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	<title>Artigos Archives - Tricontinental: Institute for Social Research | Tricontinental: Institute for Social Research</title>
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	<description>international, movement-driven institution focused on stimulating intellectual debate that serves people’s aspirations.</description>
	<lastBuildDate>Tue, 12 Aug 2025 13:47:15 +0000</lastBuildDate>
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	<item>
		<title>Sexta edição da Resg debaterá as transformações no mundo do trabalho</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/sexta-edicao-da-resg-debatera-as-transformacoes-no-mundo-do-trabalho/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luiz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 26 Jun 2025 16:42:45 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[A 6° edição da Revista Estudos do Sul Global buscará reunir contribuições que problematizam mudanças no mundo trabalho, investigando suas causas estruturais, seus efeitos sociais, as formas de resistência e as possibilidades de construção de um trabalho digno e justo.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-124786 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/06/IG-Post7.jpg" alt="" width="1080" height="1080" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/06/IG-Post7.jpg 1080w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/06/IG-Post7-300x300.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/06/IG-Post7-1024x1024.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/06/IG-Post7-150x150.jpg 150w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/06/IG-Post7-768x768.jpg 768w" sizes="(max-width: 1080px) 100vw, 1080px"></p>
<p> </p>
<p>As transformações recentes no mundo do trabalho estão profundamente conectadas às dinâmicas do capitalismo em sua fase atual, marcada pela financeirização, avanço das tecnologias digitais e intensificação da precarização e mudanças climáticas. A disseminação de plataformas digitais, o trabalho sob demanda, a desregulamentação e retirada de direitos e a reconfiguração das relações laborais refletem um modelo de acumulação centrado na flexibilidade do trabalho para alçar a maximização dos lucros. Tais mudanças impactam diretamente as condições de vida e de luta dos trabalhadores, exigindo novas formas de organização, resistência e análise crítica.</p>
<p>Neste sentido, a sexta edição da <a href="https://resg.thetricontinental.org/index.php/resg"><i>Revista Estudos do Sul Global (Resg)</i></a> traz como tema central as <i>Mudanças no mundo do trabalho</i>, onde buscará reunir contribuições que problematizam essas transformações, investigando suas causas estruturais, seus efeitos sociais, as formas de resistência e as possibilidades de construção de um trabalho digno e justo.</p>
<p>Portanto, para a sexta edição da Resg, a comissão editorial da Revista propõe os seguintes eixos de trabalho:</p>
<h2 style="margin:3em 0;"><strong>Proposta de eixos</strong></h2>
<p><b>1. Regulação do trabalho, retirada de direitos e crescimento da extrema direita</b></p>
<p>Este eixo se dedica à análise crítica da regulação do trabalho, com foco no avanço sobre a retirada de direitos em uma conjuntura de crise do capitalismo. Discutimos como o crescimento das políticas de austeridade e a intensificação das políticas neoliberais são implementadas como resposta a essa crise, impactando ainda mais a vida dos trabalhadores. Um aspecto crucial é a relação com o crescimento da extrema direita, que frequentemente alinha sua agenda à desregulamentação do trabalho e à diminuição da proteção social, exacerbando as perdas de direitos. Observamos as perdas de direitos em um cenário de flexibilização e desregulamentação, buscando compreender as causas estruturais e os efeitos sociais dessas dinâmicas sobre as condições de vida e de luta dos trabalhadores.</p>
<p><b>2. Tecnologia, plataformização, precarização e desigualdades estruturais no trabalho global</b></p>
<p>Este eixo explora como a proliferação das tecnologias digitais e a plataformização estão remodelando fundamentalmente o mundo do trabalho, gerando novas formas de trabalho sob demanda e reconfigurando as relações laborais. Investigamos as diferentes faces da precarização do trabalho, com um destaque para a análise global a partir do estudo das cadeias globais de valor, que revelam a complexidade das relações de produção e distribuição em escala mundial. Abordamos a superexploração e a realidade da imigração e migração forçada por condições laborais, que muitas vezes levam a situações de vulnerabilidade extrema. Um ponto central é o aprofundamento das desigualdades estruturais no trabalho, especialmente aquelas baseadas em raça, gênero e idade, que perpetuam a vulnerabilidade de determinados grupos. Também incluímos o trabalho de reprodução e cuidados, que muitas vezes são invisibilizados e precarizados, revelando a dimensão dessas desigualdades.</p>
<p><b>3. Crise climática e o futuro do trabalho</b></p>
<p>Emergente e de crescente relevância, este eixo explora o impacto das mudanças climáticas no mundo do trabalho. Analisam-se como eventos climáticos extremos, a transição para uma economia verde e as políticas de sustentabilidade afetam setores produtivos, empregos e as condições de vida de trabalhadores em todo o mundo. A urgência de repensar modelos de produção e consumo se entrelaça com a necessidade de garantir uma transição justa que não penalize os trabalhadores mais vulneráveis, mas que, ao invés disso, crie novas oportunidades e garanta a segurança social e econômica diante dos desafios ambientais.</p>
<p><b>4. Resistência, novas organizações e ações contra-hegemônicas</b></p>
<p>Este eixo agrupa as tecnologias sociais e as experiências contra-hegemônicas, destacando seu papel na construção de alternativas ao modelo dominante. Ele também abrange a sindicalização e novas formas de resistência, examinando como os trabalhadores se organizam e se mobilizam para enfrentar a precarização e lutar por melhores condições. O foco está nas conquistas de direitos e na reorganização dos sindicatos, incluindo pautas essenciais como a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1. Essas lutas são cruciais não apenas para avanços laborais, mas também para garantir o controle do tempo pelo trabalhador, permitindo o desenvolvimento de outras áreas da vida, como lazer, formação, cuidado e participação social, essenciais para uma existência digna e plena.</p>
<p><b>Prazo para submissão:</b> até 20/08/2025</p>
<p><b>Condições para submissão</b></p>
<ol>
<li aria-level="1">Os artigos devem ter entre 15 e 20 páginas e as resenhas de 3 e 5 páginas, incluindo as referências bibliográficas e as notas de rodapé. Devem ser assinados pelos autores com uma breve biografia.</li>
<li aria-level="1">Os artigos devem conter resumo (em português) que não ultrapassem 150 palavras cada, com indicação de três palavras-chave.</li>
<li aria-level="1">Os artigos e resumos devem ser enviados para o e-mail: resg@thetricontinental.org em arquivo de texto em formato padrão para PC (editor de texto, tipo Word e LibreOffice), fonte Times New Roman, tamanho 12, entrelinha 1,5. Utilizar negrito e maiúsculas para o título principal, negrito e minúsculas para subtítulo, negrito e maiúsculas e minúsculas nos subtítulos das seções. Para ênfase ou destaque, no interior do texto, utilizar apenas itálico. Para citações com mais de três linhas utilizar fonte Times New Roman, tamanho 11, espaçamento simples e recuo de 4cm à esquerda.</li>
<li aria-level="1">As menções a autores, no correr do texto, devem subordinar-se à forma (Autor, data) ou (Autor, data, p.). Diferentes títulos do mesmo autor, publicados no mesmo ano, deverão ser diferenciados adicionando-se uma letra depois da data.</li>
<li aria-level="1">As Referências Bibliográficas devem conter exclusivamente os autores e textos citados no trabalho e ser apresentadas ao final do texto, em ordem alfabética, obedecendo às normas atualizadas da ABNT.</li>
<li aria-level="1">As notas de rodapé deverão ser numeradas, apresentadas em fonte Times New Roman, tamanho 10 e espaçamento simples.</li>
<li aria-level="1">Os textos assinados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e, portanto, mantêm seu direito autoral preservado. Já o direito de publicação (copyright) é cedido à Revista tão logo o manuscrito seja aceito para a publicação.</li>
<li aria-level="1">Os artigos podem ser assinados por mais de um autor(a).</li>
</ol>
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			</item>
		<item>
		<title>Enquanto EUA buscam retomar suas “esferas de influência”, China responde com sua multipolaridade cosmopolita</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/enquanto-eua-buscam-retomar-suas-esferas-de-influencia-china-responde-com-sua-multipolaridade-cosmopolita/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luiz]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 22 Apr 2025 17:49:49 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[A 6° edição da Revista Estudos do Sul Global buscará reunir contribuições que problematizam mudanças no mundo trabalho, investigando suas causas estruturais, seus efeitos sociais, as formas de resistência e as possibilidades de construção de um trabalho digno e justo.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="single-post--author">Javier Vadell*</div>
<h3 style="margin:2em 0;"><b> O ilusório consenso multipolar no policentrismo interdependente</b></h3>
<p>A segunda presidência de Donald Trump nos Estados Unidos, inaugurada em 2025, é um sintoma de transformações geopolíticas e econômicas globais profundas. Esta nova era marca a consolidação de um grande consenso entre as grandes potências e as potências emergentes: todos os seus governos reconhecem tácita ou explicitamente que o atual sistema internacional é multipolar.</p>
<p>Aparentemente, esse reconhecimento seria um avanço para uma nova convivência mundial, a promoção da paz e o desenvolvimento dos povos. A frase de Donald Trump de que EUA e China resolveriam muitos problemas juntos e a abertura do mandatário estadunidense para um diálogo com Vladimir Putin, que, por consequência, implica na normalização diplomática dos EUA com a Rússia, indicariam o caminho para a multipolarização definitiva e harmoniosa do sistema mundial.</p>
<p>Foi o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, quem reconheceu que a multipolaridade é um fato consumado, ao afirmar que “a unipolaridade foi apenas um momento”, como dissera o famoso jornalista Charles Krauthammer em 1990. No entanto, nas águas turbulentas do atual caos sistêmico, não há espaço para transparências. Após o “momento unipolar”, a grande potência declinante, sob a liderança de Trump, apoiada pelos oligarcas das Big Techs e do sistema financeiro hegemônico, tem como objetivo tornar “a América (EUA) grande novamente” a partir de fundamentos nostálgicos do imperialismo do século XIX, com inspiração messiânica nos presidentes estadunidenses daquele século.</p>
<p>Isso já era perceptível no primeiro governo Trump, mas é no Trump 2.0 que as musas do passado imperialista ressurgem para entender sua política externa e a concepção de uma multipolaridade territorialista baseada na noção de esferas de influência com forte caráter neocolonialista.</p>
<h3 style="margin:2em 0;"><b>A inspiração nostálgica do multipolarismo imperialista de Trump</b></h3>
<p>O reconhecimento de um sistema multipolar por parte das elites governantes dos EUA está fundamentado na “era de ouro” das esferas de influência do imperialismo do século XIX, quando os EUA eram a grande potência emergente e sua política externa se baseava no “destino manifesto” e na superioridade da civilização ocidental sobre outras culturas. Não é casualidade que Donald Trump seja um fervoroso admirador de presidentes do século XIX, especialmente aqueles que forjaram a nação e consolidaram a expansão dos Estados Unidos.</p>
<p>Um deles é o então <i>outsider </i>Andrew Jackson (1829-1837), que promoveu um dos maiores genocídios de povos originários com a Lei de Remoção dos Indígenas de 1830. Outra figura presidencial reivindicada é William McKinley (1897-1901), que teve um papel crucial no processo de expansão imperialista dos EUA. Duas grandes iniciativas de McKinley são admiradas por Trump: a primeira é a política externa territorialista com claras tendências colonialistas; a segunda trata-se da implementação de políticas comerciais protecionistas, ou seja, a aplicação de barreiras tarifárias aos rivais competitivos.</p>
<p>Devemos lembrar que McKinley – apelidado de Tariff Man (“O Homem Tarifa”) – e seu gabinete estavam comprometidos com uma política expansionista e imperialista. Em um período histórico de competição colonialista por parte das potências europeias, os EUA não podiam perder a chance de avançar para delimitar sua própria esfera de influência. A justificativa histórica das ações expansionistas se dava sob o argumento do “destino manifesto” e da crença de que os EUA tinham a missão de expandir a civilização ocidental, herdada do eurocentrismo. Em um mundo multipolar, onde as esferas de influência dos colonizadores europeus se conformavam da China à África, passando pela Índia e Ásia Ocidental, o governo McKinley propôs consolidar a Doutrina Monroe na América Latina e Caribe e promover sua expansão para o Pacífico.</p>
<p>A guerra provocada contra a decadente Espanha, com a desculpa de apoiar a independência de Cuba em 1898, foi o estopim do processo do neocolonialismo estadunidense. O desfecho da guerra foi rápido, e a vitória dos EUA resultou na aquisição de territórios espanhóis estratégicos que modificaram a geopolítica regional e global. O século XX nascia com a consolidação do domínio estadunidense no Caribe. Por outro lado, Guam e Filipinas marcaram a esfera de influência dos EUA no Pacífico, também completada em 1898 com a anexação do Havaí.</p>
<h3 style="margin:2em 0;"><b>Qual é o significado de esferas de influência na política internacional?</b></h3>
