="margin:2em 0;"><i>A estrutura das cooperativas de crédito em Kerala</i></h3>
<p>O setor de cooperativas de crédito de Kerala está estruturado em dois sistemas paralelos: cooperativas de curto prazo, que fornecem empréstimos sazonais de capital de giro para a agricultura, e cooperativas de longo prazo, que oferecem crédito para investimentos em infraestrutura rural e desenvolvimento agrícola. Cada sistema possui sua própria estrutura institucional, incluindo bancos que operam em um vilarejo, um distrito e um estado.</p>
<p>Historicamente, as cooperativas de curto prazo têm operado por meio de uma estrutura de três níveis, consistindo em Sociedades Primárias de Crédito Agrícola (PACS, na sigla em inglês) no nível dos vilarejos, bancos cooperativos distritais no nível distrital e o Banco Cooperativo Estadual de Kerala no nível estadual. Em 2019, essa estrutura foi simplificada para dois níveis, com a fusão dos bancos distritais e estaduais em uma única entidade, agora conhecida como Kerala Bank. Essa estrutura simplificada fortaleceu a integração e a eficiência da rede de cooperação de curto prazo. De forma geral, essa estrutura pode ser visualizada como uma pirâmide: as PACS formam a base, e o Kerala Bank serve como o vértice. As cooperativas de longo prazo formam uma estrutura separada, ancorada pelo Banco Cooperativo Agrícola e de Desenvolvimento Rural do Estado de Kerala, em nível estadual, e apoiada por bancos cooperativos primários de agricultura e desenvolvimento rural nos níveis distrital e municipal.</p>
<p>Na base da estrutura cooperativa de curto prazo estão as PACS, popularmente conhecidas como “sociedades”. Cada aldeia em Kerala tem pelo menos uma PACS, o que as torna as instituições financeiras mais acessíveis e conhecidas nas áreas rurais de Kerala. Essas PACS também formam a espinha dorsal do movimento cooperativo mais amplo do estado. Com 30,3 milhões de membros em 2022, as Sociedades de Ações Cooperativas Públicas (PACS) de Kerala representam a maior adesão na Índia – mais que o dobro da de Bengala Ocidental, o estado com a segunda maior adesão (Nafscob, 2023). A maioria dos membros provém de famílias de pequenos agricultores ou de outras comunidades economicamente e socialmente desfavorecidas. Essa ampla base de membros permitiu que as PACS (Sociedades de Crédito Agrícola Primárias) em Kerala mobilizassem 1,217 bilhão de rúpias indianas em depósitos – mais de dois terços do total de depósitos mantidos pelas PACS em toda a Índia (idem).</p>
<p>O papel fundamental que as PACS de Kerala têm desempenhado no aumento da disponibilidade e acessibilidade ao crédito para os pobres rurais e outros segmentos marginalizados da população, não atendidos adequadamente pelos bancos comerciais, é ilustrado por diversos estudos empíricos realizados em Kerala (George et. al.; Rao et. al., 2013; Asok et. al. 2020). Esses estudos mostram que grupos social e economicamente desfavorecidos percebem as cooperativas como instituições amigas dos bairros e, portanto, como as instituições bancárias mais acessíveis. Metade das famílias de baixa renda na zona rural de Kerala depende do setor cooperativo para obter empréstimos, enquanto 25% recorrem a bancos comerciais. Os estudos também apontam para uma maior dependência de mutuários dalits e adivasis (grupos socialmente marginalizados na Índia) e de famílias extremamente pobres em relação às cooperativas de crédito, quando comparados a outras categorias socioeconômicas, e destacam as barreiras que existem entre as pessoas pobres e os bancos comerciais. Além disso, as características específicas das cooperativas financeiras – familiaridade entre clientes, funcionários e membros do conselho de administração, bem como o direito de qualquer pessoa na localidade de se tornar membro – tornam essas instituições facilmente acessíveis às populações marginalizadas. Formulários complexos, procedimentos complicados e até mesmo o traje e a sofisticação dos funcionários de bancos comerciais muitas vezes impõem um sentimento “estrangeiro” entre os pobres em relação aos bancos comerciais.</p>
<p>O potencial das cooperativas de crédito em Kerala para libertar grupos social e economicamente vulneráveis das garras e da exploração dos agiotas é evidente na história do Mannarkkad Rural Service Cooperative Bank Ltd, localizado no distrito de Palakkad.</p>
<h3 style="margin:2em 0;"><i>Mannarkkad Rural Service Cooperative Bank Ltd</i></h3>
<p>O Banco Cooperativo de Serviços Rurais de Mannarkkad (MRSCB) iniciou suas operações em 1989 com apenas 305 membros e um capital social de 30 mil rúpias indianas. Ao longo das últimas três décadas, o banco fez progressos notáveis em termos de número de membros, depósitos e capital social. Atualmente, o banco possui mais de 16 mil membros, um capital social de 40 milhões de rúpias indianas e um volume de negócios anual de 7,5 bilhões. A instituição mobilizou um total de 2,7 bilhões em depósitos, distribuiu com um total de 2,5 bilhões em empréstimos e obteve lucro consistentemente desde 1994. A cooperativa paga um dividendo de 25% aos seus membros, que é o valor máximo permitido pela Lei das Sociedades Cooperativas de Kerala. Em 2018, o banco lançou um programa de microfinanças chamado Muttathe Mulla (Jasmim no Seu Quintal) para moradores pobres de vilarejos próximos ao banco, a fim de protegê-los de agiotas ilegais e empresas privadas de microfinanças que cobram taxas de juros exorbitantes. Nesse programa, uma pessoa torna-se elegível para empréstimos bancários com taxa de juros reduzida, o que lhe permite liquidar empréstimos antigos contraídos junto a agiotas. O programa foi implementado com o apoio dos grupos comunitários Kudumbashree, que são responsáveis por identificar os necessitados, distribuir os empréstimos e coletar os pagamentos semanais dos mutuários em suas residências. Ao constatar o sucesso desse programa, o Governo de Kerala o adotou em nível estadual e decidiu implementá-lo em todo o estado por meio dos PACS (Sistemas de Ações Cooperativas de Crédito).</p>
<p>Além de fornecer serviços bancários tradicionais, as PACS também estão realizando diversas intervenções para promover o desenvolvimento das economias locais rurais, atuando assim como a espinha dorsal do setor financeiro rural em Kerala. As instituições desenvolvem uma série de atividades, como a distribuição de crédito e insumos a preços subsidiados; o apoio à agricultura, à pecuária e às pequenas indústrias; e a organização de instalações para o processamento, a criação de marcas e a comercialização de produtos locais.</p>
<h3 style="margin:2em 0;"><i>Palliyakkal Service Cooperative Bank Ltd</i></h3>
<p>O Palliyakkal Service Cooperative Bank Ltd (PSCB) foi fundado em 1943 no grama panchayat (conselho) de Ezhikkara, no distrito de Ernakulam. Ezhikkara, uma vila predominantemente agrícola, é conhecida pelo cultivo de arroz pokkali (uma variedade de arroz tolerante ao sal) e pela piscicultura, que são as principais fontes de renda da comunidade local. Durante as primeiras décadas de sua existência, o PSCB se dedicou a atividades bancárias tradicionais, como empréstimos e recebimento de depósitos. No entanto, seu desempenho financeiro se mostrou muito ruim, com uma taxa de recuperação muito baixa. Em 2000, o conselho de administração do PSCB realizou uma análise aprofundada do banco e descobriu que a baixa rentabilidade e as reduzidas oportunidades de emprego no setor agrícola da região eram os principais fatores que contribuíam para o baixo índice de pagamento dos empréstimos. O banco reconheceu a necessidade de aumentar a renda da comunidade local para melhorar sua viabilidade financeira.</p>
<p>Com isso em mente, o PSCB decidiu abordar a crise agrária enfrentada pelos agricultores em sua área. A associação realizou consultas com seus membros e com a comunidade local e desenvolveu um plano estratégico para alcançar a autossuficiência local na produção de alimentos, garantindo a segurança alimentar local e impulsionando o desenvolvimento econômico local. Grupos de ajuda mútua foram formados sob a égide do PSCB em sete setores: cultivo de arroz pokkali, horticultura, floricultura, produção de leite, avicultura, piscicultura e cultivo de plantas medicinais. Para aumentar a produção agrícola, o PSCB fornecia regularmente a esses grupos de agricultores comunitários treinamento, crédito acessível (com juros baixos ou de fácil acesso) e conexões com fornecedores de insumos e com mercados para a venda de seus produtos. O banco também ofereceu aos agricultores consultoria agrícola contínua por meio de sua equipe técnica agrícola, além de financiamento, e introduziu práticas agrícolas inovadoras. Além disso, oferecia instalações para aquisição e comercialização de produtos agrícolas e organizou seu próprio centro de distribuição de insumos, como sementes e fertilizantes orgânicos e equipamentos. O PSCB organizou trabalhadores agrícolas no Exército Verde, um serviço por meio do qual forneceu aos agricultores mão de obra suficiente, e instalou um moinho de arroz pokkali para melhorar o processamento de produtos desse tipo. A organização também promovia mercados onde frutas, verduras, leite e ovos adquiridos dos agricultores eram vendidos a alguns dos preços mais altos de Kerala. Os proprietários de terras da região apoiaram essas iniciativas, permitindo que o banco utilizasse suas terras para agricultura. Atualmente, mais de mil famílias da região estão envolvidas em atividades promovidas pelo banco, cujos esforços conjuntos e conquistas na revitalização da economia local são amplamente reconhecidos.</p>
<p>Nos últimos anos, o banco ganhou diversos prêmios de desempenho no setor cooperativo. No orçamento estadual de 2020, o então Ministro das Finanças de Kerala, TM Thomas Isaac, anunciou a Plataforma Alimentar Virtual de Kerala, que permite a compra de produtos agrícolas diretamente dos agricultores e sua entrega aos consumidores, garantindo não apenas um acesso mais amplo a produtos mais saudáveis, mas também melhores retornos para os agricultores, evitando intermediários. Em reconhecimento às intervenções do PSCB na área, o banco foi selecionado para implementar o programa.</p>
<h3 style="margin:2em 0;"><i>Desenvolvimento cooperativo</i></h3>
<p>A extensa rede de cooperativas de crédito de Kerala recebeu reconhecimento internacional por suas conquistas em impulsionar o desenvolvimento das economias rurais. Livres da rigidez e dos procedimentos complexos que caracterizam os bancos comerciais, esses “bancos populares” desempenham um papel fundamental no êxito de diversos programas estatais. Essas iniciativas incluem o projeto Care Home, que construiu casas mais seguras e melhores para famílias afetadas pelas inundações e deslizamentos de terra de 2018, e os planos de pensão social. Além disso, essas instituições de crédito locais desempenharam um papel fundamental na recuperação do estado após as grandes inundações de 2018 e a pandemia de Covid-19, oferecendo apoio financeiro à população de Kerala. Entre o processo de desenvolvimento a longo prazo e a dinâmica de assistência a curto prazo, essas instituições provaram ser vitais para o progresso em Kerala.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_132532" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-132532" class="size-large wp-image-132532 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Copy-of-dineshbeediworkers-1024x576.jpg" alt="" width="1024" height="576" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Copy-of-dineshbeediworkers-1024x576.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Copy-of-dineshbeediworkers-300x169.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Copy-of-dineshbeediworkers-768x432.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Copy-of-dineshbeediworkers.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-132532" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Kadambari (Young Socialist Artists), <em>Programa de Leitura em voz alta Dinesh Beedi</em>, 2025.</small></p></div>
</div>
<h2 align="left" style="margin:3em 0;">Sociedade Cooperativa Central dos Trabalhadores de Beedi de Kerala Dinesh</h2>
<p class="single-post--content--section-author" align="left">Nitheesh Narayanan e Ashique Ali Thuppilikkat</p>
<p>Em 15 de fevereiro de 1969, a Kerala Dinesh Beedi Workers’ Central Cooperative Society (Dinesh Beedi) foi registrada no Registro Estadual de Sociedades Cooperativas. Inicialmente, a cooperativa estabeleceu uma sociedade central e vinte unidades de produção primária, onde os trabalhadores enrolavam beedi (um tipo de cigarro enrolado à mão). A cooperativa foi formada após um período prolongado de agitação por parte dos trabalhadores, cujas reivindicações por melhores condições de trabalho também foram acolhidas pelos comunistas. Em 1966, os esforços do líder comunista AK Gopalan levaram à aprovação da Lei dos Trabalhadores de Beedi e Charuto (Condições de Emprego) no parlamento indiano, que estabeleceu uma garantia mínima para o bem-estar dos trabalhadores de beedi, incluindo salários dignos e segurança social, e deixou a responsabilidade pela implementação da lei a critério dos governos estaduais. Foi a agitação dos trabalhadores e a aprovação dessa lei que impulsionaram a formação da Dinesh Beedi três anos depois.</p>
<p>Quando os comunistas venceram as eleições estaduais de 1967 em Kerala por uma margem esmagadora, EMS Namboodiripad, o novo ministro-chefe, implementou a Lei dos Trabalhadores de Beedi e Charuto. Os proprietários privados das fábricas de beedi protestaram, e alguns deles – como a Ganesh Beedi – chegaram ao ponto de fechar abruptamente suas fábricas. Eles se recusaram a negociar com os trabalhadores porque queriam que o governo desistisse de implementar a legislação. Quando os trabalhadores dos distritos de Kannur e Kasaragod, no norte de Kerala, começaram a sofrer os impactos sociais desses fechamentos, sindicatos e comunistas se uniram em uma frente única para exigir apoio para eles. “Os trabalhadores só sabiam fabricar beedi, e não era fácil encontrar empregos alternativos para um número tão grande deles”, escreveu GK Panikkar, que mais tarde se tornou presidente da Dinesh Beedi, cargo que ocupou de 1969 a 1996. “A economia do distrito foi abalada”, disse (Kavubayi, 2019). Foi nesse momento que os trabalhadores sindicalizados decidiram organizar uma cooperativa para a produção de beedi.</p>
<p>A formação dessa cooperativa de trabalhadores tornou-se não apenas uma solução para a crise criada pelo fechamento de fábricas e um antídoto para a fuga de capitais, mas também uma expressão da dignidade do trabalho e do espírito de ação coletiva. “O surgimento da Dinesh Beedi não foi tão simples quanto muitos pensam”, disse KP Sahadevan, que liderou a frente unida e ajudou a estabelecer a cooperativa. “Foi o resultado da luta contínua travada pela classe trabalhadora e da militância geral da época” (idem).</p>
<p>A ideia de formar a Dinesh Beedi foi inspirada pela Sociedade Cooperativa dos Trabalhadores do Café da Índia, formada em 1958 por iniciativa de AK Gopalan. Essa experiência anterior deu confiança de que tais projetos geridos pelos trabalhadores poderiam funcionar, o que – juntamente com o apoio do ministério comunista de Kerala ajudou a transformar a ideia dos trabalhadores de beedi em realidade quase uma década depois.</p>
<p>O capital para a Dinesh Beedi veio dos próprios trabalhadores. Em 1969, fixaram o valor das ações em 20 rúpias indianas, mas muitos não tinham condições de comprá-las, já que o salário diário na época era inferior a 3 rúpias indianas. Para resolver esse problema, o governo estadual concedeu um empréstimo de 19 rúpias indianas a cada futuro trabalhador-proprietário. Os trabalhadores reembolsaram o empréstimo por meio de parcelas descontadas de seus salários. Embora o projeto não pudesse inicialmente acomodar os 12 mil trabalhadores que perderam seus empregos, os 3 mil trabalhadores que aderiram inicialmente foram acompanhados por outros mil em um mês. Em outras palavras, um terço dos trabalhadores desempregados da indústria de beedi ingressou na cooperativa. Os trabalhadores de beedi do norte de Malabar, conscientes de sua classe social, deixaram claro que não seriam permitidas divisões entre aqueles que entrassem na cooperativa como trabalhadores-proprietários e aqueles que não o fizessem, e educaram todos os trabalhadores, empregados na cooperativa ou não, sobre o seu funcionamento.</p>
<p>Desde o início, Dinesh Beedi enfrentou diversos desafios. Por exemplo, teve que lutar para ganhar espaço diante da fidelidade de longa data dos clientes às marcas privadas mais antigas. No início, a cooperativa ficou com um estoque de pacotes de beedi não vendidos, e parecia que o novo empreendimento não teria sucesso, apesar dos esforços dos trabalhadores para produzir beedi de alta qualidade. Nesse momento, por meio de discussão coletiva, os trabalhadores decidiram lançar uma campanha em massa para promover o cigarro da Dinesh Beedi em todas as lojas, solicitando que comprassem a marca. Essa campanha em massa gradualmente transformou a Dinesh Beedi na marca preferida entre a classe trabalhadora e o campesinato de Kerala. Em poucos anos, a Dinesh Beedi se tornou uma das marcas de beedi mais populares da Índia e a maior produtora de beedi do sul do país. A cooperativa, que começou com 3 mil trabalhadores em 1969, empregava 42 mil trabalhadores na década de 1980, tornando-se uma das maiores cooperativas de trabalhadores da Ásia. Como resultado, puderam pagar salários e benefícios de seguridade social mais altos do que os oferecidos no setor privado.</p>
<p>No entanto, o objetivo de uma cooperativa não é apenas sobreviver no sistema capitalista, mas usar sua estrutura democrática para expandir os horizontes sociais de seus trabalhadores. Os trabalhadores-proprietários da Dinesh Beedi criaram uma cultura de trabalho digna e eliminaram o sistema de contratos privados, que não respeitava os direitos trabalhistas estabelecidos – uma das principais queixas durante as agitações das décadas de 1950 e 1960. Foi também uma das primeiras empresas a oferecer aos seus trabalhadores férias remuneradas, bônus e auxílio-funeral. No ambiente de trabalho, a Dinesh Beedi incentivava tanto o sindicalismo quanto o debate político, por meio de um programa de “leitura em voz alta”, no qual um trabalhador designado lia importantes obras literárias ou textos sobre assuntos contemporâneos para os demais trabalhadores. A organização também promoveu clubes de arte e esportes nas aldeias para oferecer aos trabalhadores, suas famílias e à comunidade em geral as atividades de lazer necessárias. Essas reformas tiveram um impacto profundo na indústria do beedi, e algumas delas foram inclusive adotadas por empresas privadas. A Dinesh Beedi tornou-se um símbolo de resistência, da unidade e da dignidade dos trabalhadores.</p>
<p>Na década de 1990, uma crise na indústria de beedi ameaçou a existência da Dinesh Beedi. A crise teve origem em diversos fatores, incluindo o surgimento de novas empresas privadas de fabricação de beedi que pagavam salários abaixo do mínimo exigido pelo governo e ofereciam margens de lucro maiores aos varejistas; uma mudança no comportamento dos consumidores mais jovens, que passaram a consumir cigarros em vez de beedi; e as campanhas governamentais antitabaco. Dinesh Beedi apoiou as campanhas governamentais, que ganharam força à medida que a conscientização pública sobre os riscos do tabaco para a saúde aumentava. Devido a essa nova consciência, a cooperativa parou de contratar novos funcionários após 1993 e a demanda do consumidor diminuiu ano após ano. A jornada de trabalho dos funcionários da Dinesh Beedi foi reduzida e muitos deixaram a cooperativa em busca de emprego em outros lugares.</p>
<p>Nesse contexto, os trabalhadores-proprietários da Dinesh Beedi começaram a discutir a diversificação da produção para salvar a cooperativa. Para apoiar essa iniciativa, a Ministra da Indústria de Kerala, Susheela Gopalan, líder do movimento comunista, realizou um <i>workshop </i>estadual sobre diversificação em 30 de agosto de 1996, no qual muitos cientistas contribuíram com suas ideias para os trabalhadores-proprietários da cooperativa. Logo depois, Dinesh Beedi lançou uma série de produtos piloto, como leite de coco (1997) e curry em pó (1998). No final da década de 1990, Dinesh Beedi expandiu seus negócios para cinco novos empreendimentos:</p>
<ol>
<li aria-level="1">A Dinesh Foods fabrica e comercializa especiarias em pó, leite de coco, óleo de coco virgem, sorvete de leite de coco, suco concentrado de frutas, geleia de frutas, xarope e picles, empregando principalmente ex-trabalhadores da indústria de beedi. A cooperativa possui quatro unidades fabris no distrito de Kannur, garantindo emprego durante todo o ano para seus trabalhadores.</li>
<li aria-level="1">O Café Dinesh opera restaurantes cooperativos e serviços de <i>catering </i>em Kannur, Payyannur, Pinarayi e Thalassery. Os produtos da Dinesh Foods estão disponíveis nesses pontos de venda.</li>
<li aria-level="1">A Dinesh Information Technology Systems (DITS), fundada em 1999, fornece suporte de TI para o setor cooperativo em Kerala, incluindo o setor bancário cooperativo. Em 2001, a DITS estabeleceu o Parque de Software Dinesh em Kannur.</li>
<li aria-level="1">O Auditório Dinesh em Kannur aluga um grande salão com capacidade para mil pessoas e está disponível para conferências e casamentos.</li>
<li aria-level="1">A Dinesh Apparel, criada em 2007 em Kannur e Kasaragod, produz roupas para os mercados local e de exportação. A empresa emprega mais de 400 pessoas.</li>
</ol>
<p>Ao diversificar-se e criar a Kerala Dinesh, como ficou mais conhecida no início dos anos 2000, a cooperativa conseguiu prosperar e reduzir sua dependência de um produto prejudicial. A tomada de decisões democrática e a crença na priorização dos interesses dos trabalhadores levaram à criação de um ecossistema cooperativo que continua cativando a imaginação dos trabalhadores em todo o mundo.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_132542" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-132542" class="size-large wp-image-132542 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Food-Processing--1024x922.jpg" alt="" width="1024" height="922" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Food-Processing--1024x922.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Food-Processing--300x270.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Food-Processing--768x691.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Food-Processing-.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-132542" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Vanshika Babbar (Young Socialist Artists), <em>Alimentos Dinesh</em>, 2025</small></p></div>
</div>
<h2 align="left" style="margin:3em 0;">Uma pequena vila constrói sua própria cooperativa de trabalho</h2>
<p class="single-post--content--section-author" align="left">Sarga T. K.</p>
