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	<title>Arquivo de Pesquisa sobre os Evangélicos e a Política - Tricontinental: Institute for Social Research | Tricontinental: Institute for Social Research</title>
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	<description>international, movement-driven institution focused on stimulating intellectual debate that serves people’s aspirations.</description>
	<lastBuildDate>Mon, 17 Mar 2025 17:38:42 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-PT</language>
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		<title>Entenda a pesquisa sobre os evangélicos e a política</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/entenda-a-pesquisa-sobre-os-evangelicos-e-a-politica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luiz]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 26 Feb 2025 12:35:46 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[O que levou as pessoas, especialmente a classe trabalhadora mais empobrecida, a seguirem as igrejas evangélicas nas últimas décadas? Esta é uma das perguntas que a Pesquisa Evangélicos e a Política buscou responder nos últimos anos.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/brasil/pesquisas/futuro/observatorio-dos-neopentecostais-na-politica/">pesquisa Evangélicos e a Política</a> buscou compreender as principais motivações (objetivas e subjetivas) que levam as pessoas – principalmente a classe trabalhadora mais empobrecida – a seguirem as igrejas evangélicas, principalmente as neopentecostais, assim como aprofundar o tema dentro da realidade latino-americana e suas implicações políticas e sociais. Além disso, a pesquisa também procurou dialogar com o campo progressista de que esse é um tema inevitável para avançar no trabalho de base e no diálogo com a classe trabalhadora. Aqui, você encontra uma pequena síntese do que este eixo de pesquisa do escritório Brasil do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social conseguiu acumular nos últimos anos sobre o tema.</p>
<h2 style="margin:3em 0;">Trabalho de Base</h2>
<p>Você sabia que o trabalho de base é uma ação política essencial, feita por militantes em territórios populares? Se grande parte da classe trabalhadora hoje é evangélica, como realizar esse trabalho de forma eficaz? Com essas questões em mente, o Instituto Tricontinental de Pesquisa Social e movimentos populares lançaram a cartilha <a href="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/02/20220202_Evang.pdf"><em>Resistir com Fé: os evangélicos e o trabalho de base</em></a>, em 2021. Ela é um ponto de partida fundamental para quem atua nas periferias, já que 30% da população brasileira é evangélica. Necessitamos ir além do discurso “precisamos falar com os evangélicos”. Se estamos dialogando com a classe trabalhadora, já estamos em contato com eles; senão, estamos presos numa bolha que precisa ser rompida. A cartilha resgata a historicidade dos evangélicos no Brasil, desmistifica preconceitos da esquerda e reconhece que as igrejas são espaços de acolhimento e lazer, além de abordar as percepções mútuas entre a esquerda e os evangélicos. Márcia Silva, do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras por Direitos (MTD), também contribui com um relato sobre o trabalho de base realizado durante a pandemia pelo Grupo de Trabalho de Espiritualidade na Campanha de Solidariedade Nós por Nós contra o Coronavírus – Periferia Viva DF, que você pode<a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/brasil/um-resgate-uma-partilha-desafios-e-acumulos-do-trabalho-de-base-com-evangelicos/"> conferir aqui</a>.</p>
<p><a href="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/02/20220202_Evang.pdf"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-119946 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/02/1_Trabalho-de-Base.jpg" alt="" width="950" height="678" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/02/1_Trabalho-de-Base.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/02/1_Trabalho-de-Base-300x214.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/02/1_Trabalho-de-Base-768x548.jpg 768w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px"></a></p>
<h2 style="margin:3em 0;">Evangélicos e movimentos sociais</h2>
<p>Dentro do desafio de diálogo e trabalho de base, as pautas de gênero sempre emergem com força quando relacionadas aos evangélicos. Para aprofundar essa questão, realizamos a escuta de 15 mulheres evangélicas que integram o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). O estudo,<a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/brasil/quando-a-fe-encontra-a-luta-as-vozes-das-mulheres-evangelicas-do-mst/"> dividido em quatro partes</a>, foi desenvolvido com base em entrevistas realizadas durante o primeiro Encontro Nacional das Mulheres Sem Terra, em março de 2020. A partir dessa vivência e dos aprendizados compartilhados, buscamos mostrar que a fé evangélica e os movimentos populares podem se unir na luta por terra, justiça e dignidade, apesar das possíveis contradições. Para compreender melhor a relação entre gênero, religião e MST, também foram realizadas entrevistas com dirigentes do movimento de diferentes regiões do país.</p>
<p><a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/brasil/quando-a-fe-encontra-a-luta-as-vozes-das-mulheres-evangelicas-do-mst/"><img decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-119936 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/02/2_Evangelicos-e-movimentos-sociais.jpg" alt="" width="950" height="678" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/02/2_Evangelicos-e-movimentos-sociais.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/02/2_Evangelicos-e-movimentos-sociais-300x214.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/02/2_Evangelicos-e-movimentos-sociais-768x548.jpg 768w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px"></a></p>
<h2 style="margin:3em 0;">Projeto de Poder</h2>
<p>É importante destacar, como diria uma companheira do MST, que “a igreja é muita coisa”. Isso significa que, além de espaços de fé e acolhimento, há um projeto de poder articulado por alguns grupos evangélicos no Brasil. Esse projeto avança em áreas como políticas públicas, educação, saúde e outros espaços de poder, guiado pela chamada Teologia do Domínio, que tenta impor suas crenças e valores. Estamos falando do Fundamentalismo Religioso, um fenômeno que vai além do Brasil e se espalha por toda a América Latina, com raízes nos Estados Unidos. Quer entender mais sobre esse tema e as resistências que estão acontecendo? Confira nosso dossiê 59 sobre o assunto: <em><a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-59-fundamentalismo-religioso-e-imperialismo-latinoamerica/">Fundamentalismo e Imperialismo na América Latina: Ações e Resistências</a></em>.</p>
<p><a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-59-fundamentalismo-religioso-e-imperialismo-latinoamerica/"><img decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-119926 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/02/3_Projeto-de-Poder.jpg" alt="" width="950" height="678" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/02/3_Projeto-de-Poder.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/02/3_Projeto-de-Poder-300x214.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/02/3_Projeto-de-Poder-768x548.jpg 768w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px"></a></p>
<h2 style="margin:3em 0;">Articulação latino-americana</h2>
<p>Na busca por aprofundar as relações latino-americanas, foi essencial olhar atentamente os desdobramentos nos territórios, desconstruindo a visão limitada sobre os evangélicos e compreendendo a importância das igrejas na vida cotidiana da classe trabalhadora. O Instituto Tricontinental, em parceria com o <a href="https://otroscruces.org/">Otros Cruces</a> — uma organização que explora as interseções entre religião e política no espaço público —, procurou entender como as pessoas de fé pensam sobre direitos humanos e lutas sociais e refletiu sobre como construir pontes entre militantes e pessoas de fé nas comunidades e nos diferentes espaços onde os entrevistados estão inseridos, seja na Argentina, Brasil, Chile e Honduras. Essa pesquisa se tornou um livro, em português e espanhol, que você pode <a href="https://otroscruces.org/portfolio/evangelicos-e-politica-tricontinental-y-otros-cruces/">baixar gratuitamente aqui</a>.</p>
<p><a href="https://otroscruces.org/portfolio/evangelicos-e-politica-tricontinental-y-otros-cruces/"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-119916 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/02/4_Articulacao-latino-americana.jpg" alt="" width="950" height="678" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/02/4_Articulacao-latino-americana.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/02/4_Articulacao-latino-americana-300x214.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/02/4_Articulacao-latino-americana-768x548.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></a></p>
<h2 style="margin:3em 0;">Como os evangélicos ocuparam as mídias</h2>
<p>Na tarefa de desvendar o mundo evangélico, acompanhamos diariamente ao longo de dois anos as notícias sobre os evangélicos e sistematizamos mensalmente o que apareceu em diversas mídias – tanto conservadoras quanto progressistas. Ali pudemos comprovar que o mundo evangélico é diverso e heterogêneo, assim como as ações do campo progressista evangélico na luta pelos direitos das mulheres, da população LGBTQIOA+, contra o racismo religioso, a solidariedade crente nos territórios periféricos, além da forma de ação dos evangélicos fundamentalistas no governo Bolsonaro e os crimes cometidos contra religiões de matriz africana e contra as espiritualidades originárias. O <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/brasil/pesquisas/futuro/observatorio-dos-neopentecostais-na-politica/">Observatório</a> foi um exercício diário de aproximação e revisão crítica também das visões distorcidas que temos enquanto esquerda dos evangélicos (muitas vezes colocados como vilões, sem considerar suas diversidades e múltiplas identidades).</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-119906 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/02/5_Como-os-evangelicos-ocuparam-as-midias.jpg" alt="" width="950" height="678" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/02/5_Como-os-evangelicos-ocuparam-as-midias.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/02/5_Como-os-evangelicos-ocuparam-as-midias-300x214.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/02/5_Como-os-evangelicos-ocuparam-as-midias-768x548.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<h2 style="margin:3em 0;">Artigos nas mídias alternativas</h2>
<p>A partir desse olhar cotidiano sobre a conjuntura e na tarefa de avançar na Batalha de Ideias, em alguns momentos trouxemos o nosso olhar sobre o tema nas mídias progressistas, com artigos no <a href="https://www.brasildefato.com.br/colunistas/instituto-tricontinental">Brasil de Fato</a>, <a href="https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/">Carta Capital</a> e<a href="https://jornalggn.com.br/politica/eleicoes-politica/evangelicos-eleicoes-e-trabalho-de-base-por-delana-corazza/"> Jornal GGN</a>. Destacamos o texto sobre <a href="https://www.brasildefato.com.br/2020/11/13/cristofobia-projeto-de-poder-e-as-resistencias-da-luta-crista">Cristofobia</a>, em resposta direta a uma ideia falaciosa de perseguição dos cristãos emitida pelo então presidente Jair Bolsonaro. Também debatemos as <a href="https://jornalggn.com.br/politica/eleicoes-politica/as-duas-facetas-da-religiao-alienacao-e-forca-transformadora-por-delana-corazza/">eleições</a> em diversos textos nesses canais – insistindo que não há um ‘voto evangélico”, mas que esse voto é da classe trabalhadora, ou seja, está sempre em disputa. E temos uma coluna mensal na Carta Capital para debater este tema, com destaque para a defesa de que hoje <a href="https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/biblia-o-livro-da-classe-trabalhadora/">a Bíblia é o livro da classe trabalhadora</a> e, por isso, temos a tarefa urgente de compreendê-la para ampliar o diálogo com o povo.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-119896 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/02/6_Materias-diversas-nas-midias-alternativas.jpg" alt="" width="950" height="678" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/02/6_Materias-diversas-nas-midias-alternativas.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/02/6_Materias-diversas-nas-midias-alternativas-300x214.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/02/6_Materias-diversas-nas-midias-alternativas-768x548.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<h2 style="margin:3em 0;">Metodologia de pesquisa</h2>
<p>Os materiais produzidos pela pesquisa só foram possíveis pela relação direta que tivemos ao longo dos últimos cinco anos com os movimentos populares, em destaque para o MST e o MTD. A pesquisa contou com uma coordenação política pedagógica diversa, contemplando o campo teórico-científico e o campo popular que instigou novas perguntas e esteve no cotidiano do processo da nossa investigação. Compreender as demandas concretas dos movimentos sociais referente ao tema ampliou nosso horizonte de atuação e nos auxiliou em reflexões que foram fundamentais para avançar do ponto de vista teórico e científico. O tempo da pesquisa e o tempo da política obviamente são desafios concretos nesse sentido, mas, felizmente, contamos com o compromisso de um coletivo que soube entender o papel de cada um na busca desse conhecimento. Uma parte dessa experiência foi contada no texto <em><a href="https://resg.thetricontinental.org/index.php/resg/article/view/38">Ciência Popular e Transformação Social da Revista Estudos do Sul Global</a></em>, organizado pelo Instituto Tricontinental. Neste texto, junto a outras pesquisas do Instituto, abordamos “como fazemos o que fazemos”, não como uma receita pronta, mas um chamado para pensarmos novas formas de fazer pesquisa a partir do nosso chão: periférico, diverso, popular e latino-americano.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-119886 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/02/7_Metodologia-de-pesquisa.jpg" alt="" width="521" height="780" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/02/7_Metodologia-de-pesquisa.jpg 521w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/02/7_Metodologia-de-pesquisa-200x300.jpg 200w" sizes="auto, (max-width: 521px) 100vw, 521px"></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Estudo sobre espiritualidade e movimentos sociais na América Latina</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/estudo-sobre-espiritualidade-e-movimentos-sociais-na-america-latina/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luiz]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 06 Sep 2023 13:08:06 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[O que levou as pessoas, especialmente a classe trabalhadora mais empobrecida, a seguirem as igrejas evangélicas nas últimas décadas? Esta é uma das perguntas que a Pesquisa Evangélicos e a Política buscou responder nos últimos anos.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><a href="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/09/Publicacion-PORTUGUES.pdf"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-85335 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/09/WhatsApp-Image-2023-09-04-at-13.13.541.jpeg" alt="" width="1600" height="1600" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/09/WhatsApp-Image-2023-09-04-at-13.13.541.jpeg 1600w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/09/WhatsApp-Image-2023-09-04-at-13.13.541-300x300.jpeg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/09/WhatsApp-Image-2023-09-04-at-13.13.541-1024x1024.jpeg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/09/WhatsApp-Image-2023-09-04-at-13.13.541-150x150.jpeg 150w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/09/WhatsApp-Image-2023-09-04-at-13.13.541-768x768.jpeg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/09/WhatsApp-Image-2023-09-04-at-13.13.541-1536x1536.jpeg 1536w" sizes="auto, (max-width: 1600px) 100vw, 1600px"></a></p>
<p> </p>
<p>A importância das espiritualidades na cena global contemporânea é um fato irrefutável. Na América Latina, dificilmente é viável isolar a religiosidade das profundas mutações da sociedade civil: a religião no nosso continente é, acima de tudo, uma prática persistente e de massa. Na América Latina e no Caribe, a fé é vivida no espaço público, na intimidade do lar, nos mais diversos grupos e coletivos; talvez por esta razão, abraçar a pluralidade de religiões e as politizações derivadas seja um desafio central, tanto para as ciências sociais e humanas, como para o universo das organizações populares e dos movimentos sociais latino-americanos.</p>
<p>Neste sentido, o Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, a Otros Cruces e o Centro de Educación, Formación e Investigación Campesina (CEFIC) lançam o relatório <a href="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/09/Publicacion-PORTUGUES.pdf"><em>EVANGÉLICOS E POLÍTICA | Estudos sobre espiritualidade e movimentos sociais na América Latina</em></a>, que tem como objetivo analisar a relação entre fé e movimentos sociais no nosso continente.</p>
<p>Por meio de entrevistas com ativistas de movimentos sociais, religiosos e pessoas envolvidas em comunidades evangélicas, ele explora as maneiras pelas quais as crenças religiosas influenciam a participação política dos movimentos sociais, bem como as principais formas pelas quais os movimentos percebem e usam a religião em sua luta pelos direitos humanos. Também examina como as práticas religiosas cotidianas se relacionam com a construção da identidade e a resistência à opressão na América Latina e no Caribe. Este relatório é uma ferramenta valiosa para entender melhor as complexas interações entre religião, espiritualidade e política em nossa região.</p>
<p><a href="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/09/Publicacion-PORTUGUES.pdf" target="_blank" rel="noopener" data-saferedirecturl="https://www.google.com/url?q=https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/09/Publicacion-PORTUGUES.pdf&amp;source=gmail&amp;ust=1694092371277000&amp;usg=AOvVaw0V6XkDyf7DcnD_mHkaG73B">Clique aqui</a> para ler a íntegra do relatório em português e <a href="https://otroscruces.org/portfolio/evangelicos-y-politica-tricontinental/" target="_blank" rel="noopener" data-saferedirecturl="https://www.google.com/url?q=https://otroscruces.org/portfolio/evangelicos-y-politica-tricontinental/&amp;source=gmail&amp;ust=1694092371277000&amp;usg=AOvVaw2rxZnTF4KUAJmnFfHHWsmQ">aqui </a>em espanhol.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Igrejas evangélicas e a política no Brasil</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/igrejas-evangelicas-e-a-politica-no-brasil/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luiz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 10 Aug 2023 14:07:46 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Por meio de entrevistas com ativistas de movimentos sociais, religiosos e pessoas envolvidas em comunidades evangélicas, este relatório explora as maneiras pelas quais as crenças religiosas influenciam a participação política dos movimentos sociais, bem como as principais formas pelas quais os movimentos percebem e usam a religião em sua luta pelos direitos humanos.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_84267" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-84267" class="wp-image-84267 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/08/Rovena-Rosa-1024x613-1.jpg" alt="" width="1024" height="613" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/08/Rovena-Rosa-1024x613-1.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/08/Rovena-Rosa-1024x613-1-300x180.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/08/Rovena-Rosa-1024x613-1-768x460.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-84267" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Público da Marcha para Jesus, na praça Heróis da FEB, Santana, zona norte de São Paulo – Foto: Rovena Rosa / Agência Brasil</small></p></div>
<p> </p>
<p><em>Por Delana Corazza* </em><br>
<em>Publicado originalmente <a href="https://rosalux.org.br/igrejas-evangelicas-e-a-politica-no-brasil/">Fundação Rosa Luxemburgo</a></em></p>
<p> </p>
<p>A Marcha para Jesus, o maior evento evangélico do país, marca um dos fenômenos sociais mais relevantes da sociedade brasileira nas últimas três décadas: o aumento do número de fiéis pertencentes às igrejas evangélicas, com implicações que, certamente, transcendem o campo religioso e trazem consequência políticas e culturais profundas.</p>
<p>O dado oficial sobre o número de participantes do evento realizado no centro de São Paulo, em junho, foi controverso: os organizadores dizem que reuniram 2 milhões de pessoas, enquanto a Polícia Militar afirma que foram 300 mil. O fato é que, para além dessa discrepância, entender esse fenômeno, hoje, é fundamental para qualquer campo político.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><strong>Marcha para Jesus</strong></h3>
<p>A Marcha acontece anualmente em todo o Brasil desde o ano de sua criação, em 1993, por Estevam Hernandes, líder da igreja pentecostal Renascer em Cristo. Em 2009, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), sancionou uma lei colocando a Marcha nos eventos oficiais do país. Composta principalmente por pentecostais, os temas abordados são de conteúdo moral como a defesa da chamada família tradicional, assim como contra a legalização do aborto.</p>
<p>Em 1990, de acordo com o censo oficial do governo (IBGE), as igrejas pentecostais eram frequentadas por 9% da população. Em 2000, já eram 15,4%. Em 2010, se tornaram 22,2%. O governo de Jair Bolsonaro não realizou o Censo de 2020, mas o Instituto de Pesquisa Datafolha no início de 2020 afirmou que os evangélicos já eram 31% da população. Outro dado muito importante trazido pela mesma pesquisa é de que o rosto evangélico é uma mulher, negra e de baixa renda, sendo assim, os evangélicos têm hoje um gênero, uma raça e uma classe.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><strong>Evangélicos serão metade da população</strong></h3>