<p>A noção de “esfera de influência” não é novidade nas relações internacionais. Trata-se de uma projeção ampla e decisiva que uma potência possui sobre países e regiões circunscritos em diferentes períodos da história. Em outros termos, trata-se de uma potência que projeta sua influência cultural, econômica e política em uma área geográfica determinada.</p>
<p>Por essa razão, “esfera de influência” continua sendo um dos conceitos mais generalizados na prática e na história das relações internacionais. Por exemplo, durante o apogeu da antiga China como “Reino do Centro”, sua geopolítica confucionista de círculos concêntricos delimitava o sistema tributário, que se constituiu como uma forma de esfera de influência centrada em seu entorno geográfico.</p>
<p>Em outro contexto histórico, a expansão dos Estados ocidentais na fase de consolidação do capitalismo, do colonialismo e do imperialismo criou e recriou novas esferas de influência com a divisão e administração de colônias na África, Ásia e América Latina e Caribe (ALC).</p>
<p>Quando a China foi derrotada nas Guerras do Ópio sino-britânicas, em meados do século XIX, o “Reino do Centro” foi repartido em esferas de influência entre as potências europeias, que controlaram os prósperos portos e regiões comerciais chinesas. Desde então, a noção de esfera de influência marcou a ferro, com uma dolorosa lembrança, a era do imperialismo multipolar e da humilhação nacional da China.</p>
<p>A grande potência emergente do século XIX, os EUA, após consolidar-se como potência regional nas Américas sob a narrativa da Doutrina Monroe, começou a envolver-se cada vez mais nos assuntos globais e ignorou as esferas de influência pré-estabelecidas na China, demarcadas pelas potências europeias. Na época, os EUA declararam que todas as nações deveriam ter os mesmos direitos para comercializar com a China. Essa postura foi denominada de “portas abertas” no final do século XIX, com o objetivo de redistribuir as esferas de influência pré-existentes e manter a igualdade de privilégios para as potências coloniais ocidentais no comércio com a China.</p>
<p>Na ALC, a Doutrina Monroe estadunidense do século XIX também se fundamentou no princípio de “esferas de influência”. Segundo essa doutrina, os EUA reivindicavam todo o continente americano como seu domínio natural, seu “quintal”. A potência nascente explicitava a missão de manter as potências europeias, ou qualquer outra, fora do hemisfério norte e, por consequência, de todo o continente americano. A ALC estava sendo enquadrada geograficamente na esfera de influência da então nova potência emergente de uma grande formação social capitalista: os EUA.</p>
<p>O mundo da Guerra Fria talvez tenha sido o exemplo mais rígido de um planeta dividido em esferas de influência entre o bloco capitalista, liderado pelos EUA, e o bloco do “socialismo real”, liderado pela União Soviética (URSS). Nesse contexto, delimitaram-se no sistema internacional as esferas de influência: a OTAN, de um lado, e o Pacto de Varsóvia, de outro, com o horizonte dramático de uma possível auto-destruição nuclear mútua.</p>
<p>A bipolaridade da Guerra Fria entre os “dois mundos” deixou como legado para o Terceiro Mundo as “guerras quentes”, áreas sujeitas a intervenções das grandes potências para delinear as esferas da bipolaridade em praticamente todo o globo. Houve resistências e insubordinações do Sul Global a essa delimitação das esferas de influência da bipolaridade. Por exemplo: a <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-bandung-conferencia/">Conferência Afro-Asiática de Bandung</a> em 1955, sob a liderança da República Popular da China (RPCh), Índia e Indonésia (hoje três países-chave do BRICS ampliado); o Movimento Não Alinhado; o Movimento Terceiro-mundista; e a Conferência de Bancoc de 1993 sobre Direitos Humanos, cuja Declaração promovia uma interpretação culturalmente relativista dos direitos humanos, baseada em “valores asiáticos” e com ênfase no desenvolvimento econômico e social como requisitos para o avanço dos direitos humanos. O respeito pela soberania nacional e a não ingerência nos assuntos internos dos Estados são princípios fundamentais dessa declaração.</p>
<h3 style="margin:2em 0;"><b>Multipolaridade como expressão política do policentrismo interdependente</b></h3>
<p>Donald Trump, o McKinley do século XXI, enfrenta um cenário multipolar totalmente diferente daquele do século XIX. Se a multipolaridade oitocentista estava instituída sobre as bases do imperialismo e do colonialismo, a do século XXI é a expressão de um policentrismo interdependente. Em outras palavras, o surgimento de novos centros de poder econômico na região asiática, com epicentro na China, é uma realidade histórica concreta em um contexto de caos sistêmico.</p>
<p>Nesse entrelaçamento social mundial, formações sociais capitalistas atravessam crises sociais e de governabilidade que estão catalisando o declínio do Ocidente. Dessa maneira, a atual multipolaridade gesta-se e nutre-se de um novo policentrismo interdependente, que tem como fato inédito que, pela primeira vez na história do capitalismo, uma formação social de novo tipo alcança o “quase centro” da economia global, parafraseando o pesquisador chinês Cheng Enfu. A República Popular da China (RPCh) ressurge nesse cenário de caos sistêmico e se fortalece, colocando em xeque a estratificação social polarizadora do sistema-mundo capitalista.</p>
<p>Esse cenário de incerteza ocorre em meio a reacomodações de placas tectônicas geopolíticas e está reordenando as expectativas e aspirações das grandes potências, assim como evidenciando a impossibilidade da recuperação da hegemonia estadunidense no plano global via globalização neoliberal. Dessa forma, o governo Trump 2.0 pretende restabelecer a prática, muito comum no imperialismo do século XIX, de delimitação de esferas de influência no sistema internacional. Para isso, precisa de acordos tácitos e explícitos com as outras grandes potências mundiais e disciplinar o que eles consideram “sua região”. A grande pergunta seria: as outras grandes potências, especialmente a China e a Rússia, compartilham essa visão de multipolaridade?</p>
<h3 style="margin:2em 0;"><b>China e o BRICS: a multipolaridade cosmopolita</b></h3>
<p>A abordagem cosmopolita chinesa sobre a multipolaridade contrasta com a multipolaridade imperialista do governo Trump. A multipolaridade cosmopolita está assentada em três fundamentos essenciais: 1) o primeiro é histórico, especificamente nos princípios filosóficos confucionistas, como explica Suchen Xiang; 2) o segundo pilar são os princípios de Bandung, consensuados na Conferência Afroasiática de 1955, onde se enunciaram os cinco princípios de coexistência pacífica, cuja orientação principal é a não ingerência nos assuntos internos de outros Estados; e 3) em terceiro lugar, a ideia de Comunidade de Destino Compartilhado para a Humanidade, em consonância com a Carta das Nações Unidas.</p>
<p>Na Conferência de Segurança de Munique, realizada em fevereiro de 2025, o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, deixou claro que a multipolaridade não significa o domínio e o “bullying” dos grandes países sobre os pequenos, pois isso derivaria em caos, conflito e confronto. Frente à postura colonialista de esferas de influência estadunidense, a resposta da China é totalmente a oposta: “devemos trabalhar por um mundo multipolar igualitário e ordenado”. Segundo o ministro Yi, “a China certamente será um fator de certeza nesse sistema multipolar e se esforçará para ser uma força construtiva firme em um mundo em mudança”, a partir de quatro pontos cardeais: 1) tratamento igualitário em relação às normas internacionais e igualdade de oportunidades; 2) respeito pelo direito internacional baseado nos princípios da Carta da ONU; 3) defesa do multilateralismo; e 4) promoção do benefício mútuo.</p>
<p>O paradigma multipolar não deve ser um estado de confusão, advertiu Yi. Sem normas e padrões, “pode-se estar sentado à mesa ontem e terminar no cardápio amanhã”. Os principais países devem tomar a iniciativa em honrar sua palavra e defender o estado de direito, e não devem dizer uma coisa e fazer outra, ou entrar em um jogo de soma zero.</p>
<p>Em sintonia com a posição chinesa, o chanceler da Federação Russa, Sergei Lavrov, em recente entrevista concedida a blogueiros e<i> youtubers </i>estadunidenses, expressou que é preciso respeitar o princípio da ONU de soberania igualitária para todos os Estados e a não interferência nos assuntos internos de outros países, como mencionado, um princípio orientador da política externa chinesa.</p>
<h3 style="margin:2em 0;"><b>Qual é o papel do BRICS e as perspectivas da cúpula no Brasil em 2025?</b></h3>
<p>Enquanto o vice-presidente dos EUA, James D. Vance, culpa a globalização neoliberal – que seus líderes impuseram a ferro e fogo desde a presidência de Ronald Reagan e aprofundaram com o fim da Guerra Fria –, o multipolarismo cosmopolita está fundamentado em um novo tipo de globalização que possui as características do novo centro da economia mundial: a China.</p>
<p>Nesse panorama geopolítico, o projeto institucional do BRICS ampliado, junto com a Iniciativa do Cinturão e Rota (ICR), constitui-se não apenas como dois grandes desafios frente ao poderio dos EUA, mas também como ameaças à concepção do multipolarismo colonialista. O BRICS ampliado e a ICR são duas iniciativas que atravessam, em forma de rede global, as esferas de influência que os EUA querem impor ao mundo.</p>
<p>Justamente, a próxima cúpula do BRICS ampliado será neste mês de julho no Brasil, no coração do que os EUA consideram sua esfera de influência direta. Toda a agenda organizativa será um grande desafio para o gigante sul-americano, cujo governo não está em sintonia ideológica com Washington, dado que Trump e a elite governante dos EUA são hostis a governos que defendem suas soberanias em seu “quintal”. A inclinação e o apoio explícito às direitas periféricas neoliberais e subordinadas têm sido a constante do trumpismo.</p>
<p>Embora o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, tenha expressado na cúpula do BRICS de 2024 em Kazan, Rússia, que o Brasil é parte do Ocidente, após a vitória de Trump, a autopercepção brasileira parece estar mudando. Alguns sinais observáveis ajudam a entender essa guinada da política externa brasileira também como reflexo de dissidências internas dentro do governo Lula. O trumpismo político e tarifário empurrou o Brasil para um compromisso maior com o Sul Global. Em janeiro de 2025, o governo brasileiro anunciou a mudança do “sherpa” (negociador-chefe) do Brasil no BRICS. Mauricio Carvalho Lyrio, ex-secretário de Assuntos Econômicos e Financeiros do Itamaraty, substituiu Eduardo Paes Saboia, mais identificado com os setores liberais do Itamaraty. Lyrio, autor de um livro sobre a China, tem o compromisso de aprofundar a agenda: “Fortalecendo a cooperação do Sul Global para uma governança mais inclusiva e sustentável”.</p>
<p>Nessa sintonia, em recente entrevista, o assessor presidencial do presidente Lula, Celso Amorim, deixou claro que o BRICS “não é anti-Ocidente e que o que se busca é um equilíbrio geopolítico”, além de que “o Brasil é Sul Global e um dos desafios é não ser uma colônia”. Atravessar esses tempos turbulentos exige paciência, inteligência e compromisso nacional. Neutralizar os embates colonialistas e protecionistas do Trump 2.0 não será uma tarefa simples. Parece que o novo rumo do Brasil, com uma maior aposta no BRICS e à diversificação de parceiros – como se observou na visita de Lula ao Japão e ao Vietnã dias atrás para atrair investimentos e abrir mercados para exportações – prenuncia uma nova e necessária estratégia, cujos caminhos nos levariam ao fortalecimento do Sul Global como a grande oportunidade para o desenvolvimento.</p>
<p><em>*Javier Vadell é especialista em temas internacionais. Professor do Departamento de Relações Internacionais e Coordenador da especialização em China Contemporânea da Pontificia Universidade Católica (PUC) de Minas Gerais. Licenciado em Relações Internacionais pela UNR e Mestre em Ciência Política e Doutor em Ciências Sociais pela UNICAMP.</em></p>
<p>Publicado originalmente em espanhol em <a href="https://tektonikos.website/multipolaridad-colonial-o-multipolaridad-cosmopolita/">Tekttónicos</a>.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>O século asiático e o provincianismo ocidental</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/o-seculo-asiatico-e-o-provincianismo-ocidental/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luiz]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 22 Nov 2024 13:29:41 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[A política externa de Trump retoma a concepção de multipolaridade territorialista baseada na noção de esferas de influência com forte caráter neocolonialista. Porém, o surgimento de novos centros de poder econômico na região asiática, com epicentro na China, é uma realidade histórica concreta em um contexto de caos sistêmico.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div>
<div id="attachment_114717" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-114717" class="wp-image-114717 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/11/9510e259-6e2d-471e-a208-ed9180c6ea0c.jpeg" alt="" width="768" height="512" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/11/9510e259-6e2d-471e-a208-ed9180c6ea0c.jpeg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/11/9510e259-6e2d-471e-a208-ed9180c6ea0c-300x200.jpeg 300w" sizes="(max-width: 768px) 100vw, 768px"><p id="caption-attachment-114717" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Nosso provincianismo ocidental nos tem cegado para a profundidade da mudança de eixo da economia e da política global, que se desloca paulatinamente do Norte e do Ocidente, para o Sul e o Oriente. Crédito: Wilson Dias/Agência Brasil.</small></p></div>
</div>
<div class="single-post--author">Marco Fernandes*</div>
