Nas Ruínas do Presente

Ağaca balta vurmuşlar ‘sapı bendendir’ demiş.

Quando o machado entrou na floresta, as árvores disseram:

“o cabo é uma de nós”.

(Provérbio turco)

Raoul Peck, cineasta haitiano, começa seu filme – O jovem Karl Marx (2017) – nas florestas da Prússia, onde camponeses recolhem madeira caída. Eles parecem sentir frio e fome. Ouvimos cavalos ao longe. Os guardas e os aristocratas estão perto. Vieram reivindicar o direito sobre tudo na floresta. Os camponeses correm. Sem energia, caem. Os açoites e as lanças dos aristocratas e dos guardas os atingem, alguns fatalmente. Eles não têm direito nem mesmo sobre a madeira caída.

O jovem Karl Marx, sentado em Colônia, em 1842, está consternado com a violência contra os camponeses alemães, que conhecem o castigo, escreveu. Estão sendo espancados, até mesmo mortos. Mas o que desconhecem é o crime pelo qual estão sendo punidos.

Peck foi engenhoso ao abrir o filme com esse dilema, que traz a pergunta que toda pessoa sensível deve fazer hoje. Por qual crime estão sendo punidos os pobres do mundo? Pobreza e guerra produzem refugiados da fome e dos bombardeios, mas lhes é negada a mobilidade e qualquer outra saída para sua situação. Eles conhecem o castigo: abjeção, fome e morte. O que não sabem é o crime. O que fizeram para merecer isso?

O escritor dominicano-americano Junot Diaz visitou o Haiti após o terremoto devastador de 2010. Em um memorável ensaio intitulado Apocalipse”, Junot Diaz observou que o Haiti nos alertava sobre o novo “estágio zumbi do capitalismo, em que nações inteiras estão sendo transformadas através da alquimia econômica em zumbis. Antigamente, um zumbi era uma figura cuja vida e trabalho haviam sido capturados por magia. Esperava-se que trabalhassem 24 por dia sem descanso. O novo zumbi não pode esperar por um trabalho de qualquer natureza – ele espera apenas a própria morte”.

O novo zumbi não tem permissão para procurar comida, abrigo ou remédios. O novo zumbi, de fato, deve esperar apenas a morte. Esse é o castigo. Mas qual é o crime?

 

 


Parte 1: Estrutura

Divisão Internacional da Humanidade

Aadmi tha, bari mushqil se insaan hua.

Nós éramos gente. Com muita dificuldade nos tornamos humanos.

—Akbar Illahabadi, poeta indo-europeu

 

O presidente dos EUA, Donald Trump, ameaça aniquilar a Coreia do Norte, o Irã e a Venezuela. Este é o novo Eixo do Mal, um conceito que seu predecessor, George W. Bush, usou em 2002, mas que não incluía a Venezuela. Mas sim o Iraque, que os EUA bombardearam em 2003 como parte de

sua invasão. Desde então, os EUA também destruíram a Líbia e outros países, dentre os quais está o Haiti, hoje substancialmente ocupado pelos EUA e pela ONU. Como um dragão ferido, os EUA chicoteiam sua cauda pelo planeta e ateiam fogo nas pessoas – destruindo países, derrotando seus inimigos. Suas feridas não são fatais, mas estratégicas. Os Estados Unidos ainda possui o exército mais poderoso do mundo e é capaz de destruir qualquer país com bombardeios aéreos e armas de destruição em massa. Mas esse uso do poder nem sempre satisfaz suas ambições. Não é porque os Estados Unidos são o país mais poderoso do mundo que são o próprio deus; cometem erros, que devem ser cuidadosamente apontados por aqueles que defendem a humanidade contra a submissão.

Há ferro na alma do imperialismo. Ele usa seu imenso poder militar contra os seres humanos e então – convenientemente – esquece o custo humano do sofrimento que cria. Nunca houve qualquer prestação de contas pelo uso de armas nucleares no Japão em 1945, nem pelos bombardeios repugnantes na Coreia na década de 1950, tampouco pelos ataques massivos no Vietnã das décadas de 1960 e 1970, e certamente nem pela interminável guerra no Afeganistão e a destruição do Iraque e da Líbia. O ferro está tão fundido na alma que quase não há comoção quando os Estados Unidos lançam bombas sobre o Afeganistão. As autoridades locais – pressionadas pelos EUA e pelo governo afegão se recusaram a permitir que jornalistas entrassem no local de um bombardeio por razões de segurança. Quando as pessoas ao redor falaram, o que tinham a dizer era assustador. “A terra parecia como um barco em tempestade”, disse Mohammed Shahzad. “Parecia que o céu estava caindo”. O prefeito de Achin, na província de Nangarhar – Naveed Shinwari – refletiu: “Não há dúvidas de que o ISIS era brutal, que eles cometeram atrocidades contra nosso povo. Mas não entendo por que as bombas foram lançadas. Isso aterrorizou nosso povo. Meus parentes acharam que era o fim do mundo”.

Parece a era da aniquilação, quando o mundo parece estar à beira do caos climático planetário induzido pelo capitalismo e pela guerra nuclear.

É apropriado, portanto, parar e registrar as palavras graves daqueles que já experimentaram a aniquilação – os sobreviventes do uso de armas de destruição em massa dos EUA contra o Japão. Torako Hironaka, que sobreviveu à bomba atômica de Hiroshima, fez uma lista em seu diário daquilo que ela se lembrava,

1. Algumas roupas de trabalho queimadas.

2. Uma mulher nua.

3. Garotas nuas gritando ‘América estúpida’.

4. Uma plantação de melancias.

5. Gatos, porcos e pessoas mortas, era apenas o inferno na terra.

Em seu livro, Diário de Hiroshima (1955, sem tradução para o português), escrito logo após o ataque nuclear, Dr. Michihiko Hachiya escreveu,

“Aqueles que foram capazes caminharam silenciosamente em direção aos subúrbios nas colinas distantes, com seus espíritos quebrados, sem forças. Quando questionados de onde estavam vindo, apontavam para a cidade e diziam: “De lá”, e quando questionados para onde iam, apontavam para longe da cidade e diziam: “Para lá”. Estavam tão despedaçados e confusos que se moviam e se comportavam como autômatos. Suas reações assustaram estrangeiros, que contavam com espanto o espetáculo de longas filas de pessoas se agarrando impassivelmente a caminhos estreitos e perigosos mesmo quando estavam próximas de estradas fáceis e suaves que iam na mesma direção. Os estrangeiros não conseguiram entender o fato de que testemunhavam o êxodo de pessoas que caminhavam no reino dos sonhos.”

As palavras dos hibakusha, os sobreviventes do ataque nuclear, são essenciais para o nosso tempo, em que o horizonte parece ser a aniquilação. São alertas contra a complacência. Eles fornecem o calor da sobrevivência humana contra a dureza do ferro e do ódio.

Catástrofes naturais – furacões e o aumento do nível do mar – dominam a nossa imaginação, enquanto as ilhas do Caribe são arruinadas pelo vento e por inundações e as ilhas do sul do Pacífico desaparecem no oceano. A água afoga a terra assim como o capital afoga os sonhos de sobrevivência humana. Dados de agências internacionais mostram que o trabalho formal é um sonho impossível para milhões de nossos companheiros no planeta. Há sempre, entretanto, uma vaga no exército. As guerras continuam indefinidamente. Futuros impiedosos estão diante da juventude. Sua confiança na humanidade é frágil.

Existe uma divisão internacional da humanidade. É como se houvesse um muro que separa aqueles que vivem em grandes zonas de guerra e tragédia e aqueles que vivem com a ilusão da paz, em países que produzem as condições para a guerra, mas negam sua participação nela.

Como entender um mundo de desemprego e aniquilação, de pobreza, catástrofe climática e guerra? Que conceitos temos para entender essas realidades complexas? Os modos de pensamento que vieram do positivismo norte-americano – teoria dos jogos, análise regressiva, modelos multiníveis, estatísticas inferenciais – não são capazes de oferecer uma teoria geral da nossa condição. Penetrados pelo senso comum sobre o poder e a ingenuidade em relação ao papel das elites nesse mundo, essas abordagens servem para explicar este ou aquele aspecto do nosso mundo.

Mas eles poderiam explicar a relação entre a crise endêmica produzida pela globalização,o fracasso do neoliberalismo em administrar essa crise e a ascensão do neofascismo como seu atual consenso? Eles têm os conceitos – como imperialismo – que são essenciais para uma investigação do mundo real em que vivemos e não o mundo ilusório idealizado pelos primeiros princípios da ciência social burguesa? Podemos entender por que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) quer bombardear um país ou por que o Fundo Monetário Internacional (FMI) quer extrair suas riquezas de outro? Eles têm uma explicação do porquê os países do mundo investem mais dinheiro no arsenal repressivo do que na produção de bens sociais, por que há mais policiais nas ruas do que assistentes sociais e artistas?

 

 

Globalização

Onde se cobra a renda per capita? Mais de uma pessoa faminta gostaria de saber.

­—Eduardo Galeano

 

O conceito usado para explicar o definhamento da vida social por todo o planeta é o neoliberalismo, em sua essência, uma plataforma política criada por agências multinacionais como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial e os intelectuais em torno dessas instituições que absorveram a lógica burguesa de que é a engenhosidade corporativa que faz a História, não o trabalho social dos seres humanos. São as corporações, eles afirmam, que criam empregos, portanto, para alcançar uma economia estável, é necessário atender às necessidades dessas corporações. O Capital é visto como o motor da história – corporações e empreendedores. Não é o trabalho social que é visto como motor – os trabalhadores que projetam nosso futuro e cujo trabalho duro produz as mercadorias que tornam o presente melhor.

Os críticos da política neoliberal se voltam aos projetos da Primeira Ministra do Reino Unido, Margaret Thatcher, e do Presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, para explicar como o neoliberalismo mudou o mundo. Foram líderes que condenaram políticas públicas, orientaram suas agendas segundo o desejo das instituições financeiras globais, privatizaram bens do povo e canibalizaram recursos sociais. Mas por quê? Por que foram em direção à privatização e à canibalização?

Uma abordagem idealista da História é inadequada. O neoliberalismo não surgiu do nada. Foi posto em prática por esses governos para resolver problemas práticos produzidos por mudanças estruturais no modo de produção global. O capitalismo sempre buscou um mercado global, ansioso para libertar-se dos limites impostos pelos governos nacionais, ansioso pela busca de novos recursos e novas técnicas para produzir bens a menores custos e encontrar novos mercados para os quais venderia esses bens a preços elevados. Mas as grandes ambições globais do Capital foram postas em xeque pelos limites da tecnologia como a impossibilidade de acessar informação em tempo real do planeta todo – e por movimentos da classe trabalhadora que exigiram que os Estados-nacionais restringissem o Capital em benefício do Trabalho. Mas, na década de 1970, algumas barreiras tecnológicas foram superadas e o poder da classe trabalhadora foi relativamente reduzido. O Capital estava apto então a subir em sua carruagem e observar o mundo de cima, por meio de seus satélites, acumulando informação em seus computadores e em busca dos trabalhadores mais baratos e dos mercados mais amistosos. A era da globalização é inaugurada pela posição divina do Capital.

Uma época mágica se abriu ao Capital. O desenvolvimento tecnológico veio rapidamente e as massas trabalhadoras se enfileiravam nas fábricas globalizadas, ao mesmo tempo que novos regimes de propriedade intelectual protegiam os ganhos do Capital, apesar das objeções políticas de Estados fragilizados pelo mundo. O poder que trabalhadores e camponeses tinham sobre o Estado havia sido completamente entregue aos capitalistas. Agora, alguém poderia dizer que a função do Estado era de fato ser o comitê administrativo dos interesses em comum da burguesia.