<p>Kodom Belur, um panchayat (administração local) situada numa zona remota do distrito de Kasaragod, no norte de Kerala, era há muito marcada por profundas disparidades socioeconômicas enraizadas no sistema feudal de latifúndios. As condições materiais de seu povo foram moldadas tanto pelas reformas agrárias das décadas que se seguiram à formação de Kerala, em 1956, quanto pelas remessas de migrantes para o Golfo Pérsico, que deram origem a uma nova classe abastada. No entanto, grandes parcelas da população não se beneficiaram nem da reforma agrária nem das remessas, permanecendo desempregadas, socialmente marginalizadas e frustradas pela corrupção desenfreada em projetos financiados com recursos públicos. Os trabalhadores da construção civil frequentemente tinham seus salários negados, enquanto os empreiteiros se apropriavam de fundos públicos sem concluir os projetos.</p>
<p>A construção civil é um setor impulsionado pela demanda. A necessidade de infraestrutura depende do nível de desenvolvimento econômico, e a qualidade da infraestrutura física é distribuída de forma desigual entre as regiões. Os trabalhos de construção nem sempre ocorrem onde há mão de obra disponível, nem a necessidade de mão de obra é constante. Os trabalhadores deslocam-se de um local de trabalho para outro conforme a disponibilidade de contratos, sendo a quantidade de mão de obra e capital necessária dependente da dimensão e do valor de cada projeto. Em cada etapa da construção, são necessárias diferentes habilidades e novos trabalhadores são contratados, dando aos investidores de capital a vantagem durante todo o processo de construção. Em projetos de grande escala, as múltiplas camadas de subcontratação aumentam ainda mais a vulnerabilidade dos trabalhadores. Em suma, as características estruturais da atividade de construção criam amplas condições para a exploração da mão de obra.</p>
<p>Em 1996, o governo da Frente Democrática de Esquerda de Kerala lançou a Campanha Popular pelo Planejamento Descentralizado, que construiu um processo impressionante para descentralizar o planejamento, envolvendo grandes parcelas da população de Kerala em discussões sobre os problemas e o potencial não realizado no estado. Esses esforços mobilizaram a população de Kodom Belur a se organizar contra as construtoras exploradoras e a boicotar as obras públicas contratadas por empresas privadas na região. Eles criaram um grupo de ação que começou a executar contratos públicos de forma independente. No entanto, o atraso técnico, o capital limitado, a pressão de construtoras privadas e a obstrução por parte de funcionários corruptos – especialmente no Departamento de Obras Públicas – minaram seus esforços para exercer o controle popular sobre esses projetos.</p>
<p>Em 1997, um líder local eleito e presidente do comitê permanente do panchayat de Kodom Belur, AC Mathew, mobilizou os membros do grupo de ação para se organizarem na Sociedade Cooperativa de Contratos de Trabalho de Hosdurg. A sociedade tinha como objetivo reunir a mão de obra qualificada de seus membros e arrecadar capital por meio de suas próprias economias para que pudessem concorrer a obras públicas. Em 2004, a sociedade foi renomeada para Sociedade Cooperativa de Contratos de Trabalho de Udayapuram. A sociedade cresceu de 221 membros iniciais para 2.981 atualmente, incluindo 235 membros permanentes da Classe A (aqueles com plenos direitos de voto e participação de longo prazo na cooperativa), dos quais cerca de um quarto pertence à categoria de Tribos Registradas. A Sociedade Udayapuram garante contratos de construção junto ao Departamento de Obras Públicas de Kerala, órgãos de autogoverno locais e outros departamentos governamentais. É propriedade dos seus membros e mantida por eles, recebendo financiamento da National Cooperative Development Corporation, dos bancos cooperativos distritais (atualmente Kerala Bank) e da Kerala Financial Corporation.</p>
<p>O modelo da cooperativa está enraizado na ajuda mútua e visa, em última instância, melhorar a qualidade de vida de seus membros. Antes da criação da Sociedade Udayapuram, as obras de construção eram realizadas principalmente por construtoras privadas. Foi por meio da Sociedade Udayapuram que os trabalhadores conseguiram superar a exploração salarial e a dependência de empreiteiros privados.</p>
<p>O aumento do volume de trabalho levou gradualmente a melhores condições socioeconômicas para seus membros. A partir de 2011, a sociedade começou a empreender projetos de construção de grande escala. A empresa também diversificou suas atividades para incluir a agricultura e outros setores, a fim de estabilizar o crescimento e fazer melhor uso dos recursos humanos disponíveis. Ao criar oportunidades de emprego produtivas, a sociedade tornou-se um motor de crescimento na economia regional.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_132552" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-132552" class="size-large wp-image-132552 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Copy-of-IMG_3392-781x1024.jpg" alt="" width="781" height="1024" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Copy-of-IMG_3392-781x1024.jpg 781w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Copy-of-IMG_3392-229x300.jpg 229w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Copy-of-IMG_3392-768x1007.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Copy-of-IMG_3392-1171x1536.jpg 1171w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Copy-of-IMG_3392.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 781px) 100vw, 781px"><p id="caption-attachment-132552" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Junaina Muhammad (Young Socialist Artists), <em>Kudumbashree</em>, 2025.</small></p></div>
</div>
<h2 style="margin:3em 0;">Kudumbashree</h2>
<p class="single-post--content--section-author">Subin Dennis</p>
<p>Uma das coisas mais impressionantes sobre a Kudumbashree é o seu tamanho gigantesco: 4,8 milhões de mulheres – cerca de um terço das mulheres adultas em Kerala – integram esta rede (Technical Group on Population Projections, 2020).<a href="#_edn8" name="_ednref8"><sup>8</sup></a> Embora a Kudumbashree (que significa “prosperidade da família” em malaiala) tenha começado em maio de 1998 como um programa estadual para erradicar a pobreza entre as mulheres, desde então se tornou uma força transformadora na vida social e política de Kerala. “Em parte um movimento e em parte um programa governamental”, como VK Ramachandran descreve. Hoje, a Kudumbashree está envolvida em uma ampla gama de atividades, desde microfinanças e agricultura coletiva até a fabricação de vestuário e a administração de restaurantes.<a href="#_edn9" name="_ednref9"><sup>9</sup></a> Tornou-se uma presença onipresente na sociedade de Kerala.</p>
<p>Embora a Kudumbashree não seja organizada sob as leis que regem as cooperativas em Kerala, ela é imbuída de um espírito cooperativo – as unidades básicas de sua rede comunitária são controladas e administradas por seus membros de maneira democrática, com base na regra de “uma integrante, um voto”.<a href="#_edn10" name="_ednref10"><sup>10</sup></a> A rede comunitária possui uma estrutura de três níveis:</p>
<ol>
<li aria-level="1">O nível mais baixo é o Grupo de Vizinhança ou NHG (<i>Ayalkkoottam</i> em malaiala), composto entre dez e vinte membros. Todas as mulheres adultas do bairro podem se tornar membras, e há uma ênfase na inclusão de mulheres de setores economicamente e socialmente desfavorecidos da população.</li>
<li aria-level="1">O segundo nível é a Sociedade de Desenvolvimento da Área (ADS, na sigla em inglês), que é formada pela federação de todos os Grupos Nacionais de Habitação (NHG, na sigla em inglês) em uma região da instituição de autogoverno local relevante (LSGI, também conhecida como órgão local ou governo local), como um panchayat ou município.</li>
<li aria-level="1">O terceiro nível é a Sociedade de Desenvolvimento Comunitário (CDS), que é formada pela federação de todas as sociedades de desenvolvimento de área no órgão local.</li>
</ol>
<p>A rede comunitária Kudumbashree é apoiada por uma estrutura governamental chamada Missão Kudumbashree (oficialmente Missão Estadual de Erradicação da Pobreza). A missão é liderada por um conselho administrativo presidido pelo ministro de Estado para os governos locais, um comitê executivo presidido pelo secretário-chefe adjunto do departamento de governo local e um funcionário do governo que atua como diretor executivo. Existem quatorze missões distritais Kudumbashree (uma para cada distrito em Kerala) sob a missão estadual.</p>
<h3 style="margin:2em 0;"><i>Origens</i></h3>
<p>Experiências locais anteriores em desenvolvimento comunitário serviram como precursoras da Kudumbashree (Kutty, 2022).<a href="#_edn11" name="_ednref11"><sup>11</sup></a> Um desses experimentos foi o Programa de Nutrição Baseado na Comunidade, iniciado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) na cidade de Alappuzha, em 1991, com o objetivo de melhorar a saúde e o estado nutricional de mulheres e crianças. O programa estabeleceu sociedades de desenvolvimento comunitário para mulheres em três níveis: NHG, ADS e CDS. Um projeto semelhante foi implementado no distrito de Malappuram a partir de 1994, com uma estrutura de cinco níveis (NHG, ADS, CDS, CDS em nível local e CDS em nível de distrito), embora tenha sido posteriormente reduzido para três, como o de Alappuzha. As sociedades de poupança e crédito, que mobilizavam as pequenas economias das mulheres pobres associadas às sociedades de desenvolvimento comunitário e concediam empréstimos às suas associadas, tornaram-se parte integrante da organização comunitária.</p>
<p>O início da década de 1990 também foi um período em que o Kerala Sasthra Sahitya Parishad (Fórum de Literatura Científica de Kerala, ou KSSP, o maior movimento popular de ciência de Kerala) liderava novas experiências em um modelo participativo de planejamento para o desenvolvimento local. A formação dos NHGs, que participaram no mapeamento e planejamento de recursos a nível local, fez parte dessas experiências. A mais notável delas foi implementada pela KSSP no panchayat do vilarejo de Kalliasseri, no distrito de Kannur, em 1993, onde foram formados quase duzentos NHGs.</p>
<p>Em 1996, o governo da Frente Democrática de Esquerda chegou ao poder em Kerala e lançou a Campanha Popular pelo Planejamento Descentralizado (também conhecida como Campanha do Plano Popular) naquele mesmo ano. A campanha resultou numa descentralização muito maior de fundos e poderes para os governos locais, e os Grupos Nacionais de Saúde (NHGs) foram formados para fortalecer o processo de planejamento descentralizado.<a href="#_edn12" name="_ednref12"><sup>12</sup></a> Como parte da campanha, o governo estadual também tornou obrigatório que os governos locais destinassem 10% de seus fundos de planejamento anual exclusivamente para vários projetos voltados para o avanço social das mulheres.</p>
<p>Todos esses processos e experimentos contribuíram para a criação da Kudumbashree.</p>
<p>Em 1997, uma força-tarefa especial do governo recomendou a criação da Missão Estadual de Erradicação da Pobreza (Missão Kudumbashree). A missão foi anunciada no orçamento do estado de Kerala de 1997-1998 e inaugurada em 17 de maio de 1998. Seu objetivo era erradicar a pobreza absoluta por meio de ações comunitárias conjuntas sob a liderança dos governos locais.</p>
<p>Atualmente, os principais programas da Kudumbashree incluem microfinanças, atividades econômicas geradoras de renda, como agricultura e microempresas, e a implementação de diversas iniciativas de bem-estar e desenvolvimento dos governos locais.<a href="#_edn13" name="_ednref13"><sup>13</sup></a></p>
<p>Todas as integrantes da Kudumbashree fazem parte de seu programa de poupança e crédito. As mulheres dos grupos de bairro se reúnem uma vez por semana e fazem pequenas contribuições para um fundo de poupança, que é então usado para conceder pequenos empréstimos a integrantes que necessitem. A maioria dos grupos de bairro também está ligada a bancos, que lhes concedem empréstimos. Os grupos utilizam esses empréstimos para atividades de subsistência, como agricultura coletiva e criação de microempresas (Kannan &amp; Raveendran, 2017, p. 57).</p>
<h3 style="margin:2em 0;"><i>Agricultura coletiva</i></h3>
<p>Uma das iniciativas mais notáveis da Kudumbashree é a agricultura coletiva (Kuruvilla, 2019). Grupos de quatro a dez membros dos NHG interessados em agricultura são organizados em Grupos de Responsabilidade Conjunta, também conhecidos como grupos <i>sangha krishi</i> [agricultura coletiva], que identificam terras (frequentemente em pousio) adequadas para cultivo em sua aldeia e arredores. Com a ajuda do panchayat e da Missão Distrital Kudumbashree, arrendam as terras dos proprietários e as cultivam. As integrantes do grupo também compartilham suas próprias terras e as cultivam. Grupos ativos de sangha krishi são vinculados a bancos, e empréstimos são disponibilizados a elas com subsídio nos juros. A Missão também apoia os coletivos, fornecendo-lhes máquinas agrícolas, sementes, fertilizantes e pesticidas a preços subsidiados. O departamento estadual de agricultura oferece treinamento periódico e suporte técnico. Fundos provenientes de diversas iniciativas do governo central também são utilizados para apoiar os esforços da agricultura coletiva. Dez mil agricultoras qualificadas dos grupos sangha krishi foram designadas como “agricultoras mestras”, atuando como pessoas de referência que oferecem treinamento aos demais membros dos grupos sangha krishi.</p>
<p>Em 30 de junho de 2025, o número de mulheres agricultoras que fazem parte dos grupos Kudumbashree Sangha Krishi em Kerala atingiu 439.255. Existem 96.177 grupos sangha krishi, que cultivam 21.457 hectares de terra. As principais culturas cultivadas são arroz, vegetais, tubérculos e bananas. Os produtos são primeiramente utilizados para consumo interno das famílias das mulheres agricultoras, e o excedente é então vendido nos mercados das aldeias. Os esforços de agricultura coletiva da Kudumbashree fortaleceram a segurança alimentar das famílias de seus membros e melhoraram seus rendimentos e padrões de vida.</p>
<h3 style="margin:2em 0;"><i>Governos locais</i></h3>
<p>A rede comunitária Kudumbashree desempenha um papel crucial nas iniciativas de desenvolvimento dos governos locais sob o planejamento descentralizado em Kerala. Embora os governos locais sejam responsáveis pelo planejamento e implementação de programas de desenvolvimento econômico, justiça social e combate à pobreza, a missão principal da rede é a erradicação da pobreza.<a href="#_edn14" name="_ednref14"><sup>14</sup></a> Desde o início, esse foco compartilhado significou que os Grupos Nacionais de Saúde (NHG), os Serviços de Desenvolvimento Agrícola (ADS) e os Serviços de Desenvolvimento Comunitário (CDS) da Kudumbashree trabalham em conjunto com os governos locais.</p>
<p>A Kudumbashree atua como agência de implementação de diversos programas de erradicação da pobreza e iniciativas de desenvolvimento do governo estadual. Por exemplo, o programa Kerala Livre de Indigentes, que visa erradicar a pobreza extrema no estado, é implementado pela rede, e os beneficiários do programa são identificados por suas integrantes. O programa tem como objetivo fornecer alimentação, tratamento médico, vestuário, pensões de assistência social, educação, terrenos e habitação para aqueles identificados como indigentes.<a href="#_edn15" name="_ednref15"><sup>15</sup></a></p>
<p>Como parte do processo de planejamento, os governos locais de Kerala estabelecem grupos de trabalho para setores-chave de desenvolvimento, como saúde, educação, redução da pobreza, desenvolvimento de mulheres e crianças e segurança social, sendo obrigatória a inclusão de pelo menos uma representante da Kudumbashree CDS em cada um desses grupos de trabalho.<a href="#_edn16" name="_ednref16"><sup>16</sup></a> Esses grupos de trabalho têm a tarefa de mapear os recursos existentes, analisar as condições locais, explorar o potencial de desenvolvimento e identificar as necessidades da população. Além disso, as necessidades de desenvolvimento da população são avaliadas nas assembleias barriais (conhecidas como <i>grama sabhas</i> nas aldeias e ward sabhas nas vilas e cidades). As integrantes da Kudumbashree são o segmento mais ativo dessas assembleias e desempenham um papel crucial para as manter dinâmicas.</p>
<p>Em fevereiro de 2020, o governo de esquerda de Kerala anunciou a abertura de mil restaurantes, administrados pela Kudumbashree, em que a comida seria oferecida a preços subsidiados (Moiden, 2021). Durante os confinamentos da Covid-19 naquele ano, a rede de cooperativas começou a montar esses restaurantes, batizando-os de “restaurantes populares”. Durante esses meses, a Kudumbashree – juntamente com os governos locais e os sindicatos de funcionários – também esteve envolvida na gestão de cozinhas comunitárias em todo o estado. Em 1º de março de 2025, havia 1.198 restaurantes populares em funcionamento no estado, administrados por 5.104 integrantes da Kudumbashree.<a href="#_edn17" name="_ednref17"><sup>17</sup></a></p>
<h3 style="margin:2em 0;"><i>Microempresas</i></h3>
<p>As microempresas criadas pelas unidades Kudumbashree atuam em uma ampla gama de setores, incluindo a produção de alimentos embalados, vestuário, absorventes higiênicos, guarda-chuvas, bolsas, cerâmica, tapetes, sabonetes e artigos de higiene pessoal. Existem iniciativas que promovem e comercializam produtos agrícolas produzidos por agricultores tribais em vários distritos do estado, garantindo que os produtores recebam rendimentos mais elevados. A rede Home Shop, que leva os produtos das microempresas Kudumbashree diretamente às residências, foi estabelecida em todos os quatorze distritos do estado. Existem também unidades que se dedicam à criação de gado e aves e à exploração de pisciculturas.</p>
<p>As unidades do Kudumbashree administram restaurantes e cantinas em todo o estado; gerenciam estacionamentos em estações ferroviárias; processam óleo de coco, castanha de caju e tamarindo; e produzem salgadinhos, picles e <i>pappadam </i>(petisco fino e crocante à base de lentilha). Administram academias de ginástica, albergues para mulheres, creches, autoescolas, unidades de produção de fibra de coco, unidades de encadernação, gráficas, laboratórios médicos, oficinas de costura e supermercados. Existem também unidades que fabricam lâmpadas LED e produtos eletrônicos.</p>
<p>Existem equipes de construção da Kudumbashree compostas exclusivamente por mulheres, incluindo supervisoras, pedreiras, encanadoras e eletricistas, que foram treinadas pela Missão Kudumbashree com o apoio de várias outras agências. Também possui uma Haritha Karma Sena [Força-Tarefa Verde] que coleta resíduos plásticos de residências e empresas, transporta-os para unidades de trituração para reciclagem e auxilia no gerenciamento de resíduos orgânicos domésticos. O Amrutham Nutrimix, um suplemento em pó à base de cereais oferecido a crianças de seis meses a três anos de idade em creches de Kerala, também é fabricado por 241 unidades da Kudumbashree no estado.</p>
<p>Em 1º de março de 2025, havia um total de 157.097 microempresas Kudumbashree no estado, administradas por 318.265 membros da cooperativa. Dessas, 69.484 empresas pertenciam ao setor de produção, 49.381 ao setor de serviços e 35.646 ao setor de comércio.</p>
<h3 style="margin:2em 0;"><i>Impacto</i></h3>
<p>A Kudumbashree transformou a vida de suas integrantes, ajudando-as a melhorar seus padrões de vida, obter trabalho remunerado fora de casa, fortalecer sua confiança e autoestima e aumentar sua visibilidade na esfera pública. Suas integrantes também se tornaram uma presença importante nas atividades e na liderança dos governos locais do estado.</p>
<p>De acordo com uma pesquisa amostral realizada em 2015 em Kerala pelo Centro Laurie Baker para Estudos de Habitat, em Thiruvananthapuram (doravante Pesquisa LBC), 54,1% das integrantes estavam envolvidas em alguma forma de atividade econômica geradora de renda (Kannan &amp; Ravendran, 2017, p. 99). Isso representou o dobro da taxa de participação no mercado de trabalho de mulheres adultas no estado (26,3%). A pesquisa da LBC também mostrou que, antes de ingressarem no Kudumbashree, 66,1% de suas integrantes se dedicavam exclusivamente ao trabalho doméstico e não estavam envolvidas em nenhuma atividade geradora de renda fora de casa ou nos estudos. Esse número caiu para 37% depois que elas aderiram à cooperativa (Kannan &amp; Ravendran, 2017, p. 130).</p>
<p>Outra pesquisa amostral realizada por Ambika Devi R em 2008-2009, como parte de seu trabalho de doutorado na Universidade de Kerala, mostrou que o Kudumbashree ajudou quase 50% de seus membros a obterem acesso a atividades geradoras de renda (Devi R, 2010, p. 143). Como parte dessa pesquisa, as integrantes do Kudumbashree foram questionadas sobre o grau de controle que tinham sobre sua renda, sendo as opções “em grande medida”, “em certa medida” e “nenhum controle”. 88,8% das mulheres relataram que tinham controle sobre sua renda “em grande medida” depois de ingressarem na Kudumbashree. A porcentagem de mulheres que tinham o mesmo nível de controle sobre sua renda antes de ingressarem na cooperativa era muito menor: 66,7%. Uma pesquisa realizada em 2016 no distrito de Ernakulam por Taramol KG, como parte de seu trabalho de doutorado na Universidade Bharathiar, mostrou que a renda das integrantes aumentou significativamente depois de entrar na rede comunitária (Taramol, 2018, p. 178).</p>
<p>Famílias com integrantes da Kudumbashree também relataram um aumento na aquisição de bens de consumo duráveis e ativos domésticos como resultado da melhoria de sua renda. A pesquisa da LBC de 2015 mostrou que a porcentagem de integrantes que viviam em casas <i>kutcha </i>(feitas de materiais menos duráveis, como barro, folhas, palha e capim) era de 6,7%, uma queda em relação aos 22,9% formarem parte da cooperativa (Kannan &amp; Ravendran, 2017, p. 175). Além disso, as integrantes relataram que o aumento de sua renda as ajudou a proporcionar educação superior aos filhos, garantir melhor acesso a cuidados de saúde e melhorar suas casas ou construir novas.</p>
<p>Uma parcela significativa dessas mulheres (27,4%, segundo o estudo de Ambika Devi; 36%, segundo a pesquisa da LBC) relataram que suas habilidades de oratória melhoraram desde que entraram para a rede. Uma proporção significativa de mulheres (38,4%, de acordo com a Pesquisa LBC) adquiriu a confiança e as habilidades necessárias para exigir serviços ou instalações de órgãos governamentais (Devi R, 2010, p. 195-196). Ganhos semelhantes foram obtidos em sua confiança para participar e expressar suas opiniões em reuniões, bem como para participar de funções do governo local. A natureza coletiva das atividades da Kudumbashree também contribuiu para aprimorar o espírito e a prática da ajuda mútua entre as integrantes (Kannan &amp; Ravendran, 2017, p. 2065).</p>