<p>O demógrafo e professor aposentado do IBGE, José Eustáquio Diniz, apontou em estudo que em 2030 os evangélicos serão metade da população brasileira. Vale ressaltar que a maioria dos fiéis não está nas grandes denominações religiosas, mas em pequenas igrejas pentecostais[1] de bairros periféricos, muitas “levantadas” de um dia para outro, nas garagens e quintais dos crentes em todo Brasil.</p>
<p>Segundo pesquisa do Centro de Estudos da Metrópole, da Universidade de São Paulo, em 2019, 17 igrejas evangélicas foram abertas por dia no Brasil. Isso se deve, dentre tantos fatores, a uma certa flexibilização da formação dos pastores – enquanto igrejas históricas protestantes e outras religiões mais tradicionais exigem que suas lideranças religiosas estudem teologia por anos, nada impede que um fiel pentecostal insatisfeito com a igreja que ele frequenta hoje, abra sua própria igreja na garagem de sua casa amanhã.</p>
<p>Nesse contexto, há diversas chaves para compreendermos o fenômeno, que se entrelaçam e que dialogam entre si. Uma delas, o avanço do neoliberalismo na década de 90 com consequências devastadoras para a classe trabalhadora mais empobrecida que sem emprego e sem atendimentos psicossociais para enfrentar a miséria e violência que assolavam os territórios periféricos, fruto da reestruturação do mundo do trabalho, encontrou nas pequenas igrejas respostas objetivas e subjetivas para suas dores e angústias.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><strong>De “trabalhador” a “irmão”</strong></h3>
<p>A identidade imediata enquanto crentes perpassa, ainda que subjetivamente, pelas suas identidades enquanto trabalhadores desprovidos do mais essencial: casa, comida e trabalho. De concreto, essa identidade de “trabalhador” enquanto classe vai sendo substituída progressivamente para “irmão”.</p>
<p>Não são raros os relatos desses irmãos de fé onde as vidas se reergueram dentro da Igreja, a partir de uma disciplina cotidiana crente, dando novo sentido às suas trajetórias e de seu entorno, tanto do ponto de vista territorial, quanto pessoal. É possível observar uma nova estética periférica: salmos e outros escritos bíblicos estão nas paredes das casas, dos comércios locais, a pequena igreja muitas vezes se torna centro de um território, ou seja, espaço aberto de escuta cotidiana e também de segurança, acolhimento e pertencimento em lugares tão marcados por histórias de perdas.</p>
<p>Muitas mulheres e homens antes analfabetos encontraram incentivo para aprendera a ler pela vontade de se aprofundarem no conhecimento bíblico. Fiéis conquistaram por meio de ajuda mútua de “irmãos da igreja” um emprego por indicação, algo muito comum no Brasil e que se fortalece no meio crente por um certo estereótipo que de fato se confunde com a realidade, onde o crente é mais calmo, submisso, não bebe, não tem vícios.</p>
<p>Jovens que acabaram o ensino regular, muitas vezes com dificuldade de encontrar uma ocupação, se organizam dentro da igreja para aprenderem a tocar instrumentos musicais e vivenciam essa habilidade semanalmente nos cultos. Mulheres que nos bairros da classe dominante são empregadas domésticas passam a ser pastoras ou cantoras nos louvores de suas igrejas, num processo transformador de resgate da dignidade em um país marcado pelos resquícios da escravidão.</p>
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<h3 style="margin:2em 0;"><strong>Liturgia de corpos</strong></h3>
<p>A liturgia crente é uma liturgia de corpos que se manifestam espontaneamente por meio da música e das palavras e ocorre para além do espaço institucional circunscrito à igreja. Os evangélicos pentecostais souberam absorver a religiosidade popular proporcionando festas religiosas e momentos catárticos tão necessários a corpos maltratados, estigmatizados e oprimidos (FERNANDES, 2017).</p>
<p>Os cultos pentecostais são ofertados quase que diariamente, além de estudos bíblicos e grupos etários. As histórias divididas nos cultos, por meio de testemunhos, criam laços afetivos e efetivos, substituindo inclusive laços familiares, que seguem se afrouxando em uma sociedade marcada pelo individualismo. Há também em algumas denominações, as células, “onde os indivíduos se reúnem nas casas dos fiéis com o intuito tanto de atrair novas pessoas para a igreja quanto de estimular a criação de novos líderes. Na prática, essas células atuam como uma espécie de pequena igreja doméstica, cuja meta principal é a multiplicação para outras ‘células’” (COSTA, 2021).</p>
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<h3 style="margin:2em 0;"><strong>Teologia da prosperidade</strong></h3>
<p>Foi neste cotidiano periférico da classe trabalhadora que as igrejas se ergueram e seus fiéis encontraram a promessa de prosperidade ainda nessa vida. Ou seja, diferente de outras cosmovisões cristãs, onde a salvação se daria somente no Reino de Deus, as igrejas evangélicas passam a ofertar a possibilidade de felicidade terrena. Essa nova perspectiva é um fator importante para a compreensão do fenômeno, um dado teológico que deu sentido para muitos trabalhadores empobrecidos sem expectativa de uma vida digna.</p>
<p>Este corte teológico, denominado de Teologia da Prosperidade[2], pode ser compreendida como uma escolha em estar no mundo e realizar conquistas terrenas individuais, tendo consequências práticas e concretas para o crente: quanto mais fé, mais sacrifícios e mais disciplina, mais bênçãos terá esse fiel, traduzidas em saúde, trabalho e bens materiais. A prosperidade passa a ser então, além de possibilidade, consequência de um empenho crente frente a uma tarefa divina, muito bem desenhada pelas lideranças pentecostais. As consequências, no entanto, foram para além do cotidiano da classe trabalhadora mais empobrecida, mas também no campo político institucional.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><strong>Evangélicos na política</strong></h3>
<p>As mudanças de postura do segmento evangélico frente à política no Brasil podem ser vistas mais claramente a partir dos anos de 1980, quando a premissa “evangélicos não se misturam com política” já não fazia mais sentido. No entanto, é possível perceber uma aproximação dos evangélicos conservadores com a Ditadura Empresarial Civil-Militar já na década de 70, onde alguns jornais evangélicos, principalmente vinculados às Igrejas Batistas e às Assembleias de Deus, denominações históricas e pentecostais, respectivamente, começam a ter um tom mais secular, ainda que com alguns ruídos por parte dos fiéis.</p>
<p>A justificativa dada é que havia uma crise moral na sociedade e o crente deveria se posicionar publicamente neste sentido. Os temas variavam: desde os excessos do carnaval brasileiro, o debate sobre a legalização do abordo na América latina, o enfrentamento ao ecumenismo ou “liberalismo religioso” até questões geopolíticas como as relações dos Estados Unidos contra a União Soviética, Cuba e China. (COWAN, 2014).</p>
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<h3 style="margin:2em 0;"><strong>“Irmão vota em irmão”</strong></h3>
<p>Já a entrada assumida na política pode ser sintetizada pela máxima “irmão vota em irmão”, que coincide com o processo de redemocratização que o Brasil estava passando. É importante dizer que o protestantismo no Brasil nasce com uma forte tendência anticatólica, que perdurou por décadas. Compreendendo o poder católico no âmbito institucional, grupos evangélicos reivindicaram este “estar no mundo” já consolidado pelos católicos.</p>
<p>Os evangélicos atuaram fortemente na defesa do Estado Laico muito mais no sentido de disputa com os católicos pela socialização dos seus privilégios, do que pelo esvaziamento religioso do Estado. Ainda que houveram protestantes progressistas nesse processo, essa inserção se deu majoritariamente pelos conservadores. Podemos dizer que esse momento é a raiz da chamada nova direita cristã, que tem se tornado uma grande força política na última década na América Latina, principalmente no Brasil.</p>
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<h3 style="margin:2em 0;"><strong>Teologia da libertação</strong></h3>
<p>Esses acontecimentos não ocorreram por acaso. A década de 70 no Brasil também foi marcada pelo avanço da Teologia da Libertação nos territórios periféricos, movimento religioso que na América Latina surge como resposta das diversas organizações populares, formada de pessoas de fé, constituídas no período de avanço da industrialização, onde, no Brasil, a massa camponesa se proletariza, aprofundando as desigualdades sociais estruturantes do continente.</p>
<p>A Teologia da Libertação inaugura o corte teológico que, como visto, foi absorvido pelos pentecostais, onde é possível conquistar a felicidade em vida, no entanto, essa felicidade deverá ser construída coletivamente a partir da justiça social.</p>
<p>Em paralelo, os governos estadunidenses, articulados com a direita cristã protestante e também com o catolicismo conservador na figura do Papa João Paulo II estiveram nos territórios latino-americanos em ações literalmente sangrentas contra a Teologia da Libertação. Igrejas conservadoras, muitas de caráter fundamentalista, receberam por toda América Latina aportes financeiros de grupos estadunidenses para se consolidarem no continente.</p>
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<h3 style="margin:2em 0;"><strong>Documentos da Santa Fé</strong></h3>
<p>Na década de 1980, a CIA realizou na cidade de Santa Fé, Novo México, reuniões para elaborar estratégias de ação dos governos para a manutenção do seu domínio, suas conclusões estão no “Documentos de Santa Fé” que afirmam a necessidade de educar o povo contra as visões transformadoras que estavam em curso, o documento falava direta e nominalmente contra a Teologia da Libertação.</p>
<p>“É nesse sentido que a Teologia da Libertação deve ser entendida: ela é uma doutrina política disfarçada de crença religiosa, tendo a característica de ser contra o papa e a livre-empresa, com objetivo de enfraquecer a independência da sociedade frente ao controle do Estado. […] Assim, vemos que a inovação da doutrina marxista se insere em um fenômeno cultural e religioso de longa duração”. (Docimento Santa Fè, 1988)</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><strong>Narrativas conservadoras nos EUA</strong></h3>
<p>Ainda que não encontremos nenhum documento comprovando que houve um projeto de poder orquestrado pela CIA contra a Teologia da Libertação em território brasileiro, é interessante perceber como as narrativas conservadoras da direita cristã estadunidense, atuando principalmente nas décadas de 70 e 80, compuseram a narrativa brasileira do último período.</p>
<p>Assim como nos Estados Unidos, onde a direita cristã passa a ter estrutura organizacional a partir de suas ações contra o feminismo e as causas homossexuais, defendendo uma família “tradicional” composta de homens e mulheres para procriação e tendo fundamental papel na reeleição de Ronald Regan, o neoconservadorismo no Brasil, que culminou na eleição de Bolsonaro, seguiu um padrão muito semelhante (LACERDA, 2019).</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><strong>Narrativas conservadoras no Brasil</strong></h3>
<p>O ex-presidente do Brasil venceu as eleições com um currículo no mínimo questionável para ocupar o cargo máximo do Estado Brasileiro: sua carreira política como deputado se resume a 2 projetos aprovados em 27 anos de carreira. Sua campanha foi marcada por declarações racistas, machistas e homofóbicas que, no entanto, convenceram 55% do eleitorado brasileiro no segundo turno das eleições presidenciais.</p>
<p>Apesar de declarações como “eu sou favorável à tortura” e “ela não merece (ser estuprada) porque ela é muito ruim, porque ela é muito feia, não faz meu gênero, jamais a estupraria” dentre outros absurdos tão contrários ao exemplo de Jesus: 70% dos votos evangélicos em 2018 foram para Jair Bolsonaro.</p>
<p>Bolsonaro, em sua longa e medíocre carreira política, não se importou tanto com as pautas morais em relação à família ou valores cristãos, seu discurso passa a atender as pautas da direita cristã com sua aproximação aos evangélicos, no primeiro mandato de Dilma Rousseff, do PT (2011 – 2014). Nesse período, apesar de declaradamente católico, se batiza no Rio Jordão em Israel pelas mãos de um Pastor.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><strong>Pautas morais</strong></h3>
<p>As pautas morais passam então a ser discurso fundamental para manter os evangélicos ao seu lado. É a defesa da família heterossexual e a construção anti qualquer diálogo que se refira às questões de gênero – principalmente no que se refere ao aborto – e de sexualidade, levando às fake news como “as escolas vão ensinar os filhos a serem gays!” que fortalecem vínculos com boa parte da base evangélica que, ainda que não se identifique com os tantos discursos de ódio profanados, construíram uma visão da esquerda como um grupo anti-cristão e temem a desestruturação daquilo que às duras penas (re)conquistaram dentro das igrejas: sua família.</p>
<p>A família é o debate central nas políticas públicas da direita cristã em todo continente latino-americano e que Bolsonaro abraçou. Ela dialoga com a cosmovisão crente que enxerga o núcleo familiar como base fundamental para erguer todas as outras estruturas.</p>
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<h3 style="margin:2em 0;"><strong>Fundamentalistas nos Ministérios</strong></h3>
<p>Vale aqui também trazer outro dado relevante. No Brasil foram os calvinistas – protestantes históricos – que fomentaram com profundidade os discursos fundamentalistas no governo Bolsonaro, principalmente no que se refere às questões de gênero, sexualidade e intolerância religiosa, ocupando ministérios importantes como da Justiça (Pastor André Mendonça) e da Educação (Pastor Milton Ribeiro).</p>
<p>A pastora Damares Alves, que foi ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, figura popular entre os evangélicos, e narra uma história própria de opressões e violências de gênero, mas que atua fortemente contra a igualdade de gênero e as liberdades sexuais, além de uma articuladora internacional contra a legalização do aborto, é também de uma igreja histórica (Batista).</p>
<p>Outras pastas de fundamental importância principalmente no âmbito da cultura e educação estiveram nas mãos de protestantes históricos. Ou seja, a direita cristã não está vestida apenas de pentecostalismos, mas de diversos cristianismos que têm sido eficientes contra as teologias libertárias tão importantes na história de luta do Brasil.</p>
<p>Já os parlamentares evangélicos brasileiros, que são em sua maioria pentecostais, principalmente da Assembleia de Deus, atuam de forma fisiológica, ou seja, podem apoiar um governo de esquerda, se necessário, para se manterem onde estão, no entanto, é mais confortável para eles um governo de direita por conta das pautas morais. Até 2014 houve uma certa aproximação dos evangélicos com os governos do PT, mas com um incômodo referente às pautas sobre igualdade de gênero.</p>
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<h3 style="margin:2em 0;"><strong>Pauta anti-Estado</strong></h3>
<p>Além disso, por forte influência estadunidense, a pauta anti-Estado, muito associada à direita cristã dos Estados Unidos onde qualquer debate de ampliação do Estado era considerada uma pauta comunista, configurou o discurso evangélico no Congresso.</p>
<p>Em contrapartida, também por influência dos Estados Unidos, enquanto o comunismo, ou aquilo que denominam de comunismo, é “demonizado” pelos evangélicos do campo institucional, Israel é considerada a Terra Prometida escolhida por Deus, sendo o amigo externo preferencial, o que justifica as tantas bandeiras de Israel espalhadas pela Marcha para Jesus.</p>
<p>Vale ressaltar que a adesão ao discurso anti-Estado está nas lideranças evangélicas, o povo evangélico acaba reproduzindo o mesmo discurso por questões ideológicas, porque é bombardeado com essas informações e encontra ecos em toda a sociedade: “o estado é corrupto”. No entanto, a defesa do Estado mínimo não pode ser absorvida com profundidade pela classe trabalhadora crente. A base evangélica, que é negra e empobrecida, como mencionado, precisa do Estado, ainda que haja uma desconfiança na máquina pública.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><strong>Aliança com Bolsonaro</strong></h3>
<p>A vinculação de Bolsonaro com os evangélicos foi determinante nas eleições de 2018, onde ele foi eleito presidente do Brasil. Não gratuitamente, o ex-presidente passou todo seu mandato em contato direto com lideranças evangélicas, indo a cultos e grandes eventos.</p>
<p>A maioria dos evangélicos votou em Bolsonaro nas últimas eleições contra Lula. Bolsonaro foi o primeiro presidente a estar presente na Marcha para Jesus onde afirmou: “Vocês foram decisivos para mudar o destino dessa pátria chamada Brasil”. Foi também, em 2018, num cenário absolutamente polarizado, que a Marcha passou a ter um tom mais político, com algumas simbologias do campo conservador (como a bandeira do Brasil e a camiseta da seleção brasileira).</p>
<p>Bolsonaro esteve em duas Marchas o que abriu um precedente para o atual governo de Lula. Lula, que nunca justificou sua ausência nos 8 anos de seus dois governos (2003-2010), neste enviou uma carta para Estevam Hernandes dizendo: “Sempre admirei e respeitei a Marcha para Jesus, que considero uma das mais extraordinárias expressões de fé do nosso povo”, apesar da ausência de Lula, o governo foi representado pela deputada federal Benedita da Silva e pelo advogado geral da União Jorge Messias. Em sua fala, Messias ao mencionar o presidente (sem citar seu nome) levou uma leve vaia dos fiéis.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><strong>Ausência desde as eleições</strong></h3>
<p>Neste ano, Bolsonaro também não foi e não tem mais ido a nenhum evento evangélico desde as eleições de 2022, mas André Mendonça, que conforme mencionado foi ministro da Justiça do seu governo e hoje é ministro do Superior Tribunal Federal por indicação do ex-presidente, que o denominava como “terrivelmente evangélico” esteve lá para representar o campo bolsonarista, assim como o atual governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Ambos foram aplaudidos.</p>
<p>A ausência da esposa de Bolsonaro, a evangélica Michelle Bolsonaro, assim como da ex-ministra e atual senadora Damares Alves foi sentida. Ambas têm um papel fortíssimo de ganhar o público feminino evangélico para a ultradireita – dado que as mulheres evangélicas foram um ponto crítico para o bolsonarismo nas últimas eleições presidenciais.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><strong>Muitos, diversos e heterogêneos</strong></h3>
<p>O tamanho da Marcha sinaliza para a percepção de que os evangélicos têm de si: somos muitos e queremos ser ouvidos. De fato, são muitos, são milhões, e por isso, é importante dizer, são diversos, heterogêneos, ainda que ocuparam o campo institucional pelo viés conservador, são também progressistas, são parte significativa da classe trabalhadora e estão em disputa.</p>
<p>Não são apenas um bloco monolítico fundamentalista ou conservador. São um mar de gente, imersos na contradição cotidiana do que vivem e do que defendem. Parece fundamental considerar a religião como identidade mobilizadora do povo brasileiro, a escolha de Lula em não estar presente na Marcha para Jesus em um momento importante de tentativa de diálogo aponta para uma certa despreocupação em relação aos evangélicos, que, majoritariamente, construíram um muro concreto contra as pautas progressistas e, por isso, têm um discurso anti-esquerda consolidado.</p>
<p>A repercussão das presenças e ausências neste que é o maior evento das igrejas evangélicas no Brasil traz um recado importante: qualquer campo político hoje que ignorar a força dos evangélicos, perde a oportunidade de compreender um setor da sociedade organizado que ganha força crescente no cotidiano da classe trabalhadora e no campo político institucional. Uma força numérica, mas não só.</p>
<p><em><br>
* DelanaCorazza, pesquisadora do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social no Brasil sobre Neopentecostais e Política</em></p>
<p><strong>Bibliografia</strong></p>
<p>ABDALLA. Maurício. Em busca da funda de Davi – uma análise de conjuntura estratégica.</p>
<p>CENTRO DE ESTUDOS DA METRÓPOLE. Igrejas evangélicas abriram 17 novos templos em média por dia no Brasil em 2019. Universidade de São Paulo, 2023. Disponível em &lt;https://centrodametropole.fflch.usp.br/pt-br/noticia/igrejas-evangelicas-abriram-17-novos-templos-em-media-por-dia-no-brasil-em-2019&gt; acesso em 12 de Junho de 2023.</p>
<p>COSTA, Rafael Rodrigues da. De Lutero aos neopentecostais: como os evangélicos atraem tanta gente?Le Monde Diplomatique Brasil. 2021. Disponível em: https://diplomatique.org.br/de-lutero-aos-neopentecostais-como-os-evangelicos-atraem-tanta-gente/ &gt; acesso em &lt; 28 de junho de 2021&gt;.</p>
<p>COWAN, Benjamin Arthur. “Nosso Terreno” crise moral, política evangélica e a formação da “Nova Direita Brasileira”. Varia Historia, Belo Horizonte, vol 30, n. 52, p. 101-125, jan / abr 2014.</p>
<p>DOCUMENTO DE SANTA FÉ: A estratégia Americana. 1988, Disponível em &lt;https://lae.princeton.edu/catalog/80749594-eda6-4e2b-865b-3d178a4072fb?locale=pt-BR#?c=0&amp;m=0&amp;s=0&amp;cv=0&amp;xywh=-618%2C-1%2C3920%2C3544&gt; Acesso em &lt;15 de outubro de 2022&gt;</p>
<p>FERNANDES, Marco. “Psicoterapia Popular do Espírito Santo: hipóteses sobre o sucesso pentecostal na periferia de metrópolis periféricas”. Revista Margem Esquerda n° 29 (2017), da Boitempo Editorial.</p>
<p>IBGE. Censo Demográfico de 2010. Disponível em: https://censo2010.ibge.gov.br/resultados.html &gt; acesso em &lt; 23 de Maio de 2021&gt;</p>
<p>LACERDA, Marina Basso. O novo conservadorismo brasileiro. Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Ed. Zouk, 2019</p>
<p>LIMA, Delcio Monteiro de. Os Demônios descem do Norte. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1987</p>
<p>PESQUISA DATAFOLHA, A cara típica do evangélico brasileiro é feminina e negra, 2020.Disponível em: &lt;https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/01/cara-tipica-do-evangelico-brasileiro-e-feminina-e-negra-aponta-datafolha.shtml &gt; acesso em &lt; 02 de set de 2020 &gt;</p>