As condições políticas para a globalização foram definidas pela crise da dívida imposta pelo sistema financeiro aos países do Terceiro Mundo. Um aumento acentuado nas taxas de juros norte-americanas em 1979 – o Choque de Volcker (em homenagem ao presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos, Paul Volcker) – agitou as economias do Terceiro Mundo. O que essa política monetária fez foi exportar a inflação dos Estados Unidos para o resto do mundo. As altas taxas de juros do dólar fizeram com que a taxa de oferta interbancária de Londres (London Inter-Bank Offer Rate, ou LIBOR) disparasse. Sem que tivessem qualquer culpa, os países do Terceiro Mundo se encontravam em níveis catastróficos de vívidas com bancos comerciais e países ocidentais. A situação dos quinze países mais endividados (com base na avaliação do Banco Mundial) é ilustrativa. Em 1970, esses quinze países tinham uma dívida externa pública de $17,9 bilhões (9,8% do seu Produto Interno Bruto, PIB). Em 1987 – no auge da crise da dívida – o valor subiu para $402,2 bilhões (47,5% do PIB).

O pagamento do serviço da dívida ou dos juros sobre o empréstimo era monumental, passando de um já alto pagamento de $2,8 bilhões em 1970 à incontrolável quantia de $36,3 bilhões em 1987. Em 1991, os números atingiram um patamar inaceitável. O total da dívida externa dos países do Terceiro Mundo era de $1,4 trilhões, o equivalente a 126,5% do total das exportações desses países, ou seja, o montante devido era maior do que o total adquirido com a exportação de bens e serviços.

A crise da dívida do Terceiro Mundo esmagou a capacidade desses países de fornecerem bens sociais às suas populações. A UNICEF – Agência das Nações Unidas para a Infância – observou que a crise da dívida resultou numa queda de 25% na renda média na década de 1980, uma década perdida. Os 37 países mais pobres do mundo reduziram o investimento per capita em Saúde em 25%, e 50% em Educação Ela estimou que em 1988, meio milhão de crianças morreram de doenças evitáveis, resultado da crise da dívida. Observou ainda que 40 mil crianças morriam todos os dias por causa do sistema financeiro. Na época, o Presidente da Tanzânia, Julius Nyerere, colocou claramente: “Devemos deixar nossas crianças com fome para pagar nossas dívidas?”.

A crise da dívida no Terceiro Mundo havia destruído a confiança política de muitos países na África, Ásia e América Latina – o que significa que eles tinham muito pouco para barganhar quando multinacionais chegavam para negociar “zonas de livre comércio”. Foi a crise da dívida que enfraqueceu o poder de barganha dos países pós-coloniais, enfraquecendo a determinação de seus líderes e a confiança cultural nas elites nacionais. “Quem te alimenta”, alertou Thomas Sankara, Presidente de Burkina Faso, “te controla”. E foi assim que aconteceu.

Foi sobre os túmulos dessas crianças e da fraqueza dos países do Terceiro Mundo que a nova arquitetura da globalização pôde ser construída. Havia três elementos para essa nova dinâmica: o desenvolvimento de novas tecnologias, a entrega de milhões de novos trabalhadores às estratégias de acumulação de empresas monopolistas e a criação de um novo regime de propriedade intelectual.

Primeiro, novas tecnologias – como comunicação via satélite, computadorização e os porta-contâineres – possibilitaram que empresas tivessem a capacidade de administrar bases de dados globais em tempo real e de transportar mercadorias o mais rápido possível. Empresas poderiam dissolver fábricas e instalá-las em vários países ao mesmo tempo um processo conhecido como desarticulação da produção. Cada fábrica produz uma parte da mercadoria final, sendo a empresa capaz – graças às informações detalhadas mantidas na base de dados dos proprietários de julgar qual país seria capaz de fornecer o lugar mais barato para as necessidades de produção. O Capital não precisa construir fábricas perto dos mercados ou construir uma fábrica gigante. Esses tempos acabaram. Agora, o Capital pode tirar vantagem de pequenas mudanças no preço de custo para construir fábricas menores em mais lugares. Por causa dos avanços no transporte – a conteinerização, por exemplo – o Capital pode movimentar partes da mercadoria rapidamente, e relativamente a baixo custo, bem como movimentar mercadorias de um mercado para outro com relativa facilidade. Os meios tecnológicos para retirar a produção de um território e transportá-la para todo o planeta agora estão disponíveis.

Segundo, as barreiras erguidas pela Revolução de Outubro, pela Revolução Chinesa e pelo Projeto Terceiro Mundo começaram a tombar na década de 1980, por conta da crise da dívida, a queda da União Soviética e a abertura do mercado de trabalho chinês ao Capital estrangeiro. Milhões de trabalhadores, anteriormente protegidos das demandas capitalistas em larga escala, tornaram-se presas do mercado. Restava a eles esperar que algum ramo das fábricas lhe oferecessem um posto de trabalho.

Em terceiro lugar, o Capital foi para a mesa final da Rodada do Uruguai do Acordo Geral de Tarifas e Comércio (GATT), de 1986 a 1994, para garantir que os direitos sobre a propriedade intelectual pudesse estar sob seu controle ao invés de estarem sob controle social. Anteriormente, a propriedade intelectual estava envolvida no processo pelo qual um bem era produzido, não no bem em si. Isso permitiu que as pessoas encontrassem novos caminhos para produzir bens e, portanto, aprimorar a ciência e a tecnologia. Engenharia reversa de bens era possível, o que foi crucial para o setor farmacêutico dos países mais pobres, em que pôde desenvolver remédios que salvam as vidas dos mais pobres. Depois da última rodada do GATT, que criou a Organização Mundial do Comércio (OMC) em 1994, a ideia de propriedade intelectual mudou. Agora, o bem em si deveria ser patenteado, o que significa que o próprio Capital pode arrecadar aluguel de qualquer um que produza esse bem – independentemente de suas inovações. Também significa que o valor dos bens produzidos fora do território central do Capital – América do Norte e Europa Ocidental – estarão protegidos pelo novo regime de propriedade intelectual.

Além disso, a nova estrutura de propriedade intelectual – através do patenteamento de nanotecnologia, genômica e transgênicos – propiciou um novo poder às maiores indústrias alimentícias sobre a agricultura, que transcende o controle sobre a terra. Também propiciou às “empresas da informação” as bases para o novo impulso da “colonização digital” – nomeadamente, o roubo de dados por grandes “empresas da informação” rumo à consolidação de novos desejos através de novos meios de vigilância do consumidor e a entrega de conteúdo principalmente Ocidental para as pessoas ao redor do mundo (a morte lenta da “neutralidade da rede” como um princípio de uma Internet social é outro indicador de colonização digital). Esse foi o novo marco legal da arquitetura da produção desarticulada.

A Organização Mundial do Comércio surgiu como resultado da chamada ‘Grande Barganha’, como foi colocado pelo economista Omar Dahi. Grande parte do Sul global, prejudicada pela crise da dívida, abriu mão de sua política industrial, da proteção de seus trabalhadores e do mercado interno, em troca da exportação agrícola e da extração de matéria-prima. Na realidade, perderam sua soberania econômica tanto na indústria quanto na agricultura.

Foram esses três elementos que permitiram que as empresas operassem em escala global. Elas usaram duas estratégias diferentes em toda a cadeia global de mercadorias para a produção de bens e serviços. Primeiro, elas mudaram todo o processo produtivo no exterior para um único país, o que é conhecido como terceirização do Investimento Estrangeiro Direto (IED). Com isso, a multinacional ainda deve investir em algum outro país para construir a estrutura física necessária para a produção. Em segundo

lugar, essas multinacionais simplesmente contrataram empresas nacionais para produzir suas mercadorias, que por sua vez lutariam umas contra as outras numa corrida até o fundo. Essa “terceirização remota” – como colocou o economista político John Smith – permite que as multinacionais economizassem capital e não arcassem com quase nenhum risco do processo produtivo. De qualquer maneira – através de IED ou de terceirização – o Capital encontrou sua vantagem na arbitragem trabalhista, usando força de trabalho mais barata e enfraquecida para produzir mercadoria, enquanto provoca a quebra de sociedades econômicas no Norte e no Sul.

Essa nova geografia da produção enfraquece o poder dos trabalhadores removendo duas estruturas institucionais que constróem o poder operário – os sindicatos e a nacionalização. Como os trabalhadores podem construir sindicatos nessas empresas terceirizadas que sobrevivem com pequenas margens nas mãos de proprietários que usam os meios mais brutais de extrair trabalho de força de trabalho substituível? Como podem os Estados, mesmo os que são geridos por trabalhadores, nacionalizar parte do processo de produção se eles não controlam todo o processo produtivo de uma mercadoria? Nenhum desses meios está disponível aos trabalhadores, cujas propostas de mudança foram sufocadas pelos traços de campo de concentração das Zonas de Processamento de Exportação e das fábricas maquiladoras.

A terceirização remota permite que as multinacionais do Norte não mais invistam seu capital no processo de produção. Nike, Apple e outras como elas não investem dinheiro em fábricas, são empresas de marca. Os lucros oriundos dos aluguéis arrecadados de suas marcas são astronômicos – e eles não são necessariamente reinvestidos em iniciativas produtivas. Não é de se surpreender que multinacionais estejam sentadas em enormes quantias de dinheiro ou que tenham transformado montanhas de capital em cassinos financeiros improdutivos. Ao invés de investir esse dinheiro em iniciativas produtivas ou em benfeitorias sociais, elas o acumulam no circuito financeiro em que tentam produzir mais dinheiro a partir dele, sem a intermediação da produção. Continua não sendo surpresa que as pessoas que controlam algumas dessas multinacionais tenham se tornado indecentemente ricas. Segundo um estudo da Oxfam, atualmente, oito homens detém tanta riqueza quanto cinquenta por cento de toda a humanidade. Sua riqueza é uma resultante imediata da terceirização remota estabelecida pela desarticulação da produção e do crescimento atmosférico do setor financeiro, resultado da falta de necessidade em investir na produção.

Os ricos e as corporações não apenas acumularam enormes quantias de dinheiro, mas também – nos últimos 40 anos – se recusaram a dividí- lo. Corporações norte-americanas – por si só – mantém $1,9 trilhões em dinheiro nos Estados Unidos e mais $1,1 trilhões em contas no exterior. Bancos estadunidenses mantém em reserva $1 trilhão em dinheiro. É uma soma de $4 trilhões. Acrescentando o dinheiro mantido por corporações e bancos na Europa e no Japão, a soma chega a $7,3 trilhões, um número que não inclui o dinheiro sujo acumulado em Luxemburgo, Cingapura, Suíça e outros paraísos fiscais. Esse número – de acordo com a Agência Nacional de Pesquisa Econômica e com base nos números do Banco de Compensações Internacionais – indica que paraísos fiscais mantém uma estimativa de $5,6 trilhões (em 2007). A riqueza no exterior – mantida nesses paraísos – soma cerca de 10% do total do PIB global. Em alguns países (como os Emirados Árabes Unidos), a riqueza no exterior representa 70% do PIB. As elites dos Emirados, Venezuela, Arábia Saudita, Rússia e Argentina são as que mantém a maior porcentagem do PIB em riquezas no exterior. Esse vasto estoque de capital monetário significa que as multinacionais e os indivíduos mais ricos terceirizaram a estagnação econômica no coração do mundo – eles se recusaram a investir esse dinheiro no mundo social do trabalho, enquanto insistiam em cortes nos orçamentos nacionais mantidos pelos impostos pagos em sua maioria por trabalhadores e camponeses, e em abaixar o padrão de vida de trabalhadores e camponeses. Não há escândalo maior do que essa obstrução estrutural de capital, essa ‘greve de investimentos’.