<p>O último dossiê do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, <em><a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-seculo-xx-sul-global-posicao-historica-da-china/">O século XX, o Sul Global e a posição histórica da China</a></em>, escrito pelo historiador da Universidade Tsinghua (Pequim), Wang Hui, um dos maiores intelectuais chineses da sua geração, é um bem-vindo remédio contra o provincianismo ocidental. O Brasil, que – como disse recentemente o chanceler Mauro Vieira – “é um país do Ocidente”, sofre dessa enfermidade política e psicossocial. E ela nos causará tanto mais mal, quanto mais insistirmos em nela chafurdar. Nosso provincianismo ocidental nos tem cegado para a profundidade da mudança de eixo da economia global – e, portanto, da política -, que se desloca paulatinamente do Norte e do Ocidente, para o Sul e o Oriente.</p>
<p>A China emerge como a nova liderança do Sul Global, é responsável por quase um terço da produção industrial do mundo, dá saltos tecnológicos que já ameaçam o domínio dos países ricos do Norte, e consolida feitos históricos: como se tornar a maior potência econômica medida em PIB por paridade de poder de compra (PPC) – superando os EUA desde 2014 -, ou <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/estudos-1-socialismo-em-construcao/">retirar 850 milhões de pessoas da pobreza extrema</a> em 40 anos, segundo o insuspeito Banco Mundial. Junta-se a isso o retorno da Rússia (quarta maior economia do mundo, em PIB PPC) como potência global, a ascensão da Índia (terceira economia), do Irã como potência regional e articulador do eixo da resistência à política genocida do Estado sionista na Palestina, da Indonésia – que o FMI projeta como sexta maior economia do mundo até o final da década -, além do dinamismo das economias do Sudeste Asiático, que vêm acumulando razoáveis taxas de crescimento anual de seu PIB/capita na última década (2012-2022), como Vietnã (4,5%) e Malásia (3,5%). Vale lembrar que China, Rússia, Índia e Irã estão juntos na Organização de Cooperação de Xangai (OCX), bem como no BRICS, que agora também conta com Indonésia (3,1%) e Turquia (4%), além dos citados países da ASEAN. O século XXI é o século asiático – e a Rússia é cada vez menos europeia.</p>
<p>Mas para nós, brasileiros, essa mudança histórica é quase misteriosa. Somos basicamente ignorantes sobre a maior região do mundo. Trata-se de uma cegueira socialmente produzida, é claro. Como estamos tratando de história, peço licença para trazer um exemplo pessoal. Em 2000, me formei no Departamento de História da Universidade de São Paulo, notadamente um dos centros de excelência do ensino superior de história no país. Em nossa grade curricular, tínhamos 10 matérias obrigatórias sobre história da Europa, seis sobre Brasil, quatro sobre Américas. Mas nenhuma sobre África e nenhuma sobre Ásia. Posteriormente, uma disciplina sobre cada uma dessas regiões foi incluída, minimizando um pouco – mas nem de longe superando – nosso desconhecimento sobre os dois continentes mais populosos do planeta. É notável o eurocentrismo de nossa formação intelectual. Há inúmeros outros exemplos desse padrão, que reproduz um certo ponto de vista colonizado em nossa formação, ao mesmo tempo em que cria identificações profundas com uma formação social (europeia) cujos interesses nacionais tendem a não se conciliar com os nossos. Para não falar, claro, do poder da indústria cultural estadunidense e dos sonhos de nossa elite branca de se mudar para Miami. O Imperialismo agradece. Não será fácil superar essa condição subserviente.</p>
<p>Mas voltemos ao dossiê e às profiláticas provocações de Wang Hui. Um historiador sempre lê a história a partir de sua própria época; a cabeça pensa onde os pés pisam. Um historiador chinês em 2024, diante da ascensão chinesa e de todo o continente asiático, não poderia interpretar a história da mesma forma que um historiador britânico nascido em 1917, apesar de ambos serem marxistas. Daí, o enorme interesse do texto da Wang Hui. Em diálogo com o velho Eric Hobsbawn – referência obrigatória da historiografia ocidental do século passado – ele propõe releituras do “breve século XX”. Se o curto século de Hobsbawn começa em 1914 – com a eclosão de uma guerra inter-imperialista – o não tão curto século de Wang Hui – que ele chama de “século das revoluções” – se inicia entre 1905 e 1911, com um encadeamento de evento asiáticos iniciados com a Guerra Russo-japonesa (1904-05), que precipita a Revolução Russa de 1905, e posteriormente a Revolução Constitucional Persa (1905-1911), a Revolução Turca (1908-1909) e a Revolução Chinesa de 1911, criando a primeira República na Ásia (ainda que tenha sido “traída” em seguida). Diante desses acontecimentos, indaga Wang, como enxergar a Revolução Russa de 1917 somente como consequência do conflito “mundial europeu”, e não também como parte da onda de revoluções asiáticas que apostaram em um duplo movimento, buscando romper o sistema imperialista e os antigos regimes”, aproveitando-se de seus “elos fracos”?</p>
<p>Da mesma forma, o “fim do século hobsbawniano”, em 1989, com a queda do Muro de Berlim, pode ser nuançado. Não que o fim da URSS em 1991 não tenha sido a “maior catástrofe geopolítica do século XX”, como gosta de dizer um famoso líder russo contemporâneo. Mas, se na época, isso teria marcado a “derrota do socialismo” e o “fim da história”, como olhar para trás e reinterpretar esses acontecimentos diante do sucesso do “socialismo de mercado” ou do “socialismo com características chinesas”? Se assim for, então o século XXI, o “longo século asiático”, poderia ter começado em dezembro de 1978, quando Deng Xiaoping anunciou a Reforma e Abertura da economia chinesas, lançando as bases para a reinvenção do conceito de socialismo? O ensaio de Wang Hui nos insinua essa hipótese, que, aliás, está mais claramente exposta em uma de suas obras mais recentes: <em>China no século XXI</em>.</p>
<p>Por fim, como entender a longa marcha da construção do socialismo chinês a partir de um ponto de vista de “rupturas da continuidade”? Aqui entram em jogo as peripécias da dialética chinesa. A China foi capaz, nos lembra nosso autor, de fazer uma revolução republicana em 1911-1912, ao mesmo tempo em que manteve a conformação geográfica e interétnica da Dinastia Qing (1636-1912), cuja unificação dos territórios han, manchu, mongol, tibetano e uigur, garantiu a imensidão espacial e populacional chinesas, uma das chaves de seu atual sucesso econômico. A revolução socialista de 1949, liderada pelo Partido Comunista, funda a Nova China e realiza o que os nacionalistas liderados por Sun Yat-Sen haviam somente idealizado em 1911-1912, e depois em 1924.</p>
<p>Com uma mobilização extraordinária de forças humanas e produtivas, o país criou uma base industrial e uma força de trabalho bem-educada – além de fazer a expectativa de vida da população saltar de 35 para 67 anos entre 1949 e 1978 -, servindo de alavanca para o grande salto para o período da reforma e abertura. Da mesma forma, diante dos impasses do modelo soviético socialista, que sofreu a derrota de 1989-1991, o PCCh articulou a conciliação de dois supostos “opostos”: o socialismo e o mercado. Na dialética entre império e república, socialismo e mercado, lá se vão quase 500 anos de paciência chinesa, guerras sanguinárias e a impressionante resiliência do PCCh, cuja construção histórica de longa duração, entre rupturas e continuidades, não só salvou o socialismo da derrota de 1989, como ajudou a criar uma base material inédita no outrora Terceiro Mundo, hoje Sul Global. Lembremos de dois dados ilustrativos:</p>
<ol>
<li>Enquanto em seu auge econômico, a URSS atingiu 58% do PIB PPC dos EUA, em 2023, o PIB chinês representou nada menos do que 119% do PIB estadunidense.</li>
<li>Os países do BRICS, recém expandido pela segunda vez, devem representar cerca de 42% do PIB PPC global, comparados aos 29% do G7.</li>
</ol>
<p>Essa base material propiciada pela ascensão da Ásia, sobretudo da China, é o combustível daquilo que Wang Hui chama de uma era “pós-metropolitana”, representada hoje pelos países do Sul Global, herdeiros do Espírito de Bandung, do Movimento dos Não-Alinhados e de iniciativas como a OPEP, em sua luta por criar alternativas concretas à hegemonia atlanticista de Washington e Bruxelas, como o BRICS e a OCX. Voltando ao nosso chão latino-americano, cuja economia sofre de uma estagnação de ao menos três décadas, o Brasil terá que decidir em que bonde da história quer viajar. No bonde do velho mundo, do <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/estudos-sobre-dilemas-contemporaneos-4-hiper-imperialismo/">imperialismo decadente e perigoso</a>, ávido por guerras, sanções e golpes, no qual fomos formados objetiva e subjetivamente, ou no bonde “pós-metropolitano”, com nossas irmãs e irmãos do Sul Global, com todas as complexidades e contradições que essa construção exige? Talvez nem seja um bonde, mas um trem-bala. Porém, para embarcamos nele, vamos precisar de tratamento para nosso provincianismo ocidental. Leituras da história a contrapelo, como as de Wang Hui, hão de contribuir com a nossa cura.</p>
<p><em>*Marco Fernandes é analista de geopolítica do Brasil de Fato, editor da Revista Wenhua Zongheng Internacional e Bacharel e mestre em História (USP) e Doutor em Psicologia Social (USP).</em></p>
<p>** Artigo originalmente publicado no<a href="https://jornalggn.com.br/geopolitica/o-seculo-asiatico-e-o-provinciano-ocidente-por-marco-fernandes/"> JornalGGN.</a><br>
</p>
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		<title>Próxima edição da Resg debaterá a crise do capitalismo e os desafios da classe trabalhadora</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/proxima-edicao-da-resg-debatera-a-crise-do-capitalismo-e-os-desafios-da-classe-trabalhadora/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luiz]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 12 Nov 2024 12:18:21 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[O Brasil terá que decidir em que bonde da história quer viajar: no velho mundo, do imperialismo decadente e perigoso, ávido por guerras, sanções e golpes, ou com nossas irmãs e irmãos do Sul Global, com todas as complexidades e contradições que essa construção exige.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-113991 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/11/Web-Feature4.jpg" alt="" width="950" height="713" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/11/Web-Feature4.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/11/Web-Feature4-300x225.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/11/Web-Feature4-768x576.jpg 768w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<p>O mundo está vivendo um profundo processo de transformação e de reorganização do capitalismo global, marcado pelo deslocamento das capacidades industriais, científicas e tecnológicas desde o velho Norte desenvolvido para o novo Sul emergente e, simultaneamente, desde Ocidente para Oriente, tendo como epicentro a China e grande parte da Ásia. O fortalecimento da ultradireita em âmbito mundial é uma expressão social e política da crise do modo de produção capitalista que estamos vivendo atualmente, sobretudo com a ameaça da hegemonia mundial unipolar estadunidense. Além disso, o aumento da desigualdade, tanto entre países quanto no interior deles, é algo marcante em nossa época. Esse cenário atual é fruto de um processo de transformação do capitalismo que remonta à segunda metade do século XX.</p>
<p>A partir da primeira metade da década de 1970, a possibilidade de “estagflação” nos EUA e Europa fez com que o mundo capitalista colocasse em movimento um conjunto de processos que iniciam o enfrentamento ao fordismo. A era que se iniciou desde então, ou seja, o Pós-Fordismo, Acumulação Flexível ou Reestruturação Produtiva, impôs uma tendência que flexibiliza os processos de trabalho e as formas contratuais, com importante reestruturação do mercado de trabalho.</p>
<p>O início do neoliberalismo – após o golpe contra o governo da Unidade Popular no Chile, em 1973, com a eleição de Margaret Thatcher e Ronald Reagan em fins dos anos 1970 e início dos 1980 e o Consenso de Washington – abriu um processo de acumulação de capital, com protagonismo do capital financeiro desregulamentado e com o universo orgânico dos trabalhadores num franco processo de atomização, com consequências importantes no aumento da exploração e da retirada de direitos sociais dos trabalhadores</p>
<p>Apesar do impacto devastador que teve sobre o nível de emprego e padrões salariais dos trabalhadores, as políticas neoliberais seguiram como vetor orientador da economia política e seus efeitos provocam, atualmente, uma importante reconfiguração no padrão das classes sociais, deslocando os trabalhadores do chão de fábrica para o comércio, telemarketing, <em>uberização</em>, <em>pejotização</em>, trabalho informal, contrato zero hora e desemprego. Ou seja, vivemos a precarização estrutural do mundo do trabalho, ancorado na digitalização, criando uma nova morfologia da classe trabalhadora e um esvaziamento dos espaços de luta tradicionais. Parte significativa da classe mais empobrecida segue sendo capturada pelas igrejas evangélicas, principalmente neopentecostais, e pelo crime organizado.</p>
<p>Além da precariedade do trabalho e da renda social precária, lhes falta uma identidade baseada no trabalho. Quando empregados, estão em trabalhos sem carreira, sem tradições de memória social, sem um sentimento de pertença a uma comunidade imersa em práticas estáveis, códigos de ética e normas de comportamento, reciprocidade e fraternidade.</p>
<p>Diante da necessidade de compreendermos a crise do capitalismo global e as transformações que ela implica nos diversos âmbitos da sociedade, a <a href="https://resg.thetricontinental.org/index.php/resg">Revista Estudos do Sul Global (Resg)</a> abre uma série de edições para a reflexão em torno das <strong>Mudanças do capitalismo global no século XXI</strong>. Tal temática será explorada nos próximos 4 números da Resg, cada uma delas dedicada a uma parte, constitutiva dessa totalidade, organizada da seguinte maneira:</p>
<p>n° 5 – Crise global do capitalismo e os desafios da classe trabalhadora</p>
<p>n° 6 – Mudanças no mundo do trabalho</p>