<p>PRASHAD, Vijay. Balas de Washington: uma História da CIA, Golpes e Assassinatos. São Paulo: Editora Expressão Popular, 2020</p>
<p>[1]Usarei o termo pentecostais para englobar também igrejas denominadas neopentecostais, elas se diferem do ponto de vista litúrgico, teológico e temporal, no entanto, há processos diversos de “neopentecostalização” de igrejas pentecostais e até do protestantismo histórico, como pode ser visto em Igrejas Batistas mais fundamentalistas. Para o tema abordado, não há necessidade de fazer diferenciações.</p>
<p>[2]Essa denominação é mais utilizada por pesquisadores acadêmicos do que pelos próprios crentes.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>As igrejas e os 50 anos do golpe no Chile</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/83273/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luiz]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 05 Jun 2023 15:50:30 +0000</pubDate>
				<guid isPermaLink="false">https://thetricontinental.org/?post_type=brasil&#038;p=83273</guid>

					<description><![CDATA[Este artigo aborda diversos elementos que representam a população evangélica no Brasil, desde seus símbolos, sua identidade, o crescimento desta fé religiosa, a política institucional, as pautas morais e a diversidade do ser evangélico.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p> </p>
<p><em>Por Angélica Tostes*</em><br>
<em>Artigo originalmente publicado na <a href="https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/as-igrejas-e-os-50-anos-do-golpe-no-chile/">Carta Capital</a></em></p>
<p>Entre as ruas de Santiago, no Chile, os espaços de memória resistem, como murmúrios sussurrados pelo vento, lembrando-nos de que na tempestade da ditadura, o lema ecoa eternamente: “ni olvido, ni perdón” (“nem esquecer, nem perdoar”). A memória desse período sombrio é encontrada nos bairros, em fundações de artistas exilados, nos centros e museus, como o Museu dos Direitos Humanos, Londres 38, Museu Salvador Allende. Entretanto, a cicatriz deixada pela ditadura e os processos neoliberais que essa desencadeou continua vivo e presente no cotidiano das pessoas.</p>
<p>No dia 11 de setembro de 1973 foi instaurada, por meio de violências policiais e das forças armadas do Chile, a ditadura cívico-militar. Neste 2023 estão sendo rememorados os #50añosdelgolpe. Os tiros e bombas contra o Palácio de La Modena marcam esse terrível período do golpe do general Augusto Pinochet contra o presidente socialista Salvador Allende. Em meio a todas as atrocidades que uma ditadura promove, como a Operação Colombo com os 119 jovens militantes detidos e desaparecidos, lugares de tortura, morte, queima de livros, e tantas e outras coisas, 32 igrejas evangélicas se juntaram para apoiar o processo que estava sendo conduzido pela ditadura.</p>
<p>Em dezembro de 1974 foi lida, no edifício Diego Portales (um edifício simbólico do governo militar, a “Declaração da Igreja Evangélica Chilena”, escrita e divulgada pelos pastores destas igrejas.Um dos trechos, além de reconhecer a figura de Pinochet como líder político, aponta que o que se passava no Chile era “a resposta de Deus às orações de todos os crentes que reconheceram que o marxismo era a expressão de um poder satânico das trevas”. Após apenas dois dias dessa declaração, surgiu o Conselho de Pastores, seguido pela Confraternidade Cristã de Igrejas, que eventualmente convocaria a criação da Associação de Igrejas Evangélicas do Chile (AIECH) em 1974, e esses grupos se colocavam como únicos representantes e voz evangélicas do país.</p>
<p>As resistências ecumênicas e religiosas no país beberam da Teologia da Libertação Latino-Americana, e se opuseram bravamente contra à opressão de Pinochet, se articulando com o Conselho Mundial de Igrejas e buscando criar organizações que oferecessem ajuda aos perseguidos políticos e suas famílias, como é o caso da Fundación de Ayuda Social de las Iglesias Cristianas (FASIC), Vicaría de la Solidaridad, a Ayuda Cristiana Evangélica (ACE), Servicio Evangélico para el Desarrollo (SEPADE), entre outros órgãos que buscaram promover justiça e ser esperança em um contexto de desamparo.</p>
<p>Faço a memória do padre francês André Jarlan, que foi assassinado pela polícia chilena durante um protesto popular contra a ditadura na Población La Victoria. O padre Dubois, seu companheiro de luta e fé, encontrou o corpo de Jarlan, já sem vida, sobre sua Bíblia, aberta no livro dos Salmos, onde se podia ler: “Das profundezas a ti clamo, ó SENHOR. Senhor, escuta a minha voz; sejam os teus ouvidos atentos à voz das minhas súplicas. Se tu, Senhor, observares as iniqüidades, Senhor, quem subsistirá? Mas contigo está o perdão, para que sejas temido”.</p>
<p>Entretanto, o fundamentalismo religioso foi se alastrando e se tornando uma característica presente em todos os países de Nuestra América. Podemos compreender, portanto, que a desarticulação da Teologia da Libertação foi um projeto impulsionado peloimperialismo, que identificou nela uma ameaça no campo subjetivo, como demonstra o Dossiê n°59 Fundamentalismo e imperialismo na América Latina: ações e resistências, do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. Esse processo ocorreu simultaneamente ao avanço das políticas neoliberais na América Latina, um momento histórico marcado pela hegemonia de valores individualistas, consumistas e privatizantes. Vale lembrar que o Chile se tornou um grande laboratório da política neoliberal após Pinochet chamar alguns economistas, conhecidos como Chicago Boys, para favorecer as grandes multinacionais estadunidenses em relação ao cobre chileno.</p>
<p>Essa herança ditatorial, neoliberal e fundamentalista pode ser vista na atualidade, com os resultados da eleição do dia 7 de maio, no Chile, que visa a alteração da Carta Magna chilena, substituindo o texto vigente no país que vem desde a ditadura de Pinochet, que se encerra em 1990 e da qual seus próprios apoiadores que escrevem o texto constitucional. A primeira tentativa de mudança na Constituição sofreu um rechaço em setembro do ano passado, apesar de trazer uma grande abertura para as pautas de direitos humanos. Esta é a segunda tentativa, nesse processo eleitoral de maio, e teve o objetivo de escolher 50 membros de um conselho que vai redigir o novo texto.</p>
<p>Lamentavelmente, o resultado da votação não foi favorável para os campos populares, uma vez que a extrema direita conquistou 22 cadeiras das 51 no conselho constitucional, em comparação com as 17 da esquerda governista (apoiada pelo presidente Gabriel Boric) e 11 da direita tradicional. Como resultado, a direita obteve uma maioria absoluta de 33 cadeiras, o que lhe confere poder para aprovar mudanças, enquanto a esquerda não alcançou as 21 cadeiras necessárias para ter poder de veto. Essa distribuição de assentos coloca a direita em uma posição privilegiada para moldar o processo constitucional, representando um desafio para as forças progressistas na busca por transformações significativas.</p>
<p>O desafio que está posto não é novo. O diálogo com a base através da educação popular e práticas libertadoras é de extrema importância. Não esquecer, nem perdoar! A memória da ditadura, seja no Chile ou no Brasil, deve ser lembrada, essa história não deve ser apagada, mudada, menosprezada como grupos de extrema-direita tem feito. Os espaços de memória devem estar além do físico, mas antes, vivos em nossos corpos.</p>
<p>As vitórias de Boric no Chile e de Lula no Brasil não representam uma desarticulação do fascismo que permeia a América Latina. Dessa forma, o campo popular e o ecumenismo devem caminhar juntos na transformação da sociedade, das igrejas, das políticas públicas. Articulando-se de maneiras estratégias entre si e vislumbrando que essa luta antifundamentalista e antifascista não é apenas local, mas antes, de toda Nuestra América. Avancemos!</p>
<p><em>*Angélica Tostes é teóloga, mestra em Ciências da Religião, professora e pesquisadora do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.</em></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O pastor, o guerrilheiro e a certeza do que esperamos</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/o-pastor-o-guerrilheiro-e-a-certeza-do-que-esperamos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luiz]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 29 Apr 2023 11:28:11 +0000</pubDate>
				<guid isPermaLink="false">https://thetricontinental.org/?post_type=brasil&#038;p=77210</guid>

					<description><![CDATA[Qual a relação entre as igrejas protestantes e católicas e sua atuação durante o período da ditadura chilena? Este artigo destaca que, embora algumas instituições religiosas tenham se posicionado contra o regime e apoiado as vítimas da repressão, outras igrejas acabaram apoiando ativamente o governo militar, e questiona qual o verdadeiro papel das instituições religiosas em tempos de crise política e social.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 class="child-term brasilpost__heading" style="margin:2em 0;"><a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/br-page/?term_id=1413"><strong>Pesquisa sobre os Evangélicos e a Política</strong></a></h3>
<div id="attachment_77211" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-77211" class="wp-image-77211 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/04/Para-materia-do-filme.webp" alt="" width="700" height="445" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/04/Para-materia-do-filme.webp 700w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/04/Para-materia-do-filme-300x191.webp 300w" sizes="auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px"><p id="caption-attachment-77211" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Cena do filme “O Pastor e o Guerrilheiro”, de José Eduardo Belmonte.</small></p></div>
<p> </p>
<p><i>Por Delana Corazza*</i></p>
<p>Instigada pela<a href="https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/quando-um-pastor-e-um-guerrilheiro-se-encontram/"> bela matéria da jornalista Magali Cunha</a> e pelo teólogo Claudio Ribeiro, fui assistir ao filme em cartaz <i>O Pastor e o Guerrilheiro</i>, de José Eduardo Belmonte, uma interessante história inspirada no livro <i>Araguaia, relatos de um Guerrilheiro</i>, de Glênio Sá (Editora Anita Gabibaldi, 2004). Por conta do nome do filme, eu estava na expectativa de encontrar, de alguma forma, o papel dos evangélicos de esquerda na ditadura civil-militar brasileira, mas não é isso que o filme aborda. O longa conta a história de Miguel, estudante de Direito que, em 1973, vai para a Guerrilha do Araguaia, é preso, torturado e em sua cela está um jovem evangélico, o futuro pastor Zaqueu, que é preso (mais ou menos) por engano. Segundo Zaqueu, sua prisão se deu pelo fato de que ele conhecia dois jovens comunistas e seria uma possível fonte de informações para o regime. No meio de gritos e ausências, na fome e na sede, cria-se um laço de solidariedade na cela entre os dois presos. Em paralelo a este enredo, passa a história da também jovem universitária Juliana no ano de 1999, militante do movimento estudantil que conhece a história de Miguel por meio de seu livro de memórias. Juliana, que foi criada pela mãe e pela avó, descobre que é filha de um coronel que foi torturador na Ditadura.</p>
<p>A ideia deste artigo, porém, não é debater o filme propriamente dito, mas suscitar duas questões que são importantes refletir. A primeira, que não aparece diretamente no filme, refere-se ao papel dos evangélicos na ditadura militar. Se defendemos a importância da memória como bandeira política do campo progressista contra as atrocidades realizadas nos anos de chumbo em nosso país – que ressoam até os dias atuais -, é justo resgatarmos a presença dos evangélicos na luta contra o regime autoritário. A teóloga feminista Angélica Tostes, em seu artigo<a href="https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/os-evangelicos-da-libertacao-um-breve-resgate/"> O<i>s evangélicos da libertação: um breve resgate,</i></a> nos aproxima desse campo muitas vezes esquecido por parte da esquerda não-religiosa, nos lembrando das palavras de Rubem Alves de que a memória traz sempre algo de subversão.</p>
<p>Não é difícil encontrarmos referências católicas na luta contra a ditadura e na maioria das lutas por libertação na América Latina. No entanto, ainda que como minoria, o campo evangélico também esteve em marcha contra o Estado autoritário que seguia torturando e matando qualquer voz que ousasse questioná-lo. Muitos evangélicos foram vítimas do regime, como o metodista Anivaldo Padilha, na época estudante de Ciências Sociais da USP; após ser delatado por dois fiéis evangélicos, ele foi preso e violentamente torturado. Padilha inclusive produziu junto a Jorge Atílio Lulianelli (<i>in memoriam)</i>, Luci Buff e Magali Cunha, o livro<a href="https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/livro-detalha-historia-dos-evangelicos-na-ditadura-militar-dos-abusos-de-poder-a-resistencia/"> <i>As Igrejas Evangélicas na Ditadura Militar: dos abusos do poder à resistência cristã</i></a> (Alameda, 2022), no qual relatam as múltiplas ações desse grupo religioso a partir de documentos históricos, investigações acadêmicas e depoimentos diversos, o que nos ajuda a perceber que se trata de um grupo absolutamente heterogêneo. Também vale ressaltar a história de<a href="https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/minha-perna-e-minha-classe-o-evangelico-que-ate-hoje-inspira-a-luta-pela-terra/"> Manoel da Conceição</a>, fundador do sindicato dos trabalhadores rurais em Pindaré-Mirim (MA) e membro da Igreja Pentecostal Assembleia de Deus. Manoel da Conceição se tornou uma liderança em seu território e por isso foi perseguido pela ditadura. Em uma ação policial, levou um tiro na perna e depois foi preso, tendo sua perna amputada por conta da ferida não tratada. Para além disso, foi vítima de todo tipo de tortura, com sequelas físicas e psicológicas que no entanto não o tiraram da luta. Manoel morreu em 2021, aos 86 anos e seguiu resistindo até o fim, denunciando as opressões da ditadura e atuando nas cooperativas que ajudou a criar.</p>
<p>Além dos tantos evangélicos desaparecidos, presos, torturados, houve aqueles que se silenciaram, contribuindo para que as atrocidades se mantivessem, ou aqueles que, como o pastor Zaqueu, personagem do filme, que por princípios éticos, humanitários e também religiosos, estiveram contra o regime autoritário, ainda que não vinculados ideologicamente à luta.</p>
<p>A segunda questão provocada pelo filme se refere às tantas aproximações entre a fé religiosa e a luta comunista. No longa, há um diálogo muito interessante entre Miguel e Zaqueu dentro da cela enquanto o sangue secava, em uma pausa da dor. Nenhum dos dois está muito aberto a compreender o livro do outro, no caso, o Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels, e a Bíblia, respectivamente. No entanto, em suas tentativas de convencimento, ficam claras estas aproximações. Zaqueu menciona que “a fé é a certeza daquilo que esperamos”. Nesse sentido, o que move um militante comunista, se não essa certeza? De fato, de concreto, essa nova sociedade justa e igualitária é um sonho ainda distante – em algumas conjunturas, quase tão distante quanto o Reino dos Céus-, entretanto, essa certeza é tão presente, tão palpável, que o militante coloca, no caso explícito de Miguel, a sua própria vida para a construção desse novo. Miguel, ao ser questionado sobre qual a sua fé, responde: “eu sou comunista”; essa é sua fé, aquilo que o move, que o apaixona, a mesma paixão que move Zaqueu quando diz que “a vida não é sobre certezas, é sobre o improvável”. O “improvável” de ambos se aproxima, é um futuro de justiça e sem o grito da tortura.</p>
<p>O peruano marxista José Carlos Mariátegui em seu texto <i>O Homem e o Mito</i> afirma que “a força dos revolucionários não está na sua ciência; está na sua fé, na sua paixão, na sua vontade. É uma força religiosa, mística, espiritual”. Essa força, seja pelo céu ou pela terra, divina ou humana, é o que move os dois companheiros (ou irmãos?) de cela e que mesmo se referenciando aos seus dois livros para justificarem o que buscam, é algo que não conseguem explicitar, nem tampouco se contradizer. A Bíblia e o Manifesto ali, no absurdo da dor de Miguel e dos gritos que enlouquecem Zaqueu, não estão em luta, não podem estar. Além disso, há algo da vida concreta que os unem: na disputa entre o Jesus revolucionário ou o Jesus evangélico –  aquele que, se por um lado esteve ao lado dos oprimidos, por outro não pegou em armas –  Miguel, em sua pergunta, sentencia: “você acha que Jesus estaria de que lado nessa guerra?”. O silêncio de Zaqueu diz o lado que esse Jesus, evangélico ou revolucionário, estaria; neste ponto nenhum dos dois têm dúvidas.</p>
<p>Mariátegui, usando o termo Agonia, de Miguel de Unamuno, nos chama para a necessidade de nos re-encantarmos. Tanto os revolucionários marxistas quanto os cristãos revolucionários foram almas agônicas, em luta por esse re-encantamento (LOWY, 2005). Essa agonia revolucionária, para Mariátegui, se traduz também na superação do antagonismo entre fé e ateísmo, igualando a emoção revolucionária com a emoção religiosa. No filme, Zaqueu não é, como tantos foram, um cristão revolucionário, mas enquanto cristão e ser humano que presenciava as atrocidades sofridas por Miguel, se mostrou uma peça fundamental de solidariedade, uma peça não óbvia nesse processo. Miguel reconhece isso, dedicando seu livro de memórias ao futuro pastor.</p>
<p>Para Mariátegui, o que nos move, seres agônicos por justiça, é mais do que qualquer instituição pode limitar: é um sentimento profundo na busca por algo que ainda não se realizou e que teimosamente buscamos construir como necessidade vital. Nesse sentido, o marxista peruano amplia o conceito costumeiro de falar de religião e nos provoca ao afirmar que uma revolução é sempre religiosa, dialetizando, portanto, o materialismo e a religião, a mística revolucionária e a fé, os cristãos e os marxistas.</p>
<p>Nunca é demais resgatar nossa história tantas vezes contada pelos vencedores e não por aqueles que resistiram. Detalhar como foram os períodos sombrios da ditadura em todas as suas dimensões, assim como punir seus responsáveis, é algo que ainda nos desafia pelo fato de que sofremos as sequelas daqueles tempos até os dias de hoje. A memória ainda é um instrumento de resistência para que não se esqueça e para que nunca mais aconteça, mas também para que nos provoque a ir além do óbvio; esse é o diferencial do filme. Obviamente estamos convencidos do papel da juventude estudantil e universitária, dos intelectuais, dos militantes dos partidos de esquerda, assim como dos cristãos revolucionários nos processos de resistência. Sabemos também do papel dos generais e torturadores, carcereiros, delatores nesse período. E quem mais? São tantos personagens a serem desvendados, tanto no silêncio cúmplice quanto na voz que salva e que liberta. Colocá-los na memória, como parte indelével dessa história, ainda é um desafio. Miguel, sensível a isso, traz uma importante lição: o que nos une muitas vezes pode ser bem mais forte do que o que nos separa.</p>
<p>Não posso terminar esse texto sem lembrar que no último dia 22 de abril completaram-se dois anos da partida do poeta, escritor, artista plástico e militante Alípio Freire que, assim como tantos companheiros e companheiras, cristãos ou não, foi preso e violentamente torturado nos anos de chumbo de nosso país. Após ter sobrevivido a todo este processo, em 2021 foi uma das milhares de vítimas do descaso do último governo, falecendo de Covid-19. Incansável na luta por uma nova sociedade, dedicou toda sua vida ao nosso povo e, entre risos e afetos, um dos seus grandes legados foi manter viva a memória de resistência dos que lutaram. Nosso velho comunista ateu deixou para nós sua imensa fé – no futuro, no improvável, na utopia da felicidade. Alípio queria mais e disse:<a href="https://www.youtube.com/watch?v=9sSU1KCK6Pc"> “nós queremos o sonho, e como diria Calígula, nós queremos a lua, algo que seja aparentemente impossível, e nós teremos a lua</a>”.</p>
<p> </p>
<p><i>*Delana Corazza é pesquisadora do Instituto Tricontinental, Cientista Social (PUC-SP) e mestre em Arquitetura e Urbanismo (USP).</i></p>
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		<title>Já é hora de falar de aborto, gênero e sexualidade com as mulheres evangélicas?</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/ja-e-hora-de-falar-de-aborto-genero-e-sexualidade-com-as-mulheres-evangelicas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luiz]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 22 Mar 2023 12:32:40 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Não é difícil encontrarmos referências católicas na luta contra a ditadura e na maioria das lutas por libertação na América Latina. No entanto, ainda que como minoria, o campo evangélico também esteve em marcha contra o Estado autoritário. Precisamos resgatar e colocar na memória os diversos personagens que resistiram a estes processos; afinal a memória é um instrumento de resistência para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça e para que nos provoque a ir além do óbvio.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 class="child-term brasilpost__heading" style="margin:2em 0;"><a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/br-page/?term_id=1413"><strong>Pesquisa sobre os Evangélicos e a Política</strong></a></h3>
<div id="attachment_75450" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-75450" class="size-full wp-image-75450 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/image_processing20230310-32601-1ctme2h.jpeg" alt="" width="800" height="479" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/image_processing20230310-32601-1ctme2h.jpeg 800w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/image_processing20230310-32601-1ctme2h-300x180.jpeg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/image_processing20230310-32601-1ctme2h-768x460.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px"><p id="caption-attachment-75450" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Rio de Janeiro – Mulheres defendem legalização do aborto e protestam contra CPI na escadaria da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Fernando Frazão/Agência Brasil)</small></p></div>