Com base nessa dura realidade, é necessário desenvolver – numa linguagem popular – o conceito de ‘greve fiscal’. Aqueles que detém o Capital, que são proprietários, estão – essencialmente – em greve contra os regimes tributários. Eles usam suas vastas riquezas para esconder seu dinheiro ou mudar leis fiscais para que elas ofereçam-lhes proteção. Essa vasta riqueza não é usada de modo produtivo, de modo substancial. Quando o é, é usada para inflar o mercado de ações e as várias bolhas de ativos. A mais obscena forma de uso desse Capital está no centro do mundo financeiro: Wall Street. A turbulência que essa dinâmica pode produzir foi mostrada na explosão da maior bolha de ativos até o momento entre 2007 e 2008 – o mercado imobiliário dos Estados Unidos. No auge do boom imobiliário, a injeção de liquidez do governo dos Estados Unidos nos bancos foi chamada de Pacote Greenspan – o Presidente da Reserva Federal dos Estados Unidos, famoso por inundar mercados com Capital, usado para inflar bolhas de ativos, como os preços de habitação. Sem qualquer esquema real de assistência social ou aposentadoria, a aposentadoria dos estadunidenses mais velhos de classe média teve como premissa o aumento dos preços de habitação. Esse era o principal ativo, e por isso a classe média do país aceitou de bom grado o Pacote Greenspan e torceu para que as finanças crescessem fora de controle para seu próprio benefício de curto prazo. O Pacote Greenspan permitiu o sonho norte-americano para as camadas médias e superiores da classe trabalhadora que estava fundamentado no aumento de preços dos imóveis.

Se os preços de habitação permitiram que as camadas médias e superiores da classe trabalhadora pudessem sonhar com a aposentadoria, créditos bancários permitiram que as taxas de consumo crescessem muito além de seus próprios salários. O mercado estadunidense opera como “comprador em última instância” para o mercado mundial, absorvendo bens e serviços, assim como recursos de todo tipo de todo o planeta. A escala de consumo dos EUA é astronômica. Sendo apenas 5% da população mundial, os Estados Unidos consome pelo menos um quarto de toda energia. Se cada pessoa do planeta vivesse como um residente dos EUA, seriam necessárias pelo menos quatro Terras para sustentar esse nível de consumo. A escala de consumo, impulsionada pelo Greenspan e pelo crédito concedido através do sistema bancário permite que o consumidor estadunidense se torne essencial para os fabricantes, da China até o México. Portanto, a inflação do mercado de ativos e a entrada de crédito barato no setor de consumo dos EUA não é irracional para o sistema, mas perfeitamente racional. O sistema está desenhado desta maneira, com uma racionalidade que o leva de uma crise para outra, do caos ao caos.

Quando o mercado imobiliário dos Estados Unidos – uma bolha muito inflada – estourou, Greenspan, um dos principais especialistas em política monetária, disse estar “chocado”. Quando Greenspan compareceu diante do Congresso dos EUA em 2008, enfrentou perguntas sagazes do deputado da Califórnia Henry Waxman:

Greenspan: cometi um erro ao supor que o interesse próprio das organizações, especificamente dos bancos e outras, era tal que seriam capazes de proteger a seus próprios acionistas e seu capital nas empresas.

Waxman: Em outras palavras, descobriu que sua visão de mundo, sua ideologia, não estava correta, não funcionava.

Greenspan: Absolutamente, precisamente. Você sabe que essa é exatamente a razão pela qual me surpreendi, porque operei durante quarenta anos ou mais com evidências consideráveis de que ela funcionava excepcionalmente bem.

A ideologia de Greenspan, sua teoria, era defeituosa, e ele se chocou, mas isso não teve nenhum impacto na Economia como profissão ou em suas abordagens sobre políticas públicas. O monetarismo saiu ileso desta crise. A política macroeconômica permaneceu em mãos de tecnocratas que reforçaram a visão de que não é necessário haver uma discussão política sobre suas eleições. Estavam acima da política, no território da teoria, uma teoria que o próprio Greenspan havia declarado ao Congresso dos Estados Unidos que estava errada. O ex–ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, disse claramente: “O perigo de um golpe nos dias de hoje não vem de um tanque, mas de um banco”. Não foi necessário um golpe militar (exceto em alguns países) quando lobistas bem pagos e banqueiros bem-comportados acorrentaram a democracia.

Essa greve fiscal permitiu que indivíduos acumulassem grandes – inimagináveis – quantidades de riqueza social. Esta riqueza, muito além do que uma pessoa ou uma família podem consumir, criou o culto mórbido da filantropia. Doadores ricos se converteram em heróis do nosso tempo, com destaque para Bill Gates e seu trabalho em medicina e outros homens e mulheres endinheirados vistos como campeões contra a pobreza. Foram esses indivíduos que se converteram nos principais promotores de políticas sociais contra as necessidades democraticamente produzidas de um país. Desse modo, as políticas públicas estão agora menos impulsionadas pelas instituições democráticas e mais pelas agendas dos doadores. Como disse Sarah Musaka, do Fórum Feminista Africano: “Devemos advertir contra as tentativas de despolitizar a economia e o desenvolvimento, e impedir que esta agenda (de novo desenvolvimento) seja totalmente dirigida pelos doadores”.

As greves fiscais unem–se à insistência dos oficiais responsáveis pelas políticas públicas (respaldados pela força do grande capital) de que os funcionários públicos devem equilibrar os livros de finanças públicas. Os governos devem equilibrar seus orçamentos, mesmo quando o capital reduz seus pagamentos ao erário. Isso significa que os governos se veem forçados a vender seus ativos para levantar fundos a fim de continuar mantendo as instituições sociais ou se livrar dos bens sociais. A responsabilidade fiscal, junto com a greve fiscal, significa finanças públicas empobrecidas. Não é de se estranhar, então, que a pressão social passe agora do Estado para a sociedade. O que a mão invisível destruiu, o coração invisível teve que manter unido, os custos sociais da globalização desgastaram a sociedade, cujos laços soltos se mantiveram unidos pelo trabalho de tripla jornada, realizado majoritariamente nas famílias pelas mulheres.

 

Neoliberalismo

Filosofia de uma sociedade sem esperança,

O homem come o homem, o homem não pode planejar

Sociedade de homens brancos, FMI e subsídios

e como mendigos, continuamos estendendo nossas mãos.

—Kalamashaka, Ni Wakati

 

Os Estados modernos, com compromissos sociais obtidos pela população através de lutas sustentadas, não puderam cortar imediatamente todos os direitos sociais. Cuidado infantil, educação, transporte, ar fresco, bem estar, aposentadorias, as pessoas haviam forçado os Estados a fornecer tudo isso. E isto foi parte da definição mínima de civilização moderna. O neoliberalismo foi produzido pela greve fiscal, responsabilidade fiscal e demandas públicas por direitos sociais. O neoliberalismo, em outras palavras, foi o produto de uma solução burguesa de políticas públicas à crise da globalização.

As greves, fiscal e de investimento, junto com a responsabilidade fiscal, evaporaram os orçamentos públicos. Os governos burgueses simplesmente não puderam encontrar meios para cumprir com suas obrigações. Os suados ativos públicos e parte da natureza não mercantilizada foram a leilão. Essa privatização levantou fundos para manter as frágeis finanças dos Estados modernos. Entidades internacionais como o FMI e os bancos comerciais puniram os Estados que não executaram cortes suficientes nos gastos públicos, degradando seus títulos, impedindo-os de levantar capital em curto prazo que poderia tê-los protegido da espiral que os levou à falência.

O controle das instituições ocidentais sobre as “nações em desenvolvimento” hoje é bem conhecido. Um relatório do Banco Mundial de 2007 revelou que, até o fim do ano anterior, “as agências de avaliação de risco haviam classificado apenas 86 países em desenvolvimento. Destes, 15 países não foram qualificados desde 2004. Quase 70 países em desenvolvimento nunca haviam sido qualificados”. Em outras palavras, as agências privadas – Fitch, Moody’s e Standard & Poors – ignoram estes países e dificultam a obtenção de capital nos mercados comerciais. Quem qualifica esses países, muitas vezes negativamente, é o FMI, fazendo com que o dinheiro seja caro para eles. Estes países não perdem apenas porque seu PIB está sub declarado (uma vez que exportam matérias-primas valiosas a preços baixos, que são marcadas quando entram na zona imperialista), mas também sofrem prejuízos porque são considerados devedores de alto risco. Esta é a armadilha do financiamento para o desenvolvimento, em que as nações pobres em capital estão condenadas a permanecer assim. A liquidação dos ativos públicos é vista como a única forma de conter a hemorragia dos orçamentos nacionais.

O dinheiro arrecadado com as privatizações continua sendo usado para pagar as obrigações da dívida, bem como para arcar com as onerosas importações de energia. Este dinheiro não é usado para proporcionar nova infraestrutura nem para incrementar a riqueza social; ele raramente é usado para investimentos em educação e para ampliar as capacidades da população. Isto é, essencialmente, uma forma de roubo. Um estudo recente da Global Financial Integrity e do Centro de Pesquisa Aplicada da Escola Norueguesa de Economia constatou que, o total de ajuda, investimentos e renda que entrou nos países em desenvolvimento a partir do estrangeiro, desde 2012, ultrapassou a marca de US$ 1,3 trilhão. É uma quantidade enorme de dinheiro. Então, o estudo analisou os fluxos que saíram dos países em desenvolvimento no mesmo ano, e descobriu que a cifra era de US$ 3,3 trilhões. Em outras palavras, o mundo em desenvolvimento sofreu uma sangria de US$ 2 trilhões do Ocidente.

Desde 1980, o total de riqueza drenada foi de US$ 16,3 trilhões. As nações mais ricas, como vampiros, têm sugado a riqueza dos países mais pobres – não apenas no auge da colonização, como de fato ocorreu – mas na era atual. O que caracteriza esse dinheiro que escapa do mundo em desenvolvimento? Ele vem em três pacotes – US$ 4,2 trilhões em serviço da dívida (quase quatro vezes o total dos pacotes de ajuda), receita de empresas estrangeiras que são repatriadas para o Norte Global e fluxos desregulamentados e ilegais de capital (não só “dinheiro sujo”, mas também subfaturamento comercial, que sozinho alcançou a marca de US$ 700 bilhões em perda de capital). Para o Sul Global, então, os fundos para o desenvolvimento social básico não estão facilmente disponíveis.

As coisas não são mais simples no Norte Global, onde as obrigações neoliberais do Estado levaram o desenvolvimento social ao setor privado. De fato, a experiência da política pública neoliberal do Norte Global tornou-se mundial. A diminuição de impostos para os ricos e as restrições frouxas que permitem que as corporações repatriem seus lucros para os territórios onde estão domiciliadas diminuíram os ativos nos orçamentos nacionais. Os enormes gastos militares e com serviços de segurança minam o tesouro nacional. Não são fornecidos recursos para serviços sociais essenciais como educação e saúde. Então, torna-se uma obrigação privada dos cidadãos encontrar os meios para pagar o que deveria ser um direito social. O resultado é o aumento das dívidas pessoais quando as pessoas estudam ou adoecem.

Os jovens e os trabalhadores mais velhos que mudam de emprego são obrigados a pagar por sua educação, endividando-se, já que a educação é prometida como um caminho para o progresso individual. A dívida de financiamentos estudantis nos Estados Unidos é atualmente de 1,3 trilhão de dólares, e no Reino Unido, de 500 bilhões. Esse modelo de privatização dos direitos sociais foi rapidamente exportado para o mundo inteiro. O endividamento estudantil está crescendo da China até a África do Sul, da Índia ao México. Nos EUA, 85% da população tem algum tipo de seguro de saúde e, mesmo assim, em 2012, os moradores deste país gastaram US$ 2,7 trilhões em assistência médica do próprio bolso.