<p>n° 7 – Cultura política e indústria cultural</p>
<p>n° 8 – Crise climática e geopolítica</p>
<p>Para a quinta edição, <em>Crise global do capitalismo e os desafios da classe trabalhadora</em>, a comissão editorial da Resg propõe os seguintes eixos de trabalho:</p>
<p>– Contradições do capitalismo atual – fundamentos, crise e desafios</p>
<p>– Ciclos econômicos e a crise financeira:  a questão da crise deslocamento capacidade produtiva e das finanças</p>
<p>– Crise do capitalismo e desigualdade social, mudanças na forma de exploração e acumulação</p>
<p>– Crise/questão ecológica sob a ótica capitalista</p>
<p>– Neoliberalismo em questão: a democracia em xeque (fundamentos econômicos e pressões)</p>
<p>– Questão cultural – tecnologias de informação e comunicação, impactos subjetivos na formação de consciência</p>
<p><strong>Prazo para submissão:</strong> até 15/02/2025</p>
<p><strong>Condições para submissão</strong></p>
<ol>
<li>Os artigos devem ter entre 15 e 20 páginas e as resenhas de 3 e 5 páginas, incluindo as referências bibliográficas e as notas de rodapé. Devem ser assinados pelos autores com uma breve biografia.</li>
<li>Os artigos devem conter resumo (em português) que não ultrapassem 150 palavras cada, com indicação de três palavras-chave.</li>
<li>Os artigos e resumos devem ser enviados para o e-mail: <a href="mailto:resg@thetricontinental.org">resg@thetricontinental.org</a> em arquivo de texto em formato padrão para PC (editor de texto, tipo Word e LibreOffice), fonte Times New Roman, tamanho 12, entrelinha 1,5. Utilizar negrito e maiúsculas para o título principal, negrito e minúsculas para subtítulo, negrito e maiúsculas e minúsculas nos subtítulos das seções. Para ênfase ou destaque, no interior do texto, utilizar apenas itálico. Para citações com mais de três linhas utilizar fonte Times New Roman, tamanho 11, espaçamento simples e recuo de 4cm à esquerda.</li>
<li>As menções a autores, no correr do texto, devem subordinar-se à forma (Autor, data) ou (Autor, data, p.). Diferentes títulos do mesmo autor, publicados no mesmo ano, deverão ser diferenciados adicionando-se uma letra depois da data.</li>
<li>As Referências Bibliográficas devem conter exclusivamente os autores e textos citados no trabalho e ser apresentadas ao final do texto, em ordem alfabética, obedecendo às normas atualizadas da ABNT.</li>
<li>As notas de rodapé deverão ser numeradas, apresentadas em fonte Times New Roman, tamanho 10 e espaçamento simples.</li>
<li>Os textos assinados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e, portanto, mantêm seu direito autoral preservado. Já o direito de publicação (copyright) é cedido à Revista tão logo o manuscrito seja aceito para a publicação.</li>
<li>Os artigos podem ser assinados por mais de um autor.</li>
</ol>
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		<title>A normalização da guerra na atual fase do imperialismo</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/a-normalizacao-da-guerra-na-atual-fase-do-imperialismo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luiz]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 10 Nov 2024 13:31:41 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Diante da necessidade de compreendermos a crise do capitalismo e as transformações que ela implica na sociedade, a Resg abre uma série de edições para refletir sobre as mudanças do capitalismo no século XXI.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="single-post--author">Stephanie Weathebee Brito*</div>
<p>O <a href="https://www.brasildefato.com.br/2024/10/30/cidade-em-gaza-declara-situacao-de-desastre-apos-ataque-de-israel-com-quase-100-mortes" target="_blank" rel="noopener">genocídio em Gaza</a>, apesar de continuar causando indignação, raiva, profunda tristeza e diversas formas de solidariedade, tem caído na normalização. Até certo ponto, é inevitável que um acontecimento que se repete inúmeras vezes, tornando-se parte da nossa realidade, seja menos significante, já que nos acostumamos a ele e, portanto, o normalizamos. Fato é que a guerra em Gaza não é um acontecimento isolado na história Palestina nem na história recente dos países do Ocidente Asiático, também chamado Oriente Médio.</p>
<p>Em 1990, os Estados Unidos lideraram uma campanha militar no Iraque com o suposto intuito de defender a soberania do Kuwait. A chamada “Guerra no Golfo” teve um saldo de mais de 22 mil mortos e contou com uma campanha de bombardeio aéreo que durou meses.</p>
<p>Em 2001, os Estados Unidos realizaram uma invasão brutal no Afeganistão na chamada Guerra ao Terror. A invasão durou 20 anos, e foi encerrada com o Talibã – grupo terrorista que o exército estadunidense pretendia destruir – voltando ao poder com um estoque de armas abandonado pelos próprios EUA. Apesar da guerra no Afeganistão não ter atingido os seus supostos objetivos, apenas dois anos depois o mesmo país invadira o Iraque em 2003.</p>
<p>Desta vez a justificativa era a democratização de um país que sofria injustiças perpetuadas por um autocrata, que poucos anos antes a Casa Branca ajudou a sustentar no poder. A intervenção provocou uma sangrenta, prolongada e brutal guerra civil que desestabilizou o país e a região por anos, nutrindo a propagação de milícias que atuam de forma regional com apoio dos Estados Unidos, da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes, do Irã, e assim por diante.</p>
<p>Não satisfeitos com a violência instaurada na região, em 2015 Washington resolveu aproveitar o surgimento de uma oposição a Bashar al-Assad para intervir de forma ativa e consolidar uma mudança de regime na Síria. Mais uma vez, o resultado foi o mesmo: uma guerra civil prolongada, o envolvimento de diversas potências regionais e internacionais, com um saldo de 306 mil mortos e 12 milhões de desalojados – muitos deles vindo ao Brasil. Durante o mesmo período, os EUA, por meio da OTAN, interveio na Líbia para destituir Gaddafi, abrindo mais uma guerra civil marcada pela presença de milícias, destruindo qualquer forma de Estado ou poder centralizado no país.</p>
<p>Os EUA não conseguiram encerrar nenhum destes conflitos de maneira satisfatória: o Afeganistão passou a ser governado pelo Talibã, a Síria continua com Assad no poder, no Iraque persiste uma força anti-EUA organizada e armada, e na Líbia praticamente não há um Estado. Não bastasse todos estes resultados desastrosos, a potência imperialista buscou debilitar e provocar a Rússia até gerar uma nova guerra na Ucrânia, em 2022. Mais uma vez, o Pentágono tem sido derrotado neste conflito.</p>
<p>E assim, chegamos em 2023, quando depois de anos de violências, abusos, violações de leis internacionais, colonizações ilícitas e massacres perpetrados por Israel, com total cobertura dos Estados Unidos, a resistência Palestina retoma a defensiva armada no dia 7 de outubro, o que desemboca num processo de genocídio e guerra regional que acompanhamos há um ano.</p>
<p>São 33 anos de guerras sangrentas promovidas pela Casa Branca, seja ela comandada por republicanos ou democratas, e pelo Congresso Nacional, que somam milhares de mortos e milhões de desalojados. Isso, sem considerar os inúmeros países que foram militarizados com armas patrocinadas e fornecidas pelo Pentágono e a vasta indústria militar estadunidense. Como não normalizar a violência e a guerra na nossa época, quando ela tem se tornado cotidiana e recorrente?</p>
<p>É claro que a guerra não é um fenômeno recente, assim como o imperialismo estadunidense também não é novo, mas ele tem acentuado o seu caráter violento para garantir sua dominação durante o último período. Esse novo caráter do imperialismo é denominado de hiperimperialismo, como demonstra o estudo <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/estudos-sobre-dilemas-contemporaneos-4-hiper-imperialismo/"><em>Hiperimperialismo: um novo estágio decadente perigoso</em></a>, lançado pelo Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.</p>
<p>O documento é resultado de uma rede de pesquisadores que realizaram estudos orientados por dados com o objetivo de avançar na compreensão das realidades sociais, políticas e econômicas no mundo atual. A partir de uma análise dos gastos em armas e diversos outros elementos de infraestrutura bélica, o estudo conclui que hoje os Estados Unidos comandam e controlam 75% do estoque militar existente no mundo.</p>
<p>Basicamente, os Estados Unidos não só possuem o maior orçamento militar do mundo e da história, mas também, por meio de alianças militares como a OTAN, contam com uma máquina de guerra de grandes proporções que não se compara com as capacidades militares de qualquer um dos seus atuais adversários, seja China, Rússia ou Irã. Assim, é inegável que a aposta para a manutenção de sua hegemonia sobre o sistema capitalista mundial se dá pela força.</p>
<p>Claramente, a força sempre foi um instrumento importante da estratégia imperialista dos Estados Unidos. Não podemos esquecer que Washington continua sendo o único governo na história a detonar uma bomba atômica, em 1945, nas cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki. Também não podemos esquecer as toneladas de artilharia que esmagaram Vietnã, Laos, Camboja e Coreia. Porém, o imperialismo dos Estados Unidos contava com outras formas de dominação, seja econômica ou ideológica, mas que passam por um desgaste desde a crise estrutural do capitalismo de 2008.</p>
<p>A crise do capitalismo e a sua chegada ao centro do sistema econômico tem ocasionado uma crise de legitimidade do próprio sistema. É nesse contexto que a burguesia, carente de milagres econômicos para retomar o crescimento, aposta no fascismo como estratégia para dividir e confundir a população, evitando que os setores populares se unam contra seus inimigos de classe. O surgimento do fascismo estadunidense pode até postergar e minar a capacidade de resistência da classe trabalhadora, mas ele não resolve a crise do capital e alimenta uma crise de legitimidade do império como exemplo de prosperidade, democracia e paz social.</p>
<p>Como se não bastasse a falta de crescimento, a crise de legitimidade do modelo promovido e exemplificado pelos Estados Unidos e a crescente desigualdade no centro do sistema, o ascenso da China como potência econômica, tecnológica e política configura um cenário fortemente desfavorecido para a continuidade da hegemonia dos Estados Unidos. Porém devido ao incomparável poder militar do império, essa hegemonia se vê debilitada, mas não derrotada.</p>
<p>O hiperimperialismo também está caracterizado pela unidade dos países do Norte Global no projeto de preservação da hegemonia estadunidense. A expansão da OTAN e a unidade dos países europeus frente à Rússia, mesmo diante dos prejuízos que isso implica à população europeia, são alguns exemplos dessa coesão. Atualmente, há uma unidade dos países do Norte Global, junto com alianças importantes de alguns países do Sul Global (como Arábia Saudita), que configuram um bloco político, econômico e militar que se opõe ao desenvolvimento do Sul Global enquanto este ameaçar a hegemonia do Norte.</p>
<p>O atual cenário explica parcialmente o porquê de um ano de genocídio na Palestina, apesar da profunda indignação que este fato gera nos povos. Por um lado, os EUA, para contornar o desfavorecedor quadro atual que temos desenhado, têm apostado na força militar para atingir seus objetivos. Claro que o império ainda preserva estratégias de coerção econômica, pressão diplomática e cooptação política, mas se necessário for, a força militar será exercitada sem qualquer limite que a lei internacional ou a opinião pública possa colocar.</p>
<p>É nosso papel enquanto esquerda internacional, campo popular e povos da classe trabalhadora reagir, reivindicando nossa soberania, defendendo nosso direito ao desenvolvimento e demonstrando solidariedade a quem luta por liberação nacional. A unidade do Sul e dos povos da classe trabalhadora do Norte não é um destino que está dado, mas algo pelo qual devemos trabalhar e lutar para fazer frente à violência que o hiperimperialismo tenta normalizar.</p>
<p><em>* Stephanie Weathebee Brito é Co-coordenadora da Secretaria Internacional da Assembleia Internacional dos Povos.<br>
** Artigo originalmente<a href="https://www.brasildefato.com.br/2024/11/01/a-normalizacao-da-guerra-na-atual-fase-do-imperialismo"> publicado no Brasil de Fato.</a><br>
</em></p>
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		<title>BRICS Plus: a grande desconexão global e os desafios de uma nova governança mundial</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/brics-plus-a-grande-desconexao-global-e-os-desafios-de-uma-nova-governanca-mundial/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luiz]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 23 Oct 2024 14:25:13 +0000</pubDate>
				<guid isPermaLink="false">https://thetricontinental.org/?post_type=brasil&#038;p=112915</guid>

					<description><![CDATA[Por Javier Vadell* Um relatório do banco de investimentos Goldman Sachs de 2001 popularizou o acrônimo BRIC ao destacar a grande oportunidade de negócios financeiros que os mercados emergentes como Brasil, Rússia, Índia e China ofereciam. Após a crise financeira de 2008, esse grupo de países emergentes e reemergentes decidiu realizar uma cúpula em Ecaterimburgo, [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="single-post--author">Por Javier Vadell*</div>
<p>Um relatório do banco de investimentos Goldman Sachs de 2001 popularizou o acrônimo BRIC ao destacar a grande oportunidade de negócios financeiros que os mercados emergentes como Brasil, Rússia, Índia e China ofereciam. Após a crise financeira de 2008, esse grupo de países emergentes e reemergentes decidiu realizar uma cúpula em Ecaterimburgo, na Rússia, traçando os contornos de uma nova formação geopolítica.</p>