<p><em>Por Delana Corazza*</em></p>
<p>Alguns dias antes do 8 de março, recebi de um grupo de Whatsapp o chamado para os atos na rua: “Legalizar o aborto! Direito ao nosso corpo! 8 de Março é na Av. Paulista”. Há tempos temos pensado como dialogar com a classe trabalhadora mais empobrecida sobre o debate de gênero e como criar formas de participação mais efetiva das mulheres mães, trabalhadoras – a maioria com um pertencimento religioso conservador – em atos e manifestações nos espaços públicos a partir de nossas agendas, destacando aqui o Dia Internacional de Luta das Mulheres.</p>
<p>Em conversas com algumas companheiras da Argentina, que por muitas vezes lotaram as ruas de Buenos Aires e tantas outras províncias, alguns apontamentos foram dados, como por exemplo, um trabalho cotidiano preparatório nos territórios e villas para o 8 de março nas ruas – garantindo, por exemplo, além do debate, transporte para que cheguem aos locais. Obviamente que um chamado “Legalizar o aborto!” não irá sensibilizar de imediato boa parte das mulheres periféricas com uma rotina tão esgotadora e com visões mais conservadoras sobre o aborto a estar em marcha nesses espaços tão importantes para a esquerda.</p>
<p>Mas, então, não vamos falar de aborto, corpo e sexualidade com as mulheres empobrecidas, moradoras das periferias e evangélicas? Essa resposta ainda não é tão simples e não está pronta. Nos parece importante pensar como o fundamentalismo religioso tem atuado no nosso país e no continente latino-americano a partir das pautas de gênero para entendermos que, mais do que reagir às suas bandeiras, temos que construir nossas formas de diálogo sobre esses temas, garantindo que todas as mulheres trabalhadoras, em todas suas identidades, se sintam parte de espaços coletivos e de luta, organizados pelo campo progressista.</p>
<p>As pautas morais, vinculadas principalmente aos direitos reprodutivos e à sexualidade, defendidas pelo fundamentalismo religiosos, são bandeiras importantes que vinculam boa parte da classe trabalhadora a um projeto ao qual são a principal vítima. Essas bandeiras se manifestam não só em discursos tempestuosos de alguns pastores midiáticos ou nos grandes templos e igrejinhas de bairro, mas no Poder Executivo e no Judiciário.</p>
<p>Isso tem sido endêmico em nosso continente. A visão falaciosa vinculada a um pânico moral, a qual essas pautas são colocadas, foi usada para fins eleitorais a partir do termo “cultura da morte” em países como Colômbia e Costa Rica, por conta da associação com a defesa ao aborto, negligenciando toda a profundidade e complexidade de raça, classe e gênero que o tema aborda. Ao olharmos para a conjuntura atual, conseguimos ver na prática como essas bandeiras seguem sendo construídas a partir da base de nossa classe rumo a ações concretas em diversas instâncias de poder, sejam elas institucionalizadas ou não, com forte adesão popular, inclusive ocupando as ruas, espaço historicamente usado pela esquerda latino-americana na luta por direitos.</p>
<p>Grupos religiosos de mãos dadas com o conservadorismo das elites latino-americanas têm saído às ruas contra a legalização do aborto. A aliança entre religiosos e políticos conservadores têm o mesmo discurso e a mesma estética em diversos países, envolvendo principalmente jovens e mulheres, criando movimentos articulados nas redes sociais, nas igrejas e nas ruas. A inserção do fundamentalismo religioso na disputa de aprovação das leis tem sido, muitas vezes, determinante para frear pautas importantes e amplamente debatidas pelos setores progressistas contra o patriarcado.</p>
<p>No Peru, a campanha “Con mis Hijos no te Metas” atravessou não só as ruas, mas também a percepção do que deve ou não deve ser dito na educação básica das crianças do país em um movimento parecido com o que tivemos por aqui: barrar o engodo da “ideologia de gênero” nas escolas. A campanha se multiplicou em países da América Latina e também na Europa. No Equador, diversas vertentes religiosas têm atuado em protestos de rua com uma roupagem laica, mas que ao serem olhadas mais de perto, seguem a agenda fundamentalista em seus discursos e disputas.</p>
<p>Na Argentina, para além das ruas, diversas pesquisas dentro das universidades têm sido realizadas por grupos laicos, aparentemente “neutros”, com o objetivo de reafirmar ideias fundamentalistas, dando um aparente caráter científico para o debate. Sabemos que não raro a “defesa da vida” contra a legalização do aborto vem sendo realizada a partir de supostos dados científicos que mensuram quando um feto pode realmente ser chamado de vida (desde a concepção, segundo evangélicos conservadores).</p>
<p>No ano passado, em Cuba, foi discutido e votado em plebiscito o Código das Famílias, um novo entendimento legislativo acerca das formas de família, proteção aos mais vulneráveis em caso de violência, casamento homoafetivo, entre outros pontos. A vitória do Si para a aprovação do código foi um respiro muito importante contra o fundamentalismo religioso que também atravessa a ilha. Bispos católicos se pronunciaram contra a aprovação do código, reivindicando a defesa da “família original”, ou seja, nem Cuba esteve imune ao conceito fundamentalista sobre família, mesmo com políticas tão avançadas no que diz respeito à questão de gênero.</p>
<p>No Brasil, a vinculação principal entre as ideias estapafúrdias e mesmo criminosas do governo Bolsonaro junto a classe trabalhadora foi mediada por pautas vinculadas ao fundamentalismo religioso. Evangélicos calvinistas e protestantes históricos fomentaram com afinco esses discursos e ocuparam ministérios importantes como o da Justiça, com o pastor André Mendonça, hoje ministro do STF, e da Educação, com o também pastor Milton Ribeiro. A pastora batista Damares Alves, que foi ministra da Mulher, da Família (termo criado na gestão Bolsonaro) e dos Direitos Humanos – figura popular entre os evangélicos e que narra uma história própria de opressões e violências de gênero -, atuou fortemente contra a igualdade de gênero e as liberdades sexuais, articulando internacionalmente ações contra a legalização do aborto. Associações jurídicas como a Associação Nacional de Juristas Evangélicos (ANAJURE) tem tido uma atuação extremamente pró-ativa na defesa contra a legalização do aborto no meio jurídico, impulsionando representatividade do campo evangélico conservador em espaços como a Defensoria Pública da União.</p>
<p>Há pelo menos três décadas, a direita cristã, vinculada às ações imperialistas, têm atravessado o continente latino-americano ganhando corações e mentes do nosso povo, principalmente das mulheres mais empobrecidas, a partir de uma visão de mundo ligada a uma mulher submissa e alienada de seu próprio corpo.</p>
<p>As palavras também seguem sendo surrupiadas: a defesa da vida contra a morte, algo tão caro às lutas feministas contra a violência de gênero, tem mudado o sinal, dado que os grupos neoconservadores, a partir de agendas regionais, se colocam como “pró-vida”, com um claro inimigo comum: tudo aquilo que se diferencie da família patriarcal heteronormativa.</p>
<p>Esses grupos têm agido de forma organizada em seus territórios, mas vão além: se articulam também enquanto latino-americanos e mesmo para além do continente, fomentando Congressos e Encontros transnacionais e construindo agendas de ações comuns, ao conectar ativistas neoconservadores de diversas denominações religiosas a políticos, acadêmicos e juristas. São ações pontuais, factuais, mas sobretudo, com estratégias a longo prazo e de forte tendência a ocupar os Estados. Muitas dessas ações em nossos territórios recebem doações financeiras de organizações estadunidenses contra pautas progressistas que se referem à questão de gênero e que ultrapassam as pautas conjunturais, caminhando para a construção de um futuro a partir de uma única visão de mundo, extremamente conservadora.</p>
<p>Como exemplo, podemos destacar a Federación Española Provida, que realizou em nosso continente diversos congressos em prol de uma agenda comum neoconservadora. O Congreso Hemisferio de Parlamentarios, organizado pela Political Network for Valeus, dos Estados Unidos, uma articulação transnacional que ultrapassa a roupagem religiosa, mas que defende os mesmos valores, assim como a Alliance Deffendins Freedom (ADF), também estadunidense. Essas, dentre incontáveis outras organizações, seguem agindo de forma articulada e propositiva como resistência principalmente às pautas feministas. Um exemplo de ação prática da ADF é seu Programa Areté Academy, que em 2014 depositou cerca de 146 milhões de dólares na América Latina, Europa e Ásia para a formação de advogados cristãos que possam levar valores conservadores no seu campo profissional de atuação (FAÚNDES &amp; DEFAGO, 2020). Não é possível mensurar atualmente o número de organizações locais e transnacionais que estão articuladas para, em diálogo com a narrativa religiosa, atuar contra as chamadas pautas morais vinculadas à falácia da “ideologia de gênero”.</p>
<p>O corpo e os direitos das mulheres trabalhadoras evangélicas estão em disputa. No entanto, há muito tempo a direita fundamentalista tem ganhado essa batalha submetendo essas mulheres a uma realidade a qual, na prática, não fazem parte. Isso acontece não sem contradições ou fissuras, pelo contrário. As mulheres evangélicas seguem abortando, seguem tendo relacionamentos homoafetivos, seguem enfrentando as inúmeras violências que sofrem em seus cotidianos, seguem sendo insubmissas, seguem resistindo a partir de sua classe, de seu gênero, de sua cor. Mas como transformar resistências individuais e esperanças cegas em revolta coletiva, em ações organizadas? Defendemos que dois caminhos não surtirão efeitos nem a curto e nem a longo prazo. Primeiro, um material de divulgação de atos nas ruas com o tema aborto e direito ao corpo, sem um trabalho coletivo e preparatório, mais do que não surtir efeito, cria barreiras de comunicação. Como dito, as disputas se mantêm cheias de contradições: não necessariamente uma mulher que aborta se coloca como defensora da legalização do aborto. Há um caminho largo, contínuo, de passos adiante e para trás para consolidar práticas individuais em uma bandeira política a qual essas mulheres se identificam.</p>
<p>O outro caminho que não podemos escolher é não falar de aborto, gênero e sexualidade com as mulheres evangélicas. Conforme demonstrado, a direita cristã tem pautado esses temas e os colocado no centro do debate contra a esquerda, dialogando diretamente com as mulheres trabalhadoras, consolidando manuais claros do que é ser mulher cristã em todo território latino-americano de forma organizada, articulada e com uma agenda comum. Não podemos deixar que a direita cristã siga hegemonizando esse debate. É preciso falar de aborto, é preciso construir a identidade dessa mulher cristã a partir de suas realidades. É preciso que o campo progressista não-religioso dialogue com a classe trabalhadora cristã não só por aquilo que nos une de imediato, como pautas econômicas e socias, mas também por aquilo que teremos dificuldades de abordar, como o aborto. No ano passado, o Instituto de Estudos da Religião (ISER) realizou o estudo Mulheres evangélicas para além do voto: concepções sobre política e cotidiano, onde conclui que o nó do diálogo poderá ser desatado a partir da vida concreta dessas mulheres: “A experiência cotidiana esteve na base da argumentação das mulheres tanto sobre temas polêmicos (exemplo de mães que defendem seus filhos e amigos homossexuais ou aceitação de educação sexual nas escolas em virtude de abuso sexual na infância) quanto do cotidiano (aumento dos preços no supermercado como crítica ao governo Bolsonaro). O recurso à experiência demonstra, por um lado, que as prescrições das igrejas podem ser relativizadas e negociadas dependendo do contexto e que posicionamentos conservadores, com algumas exceções, não são incorporados por completo nas narrativas e experiências de vida dessas mulheres” (grifo nosso).</p>
<p>Não podemos cair no “pânico do pânico moral” armado pelo fundamentalismo religioso, mas nos debruçarmos sobre os chamados temas polêmicos, a partir de saberes científicos, jurídicos, legais e religiosos, junto a realidade cotidiana dessas mulheres. Diversos coletivos de mulheres cristãs têm se articulado nessa tarefa, muitas vezes isoladas e sem um apoio institucional e estratégico de parte da esquerda não-religiosa. Essa é uma tarefa urgente que deve estar na agenda dos movimentos sociais e também nos campos institucionais, fomentando diálogos e materiais pedagógicos, construídos a partir de diversas vozes desses diversos saberes. Também é fundamental nos articularmos enquanto mulheres latino-americanas contra o fundamentalismo religioso que atravessa nossos corpos e nossos territórios, construindo agendas comuns sobre esse tema que sejam acessíveis a todas as mulheres trabalhadoras. Não será nem com palavras de ordem e nem caladas que venceremos essa batalha. Os ruídos serão necessários a partir de um reaprender contínuo e estratégico que nos espera e que teremos que enfrentar muito bem preparadas para que possamos, de fato, avançar na igualdade de gênero. Não faremos isso  sem o protagonismo das mulheres evangélicas, negras e periféricas nessa batalha.</p>
<p><strong>Referência:</strong></p>
<p style="margin: 0cm; text-align: justify;"><span style="font-size: 11.0pt; color: black;">FAÚNDES, José Manuel Morán y DEFAGO, María Angélica Peñas. Una mirada regional de las articulaciones neoconservadoras in <span style="background: white;">SANTANA, Aylinn Torres. Derechos en riesgo en América Latina: 11 estudios sobre grupos neoconservadores. Bogotá, Fundación Rosa Luxemburg, 2020</span></span></p>
<p style="margin: 0cm; text-align: justify;"><span style="font-size: 11.0pt; color: black;"> </span></p>
<p style="margin: 0cm; text-align: justify; line-height: 150%;"><span style="color: black;"><strong>Para saber mais:</strong> </span></p>
<p style="margin: 0cm;"><a title="https://sxpolitics.org/es/wp-content/uploads/sites/3/2020/12/DerechosenRiesgoenAmericaLatina.pdf" href="https://sxpolitics.org/es/wp-content/uploads/sites/3/2020/12/DerechosenRiesgoenAmericaLatina.pdf"><span style="font-size: 11.0pt; color: #1155cc;">https://sxpolitics.org/es/wp-content/uploads/sites/3/2020/12/DerechosenRiesgoenAmericaLatina.pdf</span></a></p>
<p style="margin: 0cm;"><a title="https://interseccoes.com/produto/biblia-mulheres-e-justica-reprodutiva/" href="https://interseccoes.com/produto/biblia-mulheres-e-justica-reprodutiva/"><span style="font-size: 11.0pt; color: #1155cc;">https://interseccoes.com/produto/biblia-mulheres-e-justica-reprodutiva/</span></a></p>
<p style="margin: 0cm;"><a title="https://catolicas.org.br/biblioteca/" href="https://catolicas.org.br/biblioteca/"><span style="font-size: 11.0pt; color: #1155cc;">https://catolicas.org.br/biblioteca/</span></a></p>
<p style="margin: 0cm;"><a title="http://www.annablume.com.br/loja/product_info.php?products_id=2302&amp;amp;amp;osCsid=labfzzqwge" href="http://www.annablume.com.br/loja/product_info.php?products_id=2302&amp;amp;amp;osCsid=labfzzqwge"><span style="font-size: 11.0pt; color: #1155cc;">http://www.annablume.com.br/loja/product_info.php?products_id=2302&amp;osCsid=labfzzqwge</span></a></p>
<p><i>*Delana Corazza é pesquisadora do Instituto Tricontinental, Cientista Social (PUC-SP) e mestre em Arquitetura e Urbanismo (USP).</i></p>
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		<title>Intelectual, guerrilheiro, profeta, padre: um resgate da história viva de Camilo Torres</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/intelectual-guerrilheiro-profeta-padre-um-resgate-da-historia-viva-de-camilo-torres/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luiz]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 27 Feb 2023 16:34:40 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[É importante pensar como o fundamentalismo religioso tem atuado no Brasil e na América Latina a partir das pautas de gênero para que se entenda a necessidade de construir nossas formas de diálogo sobre esses temas. Não será com palavras de ordem e nem caladas que essa batalha será vencida. Não se avançará na igualdade de gênero  sem o protagonismo das mulheres evangélicas, negras e periféricas.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 class="child-term brasilpost__heading" style="margin:2em 0;"><a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/br-page/?term_id=1413"><strong>Pesquisa sobre os Evangélicos e a Política</strong></a></h3>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-73993 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/02/Foto-0772.png" alt="" width="1000" height="649" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/02/Foto-0772.png 1000w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/02/Foto-0772-300x195.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/02/Foto-0772-768x498.png 768w" sizes="auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px"></p>
<p> </p>
<p><i>Por Delana Corazza*</i></p>
<p>O mês de fevereiro marca o nascimento e a morte do grande padre revolucionário, o colombiano Camilo Torres Restrepo. A pesquisa <i>Evangélicos, Trabalho de Base e a Política, </i>do Instituto Tricontinental, organizou neste mês, junto a mais de 20 organizações populares e centros de pesquisa de toda América Latina, as<a href="https://www.youtube.com/@colectivofrenteunido"> <i>Segundas Jornadas Continentales del Amor Eficaz</i></a>, um espaço de diálogo, reflexão e debate sobre a memória, a luta, o pensamento e a ação de Camilo Torres, com o objetivo de promover um diálogo internacional de conhecimento e experiências diversas em torno do pensamento-ação de Camilo para recriá-los nos tempos em que vivemos.</p>
<p>Conversei com dois de seus organizadores que seguem na importante tarefa de manter Camilo Vivo: a colombiana Luz Ángela Rojas Barragán (LAR), integrante da equipe internacional do Congreso de Los Pueblos (Colômbia), trabalha com educação popular e em rádio comunitária, antropóloga e é mestra do Programa de Pós-graduação Interdesciplinar em Estudos Latino-Americanos PPG IELA (UNILA – Brasil); e o também colombiano Nicolás Armando Herrera Farfán (NAH), mestre em Psicologia Social Comunitária e estudante de doutorado em Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires (Argentina), pesquisador do IEALC–UBA e do Colectivo Frente Unido–Investigación Independiente. Ambos publicaram um livro de recente reedição em Cuba: <a href="http://iealc.sociales.uba.ar/wp-content/uploads/sites/57/2018/10/APCL-Camilo-Torres-2018_10_25_dossier-digital.pdf"><i>Camilo Torres Restrepo. Polifonías del Amor Eficaz</i></a>. A seguir, segue a entrevista.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-74013 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/02/Foto-127.png" alt="" width="1000" height="718" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/02/Foto-127.png 1000w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/02/Foto-127-300x215.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/02/Foto-127-768x551.png 768w" sizes="auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px"></p>
<p><b>Ainda temos uma visão limitada de toda a contribuição de Camilo Torres para as lutas por libertação na América Latina. Sua memória está muito vinculada à imagem mítica do padre guerrilheiro. Ainda que seja uma imagem muito importante para a esquerda latinoamericana, Camilo foi também um pesquisador-militante com um importante legado para a educação e lutas populares na Colômbia. Vocês poderiam falar mais sobre isso?</b></p>
<p><b>LAR: </b>Nós, com a perspetiva de movimento popular onde Camilo Torres Restrepo (CTR) é nossa referência de luta, temos trabalhado para ir além de sua imagem mítica como você diz, sem condenar suas ações, já que fez parte de um contexto e foi sua resposta a uma violência operada por parte do Estado. Sua saída para a guerrilha foi não só uma expressão de seu compromisso, mas a única saída, conforme ele mesmo fala, reconhecendo que havia um poder que não permitiria as transformações de maneira pacífica, tendo como precedentes a perseguição a movimentos camponeses e o assassinato de líderes como Jorge Eliécer Gaitan.</p>
<p>Reconhecer o legado de CTR, conhecer sua trajetória de pensamento e sua forma de fazer política, foi uma descoberta fundamental no trabalho popular, dado que as formas organizativas que ele ajudou a construir com outros companheiros (como as Juntas de Ação Comunal ou organizações rurais) ainda têm expressão na atualidade. Assim como organizações religiosas que reconhecem CTR como um pensador; às vezes eu sinto que todos os caminhos conduzem a CTR, e quando a gente está no trabalho popular é possível fazer uma série de arqueologia de seu pensamento e ação, que foi silenciada pelo mito que, na verdade, foi mais uma ferramenta do Estado para que não reconhecessem seu legado e a importância de seu pensamento social. Acho potente quando você está no trabalho em alguma comunidade e escuta alguma pessoa mais velha falar que conheceu Camilo, que ele a ajudou, que estudou ou simplesmente que a escutou e como isso é um gás para seu compromisso.</p>
<p>Na atualidade, nós, como Congreso de los Pueblos, absorvemos do pensamento de CTR sua capacidade de articulação e construção de unidade, sendo este um princípio da nossa proposta política. Resgatamos aquela perspectiva de pesquisar, conhecer a realidade para pensar as transformações. Assim, sua proposta de Amor Eficaz é um desafio individual e coletivo de humanidade, que só é possível compreender com o estudo de CTR como pensador.</p>
<p>Acrescentaria que precisamos superar a estigmatização quando se fala de Camilo, e reconhecer, estudar e refletir as facetas do seu pensamento, além de superarmos a visão colonialista que às vezes nos impede de estudar nossos pensadores e pensadoras latino-americanos por achar que eles não formularam grandes dissertação ou teorias.</p>
<p><b>NAH:</b> Camilo Torres é conhecido como o “padre guerrilheiro” porque ele era isso, e essa imagem fez dele uma lenda. Este é um fato incontestável.</p>