Um estudo de 2010 mostrou que 40% das pessoas que vivem nos Estados Unidos encontram dificuldades para pagar suas despesas médicas. As dívidas médicas são o principal motivo pelo qual os indivíduos declaram falência nos EUA. Esse “modelo estadunidense” de privatização resultou num aumento das falências por dívidas de assistência médica no mundo. Na Índia, o Banco Mundial e a Organização Mundial de Saúde (OMS) descobriram que, em 2011, 52,5 milhões de pessoas haviam empobrecido por causa dos custos com cuidados de saúde. Todos os anos, de acordo com o Banco Mundial e a OMS, aproximadamente 100 milhões de pessoas tornam-se “extremamente pobres” por causa destes custos. O número aumenta para 180 de pessoas por ano se aumentarmos o limiar da pobreza extrema de US$ 1,90 ou menos por dia para US$ 3,10 diários.

O ensino superior gratuito – um grande avanço da socialdemocracia – está reduzindo gradualmente em todo o mundo. As dívidas universitárias sufocam a capacidade dos estudantes de experimentar novas ideias. Eles estão ansiosos por carreiras que possam aumentar sua capacidade de encontrar trabalho bem remunerado quando se formarem. Para isso, dedicam seu tempo à procura de estágios não remunerados, cujo crescimento tem sido astronômico nas últimas décadas. Os estudantes buscam aulas de “coaching” que os ajudem com seu inglês, para ingressarem em programas privados de pós-graduação em instituições caras, e esperam que esses investimentos deem frutos em empregos que estão cada vez mais escassos. Isso significa que os cursos que desafiam a ordem social vigente ou que introduzem os estudantes ao pensamento inovador (sejam nas artes ou nas ciências) se tornam menos atrativos. A universidade se torna cada vez menos uma incubadora social e cada vez mais em um trampolim para o sucesso individual, impulsionado menos pela cobiça e mais pelo desespero perante as dívidas. Isto tem um impacto na vida intelectual em geral. “Era uma vez”, disse o professor Issa Shivji, da Universidade de Dar es Salaam, na Tanzânia, “a época em que nossas universidades tinham orgulho de serem centros de contestação, e agora procuramos ser centros de excelência. E a excelência não pode ser alcançada se for contestadora.” Em outras palavras, o discurso da “excelência” absorve a energia das novas ideias, especialmente as elaborações do pensamento contra hegemônico baseadas nas experiências de trabalhadores, camponeses e desempregados.

Como deve crescer a economia? A política neoliberal optou por liberar os espíritos selvagens do consumismo, pago por meio da dívida e da criação de novas tecnologias, e ativos que aumentariam milagrosamente as taxas de crescimento e produziriam uma riqueza social que poderia – de alguma forma – ser investida em bens sociais. Nada disso aconteceu. Ao contrário, o consumismo e o surgimento de novas tecnologias levaram ao endividamento e os ativos inflaram uma turbulência da economia global, uma civilização vicária, baseada na fraude e no roubo. Para fazer a economia crescer, as pessoas comuns precisaram endividar-se.

A dívida é parte do plano para manter o ritmo da economia, para garantir que a superprodução de mercadorias encontre compradores. A proliferação da publicidade para criar novos desejos é evidente na paisagem visual ao nosso redor. Empresas desenvolveram sofisticadas teorias de segmentação de mercado para concentrar-se mais nos desejos e, assim, produzir subculturas de consumo. Cria-se demanda para bens que não são essenciais ou que são novas versões de produtos anteriores que não precisam ser substituídos (como o desejo por telefones e automóveis novos).

A dinâmica da obsolescência programada certamente ajuda a expandir o mercado saturado, mas ao mesmo tempo cria enormes volumes de desperdício. A produção anual de lixo no mundo, segundo um estudo do Banco Mundial, chega a 1,3 bilhão de toneladas, ou seja, 11 milhões de toneladas de lixo por dia. Estima-se que 99% do que é comprado é descartado dentro de seis meses. O estudo do Banco Mundial mostra que até 2025, o total diário de lixo triplicará, e que em 2100, o total de lixo passará de 4 bilhões de toneladas por ano. Desde 1950, o mundo gerou 9 bilhões de toneladas de resíduos plásticos, dos quais apenas 9% são reciclados. A imagem especular da obsolescência programada para expandir um mercado em contração é montanhas de lixo que encontram seu lugar no fundo do mar e os gases tóxicos produzidos pela incineração de aterros sanitários que penetram em terras férteis e na valiosa água potável. O volume de lixo e a destruição da natureza estão corroendo lentamente a capacidade do capitalismo de cavalgar em direção à sua própria versão do Nirvana.

Mais do que como uma política econômica, o neoliberalismo tem funcionado como uma agenda cultural desejável. A promessa de um mundo de commodities é o apelo da política neoliberal. Mas por trás disso está um chamado a viver a vida não como um ser humano, mas como um empreendimento comercial. A sensibilidade de uma cultura empresarial ou de uma cultura empreendedora atrai pessoas de todas as origens, mas – como mostram uma grande quantidade de pesquisas psicológicas impacta de maneiras divergentes sobre os seres humanos.

As pessoas com menos recursos não são tão capazes de prosperar em um mundo de autoaperfeiçoamento e automotivação, não são tão capazes de viver com a assunção de ser indivíduos autoimpulsionados em um mundo onde o êxito está baseado nas origens e na sorte. Depressão e insegurança é o resultado de uma sociedade cada vez mais dirigida por um impulso quixotesco de êxito imediato baseado no talento ou na motivação individual. O fracasso é um custo que se assumo individualmente. “A vida psíquica do neoliberalismo”, como afirma a socióloga Christina Scharff, prejudica não apenas a sociedade, mas também a personalidade humana. Enfraquece a cultura da solidariedade em favor das culturas do consumismo e do individualismo, o que leva, em suma, a uma maior ansiedade dispersa e menos coesão social. Para esclarecer a questão, a Organização Mundial de Saúde sugere que nos últimos 45 anos as taxas de suicídio aumentaram em 60%. O suicídio é, hoje, como aponta a OMS, uma das três principais causas de morte entre mulheres e homens de 15 a 44 anos. A ideologia neoliberal, por mais sedutora que seja, tem efeitos duros em uma sociedade desigual e particularmente na juventude.

Os dados sobre a pobreza em nossos tempos são absolutamente espantosos. Comecemos pelo fato de que 22 mil crianças morrem a cada dia por causa da pobreza. A cada dez segundos uma criança morre de fome. Cerca de metade da população mundial vive com menos de US$ 2,50 por dia. As taxas de endividamento das famílias em boa parte do mundo aumentaram drasticamente, envolvendo a classe média em padrões de consumo impulsionados pelo endividamento. Esses dados têm consequências miseráveis: a riqueza global, extraída da exploração do trabalho social, tem sido sequestrada por um número muito pequeno de pessoas; e a redução do sofrimento de um grande número de pessoas será esporádica e insuficiente.

Categorias mais antigas que foram deixadas de lado pelas ciências sociais, tais como humilhação, frustração, desolação, alienação, raiva – serão necessárias para entender as condições do planeta das favelas. Em vez de lutar para acabarem com a greve fiscal, os governos do mundo voltam suas energias para encurralar as massas através de dispositivos muito engenhosos: a Guerra às Drogas, a Guerra ao Terror, com um novo vocabulário que sugere a inevitabilidade de novos mecanismos de controle: segurança, vigilância, redução de riscos, análise de sensibilidade, perigos. A riqueza social que poderia ser usada para erradicar a pobreza agora se move, cada vez mais, para construir o arsenal da “segurança”.

Um relatório de 2016 do Instituto para Economia e Paz mostrou que o custo total da violência por ano é de aproximadamente US$ 13,6 trilhões, dos quais a metade (US$ 6,6 trilhões) são gastos militares e um quarto (US$ 3,5 trilhões) corresponde a gastos com segurança interna. O custo total da violência é de 13,3% do PIB mundial. Dado que o compromisso declarado para Assistência Oficial ao Desenvolvimento é apenas 0,7% do PIB global, esta discrepância entre assistência e violência mostra que o mercado falhou. A política neoliberal, que é essencialmente asfixiar a parte social das políticas públicas e ser indulgente com a parte militar das mesmas, tem poucas respostas diante da crescente brecha de desigualdade e da sensação de desespero, cada vez mais profunda, que se apodera de grande parte do planeta. As armas intimidam as pessoas, mas não lhes dão nenhuma esperança de um futuro melhor.

 

Neofascismo

Simplesmente, não quero um pobre.

—Donald Trump

 

A fixação em Donald Trump é um instinto natural. É o mais belicoso dos homens poderosos, uma longa linhagem que vai desde o filipino Rodrigo Duterte, passando pelo indiano Narendra Modi até o turco Recip Tayip Erdogan. De todos eles, Trump está à frente do Estado mais poderoso, com ampla capacidade militar, cujo poder flui através das instituições financeiras internacionais e da diplomacia.

Trump e os neofascistas europeus representam uma silenciosa oposição retórica ao neoliberalismo. Não se opõe de forma direta às políticas neoliberais, tendo em vista que seguem comprometidos com políticas de crescimento econômico e de redução de gastos em políticas sociais. As críticas substanciais à globalização não se encontram no nível das políticas públicas, sendo somente no nível retórico ou político. É ali, nos discursos diante de seus eleitores, que Trump e os neofascistas dão uma guinada em políticas de soberania econômica. Eles reclamam da perda de empregos e das políticas comerciais, mas, como os neoliberais, não propõem uma alternativa real à globalização. Estão encurralados pelas contradições materiais: imensos benefícios colhidos pelas corporações multinacionais que alimentam a estrutura financeira, enquanto cresce a miséria da grande maioria da população mundial que produz a riqueza social, sobre a qual não parecem ter nenhum direito.

O neofascismo é o inverso da vida psíquica do neoliberalismo. A atmosfera cultural geral do neoliberalismo parte da ideia de que o êxito é uma questão individual, que a autodireção impulsiona a excelência e a riqueza. Esta é a atitude de Howard Roark, personagem do romance A nascente (1943) da dramaturga e filósofa Ayn Rand, que crê que os de “segunda mão” devem ser apartados para que as pessoas talentosas e motivadas, como ele mesmo, possam ganhar. Mas o que acontece com aqueles que não “ganham”, que não são “bem sucedidos”, que acham, inclusive, difícil viver num nível que acreditam ser necessário para suprir seus desejos? Você não pode permitir que o fracasso seja pessoal, mas tampouco pode compreendê-lo em termos estruturais. É outra pessoa, um bode expiatório, a razão do seu fracasso, não as próprias limitações ou barreiras ao avanço social, impostas pela maneira como o sistema está estruturado. Os que fracassam conforme as regras de Ayn Rand olham por cima dos ombros para encontrar alguém a quem culpar. É como escreveu Ernst Bloch quase um século atrás, uma “fraude de satisfação”, uma comunidade falsa e brutal que substitui uma comunidade genuinamente humana. Se o neoliberalismo culpa os indivíduos pelo seu “fracasso”, o neofascismo culpa um bode expiatório.