<p>Como mencionado anteriormente, essas mulheres estão entre os setores mais ativos nas atividades dos governos locais em Kerala. Isso se traduziu diretamente em maior representação entre os eleitos para as instituições de autogoverno local (LSGI): das 21.854 pessoas eleitas como membros das LSGI em Kerala nas eleições para o governo local de 2020, 7.058 eram mulheres ativas na Kudumbashree (Newsclick, 2020).</p>
<p>Em resumo, a Kudumbashree se tornou um elemento vital da vida social e política de Kerala. Isso ajudou as mulheres – particularmente aquelas de origens socioeconômicas desfavorecidas – a melhorarem suas condições de vida. O programa Kudumbashree elevou o <i>status </i>dessas mulheres dentro de suas famílias e permitiu que elas participassem de forma mais efetiva na esfera pública, inclusive na arena política. Não é de surpreender que tenha sido considerado um dos “maiores programas de justiça de gênero e redução da pobreza do mundo” (Sainath, 2018).</p>
<h3 class="single-post--content--citations-title" align="left" style="margin:2em 0;">Notas</h3>
<div class="single-post--content--citations-block">
<p><a href="#_ednref1" name="_edn1"><sup>1</sup></a> Em 1964, o Partido Comunista da Índia se dividiu no Partido Comunista da Índia (Marxista), ou PCI(M), e no Partido Comunista da Índia (PCI). O governo de Kerala foi liderado pelo PCI(M) e incluiu o PCI e outros partidos de esquerda e democráticos como parceiros de coligação nos seguintes períodos: 1967-1969, 1980-1981, 1996-2001, 2006-2011 e 2016–presente. O período de 1969 a 1977 foi marcado por um governo de coligação que incluía o PCI e o Congresso Nacional Indiano como principais parceiros; o PCI(M) estava na oposição.</p>
<p><a href="#_ednref2" name="_edn2"><sup>2</sup></a> Para mais informações sobre a Comuna de Paris, ver: Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, <i>Comuna de Paris 150</i>, Nova Deli: LeftWord, 2021. Disponível em: <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/text-paris-commune/">https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/text-paris-commune/</a>.</p>
<p><a href="#_ednref3" name="_edn3"><sup>3</sup></a> Beedi é um tipo de cigarro enrolado à mão.</p>
<p><a href="#_ednref4" name="_edn4"><sup>4</sup></a> Na Índia, o governo possui “listas” de castas e tribos que são as mais desfavorecidas socioeconomicamente ou historicamente oprimidas. As pessoas pertencentes às Castas e Tribos Registradas têm direito a certos direitos e benefícios.</p>
<p><a href="#_ednref5" name="_edn5"><sup>5</sup></a>Um <em>panchayat</em> é um órgão de autogoverno local na Índia, responsável principalmente pela governança e desenvolvimento em áreas rurais. Opera ao nível da aldeia, do bloco ou do distrito, como parte do sistema administrativo descentralizado da Índia.</p>
<p><a href="#_ednref6" name="_edn6"><sup>6</sup></a>A fase da Segunda Guerra Mundial posterior à entrada da União Soviética na guerra é conhecida como Guerra Popular.</p>
<p><a href="#_ednref7" name="_edn7"><sup>7</sup></a><i>Panam payattu </i>e <i>kurikkalyaanam </i>são métodos populares em áreas rurais de Malabar para arrecadar dinheiro para construir casas, pagar casamentos, enviar filhos para trabalhar na região do Golfo Pérsico e atender a outras necessidades financeiras. A pessoa necessitada organiza um evento no qual serve chá e lanches aos participantes, que contribuem com dinheiro. O organizador do evento devolve o dinheiro em outro evento organizado por outra pessoa, e assim por diante.</p>
<p><a href="#_ednref8" name="_edn8"><sup>8</sup></a> Ver também a aba IBCB-Organisation na página da Kudumbashree: <a href="https://kudumbashree.org/pages/518">https://kudumbashree.org/pages/518</a>.</p>
<p><a href="#_ednref9" name="_edn9"><sup>9</sup></a>Entrevista com VK Ramachandran, vice-presidente do Conselho de Planejamento do Estado de Kerala, concedida a Subin Dennis em 2020.</p>
<p><a href="#_ednref10" name="_edn10"><sup>10</sup></a> Kudumbashree é um programa iniciado pelo estado que tem como núcleo uma rede comunitária. A rede comunitária, também conhecida como Kudumbashree, é administrada por seus membros com base na regra de “um membro, um voto”. Ao contrário das empresas do setor privado, em que os direitos de voto dos acionistas são proporcionais ao número de ações que possuem, as cooperativas defendem o princípio de “um membro, um voto”. Segundo a Aliança Cooperativa Internacional, “as cooperativas unem as pessoas de forma democrática e igualitária. Independentemente de os membros serem clientes, funcionários, usuários ou moradores, as cooperativas são administradas democraticamente pela regra de “um membro, um voto”. Os membros compartilham direitos de voto iguais, independentemente da quantidade de capital que investem na empresa”. (“O que é uma cooperativa?”, Aliança Cooperativa Internacional, <a href="https://ica.coop/en/cooperatives/what-is-a-cooperative">https://ica.coop/en/cooperatives/what-is-a-cooperative</a>).</p>
<p><a href="#_ednref11" name="_edn11"><sup>11</sup></a> Ver a seção “History and Evolution” no site da Kudumbashree em: <a href="https://kudumbashree.org/pages/178">https://kudumbashree.org/pages/178</a>.</p>
<p><a href="#_ednref12" name="_edn12"><sup>12</sup></a>Em 1950, o Governo da Índia criou a Comissão de Planejamento para liderar o processo de planejamento econômico para o desenvolvimento do país. Permaneceu em vigor até 2014, quando foi dissolvido pelo governo após a aceleração das reformas neoliberais. O estado de Kerala, no entanto, continua tendo um conselho de planejamento que formula planos de desenvolvimento em nível estadual. Com o lançamento da Campanha Popular pelo Planejamento Descentralizado (ou campanha Plano Popular), fundos e poderes significativos foram transferidos do governo estadual para os governos locais, cabendo a estes últimos elaborar seus próprios planos de desenvolvimento.</p>
<p><a href="#_ednref13" name="_edn13"><sup>13</sup></a>Ver a seção “Overview” no site da Kudumbashree em: <a href="https://www.kudumbashree.org/pages/7">https://www.kudumbashree.org/pages/7</a>; ver a aba “The Mission Setting Up”.</p>
<p><a href="#_ednref14" name="_edn14"><sup>14</sup></a>Manu Sankar em entrevista a Subin Dennis em 22 ago. 2022.</p>
<p><a href="#_ednref15" name="_edn15"><sup>15</sup></a>Manu Sankar em entrevista a Subin Dennis em 22 ago. 2022.</p>
<p><a href="#_ednref16" name="_edn16"><sup>16</sup></a>Manu Sankar, em entrevista a Subin Dennis em 22 ago. 2022.</p>
<p><a href="#_ednref17" name="_edn17"><sup>17</sup></a>Ver seção “Data on Kudumbashree) em <a href="https://kudumbashree.org/pages/518">https://kudumbashree.org/pages/518</a>. Ver a aba NFL-ME e role para baixo para encontrar “Janakeeya Hotels” [Restaurantes do Povo]). Outros dados contidos nessa seção foram retirados da mesma página. Para mais informações sobre a resposta de Kerala à pandemia de Covid-19, ver: Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, <i>CoronaShock e Socialismo</i>, Estudos sobre CoronaShock, 8 jul. 2020. Disponível em: <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/estudos-3-coronachoque-e-socialismo/">https://dev.thetricontinental.org/studies-3-coronashock-and-socialism/</a>.</p>
</div>
<h3 class="single-post--content--citations-title" align="justify" style="margin:2em 0;">Referências bibliográficas</h3>
<div class="single-post--content--citations-block">
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<p>GOSWAMI, Roopak. ‘Small Tea Growers Report Looks at Farming Issues in India, Better Pricing Models, the Future of Tea’, World Tea News, 7 jun. 2023. Disponível em: <a href="https://www.worldteanews.com/origins/small-tea-growers-report-looks-farming-issues-india-better-pricing-models-future-tea">https://www.worldteanews.com/origins/small-tea-growers-report-looks-farming-issues-india-better-pricing-models-future-tea</a>.</p>
<p>GOVERNO DE KERALA. “Declaração de Números 2025”, Departamento de Cooperação, 31 mar. 2025. Disponível em: <a href="https://cooperation.kerala.gov.in/wp-content/uploads/2019/04/Number-statement-2025.pdf">https://cooperation.kerala.gov.in/wp-content/uploads/2019/04/Number-statement-2025.pdf</a>.</p>
<p>HARNECKER, Camila Piñeiro. Cooperatives and Socialism: A View from Cuba (New York: Springer, 2012).</p>
<p>GOVERNO DE KERALA. Economic Review 2024, v. 2. Thiruvananthapuram: Kerala State Planning Board, jan. 2025. Disponível em: <a href="http://www.niyamasabha.org/codes/15kla/session_13/Economic%20Review/Economic%20Review_2024%20Eng_Vol%202.pdf">http://www.niyamasabha.org/codes/15kla/session_13/Economic%20Review/Economic%20Review_2024%20Eng_Vol%202.pdf</a>.</p>
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<p>KAVUBAYI, Narayanan (ed.) Kerala Dinesh Beedi Golden Jubilee Souvenir, 2019, Kannur,</p>
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<p>MARX, Karl. “A Guerra Civil na França”, em Obras Completas, v. 22, Progress Publishers, 1986.</p>
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<p>RAMACHANDRAN, VK. (Vice-Presidente do Conselho de Planejamento do Estado de Kerala), entrevistado por Subin Dennis, 2020.</p>
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<p>SARKAR, Kingshuk. “Trends and Price Formation Mechanism in Indian Tea Auctions”, NRPPD Discussion Paper 23, 2013. Disponível em: <a href="https://cds.edu/wp-content/uploads/2021/02/NRPPD23.pdf">https://cds.edu/wp-content/uploads/2021/02/NRPPD23.pdf</a>.</p>
<p>SOLIDARIDAD NETWORK ASIA LIMITED. Policy Report to Support Development of Small Tea Growers in India, fev. 2023.</p>
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<p>THE HINDU. “Kozhikode ULCCS a Role Model for Labour Cooperatives, Says UN Official”, The Hindu, 19 set. 2013. Disponível em: <a href="https://www.thehindu.com/news/cities/kozhikode/kozhikode-ulccs-a-role-model-for-labour-cooperatives-says-un-official/article5144802.ece">https://www.thehindu.com/news/cities/kozhikode/kozhikode-ulccs-a-role-model-for-labour-cooperatives-says-un-official/article5144802.ece</a>.</p>
<p>THUPPILIKKAT, Ashique Ali. “Uma breve história do movimento cooperativo no Norte de Malabar, Kerala”, Economic and Political Weekly 59, n. 30, 3 ago. 2024.</p>
</div>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Servir ao povo: a erradicação da pobreza extrema na China</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/estudos-1-socialismo-em-construcao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Tech Tricontinental]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 23 Jul 2021 07:00:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Socialismo em construção]]></category>
		<category><![CDATA[redução da pobreza direcionada]]></category>
		<category><![CDATA[poverty eradication]]></category>
		<category><![CDATA[miseria]]></category>
		<category><![CDATA[Xi Jinping]]></category>
		<category><![CDATA[China]]></category>
		<category><![CDATA[mao]]></category>
		<category><![CDATA[fome]]></category>
		<category><![CDATA[mao zedong]]></category>
		<category><![CDATA[pobreza]]></category>
		<category><![CDATA[Targeted Poverty Alleviation]]></category>
		<category><![CDATA[Famine]]></category>
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		<category><![CDATA[Hunger]]></category>
		<category><![CDATA[redução da pobreza]]></category>
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		<category><![CDATA[erradicação da pobreza]]></category>
		<category><![CDATA[Poverty alleviation]]></category>
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					<description><![CDATA[Apoiado por poderosos movimentos da classe trabalhadora e camponesa, bem como por governos de esquerda que estiveram no poder intermitentemente, o movimento de cooperativas de Kerala deu origem a milhares de cooperativas, cada uma delas uma incubadora de futuros possíveis para além do capitalismo. &nbsp;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_45800" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-45800" class="wp-image-45800 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/00-Cover-image-e1626995654761.jpg" alt="Women who migrated to the Wangjia community participate in local activities at the community centre in Tongren City, Guizhou Province, April 2021. Credit: Xiang Wang" width="949" height="820" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/00-Cover-image-e1626995654761.jpg 949w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/00-Cover-image-e1626995654761-300x259.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/00-Cover-image-e1626995654761-768x664.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 949px) 100vw, 949px"><p id="caption-attachment-45800" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #ba2025;">Mulheres que migraram para a comunidade de Wangjia participam de atividades locais no centro comunitário, cidade de Tongren, província de Guizhou, abril de 2021.</span></small></p>
<p></p></div>
<p> </p>
<p>Estas fotos foram tiradas durante uma viagem à província de Guizhou na qual visitamos pessoas e lugares vinculados com o programa de redução da pobreza direcionado. As linhas desenhadas que se estendem sobre as imagens fazem lembrar esboços de arquitetura. O socialismo, ao fim e ao cabo, é um trabalho de construção constante. Essa linguagem visual faz referência ao nome da série de publicações sobre o socialismo em construção que este estudo inaugura.</p>
<hr>
<h3 id="content" style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Sumário</strong></span></h3>
<ul>
<li><span style="text-decoration: underline;"><a href="#part1_introduction"><span style="color: #ba2025; text-decoration: underline;"><strong>Parte I: Introdução</strong></span></a></span></li>
<li><span style="text-decoration: underline;"><a href="#part2_historical_context"><span style="color: #ba2025; text-decoration: underline;"><strong>Parte II: Contexto histórico</strong></span></a></span></li>
<li><span style="text-decoration: underline;"><a href="#part3_poverty-alleviation-theory-and-practice"><span style="color: #ba2025; text-decoration: underline;"><strong>Parte III: Teoria e prática da redução da pobreza</strong></span></a></span></li>
<li><span style="text-decoration: underline;"><a href="#part4_targeted-poverty-alleviation"><span style="color: #ba2025; text-decoration: underline;"><strong>Parte IV: Redução da Pobreza Direcionada</strong></span></a></span></li>
<li><span style="text-decoration: underline;"><a href="#part5_case-studies"><span style="color: #ba2025; text-decoration: underline;"><strong>Parte V: Estudos de caso</strong></span></a></span></li>
<li><span style="text-decoration: underline;"><a href="#part6_challenges-and-horizons"><span style="color: #ba2025; text-decoration: underline;"><strong>Parte VI: Desafios e horizontes</strong></span></a></span></li>
<li><span style="text-decoration: underline;"><a href="#Epilogue"><span style="color: #ba2025; text-decoration: underline;"><strong>Epílogo</strong></span></a></span></li>
</ul>
<hr>
<div id="attachment_45811" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-45811" class="size-full wp-image-45811 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/1-Introduction-2.jpg" alt="Grandma Peng Lanhua in her two-hundred-year-old home, renovated and serviced with electricity, running water, and satellite television in the village of Danyang, Guizhou Province, April 2021. Credit: Xiang Wang" width="950" height="1052" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/1-Introduction-2.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/1-Introduction-2-271x300.jpg 271w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/1-Introduction-2-925x1024.jpg 925w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/1-Introduction-2-768x850.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-45811" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #ba2025;">A avó Peng Lahhua em sua casa de 200 anos de idade, renovada e agora com eletricidade, água corrente e televisão satelital, no vilarejo de Danyang, província de Guizhou, abril de 2021. </span></small></p>
<p></p></div>
<p> </p>
<h2 id="part1_introduction" style="margin:3em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Parte I: Introdução</strong> <a style="color: #ba2025;" href="#content">⤴</a></span></h2>
<div style="background-color: #fefcf7;">
<div style="padding-left: 40px; padding-right: 40px; padding-bottom: 40px;">
<p><span style="color: #ba2025;">A avó Peng Lanhua mora em uma casa de madeira frágil de 200 anos, em um vilarejo remoto da província de Guizhou. Nascida em 1935, ela cresceu em uma China que estava sob ocupação japonesa e entrou na adolescência durante a Revolução.</span></p>
<p><span style="color: #ba2025;">Peng é uma das poucas pessoas em sua comunidade que não quis se mudar durante o programa de redução da pobreza do governo, quando sua casa foi designada como insegura para morar. Desde 2013, outras 86 famílias, cujas casas foram consideradas muito perigosas ou aquelas para quem não foi possível gerar empregos localmente, foram transferidas para a comunidade recém-construída a uma hora de carro. Mas Peng tem seus motivos para não se mudar. Ela tem 86 anos e convive com Alzheimer. Além de um seguro de baixa renda e uma modesta aposentadoria, ela recebe uma renda suplementar de uma nova empresa de toranja que arrendou as terras de sua família. A empresa, cujos dividendos são distribuídos a moradores como Peng como parte dos esforços nacionais de combate à pobreza, foi criada para desenvolver a indústria agrícola local. A filha e o genro de Peng moram na casa ao lado, em um imóvel de dois andares construído com subsídios do governo. Seus filhos estão empregados. Em outras palavras, suas necessidades básicas estão atendidas e a mudança é voluntária.</span></p>
<p><span style="color: #ba2025;">“Não podemos forçar ninguém a se mudar, mas ainda temos que fornecer os ‘dois seguros e três garantias’”, diz Liu Yuanxue, o quadro do Partido enviado para viver na aldeia com o objetivo de contribuir para que cada família saia da pobreza extrema. Ele se refere à garantia de moradia segura do programa governamental de redução da pobreza, saúde e educação, além de alimentação e vestimenta. Liu visita Peng mensalmente, como faz com todas as famílias do vilarejo. Por meio dessas visitas, ele conhece os detalhes da vida de cada pessoa.</span></p>
<p><span style="color: #ba2025;">“O chão está muito bagunçado”, diz Liu, repreendendo de brincadeira a nora de Peng quando ele entra na grande casa de madeira. Ela também é membro do Partido Comunista da China. Na parede, um pôster do presidente Mao e, ao lado dele, o presidente Xi Jinping, homenageia dois líderes socialistas da China que marcaram o curso da vida de Peng. Abaixo de seus retratos, há uma mesa velha com um jarro de água de terracota empoeirado e um roteador de internet piscando uma luz verde. Uma série de cabos e fios ethernet se estendem por diferentes cantos da casa (cada moradia tem acesso gratuito à internet e televisão por satélite CCTV por três anos, antes que uma taxa subsidiada seja estabelecida). Há lâmpadas economizadoras de energia em cada quarto e uma antena parabólica instalada ao lado da roupa pendurada de Peng. Uma extensão da casa foi construída com um banheiro e chuveiro equipados com água corrente e aquecimento solar, o chão de barro coberto com concreto. Como disse Lênin, “o comunismo é o poder soviético mais a eletrificação de todo o país”. O fortalecimento do Partido no campo e a satisfação das necessidades concretas da população têm sido os pilares da luta da China contra a pobreza. A visita de Liu à casa de Peng é apenas uma cena cotidiana nesse processo.</span></p>
<p><span style="color: #ba2025;">O fato de Peng viver nessa casa por meio século também é um produto da Revolução; na década de 1970, durante a Revolução Cultural, a casa foi confiscada de um rico senhorio e redistribuída para três famílias de camponeses pobres, incluindo a de Peng. O fato de quadros como Liu a visitarem mensalmente, de sua casa ter ficado segura para morar com as recentes reformas e de que existe internet para conectar as vilas rurais mais pobres com o mundo é uma continuação dessa história revolucionária. Afinal, garantir que os trabalhadores e camponeses do país, como Peng, tenham moradia, alimentação, roupas e cuidados é parte da longa luta da China contra a pobreza e uma etapa fundamental na construção de uma sociedade socialista.</span></p>
</div>
</div>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>A maior conquista antipobreza da história</strong></span></h3>
<p>Em 25 de fevereiro de 2021, o governo anunciou que a pobreza extrema havia sido abolida na China, um país de 1,4 bilhão de habitantes. Essa vitória histórica é o culminar de um processo de sete décadas, que começou com a Revolução Chinesa de 1949. As primeiras décadas de construção socialista lançaram as bases que foram aprofundadas durante o período de reforma e abertura. Durante esse tempo, 850 milhões de chineses foram retirados e se retiraram da pobreza; ou seja, 70% da redução total da pobreza no mundo ocorreu na China. Na fase “direcionada” mais recente, que começou em 2013, o governo gastou 1,6 trilhão de yuans (246 bilhões de dólares) para construir 1,1 milhão de quilômetros de estradas rurais, levar acesso à internet a 98% dos vilarejos pobres do país,  reformar casas para 25,68 milhões de pessoas e construir novas moradias para outras 9,6 milhões. Desde 2013, milhões de pessoas, empresas estatais e privadas e amplos setores da sociedade foram mobilizados para garantir que – apesar da pandemia – os 98,99 milhões de pessoas restantes da China em 832 condados e 128 mil vilarejos saíssem da pobreza absoluta<a href="#_ftn1" name="_ftnref1"><sup>[1]</sup></a>.</p>
<p>Em 2019, quando a China entrou nos últimos estágios de seu programa de erradicação da pobreza, o secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, disse: “Cada vez que visito a China, fico surpreso com a velocidade da mudança e do progresso. Criou-se uma das economias mais dinâmicas do mundo, ao mesmo tempo ajudando mais de 800 milhões de pessoas a saírem da pobreza – a maior conquista antipobreza da história”<a href="#_ftn2" name="_ftnref2"><sup>[2]</sup></a>.</p>
<p>Embora a China tenha lutado contra a pobreza, o resto do mundo, especialmente o Sul Global, experimentou uma piora. As agências das Nações Unidas relatam uma grande reversão na eliminação da pobreza fora da China: em 2020, mais de 71 milhões de pessoas – a maioria das quais estão na África Subsaariana e no sul da Ásia – tiveram piora em suas condições de vida, marcando o primeiro aumento global da pobreza desde 1998<a href="#_ftn3" name="_ftnref3"><sup>[3]</sup></a>. Estima-se que a crise econômica acelerada pela pandemia levará um total de 251 milhões de pessoas à pobreza extrema até 2030, elevando o número total para mais de um bilhão<a href="#_ftn4" name="_ftnref4"><sup>[4]</sup></a>. O fato de a China ter tido êxito no combate à pobreza em uma época de tal reversão não é um milagre nem uma coincidência, mas sim uma prova de seu compromisso socialista. Isso contrasta com a indiferença das sociedades capitalistas às necessidades dos pobres e das classes trabalhadoras, cujas condições só pioraram durante a pandemia.</p>