<p>A primeira ampliação ocorreu quando a África do Sul foi convidada pela China a unir-se para formar o <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/brasil/brics-uma-alternativa-ao-imperialismo/">BRICS</a>, em 2010. A partir desse acontecimento, a sigla se popularizou, incluindo o “S” do parceiro africano. O processo de expansão atingiu seu ápice na cúpula de Joanesburgo, em 2023, quando o grupo dos cinco membros convidou uma série de nações do Sul Global — incluindo várias potências médias e regionais — a se integrarem. Esses países foram: Arábia Saudita, Argentina, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Irã.</p>
<p>Em 2024, mais de 30 países — entre eles Turquia (que é membro da OTAN), Indonésia, Tailândia, Bangladesh, Malásia, Argélia, Síria, Colômbia, Venezuela, Bolívia, Nicarágua, Cuba, Sri Lanka e Sérvia — manifestaram explicitamente sua intenção de se juntar ao agora chamado BRICS Plus ou BRICS+. Espera-se que, na cúpula que está sendo realizada em Kazan, Rússia, entre os dias 22 e 24 de outubro de 2024, vários países se integrem à formação política.</p>
<p>Alguns analistas interpretam o BRICS como um clube de debates, baseando-se em algumas características que condicionariam uma maior cooperação entre os membros: a diversidade de interesses entre eles, a falta de uma estrutura organizativa formal, os conflitos históricos entre alguns membros e os problemas de ação coletiva no processo de tomada de decisões.</p>
<p>No entanto, apesar desses aspectos destacados, algumas perguntas surgem: o que motiva um número cada vez maior de países do Sul Global e potências médias a expressar um grande interesse em se juntar a este “clube”? Quais são os elementos de atração que fazem do BRICS Plus uma instituição tão sedutora? Para tentar responder a essas questões, devemos ir além dos aspectos conjunturais e levar em consideração os grandes movimentos de placas tectônicas geopolíticas e geoeconômicas.</p>
<p>Desde a crise financeira mundial de 2008, a hierarquia da economia mundial e a governança global instituída na ordem econômica liberal liderada pelos Estados Unidos atravessam uma crise sistêmica. Parafraseando o historiador Adam Tooze, poderíamos falar de uma policrise da globalização neoliberal, ou seja, múltiplas crises que ocorrem de maneira assíncrona. Essa policrise abrange várias dimensões: uma crise econômica do sistema mundo capitalista baseada nas características de parasitismo rentista da globalização neoliberal, que mostra sinais de esgotamento; a impossibilidade desse modelo de promover assistência para o desenvolvimento às nações do Sul Global, como alertou o economista chinês Justin Yifu Lin; uma crise geopolítica, derivada da anterior, que evidencia movimentos de insubordinação no Sul Global; uma crise de funcionalidade, marcada pelo fracasso das instituições internacionais tradicionais nas mais diversas e variadas agendas; uma crise ecológica e uma crise de legitimidade e de autoridade, que se reflete na perda de confiança em relação à “ordem liberal” em geral e à hegemonia americana em particular.</p>
<h2 style="margin:3em 0;">O BRICS plus e a desconexão</h2>
<p>Esta policrise é o pano de fundo de um caos sistêmico, mas ao mesmo tempo uma oportunidade que acelera os tempos de uma grande desconexão global da hierarquia do sistema mundo capitalista, sob a hegemonia dos Estados Unidos. Referimo-nos ao que Samir Amin antecipou na década de 1980 como o clivagem fundamental para a consolidação de um sistema policêntrico.</p>
<p>No entanto, o fim da Guerra Fria fortaleceu uma tendência contrária, ou seja, em direção à homogeneização do sistema mundo capitalista como produto da expansão da globalização neoliberal. O “momento” unipolar dos Estados Unidos se impunha, baseado no poder da moeda (dólar), do capital financeiro e seu imenso poder militar.</p>
<p>Mas essa resposta hegemônica enfrenta desafios após duas décadas. Desde a crise econômica de 2008, observamos uma tendência de contramovimento global onde a liderança da República Popular da China se torna cada vez mais evidente, em um cenário em que o grande ator asiático se tornou um verdadeiro <em>rule maker</em> global.</p>
<p>Nos dias de hoje, as condições estruturais para a aceleração da desconexão — que não é sinônimo nem de autarquia nem de desglobalização — estão dadas. A desconexão não é um estado de situação acabado, mas um sintoma de um processo transitório no caos sistêmico.</p>
<p>Fiel a Amin, desconexão não significa a renúncia completa a qualquer relação com o exterior, mas sim submeter as relações externas à lógica de um desenvolvimento interno independente delas. Em consequência, cada vez mais países da periferia e da semiperiferia tentam romper os laços de exploração e espoliação com o capital financeiro mundial, associado a elites locais, e tentam alinhar suas relações exteriores com suas necessidades de desenvolvimento doméstico.</p>
<p>Como resultado disso, o BRICS Plus se apresenta como o instrumento geopolítico para promover as desconexões particulares, com suas variadas contradições. Esse processo envolve todas as regiões periféricas e semiperiféricas do sistema mundo capitalista, com grande influência e liderança política da China, que, por sinal, foi o país que lançou a iniciativa de ampliar os BRICS na cúpula de Xiamen, em 2017, e manteve sua política externa de democratização do grupo em todas as cúpulas. Em síntese, a desconexão representa a expressão e a aspiração do Sul Global a uma forma alternativa de globalização que permita um maior espaço de manobra para promover os desenvolvimentos nacionais autônomos.</p>
<p>O BRICS evoluiu além de ser uma mera coalizão de países emergentes que buscam uma maior participação. O BRICS Plus significa uma transformação qualitativa e não meramente quantitativa, surgindo como uma força geopolítica centrípeta nesta nova era de transformações estruturais.</p>
<h2 style="margin:3em 0;">A atração do BRICS Plus</h2>
<p>À luz do contexto descrito, vários fatores-chave contribuem para a expansão do BRICS Plus, tornando-o um polo de atração para os países do Sul Global. Esses fatores estão atravessados pelo lento processo de declínio dos Estados Unidos e sua gradual perda de credibilidade internacional em diversos planos.</p>
<p>Fator geopolítico: muitos países, incluindo aliados dos Estados Unidos, como Arábia Saudita (em relação ao petróleo), e Turquia (em matéria de segurança), perderam a confiança na liderança americana. Essas nações chegaram a reconhecer a incapacidade dos Estados Unidos em oferecer bens públicos internacionais como o fizeram no período do pós-guerra com seus aliados a partir de 1945.</p>
<p><strong>Fator financeiro internacional:</strong> a utilização do dólar americano como uma arma contra seus adversários e a aplicação de sanções econômicas indiscriminadamente estão erodindo a confiança no sistema monetário internacional e impulsionando um embrionário processo de desdolarização. O impacto a longo prazo dessa tendência poderia levar a um sistema financeiro mundial mais multicêntrico. Essa mudança poderia abrir caminho para uma nova ordem econômica internacional que inclua mecanismos monetários alternativos para meios de pagamento, unidades de valor e reservas de valor, além do fortalecimento de instituições como o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB, o banco dos BRICS) e o Banco Asiático de Investimentos em Infraestrutura (AIIB).</p>
<p><strong>Fator cultural e civilizatório:</strong> o BRICS Plus promove um novo tipo de globalização inclusiva que reconhece a diversidade cultural e de civilizações frente ao universalismo eurocêntrico promovido pelo Ocidente geopolítico. Esse enfoque se baseia em um quadro comum de valores, como a soberania, a coexistência pacífica e a não intervenção nos assuntos internos, refletidos no “espírito” da Conferência de Bandung de 1955.</p>
<p><strong>A Governança mundial:</strong> o BRICS Plus pretende promover um conjunto alternativo de normas e valores que desafiem a atual ordem mundial dominada pelo Ocidente. O principal objetivo é consolidar um sistema multipolar e democratizar as relações internacionais. Nesse contexto<br>
as economias emergentes e os países do Sul Global teriam uma maior influência na economia global e na governança mundial.</p>
<p>Essa expectativa está em consonância com os objetivos mais amplos do grupo, que é reequilibrar a ordem econômica e política mundial em favor das nações em desenvolvimento, marginalizadas nas instituições internacionais existentes — <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/oito-contradicoes-da-ordem-baseada-em-regras-imperialista/">a ordem liberal baseada em regras</a> — dominadas pelo Ocidente.</p>
<h2 style="margin:3em 0;">Perspectivas para uma governança mundial multicêntrica</h2>
<p>A importância do BRICS Plus deve ser entendida por sua contribuição à proposta de um novo modelo de governança mundial frente à policrise assíncrona atual. Esse modelo deve nascer do processo de desconexão em curso, no qual a governança dos assuntos mundiais deve ser mais compartilhada e colaborativa entre várias potências e entre elas e o Sul Global, em vez de estar dominada por uma única superpotência ou um pequeno grupo de nações ocidentais.</p>
<p>Em primeiro lugar, a governança mundial atual indica que a globalização neoliberal está em processo de mutação. Sua superação dependerá de como os países lidarão com uma economia mundial cujo novo centro dinâmico se localiza na Ásia e inclui variedades de sistemas econômicos alternativos não subordinados, mas sim conectados ao modelo respaldado pelas doutrinas neoliberais ocidentais.</p>
<p>Em segundo lugar, uma renovada governança mundial, produto da desconexão global, deve significar a transição do domínio hegemônico ocidental liderado pelos EUA para outro, em que nenhum hegemônico ou bloco hegemônico (Ocidente geopolítico) definirá as normas e valores mundiais imperantes de maneira autocrática.</p>
<p>Essas transformações criarão oportunidades para acomodar e incluir estratégias e políticas de desenvolvimento alternativas. Além disso, abre a possibilidade de ensaiar diferentes perspectivas sobre os mecanismos, normas e valores que impulsionam o desenvolvimento e o crescimento das nações.</p>
<p>Em terceiro lugar, as doutrinas ocidentais devem se flexibilizar, ser menos rígidas, menos impositivas e eurocêntricas em relação aos direitos de propriedade, às concepções sobre o que é crescimento econômico, às noções de Estado de Direito, à ideia de economia de mercado, à circulação de divisas, às ordens econômicas, à concepção de modernização, às formas de democracia, aos direitos humanos e à ideia de desenvolvimento.</p>
<p>Em quarto lugar, as economias emergentes aceleram uma transição na ordem internacional atual, buscando um maior equilíbrio de poder nas instituições da governança mundial, processo que coloca em xeque o eixo tradicional Norte-Sul e as distinções convencionais de centro-periferia.</p>
<p>Em quinto lugar, uma nova governança mundial deve ser construída a partir de uma realidade complexa, gerada pelas contradições da globalização em curso. Ou seja, uma estrutura econômica mundial que se caracterize por uma interconexão e interdependência em transformação que, ao mesmo tempo, gere as condições de um processo de desconexão que modifique a hierarquia na estratificação internacional.</p>
<p>Esse poder transformador das economias emergentes está desempenhando um papel significativo na divisão mundial do trabalho, nas cadeias de suprimento, nas cadeias de valor e nas finanças globais, influenciando tanto o Norte Global quanto o Sul Global com diversas oportunidades e desafios.</p>
<p>Concluindo, apesar das diversas limitações apontadas por seus críticos, o BRICS Plus surgiu como a força transformadora centrípeta que constituirá um novo polo de poder no cenário geopolítico e econômico mundial.</p>
<p><em>*Javier Vadell é especialista em temas internacionais. Professor do Departamento de Relações Internacionais e Coordenador da especialização em China Contemporânea da Pontificia Universidade Católica (PUC) de Minas Gerais. Licenciado em Relações Internacionais pela UNR e Mestre em Ciência Política e Doutor em Ciências Sociais pela UNICAMP.</em></p>
<p>Publicado originalmente em espanhol em <a href="https://tektonikos.website/el-brics-plus-la-gran-desconexion-global-y-los-desafios-de-una-nueva-gobernanza-mundial/">Tekttónicos</a>.</p>
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		<title>O neofascismo dá as caras e a esquerda precisa se reencontrar para enfrentá-lo</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/o-neofascismo-da-as-caras-e-a-esquerda-precisa-se-reencontrar-para-enfrenta-lo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luiz]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 04 Sep 2024 17:44:46 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Mais de 30 países manifestaram intenção de se juntar ao BRICS+. Espera-se que, na cúpula que está sendo realizada na Rússia, entre os dias 22 e 24 de outubro, vários países se integrem à formação política.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-110427 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/09/neofascismo.jpg" alt="" width="958" height="596" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/09/neofascismo.jpg 958w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/09/neofascismo-300x187.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/09/neofascismo-768x478.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 958px) 100vw, 958px"></p>
<p> </p>
<p style="text-align: right;"><em>“Luchar, vencer, caerse, levantarse, luchar… hasta que se acabe la vida”<br>
</em><em>Álvaro García Linera</em></p>
<p> </p>
<p><em>Por Delana Corazza*</em></p>
<p>“Derrotamos o Bolsonaro, mas não o bolsonarismo”. Essa frase tem ecoado desde final de 2022, quando, passada a euforia das eleições por conta da vitória de Lula contra o ex-presidente neofascista, tivemos que lidar com a realidade de que vencer o pleito presidencial era apenas um respiro para seguirmos a passos ainda lentos na luta contra o neofascismo no Brasil. A vitória institucional que colocou o país na segunda onda progressista latino-americana tem sua importância, mas aponta inúmeros desafios, dado que para alcançar a vitória foi necessário uma frente ampla que trouxe ainda mais limites à construção de um projeto popular. A tarefa é mais profunda: a construção de um projeto comum latino-americano com base social ampla e forte que não seja só a resposta desesperada contra os ataques da extrema direita. A questão central é: temos ao menos um projeto?</p>