O que os neofascistas propõem é muito mais frágil que a soberania econômica estruturada em torno dos Estados-nacionais ou ao redor da classe trabalhadora. Sua retórica brilha em torno do nacionalismo econômico, mas, na verdade, suas medidas políticas estão à beira do nacionalismo cultural. Eles são obcecados com uma fantasia de homogeneidade cultural: uma Europa sem minaretes ou hijabs, uma Índia sem muçulmanos, os Estados Unidos sem mexicanos. O sentimento anti-imigrante é a plataforma do seu nacionalismo. O comércio deixa de ser baseado nos princípios do intercâmbio e está cada vez mais embasado no racismo. Há poucas discussões sérias sobre como as maiores taxas de produtividade no Ocidente, impulsionadas pela tecnologia, causaram perdas de emprego. O comércio desempenhou um papel marginal na sangria dos empregos de “colarinho branco”. Discussões econômicas sérias são colocadas de lado, já que o antídoto contra o sofrimento se vê sufocado por “Construir o Muro”, “Proibição Muçulmana”, “Proibição da carne” e a guerra contra “traficantes, ladrões e vagabundos”, slogans de grande significado para aqueles que são golpeados por eles, mas com pouco significado para aqueles que sofrem de insegurança econômica. Esta é a crueldade do neofascismo, a forma política dominante de nossos tempos.

Os filhos de Ayn Rand que creem que triunfaram, estão agora no comando, muito dinâmico, de Wall Street, da Finanzplatz, da Dalal Street e da Cidade de Londres, com a sensação de que a carga tributária diminuirá ainda mais e que a liquidez permitirá a criação de riquezas como nunca houve antes no mundo financeiro. As “reformas” tributárias da administração de Trump são indicadores do favoritismo em relação aos filhos de Ayn Rand do que em relação aos despossuídos. A riqueza está confortável com o neofascismo, ainda que um pouco envergonhada com sua obscenidade cultural. A greve fiscal continua sacrossanta. A greve de investimentos também. Nada disso está ameaçado pelo “nacionalismo” dos neofascistas, que estão muito felizes em dirigir sua atenção contra as pessoas vulneráveis do que contra os proprietários.

Os neofascistas não são obrigados a mascarar sua beligerância, nem a se esconder atrás de frases como “intervenção humanitária” ou “segurança”. Acreditam na violência e querem usá-la em doses alopáticas para manter sua dominação. Os chamados à recolonização somam-se aos chamados de saque dos recursos naturais. Suas guerras, internas e externas, são a profilaxia contra o fracasso de sua fantasia de soberania cultural. Não podem criar um mundo culturalmente homogêneo, então usam a força para intimidar aqueles que são vistos como estrangeiros, como forasteiros, como seres humanos inferiores.

 

Imperialismo

Quando o imperialismo se sente fraco, recorre a força bruta.

­—Hugo Chávez

 

Nem o neoliberalismo nem o neofascismo são capazes de conduzir uma agenda humana contra as contradições produzidas pela globalização. As pessoas são vistas como descartáveis, como uma civilização de comunidades fechadas que se colocam acima da sociedade. É um mundo miserável que nos confronta.

É importante dizer diretamente que esta nova arquitetura de produção é mantida por uma extorsão diplomática e legal, bem como por intimidação militar. Quando os países não concordam com os arranjos institucionais que beneficiam em grande parte empresas multinacionais do Norte ou se políticas são movidas contra a sua propriedade, a força total da mídia corporativa e do corpo militar do Norte é colocada em ação. A pressão que vai da Venezuela ao Irã e à Coréia do Norte é uma demonstração visível do imperialismo, isto é, o poder extraeconômico usado pelos Estados em uma era de um capitalismo hiper-monopolista de “terceirização à distância”.

Em nosso período atual, o governo dos Estados Unidos tem sido o principal agente da estruturação do imperialismo. Ele liga uma teia de aliados que corre dos países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) a importantes aliados regionais, como Arábia Saudita, Índia e Colômbia. Os Estados Unidos – e seus países europeus aliados – tem que manter unidos um conjunto insustentável de contradições. Os Estados Unidos deixou claro que não gostaria de ver nenhum rival desafiar sua suposta hegemonia – com os principais rivais do nosso tempo sendo a China e a Rússia.

O Fórum Econômico Mundial estimou que em 2017 os Estados Unidos seria a maior economia mundial (US $ 18 trilhões, pouco acima de 24% do tamanho da economia mundial), seguido pela China (US $ 11 trilhões, 14,84% da economia mundial). Dados do FMI mostram que a economia chinesa cresceu 6,7% em 2016, enquanto a economia dos EUA cresceu a um ritmo muito mais lento de 1,6%. Um estudo da PricewaterhouseCooper diz que a China será a maior economia até 2050. A China, em outras palavras, está prestes a se tornar a maior economia do mundo. Além disso, o dinamismo da economia da China não deve mais ser baseado em trabalho de baixa remuneração, mas sim em melhorias da produtividade impulsionadas pela tecnologia. O relatório da Organização Mundial de Propriedade Intelectual de 2016 mostrou que, no ano anterior, a China havia apresentado o maior número de pedidos de patentes – duas vezes o número de pedidos apresentados por entidades sediadas nos EUA. A China, de fato, entrou com um terço dos pedidos de patentes em 2015. Isto sugere que a China pode desafiar a dominação dos EUA e do Ocidente sobre a estratégia de acumulação por “terceirização à distância” baseada na propriedade intelectual.

Se esses rivais– China e Rússia – emergirem se tornando polos poderosos, então eles desafiariam os três pilares do sistema de vantagens do Ocidente de produção desarticulada e acumulação global de capital: “terceirizações à distância”, direitos de propriedade intelectual e uso da violência pelo Ocidente em beneficio próprio. Há pequenos sinais de que esses três pilares estão de fato sendo desafiados. Os dois primeiros estão certamente sendo prejudicados – embora sejam necessárias muitas décadas para que possam ser colocadas totalmente de lado. O terceiro pilar – monopólio da força – vai ser mais difícil de abalar. Os Estados Unidos, em 2016, gastou em armas mais do que os oito maiores investidores juntos, isto é: China, Rússia, Arábia Saudita, Índia, França, Reino Unido, Japão e Alemanha. Com US$ 611,2 bilhões, os Estados Unidos supera o segundo maior investidor, a China, que, em comparação, gastou apenas 215,7 bilhões de dólares.

O aumento proposto pelo presidente dos EUA, Donald Trump, para o orçamento militar dos EUA vai adicionar mais aos gastos militares do que o total gasto pelo terceiro maior investidor, a Rússia, em US $ 69,2 bilhões. Os Estados Unidos também tem um enorme rastro militar com suas oitocentas bases espalhadas em mais de setenta países. O Reino Unido, França e Rússia juntas têm um total de trinta bases estrangeiras. A China tem uma base militar estrangeira – no Djibuti – na sombra de uma enorme base dos EUA no mesmo país. As bases militares da Rússia ficam principalmente na antiga União Soviética (majoritariamente na Ásia Central), com duas bases no litoral da Ásia (Síria e Vietnã). Não há indicação de que essas potências – China e Rússia – serão capazes de desafiar a supremacia militar dos EUA a qualquer momento. No máximo, elas serão capazes de deter o agressivo comportamento dos Estados Unidos para conduzir operações para uma mudança de regime, como na Síria.

Apesar de sua fraqueza militar, esses países não podem ser facilmente subordinados. Muita pressão sobre eles iria acabar desestimulando, ou estimulando a construção das suas próprias redes de acumulação fora dos parâmetros das instituições ocidentais. A China já conseguiu através do seu projeto de uma nova Rota da Seda e seus investimentos na África, bem como também através do seu próprio desenvolvimento de propriedade intelectual, está construindo uma arquitetura de produção e acumulação que minaria o processo de produção desarticulada que beneficia as empresas ocidentais. Aumentar a pressão sobre na China e a Rússia pode levar a China a se retirar lentamente do sistema bancário ocidental para colocar seus excedentes em outro lugar e deixar de depender dos mercados ocidentais para a venda de seus produtos. A contradição entre inferiorizar seus rivais e se certificar de que eles não vão para fora da órbita do Ocidente é a tarefa complexa do imperialismo moderno.

O uso da força para fins econômicos é evidente na expansão da OTAN para a Rússia e no cerco à China. Os conflitos armados na Ucrânia e na Coréia do Norte e conflitos não armados em torno do Mar do Sul da China são a medida dessas lutas. Nem a Rússia nem a China estão dispostas a fornecer vantagens econômicas para o Ocidente. A China é a pedra no sapato dos Estados Unidos. Seus superávits comerciais aumentam. O comportamento da China, em oposição ao do Japão, é didático. Nos anos 80 e 90, os superávits comerciais do Japão também incomodaram os Estados Unidos. O governo do Japão permitiu, duas vezes, que a pressão política dos EUA revalorizasse o iene para o melhoramento do dólar (no Acordo Plaza de 1985 e no Acordo Plaza Reverso em 1995). Quando o povo japonês elegeu uma reforma governamental em um mandato para remover a base dos EUA em Okinawa em 2010, a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, interveio diretamente para forçar a renúncia do primeiro-ministro Yukio Hatoyama. Não tem sido fácil forçar a China a reavaliar sua moeda e permitir que seu sistema político seja ditado por Washington. Por isso, tem sido decisivo desafiar o uso das rotas marítimas pela China e ameaçar sua segurança com bases militares e sobrevoos.

O mesmo tipo de choque de sabres é evidente na expansão da OTAN para o leste, quebrando o acordo mínimo entre os soviéticos e os alemães para a absorção da recém-unificada Alemanha na OTAN. O ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Hans- Dietrich Genscher, disse ao ministro das Relações Exteriores da União Soviética, Eduard Shevardnadze: “Estamos cientes de que a adesão da Alemanha unificada à OTAN para uma levanta questões complicadas. Para nós, uma coisa é certa: a OTAN não se expandirá para o leste.” Mas expandiu, e ao fazê-lo com um escudo agressivo de defesa antimíssil, ameaçou diretamente a segurança da Rússia. A crise da Ucrânia é uma consequência clara da expansão da OTAN na Europa Oriental. Esta expansão da OTAN para a Europa Oriental não é apenas para proteger os países ao longo do perímetro russo, mas para garantir que esses países permaneçam dentro dos tentáculos da economia política dominada pelo Ocidente, em vez da Rússia ou China. A força das armas é o punho de ferro dentro da luva de veludo da globalização.

De portas fechadas, os Donos do Mundo – os estados que formam o G7 – continuam suas travessuras apesar da crise financeira mundial. O espaço politico é restrito por eles em instituições internacionais, o que lhes permite grande flexibilidade em termos de subsídios, mas dá pouca liberdade ao Sul Global. A pressão sobre o Sul Global contra os seus requisitos de segurança alimentar é um exemplo. Outro é o Acordo sobre o Comércio de Serviços (TISA, na sigla em inglês) impulsionado pelos EUA, a União Europeia e os seus “bons amigos” (um estranho termo criado pelos EUA e pela UE para se referir ao bloco que eles montaram). A maioria dos “bons amigos” envolvidos nas negociações do TISA são países de alta renda, com apenas dois estados de renda mais baixa inclusos: Paquistão e Paraguai. O TISA força a privatização dos serviços públicos e o controle sobre dados de grandes corporações fora dos territórios onde esses dados são coletados. O objetivo da agenda do TISA é deixar de lado o antigo projeto de desenvolvimento e colocar em seu lugar uma estratégia de comércio eletrônico para reduzir a pobreza. Um relatório da UBS, empresa de serviços bancários e financeiros, sugere que a agenda do comércio eletrônico, ao invés de acabar com a pobreza, a aumentaria. Com o comércio eletrônico, disseram os analistas bancários, os países do Sul Global enfrentarão a ameaça da Quarta Revolução Industrial, que reduz os empregos de baixa qualificação através da automação extrema, mas pode não ter a capacidade tecnológica de obter ganhos relativos que poderiam ser redistribuídos pela conectividade extrema. Significa que o colonialismo digital entregará a um punhado de empresas – Facebook, Amazon, Netflix e Google (FANG, um acrônimo em inglês que quer dizer presa) – o poder de fornecer serviços em todo o planeta, colher dados dessa provisão e ganhos de eficiência que beneficiam o capital, mas têm um impacto negativo no trabalho e na sociedade.