<p>Este estudo analisa o processo pelo qual a China conseguiu erradicar a pobreza extrema como uma etapa fundamental na construção do socialismo. Com base em uma série de fontes chinesas e inglesas, o estudo é dividido em cinco partes principais: contexto histórico, teoria e prática de redução da pobreza, redução da pobreza direcionada, estudos de caso e os desafios e horizontes futuros. O Instituto Tricontinental de Pesquisa Social também conduziu entrevistas com importantes especialistas chineses e internacionais e fez visitas de campo a locais de redução da pobreza na província de Guizhou, onde os últimos nove condados que saíram da pobreza estão localizados. Lá, visitamos vilarejos pobres, projetos industriais e locais de realocação. Conversamos com camponeses, quadros do Partido, empresários, trabalhadores, jovens, mulheres e idosos que foram diretamente impactados e participaram da luta contra a pobreza. Tecidas ao longo do texto, suas histórias são apenas algumas entre as milhões que contribuíram para esse processo histórico.</p>
<p> </p>
<div id="attachment_45822" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-45822" class="size-full wp-image-45822 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/2-Historical-Context.jpg" alt="A mural of Mao Zedong displayed in a rural village and local ‘red tourism’ attraction in Wanshan District, Guizhou Province, April 2021. Credit: Xiang Wang" width="950" height="1052" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/2-Historical-Context.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/2-Historical-Context-271x300.jpg 271w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/2-Historical-Context-925x1024.jpg 925w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/2-Historical-Context-768x850.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-45822" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #ba2025;">Um mural de Mao Zedong em um vilarejo rural e uma atração local do “turismo vermelho” no distrito de Wanshan, província de Guizhou, abril de 2021.</span></small></p>
<p></p></div>
<p> </p>
<h2 id="part2_historical_context" style="margin:3em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Parte II: contexto histórico</strong><a style="color: #ba2025;" href="#content"> ⤴</a></span></h2>
<p><strong> </strong></p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Atendendo às crescentes necessidades das pessoas por uma vida melhor</strong></span></h3>
<div style="background-color: #fefcf7;">
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-45943 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote.png" alt="" width="950" height="64" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-300x20.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-768x52.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<p style="padding-left: 40px; padding-right: 40px;"><span style="color: #ba2025;">“Minha mãe tem duas filhas e um filho, e sete netos. Ela trabalhou muito para apoiar a educação de seus três filhos. Ela própria só conseguiu terminar o segundo ano da escola primária e logo depois começou a trabalhar vendendo verduras, saindo muito cedo pela manhã e voltando tarde da noite. A vida era muito difícil quando eu era jovem. Comíamos milho o tempo todo e nunca comíamos arroz. Agora a mãe está aqui, preparando comida para os filhos, comprando mantimentos e dando suas caminhadas de vez em quando. Ficaríamos preocupados se ela ficasse sozinha em sua antiga casa. Agora é muito mais fácil para ela voltar, pois leva apenas duas ou três horas. Ela viaja de volta para sua antiga casa em ocasiões especiais. Infelizmente, meu pai, que nunca tinha estado aqui, faleceu alguns anos atrás. Sua maior esperança era vir aqui, mas ele morreu de hemorragia cerebral”.</span></p>
<p style="padding-left: 40px; padding-right: 40px;"><span style="color: #ba2025;">– He Ying, diretora da Federação de mulheres de toda a China [All-China Women’s Federation] e vice-secretária do braço do Partido na comunidade Wangjia, distrito de Wanshan, cidade de Tongren.</span></p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-45932 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-%E2%80%93-1.png" alt="" width="950" height="51" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1-300x16.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1-768x41.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
</div>
<p>He Ying é integrante realocada da comunidade Wangjia, onde se tornou líder do Partido. Sua mãe tem 69 anos, apenas três anos mais jovem do que a Revolução Chinesa. Sua vida traça a luta multigeracional contra a pobreza que o país empreendeu. Dias antes da proclamação oficial da República Popular da China (RPC) em 1 de outubro de 1949, o presidente Mao Zedong disse: “o povo chinês, compreendendo um quarto da humanidade, agora se levantou”<a href="#_ftn5" name="_ftnref5"><sup>[5]</sup></a>. A libertação nacional da China veio após o que é conhecido como um “século de humilhação” nas mãos das potências coloniais europeias, uma guerra civil sangrenta com as forças nacionalistas e 14 anos de resistência contra o fascismo japonês, que ceifou 35 milhões de vidas chinesas<a href="#_ftn6" name="_ftnref6"><sup>[6]</sup></a>. Internamente, o Partido Nacionalista, os senhores da guerra e os senhores feudais priorizavam seus interesses de classe em detrimento do bem-estar do povo e do país.</p>
<p>Durante esse período, a China deixaria de ser a maior economia global para se tornar um dos países mais pobres do mundo. Representando um terço da economia mundial no início do século 19, o PIB do país cairia para menos de 5% com a fundação da RPC. Em 1950, apenas dois países asiáticos e oito africanos tinham PIBs per capita mais baixos do que a China: Mianmar, Mongólia, Botswana, Burundi, Etiópia, Guiné, Guiné-Bissau, Lesoto, Malawi e Tanzânia<a href="#_ftn7" name="_ftnref7"><sup>[7]</sup></a>. Em outras palavras, a RPC era a 11ª nação mais pobre do mundo na época da sua fundação. Quando os comunistas chegaram ao poder, eles enfrentaram o desafio de reverter o declínio econômico e social de longo prazo do país, começando com a satisfação das necessidades básicas dos camponeses empobrecidos e da classe trabalhadora.</p>
<p>De 1949 a 1976, sob a liderança de Mao, o governo chinês se concentrou em melhorar a qualidade de vida de sua população, que havia crescido de 542 para 937 milhões de pessoas. Nos primeiros anos desse período, a pobreza foi enfrentada por meio da passagem da propriedade privada dos meios de produção para o setor público, e da redistribuição da terra dos proprietários e senhores da guerra para os camponeses pobres. Afinal, a pobreza é uma questão de luta de classes. Em 1956, cerca de 90% dos camponeses do país tinham terra para cultivar, 100 milhões de camponeses foram organizados em cooperativas agrícolas e a indústria privada foi efetivamente abolida. As comunas populares organizaram a propriedade coletiva da terra e dos meios de produção e distribuíram a riqueza coletiva, permitindo que o excedente agrícola fosse investido no desenvolvimento industrial e no bem-estar social<a href="#_ftn8" name="_ftnref8"><sup>[8]</sup></a>.</p>
<p>No período de pré-reforma de 29 anos (1949-1978), a expectativa de vida da China aumentou 32 anos. Em outras palavras, para cada ano após a Revolução, mais de um ano foi adicionado à vida de um chinês médio. Em 1949, a população do país era 80% analfabeta, e em menos de três décadas o analfabetismo foi reduzido para 16,4% nas áreas urbanas e 34,7% nas áreas rurais; a matrícula de crianças em idade escolar aumentou de 20% para 90%; e o número de hospitais triplicou. A descentralização dos sistemas de saúde e educação dos centros urbanos da elite para as áreas rurais pobres foi fundamental. Esse processo incluiu o estabelecimento de escolas de ensino médio para trabalhadores e camponeses e o envio de milhões de agentes de saúde para o campo. Avanços significativos foram feitos na participação das mulheres na sociedade, desde a abolição dos costumes do casamento patriarcal até o aumento do acesso à educação, cuidados de saúde e creches<a href="#_ftn9" name="_ftnref9"><sup>[9]</sup></a>. De 1952 a 1977, a taxa média de crescimento anual da produção industrial foi de 11,3%<a href="#_ftn10" name="_ftnref10"><sup>[10]</sup></a>. Em termos de capacidade produtiva e desenvolvimento tecnológico, a China saiu da situação de não ser capaz de fabricar um carro internamente em 1949 para lançar seu primeiro satélite no espaço em 1970. O satélite Dongfanghong (que significa “o Oriente é Vermelho”) tocou a canção revolucionária homônima em loop durante a órbita de 28 dias<a href="#_ftn11" name="_ftnref11"><sup>[11]</sup></a>. Os ganhos industriais, econômicos e sociais na transição para o socialismo sob Mao formaram a base do período pós-1978.</p>
<p>Na década de 1970, ficou claro que a economia da China exigia uma infusão de tecnologia e capital, e que precisava romper seu isolamento do mercado mundial. Como o líder chinês Deng Xiaoping escreveu mais tarde, “Pauperismo não é socialismo, muito menos comunismo”<a href="#_ftn12" name="_ftnref12"><sup>[12]</sup></a>. O governo introduziu uma série de reformas, incluindo a abertura da economia ao mercado mundial, mas – porque a China permaneceu um país socialista – o setor público permaneceu dominante e livre de controle estrangeiro.</p>
<p>Durante esse período, a economia da China cresceu em um ritmo sustentado nunca antes visto na história da humanidade. Entre 1978 e 2017, a economia chinesa se expandiu a uma taxa média de 9,5% ao ano, crescendo quase 35 vezes<a href="#_ftn13" name="_ftnref13"><sup>[13]</sup></a>. O crescimento econômico, entretanto, não é um fim em si mesmo, mas um meio para melhorar a vida das pessoas. Entre 1978 e 2011, o número de pessoas vivendo na pobreza absoluta caiu de 770 milhões (80% da população) para 122 milhões (9,1%), medido pelo estabelecimento da linha de pobreza em 2.300 yuans por ano<a href="#_ftn14" name="_ftnref14"><sup>[14]</sup></a>.</p>
<p>A busca por rápido crescimento econômico, entretanto, veio junto com grandes custos ambientais e sociais. A migração em massa para as cidades aumentou a disparidade rural-urbana, e o foco nas indústrias costeiras do leste deixou as regiões oeste e central fortemente subdesenvolvidas. De acordo com o Banco Mundial, o coeficiente de Gini da China (uma medida de desigualdade com base na renda) pulou de 29% em 1981 para 49% em 2007 e em 2012 arrefeceu para 47%<a href="#_ftn15" name="_ftnref15"><sup>[15]</sup></a>. Socialmente, esse período produziu acesso desigual aos serviços públicos como aposentadoria, seguro social, educação e saúde. Ambientalmente, o rápido desenvolvimento afetou o ar, a água e a terra do país.</p>
<p>Não é surpreendente que lidar com a desigualdade tenha se tornado uma das principais tarefas do presidente Xi (2013 até o presente). No 19º Congresso Nacional do PCCh em 2017, evento bianual que determina os objetivos da política nacional e eleição da cúpula do partido, Xi falou da nova era do socialismo e, com ela, da evolução da principal contradição enfrentada pela sociedade chinesa:</p>
<p style="padding-left: 40px;">À medida que o socialismo com características chinesas entrou em uma nova era, a principal contradição que a sociedade chinesa enfrenta evoluiu. O que enfrentamos agora é a contradição entre o desenvolvimento desequilibrado e inadequado e as necessidades cada vez maiores do povo por uma vida melhor. A China viu as necessidades básicas de mais de um bilhão de pessoas satisfeitas, basicamente tornou possível que as pessoas vivessem vidas decentes e em breve completará com sucesso a construção de uma sociedade moderadamente próspera. As necessidades a serem atendidas para que as pessoas vivam uma vida melhor são cada vez mais amplas. Não apenas suas necessidades materiais e culturais aumentaram; suas demandas por democracia, Estado de direito, equidade e justiça, segurança e um ambiente melhor estão aumentando. Ao mesmo tempo, as forças produtivas gerais da China melhoraram significativamente e, em muitas áreas, nossa capacidade de produção é de liderança mundial. O problema mais importante é que nosso desenvolvimento é desequilibrado e inadequado. Isso se tornou o principal fator restritivo para atender às necessidades crescentes das pessoas por uma vida melhor<a href="#_ftn16" name="_ftnref16"><sup>[16]</sup></a>.</p>
<p>O período de reforma e abertura é, portanto, visto como a pré-condição para a construção de um país socialista moderno. É durante esse período que dois dos três objetivos estratégicos oficiais foram alcançados, garantindo que as necessidades básicas das pessoas sejam atendidas e que elas tenham um padrão de vida digno. Continuar o trabalho de redução da pobreza e garantir que os pobres entrem em uma “sociedade moderadamente próspera” (<em>xiaokang</em>) no resto do país é a etapa final desse período. Nos anos que se seguiram ao discurso de Xi, a China mobilizou seu povo – especificamente os próprios pobres – bem como o governo e o mercado para eliminar a pobreza extrema, marcando uma fase fundamental na transição para o socialismo.</p>
<p> </p>
<div id="attachment_45833" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-45833" class="size-full wp-image-45833 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/3-Poverty-alleviation-theory-and-practice.jpg" alt="Peasant workers till the land in an organic bamboo fungus company, which was established to help lift Longmenao, a village that is officially registered as poor, out of poverty in Wanshan District, Guizhou Province, April 2021. Credit: Xiang Wang" width="950" height="1052"><p id="caption-attachment-45833" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #ba2025;">Camponeses cultivam a terra em uma companhia de fungo de bambu orgânico, que foi estabelecida para ajudar a retirar Longmenao, um vilarejo oficialmente registrado como pobre, da pobreza no distrito de Wanshan, província de Guizhou, abril de 2021.</span> </small></p>
<p></p></div>
<p> </p>
<h2 id="part3_poverty-alleviation-theory-and-practice" style="margin:3em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Parte III: Teoria e prática da redução da pobreza</strong> <a style="color: #ba2025;" href="#content">⤴</a></span></h2>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Uma renda, dois seguros e três garantias</strong></span></h3>
<p>A eliminação da pobreza extrema pela China vem uma década antes da Agenda 2030 das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, que estabeleceu a “erradicação da pobreza em todas as suas formas e dimensões, incluindo a pobreza extrema” como seu principal objetivo<a href="#_ftn17" name="_ftnref17"><sup>[17]</sup></a>. Embora milhões de chineses tenham saído da pobreza durante a fase de rápido crescimento econômico, apenas a economia não pode explicar essa conquista.</p>
<p>Para este estudo, conversamos com Justin Lin Yifu, ex-economista-chefe do Banco Mundial (o primeiro do Sul Global) e fundador da Nova Economia Estrutural. Lin também é membro da comissão permanente do Comitê Consultivo Político do Povo Chinês e professor da Universidade de Pequim. Lin classifica duas abordagens principais para a redução da pobreza, que ele chama de “transfusão de sangue” e “geração de sangue”. A primeira se caracteriza por mecanismos de ajuda humanitária ou de bem-estar para garantir o atendimento das necessidades básicas, modelo preferido nas economias ocidentais. A outra descreve a redução da pobreza voltada para o desenvolvimento, que cria empregos e aumenta a renda dos pobres. Essas duas abordagens, no entanto, não conseguiram eliminar a pobreza nos bolsos mais pobres da China. De acordo com Lin, “em áreas com escassez de recursos naturais, longe do mercado e com transporte e infraestrutura precários, como as ‘Três Regiões e Três Prefeituras’<a href="#_ftn18" name="_ftnref18"><sup>[18]</sup></a>, é necessária uma assistência direcionada”.</p>
<p>O conceito abrangente de redução da pobreza direcionada foi desenvolvido e inovado com base em décadas de experiências nacionais e internacionais. “A redução da pobreza na China”, Lin resume, “é uma estratégia liderada pelo governo e impulsionada pelo crescimento que combina o apoio social e o esforço dos próprios camponeses, apresenta o padrão ‘gerador de sangue’ ou orientado para o desenvolvimento e garante as necessidades básicas com seguridade social”. Enfatizando o papel da liderança do governo, ele diz: “Em contraste com o resto do mundo, o governo chinês desempenhou um papel crucial. A erradicação da pobreza não teria sido alcançada meramente através do papel do mercado se o governo não tivesse dado grande atenção aos problemas dos pobres”. Em outras palavras, uma combinação da “mão visível” e da “mão invisível”, juntamente com a mobilização de amplos setores da sociedade, foi a marca registrada da redução da pobreza na China nessa fase “direcionada”.</p>
<p>O programa de Redução da Pobreza Direcionado (RPD) da China pode ser resumido por uma palavra de ordem: uma renda, dois seguros e três garantias. Em relação à renda, a linha de pobreza internacional é definida pelo Banco Mundial em 1,90 dólar por dia, medida a preços de 2011 e com base na linha de pobreza média dos 15 países mais pobres do mundo. A linha de pobreza da China foi elevada pela última vez para 2.300 yuans por ano em 2011 (a preços de 2010), o que representa 2,30 dólares por dia quando ajustado para Paridade do Poder de Compra (PPC), excedendo o padrão do Banco Mundial. Ajustado aos preços de 2020, a renda mínima anual é de 4 mil yuans, enquanto a renda per capita sob o programa de redução é de 10.740 yuans por ano<a href="#_ftn19" name="_ftnref19"><sup>[19]</sup></a>.</p>
<p>Compreendendo que a pobreza não pode ser tratada apenas pela distribuição de renda, o programa da China adota uma abordagem multidimensional.</p>
<p>Teorizado pela primeira vez pelo ganhador do Prêmio Nobel Amartya Sen, o conceito de pobreza multidimensional analisa os fatores de intersecção e complexidade associados à pobreza, que não são contabilizados apenas pela medição da renda. Com base no trabalho de Sen, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) e a Iniciativa de Pobreza e Desenvolvimento Humano de Oxford adotaram o Índice de Pobreza Multidimensional (IPM) em 2010, medindo dez indicadores nas dimensões de saúde, educação e serviços básicos de infraestrutura. Seu relatório de 2020, lançado uma década após a adoção do IPM e uma década antes do prazo final dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), descobriu que 1,3 bilhão de pessoas, ou 22% da população mundial, vivem em pobreza multidimensional. Em comparação, de acordo com a linha de pobreza de 1,90 dólar por dia, 689 milhões de pessoas – ou 9,2% da população global – viviam na pobreza extrema em 2017, antes da pandemia<a href="#_ftn20" name="_ftnref20"><sup>[20]</sup></a>.</p>
<p>Além de uma renda mínima, o programa de redução da pobreza da China garante que cinco outros indicadores sejam atendidos: os “dois seguros” –      de alimentação e vestimenta –      e as “três garantias”: serviços médicos básicos, moradia segura com água potável e eletricidade, e educação obrigatória e gratuita, que na China é de nove anos.</p>
<p>Conversamos com Wang Sangui, reitor do Instituto Nacional de Redução da Pobreza da Universidade de Renmin, sobre a relação entre os indicadores da China e a estrutura do IPM. “A pobreza multidimensional é vista apenas como uma abordagem de pesquisa”, disse ele, “e até agora não foi adotada por nenhum país para medir o tamanho das populações pobres a nível nacional devido à sua grande complexidade”. Ao incluir os cinco indicadores-chave, ele acrescenta: “Na verdade, a China seguiu uma abordagem multidimensional na erradicação da pobreza”. Como consultor especialista do Escritório do Conselho de Estado para Redução da Pobreza e Desenvolvimento, Wang ajudou a desenvolver os padrões para o programa da China. “Como você classifica a água potável como segura? Em primeiro lugar, o requisito básico é que não deve haver escassez de abastecimento . Em segundo lugar, a fonte de água não deve estar muito longe, não mais do que vinte minutos de ida e volta. Por último, sua qualidade deve ser segura, sem quaisquer substâncias nocivas. Exigimos relatórios de teste que confirmem que a qualidade da água é segura. Só então podemos dizer que o padrão é cumprido”.</p>
<p> </p>
<div id="attachment_45844" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-45844" class="size-full wp-image-45844 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/4-Targeted-poverty-alleviation.jpg" alt="First Secretary Liu Yuanxue speaks with a local villager during routine home visits in the village of Danyang, Wanshan District, Guizhou Province, April 2021." width="950" height="1052" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/4-Targeted-poverty-alleviation.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/4-Targeted-poverty-alleviation-271x300.jpg 271w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/4-Targeted-poverty-alleviation-925x1024.jpg 925w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/4-Targeted-poverty-alleviation-768x850.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-45844" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #ba2025;">Primeiro secretário Liu Yuanxue conversa com uma moradora do vilarejo durante visitas de rotina em Danyang, distrito de Wanshan, província de Guizhou, abril de 2021.</span></small></p>
<p></p></div>
<p> </p>
<h2 id="part4_targeted-poverty-alleviation" style="margin:3em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Parte IV: Redução da Pobreza Direcionada</strong> <a style="color: #ba2025;" href="#content">⤴</a></span></h2>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Não use uma granada para explodir uma pulga</strong></span></h3>
<p>A redução da pobreza direcionada, também conhecida como redução precisa da pobreza, foi introduzida pela primeira vez durante a visita do presidente Xi à vila de Shibadong, na província de Hunan, em novembro de 2013. “Não use uma granada para explodir uma pulga”, informou Xi ao governo local sobre como lidar com as causas profundas da pobreza. “Em vez disso”, disse ele, “aja como um bordador que tece um desenho complexo”. Essa abordagem foi implementada como estratégia do governo em 2015, orientada pelas quatro questões: quem deve ser retirado da pobreza? Quem realiza o trabalho? Que medidas precisam ser tomadas para combater a pobreza? Como podem ser feitas avaliações para garantir que as pessoas permaneçam fora da pobreza?</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Definindo a pobreza: quem é retirado?</strong></span></h3>
<div style="background-color: #fefcf7; background-image: url(;">