<p>Várias pessoas, como a educadora popular argentina Claudia Korol e o sociólogo belga François Houtart, apontaram que com esta imagem Camilo se tornou um mito de luta que tocou as almas de nossos povos. Entretanto, acredito que devemos ter cuidado com esta fórmula e pensar que os mitos ou símbolos não são unívocos e exigem uma hermenêutica.</p>
<p>Penso que, ao longo dos anos, o mito do “padre guerrilheiro” tem se tornado cada vez mais um fetiche, que exalta apenas uma parte (sua ação final) e faz dele o todo. O que é um fetiche se não é um ídolo feito por mãos humanas e o que é fetichismo se não está tomando parte pelo todo?</p>
<p>Isto tem duas consequências. A primeira é que este fetichismo mítico dá origem a apenas duas possibilidades: honrar e admirar ou rejeitar e odiar. Adoração ou blasfêmia. A segunda é que reduz Camilo à sua ação guerrilheira e perde de vista (obscurece, nega ou apaga) suas outras dimensões e contribuições; de uma vida de 37 anos, opta por manter 7 meses, sem sujeitá-lo à reflexão, à crítica ou à problematização. E isto acontece igualmente à direita e à esquerda.</p>
<p>Em meus anos de pesquisa sobre o Camilo, descobri que se redefinirmos o mito, teremos outro Camilo, mais lúcido, mais inquieto, mais brilhante, mais interessante, mais útil para nossas lutas atuais. Precisamos saber o que aconteceu nos 36 anos e 5 meses anteriores a sua decisão para entender seu processo radical, ou seja, por que ele tomou este caminho. Algumas respostas que normalmente são dadas a esta pergunta são: ele foi ingênuo; foi precipitado demais e não calculou os riscos; ficou frustrado e foi morrer como uma espécie de suicídio; foi coerente até o final. Todas são válidas e, de certa forma, podem ser combinadas entre si, o que seriam ainda mais válidas, pois nenhuma decisão é unilinear ou monocausal. No entanto, acho que faltam peças para explicar sua evolução.</p>
<p>Não se trata de ignorar sua condição de “sacerdote guerrilheiro”, mas de reposicioná-lo e recuperar suas outras dimensões. Assim, surge o mito-símbolo, que nos permite valorizá-lo como precursor ou pioneiro da Teologia da Libertação, da Pesquisa da Ação Participativa (Investigación Acción Participativa – IAP), do Socialismo Raizal e da política de libertação. O mito-símbolo nos permite vislumbrar em sua experiência a mistura de profeta (em termos teológicos e sociológicos) e intelectual orgânico integral (nas palavras de Antonio Gramsci).</p>
<p>Como mito-símbolo, Camilo emerge como um teólogo comprometido, um educador de alfabetização, um extensionista crítico, um pensador situado e anti-colonial ou descolonizante, e um político radical, que pode ser questionado e, ao mesmo tempo, criticado.</p>
<p>Eu não estou dizendo nada de novo. Aprendi isto com pensadores como Orlando Fals Borda, María Cristina Salazar, Eduardo Umaña Luna, Fernando Torres Millán, Enrique Dussel, Leonardo Boff, Frei Betto, Eitan Ginzberg, Michael Löwy, Isabel Rauber, Hernán Ouviña ou Miguel Mazzeo.</p>
<p>Em conclusão, penso que se tirarmos Camilo do mito-fetiche, de ser apenas um estandarte, e o re-situarmos como um símbolo mítico, então ele poderá dialogar com o que Ernst Bloch chamou de “corrente quente do marxismo”, ou o que Michael Löwy chama de “marxismo romântico”. Camilo pode sentar-se à mesa com Antonio Gramsci, Rosa Luxemburgo e Walter Benjamin, e deste lado do mundo com José Martí, José Carlos Mariátegui e María Cano.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-74003 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/02/Foto-111.png" alt="" width="1000" height="967" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/02/Foto-111.png 1000w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/02/Foto-111-300x290.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/02/Foto-111-768x743.png 768w" sizes="auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px"></p>
<p><b>Vocês poderiam trazer algumas experiências concretas das ações de Camilo para além da guerrilha? Em quais espaços ele atuou? Quais foram suas principais contribuições teóricas e como ele conseguiu, de fato, ser um intelectual orgânico?</b></p>
<p><b>LAR: </b>Vejamos algumas das muitas atividades que Camilo Torres realizou: ele foi sempre um homem com muita capacidade e carisma, o que lhe permitiu ter acesso a diferentes círculos sociais e projetos onde foi bem recebido.</p>
<p>Durante seu tempo de estudante na Bélgica, criou, junto com outros jovens, a ECISE (Equipo Colombiano de Investigación Socioeconómica), uma equipe interdisciplinar de colombianos no estrangeiro que refletiu sobre a realidade do país.</p>
<p>Em 1960 fez parte da equipe de acadêmicos que fundou a primeira faculdade de Sociologia na Colômbia, da Universidade Nacional da Colômbia, onde também foi professor e criou e participou do Movimiento Univesitario y Profesional de Promoción de la Comunidad (MUNIPROC), para muitos considerado uma experiência precursora da IAP. Desta experiência, surgiu a criação das Juntas de Acción Comunal, que foram pensadas como uma possibilidade de descentralizar e dar capacidade de ação às comunidades dos bairros. Um exemplo disto foi em Tunjuelito, um bairro de classe trabalhadora em uma das zonas empobrecidas da capital, onde Camilo Torres e os seus alunos realizaram diferentes investigações e ações organizativas.</p>
<p>Camilo Torres, com todo o seu trabalho urbano, foi um pioneiro da sociologia urbana na América Latina, e os seus estudos permitem-nos compreender o problema urbano tanto estatisticamente como em termos do impacto da economia na cultura.</p>
<p>Camilo também fez parte do comitê técnico da reforma agrária, que por sua vez, pertenceu ao Instituto Colombiano de Reforma Agrária (INCORA), onde se caracterizou pelas suas críticas à instituição por ser ineficiente com as exigências do campo colombiano. Esta experiência foi posteriormente traduzida na proposta da Unidad de Acción Rural de Yopal (UARY), que foi inaugurada em 1964, e também procurou reforçar o trabalho camponês nas planícies colombianas.</p>
<p>Fez também parte do Instituto de Administração Social da Escola Superior de Administração Pública (ESAP), um espaço concebido para a formação, investigação e administração pública.</p>
<p>Em suma, Camilo Torres teve muitas experiências de ação concreta, investigação e organização política, que se refletiram em artigos, comunicações, entrevistas e na sua pesquisa, mas que, devido à pressão dos setores conservadores da época e à sua morte, permanecem inacabadas.</p>
<p>As contribuições acadêmicas de Camilo Torres foram na sociologia urbana, que à sua maneira refletiu e se articulou em espaços para a participação dos estudantes universitários e das comunidades. Nesta mesma perspectiva estava sempre buscando uma sociologia aplicada à criação de políticas públicas.</p>
<p>A nível político, das muitas contribuições que fez, destacaria a sua reflexão sobre organização, mas não como um fim em si mesmo ou como base do seu protagonismo, mas em uma participação organizada que permitiria às comunidades ter a capacidade de agir, como uma ação eficaz para melhorar as suas condições sociais. Sua estratégia de comunicação foram as cartas aos setores da população e a revista semanal Frente Unido, que se caracterizavam por serem assertivas, contundentes e concretas, sobretudo com capacidade para falar com distintos argumentos para os diferentes setores sociais.</p>
<p>Sobre a espiritualidade, Camilo pensou no que seria uma das muitas bases da Teologia da Libertação, o conceito de Amor Eficaz, a sua prática social, mas também a sua forma de pensar sobre o papel da igreja e da religião, sendo a síntese da nossa forma latinoamericana de fé. Camilo foi um dos primeiros não só a enunciá-la, mas também a viver na prática, viabilizando a articulação entre marxismo e religião.</p>
<p>Quanto a saber se Camilo era um intelectual orgânico, nos termos de Gramsci, defendo que sim, porque embora vindo de uma elite, não era funcional ao sistema como os intelectuais tradicionais, que também é um ponto que enfatizamos. Camilo não se reconhecia como um intelectual que conduzia as massas, pelo contrário, sempre pensou que os setores populares tinham que compreender a necessidade de melhorar as suas condições e transformar a sociedade a partir do conhecimento e de um princípio ético; isto corresponde à abordagem de Gramsci, que falava de um bloco intelectual-moral que tornaria politicamente possível o progresso intelectual das massas e não apenas de alguns grupos intelectuais, como diz no volume IV dos Cadernos do Cárcere.</p>
<p><b>NAH: </b>Em seu curto e intenso processo de vida, Camilo se convenceu da relação inseparável entre teoria e prática, práxis. No seminário, quando estava treinando para se tornar padre, buscou a ação teórica (fundou o Círculo de Estudos Sociais) e a ação prática (desenvolveu um apostolado nos bairros da classe trabalhadora). Em Lovaina (Bélgica), como estudante de ciências sociais, aprendeu teorias sociológicas e os rudimentos do marxismo, e compartilhou com os mineiros de carvão de Liège, teve relações com os sindicatos cristãos e visitou os sacerdotes operários da Bélgica, França e Espanha; também formou equipes universitárias de “quadros técnicos” para transformar a realidade social (dentro de quadros liberais e funcionalistas, não-revolucionários, como disse Luz Angela).</p>
<p>Ao retornar à Colômbia em 1959, ele multiplicou os laços entre teoria e prática. Como “técnico” ele assessorou as principais políticas sociais do governo. No INCORA, já mencionado por Luz Angela, acompanhou e promoveu cursos com estudantes, camponeses, trabalhadores e moradores do bairro. No MUNIPROC, também já mencionado, trabalhou intensamente na organização popular do subúrbio de Tunjuelito em Bogotá, e promoveu em seus cursos de Sociologia Urbana e Metodologia de Pesquisa que o trabalho dos estudantes deveria se concentrar na resolução de problemas comunitários. Tudo isso foi acompanhado por sua atividade sacerdotal.</p>
<p>Finalmente, entre 1964 e 1965, Camilo desenvolveu suas duas maiores ousadias da práxis: primeiro o UARY, já mencionado, onde ele pensava que era uma experiência de prefiguração de um projeto democrático comunitário, um novo tipo de governo a partir das bases populares e camponesas, e depois a Frente Popular Unida (FUP), como uma grande organização plebéia e multisetorial de esquerda, que buscava a unidade na diversidade, o protagonismo coletivo e o poder popular.</p>
<p>Camilo sempre abraçou a práxis, e tomou a sociologia como uma ferramenta para entender e transformar a realidade. A teoria não poderia ser algo para especialistas ou para o flerte intelectual, e a prática não poderia ser simplesmente um desperdício de energia ou um impulso epitelial. Na verdade, acredito que este é o núcleo que lhe permite assumir o marxismo; ou seja, que sua abordagem lenta e progressiva do marxismo é dada por sua fundação: a práxis.</p>
<p>Assim, em sua vida, o cristianismo e o marxismo são articulados sem contradições; ele entendeu que o primado da realidade permitia – e exigia – uni-los, mas sem declarações bombásticas ou fraseologia ideológica. Sua práxis combina teologia e materialismo histórico, o que lhe permite descobrir Deus no Povo e compreender a divindade da vida popular, e ao mesmo tempo lidar com a questão sagrada das revoluções profanas, ou a questão profana das lutas populares sagradas.</p>
<p>Neste processo, vejo Camilo como articulando dois papéis ou funções dinâmicas: a do intelectual orgânico integral, no sentido de Antonio Gramsci, e a do profeta, no sentido teológico e sociológico. Além disso, acredito que Camilo é um intelectual orgânico integral porque é um profeta, e é um profeta porque é um intelectual orgânico integral, pois através do ensino, da pesquisa, da ação profética, da liderança política e da luta armada, ele cumpre as funções de organização da economia, da hegemonia, da coerção, do paradigma e da espiritualidade.</p>
<p>A articulação “Profeta intelectual orgânico integral” é evidente em suas principais contribuições: sua visão comunalista e o Amor Efetivo como categoria integradora.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-74023 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/02/Foto-116.png" alt="" width="570" height="347" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/02/Foto-116.png 570w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/02/Foto-116-300x183.png 300w" sizes="auto, (max-width: 570px) 100vw, 570px"></p>
<p><b>O sociólogo colombiano Orlando Fals Borda, um dos fundadores da pesquisa-ação participativa, precursor do pensamento crítico e um dos mais importantes pensadores na América Latina, deixou um legado fundamental sobre como fazer ciência a partir do nosso chão latino-americano. Qual a influência de Camilo nas obras e ações de Fals Borda?</b></p>
<p><b>LAR: </b>Acreditamos que a relação entre Camilo Torres e Fals Borda começa com a sua própria amizade e na capacidade de trabalhar em equipe. Nestes tempos de competição intelectual e capitalismo acadêmico, é importante resgatar essa perspectiva de trabalho coletivo, de respeito e complementaridade.</p>
<p>Ambos se influenciaram mutuamente, primeiro por terem se tornado desconfortáveis e indisciplinados pelas epistemes eurocêntricas que os educaram. Fals Borda, formado nos Estados Unidos, e Camilo, na Europa, chegaram à Colômbia, que os acolheu com as portas abertas por serem jovens que faziam parte de uma elite do país e chegavam com diplomas internacionais, sendo assim, foram recebidos em espaços acadêmicos e de elaboração de políticas públicas. O que as elites não esperavam era que começassem a falar de prática, do povo e da organização como princípio da sua investigação, ou seja, que não só diagnosticassem, mas também quisessem transformar essas realidades.</p>
<p>Esse primeiro trecho do caminho conjunto mostrou a necessidade do que mais tarde Fals Borda chamaria de uma ciência própria, capaz de compreender as realidades do contexto latino-americano e colombiano, ou também, diria Camilo, quando falava de uma sociologia latino-americana. Assim, perceberam que os sapatos da Europa e dos Estados Unidos não lhes permitiam seguir o caminho, que tinham de caminhar com os pés no chão para se reconectarem com uma perspectiva própria que ainda não sabiam nomear.</p>
<p>Após a morte de Camilo, depois de viver a repressão de perto, quando ele e sua esposa, outra grande pensadora, Maria Cristina Salazar, foram injustamente presos, Fals Borda teve alguns anos que lhe permitiram refinar seu trabalho, mas também reconhecer que o que havia sido caminhado tinha que ser purificado, e chegou outra etapa onde Fals Borda começou a tecer, resgatando o trabalho de sua esposa, Maria Cristina Salazar. Ele continuou tecendo, resgatando também a influência de Camilo, tentando entender o papel de sua vida e do seu  trabalho como uma das muitas inspirações, aspectos que são expressos em algumas ideias desenvolvidas abaixo:</p>
<ol>
<li>O papel de Camilo Torres, como tantos outros, como agentes de mudança social na Colômbia, que subvertem a ordem ao representar anti-valores e sendo expressões anti-elites, onde questionam as coordenadas espaciais e temporais das tradições sociais. Isso é discutido em seu livro <i>La Subversión en Colombia: El cambio social en la historia</i> [Subversão na Colômbia: Mudança Social na História], que foi republicado em 2008.</li>
<li>O <i>sentipensar</i> de Fals Borda, embora seja um conceito que surge de seu trabalho <i>Historia doble de la costa</i>, e de sua experiência com pescadores em San Martin de Loba, vem da noção de Amor Eficaz de Camilo. Ambas as definições, a seu modo, buscam uma conexão real entre sentir, pensar e fazer e ajudam a superar as contradições na fé cristã e o fazer entre ciência e sentimento.</li>
<li>Podemos dizer que o trabalho inicial com Camilo tem um valor importante em toda a criação da IAP que pode ser vista em textos como <i>Por la praxis: el problema de cómo investigar la realidad para transformarla</i>, especialmente na natureza participativa da ação, pois embora a pesquisa-ação já tivesse como conceito alguns desenvolvimentos na Europa, é o tempero da participação que a torna decisiva, e é lá que as experiências de trabalho com Camilo em conselhos de ação comunitária em organizações rurais, até na própria universidade, nos permitem entender esta participação como o potencial da autonomia dos setores populares.</li>
<li>E, no final, com o socialismo Raizal, que busca integrar a práxis e as propostas de mudança que, como as de Camilo, buscavam alternativas para reconstruir uma sociedade em crise, sendo um pensamento radical que queria entender as raízes de seu povo e sua cultura, e uma perspectiva organizacional para a ação política.</li>
</ol>
<p><b>NAH: </b>Acredito que existe uma relação inseparável entre Camilo Torres e Orlando Fals Borda, porque eles expressam o mesmo horizonte. Camilo não pode ser compreendido sem as contribuições de Fals Borda e Fals Borda não pode ser explicado sem a experiência pioneira de Camilo. Seus alunos usaram uma metáfora: eles se pareciam com Castor e Pollux, os gêmeos mitológicos, mas eu acho que, até certo ponto, eles são como uma espécie de Marx e Engels, já que cada um tem suas próprias especificidades e, ao mesmo tempo, eles constroem um Corpus complexo. Há alguns anos, venho trabalhando em suas sintonias teológicas, sociológicas e políticas, pois tenho encontrado pistas nos próprios escritos de Fals Borda, lendo nas entrelinhas, “arqueologicamente”.</p>
<p>No início eu pensava que era uma simples deferência, um gesto de grande amizade, mas ao ler manuscritos, arquivos inéditos e palestras de Camilo, ou ao ouvir entrevistas com várias pessoas, comecei a entender que Fals Borda tinha notado isso muito cedo.</p>
<p>No entanto, acredito que a origem não está em Fals Borda, mas em María Cristina Salazar, a primeira doutora em sociologia da história da Colômbia, que foi amiga íntima da esposa de Camilo e, mais tarde, conforme Luz Angela mencionou, esposa de Fals Borda. Ela foi a primeira a defender Camilo contra os ataques do Cardeal e depois ela foi a primeira a propor um projeto de pesquisa para reunir o trabalho de Camilo e analisá-lo. Não estou dizendo que Fals Borda não teve suas intuições ou convicções, mas penso que o caminho dos “esclarecimentos” foi facilitado pelas contribuições e reflexões de María Cristina. Ela foi uma pioneira e infelizmente está esquecida. Ela deve ser resgatada do esquecimento.</p>
<p>Agora, no que diz respeito a Fals Borda, em diálogo com que Luz Angela já apresentou, penso que há evidências em suas obras que mostram a influência de Camilo Torres, e ele avança pelo menos quatro reivindicações:</p>
<p>1) Reivindicação histórica. Este é um esforço para explicar o que Camilo fez à luz da história e da tradição rebelde colombiana. Fals Borda recupera quatro elementos: (1) Camilo é um subversivo moral (ou ético) que se rebela contra uma ordem social injusta para estabelecer uma nova ordem (utópica); (2) Camilo é um modelo anti-elite, ou seja, alguém que trai sua classe de origem e coloca seu prestígio e conhecimento à disposição das maiorias populares. O jovem Marx chamou isso de “disponibilidade eletiva”; (3) Camilo é um campeão, promotor e defensor do comunalismo, de uma política que parte do próprio coração das comunidades organizadas, que propõe um novo tipo de poder: o poder popular, que é uma espécie de tecelagem de poderes comunitários locais; (4) Camilo é um prefigurador de uma nova era histórica, pois ele recupera o horizonte socialista, mas o recria com elementos de inspiração evangélica e análise sociológica situada; ele propõe assim uma “utopia pluralista” ou um “ecumenismo político” que Fals Borda chamou de Neosocialismo ou “Socialismo Raizal”. Estes elementos estão presentes em <i>La subversión en Colombia</i> (1967) e <i>Las revoluciones inconclusas en América Latina, 1810-1968</i> (1968).</p>
<p>2) Reivindicação pedagógica e científica. Fals Borda reivindica as ações pioneiras de Camilo como educador revolucionário, sociólogo crítico e radical, e expoente de uma ciência rebelde e subversiva que mais tarde daria origem à IAP. Basicamente, ele insiste em três contribuições fundamentais: (1) telesis, ou seja, o entendimento de que a ciência não pode ser feita sem propósito, “ciência por causa da ciência”, como dizem, mas que é necessário entender e assumir que a ciência deve ser feita para resolver as necessidades das maiorias, e isto requer levar a sério as palavras dessas maiorias; (2) phronesis, um conceito retirado da Ética Nicomacheana de Aristóteles que alude ao bom julgamento ou a critérios justos na tomada de decisões; e (3) praxis, de origem marxista, que alude à relação inquebrável entre teoria e prática para a transformação das condições materiais da existência. Estes elementos estão presentes em <i>Ciencia propia y colonialismo intelectual </i>(1970), <i>Por ahí es la cosa </i>(1971), <i>Causa popular, Ciencia popular</i> (1972), e múltiplas conferências, discursos e artigos, mesmo nos últimos anos de sua vida.</p>
<p>3) Reivindicação comunal-camponesa. No balanço do fracasso da política cooperativa camponesa e com vistas a uma ação futura comprometida com o campesinato, Fals Borda propôs retomar as ideias dos Núcleos de Acción Rural (NAR) e as ideias das Unidades de Acción Rural (UAR) propostas pela Lei de Reforma Agrária, como forma de garantir o protagonismo camponês na luta pela posse da terra. Foi precisamente Camilo quem foi pioneiro na proposta das UARs quando, como Diretor-Reitor do Instituto de Administração Social da Escola Superior de Administração Pública (IAS-ESAP), propôs a Unidade de Ação Rural de Yopal (UARY), como já mencionado, como uma experiência regional em um novo tipo de governança camponesa com uma perspectiva comunitária. Isto aparece em <i>El reformismo por dentro</i> (1972).</p>
<p>4) Exigência política. Em sua elaboração do Socialismo Raizal, Fals Borda insistiu que Camilo tinha sido um pioneiro e um catalisador fundamental. Sua proposta política ecumênica e pluralista, de baixo para cima e da periferia para o centro, é o modelo que Fals Borda aponta como uma referência obrigatória para sua própria experiência. Às vezes ele o nomeia explicitamente, às vezes implicitamente. Isto se encontra principalmente em <i>El socialismo que queremos: Un nuevo pacto social y político en Colombia </i>(1982), <i>Conocimiento y poder popular</i> (1986), <i>Acción y espacio. Autonomías en la Nueva República</i> (2000), <i>¿Por qué el socialismo ahora: retos para la izquierda democrática</i> (2003) e <i>Hacia el socialismo raizal y otros escritos</i> (2007).</p>