Junto ao TISA há o regime comercial impulsionado pelo Oeste em ambos os flancos da Eurásia – o Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP, sigla em inglês) em todo o Atlântico e o Acordo de Associação Transpacífico (TPP, também em inglês) em todo o Pacífico. Tanto o TTIP como o TPP ligam países para as redes ocidentais de hegemonia comercial e mantêm os países mais frágeis fora das redes de China e Rússia. Ambos foram negociados totalmente em segredo – e se não fosse o vazamento ocasional – todo o conteúdo da discussão seria desconhecido pelo público. Leis nacionais seriam colocadas de lado diante do TTIP e do TPP, em que o Norte definiria uma agenda para o resto dos “parceiros”. Um dos documentos vazados sugere que os EUA estão aplicando “forte pressão” nos países para superar divergências de opinião sobre questões de propriedade intelectual. Um dos documentos mostra que, no debate em torno dos investimentos, os Estados Unidos se mostraram inflexíveis em suas propostas. O resultado dessas “negociações” é tipicamente uma vitória para o Ocidente. A pressão ocidental continua a ser esmagadora. Essas regras continuarão subordinando a economia do Sul dando vantagem para o Ocidente. Qualquer regra de comércio que enfraqueça o regime de propriedade intelectual que beneficia as grandes empresas monopolistas em busca de renda no Ocidente será rejeitada imediatamente pela liderança ocidental. Esta é a essência da pressão imperialista nas discussões sobre comércio.

O presidente dos EUA, Donald Trump, assinou um decreto executivo para rasgar o TPP. Considerar a rejeição de Trump ao TPP como uma mudança de direção é uma ilusão. A verdadeira questão do TPP não são as regras de comércio em si, e nem mesmo a China, mas o surgimento de rivais que podem reescrever as regras de comércio e produzir novas redes para produção e acumulação global. Em 5 de outubro de 2015, o ex- presidente dos EUA, Barack Obama, disse: “Não podemos deixar países como a China escreverem as regras da economia global.” O TPP não era o essencial. Foi o isolamento da China e a prevenção de qualquer rival de escrever as regras da ordem global. Trump definiu um tom muito mais duro, mas diz exatamente a mesma coisa. China, um país soberano com a segunda maior economia do mundo, não deve estar à mesa quando as regras da economia global são escritas. Este é o substrato do imperialismo. Ele deve decidir as regras.

O imperialismo da nova era vem em dois eixos. Primeiro, na frente institucional, o Norte Global força uma série de organizações, como a OMC, a fornecer um único fórum para discussão de questões de comércio e desenvolvimento. Ao mesmo tempo, o Norte Global subordina instituições mais antigas, como a ONU, para concretizar seu lance em termos de uso da força. Em segundo lugar, na frente ideológica, o Norte Global argumentou contra qualquer alternativa ao conjunto de políticas que carregam o nome de neoliberalismo. O crescimento impulsionado pelo setor privado com fins lucrativos para o setor privado é visto como o único caminho lógico para o desenvolvimento. Este, então, tem sido o novo imperialismo, as chamadas instituições globais que apoiam uma plataforma de política neoliberal, mesmo com o lamentar dos neofascistas sobre as ameaças à sua cultura.

Nos anos 2000, o primeiro grande desafio interestatal para o novo imperialismo emergiu. Em 2003, muitos estados da ONU questionaram o desejo dos EUA de estender sua guerra no Iraque, enquanto os estados emergentes em uma reunião da OMC em Cancun bloqueou a agenda do Norte Global para propriedade intelectual. Estes dois desenvolvimentos – entre outros – forneceu a base para o surgimento dos BRICS (Brasil-Rússia-China-Índia-África do Sul). O que foi o bloco BRICS em seu estágio inicial? Isso não foi uma plataforma anti- imperialista. Uma plataforma anti-imperialista teria exigido o bloco BRICS para assumir imperialismo tanto no nível institucional quanto o ideológico. O agrupamento BRICS foi meramente um desafio institucional à “unipolaridade”, uma mudança dos principais estados para criar um mundo multipolar.

O BRICS certamente tentou uma nova fundação ao lado do Norte Global – o Novo Banco de Desenvolvimento contra o Banco Mundial; o Acordo de Reserva de Contingência contra o FMI; a demanda por assentos permanentes para os estados dentro do BRICS no Conselho de Segurança da ONU. Fala-se de uma agência de classificação do Sul contra a hegemonia do Fitch, Moody’s e Standard & Poors. Há também Discussões sobre outras moedas para denominar o comercio interestadual. Pelo menos de forma convincente, os BRICS iniciaram uma conversa para a criação de uma nova arquitetura de segurança.

Mas o bloco BRICS – dada a natureza de suas classes dominantes (e particularmente agora com a ascendência da direita no Brasil e na Índia) – não tem ideologias alternativas ao imperialismo. As políticas domésticas adotadas pelos estados do BRICS podem ser descritas como neoliberais com características do sul – com foco nas vendas de commodities, baixos salários aos trabalhadores com o excedente reciclado entregue como crédito ao Norte, mesmo com o sustento de seus próprios cidadãos estando comprometida, e mesmo quando desenvolveram novos mercados em outros países, muitas vezes mais vulneráveis, e que já fizeram parte do bloco do Terceiro Mundo. Há um pequeno argumento dentro dos BRICS para defender a soberania alimentar ou o direito à alimentação, para criar empregos decentes contra a riqueza acumulada, e para lutar contra o poder dos banqueiros. De fato, as novas instituições dos BRICS estarão ligadas ao FMI e ao dólar – sem disposição para criar uma nova plataforma para o comércio e desenvolvimento à parte da ordem do norte. O Acordo de Reserva de Contingência continuará Confiando na vigilância do FMI e nos acordos do FMI como uma maneira de medir seus próprios empréstimos. O dólar é onipresente nesses mecanismos. A ânsia para os mercados ocidentais continua a dominar a agenda de crescimento dos estados do BRICS. As imensas necessidades de suas próprias populações não dirigem suas orientações políticas.

Finalmente, o projeto BRICS não tem capacidade de ir contra o domínio militar dos EUA e da OTAN. Quando a ONU vota para permitir ‘Estados-Membros a utilizar todas as medidas necessárias”, como fez com a Resolução de 1973 sobre a Líbia, essencialmente dá a carta branca para o mundo atlântico para atuar com força militar. Não há alternativas regionais que tenham a capacidade de operar em tais resoluções da ONU. As intervenções militares russas na Crimeia em 2014 e na Síria em 2015 são indicações de que a unipolaridade militar do EUA pode estar um pouco enfraquecida, mas não no seu fim. Os EUA são uma força global com bases em todos os continentes e com a capacidade de atacar quase em qualquer lugar. Mecanismos regionais para paz e resolução de conflitos são enfraquecidos pela presença global da OTAN e da maquina de guerra dos Estados Unidos. Poder militar esmagador se traduz em poder político. O BRICS possui poucos meios, neste momento, para desafiar esse poder.

Alianças russas e chinesas em toda a Eurásia sobre segurança e linhas econômicas não são sinais da criação de um polo alternativo para o Imperialismo ocidental. Eles são meros sinais de defesa contra a agressão imperialista, com a Rússia sancionada buscando abrigo nos excedentes chineses e com a cautela chinesa dando algum impulso na confiança russa. Os exercícios navais russo-chineses durante o impasse do EUA-norte-coreano de 2017 e a entrada de forças russas na Ásia Ocidental, apoiada pela China, é um sinal de que eles não permitiram a dominação completa dos EUA – como tem sido o caso desde 1991 até o presente. O que eles estão fazendo é para proteger sua soberania e a zona de influência em torno de seu território – não para competir contra o poder imperialista dos EUA em todo o mundo.

Ao invés de um conflito interimperialista temos um conflito intercapitalista com os BRICS – principalmente a China – que pressiona por participação no mercado ao redor do mundo e empurra de volta um bloco econômico ocidental enfraquecido. As tensões da Primeira política americana de Trump e a ordem político-econômica que depende dos vastos reservatórios de trabalho trazidos para a órbita capitalista desde a década de 1990, levou a crise intercapitalista assumir dimensões interestatais. Mas essas fantasias nem sempre foram traduzidas de retórica à política. O perigo agora é que as políticas sejam colocadas de uma forma que poderia confundir o sistema enquanto ele opera. O primeiro-ministro chinês, Xi Jinping, disse claramente na reunião de Davos de 2017, “ninguém vai emergir como vencedor em uma guerra comercial”. O que ele quis dizer não é sobre uma guerra comercial, mas um conflito interestatal com resultados conflituosos. Enquanto as rivalidades intercapitalistas aceleram a tendência para conflitos interestatais – e com tempo, para interimperialistas – os conflitos não devem ser subestimados.

O imperialismo continua a estruturar a ordem mundial – mas não aparece mais como colonialismo cru ou como o neocolonialismo do século XX. As questões estão mais complexas. Aqui estão seis contornos do imperialismo do século XXI:

(1) Manter o sistema de aliança, com os Estados Unidos como eixo central e seus aliados secundários (o Reino Unido, França, Alemanha, Japão e outros) como seu suporte. Na parte externa estão aliados subsidiários, como Colômbia, Índia, Israel e Arábia Saudita. Esses aliados são essenciais para o alcance global do poder dos EUA. Qualquer desafio aos aliados será rapidamente derrubado pela força total dos militares dos Estados Unidos e com o fluxo aberto de equipamento militar e treinamento das potências atlânticas para seus aliados subsidiários.

(2) Para garantir que nenhum desafio envolvendo o sistema da aliança seja permitido emergir. O fim da Guerra Fria marcou a derrota da principal ameaça à aliança – a União Soviética e seus satélites. Desde então, os Estados Unidos e seus confederados fizeram questão de estiar qualquer desafio ao seu sistema. A Pressão tem aumentado na China e na Rússia na expansão da OTAN para a Europa Oriental e com o aumento das forças dos EUA na região do Pacífico. O surgimento da América do Sul teve que ser cortado, seja através dos antigos golpes (como em Honduras) ou através de golpes pós-modernos (como no Brasil). Os BRICS, a ALBA (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América), ou qualquer outra sopa de letrinhas que procurou uma base de poder alternativo tinha que ser destruído.

(3) Para garantir que a confiança dos EUA permaneça alta. Durante a primeira Guerra do Golfo de 1990- 91, o Presidente dos EUA G. H. W. Bush disse que a “Síndrome do Vietnã” foi reprimida. Os EUA agora sentem confiança mais uma vez para agir como uma grande potência no cenário mundial – sem medo de exercer sua força total. As Guerras delegadas dos anos 1980 podem ser anuladas. Os EUA podem agora dominar seus adversários sob um espectro total. O chamado para o “outro século dos Estados Unidos” ressoou após a guerra dos EUA contra o Iraque em 2003 – havia o receio de que o mal entendido no Iraque aumentaria as dúvidas sobre o poder dos EUA. Isso tinha que ser esmagado. Era importante reavivar a autoimagem dos Estados Unidos como primus inter pares: o primeiro entre seus iguais, o “poder indispensável” como a Secretária de Estado dos EUA Madeleine Albright disse. Ameaças contra o Irã e a Coreia do Norte são representações visíveis desse estardalhaço.