<p>Esse debate tem que estar aliado a um olhar cuidadoso sobre a realidade da América Latina, tanto para a situação da classe trabalhadora e sua situação material concreta, seus desejos do espírito e do estômago, quanto para compreender quais as estratégias neofascistas de vincular parte desta classe para um projeto de morte em que ela é a principal vítima.</p>
<p>Não à toa, o mais novo dossiê do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-neofascismo-americalatina/"><em>O avanço do neofascismo e os desafios da esquerda na América Latina</em></a>, busca olhar os caminhos percorridos pela extrema direita no continente e compreender o papel das organizações populares, movimentos e partidos políticos em derrotar o neofascismo para além do âmbito eleitoral. As ações dos movimentos organizados, com seus valores que se contrapõem à ideologia neoliberal, como solidariedade e sentido de comunidade, e ações governamentais que priorizem o fortalecimento de direitos, assim como políticas que visem o bem estar de nossos povos, são fundamentais para essa disputa e devem caminhar de mãos dadas com uma estratégia anticapitalista.</p>
<p>No Brasil, por exemplo, décadas de neoliberalismo aprofundaram a situação de precariedade da população, com desemprego, insegurança e violência, sem ter levado a uma possível reação de forma massiva dos “sobrantes” contra essa situação de extrema precariedade. Isso se dá também por conta de nossas fragilidades. Os avanços jurídicos e institucionais, conquistados pela classe trabalhadora organizada, ainda que fundamentais, não foram traduzidos à realidade de forma segura para a massa de trabalhadores, para que novas lutas fossem travadas a partir de demandas estruturais. Dentro das organizações que lutaram por direitos, assim como partidos políticos de esquerda que conseguiram pleitos municipais, estaduais e federais, a possibilidade de uma ruptura radical com o sistema vigente, com vistas à superação do capitalismo como estratégia de luta, foi sendo substituída por um discurso e uma prática fortemente ligada à garantia de direitos e reivindicações a partir dos marcos legais possíveis e conjunturais. Nesse sentido, não considerar do ponto de vista estratégico que a luta, mais do que por direitos, é anticapitalista, foi fatal para a construção de uma força popular que avançasse para um aprofundamento radical das reivindicações. Mais uma vez, a pergunta que deve ecoar entre nós é: qual o nosso projeto?</p>
<p>Olhar para nossas fragilidades e entender porque isso aconteceu não significa desconsiderar a correlação de forças e o papel do nosso inimigo, que foi se configurando e se tornando cada vez mais atraente. Em uma primeira fase do neoliberalismo em nossas terras, a construção ideológica do Estado inoperante, ineficaz e corrupto chegou à classe trabalhadora, que viu seus direitos serem arrancados sem ter demonstrado muita comoção. Em um mar de miséria, o capitalismo buscou por meio de agências multilaterais, como o Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional (FMI), “salvar” os pobres dos países subdesenvolvidos por financiamento de ONGs que, além de deixar nebuloso e fragilizar o papel do Estado, geraram um processo de desarticulação da classe trabalhadora. Para que lutar e contra quem?</p>
<p>A exploração no mundo do trabalho pareceu difusa, os coletivos foram se dissipando e se enfraquecendo e a responsabilidade individual pelo próprio fracasso ou sucesso se tornou a ideia motor de um povo que caminha ao abismo. O neofascismo consolidou as ideias neoliberais e encontrou nas igrejas evangélicas e no fundamentalismo religioso um espaço concreto e cotidiano da classe mais empobrecida para fomentar seus ideais anti-estado, anti-qualquer coisa pública e por uma identidade trabalhadora sem o elemento classista, vinculada a ideia falaciosa do “cidadão do bem”, que tem a capacidade de, longe dos pecados e pelo sacrifício muitas vezes sobre-humano, prosperar.</p>
<p>Qualquer avanço do campo progressista foi atacado por diversas frentes. No cotidiano da classe, por exemplo, os discursos fundamentalistas colocaram como “demoníaco” qualquer pauta pela igualdade de gênero e garantias de direitos à população LGBTQIA+; ao mesmo tempo, uma elite cada vez mais anti-racional questiona a todo momento avanços científicos já consolidados, inclusive relacionados às pautas ambientais. O continente também sofreu novas formas de golpes contra governos progressistas que, ainda com os limites impostos do ponto de vista institucional, conseguiram avançar na garantia de direitos básicos à classe trabalhadora.</p>
<p>Esses processos foram dinamizados pelos avanços tecnológicos que unificaram a direita, mobilizando corações e mentes de nossa classe. As redes sociais se tornaram o grande espaço de diálogo com os trabalhadores na construção de um senso comum balizado em discursos de ódio e disseminação de fakenews. Fruto de muito financiamento, centralização e estratégias de convencimento a partir de estudos empíricos – seguimos todos sendo laboratório da extrema direita -, as redes sociais construíram uma coesão entre as direitas para além das fronteiras nacionais.</p>
<p>É a partir dessas ferramentas que o neofascismo tem criado perspectiva de futuro aos milhões de sobrantes no Brasil – ainda que ilusórias. São as igrejas evangélicas, hegemonizadas por discursos conservadores, que acolhem e criam espaços de comunidade para os mais empobrecidos; o crime organizado tem sido apresentado muitas vezes como a única possibilidade de ascensão econômica do jovem negro e periférico; o empreendedorismo, mediado por aplicativos, constrói a visão de que “sem patrão”, ainda que sem direitos, o trabalhador pode trabalhar até a morte para conquistar seus objetivos materiais de curtíssimo prazo, com a fantasia de que estes objetivos podem ser estendidos até o infinito.</p>
<p>Essas respostas e ataques não estão circunscritos a um pequeno círculo. As mulheres trans estão sendo assassinadas na Argentina, o processo de uberização está em toda a América Latina, o fundamentalismo religioso chegou nas igrejas de Cuba, o negacionismo científico também está no Peru, a democracia venezuelana é constantemente ameaçada, o crime organizado e as políticas de segurança pública têm sido centrais no Equador, e assim por diante. Não é possível pensarmos em avanço contra essas pautas sem uma articulação latino-americana que, ao conceber as especificidades de cada país, progrida para um futuro comum por meio de organização popular e conquistas concretas para o povo. É fundamental nos perguntarmos qual caminho que estamos construindo para mudanças estruturais e ao lado de quem. Diante das distopias das direitas que alimentam paixões tristes em nosso povo, como medo, terror, ódio, mentira e resignação, como construir novos horizontes criativos de igualdade e fraternidade, enterrando a ideia de que o capitalismo é indestrutível? Luchar, vencer, caerse, levantarse… nos parece imperativo no continente latino-americano e só será possível se construído no plural. Dialetizar o campo teórico e a realidade concreta dos trabalhadores e trabalhadoras nos territórios do povo, a partir da criatividade e da construção coletiva de novas utopias, é tarefa urgente e cotidiana. A luta é longa, mas temos a tarefa inadiável de vencer.</p>
<p><em>*Delana Corazza é formada em Ciências Sociais (PUC-SP), mestre em Arquitetura e Urbanismo (USP) e doutoranda em Geografia (UNESP) e pesquisadora do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.</em></p>
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			</item>
		<item>
		<title>A Transição Energética para além do debate combustíveis fósseis e fontes renováveis</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/a-transicao-energetica-para-alem-do-debate-combustiveis-fosseis-e-fontes-renovaveis/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luiz]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 05 Jun 2024 13:02:11 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Diante das distopias das direitas que alimentam paixões tristes em nosso povo, como medo, terror, ódio, mentira e resignação, como construir novos horizontes criativos de igualdade e fraternidade, enterrando a ideia de que o capitalismo é indestrutível?]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_104040" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-104040" class="wp-image-104040 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/06/agrotoxico_red_not.jpg.webp" alt="" width="620" height="400" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/06/agrotoxico_red_not.jpg.webp 620w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/06/agrotoxico_red_not.jpg-300x194.webp 300w" sizes="auto, (max-width: 620px) 100vw, 620px"><p id="caption-attachment-104040" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Foto: Eliana Aponte – EBC</small></p></div>
<p> </p>
<p><i>Por Cristiane Ganaka*</i></p>
<p>As devastadoras enchentes que deixaram <a href="https://www.bbc.com/portuguese/articles/c72p96eqkvxo">83% dos municípios do Rio Grande do Sul em situação de calamidade</a> no início do mês de maio expõem a crescente intensidade dos eventos climáticos extremos e a necessidade de um debate franco sobre a transição energética. Aproveitamos o trágico episódio e o Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado neste 5 de junho, para debater este tema que está na pauta do dia, mas que nem sempre é tratado com a seriedade e profundidade que merece.</p>
<p>Mas afinal, o que é essa tal transição energética que tanto ouvimos falar?  É comum que muitas pessoas confundam “matriz energética” com “matriz elétrica”, mas esses conceitos são distintos. Enquanto a matriz energética engloba todas as fontes de energia usadas para diversos fins, como transporte, preparação de alimentos e geração de eletricidade, a matriz elétrica se refere especificamente às fontes utilizadas para produzir energia elétrica. Ou seja, a matriz elétrica faz parte da matriz energética.</p>
<p>A transição energética nada mais é do que a alteração da principal fonte de energia de uma sociedade por outra, no nosso caso por uma fonte renovável e mais sustentável. Teoricamente simples, mas na prática guarda uma série de contradições. Não há dúvidas que algo precisa ser feito, mas o principal debate é como isso será feito.</p>
<p>Vale destacar que a necessidade energética é ontológica do ser humano e que a matriz energética já passou por algumas transições ao longo da história. O domínio/geração e consumo de energia tem relação com a complexificação da produção e reprodução social.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-104020 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/06/tric2.jpg" alt="" width="741" height="465" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/06/tric2.jpg 741w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/06/tric2-300x188.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 741px) 100vw, 741px"></p>
<p> </p>
<p>Em um mundo sob mudanças climáticas, a transição energética se torna cada vez mais urgente. Já é sabido que os atuais níveis de emissão de Gases do Efeito Estufa (GEE) são uma ameaça para continuação da existência humana. Além disso, estudos recentes, divulgados pelo <a href="https://www.oc.eco.br/">Observatório do Clima</a>, demonstram que as condições climáticas adversas estão agravando problemas globais, como fome, desenvolvimento reduzido e ameaça à paz.</p>
<p>A atual matriz energética baseada na queima de combustíveis fósseis, como o petróleo e o carvão, é a principal causadora das altas emissões de GEE em nível global e que tem levado a catástrofes climáticas cada vez mais cotidianas, como as ondas de calor ou as enchentes que assistimos. Além disso, as fontes dessa matriz não são renováveis, ou seja, mais cedo ou mais tarde esses recursos irão acabar. Mas há distinções significativas entre as causas das emissões de GEE no mundo e no Brasil.</p>
<p>Mundialmente, cerca de ¾ das emissões vem do sistema elétrico (Gráfico 1), enquanto no Brasil, graças às hidrelétricas, o sistema elétrico é majoritariamente de fontes mais sustentáveis (62%). No caso brasileiro, o agronegócio é o maior responsável pelas emissões de GEE, devido ao desmatamento para o avanço da fronteira agrícola e do modelo agropecuário baseado na monocultura de <i>commodities </i>e na criação extensiva de gado.</p>
<p>O relatório <i>Plano para a Transformação Ecológicado, </i>do Ministério da Fazenda, aponta que este setor representa 29% das emissões de GEE no país. O problema se agrava ainda mais quando analisamos o nível de emissão de GEE relacionado ao desmatamento, na casa dos 38%. Ao considerarmos que a agropecuária responde por cerca de 96% da área desmatada no Brasil, segundo o <a href="https://storage.googleapis.com/alerta-public/dashboard/rad/2022/RAD_2022_Destaques_12.06ok_1.pdf">Relatório Anual do Desmatamento 2022</a>, podemos afirmar que o agronegócio é responsável por aproximadamente 65% das emissões de GEE no Brasil, contra 23% da geração de Energia (Gráfico 1). Em suma,  não podemos replicar planos de transição como a da Europa, já que nossa causa é distinta.</p>
<p> </p>
<p><b>Gráfico 1</b></p>
<p><b>Emissões de GEE por setor, em % –  Mundo (2016) e Brasil (2020) </b></p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-104030 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/06/tric1.jpg" alt="" width="822" height="475" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/06/tric1.jpg 822w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/06/tric1-300x173.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/06/tric1-768x444.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 822px) 100vw, 822px"></p>