<p>Acredito que com o que tenho dito, posso ilustrar a influência que Camilo teve na ação de Fals Borda e, ao mesmo tempo, a importância de Fals Borda para entender as perspectivas de Camilo.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-74053 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/02/Foto-090.png" alt="" width="424" height="598" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/02/Foto-090.png 424w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/02/Foto-090-213x300.png 213w" sizes="auto, (max-width: 424px) 100vw, 424px"></p>
<p><b>Por fim, nós, do Instituto Tricontinental, temos nos desafiado a fazer uma nova ciência, articulados de forma orgânica aos movimentos sociais, não só no sentido de dar suporte teórico para as lutas, mas, principalmente, de entender que os militantes nos territórios, fazendo política, são nossos principais aliados para construirmos conhecimento com todo rigor científico necessário. Inspirados em Fals Borda e Camilo Torres, compreendemos que subverter a ordem é tarefa científica dos pesquisadores de nosso Instituto junto aos militantes-pesquisadores que estão conosco nos territórios de luta. É a partir dessa subversão, entendida como ação concreta, que criamos nossos códigos de interpretação da realidade para compor, radicalmente, a nossa narrativa, construída pelo olhar do nosso povo, de sua história, sua trajetória e, principalmente, de sua participação na luta contra as opressões vividas historicamente. Eu gostaria de ouvir de vocês, a partir da prática política de vocês, como manter Camilo vivo?</b></p>
<p><b>LAR: </b>Para esta resposta gostaria de fazer uma pequena adaptação de uma frase inicial de um belo livro escrito por Omar Cabezas sobre a revolução sandinista chamado “Canção de amor para os homens”.</p>
<p>“Eu tinha cerca de 18 anos quando, de repente, Camilo apareceu muito cedo pela manhã, com o sol, pintado numa parede da universidade. Camilo Vive”.</p>
<p>Esta adaptação é para dizer que Camilo está vivo em uma prática política, acadêmica, espiritual que nos transcende muitas vezes e que nos une. Assim, se procurarmos na história das ciências sociais na Colômbia, encontramos Camilo; na religião também, na política novamente, e este é um fenômeno muito poderoso porque quando o regime o mata, esconde o seu corpo e torna um estigma falar de Camilo no meio de uma política de guerra, torna-o mais mítico, mais lembrado. Assim mesmo Camilo é também recordado por outro aspecto, que é o fato de acreditar no conhecimento coletivo, em fazer e ser uma escola, de modo que as iniciativas que apoiava eram coletivas e davam poder às comunidades, o que lhes permitia sobreviver, ser uma boa colheita e uma semente que se espalhava muito para além da Colômbia e da América Latina.</p>
<p>Foi assim que em décadas Camilo foi estudado, resgatado e tem inspirado artistas, intelectuais, religiosos e políticos. Durante muitos anos vimos como a comemoração da morte de Camilo sempre nos trouxe um fio de pessoas e experiências, mas também vimos como pouco a pouco uma geração de pensadores nos deixou e com eles a memória mais vívida de Camilo.</p>
<p>Na atualidade, o nosso maior desafio é atualizá-lo, sintonizá-lo com os nossos tempos e torná-lo uma referência no que pensamos e fazemos, sem fazer dele um ídolo, ou algo inatingível; pelo contrário, trazê-lo à mesa para construir conosco. O desafio para manter Camilo é reconhecer que temos um papel na história; isto foi falado por Umaña Luna, advogado, humanista, amigo e membro da família de Camilo, que em um 15 de Fevereiro (dia que Camilo tombou), quando estávamos indo para o auditório para uma conferência sobre Camilo Torres, ele falou para um grupo de estudantes: “agora é a vez de vocês”.</p>
<p>Espaços como Las Jornadas del Amor Eficaz, onde vêm pessoas de todos os países e origens, de diversos interesses, de vários espaços de investigação e divulgação do pensamento de Camilo Torres, possibilita falar sobre muitas outras pessoas e ações que mantém Camilo vivo, de falar sobre o IAP, sobre fé e política, de falar sobre paz, sobre muitos temas que nem mesmo Camilo teria sabido que poderiam ser uma fonte de inspiração.</p>
<p><b>NAH: </b>Gostaria de responder a esta pergunta referindo-me a três canções.</p>
<p>A primeira é chamada “Va Camilo por Chucurí”, do colombiano Edson Velandia. Lá ele diz que encontra Camilo, que já está morto, que lhe pede para trazê-lo de volta à vida, mas depois ele reflete e diz: “Melhor não, não se preocupe, eu me trarei de volta à vida sozinho”.</p>
<p>Portanto, a ideia que tenho é que Camilo não precisa de nós para mantê-lo vivo, porque esse é o seu trabalho. É o trabalho dos mártires, dos heróis, dos profetas, dos referentes. Quando seu sangue toca a terra, ele germina, e quando seu corpo é enterrado, ele floresce. O mito da ressurreição ou de “voltarei e serei milhões” nos diz que nenhuma derrota é eterna e que há sempre uma oportunidade de recuperar forças. É a mensagem de Jesus de Nazaré, de Tupac Amaru, de Evita Perón, de Che Guevara.</p>
<p>O poder instituído que ordenou a morte de Camilo não poderia impedi-lo de ressuscitar sozinho e aparecer em todo o continente como um povo: indígena, camponês, negro, sindicalista, estudante, intelectual orgânico, anti-elite, político desorganizado e cronopio do futuro. O mesmo poder que ordenou e consentiu com o desaparecimento de seu corpo, o “túmulo vazio”, não pôde impedir seu espírito de vagar pelas lutas populares e seu espectro de assombrar mesmo em sonhos.</p>
<p>A segunda canção é “Cruz de luz”, do uruguaio Daniel Viglietti. Ela contém duas frases icônicas: “Onde Camilo caiu, nasceu uma cruz, não de madeira, mas de luz” e “Camilo Torres morre para viver”.</p>
<p>O corpo de Camilo caiu no chão, mas seu exemplo, compromisso, misticismo, coerência e radicalismo espiritual e ético-político vivem em cada um de nós. A semente deve morrer para que a árvore germine e dê frutos, e acredito que no caso de Camilo sua luz continua iluminando as lutas e as buscas, mesmo que não saibamos bem do que se trata.</p>
<p>A última canção é “Una canción necesaria”, do cubano Vicente Feliú. Este trabalho, dedicado ao Che, talvez me permita responder mais precisamente à questão de como manter vivo Camilo. Nas palavras do cantor, é uma questão de evitar levantá-lo sobre um altar, construir lendas para ele, torná-lo inatingível, repetir suas frases de memória (e sem contexto). Devemos tentar manter a modéstia, o amor, a fé e o respeito por sua práxis, mas estar conscientes do profundo dever de defendê-lo de ser um Deus.</p>
<p> </p>
<p><i>*Delana Corazza é pesquisadora do Instituto Tricontinental, Cientista Social (PUC-SP) e mestre em Arquitetura e Urbanismo (USP).<br>
</i></p>
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		<item>
		<title>O fundamentalismo evangélico e a ameaça à democracia: desafios para o novo governo</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/o-fundamentalismo-evangelico-e-a-ameaca-a-democracia-desafios-para-o-novo-governo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luiz]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 13 Jan 2023 21:43:30 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[O mês de fevereiro marca o nascimento e a morte do grande padre revolucionário, o colombiano Camilo Torres Restrepo. Camilo tem sido estudado, resgatado e inspirado artistas, intelectuais, religiosos e políticos nas últimas décadas. Esta entrevista mostra como sua práxis combinou teologia e materialismo histórico, o que lhe permitiu descobrir Deus no Povo e compreender a divindade da vida popular, e ao mesmo tempo lidar com a questão sagrada das revoluções profanas, ou a questão profana das lutas populares sagradas.&hellip;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_71381" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-71381" class="wp-image-71381 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/01/image_processing20230113-11986-w3yxf1.jpeg" alt="" width="800" height="533"><p id="caption-attachment-71381" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Apoiadoras de Bolsonaro rezam após a derrota do candidato no segundo turno das eleições – Alan Rios/Reprodução Redes Sociais</small></p></div>
<p> </p>
<p style="text-align: right;"><em>Rafael Rodrigues da Costa, Delana Corazza e Angelica Tostes *</em></p>
<p> </p>
<p>Não é novo o interesse da classe dominante na religião evangélica, o fenômeno do fundamentalismo é uma realidade e é evidente o projeto de poder desse setor que cresce a vento e popa, o qual foi trabalhado no Dossiê 39° do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social <em><a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-59-fundamentalismo-religioso-e-imperialismo-latinoamerica/">Fundamentalismo e imperialismo na América Latina: ações e resistências</a></em>.</p>
<p>O fundamentalismo religioso tem se tornado uma característica em todos os países de <em>Nuestra América</em>. Após a instauração do neoliberalismo nos territórios latino-americanos houve um avanço da direita nas esferas políticas, sociais e religiosas no continente. Esse processo se refletiu não apenas pela retirada de direitos da classe trabalhadora da América Latina, mas também em discursos de enfraquecimento das instituições democráticas.</p>
<p>Basta rememorar as ditaduras e golpes latino-americanos, pois nesses territórios ainda há uma frágil democracia em constante ameaça. Foram muitos os golpes de Estado quando os governantes progressistas estavam no poder, como os golpes que aconteceram no Brasil (1964), Chile (1973), Peru (1992), Honduras (2009) e Bolívia (2019) e golpes com linguagem judicial, conhecidos como <em>lawfare</em>, que resultou no <em>impeachment</em> de Fernando Lugo no Paraguai em 2012 e de Dilma Rousseff no Brasil em 2016; sem contar a prisão de Luiz Inácio Lula da Silva nas vésperas das eleições presidenciáveis de 2018, que resultou no vitória do candidato de extrema direita Jair Bolsonaro.</p>
<p style="text-align: center;">**</p>
<p>Com a vitória de Lula nas eleições presidenciais de 2022 houve uma mobilização da extrema direita bolsonarista questionando as urnas, fechando rodovias e avenidas, buscando criar um sentimento de caos e medo, instigando discursos de violências, disseminando <em>fake news, </em>e tudo isso validado e propagado por inúmeras igrejas evangélicas e seus líderes religiosos. Uma matéria a Agência Pública apontou alguns <a href="https://apublica.org/2023/01/a-face-religiosa-do-terrorismo-pastores-articularam-caravanas-e-convocaram-ataques-em-bsb/#Religi%C3%A3o">pastores e pastoras que articularam os ataques em Brasília.</a> Nomes como Magno Malta, Silas Malafaia, Josué Valandro e Ana Marita Terra Nova constam na lista. Vale ressaltar que apenas 28% dos evangélicos votaram em Lula, segundo estimativa do Datafolha.</p>
<p>No dia 8 de janeiro de 2023, no mar de terroristas em verde e amarelo, com a bíblia na mão, em meio a barulhos de vidros quebrados, gritos, obras de arte da cultura brasileira sendo destruídas, o grupo cantava: “Os guerreiros se preparam para a grande luta / É Jesus, o Capitão, que avante os levará / A milícia dos remidos marcha impoluta / Certa que vitória alcançará”, um famoso hino da Harpa Cristã, de joelhos louvando a um Deus que é a imagem de si próprios: violento, autoritário e cheio de ódio.</p>
<p>A teologia que instiga esses cânticos e essas ações é chamada de teologia do domínio, que é vinculada a ideia de “Guerra Espiritual”, uma luta contra um inimigo em comum – marxismo, comunismo, esquerda, Lula, STF, qualquer outra coisa a ser elegida pelo grupo -, e o enfrentamento desse mal deve ser feito em diferentes áreas da vida, como a política, o poder militar, a educação, o meio ambiente, a cultura, a ciência e outros setores.</p>
<p>Com o avanço da disseminação das <em>fake news</em> no meio religioso, a teologia do domínio se viu em um deleite para propagar suas ideologias fascistas e persecutórias. Para dois terços dos evangélicos, por exemplo, Lula não ganhou a eleição do ano passado e concordam que uma intervenção militar deveria invalidar o resultado da eleição presidencial. É o que revela a última pesquisa Atlas/Intel, realizada com 2.200 pessoas entre os dias 8 e  9 de janeiro de 2023.</p>
<p>Os números retratam um abismo de percepções entre os evangélicos e a opinião pública em geral. Enquanto a maior parte dos entrevistados reconhece que Lula venceu a eleição presidencial de 2022 – 56,4% ao todo –, entre os evangélicos, apenas 28,1% concorda com tal afirmação. Em contrapartida, 67,9% dos evangélicos não acreditam que Lula obteve mais votos que o ex-presidente Jair Bolsonaro, número 28% superior à média geral dos entrevistados.</p>
<p>Talvez, por esse motivo, os evangélicos sejam o grupo religioso mais simpático à proposta de intervenção militar para invalidar o resultado da eleição presidencial. Nesse sentido, 6 em cada 10 evangélicos (64,3%) afirmam ser favoráveis à intervenção militar, enquanto menos de um terço deles (29,5%) se dizem contra. No geral, porém, 54,1% dos entrevistados afirmam ser contrários a uma intervenção militar e apenas 36,8% a favor.</p>
<p>Coincidência ou não, os evangélicos são também os religiosos com maior tolerância à ideia de uma ditadura militar no país. Embora 71% dos evangélicos seja contrário à proposta, 15,5% deles se mostram favoráveis. Na comparação entre religiões, o número dos evangélicos que aprovam a instauração de um regime autoritário no Brasil é 5% maior do registrado entre católicos e quase 10% a mais do encontrado entre ateus e agnósticos.</p>
<p>Não por acaso, os evangélicos são o grupo que mais aprovou a ação de manifestantes bolsonaristas que ocuparam o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o STF no último dia 8 de Janeiro. Em números proporcionais: 31,2% dos evangélicos aprovam as invasões, cifra 17% maior que a encontrada entre católicos e quase duas vezes acima da média geral dos entrevistados (18,4%). A maior parte dos entrevistados (75,8%), contudo, desaprova os atos.</p>
<p>Os dados em tela mostram a dimensão e profundidade do envolvimento dos evangélicos com a extrema direita. Revelam ainda o quanto a narrativa bolsonarista possui aderência nesses crentes, sobretudo no descrédito às instituições e ao sistema democrático. E por mais que os evangélicos sejam de fato plurais, diversos e não raras vezes conflituosos, é inegável a coesão e senso de unidade que o movimento evangélico ganhou após a emergência do bolsonarismo.</p>
<p>O grande desafio de nosso momento histórico, portanto, consiste em encontrar caminhos para que valores democráticos tenham espaço em um campo tão influenciado pelo extremismo político e pelo fundamentalismo religioso. A esquerda não-religiosa deve se atentar para os atos do dia 8 de janeiro envolvendo os religiosos como um campo a ser trabalhado de duas formas: i) a neutralização e enfrentamento do discurso fundamentalista: como desmantelar as atrocidades psicossociais que têm sido cometidas em nome da religião na sociedade, políticas públicas e outros espaços da vida; ii) a disputa hermenêutica como estratégia de fazer pontes com a base religiosa popular que encontra refúgio na religião, entendendo a potência da experiência religiosa para o povo brasileiro.</p>
<p>Esses desafios se colocam para o campo popular na tarefa perene de, junto à classe trabalhadora, no cotidiano dos territórios, considerar a religião como identidade mobilizadora de nosso povo e, a partir dessa linguagem, construir outras narrativas de mobilização e compreensão do mundo. No entanto, todo este processo por si só não é suficiente. Ao observar as ações em nossos territórios e na América Latina, podemos perceber que o fundamentalismo não se limita apenas a gritos raivosos inconsequentes. Ele segue fomentando leis, interferindo em materiais didáticos de nossas crianças, ocupando as universidades – muitas vezes fantasiados de uma suposta neutralidade científica.</p>
<p>As lideranças fundamentalistas seguem se organizando estrategicamente com pautas que dialogam diretamente com o povo, manejando afetos e sentimentos com consequências concretas, criando um novo senso comum crente que tem hegemonizado a leitura de mundo de parte significativa de nossa classe e que vai além, ocupando espaços públicos estratégicos. É papel dos militantes populares e dos espaços institucionais da esquerda olhar para os evangélicos como força política institucionalizada e também mobilizadora de nossa classe. A desbolsonarização da sociedade brasileira precisará passar pelos evangélicos.</p>
<p> </p>
<p><em>*  Rafael Rodrigues da Costa, Sociólogo, mestre em Ciências Sociais pela Unifesp e pesquisador visitante da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Professor de Psicologia Social na Faculdade FECAF.</em></p>
<p><em>Delana Corazza, cientista social, mestre em Arquitetura e Urbanismo (FAU-USP), doutoranda em Geografia pela Unesp, coordenadora da pesquisa Evangélicos, Política e Trabalho de Base do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social</em></p>
<p><em>Angelica Tostes, teóloga, mestre em Ciências da Religião (UMESP), coordenadora auxiliar de cursos Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular e coordenadora da pesquisa Evangélicos, Política e Trabalho de Base do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.</em></p>
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		<title>Cartilha sobre evangélicos se debruça sobre o fenômeno religioso</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/cartilha-sobre-evangelicos-se-debruca-sobre-o-fenomeno-religioso/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luiz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 10 Feb 2022 12:54:38 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[O fundamentalismo religioso tem se tornado uma característica em todos os países de Nuestra América. Após a instauração do neoliberalismo nos territórios latino-americanos houve um avanço da direita nas esferas políticas, sociais e religiosas no continente. Esse processo se refletiu não apenas pela retirada de direitos da classe trabalhadora da América Latina, mas também em discursos de enfraquecimento das instituições democráticas.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 class="child-term brasilpost__heading" style="margin:2em 0;"><a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/br-page/?term_id=1413"><strong>Pesquisa sobre os Evangélicos e a Política</strong></a></h3>
<p><a href="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/02/20220202_Evang.pdf"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-56176 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/02/IG-Post.jpg" alt="" width="1080" height="1080" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/02/IG-Post.jpg 1080w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/02/IG-Post-300x300.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/02/IG-Post-1024x1024.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/02/IG-Post-150x150.jpg 150w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/02/IG-Post-768x768.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 1080px) 100vw, 1080px"></a></p>
<p> </p>
<p>Quem são os evangélicos? Como e por que eles cresceram tanto nas últimas décadas? O que os evangélicos pensam sobre a esquerda brasileira? Afinal, ao falarmos sobre os evangélicos estamos tratando de algo homogêneo?</p>
<p>Essas são apenas algumas perguntas que a <a href="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/02/20220202_Evang.pdf">cartilha <em>Evangélicos e Trabalho de base</em></a>, construída pela <em><a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/br-page/?term_id=1413">Pesquisa sobre os Evangélicos e a Política</a>, </em>do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, pretende responder.</p>
<p>Lançada nesta quinta-feira (10), a cartilha tem o objetivo de compreender as diferentes e contraditórias expressões da fé popular evangélica, tão presente nas periferias e territórios dos campos e das cidades brasileiras, uma vez que esse segmento da população já representa mais de 30% da sociedade brasileira.</p>
<p>A cartilha foi elaborada a partir de entrevistas com evangélicos e evangélicas de diferentes vertentes e opiniões, seja elas progressistas, conservadoras ou pessoas consideradas “em disputa”. Também foram ouvidas e acompanhado os desafios e superações do trabalho de base de militantes de organizações populares nos territórios, que encontram evangélicos no cotidiano da luta e precisam lidar com esse novo cenário. Com isso, a cartilha <em>Evangélicos e Trabalho de base</em> mergulha no profundo do fenômeno religioso, desde a literatura a cultos evangélicos, com suas possibilidades, contradições e fissuras.</p>
<h3 style="margin:2em 0;"><strong><br>
Por que os evangélicos?</strong></h3>
<p>O enfoque na religião evangélica ocorre porque há um reconhecimento de que a esquerda brasileira se distanciou da religiosidade popular, que em outro momento era majoritariamente católica e agora passa a ser cada vez mais evangélica.</p>
<p>Segundo a cartilha, “a mudança da paisagem religiosa brasileira tem impactos na política e na luta de classes: se não conseguimos nos comunicar mais com o povo, mover corações e mentes para a luta, não avançamos no projeto popular para o Brasil. Temos como objetivo compreender as bases dessa nova configuração de classe que passa a ser essencial para a Batalha de Ideias, sem que com isso percamos a dimensão e importância do diálogo com outras religiosidades”.</p>
<p>A cartilha também reconhece um preconceito e uma tensão da esquerda em relação a fé evangélica, e a necessidade de desconstruí-los devido a importância simbólica e numérica dos evangélicos no atual cenário político.</p>