(4) Para proteger a cadeia global de commodities, que é a base para a produção industrial – cujos benefícios são garantidos por corporações transnacionais com base no Norte Global. Com locais de produção fragmentados (com fábricas espalhadas pelas nações) e com leis de propriedade intelectual rigorosas, permitem que essas empresas tenham muito mais poder ao longo desta cadeia global de commodities do que organizações de trabalhadores e Estados-nação. O Poder diplomático e militar do sistema de alianças do Global Norte é usado contra políticas de nacionalização e os bens comuns intelectuais. Mecanismos de subcontratações de regras trabalhistas permitem que o Norte Global mantenha seu padrão moral alto, enquanto eles confiam inteiramente em condições brutais de trabalho que tornam as relações sociais tóxicas.

(5) Para garantir a passagem segura de matérias-primas de minas e poços, com taxas muito abaixo do que pode ser pago para as pessoas que são os guardiões dessas riquezas. Ambientalmente práticas ilegais e desumanas de extração estão escondidas em florestas e desertos, onde protestos serão travados em nome da guerra do terror ou a guerra contra as drogas ou algum tipo de guerra que permite a extração ser colocada em prática sem ameaça. Ambas as parceiras subsidiárias do Norte Global e os estados emergentes dependem das exportações de matérias-primas para a sua pauta de crescimento, permitindo ao Norte Global lavar suas mãos da crueldade que ocorre no escuro – fora de seu controle direto.

(6) Para garantir o poder financeiro do Norte Global, seja protegendo a família real da Arábia Saudita, para garantir o fluxo de petrodólares aos bancos do Norte ou estabelecendo que as dívidas tomadas pelos países pobres sejam pagos integralmente. Quando a crise financeira atingiu o mundo atlântico, o Norte Global implorou aos grandes estados da Ásia (China, Índia e Indonésia) para fornecer liquidez no sistema. Em troca, o Norte Global prometeu encerrar seu executivo – o Grupo dos Sete (G7) – e substituí-lo pelo Grupo dos Vinte (G20). Depois que seus bancos foram recuperados, essa promessa foi esquecida. O poder financeiro teve que ser restaurado. Foi o fundo do poço. O desafio dos BRICS foi extremamente silenciado. Isso tem muito a ver com as suas próprias contradições internas, a ascensão de poder da direita no Brasil e na Índia, bem como caminha na África do Sul, e o rebaixamento dos preços das commodities que atingem o coração do poder econômico dos BRICS. Os BRICS falharam – por enquanto
• para reequilibrar a ordem mundial. Foi deixado a dois dos seus membros – Rússia e China – para produzir um modesto desafio ao imperialismo ocidental. Constrito nos dois flancos da Eurásia por manobras militares e por ameaças ocidentais contra o Irã e a Coreia do Norte, tal como por sanções contra a Rússia pela sua intervenção na Crimeia, os russos e os chineses assinaram acordos econômicos e comerciais Como também acordos militares e estratégicos. Os laços econômicos e comerciais – particularmente para as vendas de energia permanecem, no entanto, modestas. As manobras navais chinesas e russas fora da costa da Coreia do Norte e a entrada de navios chineses de guerra para o Mediterrâneo perto dos navios russos são sinais de que não permitirão facilmente o uso da força do Ocidente para moldar um mundo à seu favor. Mas estas são posturas defensivas, não são capazes de reequilibrar totalmente a ordem mundial, muito menos fornecer uma alternativa para essa ordem. É difícil dizer se eles serão capazes de sustentar sua tentativa defensiva neste tempo de neofascismo: Os aviões russos e chineses pousaram em Teerã e Pyongyang para impedir a mudança de regime nesses dois estados limites da Eurásia?

 

 


Parte 2: Agência

Decomposição do Agente Histórico

General, seu tanque é um veículo forte.

Destrói um bosque e esmaga centenas de pessoas.

Mas tem um defeito: precisa de um condutor.

—Bertolt Brecht, Um livro de guerra alemão.

 

O que resta antes de nós? Em todo o planeta há muitos movimentos populares fortes e poderosos: lutas trabalhistas e lutas pela dignidade, lutas pela defesa do direito aos recursos naturais e lutas pela defesa dos direitos sobre o próprio corpo. Essas são as principais vias de resistência contra os poderosos.

Durante cem anos, fábricas e escritórios atraíram grande número de trabalhadores em um ambiente denso de vigilância e produtividade. O Capital, faminto por lucro, viu as vantagens de criar fábricas e escritórios gigantescos. A escala de produção beneficiou o capital – ao produzir enormes quantidades de mercadorias, o capital poderia reduzir o preço das matérias-primas e saturar o mercado com seu volume. As pequenas empresas fecharam. As oficinas de trabalho desapareceram lentamente, enquanto os trabalhadores tiveram que tomar o seu lugar em infinitas linhas de produção, onde gastavam sua energia em tarefas cada vez menores que, somadas – fora de seu controle – criavam a mercadoria. Nenhum trabalhador fez toda a mercadoria, mas todos os trabalhadores, combinados, produziam a mercadoria. Isso transformou os trabalhadores individuais em “apêndices de máquinas”, como escreveu Marx no Capital (1867). As exigências intelectuais para os trabalhadores caíram e os artesãos viram suas habilidades sendo consumidas pela linha de montagem e pelas máquinas. As vidas dos trabalhadores tornou-se dívida com a fábrica, e a classe trabalhadora se viu arrastada – como Marx escreveu – “sob a roda de Juggernaut do capital”.

A vantagem do capital logo se tornou sua desvantagem. Tendo um grande número de trabalhadores juntos em uma só fábrica permitiu o diálogo entre eles. Eles deliberaram sobre seus problemas e refletiram sobre como entender o colapso de sua dignidade. Foi nessas conversas e ações que o movimento sindical moderno se desenvolveu. As fábricas eram o centro desse movimento, porque estes eram os lugares onde os trabalhadores estavam em maior concentração. Eles eram também armadilhas para o capital, que havia investido dinheiro nelas, e qualquer segundo de desperdício geraria perdas para os patrões. Isso significava que, se os trabalhadores pudessem fazer greves, poderiam pressionar o capital. Durante este período, na Grã-Bretanha, por exemplo, grande parte dos trabalhadores assalariados não era empregada nas fábricas, mas sim no serviço doméstico. Mas empregados domésticos não tinham a vantagem de estar em um fábrica, onde poderiam se organizar e realizar greves que pudessem pressionar o capital. Se um empregado doméstico protestasse, ele ou ela seria demitido. Era mais difícil demitir toda a força de trabalho de uma fábrica. É por isso que as fábricas se tornaram o centro do movimento sindical, e é por isso que os marxistas e socialistas viam os sindicatos como o centro do futuro socialista. Revela também como o machismo por partes do movimento sindical se reproduziu na estratégia do sindicalismo industrial: a maioria da classe trabalhadora, difícil de organizar porque estava dispersa nas casas dos proprietários, estava fora da hegemonia das organizações da classe trabalhadora.

Em meados do século XX, cem anos depois do movimento sindical e suas conquistas, o capital recorreu a novos métodos de exploração. Entramos em uma era – como vimos – de produção desarticulada. Fábricas menores não têm mais o tipo de concentração de trabalhadores que as grandes empresas têm. Se uma mercadoria é produzida através das fronteiras nacionais, o capital adquire vantagem sobre as nações, porque é difícil para os governos populares nacionalizarem uma fábrica, uma vez que eles só seriam capazes de nacionalizar uma parte da cadeia de produção. A cadeia de mercadorias anula a estratégia de nacionalização. A desarticulação da produção dificulta o sindicalismo, porque o capital agora diz que, se houver greve em uma fábrica, ela fechará e a produção será transferida para outro lugar. Seus investimentos não estão mais estagnados como costumavam ser. Como uma grande parte da produção é terceirizada para pequenos capitalistas em terras distantes, as empresas monopolistas não precisam pensar muito para abandonar um fornecedor por outro num país diferente. Sua lealdade aos fornecedores é zero. Em outras palavras, as novas técnicas de produção prejudicaram o sindicalismo. São também nestas novas, menores e mais dispersas fábricas, que as mulheres trabalhadoras têm se tornado uma entidade tão crucial, extraídas por menos de uma década de suas vidas, desgastadas pela aceleração da fábrica e, em seguida, enviadas de volta a vida rural de onde vieram – como resíduos da produção do capitalismo contemporâneo.

Com os trabalhadores viajando em busca de empregos inseguros, o dia de trabalho se alongou de tal forma que agora o tempo de lazer é mínimo, senão inexistente, e assim o tempo necessário para construir os bastiões da classe trabalhadora e do campesinato foi devorado. Este tempo de busca tem consumido o tempo da comunidade e do sindicato. A vida social foi erodida, à medida que o tempo foi roubado das pessoas, não apenas pelos empregadores, mas também pela estrutura de insegurança e de trabalhos de meio período. Muitas vezes, mais tempo é gasto procurando trabalho do que trabalhando.

Além disso, a cultura do sindicalismo foi castigada pela cultura de consumo. As pessoas se converteram, cada vez mais, por uma explosão feroz da mídia, da indústria da publicidade e das instituições de ensino, em consumidoras, e não trabalhadoras. Ou seja, a nova identidade, desgastada pela vida psíquica do neoliberalismo, não deve ser vista em relação ao local de trabalho, mas a seus padrões de consumo. Shoppings e propagandas atraem pessoas de muitas classes que se imaginam como outra pessoa. Quando não são shoppings, são os centros religiosos – templos, mesquitas, igrejas – que se tornaram bálsamos para os trabalhadores informais deslocados, cujos corpos e consciências derrotados são agora redimidos através da salvação prometida pelos pregadores de diferentes crenças. O pentecostalismo na América Latina, o cristianismo protestante na China etc., marcaram obstinadamente seu território onde predominava a cultura sindical e socialista. As comunidades são criadas em torno do desejo por mercadorias e em torno da fé. Em muitos lugares elas se tornaram mais atraentes do que a cultura sindical e as organizações socialistas.

O sindicalismo, nesse contexto, parece anacrônico. É retratado na opinião pública predominante como a cultura de ontem, com seus slogans retratados como reminiscências dos dias sem shoppings ou anúncios. Mas isso não é tudo, já que até os sentimentos mais gerais de unidade, como o nacionalismo e o patriotismo, foram corroídos. Eles estão simplesmente se tornando estilos de vida, não atributos culturais significativos. Alguém pode fingir ser um nacionalista sem ter qualquer compromisso com as pessoas que compõem a nação. A fronteira do nacionalismo é a luta contra o dissenso. A sedição chorosa tornou- se a ordem do dia. Estudantes, jornalistas, trabalhadores, camponeses, mulheres, qualquer um que pretenda sugerir que há problemas com o “consenso” nacional é visto como estranho à nação. O “nacionalismo” aceitável é uma forma odiosa e irrefletida de coesão social que não exige o trabalho de construir uma sociedade, mas baseia-se em atividades antissociais e na violência.