<p>A produção de animais, especialmente ruminantes, contribui de forma significativa para as emissões de GEE, já que o sistema digestivo dos ruminantes produz e libera metano e outros GEE, como aponta <a href="https://agro.fgv.br/sites/default/files/2023-10/M%C3%A9tricas%20Agropecu%C3%A1rias.pdf">um estudo de 2023</a> do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV). O manejo dos dejetos animais também gera metano e óxido nitroso durante a decomposição. Outras fontes de emissão indiretas incluem a volatilização de amônia e óxidos de nitrogênio, bem como perdas de nitrogênio por lixiviação e escoamento no manejo de esterco e solos. O metano é o segundo gás mais relevante para o aquecimento global, após o dióxido de carbono. Devemos considerar as emissões geradas pela atividade pecuária não associando-as aos animais individualmente, mas sim entendendo o sistema como um conjunto. No Brasil, 93% do rebanho nacional é manejado em pastagens, segundo dados da Anualpec de 2022, a chamada criação extensiva, levando o setor agropecuário brasileiro a ser responsável por 76,1% das emissões de metano. Além da pecuária, o setor agrícola também contribui para as emissões de GEE, representando cerca de 8% das emissões totais no Brasil, segundo dados do Sistema de Estimativa de Emissão de Gases de Efeito Estufa (SEEG) de 2020. Isso se deve principalmente à aplicação de agrotóxicos nitrogenados, decomposição de resíduos agrícolas e dejetos animais, cultivo de arroz e aplicação de calcário.</p>
<p>O Brasil aspira liderar a transição energética e a partir disso se reposicionar geopoliticamente. É fato que o país tem um grande potencial para conduzir esse processo: além de 48% das fontes de energia serem renováveis – participação três vezes maior que a média mundial de 15% -, há ainda um grande potencial de recursos hídrico, solar, eólico e de biocombustíveis disponíveis. Cabe ressaltar que a produção de energia em grande escala a partir de recursos renováveis não quer dizer que tenham impacto zero, basta lembrar das comunidades que são deslocadas para formação de barragens.</p>
<p>Na busca de fazer a transição energética, tanto o Poder Executivo quanto o Legislativo estão elaborando iniciativas, como o <a href="https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202401/governo-federal-institui-plano-para-acelerar-transicao-energetica">Plano de Trabalho Conjunto para a Aceleração da Transição Energética</a>, do Ministério de Minas e Energia (MME) e da Agência Internacional de Energia (IEA); o Projeto de Lei (PL) que institui o <a href="https://www.camara.leg.br/noticias/1045598-camara-aprova-projeto-que-cria-o-programa-de-aceleracao-da-transicao-energetica">Programa de Aceleração da Transição Energética</a> (Paten); e o <a href="https://www.gov.br/fazenda/pt-br/assuntos/noticias/2023/setembro/plano-de-transformacao-ecologica-trara-desenvolvimento-economico-e-social-aponta-ministerio-da-fazenda">Plano para a Transformação Ecológica</a>, iniciativa do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e do Ministério da Fazenda.</p>
<p>O Plano de Trabalho Conjunto para a Aceleração da Transição Energética tem o propósito de impulsionar e expandir a matriz energética do Brasil por meio de investimentos em fontes renováveis, como biocombustíveis; o Programa de Aceleração da Transição Energética incentiva financiamentos de projetos sustentáveis; já o Plano para a Transformação Ecológica parece ser a iniciativa mais abrangente que articula eixos (Finanças Sustentáveis, Adensamento Tecnológico, Bioeconomia, Transição Energética, Economia Circular e Nova Estrutura Verde) e instrumentos (Financeiros, Fiscais, Regulatórios, Administrativos e Operacionais, Monitoramento e Fiscalização), a fim de atingir justiça social, sustentabilidade ambiental e ganhos de produtividade como geração de emprego.</p>
<p>Até agora todas as iniciativas privilegiam a óptica de mercado com um grande número de incentivos financeiros: emissão de títulos, disponibilidade de linhas de créditos e criação de fundos. E a história do capitalismo mostra que o mercado busca o lucro de forma contínua e acelerada, muitas vezes até que ocorra um colapso que paralise o sistema.</p>
<p>Ainda sobre as ausências, os incentivos a investimentos em meios de transportes coletivos ou para além dos rodoviários são tímidos ou quase inexistentes, o que diminuiria as emissões geradas pelo predomínio da logística via malha viária e pelo transporte individual. O que temos de mais significativo são ações para eletrificação da frota dos ônibus, renovação de frota de caminhões e metas de emissões para veículos leves. Porém, faz falta ações mais diretas em relação às maiores causas de emissão de GEE.</p>
<p>É fundamental alterar o modelo de produção agrícola baseado na monocultura de <i>commodities </i>e pecuária extensiva voltada à exportação. A escolha por ser uma economia agroexportadora nos coloca em uma posição de dependência na divisão social do trabalho, além de ser nosso maior problema quando falamos em emissão de GEE. Também é preciso repensar a mobilidade como um todo. Dado que somos um país urbano, torna-se cada vez mais evidente o papel crucial das cidades nesse processo, seja pela questão do transporte ou pela habitação, já que as ondas de calor, cada vez mais frequentes, elevam a demanda por energia elétrica. Além disso, prospectando o futuro,  em uma economia digitalizada, como iremos suprir uma demanda de energia cada vez maior se pretendemos ter nosso <i>Data Centers</i> como prospectada na Nova Indústria Brasil, sabendo que essas infraestruturas demandam uma grande capacidade de refrigeração?</p>
<p>A transição energética tem que ser mais ampla, para além do setor elétrico, de novos combustíveis e da captura de carbono. A transição energética é uma mudança de paradigma que abarca não apenas a oferta de energia, mas pressupõe alterar o sistema produtivo e de consumo. Os recursos são limitados e deveriam ser alocados para o bem coletivo e não apenas para uma parcela.</p>
<p>A transição energética é parte da questão ambiental que hoje se apresenta como uma problemática. A alta emissão de GEE não é apenas resultado da preponderância do uso de combustíveis fósseis na nossa atual matriz energética, mas sim da forma predominante de organizar a vida. Portanto, não será uma resposta pontual que resolverá um problema complexo. A transição energética é uma condição necessária para seguir em frente, mas a lógica capitalista e seus padrões de produção e consumo impedem o progresso.</p>
<p> </p>
<p>*<i>Cristiane Ganaka é economista e pesquisadora do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. Artigo originalmente publicado no <a href="https://jornalggn.com.br/desenvolvimento/a-transicao-energetica-para-alem-do-debate-combustiveis-fosseis/">Jornal GGN</a>.<br>
</i></p>
<p> </p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A situação da classe trabalhadora no Brasil e a nova pesquisa Tricontinental</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/a-situacao-da-classe-trabalhadora-no-brasil-e-a-nova-pesquisa-tricontinental/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luiz]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 24 May 2024 13:32:53 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[No Brasil, o maior responsável pelas emissões de GEE &#8211; que tem levado a catástrofes climáticas cada vez mais cotidianas &#8211; é o agronegócio, e não o sistema elétrico baseada na queima de combustíveis fósseis. O agro é responsável por cerca de 65% das emissões de GEE no Brasil, contra 23% da geração de Energia. Ou seja, não podemos replicar planos de transição como a da Europa, já que nossa causa é distinta.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_103536" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-103536" class="wp-image-103536 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/05/mg_2476_0.webp" alt="" width="1170" height="700" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/05/mg_2476_0.webp 1170w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/05/mg_2476_0-300x179.webp 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/05/mg_2476_0-1024x613.webp 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/05/mg_2476_0-768x459.webp 768w" sizes="auto, (max-width: 1170px) 100vw, 1170px"><p id="caption-attachment-103536" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>O que fazer diante da vulnerabilidade cada vez maior da classe trabalhadora brasileira? Crédito da imagem: Fernando Frazão/EBC</small></p></div>
<p> </p>
<p><i>Por Cristiane Ganaka e Delana Corazza*</i></p>
<p>Os <a href="https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/40106-pnad-continua-trimestral-desocupacao-cresce-em-oito-das-27-ufs-no-primeiro-trimestre-de-2024">dados do IBGE</a> seguem confirmando a permanência de uma desigualdade intrínseca em diferentes dimensões no mercado de trabalho brasileiro, tanto no que diz respeito às questões de gênero, raça e geográficas, quanto ao acesso e a obtenção de renda via trabalho assalariado. A precariedade da condição da classe trabalhadora se expressa na taxa de informalidade significativa, na casa dos 38,9%, segundo dados do trimestre encerrado em março de 2024, em uma renda média baixa (R$ 3.123,00) e em uma expressiva taxa de subutilização da força de trabalho (17,9%).</p>
<p>Ou seja, grande parte da massa de trabalhadores está vulnerável, fora do sistema de proteção social, com salários que muitas vezes não garantem seu sustento e expostos à insuficiente oferta de serviços públicos que atendam suas necessidades básicas. A taxa de subutilização indica que não há trabalhos formais para todos. Tal cenário empurra os trabalhadores e trabalhadoras para uma <a href="https://iclnoticias.com.br/o-quao-distantes-estamos-do-pleno-emprego/">estratégia de sobrevivência</a>, seja como MEI, conta-própria, autônomo, bico, etc.</p>
<p>No que diz respeito às condições de vida da população – como acesso à moradia, saúde e educação – os dados são mais preocupantes em alguns casos específicos: as mulheres sem cônjuge e com filhos de até 14 anos de idade são as que mais sofrem com a falta de documentação do imóvel que vivem ou com ônus excessivo do aluguel. Ainda que os índices sobre moradia, de imediato, não pareçam tão alarmantes, dado que a maioria da população reside em domicílio próprio sem parcelas a serem pagas <a href="https://biblioteca.ibge.gov.br/index.php/biblioteca-catalogo?view=detalhes&amp;id=2102052">(64,6% em 2022</a>), é necessário pensar que para além dos dados de acesso à moradia, questões como a precariedade desta moradia, tanto do ponto de vista de sua estrutura física – problemas como ventilação, iluminação, proteção contra frio, umidade e calor – como de acesso às políticas públicas urbanas – asfalto, saneamento básico, transporte, etc. – são extremamente relevantes para compreender a condição de vida da população.</p>
<p>O Brasil é marcado por processos de segregação sócio-espacial da classe trabalhadora, onde a população mais pobre é expulsa de áreas de valorização imobiliária, tendo muitas vezes como única opção ocupar áreas irregulares, sem infraestrutura necessária para o acesso à direitos sociais e a uma vida digna, sendo responsável pela construção de suas próprias casas e, inclusive, ocupando áreas de risco ambiental.</p>
<p>A moradia é considerada a porta de entrada para a garantia de uma vida digna, e sua insegurança dialoga com a dificuldade de acesso a outros direitos: por exemplo, o endereço muitas vezes é impeditivo na conquista de uma vaga de emprego por conta da precariedade do transporte público ou pelas notícias bombardeadas nos meios de comunicação sobre violência e insegurança nos bairros onde mora a população mais empobrecida.</p>
<p>Além disso, ao ocupar novas áreas sem infraestrutura ou morando em regiões sem investimento público, a população tem que, muitas vezes, se deslocar com distâncias consideráveis para acessar serviços de saúde e educação. Nesta última questão, há um grande desafio de frear a evasão escolar, principalmente no Ensino Médio. Em 2022, <a href="https://biblioteca.ibge.gov.br/index.php/biblioteca-catalogo?view=detalhes&amp;id=2102052">cerca de 9,8 milhões de jovens de 15 a 29 anos</a> já haviam abandonado a escola sem concluir a educação básica, o que obviamente prejudicará essa pessoa na busca por emprego melhor remunerado, o que contribui para a manutenção das condições de vida precárias desse jovem.</p>
<p>No que diz respeito à identificação do trabalhador enquanto classe, segundo pesquisa da Fundação Perseu Abramo, divulgada em 2017 sobre as <a href="https://fpabramo.org.br/wp-content/uploads/2017/03/Pesquisa-Periferia-FPA-040420172.pdf">Percepções e valores políticos nas periferias de São Paulo</a>, trabalhador e patrão não aparecem como sujeitos antagônicos. Essa visão é reforçada pelo empreendedorismo, em que a ideia de ser “patrão de si mesmo” mascara a situação de classe do trabalhador, assim como sua precarização. Em paralelo, as empresas têm buscado “flexibilizar” as relações de trabalho, alegando que isso geraria crescimento econômico e consequentemente renda.</p>
<p>Ao se despir de sua identidade de trabalhador, fruto das dinâmicas neoliberais e do enfraquecimento de espaços coletivos de luta vinculados anteriormente a essa identidade, as respostas para uma massa “sobrante” de trabalhadores precarizados têm sido dadas pelo campo conservador e reacionário ou pelo crime organizado. São as igrejas e o tráfico hoje que têm organizado parte da população mais pauperizada, que inclusive, em alguns espaços, têm construído projetos comuns, como podemos observar na impensável<a href="https://www.ihu.unisinos.br/categorias/159-entrevistas/564908-oracao-de-traficante-o-mundo-da-guerra-do-trafico-e-da-guerra-das-almas-entrevista-com-christina-vital-cunha"> junção do tráfico de drogas com as igrejas neopentecostais no Rio de Janeiro.</a></p>
<p>Essas dinâmicas têm consequências não só do ponto de vista da vida concreta e material da população, com precárias condições de vida e trabalho, informalização, baixa remuneração e pouca proteção social, mas também como esses trabalhadores (não) se enxergam enquanto classe, deixando de compreender quem de fato é o seu inimigo.</p>