<p>Afinal, como nos alerta a <a href="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/02/20220202_Evang.pdf">cartilha <em>Evangélicos e Trabalho de base, </em></a>é preciso “compreender que o projeto de uma religiosidade popular tem um propósito estratégico revolucionário, visto que a fé impulsiona a práticas de transformação! A fé pode e deve influenciar o projeto histórico emancipatório e para isso precisamos relembrar seu caráter profético, de denunciar os males de seu tempo e apontar novos horizontes justos”.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>As principais notícias do mundo evangélico – Novembro/2021</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/as-principais-noticias-do-mundo-evangelico-novembro-2021/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luiz]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 17 Dec 2021 17:37:43 +0000</pubDate>
				<guid isPermaLink="false">https://thetricontinental.org/?post_type=brasil&#038;p=54390</guid>

					<description><![CDATA[Os evangélicos já representam mais de 30% da sociedade brasileira. Mas afinal, quem são os evangélicos? Como e por que eles cresceram tanto nas últimas décadas? O que os evangélicos pensam sobre a esquerda brasileira? Essas são algumas perguntas que a cartilha &#8220;Evangélicos e Trabalho de base&#8221; pretende responder.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="heateor_sss_sharing_container heateor_sss_horizontal_sharing"></div>
<h3 class="child-term brasilpost__heading" style="margin:2em 0;"><a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/br-page/?term_id=1413"><strong>Pesquisa sobre os Evangélicos e a Política</strong></a></h3>
<div id="attachment_54391" class="wp-caption alignnone"><a href="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/12/fe.webp"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-54391" class="wp-image-54391 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/12/fe.webp" alt="" width="1200" height="720" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/12/fe.webp 1200w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/12/fe-300x180.webp 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/12/fe-1024x614.webp 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/12/fe-768x461.webp 768w" sizes="auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px"></a><p id="caption-attachment-54391" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Nem só de fundamentalismos vive o mundo evangélico. Pelo contrário, as contra-narrativas da fé seguem corajosamente em marcha pela tolerância e libertação. Foto: Reprodução.</small></p></div>
<p> </p>
<p> </p>
<p style="text-align: right;"><em>N° 11/2021</em></p>
<p> </p>
<p>Nossa última publicação das notícias do mundo evangélico de 2021 dialoga com o que vimos durante o ano todo: parte dos evangélicos fundamentalistas destilando seus ódios contra as mulheres e a população LGBTQIA+, os evangélicos do governo Bolsonaro “avançando em retrocessos”, negacionismos e intolerância religiosa. E o mais importante de tudo, há pessoas de fé, corajosas e firmes no enfrentamento aos fundamentalismos. Que o novo ano seja de luta e de vitórias para a nossa classe, que carrega a identidade religiosa como parte importante dessa luta!</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><b>Fundamentalismo<br>
</b></h3>
<p>No mês que passou, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD), anunciou o primeiro evento “sem passaporte da vacina” na cidade e, adivinhem? Será um evento evangélico da Assembleia de Deus Ministério Madureira. <a href="https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2021/11/12/encontro-igreja-evento-publico-oficial-rio.ghtml">“É só chegar!” </a>conclamou o secretário municipal de Saúde, Daniel Soranz. Quem nos acompanha por aqui, conhece a briga durante toda a pandemia entre abrir e fechar as igrejas. Agora, em um momento de certo respiro na situação pandêmica, mais do que nunca é importante garantir que a ciência nos salve e que os protocolos sejam cumpridos. Ainda que o evento seja em lugar aberto, a vacina e o uso de máscaras continuam sendo as principais garantias de que estamos protegidos.</p>
<p>O fundamentalismo religioso foi a marca dos discursos dos grandes pastores midiáticos, que encontram ecos no governo (ou seria o contrário?). U<a href="https://istoe.com.br/videos-resgatam-o-que-lideres-evangelicos-falaram-sobre-a-pandemia/">ma retrospectiva com essas falas que, ao serem levadas como verdades, podem ter custado a vida de muitos brasileiros:</a> “vacina causa câncer e possui HIV”, a defesa anticientífica do tratamento precoce, feijão vendido a mil reais como garantia de cura entre tantas outras atrocidades. Apesar de tudo isso, ponto para a Marcha para Jesus, que aconteceu no último mês no sambódromo e exigiu o <a href="https://agora.folha.uol.com.br/sao-paulo/2021/11/marcha-para-jesus-exige-passaporte-de-vacina-para-entrar-no-sambodromo-de-sp-nesta-terca-2.shtml">“passaporte da vacina”</a> dos fiéis para participarem do evento, além do teste negativo para Covid e do uso de máscaras.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><b>Bolsonaro<br>
</b></h3>
<p><a href="https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/pontopoder/fe-agua-e-farda-o-que-levou-bolsonaro-a-cada-regiao-do-brasil-1.3156980">Quais as estratégias do atual presidente nas viagens que tem feito pelo Brasil</a>? Além de disseminar o vírus pelo nosso país, Bolsonaro tem atuado de forma estratégica em cada região buscando votos para sua reeleição. Além do apelo militar, entre outros, na região Norte, por exemplo, a questão religiosa foi motivo de 8 viagens do presidente nos últimos três anos, todas ligadas às igrejas evangélicas. Sabemos que, além dos militares, a principal base do governo – que já vem demonstrando que não é tão fiel assim – são os evangélicos.</p>
<p><a href="https://veja.abril.com.br/blog/thomas-traumann/a-disputa-pela-vice-de-bolsonaro/">Fábio Faria (PSD), marido de Patrícia Abravanel, filha de Silvio Santos, é um dos possíveis nomes para a candidatura de vice-presidente ao lado de Bolsonaro.</a> No que diz respeito à religião, Fábio se assemelha ao presidente: é de família católica, mas muito pŕoximo das Igrejas evangélicas – em especial Sara Nossa Terra, que ele diz frequentar esporadicamente.</p>
<p>Essa corrida aos evangélicos não é sem motivo, Bolsonaro tem visto os números de sua aprovação despencarem, inclusive entre os evangélicos. Pesquisa realizada pela Exame/Ideia demonstra que <a href="https://www.correiodobrasil.com.br/aprovacao-atual-governo-cai-evangelicos/">a aprovação do presidente entre os evangélicos é de 28%. A queda é de 11 pontos percentuais desde a rodada de 22 de outubro. </a></p>
<p>Algumas coisas um pouco cômicas também acontecem neste governo… No portal R7, da Record, que é vinculada a Igreja Universal do Reino de Deus, a publicação do jornalista Guto Ferreira  sugere 10 motivos para a reeleição de Bolsonaro. O texto tem somente a seguinte frase: “se você abriu esta matéria, lamento. Não existem motivos. Assim como não existem Duendes e Papai Noel. Fim. É simplesmente o pior governo desde a redemocratização do país. Boa noite a todos.” A publicação <a href="https://radaramazonico.com.br/portal-da-record-apaga-texto-de-colunista-com-pegadinha-sobre-reeleicao-de-bolsonaro-e-depois-volta-atras/">foi retirada do portal e depois editada dizendo que o conteúdo não reflete a opinião da Record. </a></p>
<p>Bolsonaro segue atirando contra o resto de respeito que temos internacionalmente. Em análise para o portal Brasil de Fato, Mohammed Nadir provoca a questão: sendo a diplomacia brasileira uma das mais respeitadas no mundo, <a href="https://www.brasildefato.com.br/2021/11/21/analise-com-crivella-na-africa-bolsonaro-poe-itamaraty-a-favor-da-igreja-universal">“por que tanta teimosia de Jair Bolsonaro em nomear uma pessoa com ficha suja, condenada e corrupta para representar a República num dos postos mais influentes do continente africano?”</a>. A pessoa no caso seria Marcelo Crivella, sobrinho de Edir Macedo. Para Nadir, Bolsonaro sente-se em dívida para com o líder da Universal, dada a importância do apoio do Bispo para seu projeto, sendo assim, fará o que for necessário para agradá-lo. No entanto, a insistência não surtiu efeito e  a <a href="https://revistaforum.com.br/politica/africa-do-sul-bolsonaro-retira-crivella-embaixada/">África do Sul, ignorando a vontade de Bolsonaro, retirou a indicação de Crivella</a> para a embaixada.</p>
<p>Agradar aos evangélicos tem sido a grande arma, para usar a simbologia do próprio, de Bolsonaro. O presidente, que passou boa parte do mandato sem partido, se filiou no último mês ao PL, justamente no dia do Evangélico: <a href="https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/opiniao/colunistas/william-santos/filiacao-de-bolsonaro-ao-pl-tem-duplo-aceno-de-fidelidade-ao-centrao-e-aos-evangelicos-1.3165273">“a ida para um partido do Centrão que engrossa as fileiras da bancada da Bíblia no Congresso Nacional, nesta data significativa para a comunidade representada por ela, não é a primeira, tampouco será a última investida do presidente neste nicho até o ano que vem”. </a></p>
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<h3 style="margin:2em 0;"><b>Damares</b></h3>
<p>Damares acenou para a comunidade LGBTQIA+ dizendo que, <a href="https://www.opovo.com.br/noticias/politica/2021/11/09/damares-reconhece-valor-de-familias-homoafetivas-somos-obrigados-como-estado-a-fortalece-los-tambem.html">como “estado”, é obrigada a considerar todas as configurações familiares e de proteger as crianças filhas de casais homoafetivos do preconceito</a>. Apesar do aparente avanço da fala, vale lembrar que ela já afirmou que “a homossexualidade é aprendida na infância”, como se a educação sexual transformasse as crianças em LGBTQIA+. Também já se manifestou diversas vezes contra o espantalho da “ideologia de gênero”, que, como ela afirma, pressiona as meninas a se tornarem bissexuais.</p>
<p>Damares também se manifestou contrária às mulheres trans no esporte feminino, dizendo que os homens são mais fortes do que as mulheres para protegê-las e que agora, além de machucá-las, querem competir com elas. <a href="https://www.radioprogresso.com.br/e-sabotagem-e-vergonhoso-diz-ministra-sobre-atletas-trans-no-esporte-feminino/">“É sabotagem. É vergonhoso”</a>, afirma a ministra.</p>
<p>Apesar de tantos discursos da ministra sobre transparência e ações em sua gestão, não há informações sobre <a href="https://veja.abril.com.br/blog/maquiavel/o-apagao-na-politica-de-direitos-humanos-na-gestao-de-damares/">o cumprimento das ações previstas no Plano Nacional de Direitos Humanos</a> em relação a dados sobre violência contra a mulher, liberdade religiosa, entre outros temas fundamentais na garantia de Direitos Humanos, que é uma política de Estado e não de Governo.</p>
<p>Enquanto isso, a pauta antiaborto segue forte: <a href="https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2021/11/02/damares-vai-a-genebra-para-celebrar-pacto-antiaborto.htm">a ministra irá a Genebra para se reunir com outros países pela coalização internacional antiaborto</a>. Com a saída dos EUA da coalizão, o Brasil na figura de Damares tomará a liderança do grupo.</p>
<p>Mas qual o futuro de Damares neste governo? Popular entre os evangélicos e nome que chegou a circular com força para a vaga da vice-presidência nas próximas eleições, Damares hoje circula menos no entorno do presidente. <a href="https://veja.abril.com.br/brasil/damares-perde-prestigio-e-e-a-ministra-que-menos-usa-a-verba-de-sua-pasta/">Recebendo uma das menores cifras, Damares reclama que falta orçamento, no entanto, utilizou até novembro apenas 43% do orçamento anual</a>. O que pode parecer uma forma de economia dos gastos públicos, é na prática um grave problema de gestão.</p>
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<h3 style="margin:2em 0;"><b>Milton Ribeiro<br>
</b></h3>
<p>No mês de novembro, foram aplicadas as provas do ENEM em meio a muitas polêmicas. Diversos servidores do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), órgão que elabora, aplica e corrige a prova de ingresso ao ensino superior no Brasil, deixaram seus cargos. <a href="https://www.metropoles.com/brasil/apos-debandada-no-inep-milton-ribeiro-diz-que-enem-2021-esta-mantido">Apesar da debandada dos servidores, a prova foi realizada</a>. Os funcionários que pediram demissão afirmaram que estavam sofrendo perseguição e vigilância política por parte do governo. Dias depois dos servidores terem colocado os cargos à disposição, Bolsonaro afirmou que a prova teria, então, <a href="https://www.cartacapital.com.br/politica/bolsonaro-diz-que-prova-do-enem-vai-ter-a-cara-do-governo/">“a cara do governo”</a> (medo!). E a  face deste governo é realmente assustadora, vale citar a fala do presidente sobre o ministro da educação, o pastor presbiteriano Milton Ribeiro, para confirmarmos: “não escolhi o Milton pela sua formação religiosa, mas ele é um pastor. Quem poderia imaginar um pastor no MEC? <a href="https://educacao.uol.com.br/noticias/2021/11/24/bolsonaro-diz-que-ministro-da-educacao-esta-acabando-com-lixo-acumulado.htm?cmpid=copiaecola">O que nós queremos para nossos filhos? Que o menino seja menino, que a menina seja menina, e não aquele lixo acumulado</a> de 2003 para cá, onde se falava de quase tudo na escola, menos de física, química e matemática”. Para o deputado Israel Batista (PV-DF), a fala do presidente sobre o exame é um <a href="https://oglobo.globo.com/brasil/educacao/apos-fala-de-bolsonaro-comissao-da-camara-quer-convocar-ministro-da-educacao-por-interferencia-politica-no-inep-25277913">atestado de culpa</a>, de que de fato há interferência e vigilância política por parte do governo na prova do ENEM.</p>
<p>Milton Ribeiro deve ser chamado para se explicar no Congresso. Depois da fala do presidente e da polêmica gerada, o pastor e ministro afirmou que a prova está pronta há meses e que <a href="https://ultimosegundo.ig.com.br/educacao/2021-11-16/-nem-eu--nem-o-presidente-nao-ha-como-interferir-no-enem---diz-milton-ribeiro.html">nem ele, nem Bolsonaro poderiam interferir no ENEM</a>. A expectativa do ministro é que a prova seja realizada sem politização. A cara do governo, para ele seria: <a href="https://www.oantagonista.com/brasil/milton-ribeiro-diz-que-enem-tem-a-competencia-a-honestidade-e-a-seriedade-do-governo/">“competência, honestidade, seriedade”.</a> Mentir é pecado, pastor!</p>
<p>O Enem deste ano teve 26% de abstenção e o ministro, vejam só que surpresa, colocou a culpa nos professores da rede pública que se posicionaram contra o retorno das aulas presenciais. Quem acompanhou o debate nas escolas públicas sobre o retorno das aulas presenciais, sabe perfeitamente que o poder público negligenciou reformas necessárias para garantir as atividades presenciais com segurança. A opção pelo não retorno se deu por um comprometimento com a vida. Mesmo assim, Milton Ribeiro afirmou que <a href="https://guiadoestudante.abril.com.br/noticia/professor-da-rede-publica-contribuiu-para-ausencias-no-enem-diz-ministro/">“muitos jovens, sobretudo das classes mais humildes, não puderam fazer a prova porque estudavam em escolas públicas em que os professores não queriam dar aula”</a>.</p>
<p>Mas além de polêmicas, o que este governo tem feito? O governo negligenciou programa de internet para os alunos, que ficaram quase dois anos sem frequentar as escolas. O relatório aprovado pela Comissão Externa de Acompanhamento do <a href="https://revistaforum.com.br/tag/ministerio-da-educacao/">Ministério da Educação</a> na Câmara (Comex/MEC) mostra que o <a href="https://revistaforum.com.br/politica/menos-de-1-governo-bolsonaro-negligenciou-programa-de-internet-nas-escolas/"><b>governo gastou menos de 1% da verba que deveria ser utilizada para implementar o programa Educação Conectada no ano de 2021</b></a>. Um crime contra tantas crianças que não têm acesso às mínimas condições de se manterem nas escolas em um período pandêmico, que se estendeu por tantos meses, comprometendo o aprendizado de uma geração.</p>
<p>Milton Ribeiro tem conseguido uma “boquinha” no governo para pessoas próximas. Documentos revelam que os ministros de Bolsonaro <a href="https://www.cartacapital.com.br/cartaexpressa/ministros-de-bolsonaro-dao-carona-a-familiares-e-pastor-em-voos-da-fab/">têm dado carona em aeronaves da Força Aérea Brasileira para parentes e pastores.</a> O ministro da Educação aproveitou a oportunidade e levou o pastor Arilton Moura, da Igreja Cristo para Todos, para o Maranhão.</p>
<p>Por fim, para fecharmos este ponto, o ministro elogiou a Universidade Federal do Ceará (UFC) por ter proibido a “implantação de banheiros ideológicos”, referente aos banheiros para pessoas trans e não binárias. Se nada fizermos, teremos mais um ano com o ministro comemorando os retrocessos…</p>
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<h3 style="margin:2em 0;"><b>André Mendonça e STF</b></h3>
<p>Já estamos em dezembro, portanto, já sabemos que o Senado aprovou, depois de quase seis meses,o famoso terrivelmente evangélico André Mendonça, pastor presbiteriano, fiel escudeiro do presidente, para o Supremo Tribunal Federal (STF). “Um passo para o homem, um salto para os evangélicos”, foi a tônica do pronunciamento do novo ministro após a aprovação. Adiantando um pouco a reflexão que faremos no ano que vem sobre este assunto, a aprovação de André Mendonça é uma grande pedra no caminho para o campo progressista, especialmente naquilo que os fundamentalistas têm defendido como principais bandeiras: a reação contra a luta por direitos no que se refere às questões de gênero e sexualidade. Enquanto muitos nos preocupamos com os pentecostais e neopentecostais, são eles, os protestantes históricos fundamentalistas, que têm ocupado os principais espaços de poder. Mas vamos ao caminho percorrido neste último mês:</p>
<p>Nestes mais de 100 dias de espera e forte atuação do campo evangélico, novembro foi dedicado à pressão para que acontecesse a tão esperada sabatina de André Mendonça. Integrantes do Palácio do Planalto, inclusive, aproveitaram o desgaste do presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, Davi Alcolumbre (DEM), responsável por marcar a sabatina, <a href="https://blogs.oglobo.globo.com/lauro-jardim/post/planalto-quer-aproveitar-desgaste-de-alcolumbre-para-pressionar-por-andre-mendonca.html">para pedir seu afastamento</a>, por esquema de rachadinha.</p>
<p>A resistência de Alcolumbre ao nome de André Mendonça foi vista pelo deputado Sóstenes Cavalcanti (DEM), aliado de Silas Malafaia, como um ataque aos evangélicos. O deputado aproveitou para falar que essa resistência é fruto de um preconceito que os evangélicos sempre sofreram. Alcolumbre, judeu, se defende e diz que tem sido vítima de uma “pressão sem precedentes” e que não aceitará ser <a href="https://www.metropoles.com/colunas/igor-gadelha/deputado-acusa-alcolumbre-de-preconceito-contra-evangelicos">“ameaçado, intimidado e tampouco chantageado”</a>. Evangélicos apoiadores não deram ouvidos e estão “infernizando sua vida”. Como a pressão nas redes sociais não surtiu efeito, a ideia é <a href="https://veja.abril.com.br/politica/evangelicos-preparam-cartada-final-para-enquadrar-alcolumbre/">“invadir sessões da CCJ e do plenário do Senado com faixas e fazer barulho, para forçar Alcolumbre a marcar a sabatina”</a>.</p>
<p><a href="https://extra.globo.com/noticias/brasil/grande-problema-sou-eu-diz-bolsonaro-sobre-demora-na-indicacao-de-mendonca-para-stf-25270351.html">“O grande problema sou eu”</a>, afirmou Bolsonaro sobre a demora da sabatina. Sim, Bolsonaro, o grande problema é você em praticamente quase todos os problemas que estamos enfrentando. Mas neste caso, Bolsonaro acredita que o problema é porque foi ele quem indicou o nome e diz que se for reeleito colocará mais dois nomes com o perfil de André Mendonça no STF. E que perfil é este? Evangélico? Conservador? Fundamentalista?</p>
<p>Além da pressão, André Mendonça promoveu um jantar com evangélicos, inclusive com um aliado de Alcolumbre presente: o deputado federal Pedro da Lua (PSC-AP), que também é evangélico. Segundo o deputado,<a href="https://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2021/11/deputado-evangelico-ligado-a-alcolumbre-vai-a-jantar-de-apoio-a-andre-mendonca-e-sinaliza-acordo.shtml"> o ambiente estaria propício para um acordo:</a> “eu sou um liderado de Alcolumbre. Comuniquei a ele que fui convidado [para o encontro de apoio], e ele me disse que seria muito bom eu ir, para ouvir [o que Mendonça e os deputados tinham a dizer]”.</p>
<p>Por fim, o que parecia impossível aconteceu e <a href="https://g1.globo.com/politica/noticia/2021/11/24/alcolumbre-anuncia-sabatina-de-mendonca-indicado-para-o-stf-na-proxima-semana.ghtml">a sabatina foi marcada</a> (acontecendo no dia primeiro de dezembro).</p>
<p>No final de novembro, evangélicos progressistas se articularam pedindo que os senadores rejeitassem o nome de André Mendonça para o STF. Entre tantos argumentos, destacamos: “o<a href="https://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/2021/11/evangelicos-progressistas-pedem-que-senadores-rejeitem-andre-mendonca-no-stf.shtml"> senhor André Mendonça representa tão somente uma pequena parcela do campo evangélico no Brasil. Uma parcela que não é representativa do ponto de vista da diversidade e pluralidade dos evangélicos e evangélicas de todo o Brasil</a> que é em sua maioria, segundo dados do IBGE, é negra, feminina e pobre —características bem distintas do candidato.”</p>
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<h3 style="margin:2em 0;"><b>Eleições 2022</b></h3>
<p>Há menos de um ano das eleições de 2022, a batalha pelo voto evangélico segue em curso.</p>
<p><a href="https://www.oantagonista.com/brasil/deltan-pode-ser-a-ponte-de-moro-com-os-evangelicos/">O agora ex-procurador da República Deltan Dallagnol, evangélico da Igreja Batista, é uma possível aposta de Sérgio Moro para buscar uma aproximação com os evangélicos</a> na disputa pela vaga da presidência. Seus apoiadores identificam que a projeção do seu nome tem que considerar essa aproximação. Outra possibilidade de aproximação poderá ser pela Associação Nacional de Juristas Evangélicos (Anajure), de perfil bastante conservador, a qual o ex-juiz mantém relações.</p>