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-45943 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote.png" alt="" width="950" height="64" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-300x20.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-768x52.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<p style="padding-left: 40px; padding-right: 40px;"><span style="color: #ba2025;">Em 28 de agosto de 2018, cheguei a Danyang, onde a organização do Partido era considerada “fraca e solta” e o trabalho não tinha sido suficientemente impulsionado, razão pela qual fui enviado pelas autoridades de alto nível para fortalecer a construção da organização. A organização me deu um breve relatório sobre os moradores no início, e comecei entrando em contato com as pessoas para descobrir quais famílias eram os alvos da redução da pobreza. Caso contrário, o trabalho não seria realizado corretamente. Para me aproximar das pessoas, eu tinha que entender bem a natureza humana […] A população local era pobre por uma série de motivos, incluindo falta de água, baixa safra, doenças, deficiências e falta de educação dos filhos. Seus problemas e conflitos foram passados de geração em geração.</span></p>
<p style="padding-left: 40px; padding-right: 40px;"><span style="color: #ba2025;">– Liu Yuanxue, primeiro secretário na vila de Danyang, distrito de Wanshan, cidade de Tongren, província de Guizhou.</span></p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-45932 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-%E2%80%93-1.png" alt="" width="950" height="51" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1-300x16.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1-768x41.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
</div>
<p>Saber quem são os pobres em um país de 1,4 bilhão de habitantes é uma tarefa enorme. Ao reconhecer as limitações de um método estatístico de amostragem de dados, a China adotou um sistema de identificação domiciliar, o que significa conhecer cada pessoa pobre do país, suas condições e necessidades. Isso foi feito por meio de uma combinação de envio de pessoas a vilarejos, prática da democracia de base e implantação de tecnologias digitais. Em 2014, cerca de 800 mil quadros do Partido foram organizados para visitar e pesquisar todas as famílias em todo o país, identificando 89,62 milhões de pessoas pobres em 29,48 milhões de famílias e 128 mil vilarejos. Mais de dois milhões de pessoas receberam a tarefa de verificar os dados, removendo posteriormente os casos identificados incorretamente e adicionando novos<a href="#_ftn21" name="_ftnref21"><sup>[21]</sup></a>.</p>
<p>Embora a renda seja o principal fator de decisão, moradia, educação e saúde também são levados em consideração ao listar uma “família afetada pela pobreza”. Comitês de vilarejos, governos municipais e os próprios moradores são mobilizados para avaliar a situação de cada família. Reuniões públicas de avaliação democrática, por exemplo, são realizadas para facilitar as discussões entre os membros da comunidade sobre a situação de cada família e se elas devem ser removidas ou adicionadas à lista de registro de pobreza<a href="#_ftn22" name="_ftnref22"><sup>[22]</sup></a>. Esse movimento local foi emparelhado com a criação de um sistema avançado de informação e gestão, abrangendo todas as partes do processo de redução da pobreza em todo o país.</p>
<p>Um sistema de <em>big data</em> é usado para monitorar a situação de cada um dos quase 100 milhões de indivíduos, facilitar o fluxo de informações entre departamentos governamentais e identificar tendências e causas importantes da pobreza<a href="#_ftn23" name="_ftnref23"><sup>[23]</sup></a>. A mobilização das pessoas e a obtenção do apoio público estão no centro do esforço para realizar esse trabalho.</p>
<p> </p>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Mobilização: quem faz a retirada? </strong><a style="color: #ba2025;" href="#content">⤴</a></span></h2>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Mova-se entre as pessoas como um peixe nada no mar</strong></span></h3>
<div style="background-color: #fefcf7;">
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-45943 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote.png" alt="" width="950" height="64" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-300x20.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-768x52.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<p style="padding-left: 40px; padding-right: 40px;"><span style="color: #ba2025;">Registro da visita, 10 de junho de 2019: hoje recebi um telefonema de He Guoqiang. Ele disse que uma fechadura de porta em seu apartamento de reassentamento foi quebrada. Fui até sua casa e o ajudei a entrar em contato com a equipe de administração da propriedade e a equipe de construção e reparos. Aproveitei a oportunidade para ensiná-lo a exercer seus direitos de proprietário e a entrar em contato com a administração imobiliária e a equipe de construção. He Guoqiang disse que da próxima vez que encontrar um problema desses, ele saberá como resolvê-lo<a href="#_ftn24" name="_ftnref24"><sup>[24]</sup></a>.</span></p>
<p style="padding-left: 40px; padding-right: 40px;"><span style="color: #ba2025;">– He Chunliu, uma mulher de 34 anos de etnia Bouyei que foi destacada como um quadro de redução da pobreza no condado de Libo entre 2018 e 2020.</span></p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-45932 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-%E2%80%93-1.png" alt="" width="950" height="51" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1-300x16.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1-768x41.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
</div>
<p>Não há organização sem militantes. Em junho de 2021, o PCCh tinha mais de 95,1 milhões de membros – 27,45 milhões dos quais são mulheres – e 4,9 milhões de organizações partidárias de nível primário, que inclui comitês de moradores, instituições públicas, empresas e órgãos filiados ao governo e organizações sociais<a href="#_ftn25" name="_ftnref25"><sup>[25]</sup></a>. Se o PCCh fosse um país, seria o décimo sexto mais populoso do mundo. A almejada fase de redução da pobreza exigiu a construção de relações e confiança entre o Partido e a população do campo, bem como o fortalecimento da organização do Partido em nível de base. Os secretários do partido são designados para supervisionar a tarefa de redução da pobreza em cinco níveis de governo: província, cidade, condado e município, até o vilarejo.</p>
<p>Mais notavelmente, três milhões de quadros cuidadosamente selecionados foram enviados para os vilarejos pobres, formando 255 mil equipes que lá residiram<a href="#_ftn26" name="_ftnref26"><sup>[26]</sup></a>. Vivendo em condições humildes por um a três anos de cada vez, as equipes trabalharam ao lado de camponeses pobres, autoridades locais e voluntários até que cada família fosse retirada da pobreza. Nesse processo, muitos quadros não puderam voltar para casa para visitar famílias por longos períodos; alguns adoeceram nas duras condições naturais das áreas rurais e mais de 1.800 membros e funcionários do Partido perderam a vida na luta contra a pobreza<a href="#_ftn27" name="_ftnref27"><sup>[27]</sup></a>. As primeiras equipes foram despachadas em 2013; em 2015, todos os vilarejos pobres tinham uma equipe residente e cada família pobre tinha um quadro designado para ajudar no processo de retirada e, mais importante, de retirar-se da pobreza<a href="#_ftn28" name="_ftnref28"><sup>[28]</sup></a>.</p>
<p>Liu Yuanxu, um homem de 47 anos com uma filha em seu último ano do ensino médio, está entre os secretários do Partido enviados em 2018 para Danyang, um vilarejo de 2.855 habitantes na província de Guizhou, no sudoeste.</p>
<p>Liu descreve a chegada a Danyang. Ele não fala o idioma local, e 137 das 805 famílias foram designadas como pobres. Ele era um dos 52 quadros atribuídos ao vilarejo, cada um com responsabilidades diferentes. Ele nos contou sobre seu trabalho diário:</p>
<p style="padding-left: 40px;">Fui responsável por cinco famílias pobres, mas agora são quatro, já que uma pessoa morreu. Naquela época, visitei todas as famílias com uma bicicleta elétrica e cuidei de tudo para elas. Mantive contato com os jovens por WeChat e com os idosos por telefone. Eles poderiam me ligar para qualquer coisa. Fui a cada grupo de moradores para investigar quem era tranquilo e quem era difícil. Resolvi problemas por meio de bebidas e conversas com os moradores que agora têm um relacionamento muito bom comigo. Agora, o governo acompanha os lares pobres, marginalizados e estratégicos. As ferramentas digitais ajudam o governo a saber quando as pessoas ficam doentes ou se aqueles que podem trabalhar estão empregados. Também visitamos os moradores todos os meses para entender melhor a realidade de sua situação.</p>
<p>Ao contrário dos modelos que dependem fortemente de organizações não governamentais e assistência internacional, o programa de redução da pobreza da China tira sua força da mobilização de seus cidadãos. Quadros como Liu são uma ponte essencial entre a implementação da política governamental e a compreensão das condições e demandas concretas do povo. Os mais de dez milhões de quadros e funcionários que se mobilizaram no campo foram essenciais para a construção do apoio público e da confiança no Partido e no governo.</p>
<p>Em 2020, a Universidade de Harvard publicou o estudo      <em>Compreendendo a resiliência do Partido Comunista da China</em>: <em>pesquisando a opinião pública chinesa através do tempo</em>, para o qual entrevistaram 31 mil residentes urbanos e rurais entre 2003 e 2016 sobre seu apoio ao PCCh<a href="#_ftn29" name="_ftnref29"><sup>[29]</sup></a>. Durante esse período, a satisfação dos cidadãos chineses com seu governo aumentou de 86,1% para 93,1%. O maior aumento na satisfação foi visto nas áreas rurais em nível municipal, que aumentou de 43,6% de aprovação para 70,2%, principalmente entre os moradores de renda mais baixa e os das áreas mais pobres do interior. Esse apoio crescente decorre da maior acessibilidade e qualidade dos serviços de saúde, educação e serviços sociais, bem como da maior capacidade de resposta e eficácia dos funcionários do governo local. Embora o estudo tenha terminado em 2016, antes da conclusão da campanha, o programa de redução da pobreza, bem como a resposta eficaz do governo à pandemia de Covid-19, continuaram a obter apoio público<a href="#_ftn30" name="_ftnref30"><sup>[30]</sup></a>. No final de 2020, a meta de eliminação da pobreza extrema foi alcançada.</p>
<p>Pouco depois de Wuhan sair do isolamento decorrente da pandemia de Covid-19, o professor Cary Woo, da York University, conduziu uma pesquisa com 19.816 pessoas em 31 províncias e regiões administrativas. Publicado no <em>Washington Post</em>, o estudo descobriu que 49% dos entrevistados passaram a confiar mais no governo após sua resposta à pandemia, e a confiança geral aumentou para 98% no nível nacional e 91% no municipal<a href="#_ftn31" name="_ftnref31"><sup>[31]</sup></a>. A eliminação da pobreza e a contenção da pandemia podem ser vistas como duas grandes vitórias da China e de seu povo em 2020.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Frente Unida para a Redução da Pobreza</strong></span></h3>
<div style="background-color: #fefcf7;">
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-45932 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-%E2%80%93-1.png" alt="" width="950" height="51" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1-300x16.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1-768x41.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<p style="padding-left: 40px; padding-right: 40px;"><span style="color: #ba2025;">Ge Wen é da cidade de Suzhou, no leste, onde é vice-diretora de vendas de uma empresa de cultura e turismo. O governo promoveu a colaboração entre a parte oriental industrializada do país e as regiões ocidentais menos industrializadas para possibilitar o desenvolvimento em todo o país. Como parte desse esforço, a empresa de Ge firmou parceria com uma vila remota na província de Guizhou para instalar um <em>resort</em> de ecoturismo e estimular a indústria do turismo da região. A empresa investiu 130 milhões de yuans para construir a infraestrutura e reformar as casas, que são alugadas por um período de 20 anos pelos moradores. Das 107 famílias do vilarejo, apenas vinte – todas com o sobrenome Zhang e da minoria étnica Dong – ainda moravam lá quando o projeto começou. No final do período de aluguel, as casas e as comodidades ao redor serão devolvidas aos moradores, alguns dos quais foram contratados como trabalhadores no <em>resort</em>. Ge Wen é uma dos oito funcionários designados pela empresa para se mudar de Suzhou para concretizar esse projeto. A tarefa tem desafios. Além de visitas raras a sua casa durante o mandato de três anos, ela também enfrentou diferenças culturais, linguísticas e climáticas. “Não estou acostumada com a umidade daqui”, ela nos disse. No alto das montanhas de Guizhou, pode chover durante meses. O local também é remoto; quando Ge e a equipe estavam construindo o <em>resort</em>, a estrada asfaltada para o empreendimento teve que ser escavada manualmente porque os guindastes não puderam ser levados até lá. Isso continua tal qual o ditado local: “Guizhou, onde o céu não está claro por três dias e a terra plana não se estende por três <em>li </em>[1,5 quilômetros]”.</span></p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-45932 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-%E2%80%93-1.png" alt="" width="950" height="51" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1-300x16.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1-768x41.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
</div>
<p>Além de fortalecer o Partido e o apoio popular, a campanha de redução da pobreza mobilizou amplos setores da sociedade para participar de uma frente única. “Devemos mobilizar as energias de todo o nosso Partido, todo o nosso país e toda a nossa sociedade e continuar a implementar medidas específicas de redução e alívio da pobreza”, disse o presidente Xi em discurso no 19º Congresso Nacional. “Daremos atenção especial em ajudar às pessoas a aumentar a confiança em sua própria capacidade de sair da pobreza”.</p>
<p>O objetivo de alcançar a prosperidade comum com a expectativa de que aqueles que enriquecem – particularmente nas áreas costeiras orientais industrializadas – elevem o resto é um elemento central desta abordagem, e está no cerne da fala, muitas vezes mal interpretada, de Deng, “deixe alguns ficarem ricos primeiro”. A campanha de redução da pobreza segue esse princípio e usa uma estratégia de mobilização em massa, que lembra a era Mao, para estabelecer a cooperação Leste-Oeste. De 2015 a 2020, nove unidades administrativas de nível provincial oriental, representando 343 condados, investiram 100,5 bilhões de yuans em assistência social nas regiões ocidentais; mobilizaram mais de 22 mil empresas locais para investir 1,1 trilhão de yuans adicionais e foram realocados 131 mil funcionários e pessoal técnico<a href="#_ftn32" name="_ftnref32"><sup>[32]</sup></a>.</p>
<p>Em 2013, a cidade de Tongren, no sudoeste da província de Guizhou, para onde He Ying se mudou e onde está situada a vila de Liu Yuanxue, foi emparelhada com Suzhou, o centro econômico da província costeira oriental de Jiangsu. A colaboração incluiu intercâmbios econômicos, de infraestrutura, educacionais e técnicos. De abril de 2017 a 2020, Suzhou forneceu 1,71 bilhão de yuans em ajuda financeira e 240 milhões de yuans em assistência social para implementar 1.240 projetos. Além disso, 285 empresas da costa oriental desenvolveram projetos em Tongren, investindo 26,41 bilhões de yuans e gerando empregos para 44.400 pessoas no programa de redução da pobreza. No processo, 19 parques industriais e agrícolas foram criados e os projetos direcionados impulsionaram o turismo local em 30%. Para aprofundar o intercâmbio político e educacional, 5.345 quadros do Partido, funcionários do governo e pessoal técnico foram transferidos de Suzhou para Tongren, incluindo o vice-prefeito de Tongren, Zha Yingdong, que se mudou de Jiangsu para Guizhou para liderar o trabalho de redução da pobreza.<a href="#_ftn33" name="_ftnref33"><sup>[33]</sup></a></p>
<p>Além da cooperação Leste-Oeste, departamentos governamentais, empresas públicas e privadas, instituições educacionais, militares e a sociedade civil também deram contribuições significativas. Os departamentos centrais investiram 42,76 bilhões de yuans, o que ajudou a trazer 106,64 bilhões de yuans em capital e formar 3,69 milhões de técnicos e funcionários com atuação no território<a href="#_ftn34" name="_ftnref34"><sup>[34]</sup></a>.Enquanto isso, 94 empresas estatais investiram mais de 13,5 bilhões de yuans em 246 condados, implementando quase 10 mil projetos de assistência. Das 2.301 organizações sociais nacionais do país, 686 estabeleceram projetos formais de redução da pobreza, levantando fundos de caridade e oferecendo serviços voluntários<a href="#_ftn35" name="_ftnref35"><sup>[35]</sup></a>. Por meio da campanha Dez Mil Empresas Ajudam a Dez Mil Vilarejos, 127 mil empresas privadas participaram do apoio a 139.100 vilarejos pobres que beneficiaram 18 milhões de pessoas<a href="#_ftn36" name="_ftnref36"><sup>[36]</sup></a>. Os militares ajudaram 924 mil pessoas em 4.100 vilarejos pobres e contribuíram para a construção de escolas, hospitais e projetos industriais especiais. O Ministério da Educação organizou 44 faculdades e universidades na campanha, realizando projetos de pesquisa e enviando equipes de especialistas e professores em agricultura, saúde, planejamento urbano e rural, educação, entre outros.</p>
<p>Uma dessas colaborações foi o experimento Hebian<a href="#_ftn37" name="_ftnref37"><sup>[37]</sup></a>, que levou especialistas e estudantes universitários para o vilarejo de Hebian, na província de Yunnan, uma comunidade composta predominantemente por pessoas da etnia Yao. Liderada por Li Xiaoyun, professor titular da China Agricultural University, a equipe ajudou a pesquisar, levantar fundos e desenvolver projetos turísticos, educacionais e agrícolas para aumentar e diversificar a renda da comunidade. Em nossa entrevista com Li, ele comentou sobre a mobilização de massa realizada:</p>
<p style="padding-left: 40px;">É muito difícil para as pessoas de fora da China entenderem a campanha de redução da pobreza dos últimos oito anos e, particularmente, como ela foi organizada – especialmente a notável mobilização. A pergunta mais difícil que um amigo me fez foi: “Como o governo conseguiu convencer todos a contribuir com recursos e ir para as áreas pobres?” Isso é o que sempre tentamos articular por meio de uma declaração muito simples. Essa é uma instituição política especial da China. A sociedade chinesa é diferente das sociedades ocidentais, porque se baseia no coletivo e não no individual. Isso se reflete na forma como a sociedade é organizada. O governo trabalha com organizações sociais, nas quais as redes políticas e sociais se fundem em um todo – em uma força motriz, organizada vertical e horizontalmente, que permite que todos participem dessa campanha social.</p>
<p>Em suma, o programa de redução da pobreza atingiu praticamente todos os cantos da sociedade. A vitória contra a pobreza extrema, portanto, não pode ser vista como um programa singular sob um mandato singular do Partido e do governo. Em vez disso, deve ser visto como uma mobilização em massa em vários setores da sociedade chinesa, usando metodologias diversas e descentralizadas em uma amplitude e escala sem precedentes na história humana.</p>
<p> </p>
<div id="attachment_45855" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-45855" class="size-full wp-image-45855 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/5-United-front.jpg" alt="Resettled residents work in a clothing factory established in the Wangjia community, Tongren City, Guizhou Province, April 2021. Credit: Xiang Wang" width="950" height="1052" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/5-United-front.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/5-United-front-271x300.jpg 271w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/5-United-front-925x1024.jpg 925w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/5-United-front-768x850.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-45855" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #ba2025;">Moradores reassentados trabalham em uma fábrica de roupas estabelecida na comunidade de Wangjia, cidade de Tongren, província de Guizhou, abril de 2021.</span></small></p>
<p></p></div>
<p><strong> </strong></p>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Metodologia: como a China reduziu a pobreza?</strong> <a style="color: #ba2025;" href="#content">⤴</a></span></h2>
<p><em> </em></p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Indústria</strong></span></h3>
<div style="background-color: #fefcf7;">
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-45932 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-%E2%80%93-1.png" alt="" width="950" height="51" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1-300x16.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1-768x41.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<p style="padding-left: 40px; padding-right: 40px;"><span style="color: #ba2025;">A Sra. Liu é uma das que mais ganham na plataforma de vídeos curtos Yishizhifu, que ajuda os camponeses pobres a gerar renda extra. Ela é uma camponesa e mãe que ganhou mais de 200 mil créditos (o equivalente a cerca de 20 mil yuans) pelos vídeos que faz e publica online. Os créditos podem ser trocados por produtos por meio da plataforma. Os vídeos não apenas complementam a sua renda, fornecendo bens e aparelhos que economizam tempo, como uma panela elétrica de arroz e um forno de micro-ondas, mas também deram a ela uma saída para mostrar sua cultura. Uma das primeiras bateristas em sua comunidade e membro do grupo da minoria étnica Dong, a Sra. Liu usa a plataforma para postar vídeos de música, bateria, artesanato e moda de Dong. Em um vídeo, ela estrela um drama de televisão produzido localmente. “Nós mesmos filmamos”, disse ela. “Se eu te contasse como fizemos, você ficaria muito emocionado com o processo”. Ao apontar para a tela, ela diz: “Esta sou eu, este é meu irmão mais novo, minha cunhada e meu vizinho”. Juntos, eles escreveram um roteiro sobre a história de um menino pobre que não conseguiu encontrar uma esposa e teve que recorrer a métodos criativos para atrair uma pretendente.</span></p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-45932 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-%E2%80%93-1.png" alt="" width="950" height="51" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1-300x16.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1-768x41.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
</div>