<p>Do ponto de vista institucional, ao analisar as votações das bancadas do campo conservador “Boi, Bala e Bíblia” nos últimos períodos, é possível perceber que necessitam umas das outras para barrar projetos progressistas, ainda que “moralmente” desarticuladas com aquilo que defendem. A bancada evangélica, em contradição com o que os evangélicos têm pregado nos territórios – de que todos são passíveis de salvação, basta a conversão, votou sempre em maioria a favor de pautas punitivistas e armamentistas, como a defesa da redução da idade penal, por exemplo.</p>
<p>Essa junção – fé e fuzil – não é recente, tem suas raízes ainda na ditadura civil-militar, onde grande parte dos evangélicos, cientes dos processos de tortura em curso, se calaram ou mesmo se aliaram ao governo militar contra uma ameaça comunista tantas vezes inventada por parte da direita. Os evangélicos conservadores foram “ao mundo” a partir do enfrentamento a um inimigo comum – o comunismo, compondo inclusive o governo militar.</p>
<p>Essas articulações não teriam a força política que tem sem adesão popular. Os discursos contra as pautas vinculadas à esquerda estão nos territórios – ancorados pelas Big Techs, sendo defendidos, inclusive, por parte da população empobrecida, principal vítima dos discursos de ódio.</p>
<p>Diante deste cenário, coloca-se como imperativo para o campo popular investigar a situação da classe trabalhadora no Brasil para compreender por que e como as ideias da classe dominante são incorporadas pela população mais pobre. A direita tem se apresentado em diversos espaços – institucionalizados ou não – de forma organizada e financiada, sobretudo com imbricações em dois temas que já foram aprofundados pelo Instituto Tricontinental: segurança e religião.</p>
<p>No campo institucional, as bancadas da Bala e da Bíblia têm criado uma articulação efetiva desde 2015, no enfrentamento à discussão sobre a Comissão Nacional da Verdade e pautas consideradas do âmbito moral e punitivista, como os direitos reprodutivos e temas que se referem ao direito penal. Em 2018, como sabemos, Bolsonaro venceu as eleições vinculando essas duas pautas. É interessante pensarmos que as pautas de cunho moral, ligadas à direita cristã, não estavam em seu repertório antes do golpe. Isso se dá a partir de uma aproximação do ex-presidente com grupos religiosos fundamentalistas cristãs, simbolizada pelo seu batismo no Rio Jordão em 2016, ato muito representativo ao universo evangélico, ainda que Bolsonaro tenha se mantido católico.</p>
<p>Sob todos estes desafios, a proposta da nova pesquisa do escritório Brasil do Instituto Tricontinental é apresentar uma análise das condições de vida e trabalho da diversificada classe trabalhadora brasileira, compreendendo, a partir de dados sistematizados, quem é, concretamente, o trabalhador. Frente a esse diagnóstico, pretendemos apontar como os elementos da ideologia burguesa se convertem em hegemonia e por quais mecanismos esta ideologia é apropriada e (re)significada pela população. Inicialmente aprofundaremos três eixos que se tornaram centrais no último período para o amortecimento da luta social: fundamentalismo religioso, violência e a defesa do empreendedorismo.</p>
<p>A pesquisa que se inicia buscará, para além do conteúdo, o diálogo e construção constantes junto aos movimentos sociais do campo popular com o objetivo de contribuir para as ações concretas nos territórios.</p>
<p><em>*Cristiane Ganaka e Delana Corazza são pesquisadoras do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.</em></p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
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		<title>Como explicar os 40 anos de existência do MST?</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/como-explicar-os-40-anos-de-existencia-do-mst/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Luiz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 25 Apr 2024 19:39:51 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Este artigo apresenta o mais novo campo de pesquisa do escritório Brasil do Tricontinental, que investigará a Situação da Classe Trabalhadora no Brasil, procurando apontar como os elementos da ideologia burguesa se convertem em hegemonia e por quais mecanismos esta ideologia é apropriada e (re)significada a partir de três eixos centrais: fundamentalismo religioso, violência e a defesa do empreendedorismo.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_103468" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-103468" class="wp-image-103468 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/05/MST.jpg" alt="" width="1200" height="700" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/05/MST.jpg 1200w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/05/MST-300x175.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/05/MST-1024x597.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/05/MST-768x448.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px"><p id="caption-attachment-103468" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Diante de tantas adversidades, como foi possível ser um dos principais protagonistas da luta social brasileira? Crédito: Rafaela Felicciano.</small></p></div>
<p> </p>
<p><em>Por Ronaldo Pagotto*</em></p>
<p>Reza a lenda, que após a marcha nacional realizada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em 2005 – quando 15 mil camponeses caminharam 230 quilômetros durante quinze dias, ao saírem de Goiânia (GO) e chegarem à Brasília –, o coronel Jarbas Passarinho comentou que apenas duas organizações no Brasil eram capazes de organizar algo daquela magnitude: o MST e o Exército.</p>
<p>Se essa história de bastidor é verdadeira ou não, pouco importa, mas ajuda a simbolizar o significado daquele episódio. Como é possível uma organização popular de sem terra construir uma pequena cidade itinerante com cozinhas, banheiros, espaços para cuidar das crianças, comunicação, setor de saúde e toda a infraestrutura envolvida para dar conta de um evento desse tamanho ao longo de duas semanas? Não é pouca coisa. Não estamos falando de uma mega empresa de eventos com <em>know how</em> no assunto e um aporte de capital gigantesco, mas do próprio povo protagonizando e construindo esse processo.</p>
<p>A resposta para essa pergunta não é tão simples e nem há apenas um elemento que a explique, mas algumas pistas podem ser encontradas no novo dossiê <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-75-movimento-dos-trabalhadores-rurais-sem-terra-brasil/"><em>A organização política do MST</em></a>, lançado pelo Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. O documento faz um raio-x do Movimento Sem Terra ao analisar suas formas de organização e de luta, se debruçando em entender o que levou uma organização de camponeses a sobreviver por quatro décadas em meio a uma conjuntura tão desfavorável.</p>
<p>De fato, a vida do MST nunca foi fácil. Basta lembrarmos que em toda a história brasileira nenhum movimento social camponês conseguiu sobreviver por sequer uma década diante do poder político, econômico e militar dos grandes proprietários de terra, em um país em que uma das características mais marcantes é sua alta concentração fundiária. Mais de 40% das propriedades agrícolas estão sob controle de menos de 1% dos proprietários, enquanto há um contingente de 4,5 milhões de camponeses sem-terra. Essa realidade permite que o Brasil sustente, sem muito esforço, o posto de segunda maior concentração de terras do planeta. Tudo isso sem falar da distorção de representatividade no Congresso Nacional, cuja bancada ruralista reúne 61% dos deputados federais e 35% dos senadores.</p>
<p>Vale lembrar também que o tema da reforma agrária não está mais no centro do debate político nacional há anos, se não décadas, inclusive dentro da própria esquerda. Sempre me recordo de uma matéria de capa da revista Istoé de 2011, que decretava “O fim do MST”, como anunciava o título da reportagem, ilustrada por um boné do movimento bem velho e surrado, sob terras forradas de pedregulhos. A matéria em si era horrível, com dados falsos, premissa e conclusões erradas, sem nenhuma base na realidade. Mas ela simbolizava um novo momento do MST e uma mudança de postura no tratamento da imprensa com a organização; um momento em que houve um pacto velado pelos meios de comunicações tradicionais de silenciar a luta dos sem terra. Por mais terras que ocupasse, por mais mobilizações e lutas que realizasse, era como se o MST não existisse mais para eles. O objetivo dessa nova tática? Quem não é citado não é lembrado. Se até hoje não conseguimos acabar nem criminalizar a luta desses camponeses, melhor os deixarmos no limbo do esquecimento.</p>
<p>E assim foi durante todos esses últimos anos, realidade que só começou a mudar quando o movimento buscou uma nova forma de diálogo direto com a sociedade: as feiras da reforma agrária, com destaque à 1° Feira Nacional realizada em 2016 em São Paulo, no Parque da Água Branca, região central da cidade. Desde então, aos poucos, o MST voltou a ter mais visibilidade na imprensa e, junto a isso, para o conjunto da sociedade, agora com as “novidades” das produções dos assentamentos.</p>
<p>Mas embora o <em>status</em> do MST não estivesse tão em alta durante esse período a olho nus, quem conhece e acompanha a luta política no seu interior sabe a importância e o protagonismo que os sem terra sempre tiveram nos processos de articulação, construção da unidade, análise da conjuntura e nas mobilizações da classe trabalhadora como um todo. Na maioria das vezes em que a classe se mobilizou de alguma maneira nas últimas décadas, lá continha o dedinho dessa organização política que nem sempre se preocupa em deixar registrada sua digital, por considerar que há coisas mais importantes na luta de classes do que a vaidade.</p>
<p>Diante de todo esse breve cenário exposto, voltemos à pergunta inicial. Como foi possível, não apenas sobreviver, mas ser um dos principais protagonistas da luta social brasileira, nunca deixando de refletir e se reinventar diante dos novos desafios colocados em cada período histórico? Há uma palavra que não existe nos dicionários de língua portuguesa, mas que foi gestada pela luta organizada da classe trabalhadora: organicidade, a engenharia de combinar a participação popular com a realização de tarefas necessárias. São esses os elementos da estrutura organizativa do movimento, trazendo seus princípios, objetivos e as formas de luta, que respondem em grande parte à pergunta.</p>
<p>A começar pelos seus três objetivos básicos que o acompanham desde seu nascimento: luta pela terra, por reforma agrária e transformação social. A luta pela terra é importante, mas não basta. Para que todos possam ter um pedaço de terra é preciso mexer na histórica e secular estrutura fundiária brasileira. No entanto, só é possível mexer nesse vespeiro por meio de um profundo processo de transformação da sociedade como um todo.</p>
<p>Tampouco basta apenas organizar as famílias camponesas sem-terra Brasil afora. Sob um pensamento neoliberal arraigado sobre a classe trabalhadora, a chance dela conquistar seu lote e tocar sua vida após esse feito é enorme. É preciso educar, criar consciência, identidade, dar tarefas concretas a todos, elevar o nível de consciência das massas para que ela possa superar o senso comum. E como fazer tudo isso? Por meio de princípios e valores. Seja na questão da solidariedade, no fortalecimento do pensamento coletivo, na valorização da arte e da cultura, na luta por escolas nas áreas rurais, no pensar a infância e a juventude, no protagonismo das mulheres, no respeito à diversidade, no debate da produção e da alimentação, na organização e na participação de uma mobilização, de uma marcha ou de uma ocupação. Enfim, uma série de elementos em que não é mais possível ficar estagnado no seu ser anterior, mas que te eleva enquanto sujeito político em busca da transformação, da justiça e da igualdade.</p>
<p>Em meio a tudo isso, você não apenas planta mais uma batata no seu pedaço de terra. Você é protagonista e sujeito da transformação rumo a uma outra sociedade e se transforma em um novo ser humano.</p>
<p>É essa “engenharia” e a capacidade de construir coletivamente análises da realidade e compreender as transformações ocorridas no campo nas últimas décadas – diante da hegemonia do agronegócio – que permitiram ao MST formular um Programa de Reforma Agrária Popular, que aponta as contradições desse modelo monocultor exportador baseado no uso intensivo de venenos e na produção não alimentar, e propor sua superação por meio da democratização da terra para a produção de alimentos e a preservação dos bens comuns da natureza por meio de tecnologias, como a agroecologia.</p>
<p>O Programa de Reforma Agrária Popular é também uma resposta àquela invisibilidade da reforma agrária no debate político nacional. O problema agrário não foi solucionado, mas invisibilizado por falsos consensos da mídia, academia e mesmo de forças progressistas. A mesma invisibilidade que esse consenso impõe às contradições do agronegócio como o desmatamento, expulsão de comunidades indígenas e quilombolas e o envenenamento do solo e das águas.</p>
<p>Como disse anteriormente, não é pouca coisa. Toda essa experiência sintetizada no dossiê do Tricontinental não tem a pretensão de oferecer alguma fórmula mágica, claro, mas compartilha com o conjunto da classe trabalhadora uma experiência e um acúmulo que pode servir de reflexão a outros movimentos e organizações populares. Mesmo que o MST acabasse amanhã, é impossível negar que se trata de uma experiência altamente bem sucedida.</p>
<p> </p>
<p><em>*Ronaldo Pagotto é membro do conselho executivo do escritório Brasil do Instituto Tricontinental de Pesquisa social, advogado e militante do Movimento Brasil Popular. Artigo originalmente publicado no <a href="https://www.google.com/url?sa=t&amp;source=web&amp;rct=j&amp;opi=89978449&amp;url=https://diplomatique.org.br/40-anos-mst/&amp;ved=2ahUKEwjg8aS2iKKGAxUdqJUCHfXNBvAQFnoECA8QAQ&amp;usg=AOvVaw0OJlq1Uf_S972c3eQr0qLJ">Le Monde Diplomatique Brasil.</a><br>
</em></p>
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