<p><a href="https://portaldotrono.com/cabo-daciolo-anuncia-pre-candidatura-a-presidencia-em-2022-gloria-a-deus/">O pastor evangélico Cabo Daciolo afirmou que também estará na disputa</a> e, no caso dele, dada a sua função na igreja e pelos seus discursos (conservador nos costumes, ao mesmo tempo que defensor de um estado mais intervencionista), deve ter um percentual de eleitores evangélicos, provavelmente de perfil mais empobrecido, ao seu lado. O pastor já anunciou que se eleito colocará o ministro da Economia Paulo Guedes na cadeia por conta das atrocidades que tem feito contra o povo.</p>
<p>O ex-presidente Lula <a href="https://www.poder360.com.br/eleicoes/governei-para-todo-mundo-diz-lula-em-encontro-com-evangelicos/">participou no dia 27 de novembro de um evento virtual com evangélicos</a> com mais de 800 participantes. Grande parte do tempo foi para os evangélicos se pronunciarem, falarem de sua fé e dos desafios para o próximo período. Lula revisou sua trajetória, assim como firmou seu compromisso com a população mais pobre, que grande parte é evangélica. No encontro, <a href="https://www1.folha.uol.com.br/poder/2021/11/lula-fala-a-evangelicos-e-diz-que-pt-nao-pode-trata-los-como-gado.shtml">Lula propôs a criação de “um momento evangélico” na TV e na rádio do Partido</a> como uma tentativa de diálogo mais próximo com o segmento religioso, no sentido de reverter a falsa visão da esquerda como inimiga da religião.</p>
<p>O Republicanos, partido vinculado àda Igreja Universal do Reino de Deus, após campanhas fracassadas para ocupar o executivo, vai <a href="https://correiodopovo-al.com.br/politica/republicanos-deve-descartar-candidaturas-a-governador">abrir mão das candidaturas a governador pela sigla e assumir um apoio mais discreto a Bolsonaro.</a></p>
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<h3 style="margin:2em 0;"><b>Teologia do domínio<br>
</b></h3>
<p>As igrejas seguem com a sua “ida ao mundo” com toda a força por aqui. Ocupar cada vez mais espaços para além da igreja e da família é um projeto em curso protagonizado por muitas igrejas. Bolsonaro segue com seu compromisso com essas igrejas, desde antes mesmo de ser eleito. No caso das concessões de TV, desde 2019, <a href="https://rd1.com.br/com-aval-de-bolsonaro-igrejas-dominam-concessoes-de-tv/">40% foram dadas a grupos religiosos católicos e evangélicos</a>.</p>
<p>Teve <a href="https://noticias.gospelmais.com.br/universidade-da-biblia-black-friday-cursos-teologicos-lideranca-150301.html">Black Friday na Universidade da Bíblia!</a> O portal <i>Gospel Mais</i> anunciou que a instituição ofereceu descontos de até 50% em cursos de formação teológica e de lideranças, em uma clara defesa de uma formação em ação contra “o mundo”: “o aprendizado sobre a Palavra de Deus é parte de uma jornada que visa não apenas o fortalecimento da fé, mas também a formação de um fiel capacitado a defender a fé cristã diante das diferentes influências seculares”.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><b>Teologia da prosperidade<br>
</b></h3>
<p>A Teologia da Prosperidade foi um corte teológico traduzido pelo neopentecostalismo como a possibilidade de felicidade terrena pelo enriquecimento individual, seja material, espiritual  ou simbólico. Sabemos que todos almejamos uma boa vida e que possamos, independente de nossa fé, viver sem sofrimento. No entanto, muitos pastores levaram ao pé da letra o enriquecimento como tarefa ou benção divina.</p>
<p>A Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), liderada pelo Bispo Edir Macedo, foi denunciada por bispos angolanos às autoridades locais. <a href="https://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2021-11-18/igreja-universal-retirado-r--600-milhoes-angola.html">A denúncia afirma que a IURD retirou ilegalmente mais de R$ 600 milhões por ano de Angola</a>. O desvio ocorre há pelo menos 11 anos, segundo denúncia.  Edir Macedo, envolvido em tantos escândalos, entre eles o recebimento de uma verba misteriosa  de mais de 3 bilhões de reais, <a href="https://istoe.com.br/depois-de-escandalo-na-record-bispo-edir-macedo-dobra-os-seus-lucros-de-maneira-misteriosa/">dobrou seus lucros no último ano</a>. Enquanto o país se afunda em uma crise sanitária e econômica, o Bispo enche os bolsos de forma, no mínimo, suspeita, dado as tantas polêmicas que ele tem se envolvido. Apesar do bolso recheado, o bispo não tem garantido os direitos trabalhistas a seus funcionários. <a href="https://www.redebrasilatual.com.br/trabalho/2021/11/trt-reconhece-vinculo-igreja-universal-pastor-metas/">Um pastor teve reconhecido pelo Tribunal Regional do Trabalho seu vínculo empregatício com a Igreja Universal do Reino de Deus</a>. O pastor atuava em regime de dedicação exclusiva, tendo, inclusive, metas a atingir no período em que ficou na igreja, no entanto seus direitos não foram garantidos.</p>
<p>Valdemiro Santiago, líder da Igreja Mundial, que, assim como Edir Macedo, tem levado muito a sério o plano de enriquecer a qualquer custo, <a href="https://noticias.gospelmais.com.br/funcionarios-da-igreja-mundial-encerram-greve-150524.html">teve que pagar seus funcionários que estavam em greve por atraso nos salários e irregularidades em relação aos direitos trabalhistas</a>. Sim, os funcionários da Igreja Mundial e da TV Mundial se organizaram reivindicando seus direitos enquanto trabalhadores (falaremos mais sobre isso). O líder da Igreja considera terceirizar os funcionários depois do episódio da greve.</p>
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<h3 style="margin:2em 0;"><b>Internacional IURD – Angola</b></h3>
<p><a href="https://www.dw.com/pt-002/julgamento-do-caso-iurd-come%C3%A7a-com-ora%C3%A7%C3%B5es-e-tumulto-em-luanda/a-59869818">Quatro dirigentes IURD começaram a ser julgados em novembro no Tribunal Provincial de Luanda pelos crimes de associação criminosa e branqueamento de capitais. </a>Na parte de fora do Tribunal, fiéis oravam pedindo justiça e afirmando que a IURD é como uma “palco de crimes”. <a href="https://novojornal.co.ao/sociedade/interior/caso-iurd-mp-acusa-igreja-universal-de-ser-uma-associacao-criminosa-internacional-afirmacao-que-irritou-a-defesa-dos-reus---bispo-honorilton-goncalves-foi-hoje-interrogado-em-actualizacao-105565.html">O Ministério Público do país africano acusou a igreja do bispo Macedo de ser uma organização criminosa de caráter internacional </a>que engana seus fiéis. A defesa dos quatro dirigentes reagiu dizendo que a acusação foge das regras processuais penais. Os acontecimentos em Angola, referentes à IURD, têm sido palco de conflitos que seguem interferindo inclusive na relação diplomática entre os dois países.</p>
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<h3 style="margin:2em 0;"><b>Intolerância religiosa<br>
</b></h3>
<p>O fundamentalismo religioso se mostra em nosso cotidiano a partir de diversas faces, entre elas a intolerância religiosa, que enxerga que há uma guerra contra o mau: tudo aquilo que não sou, é meu inimigo e deve ser destruído, aniquilado. As religiões de matriz africana têm sido as principais vítimas desse discurso, sendo seus frequentadores e lideranças  afetados nas dimensões físicas e psicológicas.</p>
<p>Para o teólogo e pastor evangélico Rodrigo Moraes, “a grande e chocante notícia é que Deus não é católico romano ou evangélico protestante. <a href="https://www.segs.com.br/demais/318762-encruzilhada-digital-no-dia-nacional-da-umbanda-teologo-fala-sobre-intolerancia-religiosa">Deus não pode ser contido em uma religião ou preso a uma liturgia humana qualquer. A resistência das religiões africanas em solo nacional, mesmo em meio a tantas perseguições, julgamentos e crueldade, é um exemplo de superação e garra</a>”.</p>
<p>Outro grupo que vivencia constantemente casos de intolerância religiosa são os indígenas. As disputas pelas terras e o preconceito contra as casas de reza têm fomentado ações violentas, com piora do quadro a partir de 2020, colocando em risco a vida de muitos indígenas. O Mato Grosso do Sul registrou o quinto incêndio contra templos religiosos indígenas somente neste ano. A destruição é física e simbólica. Segundo o antropólogo Fábio Mura, a destruição do Chiru, instrumento religioso vital para os kaiowás passado há séculos de geração a geração, <a href="https://www.folhape.com.br/noticias/casas-de-reza-indigenas-sao-incendiadas-em-cenas-de-intolerancia/206547/">não é a de um mero objeto, mas de um “sujeito de ação”. É um “ser vivo”. </a></p>
<p>O Ministério Público do Mato Grosso do Sul avalia que a intolerância entre evangélicos e indígenas tem aumentado e que o risco de um conflito religioso é iminente.  Por isso, <a href="https://midiamax.uol.com.br/cotidiano/2021/intolerancia-entre-rezadores-e-evangelicos-cresce-em-aldeia-de-ms-e-exige-intervencao-federal">instaurou um procedimento administrativo </a>para acompanhar as medidas de pacificação.</p>
<p>É importante dizer que, obviamente, não podemos colocar a culpa nos fiéis evangélicos pelos casos de intolerância que ocorrem em tantas partes do país. No entanto, os discursos fundamentalistas de parte dos evangélicos tem também responsabilidade por aprofundar o racismo religioso tão presente no nosso território, como, por exemplo, no caso de <a href="https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2021/11/26/escolas-baianas-registram-casos-de-preconceito-ataque-armado-intimacao-por-doutrinacao-e-beijos-em-sala-de-aula.ghtml">uma criança que não pode assistir aula em uma escola municipal em Salvador  por conta de sua roupa ligada ao candomblé.</a> Ninguém pode se sentir constrangido e muito menos impedido de demonstrar sua fé, principalmente em espaços públicos como a escola.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><b>Cristofobia<br>
</b></h3>
<p>Apesar dos graves casos de intolerância sofrido pelos indígenas e frequentadores de religiões de matriz africana, muitos evangélicos fundamentalistas têm afirmado serem vítimas de “cristofobia”, especialmente quando se questiona algumas ações contra o estado laico promovidas por esses evangélicos ou como reação a seus crimes contra os direitos, principalmente, da população LGBTQI+. O teólogo Ronilso Pacheco alerta que “cristofobia não é um conceito, foi uma palavra inventada por conservadores e fundamentalistas cristãos para rechaçar a realidade de perseguição, violência e preconceito vivenciados por muitas pessoas da comunidade LGBTQI+”. No entanto, a difusão de que há cristofobia ou a intolerância contra cristãos segue em voga por parte dessa direita cristã fundamentalista. Quem tem protagonizado esse tipo de denúncia é o pastor Silas Malafaia que denuncia a existência de perseguição aos evangélicos. A “denúncia” se refere a uma <a href="https://www.jornaldacidadeonline.com.br/noticias/34553/malafaia-denuncia-perseguicao-a-evangelicos-e-conclama-reacao-de-pastores-a-partir-de-hoje-nos-cultos-veja-o-video">determinação do Ministério Público para que o pastor Carlos Cesar Januário (Igreja Batista) se retrate por ter incitado o boicote contra empresas que promovem o ativismo LGBTQI+</a>. Contra a “perseguição”, Malafaia aposta em uma reação dos pastores. Homofobia, caso o pastor não saiba, é crime em nosso país.</p>
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<h3 style="margin:2em 0;"><b>Raça, Gênero, LGBTQI+</b></h3>
<p>Mulher pode ser pastora? Isso ainda não é consenso entre pentecostais e neopentecostais, enquanto, mesmo em denominações mais conservadoras, há mulheres poderosas comandando as igrejas, justificando seu papel, inclusive, com a Bíblia. I<a href="https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2021/11/mulher-pode-ser-pastora-muitas-igrejas-evangelicas-ainda-resistem-a-ideia.shtml">grejas como a IURD ainda apostam que somente os homens podem estar a frente, </a>sendo que as mulheres que se destacam são sempre esposas/filhas dos pastores ou bispos.</p>
<p>Não são só as igrejas neopentecostais que passam por este conflito. Em Brasília, após o afastamento do pastor Marcelo Oliveira, que havia liberado a pregação de mulheres na Igreja Presbiteriana do Lago Sul, <a href="https://congressoemfoco.uol.com.br/blogs-e-opiniao/blog-do-sylvio/justica-derruba-decisao-que-proibia-mulheres-de-pregar-em-igreja-evangelica/">a juíza Thaíssa de Moura Guimarães, da 20ª Vara cível de Brasília, anulou a decisão da Igreja que proibia a pregação de mulheres.</a> A juíza também invalidou o afastamento do pastor por ter ignorado a norma, instituída em 2018.</p>
<p>Infelizmente, apesar do grande esforço de evangélicos progressistas em pautas sobre gênero e diversidade sexual dentro das igrejas, bandeiras muito importantes contras os fundamentalismos religiosos, muitas igrejas mantém um discurso conservador, limitando o avanço por direitos das mulheres e da população LGBTQIA+. Em 2018, no centro de São Paulo, na EMEI Monteiro Lobato, houve uma ação de policiais e evangélicos contra a escola por conta do posicionamento de um pai afirmando que a escola praticava a “ideologia de gênero”. No meio deste ano, o pastor Jorge Linhares, amigo de Damares, repostou o vídeo da criança da EMEI relatando ter aprendido questões de gênero na sala de aula. Agora, no último mês, o pastor propôs um boicote a Doritos por conta de uma campanha publicitária que divulgava um casal homossexual da terceira idade: <a href="https://theintercept.com/2021/11/16/policiais-e-evangelicos-fundamentalistas-ameacam-escola-municipal-em-sp-por-praticar-ideologia-de-genero/">“Dois homens na eternidade ferindo a palavra de Deus, indo contra a palavra de Deus. Nunca mais eu vou comprar Doritos”</a>.</p>
<p>Os portais <i>Gospel Mais</i> e<i> Gospel Prime</i> têm se manifestado contra a tal “ideologia de gênero”, que eles compreendem como todo e qualquer debate que avance para além das famílias heteronormativas de valores patriarcais.  Com manchetes sensacionalistas, como “Professores estariam incentivando recrutamento de crianças para clubes LGBT”, as mídias fundamentalistas evangélicas atacam os direitos da população LGBTQIA+, preferencialmente. O <i>Gospel Mais</i> trouxe uma matéria sobre a campanha publicitária da Avon que reivindica um programa de prevenção do câncer de próstata para mulheres trans. Com o subtítulo de <i>Negacionismo</i>, a matéria traz a fala de um sociólogo (cristão, segundo a matéria). Sem compromisso com a saúde dos homens e mulheres trans, o sociólogo defende: <a href="https://noticias.gospelmais.com.br/ideologia-genero-avon-campanha-mulheres-prostata-150336.html">“A campanha da Avon se insere em um projeto maior de engenharia social que visa desconstruir os papéis masculino e feminino, com a desculpa do combate ao preconceito. É uma campanha negacionista, de pura desinformação, na medida em que nega a constituição biológica de homens e mulheres, falando em mulheres que têm próstata e homens que têm seios ou mama”</a>.</p>
<p>Em uma matéria de tom aparentemente neutro, o teólogo Franklin Ferreira (que já presenteou o presidente com o. seu livro “contra a idolatria do estado”) discorre sobre as igrejas luteranas no Brasil e as relações homoafetivas. O teólogo defende que é contra qualquer tipo de discriminação contra os homossexuais, ao mesmo tempo que <a href="https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/franklin-ferreira/a-igreja-evangelica-luterana-do-brasil-e-as-relacoes-homoafetivas/">“seguindo as Escrituras, se opõe vigorosamente à aceitação de qualquer relação sexual entre pessoas do mesmo sexo, não aceitando a união homoafetiva como casamento válido perante Deus”</a>. Qual o limite, nos perguntamos, entre ser contra discriminação e se opor vigorosamente as relações homossexuais? Como isso se daria na prática é a questão que temos que nos perguntar, dado que a matéria começa falando da perplexidade sentida por conta dos acontecimentos referentes ao jogador de vôlei Maurício Souza, afastado de seu time por comportamentos homofóbicos. Insistimos, homofobia é crime e a liberdade religiosa deve estar circunscrita às leis.</p>
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<h3 style="margin:2em 0;"><b>Trabalho de base</b></h3>
<p>As igrejas evangélicas têm dado muitas vezes respostas concretas e imediatas à classe trabalhadora. Dentre elas, a oportunidade de muitos jovens conhecerem um instrumento musical, terem aulas de canto, formar uma banda na igreja e ter um reconhecimento de seus irmãos de fé, assim como também sonharem com uma nova profissão. A cantora Marília Mendonça, vítima fatal de um acidente aéreo, era evangélica e <a href="https://portaldotrono.com/marilia-mendonca-comecou-a-cantar-na-assembleia-de-deus/">começou sua carreira na Assembleia de Deus.</a> A cantora contou em uma entrevista que aprendeu hinos gospel e que em seu primeiro show ganhou uma Bíblia com um recado dizendo “você está nervosa, mas vai dar tudo certo”.</p>
<p>No Maranhão, o governador Flavio Dino entregou 20 kits de instrumentos musicais para igrejas evangélicas do Estado. O secretário da Cultura Anderson Lindoso afirmou que “muitos dos nossos músicos surgem nas igrejas, sejam evangélicas ou católicas, daí a importância de investirmos nesse programa, investir entregando esses instrumentos para que esses jovens, muitos de comunidades carentes, tenham esses equipamentos para estudar, para aprender, para tocar, para fazer o seu bom uso e trazer resultados para a sociedade”. De fato, as igrejas têm ocupado esse papel de garantir o desenvolvimento musical dos jovens das periferias, que muitas vezes encontram somente na igreja a oportunidade de aprender um instrumento musical.</p>
<p>Outra ação que busca dialogar com os jovens é o projeto ‘Universitários da Força Jovem Universal’ (FJUNI) da Igreja Universal do Reino de Deus. No dia 21 do mês passado, o projeto <a href="https://diariodovale.com.br/cidade/projeto-da-igreja-universal-realiza-acoes-motivacionais-em-locais-da-prova-do-enem/">realizou abordagens motivacionais em frente às instituições de ensino que aplicaram a prova do Enem em todo o país. </a></p>
<h3 style="margin:2em 0;"></h3>
<h3 style="margin:2em 0;"><b>Contra-narrativas da fé<br>
</b></h3>
<p>Como insistimos sempre por aqui, nem só de fundamentalismos vive o mundo evangélico. Pelo contrário, as contra-narrativas da fé seguem corajosamente em marcha pela tolerância e libertação.</p>
<p><a href="https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/esperanca-e-resistencia-evangelica-o-projeto-meninos-e-meninas-de-rua-de-sao-bernardo-do-campo/">O projeto Meninos e Meninas de Rua de São Bernardo do Campo tem sido esperança e resistência evangélica</a>. O projeto nasceu na década de 80 por meio das igrejas metodistas e católicas contra o extermínio da população de rua na cidade do ABC paulista. Apesar de sua história e comprometimento, atualmente o projeto encontra-se em risco, porque, em 2020, o atual prefeito, Orlando Morando (PSDB), retirou a permissão de uso do local e ameaça despejar o projeto. Diversas organizações têm se mobilizado, inclusive nas redes sociais por meio da hashtag #OProjetoFica.</p>
<p>A campanha internacional contra a violência de gênero, da qual o Brasil faz parte, chama as igrejas a se unirem em uma ação de 21 dias de ativismo pelo fim da violência. Esta participação é fundamental, dado que, conforme a matéria na Carta Capital, “estudos têm demonstrado que as igrejas no Brasil, em geral, reproduzem práticas culturais e desprezam a dimensão evangélica do valor às mulheres, que não significa apenas a concessão de cargos e microfones para que falem e cantem. Ele quer dizer também tomar para si as suas dores relacionadas aos efeitos maléficos da cultura patriarcal de submissão moral e exploração de seus corpos. <a href="https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/campanha-contra-a-violencia-de-genero-inspira-igrejas-em-todo-o-mundo/">As igrejas, na sua maioria, silenciam sobre essas questões e, em certas situações, acabam atuando para perpetuar a violência, reafirmando leituras ideologizadas que indicam ser a submissão das mulheres objeto da vontade de Deus</a>”.</p>
<p>Como mencionamos, algo inusitado e histórico aconteceu na Igreja Mundial do Poder de Deus, liderada por Valdemiro Santiago: a greve de “servos de Deus” por suas garantias trabalhistas. Esta organização é um avanço dos trabalhadores das igrejas, dado que muitos começam como voluntários, por conta de sua fé, conseguem um cargo, no entanto não são respeitados em seus direitos. Estima-se que 40% dos mais de mil trabalhadores da igreja aderiram à greve, que durou cerca de 10 dias e terminou com vitória dos trabalhadores. <a href="https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2021/11/19/historica-greve-na-igreja-mundial-mostra-mobilizacao-dos-servos-de-deus.htm">Vale a pena ler a matéria completa</a> e ouvir o que os trabalhadores têm a dizer. Valdomiro, como bom patrão, colocou a culpa nos trabalhadores, claro!</p>
<p>A pesquisadora Simony Santos trouxe uma reflexão sobre a luta antirracista das mulheres negras nas igrejas e aponta que a consciência da negritude é um primeiro passo fundamental para que se combata o racismo no meio religioso: “A Rede de Mulheres Negras Evangélicas vem trabalhando com a recuperação da negritude, a valorização de nossa ancestralidade e a luta contra o racismo que acomete nossas irmãs de religiões de matrizes africanas. <a href="https://www.cartacapital.com.br/blogs/dialogos-da-fe/a-luta-antirracista-das-mulheres-negras-na-igreja/">Temos aprendido que nos reconhecer negras é um passo fundamental para que o racismo não seja naturalizado em nossa espiritualidade.</a> Quando mulheres negras leem a bíblia e a interpretam a partir dos seus corpos e experiência de vida é revolucionário. É o poder do homem branco sendo fraturado por uma rede de mulheres que entendem qual o seu papel histórico e político, em um momento em que o fundamentalismo religioso está empoleirado no Congresso Nacional e de braços dados com o neoliberalismo”.</p>
<p>Lembramos que o rosto evangélico de nosso país é de uma mulher negra, moradora da periferia, e que boa parte das mulheres e dos homens negros evangélicos, segundo <a href="https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/01/cara-tipica-do-evangelico-brasileiro-e-feminina-e-negra-aponta-datafolha.shtml">pesquisa Datafolha</a>, “mantém opiniões divergentes das que predominam nas igrejas (…) são os segmentos mais críticos ao governo Bolsonaro, que tem apoio explícito dos bispos. Para muitos evangélicos, especialmente os mais pobres, a realidade violenta e carente das periferias se sobrepõe às possíveis orientações políticas dos cultos.”</p>
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