<p>A introdução do comércio eletrônico nas áreas rurais tem sido uma parte fundamental do programa de redução da pobreza. Entre 2016 e 2020, os negócios <em>online</em> em condados pobres cresceram de 1,32 milhão para 3,11 milhões, o que ajudou a aumentar a renda das famílias rurais ao conectar o campo aos mercados <em>online</em><a href="#_ftn38" name="_ftnref38"><sup>[38]</sup></a>. Uma dessas plataformas é a Yishizhifu, lançada em Tongren em junho de 2020, que treina camponeses para que produzam vídeos curtos em um dos mais de vinte estúdios de filmagem em comunidades pobres na cidade e nos vilarejos vizinhos. Os usuários podem fazer <em>upload</em> de seus vídeos no aplicativo      e receber pontos por visualizações, que posteriormente podem ser trocados por produtos disponíveis na plataforma. Para cada minuto de vídeo assistido, dez créditos são concedidos e distribuídos: seis para o produtor do vídeo, um para o espectador, dois para o estúdio e um para a plataforma Yishizhifu. Bens como roupas, eletrodomésticos, produtos agrícolas, equipamentos agrícolas e até carros são garantidos por meio de parcerias com empresas estatais e privadas. Essas empresas doam para receber créditos fiscais, descarregar o excesso de estoque ou usar a plataforma como uma fonte de publicidade gratuita. Nesse exemplo e em inúmeros outros, o desenvolvimento tecnológico – facilitado pelo <em>e-commerce</em> e acesso à internet – é um meio de conectar o campo à cidade, gerando emprego e renda complementar, e construindo confiança cultural entre camponeses e pobres.</p>
<p>A estratégia de redução da pobreza direcionada desenvolveu cinco métodos básicos para retirar as pessoas – ou melhor, ajudá-las a se erguer – da pobreza: indústria, realocação, compensação ecológica, educação e assistência social. O primeiro dos cinco métodos básicos é desenvolver a produção local. Com esse objetivo em mente, os setores público e privado estão envolvidos para fornecer aos pobres acesso a financiamento (empréstimos, subsídios e microcrédito), treinamento técnico, equipamentos e mercados. Por meio do programa RPD, as políticas de redução da pobreza industrial impactaram 98% das famílias pobres e estabeleceram 300 mil bases industriais para a produção agrícola, bem como criação e processamento de animais, em cada um dos 832 condados pobres. Mais de 22 milhões de pobres estão empregados nessas bases, além de outros 13 milhões em empresas rurais. Oficinas de redução da pobreza (centros de produção em pequena escala organizados em terras ociosas ou nas casas das pessoas) ajudaram quase a triplicar a renda per capita de 2015 a 2019 das famílias pobres, chegando a 9.808 yuans por ano<a href="#_ftn39" name="_ftnref39"><sup>[39]</sup></a>. Isso, por sua vez, tem desenvolvido novos modelos de redução da pobreza vinculados ao turismo e à economia verde.</p>
<p> </p>
<div id="attachment_45866" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-45866" class="size-full wp-image-45866 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/6-Industry.jpg" alt="A local food vendor and user of the Yishizhifu short video platform showcases her cooking in the village of Danyang, Wanshan District, Guizhou Province, April 2021. Credit: Xiang Wang" width="950" height="1052" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/6-Industry.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/6-Industry-271x300.jpg 271w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/6-Industry-925x1024.jpg 925w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/6-Industry-768x850.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-45866" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #ba2025;">Uma vendedora de comida e usuária da plataforma de vídeos curtos Yishizhifu cozinha no vilarejo de Danyang, distrito de Wanshan, província de Guizhou, abril de 2021.</span></small></p>
<p></p></div>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><strong><span style="color: #ba2025;">Realocação</span><br>
</strong></h3>
<div style="background-color: #fefcf7;">
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-45932 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-%E2%80%93-1.png" alt="" width="950" height="51" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1-300x16.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1-768x41.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<p style="padding-left: 40px; padding-right: 40px;"><span style="color: #ba2025;">Atule’er é um vilarejo nas montanhas da província de Sichuan, cuja ancestralidade remonta à Dinastia Yuan (1271-1368), quando era considerado estratégico cultivar alimentos nas montanhas durante o tempo de guerra. A uma altitude de 1.400 metros, a vila era, até recentemente, acessível apenas através de 800 metros de “escadas do céu” de vime mal construídas que pendiam da borda do penhasco. O trajeto para escolas, mercados locais, serviços de saúde e transporte público demorava horas e era perigoso. Um dos residentes, Mou’se disse: “Levei meio dia para descer o penhasco para comprar um pacote de sal”. Quatro anos atrás, o governo gastou um milhão de yuans para substituir a escada por uma estrutura de aço mais segura. Mou’se e 83 outras famílias em Atule’er se reassentaram em maio de 2020 durante a campanha contra a pobreza<a href="#_ftn40" name="_ftnref40"><sup>[40]</sup></a>.</span></p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-45932 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-%E2%80%93-1.png" alt="" width="950" height="51" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1-300x16.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1-768x41.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
</div>
<p>Para as famílias que vivem em áreas extremamente remotas ou expostas a desastres naturais frequentes, é quase impossível quebrar o ciclo da pobreza sem mudar para ambientes mais habitáveis. Um total de 9,6 milhões de pessoas – cerca de 10% das pessoas que saíram da pobreza – se mudaram de comunidades rurais para urbanas recém-construídas. Novas moradias, 6.100 jardins de infância, escolas de ensino fundamental e médio; 12 mil hospitais e centros de saúde comunitários; 3.400 centros de cuidados a idosos; e 40 mil espaços culturais que foram construídos ou ampliados.</p>
<p>O principal desafio na transição do interior para as cidades é encontrar emprego para as famílias realocadas. Para enfrentá-lo, o governo desenvolveu programas de formação. Como resultado, 73,7% de todas as pessoas realocadas que podem trabalhar encontraram emprego e 94,1% das famílias realocadas com membros que podem trabalhar encontraram emprego.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Compensação ecológica</strong></span></h3>
<div style="background-color: #fefcf7;">
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-45932 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-%E2%80%93-1.png" alt="" width="950" height="51" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1-300x16.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1-768x41.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<p style="padding-left: 40px; padding-right: 40px;"><span style="color: #ba2025;">Um pequeno botão verde no aplicativo <em>Alipay Ant Forestd </em>leva os usuários a uma tela com uma muda de planta animada no meio. Ao escolher caminhar ou usar uma bicicleta compartilhada em vez de transporte privado, os usuários são recompensados com créditos verdes, que podem ser trocados pelo plantio de árvores em um aplicativo interativo. Lançada em 2016 pela empresa Ant Financial Service Group, ligada ao gigante da internet Alibaba, a plataforma de pagamento online incentiva seus 550 milhões de usuários a reduzir sua pegada de carbono.</span></p>
<p style="padding-left: 40px; padding-right: 40px;"><span style="color: #ba2025;">Apesar do design semelhante ao de um jogo, as árvores não são virtuais. Em março de 2020, 122 milhões de árvores foram plantadas na Floresta de Formigas, cobrindo 112 mil hectares fortemente concentrados em regiões áridas da Mongólia Interior, Gansu, Qinghai e Shanxi. Como resultado, 400 mil empregos foram criados, ligando a conservação ambiental à redução da pobreza por meio de dois modelos de áreas protegidas pelo bem-estar público e de florestas econômicas ecológicas. Em 2019, Ant Forest ganhou o principal prêmio do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Champions of the Earth<a style="color: #ba2025;" href="#_ftn41" name="_ftnref41"><sup>[41]</sup></a>.</span></p>
<p>A conservação e restauração ecológica, especialmente em áreas consideradas pobres, têm estado entre os métodos-chave para lidar com a pobreza, principalmente por meio da criação de empregos no setor ecológico. Desde 2013, foram restaurados 4,97 milhões de hectares de terras agrícolas em regiões pobres, que se tornaram florestas ou pastagens. No processo, 1,1 milhão de pessoas pobres foram empregadas como guardas florestais, enquanto 23 mil cooperativas de redução da pobreza e equipes para o florestamento (criação de novas florestas) foram formadas<a href="#_ftn42" name="_ftnref42"><sup>[42]</sup></a>. Isso faz parte dos esforços contínuos de ecologização da China nas últimas duas décadas. De acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), a China foi classificada como líder global em reflorestamento e responsável por 25% do crescimento total da área foliar entre 1990 e 2020<a href="#_ftn43" name="_ftnref43"><sup>[43]</sup></a>. Os esforços de ecologização não foram empreendidos apenas por meio de esforços governamentais, mas também por meio de iniciativas do setor privado, como o Alipay.</p>
</div>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Educação</strong></span></h3>
<div style="background-color: #fefcf7;">
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-45932 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-%E2%80%93-1.png" alt="" width="950" height="51" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1-300x16.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1-768x41.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<p style="padding-left: 40px; padding-right: 40px;"><span style="color: #ba2025;">Quando o Tibete foi formalmente incorporado à RPC, em 1951, a educação era controlada pelos mosteiros, com exceção de algumas escolas particulares. As escolas eram reservadas para monges e oficiais, resultando em apenas 2% de matrículas de crianças em idade escolar. De 1951 a 2021, mais de 100 bilhões de yuans foram gastos para desenvolver um sistema educacional moderno, que atingiu 99,5% de matrículas para o ensino fundamental, 99,51% para o ensino médio e 39,18% para o ensino superior em 2021. Em 2012, o Tibete foi a primeira região do país a oferecer um programa educacional gratuito de quinze anos, da pré-escola ao ensino médio, que inclui bolsas, acomodações, livros didáticos, refeições, transporte e outros custos<a href="#_ftn44" name="_ftnref44"><sup>[44]</sup></a>. A política foi expandida para incluir estudantes universitários de lares rurais registradas como pobres. De 2016 a 2020, 46.700 estudantes de graduação empobrecidos foram beneficiados por essa política.<a href="#_ftn45" name="_ftnref45"><sup>[45]</sup></a></span></p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-45932 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-%E2%80%93-1.png" alt="" width="950" height="51" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1-300x16.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1-768x41.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
</div>
<p>A educação tem sido fundamental para quebrar o ciclo de pobreza intergeracional. Para cumprir a garantia de educação do programa  RPD, grandes esforços foram feitos para assegurar que os 200 mil alunos de famílias pobres que abandonaram a escola tivessem apoio adequado para retornar (dados de 2013). Em 2020, 99,8% das escolas de ensino fundamental e médio da China atendiam aos requisitos educacionais básicos, com 95,3% delas conectadas à internet e equipadas com salas de aula multimídia. Grandes programas de financiamento governamental ofereceram assistência educacional a 640 milhões de pessoas e melhoraram a alimentação nas escolas, atingindo 40 milhões de alunos todos os anos<a href="#_ftn46" name="_ftnref46"><sup>[46]</sup></a>.</p>
<p>A formação de qualidade de educadores também foi priorizada: 950 mil professores foram recrutados, por meio do Programa de Pós-Graduação, para lecionar em áreas pobres após a formatura. O Programa Nacional de Treinamento levou mais de 17 milhões de professores rurais às regiões menos desenvolvidas do centro e do oeste, 190 mil deles direcionados especificamente para áreas remotas pobres e de minorias étnicas. Em linha com a tradição socialista, esses esforços garantem que os jovens recebam o conhecimento em primeira mão da vida no campo, ao mesmo tempo em que cultivam a próxima geração de educadores.</p>
<p>Esses ganhos na educação se refletiram não apenas nos vilarejos, mas em todo o país. No sétimo censo nacional de 2020, a média de anos de estudo aumentou de 9,08 para 9,91 anos, enquanto o número de pessoas com ensino superior quase dobrou de 8.930 para 15.467 a cada 100 mil de 2010 a 2020<a href="#_ftn47" name="_ftnref47"><sup>[47]</sup></a>. O perfil de quem tem acesso ao ensino superior também mudou. De acordo com a Pesquisa de Estudantes Chineses da Universidade de Tsinghua, de 2011 a 2018, mais de 70% de todos os alunos do primeiro ano nas universidades chinesas foram os primeiros em suas famílias a frequentar a tal espaço, e quase 70% desses estudantes são de áreas rurais<a href="#_ftn48" name="_ftnref48"><sup>[48]</sup></a>. No Global Gender Gap Report 2020 do Fórum Econômico Mundial, a China ficou em primeiro lugar no número de matrículas de mulheres no ensino superior, bem como na proporção de mulheres profissionais técnicas<a href="#_ftn49" name="_ftnref49"><sup>[49]</sup></a>. As reformas educacionais da última década abordaram os fatores multidimensionais de pobreza, divisão urbano-rural e gênero.</p>
<p> </p>
<div id="attachment_45877" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-45877" class="size-full wp-image-45877 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/7-Education.jpg" alt="Students on their short walk home from school in the Wangjia community, Tongren City, Guizhou Province, April 2021. Credit: Xiang Wang" width="950" height="1052" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/7-Education.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/7-Education-271x300.jpg 271w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/7-Education-925x1024.jpg 925w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/7-Education-768x850.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-45877" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #ba2025;">Estudantes em sua caminhada para casa da escola na comunidade de Wangjia, cidade de Tongren, província de Guizhou, abril de 2021.</span></small></p>
<p></p></div>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Assistência Social</strong></span></h3>
<p>A última das cinco metodologias principais para aliviar a pobreza se concentra na assistência social. A primeira rede de segurança social da China remonta ao Sistema de Garantia de Vida Mínima Urbana de Xangai (<em>dibao</em>) em 1993, que foi estendido a todas as áreas urbanas em 1999 e à área rural em 2007<a href="#_ftn50" name="_ftnref50"><sup>[50]</sup></a>. Sob este programa, qualquer família cuja renda per capita fosse menor do que a linha de pobreza tinha o direito de solicitar assistência social. Esse é considerado o maior programa de assistência social em dinheiro do mundo<a href="#_ftn51" name="_ftnref51"><sup>[51]</sup></a>. <em>Dibao</em> foi complementado com outros programas de educação, saúde, habitação, atenção a pessoas com deficiência e assistência temporária, enquanto um sistema de pensões foi estabelecido para pessoas nas áreas rurais em 2009 e nas áreas urbanas em 2011.</p>
<p>O subsídio de subsistência rural cresceu de 2.068 yuans para 5.962 yuans por ano de 2012 a 2020<a href="#_ftn52" name="_ftnref52"><sup>[52]</sup></a>; 9,36 milhões de pessoas foram contempladas por esses recursos ou por fundos de redução da pobreza extrema, e 60,98 milhões de pessoas recebem uma pensão básica. Esses programas cobrem quase 100% dos desempregados urbanos e rurais<a href="#_ftn53" name="_ftnref53"><sup>[53]</sup></a>.</p>
<p>No entanto, o sistema social da China está sob grande pressão. Diante do declínio das taxas de natalidade para 1,3 filho por mulher, de acordo com o último censo, e do envelhecimento da sociedade, o país registrou seu primeiro déficit na seguridade social no ano passado. O número de idosos (pessoas com mais de 60 anos) deve chegar a 300 milhões em 2025, e a população chinesa deve começar a encolher em 2050. A China está atualmente passando por reformas no sistema de pensões dos trabalhadores urbanos para lidar com o déficit previdenciário que pode chegar a 8 trilhões de yuans na próxima década<a href="#_ftn54" name="_ftnref54"><sup>[54]</sup></a>.</p>
<p>Reconhecendo que doenças e problemas de saúde são fatores-chave que causam a pobreza rural, a melhoria dos cuidados de saúde no campo tem sido fundamental para o programa  RPD. Para melhorar a assistência à saúde em áreas pobres, 1.007 hospitais líderes, que foram emparelhados com 1.172 hospitais municipais, enviaram 118 mil profissionais de saúde para estabelecer 53 mil projetos em todo o país. Esses médicos trataram 55 milhões de pacientes ambulatoriais e realizaram 1,9 milhão de cirurgias. Enquanto isso, 60 mil estudantes de medicina receberam treinamento gratuito em troca de trabalho em instituições médicas rurais após a formatura<a href="#_ftn55" name="_ftnref55"><sup>[55]</sup></a>.</p>
<p> </p>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Avaliação: como a redução da pobreza é medida?</strong> <a style="color: #ba2025;" href="#content">⤴</a></span></h2>
<p> </p>
<div style="background-color: #fefcf7;">
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-45932 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-%E2%80%93-1.png" alt="" width="950" height="51" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1-300x16.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1-768x41.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<p style="padding-left: 40px; padding-right: 40px;"><span style="color: #ba2025;">“As famílias com parentes imediatos que são quadros do vilarejo podem ser classificadas como pobres?, perguntam os alunos em uma sabatina com as autoridades locais de Pingbian Yi Ethnic Township. Estudantes e professores da Southwest University, em Chongqing, viajaram 300 quilômetros até a zona rural de Sichuan. Eles foram formados e designados pelo governo para avaliar os sucessos e deficiências dos esforços locais de redução da pobreza. Apenas na noite anterior, eles avisaram as autoridades locais dos vilarejos que desejavam inspecionar. Nessas verificações aleatórias, os alunos visitam as residências e registram as respostas do questionário em um aplicativo , analisam extratos bancários e certificados de avaliação de moradias, avaliam as condições das casas e verificam se os indicadores foram atendidos<a href="#_ftn56" name="_ftnref56"><sup>[56]</sup></a>.</span></p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-45932 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-%E2%80%93-1.png" alt="" width="950" height="51" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1-300x16.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Quote-–-1-768x41.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
</div>
<p>Realizar um programa dessa escala requer um sistema sofisticado de freios e contrapesos em todos os níveis e em todas as regiões. Desde 2016, uma avaliação tem sido realizada anualmente em nível nacional, liderada pelo Escritório de Redução da Pobreza do Conselho de Estado, pelo Departamento de Organização Central e unidades membros do Grupo de Líderes do Conselho de Estado para Redução da Pobreza e Desenvolvimento<a href="#_ftn57" name="_ftnref57"><sup>[57]</sup></a>. A tarefa é avaliar a eficácia da redução da pobreza em uma área, incluindo a confirmação da exatidão das informações sobre as famílias, a adequação das medidas tomadas e o uso apropriado dos recursos, entre outros fatores. A avaliação é realizada de três maneiras principais: avaliação cruzada interprovincial, avaliação de terceiros e monitoramento social.</p>
<p><strong>Avaliação cruzada interprovincial</strong>: vinte e duas províncias no centro e no oeste da China assinaram o acordo para examinar o trabalho, o progresso e a credibilidade do     s resultados relatados<a href="#_ftn58" name="_ftnref58"><sup>[58]</sup></a>. Cada província envia dezenas de quadros do Partido para realizar avaliações no local e averiguar se as famílias foram corretamente adicionadas ou removidas da lista de registro de pobreza, se a assistência adequada foi fornecida, quais problemas foram encontrados e quais lições foram aprendidas.</p>
<p><strong>Avaliação de terceiros</strong>: o Escritório de Estado para Redução da Pobreza e Desenvolvimento encarregou instituições de pesquisa científica e organizações sociais relevantes para verificar se um condado está realmente livre de pobreza, uma vez que tenha sido declarado assim pelas autoridades locais. Essas equipes conduzem pesquisas e verificações de campo para avaliar a confiabilidade dos dados. As agências avaliadoras terceirizadas são determinadas por meio de processo licitatório<a href="#_ftn59" name="_ftnref59"><sup>[59]</sup></a>. Ao longo do programa, um total de 22 agências terceirizadas pesquisaram 531 condados, mais de 3.200 aldeias e 116 mil famílias no campo.</p>
<p><strong>Monitoramento social:</strong> além das avaliações oficiais e de terceiros, o trabalho de redução da pobreza também foi monitorado por meio de verificações aleatórias realizadas por quadros. Por exemplo, visitas foram feitas a famílias pobres para ver se as situações foram relatadas com precisão, por exemplo, verificando as fontes de renda<a href="#_ftn60" name="_ftnref60"><sup>[60]</sup></a>.<a href="#_ftn61" name="_ftnref61"><sup>[61]</sup></a></p>
<p><strong>Resultados da avaliação</strong>: Os processos de avaliação sistemática revelaram problemas no programa de redução da pobreza, incluindo o fracasso em cumprir as metas anuais de redução, a má gestão de fundos, a falsificação de dados, a imprecisão na adição e remoção de famílias pobres da lista de registro e outras violações disciplinares<a href="#_ftn62" name="_ftnref62"><sup>[62]</sup></a>. Entre esses problemas está a corrupção que o Partido, sob a liderança do presidente Xi, abordou e criticou abertamente. Em 2018, a Comissão Central de Inspeção Disciplinar (CCID), o principal órgão disciplinar da China, estabeleceu uma campanha para combater a corrupção no programa de redução da pobreza. Desde que assumiu o cargo em 2013, Xi fez do combate à corrupção uma alta prioridade, visando não apenas os “peixes pequenos”, mas também os “grandes”. De 2012 ao primeiro semestre de 2020, mais de 3,2 milhões de funcionários foram punidos por crimes relacionados à corrupção<a href="#_ftn63" name="_ftnref63"><sup>[63]</sup></a>. De janeiro a novembro de 2020, o governo descobriu que um terço dos 161.500 casos de corrupção processados ​​– incluindo 18 funcionários de alto escalão – estavam ligados à redução da pobreza<a href="#_ftn64" name="_ftnref64"><sup>[64]</sup></a>. No processo de construção do socialismo, o combate à corrupção faz parte do trabalho contínuo da luta de classes, que responsabiliza aqueles que lucram ilegalmente com os cofres públicos. Não é de surpreender que a campanha anticorrupção tenha obtido amplo apoio popular, gerando confiança tanto no Partido quanto no governo para permanecer fiel ao mandato de servir ao povo.</p>
<p> </p>
<h2 id="part5_case-studies" style="margin:3em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Parte IV: Estudos de caso</strong><a style="color: #ba2025;" href="#content"> ⤴</a></span></h2>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Danyang Village</strong></span></h3>
<p>Com uma extensão de 18,9 quilômetros quadrados e uma população de 2.850 pessoas (825 famílias), Danyang é um dos maiores vilarejos do distrito de Wanshan na cidade de Tongren, província de Guizhou, no sudoeste da China. A pobreza em Danyang é resultado de uma variedade de fatores, incluindo falta de água, baixa produção agrícola, doenças, deficiências e falta de educação para as crianças. Visto que muitos jovens foram para as cidades em busca de emprego, as crianças e os idosos eram frequentemente deixados na aldeia.</p>
<p>Em agosto de 2018, o funcionário do governo distrital de 47 anos, Liu Yuanxue, foi enviado para a vila de Danyang, como primeiro secretário (um cargo de liderança local do Partido), para focar na redução da pobreza e no trabalho de construção do Partido. Desde 2013, mais de três milhões de primeiros secretários do Partido e 255 mil equipes foram enviados para todo o país para trabalhar no programa RPD por, pelo menos, dois anos.</p>
<p>Quando Liu chegou, ainda havia 137 famílias pobres (443 pessoas) das 825 do vilarejo. A organização do Partido ali (com 58 membros, incluindo um pobre, cinco mulheres e dezessete com mais de 60 anos) foi listada como uma das dezenas de milhares que precisavam ser fortalecidas.</p>
<p>De acordo com Liu, um total de 52 quadros do Partido foram despachados de governos municipais e distritais para ajudar as famílias pobres em Danyang. Espera-se que eles visitem cada família quatro vezes por semana e tratem de problemas que vão desde habitação e emprego a cuidados de saúde. “A organização do Partido deve assumir a liderança para que as questões sociais e de emprego possam ser abordadas”, disse Liu.</p>
<p>Em Danyang, os moradores costumavam trabalhar em seus próprios lotes de terra, mas em 2017 o vilarejo fundou uma cooperativa para desenvolver indústrias que vão desde a produção de vegetais e frutas a suinocultura e até mesmo ao comércio eletrônico. “A indústria rural crescerá mais rápido e melhor somente depois que os camponeses forem mobilizados e pequenas terras rurais dispersas forem combinadas com a agricultura em grande escala”, Liu nos disse. “Devemos também garantir que todos do vilarejo possam se beneficiar do desenvolvimento”.</p>
<p>Por exemplo, em 2017, 48 camponeses em Danyang assinaram um contrato de 10 anos com a cooperativa para arrendar seus 100 mu (equivalente a 6,7 hectare) de terra para construir estufas para vegetais. Os camponeses cobraram uma taxa anual de aluguel de 800 yuans por mu, e a cooperativa contratou 10 camponeses para administrar as estufas. Em 2020, um total de 242 mil yuans foi pago em dividendos      aos moradores. Em 2019, com um investimento de 4,8 milhões de yuans de subsídios governamentais e empréstimos a empresas, a cooperativa rural também estabeleceu uma fazenda de suínos de 13 mu, colaborando com a Wens Foodstuffs Group Co., Ltd. A empresa fornece tecnologia e suínos, enquanto a cooperativa, terras e funcionários. Cerca de 6 mil porcos serão criados todos os anos. Entre 2014 e 2018, 132 famílias, totalizando 431 pessoas, foram retiradas da pobreza. As últimas cinco famílias pobres, com onze pessoas, foram retiradas da pobreza em 2019.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Área de reassentamento de Wangjia</strong></span></h3>
<p>Com 663 mu (44,2 hectares) de terra, a comunidade Wangjia é a maior área de realocação em Tongren. Desde 2016, um total de 4.322 famílias (18.379 pessoas) foram realocadas de vilas rurais nos condados de Sinan, Shiqian e Yinjiang. 65% da comunidade pertence a dezoito grupos étnicos não-Han (a maioria dos chineses é de etnia Han). A comunidade é atendida por uma equipe de onze quadros, responsáveis ​​por todas as áreas da vida, do trabalho e da construção do Partido, a maioria dos quais é eleita pelos moradores a cada cinco anos.</p>
<p>Após a realocação, cada residente recebe 1.500 yuans em subsídio de subsistência e mais 3 mil yuans de compensação se a casa anterior foi demolida. Desse dinheiro, cada pessoa paga 2 mil yuans para receber um apartamento de vinte metros quadrados, o que equivale a 100 yuans por metro quadrado (inferior ao preço da habitação comercial de 4 mil yuans por metro quadrado em Tongren). As taxas de água, luz e gás estão isentas por seis meses.</p>
<p>O governo também construiu três jardins de infância, uma escola de ensino fundamental e uma de ensino médio com instalações de qualidade e com professores capacitados para educar cerca de 2.800 alunos. Os moradores, que costumavam gastar quarenta minutos de ônibus para chegar ao hospital ou pelo menos uma ou duas horas andando para chegar à escola, agora estão a cinco minutos a pé dos centros de saúde comunitários e das escolas.</p>
<p>Mas nem todos se adaptam facilmente à cidade após a mudança, especialmente os idosos que passaram quase toda a vida em vilarejos. A filial comunitária do Partido lançou o projeto “seis primeiros” para facilitar a adaptação à cidade, ensinando aos residentes recém-realocados habilidades, desde como usar faixas de pedestres e elevadores até como fazer compras no supermercado. Os alunos locais são organizados como “netos voluntários” para cuidar dos mais velhos, que por sua vez são incentivados com créditos que podem ser trocados por arroz para participar dessas atividades. Servir ao povo é um valor e uma prática cultivada entre jovens e idosos.</p>
<p>Para criar novos empregos, o governo local renovou um prédio de escritórios de três andares, que é chamado de minifábrica de redução da pobreza, para desenvolver a indústria. A minifábrica criou 600 empregos em seis empresas da comunidade, incluindo uma oficina de bordados, fábricas de roupas e um projeto de inteligência artificial sob a liderança do gigante tecnológico Alibaba. A comunidade também incentiva as mulheres rurais a encontrar empregos ou iniciar seus próprios negócios, gerando renda para suas famílias e, ao mesmo tempo, construindo sua confiança e senso de independência. Por exemplo, a Federação Feminina local ensina as mulheres a criar e vender seus artesanatos.</p>
<p>O proprietário de uma fábrica, Gong Changquan, cresceu em um condado próximo de Wangjia e saiu de casa em 1997 para trabalhar nas províncias de Guangdong e Fujian, no sudeste. Em 2017, com o incentivo do governo local, ele voltou para casa para contribuir com a redução da pobreza. Em junho de 2019, Gong, de 43 anos, com um investimento de 1,8 milhões de yuans de seu próprio dinheiro e 200 mil yuans em financiamento do governo, montou uma fábrica de 1.500 metros quadrados, que durante a alta temporada pode produzir diariamente em torno 5 mil peças de roupa para atender pedidos nacionais e internacionais. O pagamento de aluguéis também foi dispensado pelo governo por três anos. Gong contratou 67 trabalhadores da comunidade e paga a cada trabalhador de 2 mil a 3 mil yuans por mês, após dois meses de treinamento.</p>
<p>Em maio de 2021, mais de 98% das 7 mil pessoas em idade produtiva na comunidade de Wangjia estavam empregadas. Os 2% restantes incluem aqueles que cuidam de crianças e pessoas com deficiência. Houve apenas uma família – um casal com deficiência – que decidiu se mudar da área de realocação para seu vilarejo.</p>
<p> </p>
<div id="attachment_45888" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-45888" class="size-full wp-image-45888 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/8-Case-Studies-Danyang.jpg" alt="Greenhouses were introduced to stimulate the local agricultural industry in the village of Danyang, Wanshan District, Guizhou Province, April 2021. Credit: Xiang Wang" width="950" height="1052" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/8-Case-Studies-Danyang.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/8-Case-Studies-Danyang-271x300.jpg 271w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/8-Case-Studies-Danyang-925x1024.jpg 925w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/8-Case-Studies-Danyang-768x850.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-45888" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #ba2025;">Estufas foram introduzidas para estimular a agroindústria local no vilarejo de Danyang, distrito de Wanshan, província de Guizhou, abril de 2021.</span></small></p>
<p></p></div>
<p> </p>
<h2 id="part6_challenges-and-horizons" style="margin:3em 0;"><span style="color: #ba2025;">Parte V: Desafios e horizontes<a style="color: #ba2025;" href="#content"> ⤴</a></span></h2>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Desafios e o caminho à frente</strong></span></h3>
<p>Superar a pobreza extrema na China é uma conquista de tamanho e escala nunca vistos na história. Em vez de ser o ponto final, é uma fase na construção do socialismo que deve ser aprofundada e expandida. Para garantir a prosperidade no campo, o governo chinês apresentou um programa de revitalização rural para consolidar e expandir as conquistas na redução da pobreza. A modernização da produção agrícola, a proteção da segurança alimentar nacional, o desenvolvimento de terras aráveis ​​de alto padrão e a redução do fosso urbano-rural são essenciais entre os objetivos da revitalização rural<a href="#_ftn65" name="_ftnref65"><sup>[65]</sup></a><sup>.</sup></p>
<p>A China está a caminho de se tornar um país de alta renda em 2025, no final do período do 14º plano quinquenal (um país de alta renda é definido pelo Banco Mundial como aquele que tem uma renda nacional bruta per capita de mais de 12.696 dólares pelos padrões de 2020)<a href="#_ftn66" name="_ftnref66"><sup>[66]</sup></a>. O PIB per capita da China ultrapassou o limite de 10 mil dólares pela primeira vez em 2019, que foi mantido em 2020, apesar da pandemia<a href="#_ftn67" name="_ftnref67"><sup>[67]</sup></a>. Colocando em contexto, isso é um aumento de dez vezes nos últimos vinte anos, quando o PIB per capita do país era inferior a mil dólares. À medida que emerge para o status de alta renda e constrói uma sociedade moderadamente próspera (<em>xiaokang</em>), a China enfrenta uma nova era de desafios. O país não só precisa garantir que as pessoas retiradas da pobreza continuem fora; como também busca ir além do foco da mera sobrevivência (em outras palavras, ir além da pobreza extrema) e rumo à criação de um padrão de vida melhor para todos.</p>
<p>O foco do país agora mudou da pobreza extrema para a pobreza relativa, garantindo que mais pessoas possam participar e se beneficiar da vida social e econômica. Abordar a pobreza relativa foi um dos principais focos da Quarta Sessão Plenária do 19º Congresso do Comitê Central do Partido Comunista da China em 2019. Melhorar a assistência social e os serviços públicos, como acesso a cuidados para crianças e idosos, educação, emprego, saúde, e habitação são a chave para alcançar este objetivo de longo prazo e para processo contínuo de eliminação da pobreza<a href="#_ftn68" name="_ftnref68"><sup>[68]</sup></a><sup>.</sup></p>
<p>Quais são as implicações para o resto do mundo à medida que a China avança para a próxima fase histórica de eliminação da pobreza? A vitória histórica sobre a pobreza extrema e gestão da pandemia da Covid-19 não fornece um modelo que possa ser implantado diretamente em outros países, cada um com uma história específica e caminhos distintos a serem modelados. Em vez disso, a experiência da China oferece lições e inspiração para o mundo, especialmente para os países do Sul Global. A tarefa de “levantar” os pobres do mundo é um pilar fundamental da proposta da China de construir um “futuro compartilhado para a humanidade”<a href="#_ftn69" name="_ftnref69"><sup>[69]</sup></a>. Essa visão, defendida pelo presidente Xi, imagina um futuro baseado no multilateralismo e na prosperidade compartilhada frente à hegemonia ocidental.</p>
<p>Em suas relações internacionais, a China demonstrou sua prioridade de construir pontes e não intervenções militaristas, internacionalismo sanitário e não privatização e investimentos em infraestrutura e ajuda financeira sem contrapartidas. O gigante asiático oferece uma visão para o Sul Global que quinhentos anos de imperialismo e capitalismo ocidentais não conseguiram fornecer. De acordo com o Banco Mundial, o marco histórico da Iniciativa de Cinturão e Rota, ou Nova Rota da Seda, ajudará diretamente a retirar da pobreza extrema 7,6 milhões de pessoas nos países participantes e outros 32 milhões da pobreza moderada. A China está promovendo centenas de outros projetos baseados na cooperação multilateral em comércio, infraestrutura, indústria verde, educação, agricultura, saúde e intercâmbios entre povos que incentivam o desenvolvimento de países e de pessoas no Sul Global<a href="#_ftn70" name="_ftnref70"><sup>[70]</sup></a><sup>.</sup></p>
<p>“A redução da pobreza é a melhor história que a China pode contar, porque é muito rica e onipresente em termos de importância no mundo”, disse Robert Lawrence Kuhn, especialista em China e criador do documentário <em>Voices from the Frontline: China’s War on Poverty</em> (2020), em uma conversa com o Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. No entanto, a mídia controlada pelo Ocidente sufocou essas histórias e as impediu que chegassem a grande parte do mundo. Em um dos muitos exemplos, o documentário de Kuhn, produzido em conjunto pela PBS (EUA) e CGTN (China), foi retirado do ar por “não atender aos padrões aceitos de integridade editorial”, explicou Kuhn. “Tínhamos 4 mil visualizações na PBS, e a ironia é que a produção que causou muitos problemas foi a redução da pobreza, que era o tema mais neutro e benéfico para o mundo. É um sinal dos tempos. Não é um problema superficial, mas muito sério”.</p>
<p>Este estudo tem o objetivo trazer algumas dessas histórias, tanto daqueles que foram retirados – e se ergueram – da pobreza como daqueles que ajudaram a fazer o levantamento. Procura iluminar algumas das complexas teorias e práticas envolvidas neste feito histórico. Construir um mundo no qual a pobreza seja abolida é uma parte essencial da construção do socialismo. Poder estudar, ter uma casa, ser bem alimentado e desfrutar da cultura são aspirações compartilhadas pelas classes trabalhadoras e pobres em todo o mundo. Faz parte do processo de se tornar humano.</p>
<p> </p>
<div id="attachment_45899" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-45899" class="size-full wp-image-45899 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/9-Chalenges-and-horizons.jpg" alt="From the countryside to Tongren City, Guizhou Province, April 2021. Credit: Xiang Wang" width="950" height="1052" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/9-Chalenges-and-horizons.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/9-Chalenges-and-horizons-271x300.jpg 271w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/9-Chalenges-and-horizons-925x1024.jpg 925w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/9-Chalenges-and-horizons-768x850.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-45899" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #ba2025;">Do interior para a cidade de Tongren, província de Guizhou, abril de 2021.</span></small></p>
<p></p></div>
<p> </p>
<h3 id="epilogue" style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Epílogo</strong></span></h3>
<div style="background-color: #fefcf7;">
<p> </p>
<div style="padding: 0px 40px 40px 40px;">
<p><span style="color: #ba2025;">He Ying acorda todas as manhãs às 7h30, pronta para servir a sua comunidade de mais de 80 mil pessoas que se mudaram recentemente. Ela pega o filho mais novo na escola às 16h30, a cinco minutos a pé de seu apartamento. “Moro lá em cima, lá embaixo é onde eu trabalho”, ela nos conta. Quando ela ainda morava no vilarejo, a viagem de casa à escola costumava levar uma hora e meia para ela e seu filho irem e voltarem. Para ganhar renda para sua família, He Ying se tornou uma trabalhadora migrante na província de Guangdong, no sul. Durante esse tempo, o primeiro de seus dois filhos ficou no vilarejo sob os cuidados de sua mãe, que He Ying só podia visitar uma vez por ano. Esta é a realidade para milhões de “crianças deixadas para trás”<a style="color: #ba2025;" href="#_ftn71" name="_ftnref71"><sup>[71]</sup></a> no campo. Essa também é uma das principais razões pelas quais He Ying decidiu se mudar permanentemente para Wangjia quando a oportunidade surgiu, apesar da oposição inicial de sua mãe, pai e sogra.</span></p>
<p><span style="color: #ba2025;">“Alguns dos mais velhos voltaram para o vilarejo por alguns dias e depois ficaram definitivamente porque não sabiam como se adaptar à vida urbana”, disse ela. “Alguns não sabem atravessar a rua, outros não sabem usar elevadores”. Como uma pessoa pobre que se mudou, He Ying se tornou uma líder do Partido no processo de saída da pobreza. Ela agora é líder na comunidade de realocação de Wangjia, onde segurou as mãos de incontáveis ​​anciãos aprendendo a usar as faixas de pedestres e os elevadores.</span></p>
<p><span style="color: #ba2025;">O escritório do Partido na comunidade é decorado com fotos e palavras de ordem. Na parede, há um pôster que diz “The Loving Heart Station”, com fotos que mostram o apreço pelos trabalhadores que ministram aulas de culinária, programas de alfabetização e atividades culturais. Escrito em letras grandes está a frase de boas-vindas: “Descanse aqui quando estiver cansado; beba água aqui quando tiver sede, carregue seu telefone aqui quando estiver sem energia, aqueça sua comida aqui quando estiver fria”. Estávamos esperando para falar com He Ying quando uma senhora idosa entrou e começou a nos perguntar como acender o fogão a gás, já que ela nunca tinha possuído um antes, sem saber que éramos apenas visitantes.</span></p>
<p><span style="color: #ba2025;">Por meio da Federação Feminina de Toda a China, He Ying está ajudando a construir a confiança das mulheres camponesas recém-migradas, afim de superar os muitos desafios que enfrentam. Por meio de sua experiência pessoal, ela reconhece a difícil transição que as pessoas têm que fazer ao se mudarem do vilarejo para a cidade. Nos primeiros meses da mudança, o marido de He Ying ficou desconfortável ao testemunhar a independência recém-descoberta de sua esposa como líder. No entanto, ele mudou desde então, especialmente depois de testemunhar a mobilização da comunidade durante a luta contra a Covid-19.</span></p>
<p><span style="color: #ba2025;">“Eu disse [às mulheres locais] que as mulheres podiam segurar metade do céu”, disse He Ying. “Se pudessem trabalhar, teriam mais respeito de seus maridos e aliviariam o fardo [financeiro] de suas famílias”. A família de dez pessoas de He Ying, que morava em uma casa de 80 metros quadrados, agora vive em três apartamentos espaçosos, totalizando 200 metros quadrados. Eles vivem em uma comunidade com três jardins de infância bem equipados e bem atendidos, uma escola primária e uma escola secundária. Existem dois centros de saúde comunitários a uma caminhada de cinco minutos. Embora a mãe de He Ying ainda não esteja adaptada à vida urbana, e talvez nunca esteja, ela está encontrando seu caminho: “Aos poucos, estou me acostumando com a nova vida aqui. Pelo menos eu posso cozinhar refeições para as crianças”, ela nos disse. He Ying nos mostra um vídeo em seu celular de sua mãe levando uma fila de crianças atrás dela, todos os sete netos vivendo em um só lugar.</span></p>
<p><span style="color: #ba2025;">Um deles é o filho mais velho de He Ying, que ela teve que deixar para trás aos cuidados da mãe quando era uma trabalhadora migrante. Ele agora está estudando manutenção de elevadores em uma escola profissionalizante na cidade. “Espero que depois da formatura ele possa voltar e trabalhar em nossa comunidade para servir às pessoas”, diz. Ela diz que são necessários técnicos para fazer a manutenção dos 64 elevadores da comunidade, que muitas famílias estão aprendendo a usar.</span></p>
<p><span style="color: #ba2025;">He Ying tem fotos em seu telefone de sua velha casa de madeira em ruínas no vilarejo. Ela fala do vilarejo com lealdade, mas sem romantismo. “Vou levar meus filhos de volta para minha antiga vila para que possam se lembrar da vida de ontem e valorizar a vida de hoje”.</span></p>
</div>
</div>
<p> </p>
<div id="attachment_45910" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-45910" class="size-full wp-image-45910 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/10-Epilogue.jpg" alt="Deputy Secretary He Ying picks up her youngest son from school in the Wangjia community, Tongren City, Guizhou Province, April 2021. Credit: Xiang Wang" width="950" height="1052" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/10-Epilogue.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/10-Epilogue-271x300.jpg 271w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/10-Epilogue-925x1024.jpg 925w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/10-Epilogue-768x850.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-45910" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #ba2025;">Vice-secretária He Ying busca seu filho mais novo na escola na comunidade de Wangjia, cidade de Tongren, província de Guizhou, abril de 2021.</span></small></p>
<p></p></div>
<p> </p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Agradecimentos</strong></span></h3>
<p>Este estudo foi feito por Tings Chak (翟庭君), Li Jianhua (李建华), e Lilian Zhang (张丽萍). Xiang Wang (向往, fotografia) e Daniela Ruggeri (ilustração).</p>
<p> </p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Notas</strong></span></h3>
<p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1">[1]</a> ‘Xi Declares “Complete Victory” in Eradicating Absolute Poverty in China’, <em>Xinhua</em>, 26 February 2021, <a href="http://www.xinhuanet.com/english/2021-02/26/c_139767705.htm">http://www.xinhuanet.com/english/2021-02/26/c_139767705.htm</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref2" name="_ftn2">[2]</a> United Nations Secretary-General, ‘Helping 800 Million People Escape Poverty Was Greatest Such Effort in History, Says Secretary-General, on Seventieth Anniversary of China’s Founding’, <em>United Nations Press</em>, 26 September 2019, <a href="https://www.un.org/press/en/2019/sgsm19779.doc.htm">https://www.un.org/press/en/2019/sgsm19779.doc.htm</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref3" name="_ftn3">[3]</a> United Nations, Department of Economic and Social Affairs, <em>The Sustainable Development Goals Report 2020</em>, July 2020,</p>
<p><a href="https://unstats.un.org/sdgs/report/2020/The-Sustainable-Development-Goals-Report-2020.pdf">https://unstats.un.org/sdgs/report/2020/The-Sustainable-Development-Goals-Report-2020.pdf</a>; United Nations Development Program, <em>Assessing Impact of COVID-19 on the Sustainable Development Goals</em>, December 2020, <a href="https://sdgintegration.undp.org/sites/default/files/Flagship_1.pdf">https://sdgintegration.undp.org/sites/default/files/Flagship_1.pdf</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref4" name="_ftn4">[4]</a> United Nations Development Program, <em>Impact of Covid-19 on the Sustainable Development Goals</em>, December 2020, <a href="https://sdgintegration.undp.org/accelerating-development-progressduring-covid-19">https://sdgintegration.undp.org/accelerating-development-progressduring-covid-19</a><u>.</u></p>
<p><a href="#_ftnref5" name="_ftn5">[5]</a> Mao Zedong, ‘The Chinese People Have Stood Up!’ (21 September 1949) in <em>Selected Works of Mao Tse-Tung: Volume V</em> (Beijing: Foreign Languages Press, 1961).</p>
<p><a href="https://www.marxists.org/reference/archive/mao/selected-works/volume-5/mswv5_01.htm">https://www.marxists.org/reference/archive/mao/selected-works/volume-5/mswv5_01.htm</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref6" name="_ftn6">[6]</a> Zhao Hong, ‘China’s Contribution and Loss in War of Resistance Against Japanese Aggression’, <em>CGTN</em>, 13 August 2020, <a href="https://news.cgtn.com/news/2020-08-13/Graphics-China-s-role-in-World-War-II-SV53wLu7N6/index.html">https://news.cgtn.com/news/2020-08-13/Graphics-China-s-role-in-World-War-II-SV53wLu7N6/index.html</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref7" name="_ftn7">[7]</a> John Ross, <em>China’s Great Road: Lessons for Marxist Theory and Socialist Practices</em> (New York: 1804 Books, 2021), 86.</p>
<p><a href="#_ftnref8" name="_ftn8">[8]</a> Communist Party Member Net 共产党员网, ‘Dang zai 1949 nian zhi 1976 nian de lishi xing juda chengjiu’ 党在1949年至1976年的历史性巨大成就 [The Party’s historic great achievements between 1949 and 1976], 28 July 2016, <a href="http://fuwu.12371.cn/2016/07/28/ARTI1469667222557643.shtml">http://fuwu.12371.cn/2016/07/28/ARTI1469667222557643.shtml</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref9" name="_ftn9">[9]</a> Wang Sangui, <em>Poverty Alleviation in Contemporary China, </em>trans. Zhu Lili (Beijing: China Renmin University Press, 2019), 51.</p>
<p><a href="#_ftnref10" name="_ftn10">[10]</a> Phoenix News 凤凰网, ‘1949–1947 nian: Maozedong shidai zui you jiazhi de lishi yihan’ 1949―1976年：毛泽东时代最有价值的历史遗产, [1949-1976: The most valuable heritage of the Mao Zedong Era], 28 December 2009, <a href="http://news.ifeng.com/history/zhiqing/comments/200912/1228_6852_1490175_1.shtml">http://news.ifeng.com/history/zhiqing/comments/200912/1228_6852_1490175_1.shtml</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref11" name="_ftn11">[11]</a> Maurice Meisner, <em>Mao’s China and After: A History of the People’s Republic </em>(New York: Free Press, 1986), 437.</p>
<p><a href="#_ftnref12" name="_ftn12">[12]</a> Meng Yaping, ‘Fantastic Feats of China’s Space Odyssey’, <em>CGTN</em>, 19 April 2017, <a href="https://news.cgtn.com/news/3d45544f79557a4d/share_p.html">https://news.cgtn.com/news/3d45544f79557a4d/share_p.html</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref13" name="_ftn13">[13]</a> Deng Xiaoping, ‘Building a Socialism with a Specifically Chinese Character’ (30 June 1984) in <em>Selected Works of Deng Xiaoping, Volume III (1982-1992)</em> (Beijing: Foreign Languages Press, 1994), <a href="http://en.people.cn/dengxp/vol3/text/c1220.html">http://en.people.cn/dengxp/vol3/text/c1220.html</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref14" name="_ftn14">[14]</a> Ross, <em>China’s Great Road,</em> 57.</p>
<p><a href="#_ftnref15" name="_ftn15">[15]</a> The State Council Information Office of the People’s Republic of China, <em>Poverty Alleviation: China’s Experience and Contribution </em>(Beijing: Foreign Languages Press, April 2021), <a href="http://www.xinhuanet.com/english/2021-04/06/c_139860414.htm">http://www.xinhuanet.com/english/2021-04/06/c_139860414.htm</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref16" name="_ftn16">[16]</a> Singh, Anoop, Malhar S. Nabar, and Papa M. N’Diaye, <em>China’s Economy in Transition: From External to Internal Rebalancing</em> (International Monetary Fund, 7 November 2013), <a href="https://www.elibrary.imf.org/view/books/071/20454-9781484303931-en/20454-9781484303931-en-book.xml?language=en&amp;redirect=true">https://www.elibrary.imf.org/view/books/071/20454-9781484303931-en/20454-9781484303931-en-book.xml?language=en&amp;redirect=true</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref17" name="_ftn17">[17]</a> Xi Jinping, ‘Secure a Decisive Victory in Building a Moderately Prosperous Society in All Respects and Strive for the Great Success of Socialism with Chinese Characteristics for a New Era’, <em>China Daily</em>, 18 October 2017, <a href="https://www.chinadaily.com.cn/china/19thcpcnationalcongress/2017-11/04/content_34115212.htm">https://www.chinadaily.com.cn/china/19thcpcnationalcongress/2017-11/04/content_34115212.htm</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref18" name="_ftn18">[18]</a> United Nations, Department of Economic and Social Affairs, ‘Poverty eradication’, <em>Sustainable Development</em>, accessed 30 June 2021, <a href="https://sdgs.un.org/topics/poverty-eradication">https://sdgs.un.org/topics/poverty-eradication</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref19" name="_ftn19">[19]</a> ‘Three Regions’ refers to the Tibet Autonomous Region; the Tibetan areas of Qinghai, Sichuan, Gansu, and Yunnan provinces; and Hetian, Aksu, Kashi, and Kizilsu Kyrgyz in the south of Xinjiang Autonomous Region. ‘Three Prefectures’ refers to Liangshan prefecture in Sichuan, Nujiang prefecture in Yunnan, and Linxia prefecture in Gansu.</p>
<p><a href="#_ftnref20" name="_ftn20">[20]</a> CCTV中国中央电视台, ‘Zhongguo xianxing fupin biaozhun diyu shijie biaozhun? Guojia xiangcun zhenxing ju zheyang huiying’ 中国现行扶贫标准低于世界标准？国家乡村振兴局这样回应 [Is China’s current standard for poverty alleviation lower than the global standard? A response from the National Revitalisation Bureau], 6 April 2021, <a href="https://news.cctv.com/2021/04/06/ARTIKemhGKDmE36ukw0ypKPO210406.shtml">https://news.cctv.com/2021/04/06/ARTIKemhGKDmE36ukw0ypKPO210406.shtml</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref21" name="_ftn21">[21]</a> United Nations Development Programme and Oxford Poverty and Human Development Initiative, <em>Charting Pathways Out of Multidimensional Poverty: Achieving the SDGs</em>, July 2020, <a href="http://hdr.undp.org/sites/default/files/2020_mpi_report_en.pdf">http://hdr.undp.org/sites/default/files/2020_mpi_report_en.pdf</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref22" name="_ftn22">[22]</a> World Bank, <em>Poverty and Shared Prosperity 2020: Reversals of Fortune</em>, 2020, <a href="https://openknowledge.worldbank.org/bitstream/handle/10986/34496/9781464816024_Ch1.pdf">https://openknowledge.worldbank.org/bitstream/handle/10986/34496/9781464816024_Ch1.pdf</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref23" name="_ftn23">[23]</a> New China Research, <em>Chinese Poverty Alleviation Studies: A Political Economy Perspective</em> (Xinhua News Agency, 22 February 2021), <a href="http://www.xinhuanet.com/english/special/2021jpxbg.pdf">http://www.xinhuanet.com/english/special/2021jpxbg.pdf</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref24" name="_ftn24">[24]</a> Zhang Zhanbin et al., <em>Poverty Alleviation: Experience and Insights of the Communist Party of China</em> (Beijing: The Contemporary World Press, 2020), 139.</p>
<p><a href="#_ftnref25" name="_ftn25">[25]</a> New China Research, <em>Chinese Poverty Alleviation Studies</em>, 60.</p>
<p><a href="#_ftnref26" name="_ftn26">[26]</a> New China Research, <em>Chinese Poverty Alleviation Studies</em>, 77.</p>
<p><a href="#_ftnref27" name="_ftn27">[27]</a> ‘CPC membership grows to over 95 million’, <em>CGTN</em>, 30 June 2021, <a href="https://news.cgtn.com/news/2021-06-30/CPC-membership-grows-to-over-95-million-11vF0GvladG/index.html">https://news.cgtn.com/news/2021-06-30/CPC-membership-grows-to-over-95-million-11vF0GvladG/index.html</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref28" name="_ftn28">[28]</a> The State Council Information of the People’s Republic of China, <em>Poverty Alleviation: China’s Experience and Contribution</em> (Beijing: Foreign Languages Press, 2021), 35.</p>
<p><a href="#_ftnref29" name="_ftn29">[29]</a> The State Council, <em>Poverty Alleviation</em>, 48.</p>
<p><a href="#_ftnref30" name="_ftn30">[30]</a> The State Council, <em>Poverty Alleviation</em>, 35.</p>
<p><a href="#_ftnref31" name="_ftn31">[31]</a> Cunningham, Edward, Tony Saich, and Jesse Turiel, <em>Understanding CCP Resilience: Surveying Chinese Public Opinion Through Time</em> (Ash Center for Democratic Governance and Innovation, Harvard Kennedy School, July 2020): 2-6, <a href="https://ash.harvard.edu/files/ash/files/final_policy_brief_7.6.2020.pdf">https://ash.harvard.edu/files/ash/files/final_policy_brief_7.6.2020.pdf</a><u>.</u></p>
<p><a href="#_ftnref32" name="_ftn32">[32]</a> To learn more about how China handled the pandemic, read Tricontinental: Institute for Social Research’s study, <em>China and CoronaShock</em>: <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/estudos-2-coronavirus/">https://dev.thetricontinental.org/studies-2-coronavirus/</a><a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/estudos-2-coronavirus/">.</a></p>
<p><a href="#_ftnref33" name="_ftn33">[33]</a> Cary Wu, ‘Did the Pandemic Shake Chinese Citizens’ Trust in Their Government? We Surveyed Nearly 20,000 People to Find Out’, <em>Washington Post</em>, 5 May 2021, <a href="https://www.washingtonpost.com/politics/2021/05/05/did-pandemic-shake-chinese-citizens-trust-their-government/">https://www.washingtonpost.com/politics/2021/05/05/did-pandemic-shake-chinese-citizens-trust-their-government/</a><u>.</u></p>
<p><a href="#_ftnref34" name="_ftn34">[34]</a> The State Council, <em>Poverty Alleviation</em>, 56.</p>
<p><a href="#_ftnref35" name="_ftn35">[35]</a> Jiangsu University江苏大学, ‘Woxiao xiaoyou zha yingdong huoping quanguo tuopin gongjian xianjin geren’ 我校校友查颖冬获评全国脱贫攻坚先进个人 [Alumnus Zha Yingdong was awarded National Advanced Individual in the battle against poverty], 28 February 2021, <a href="https://mp.weixin.qq.com/s/wYjpAkhsQdzNx9NVa_XKDw">https://mp.weixin.qq.com/s/wYjpAkhsQdzNx9NVa_XKDw</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref36" name="_ftn36">[36]</a> The State Council, <em>Poverty Alleviation</em>, 57.</p>
<p><a href="#_ftnref37" name="_ftn37">[37]</a> Poverty Alleviation Network Exhibition 脱贫攻坚网络展, ‘Shehui dongyuan’ 社会动员 [Social mobilisation], accessed 3 May 2021, <a href="http://fpzg.cpad.gov.cn/429463/430986/431007/index.html">http://fpzg.cpad.gov.cn/429463/430986/431007/index.html</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref38" name="_ftn38">[38]</a> The State Council, Poverty Alleviation, 57.</p>
<p><a href="#_ftnref39" name="_ftn39">[39]</a> China Development Brief, ‘Hebian Village, a University Professor’s Experiment with Poverty Alleviation’, trans. Serena Chang et al., 25 December 2017, <a href="https://chinadevelopmentbrief.cn/reports/hebian-village-a-university-professors-experiment-with-poverty-alleviation/">https://chinadevelopmentbrief.cn/reports/hebian-village-a-university-professors-experiment-with-poverty-alleviation/</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref40" name="_ftn40">[40]</a> The State Council, <em>Poverty Alleviation</em>, 38.</p>
<p><a href="#_ftnref41" name="_ftn41">[41]</a> The State Council of the People’s Republic of China中华人民共和国国务院, ‘Guowuyuan xinwenban jiu chanye fupin jinzhan chengxiao juxing fabuhui’ 国务院新闻办就产业扶贫进展成效举行发布会 [State Council Information Office held a news conference on the progress and achievements of industrial poverty alleviation], 16 December 2020, <a href="http://www.gov.cn/xinwen/2020-12/16/content_5569989.htm">http://www.gov.cn/xinwen/2020-12/16/content_5569989.htm</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref42" name="_ftn42">[42]</a> Qiuping, Lyu, Qu Guangyu, and Wang Di, ‘China Focus: Relocated Villagers Leave Poverty on Clifftop’, <em>Xinhua</em>, 14 May 2020, <a href="http://www.xinhuanet.com/english/2020-05/14/c_139056868.htm">http://www.xinhuanet.com/english/2020-05/14/c_139056868.htm</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref43" name="_ftn43">[43]</a> Kong Wenzheng, ‘Alibaba-linked Ant Forest Wins Top UN Green Award’, <em>China Daily Global</em>, 2 October 2019), <a href="http://www.chinadaily.com.cn/global/2019-10/02/content_37513688.htm">http://www.chinadaily.com.cn/global/2019-10/02/content_37513688.htm</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref44" name="_ftn44">[44]</a> The State Council, <em>Poverty Alleviation</em>, 40.</p>
<p><a href="#_ftnref45" name="_ftn45">[45]</a> Food and Agriculture Organisation of the United Nations, <em>Global Forest Resources Assessment 2020: Main Report</em>, 2020, <a href="http://www.fao.org/3/ca9825en/ca9825en.pdf">http://www.fao.org/3/ca9825en/ca9825en.pdf</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref46" name="_ftn46">[46]</a> Bu Shi and Geng Zhibin, ‘In Tibet: The Road to Modern Education’, <em>CGTN</em>, 22 March 2019, <a href="https://news.cgtn.com/news/3d3d514d3149544e33457a6333566d54/index.html">https://news.cgtn.com/news/3d3d514d3149544e33457a6333566d54/index.html</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref47" name="_ftn47">[47]</a> The State Council Information Office of the People’s Republic of China, <em>Tibet Since 1951: Liberation, Development and Prosperity</em>, May 2021, <a href="http://www.xinhuanet.com/english/2021-05/21/c_139959978.htm">http://www.xinhuanet.com/english/2021-05/21/c_139959978.htm</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref48" name="_ftn48">[48]</a> The State Council, <em>Poverty Alleviation</em>, 41-42.</p>
<p><a href="#_ftnref49" name="_ftn49">[49]</a> National Bureau of Statistics of China, ‘Main Data of the Seventh National Population Census’, 11 May 2021, <a href="http://www.stats.gov.cn/english/PressRelease/202105/t20210510_1817185.html">http://www.stats.gov.cn/english/PressRelease/202105/t20210510_1817185.html</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref50" name="_ftn50">[50]</a> Xing Wen, ‘First-generation College Attendees Can Face Varying Degrees of Success’, <em>China Daily</em>, 20 May 2020, <a href="https://www.chinadaily.com.cn/a/202005/20/WS5ec49a58a310a8b241157060.html">https://www.chinadaily.com.cn/a/202005/20/WS5ec49a58a310a8b241157060.html</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref51" name="_ftn51">[51]</a> Crotti, Robert, T. Geiger, V. Ratcheva, and S. Zahidi, <em>Global Gender Gap Report 2020</em> (World Economic Forum, December 2020), <a href="http://www3.weforum.org/docs/WEF_GGGR_2020.pdf">http://www3.weforum.org/docs/WEF_GGGR_2020.pdf</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref52" name="_ftn52">[52]</a> Yang Lixiong, ‘The Social Assistance Reform in China: Towards a Fair and Inclusive Social Safety Net’, <em>Addressing Inequalities and Challenges to Social Inclusion through Fiscal, Wage and Social Protection Policies</em>, UN Commission for Social Development, June 2018, <a href="https://www.un.org/development/desa/dspd/wp-content/uploads/sites/22/2018/06/The-Social-Assistance-Reform-in-China.pdf">https://www.un.org/development/desa/dspd/wp-content/uploads/sites/22/2018/06/The-Social-Assistance-Reform-in-China.pdf</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref53" name="_ftn53">[53]</a> Jennifer Golan et al., ‘Unconditional Cash Transfers in China: Who Benefits from the</p>
<p>Rural Minimum Living Standard Guarantee (Dibao) Program?’, <em>World Development </em>93, (May 2017): 316-336, <a href="http://dx.doi.org/10.1016/j.worlddev.2016.12.011">http://dx.doi.org/10.1016/j.worlddev.2016.12.011</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref54" name="_ftn54">[54]</a> The State Council, <em>Poverty Alleviation</em>, 42.</p>
<p><a href="#_ftnref55" name="_ftn55">[55]</a> The State Council, <em>Poverty Alleviation,</em> 44.</p>
<p><a href="#_ftnref56" name="_ftn56">[56]</a> Guo Yingzhe and Wu Yujian, ‘China Promotes Private Retirement Savings to Shore Up Strained Pension System’, <em>Caixin Global</em>, 17 May 2021, <a href="https://www.caixinglobal.com/2021-05-17/china-promotes-private-retirement-savings-to-shore-up-strained-pension-system-101714140.html">https://www.caixinglobal.com/2021-05-17/china-promotes-private-retirement-savings-to-shore-up-strained-pension-system-101714140.html</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref57" name="_ftn57">[57]</a> The State Council<em>, Poverty Alleviation</em>, 44.</p>
<p><a href="#_ftnref58" name="_ftn58">[58]</a> <em>Voices from the Frontline: China’s War on Poverty</em>, CGTN/PBS, 14 December 2020, <a href="https://news.cgtn.com/news/2020-12-14/China-s-war-on-poverty-WdOsyyVGhy/index.html">https://news.cgtn.com/news/2020-12-14/China-s-war-on-poverty-WdOsyyVGhy/index.html</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref59" name="_ftn59">[59]</a> Zhonggong zhongyang bangongting guowuyuan bangongting yinfa, ‘shengji dangwei he zhengfu fupin kaifa gongzuo chengxiao kaohe banfa’ 中共中央办公厅 国务院办公厅印发《省级党委和政府扶贫开发工作成效考核办法》[General office of CPC Central Committee and general office of State Council issued ‘measures for assessing the effectiveness of poverty alleviation and development of provincial party committee and government’],<em> Xinhua </em>新华社, 16 February 2016, <a href="http://www.gov.cn/xinwen/2016-02/16/content_5041672.htm">http://www.gov.cn/xinwen/2016-02/16/content_5041672.htm</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref60" name="_ftn60">[60]</a> Zhang Ge张歌 and Wu Zhenguo伍振国, ‘Guowuyuan fupin ban: Tuopin gongjian yao shixing zui yange de kaohe pinggu zhidu jing de qi lishi jianyan’ 国务院扶贫办：脱贫攻坚要实行最严格的考核评估制度 经得起历史检验 [State Council poverty alleviation office: the strictest assessment and evaluation system be implemented in the battle against poverty to withstand the test of history], <em>People’s Daily</em>人民日报, 7 March 2017, <a href="http://rmfp.people.com.cn/n1/2017/0307/c406725-29129889.html">http://rmfp.people.com.cn/n1/2017/0307/c406725-29129889.html</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref61" name="_ftn61">[61]</a> ‘Third-party Inspector of Poverty Relief Work’, <em>CGTN</em>, 9 February 2021, <a href="https://news.cgtn.com/news/2021-02-08/Third-party-inspector-of-poverty-relief-work-XHYpliv4BO/index.html">https://news.cgtn.com/news/2021-02-08/Third-party-inspector-of-poverty-relief-work-XHYpliv4BO/index.html</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref62" name="_ftn62">[62]</a> ‘2020 nian guojia jingzhun fupin gongzuo chengxiao disanfang pinggu qidong’ 2020年国家精准扶贫工作成效第三方评估启动[A third-party assessment was launched on the effectiveness of the national targeted poverty alleviation in 2020], <em>Science Forum </em>科学大讲坛, 1 December 2020, <a href="https://www.sohu.com/a/435632363_120873446">https://www.sohu.com/a/435632363_120873446</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref63" name="_ftn63">[63]</a> ‘Shaanxi shengwei shuji anfang tuopin gongjian gongzuo beihou you he shenyi’ 陕西省委书记暗访脱贫攻坚工作 背后有何深意？[Secretary of Shaanxi Provincial Party Committee investigated the battle against poverty in secret. What is the meaning behind this?], <em>People’s Daily </em>人民日报/<em>CCTV</em> 中央电视台, 20 April 2017, <a href="http://news.cctv.com/2017/04/20/ARTI1WIPSScfr4SZwCTnRNix170420.shtml">http://news.cctv.com/2017/04/20/ARTI1WIPSScfr4SZwCTnRNix170420.shtml</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref64" name="_ftn64">[64]</a> ‘Jiedu shengji fupin chengxiao kaohe banfa sida kandian’解读省级扶贫成效考核办法四大看点 [Explaining the four highlights of the province-level measures for assessing the effectiveness of poverty alleviation], <em>Xinhua</em> 新华网, 17 February 2016, <a href="http://www.cpad.gov.cn/art/2016/2/17/art_624_45014.html">http://www.cpad.gov.cn/art/2016/2/17/art_624_45014.html</a>.</p>
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<p><a href="#_ftnref66" name="_ftn66">[66]</a> ‘China Vows Unremitting Fight Against Corruption’, <em>CGTN</em>, 24 January 2021, <a href="https://news.cgtn.com/news/2021-01-24/China-s-discipline-authorities-adopt-communique-at-5th-plenary-session-XjqWdSURI4/index.html">https://news.cgtn.com/news/2021-01-24/China-s-discipline-authorities-adopt-communique-at-5th-plenary-session-XjqWdSURI4/index.html</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref67" name="_ftn67">[67]</a> Weiduo, Shen, Cao Siqi, and Zhang Hongpei, ‘No. I Central Document Vows Rural Revitalization’, <em>Global Times</em>, 22 February 2021, <a href="https://www.globaltimes.cn/page/202102/1216103.shtml">https://www.globaltimes.cn/page/202102/1216103.shtml</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref68" name="_ftn68">[68]</a> World Bank, ‘World Bank Country Data and Lending Groups’, accessed 3 July 2021, <a href="https://datahelpdesk.worldbank.org/knowledgebase/articles/906519#High_income">https://datahelpdesk.worldbank.org/knowledgebase/articles/906519#High_income</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref69" name="_ftn69">[69]</a> ‘China’s GDP per Capital Just Passed $10,000, but What Does This Mean?’<em>, CGTN</em>, 17 January 2020, <a href="https://news.cgtn.com/news/2020-01-17/China-s-GDP-per-capita-just-passed-10-000-but-what-does-this-mean--NkvMWAMYNO/index.html">https://news.cgtn.com/news/2020-01-17/China-s-GDP-per-capita-just-passed-10-000-but-what-does-this-mean–NkvMWAMYNO/index.html</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref70" name="_ftn70">[70]</a> ‘Communiqué of the Fourth Plenary Session of the 19th Central Committee of the Communist Party of China’, <em>Xinhua</em>, 31 October 2019, <a href="http://news.xmnn.cn/xmnn/2019/10/31/100620623.shtml">http://news.xmnn.cn/xmnn/2019/10/31/100620623.shtml</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref71" name="_ftn71">[71]</a> ‘Why President Xi Strongly Advocates Building Community with Shared Future’, <em>Xinhua</em>, 22 September 2020, <a href="http://www.xinhuanet.com/english/2020-09/22/c_139388123.htm">http://www.xinhuanet.com/english/2020-09/22/c_139388123.htm</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref72" name="_ftn72">[72]</a> The State Council, <em>Poverty Alleviation</em>, 62.</p>
<p><a href="#_ftnref73" name="_ftn73">[73]</a> Wang Xiaonan, ‘Will China’s Left-behind Children Escape the Prosperity Paradox?’, <em>CGTN</em>, 7 March 2019, <a href="https://news.cgtn.com/news/3d3d414e3349544d33457a6333566d54/index.html">https://news.cgtn.com/news/3d3d414e3349544d33457a6333566d54/index.html</a>.</p>
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