O desemprego estrutural e o setor informal expandido canalizam as queixas fora do local de trabalho e nas ruas. Sobrevivência nessas ruas leva a atividades que poderiam ser consideradas como ilegais – tráfico de drogas, sexo, armas ou até mesmo barganha. A existência dessas atividades dá ao Estado a oportunidade de travar uma guerra contra a população. O caráter do Estado tende mais para a segurança do que ao bem-estar, ao policiamento da população ao invés de seus cuidados. As ideologias que defendem um estado menor (o neoliberalismo) não têm nenhum problema com um aparelho estatal expandido para segurança. O cálculo entre o desespero e a revolução é claro para a elite. Tom Clausen, do Bank of America, é exemplar: “Quando as pessoas estão desesperadas, há revoluções. É, naturalmente, do nosso próprio interesse, garantir que eles não sejam forçados a isso. Você deve manter o paciente vivo, porque, caso contrário, você não poderá efetuar a cura. ” Para prevenir a jornada revolucionária, há apenas dois caminhos abertos para a elite: concessões para aliviar os piores efeitos das políticas neoliberais (que era o caráter do liberalismo) ou medidas severas de segurança para esmagar o espírito de revolta (que era o caráter do fascismo). Mas, na verdade, em nossos tempos, apenas um caminho se abre à medida que o neoliberalismo e o neofascismo encontram uma causa em comum: enviar as tropas de choque. A diferença se estreita entre a força do “livre comércio” e a da “intervenção humanitária”, entre as cadeias globais de mercadorias que cercam o mundo e as guerras de mudança de regime que rompem os estados para criar o caos. A força é, escreveu Marx em 1867, “em si um poder econômico”.

 

Recomposição do Agente Histórico

Eles têm medo de nós porque nós não temos medo deles.

—Berta Cáceres

 

O que a esquerda faz hoje quando se confronta com a desarticulação da produção, a cultura do consumismo e a ascensão do Estado de Segurança? Não há respostas fáceis, mas há questões essenciais. Não pode haver um renascimento completo do poder sindical sem um renascimento da cultura dos trabalhadores. Não se pode facilmente haver um renascimento do poder sindical sem um reconhecimento da desarticulação da produção, e a necessidade, portanto, de construir o poder dos trabalhadores onde os trabalhadores vivem se nem sempre é possível para eles se organizarem onde trabalham. O ponto é construir o poder popular, não só poder nas fábricas. Grandes mudanças sociais e econômicas estão acontecendo debaixo de nossos pés, o que irá gerar frustração e raiva entre os trabalhadores. O papel das sentinelas destes, isto é, dos sindicatos e partidos, é estar preparados quando estas ondas surgirem, quando as condições objetivas da angústia levam à erupção subjetiva do protesto. Por esse motivo, a recomposição da classe trabalhadora e do campesinato vêm da essência.

A promessa do sindicalismo é construir o poder dos trabalhadores e trabalhadoras. Construir esse poder não significa apenas construir sindicatos no local de trabalho, especialmente nas fábricas e nos campos. Mas não há dúvida de que permanece importante organizar os trabalhadores em sindicatos. Mas, as dificuldades em muitos setores, principalmente nas pequenas manufaturas em Zonas de Processamento de Exportação e o trabalho doméstico, significa que devemos implantar outros meios, criativos, para organizar os trabalhadores. Por exemplo, grande parte do trabalho mais dinâmico de organização em todo o mundo aconteceu nos lugares onde os trabalhadores vivem, enquanto eles lutam para sobreviver diante do aumento de preços de serviços essenciais, incluindo a água, e enquanto eles lutam para produzir espaços seguros para suas famílias. Tais batalhas, pela água e por espaços públicos, estimularam trabalhadores e camponeses em torno de noções como “comunidade” ou “vizinhança”, termos que superficialmente não possuem uma conotação de classe, mas que certamente tem quando são abordados de uma perspectiva materialista. Afinal, a “comunidade” que os trabalhadores de Cochabamba (Bolívia), organizada por sindicalistas, defendiam durante a “guerra da água” não era uma abstração, mas uma comunidade concreta de trabalhadores cujas vidas estavam sendo dilaceradas pela privatização. Eles sabiam que sua comunidade era um fato concreto em suas vidas, a solidariedade que eles precisavam para lutar contra a privatização da água e os laços sociais que eles precisavam para se agarrar e reconstruir sua sobrevivência nas lutas prolongadas que se aproximavam.

As experiências do Abahali baseMjondolo em África do Sul (AbM ou favelas) e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra no Brasil (MST), como também a Federação da Juventude Democrática da Índia (DYFI, na sigla em inglês) e a Associação de Mulheres Democrática de Toda Índia (AIDWA, na sigla em inglês) – ambas organizações de massas do movimento comunista indiano, mostram a eficácia da construção do poder camponês e popular nas áreas onde os trabalhadores e os camponeses vivem. As favelas são as casas dos trabalhadores e camponeses do nosso tempo. São áreas congestionadas, com mínimo apoio estatal. A ONU Habitat (Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos) estima que um quarto da população mundial viva em favelas. Em algumas cidades do Sul Global, metade da população mora em favelas, com moradia inadequada, falta de água potável, falta de saneamento básico e pouco ou nenhum serviço de saúde e educação. Os números das agências internacionais parecem estar subestimados. Por exemplo, diz-se que a favela de Khayelitsha, na Cidade do Cabo (África do Sul), tem 400.000 residentes, embora aqueles que trabalham lá atualmente dizem que a população real é pelo menos três vezes maior. Dharavi, em Mumbai (Índia), acomoda entre 1 milhão e 1,5 milhão de pessoas, enquanto que Ciudad Neza, na Cidade do México (México), abriga 1 milhão de pessoas. Dizem que a maior favela no mundo é Orangi Town, em Karachi (Paquistão), que abriga mais de 2,5 milhões de pessoas. Nessas favelas vivem pessoas que trabalham no setor informal – em alguns países, abrangendo a totalidade da força de trabalho (o setor informal da Índia, por exemplo, é 90% da força de trabalho). Essas populações da classe trabalhadora estão fora dos regulamentos sociais da política trabalhista orientada pelo Estado e, frequentemente, também estão fora das redes sindicais.

A riqueza social não escorre para esses lugares. O lado bom do Estado está praticamente ausente aqui. Como resultado, os trabalhadores nessas áreas confiam na (a) sua própria engenhosidade e auto-organização; (b) nos mercados criados por criminosos de um tipo ou de outro, bem como grupos religiosos e ONGs; (c) o coração invisível das mulheres trabalhadoras, cuja luta para proteger a integridade de suas famílias as movem a grandes esforços de reprodução social. A primeira prática demonstra a possibilidade do socialismo. É onde se pode observar formação de cooperativas e grupos de autoajuda da classe trabalhadora e para a classe trabalhadora. O segundo é o desafio mais importante, já que é aqui que as organizações religiosas e as máfias afundam seus tentáculos mais profundamente na vida da classe trabalhadora. Eles, incluindo as ONGs, são um obstáculo estrutural ao crescimento da esquerda. Mas a esquerda já aprendeu que não crescerá simplesmente desafiando diretamente essas entidades. Experiências em todo o Sul Global nos mostram que a esquerda terá que provar, pelo seu trabalho na arena da reprodução social, que é, de fato, uma alternativa melhor que as organizações religiosas e de caridade, assim como a máfia. Organizações de esquerda já estão trabalhando para criar plataformas para ajudar a classe trabalhadora em suas lutas pela água, eletricidade, moradia, rua, escolas e serviços de saúde, e ao mesmo tempo, trabalhando ao lado da classe trabalhadora, uma vez que ela começa a fornecer esses serviços de forma relativamente autônoma. Esta é uma atividade perigosa. Significa minar as gangues criminosas, os grupos religiosos e as ONGs, todos com grande interesse nesse tipo de trabalho. Ao mesmo tempo, a intervenção da esquerda nesses espaços socializa o trabalho privatizado de reprodução social realizado principalmente por mulheres. Um grande esforço deverá ser feito para construir as instituições de reprodução social entre os trabalhadores e camponeses, e da mesma forma, uma grande quantidade de trabalho deverá ser feito pelas e pelos intelectuais para estudar essas iniciativas, escrever sobre elas, compartilhá-las em diferentes ambientes e trocar as melhores experiências e resultados que tem surgido dessa força popular.

Além disso, o poder da classe trabalhadora, em nossos tempos, é construído com grande energia contra as divisões sociais de gênero, étnicas, religiosas e outros tipos de hierarquias e discriminações. Os marxistas costumavam se preocupar que essas divisões da hierarquia social poderiam “quebrar” a unidade da classe trabalhadora; na verdade, essas divisões da sociedade já romperam a unidade e mais negligência sobre essas questões só exacerba a desunião e a desconfiança. A luta pela dignidade dos trabalhadores e dos camponeses não estão fora da política de classe. Eles são precisamente a essência de uma política de classe que deseja nos libertar da opressão e exploração e nos redimir como seres humanos completos. Trabalhadores e camponeses não podem ser poderosos a menos que estejam unidos. Os 180 milhões de trabalhadores na Índia que, sob a bandeira do movimento sindical, entraram em greve em setembro de 2016, porque as questões em discussão incluíam questões políticas relacionadas às divisões sociais, incluindo a divisão entre trabalhadores sindicalizados do setor formal e trabalhadores que não são sindicalizados do setor informal (muitos deles mulheres, como aquelas que trabalham na saúde pública e na educação infantil). As e os trabalhadores demonstraram que a luta contra as hierarquias sociais, o sectarismo religioso e misoginia é central para a construção do poder da classe trabalhadora e camponesa.

Uma grande limitação para a construção do poder dos trabalhadores tem sido o poder esmagador da cultura mercantil dominada pela burguesia que propaga a ideia de pessoas como consumidores. Essa dinâmica cultural, impulsionada pela mídia corporativa e pela urgência da publicidade, enfraquece as noções de história e de comunidade, a história é reduzida a emblemas para venda de bens e na história a intervenção dos indivíduos é favorecida em detrimento das lutas coletivas das classes populares. Essas ideias estão inseridas nos discursos midiáticos e acadêmicos, onde há grande hesitação em admitir a importância da ação popular no fazer da história e onde há um sentimento geral de que a mudança transformadora não é desejável nem possível. Isto implica que há a necessidade de uma luta cultural que enriqueça os reservatórios da história da esquerda, para enfatizar e iluminar a contribuição dos trabalhadores e camponeses para o mundo. Os jovens não aprendem mais sobre a esquerda de maneira consistente. A luta para introduzir a história da esquerda e dos trabalhadores e camponeses na imaginação da juventude é essencial, não superficial, para qualquer luta para reconstruir a força da esquerda. Os intelectuais simpatizantes precisarão fazer conexões com movimentos para ajudar a impulsionar essa agenda.

O debate sobre ideias, em outras palavras, é um ponto central frente para os movimentos de esperança e possibilidades. A mídia corporativa, por exemplo, opera dentro de um regime da verdade que promove a visão de que o Ocidente é benevolente quando bombardeia países e impõe políticas comerciais que destroem a agricultura nos países. Quando o Exército dos Estados Unidos mata civis no Afeganistão ou na Somália, os fatos são tratados como acidentes, quando um governo que é considerado um problema mata civis, o fato é visto como essencial para o caráter desse país ou civilização. Se uma política comercial impulsionada pelo Ocidente acaba destruindo a produção de algodão no Mali, por exemplo, isso é visto como um efeito necessário das leis da natureza; quando um país que é tratado como um problema comete um erro na política econômica, é visto como o resultado de um modelo falho. O controle da narrativa da história é um problema, mas controle das representações midiáticas do presente é outro. Uma mídia corporativa estreita e esclerosada, seja a CNN International ou a Rede Globo, está saturada de uma estrutura ideológica que considera que as guerras de mudança de regime promovidas pelo Ocidente são aceitáveis e as políticas comerciais como inevitáveis. É crucial rejeitar o controle institucional desses meios de comunicação e sua estrutura ideológica, bem como fornecer redes alternativas para a troca de informações emancipatórias.

Qual é a tarefa dos intelectuais socialistas junto ao trabalho realizado pelos movimentos sociais e políticos? Em uma época anterior, era considerado óbvio que os intelectuais socialistas aprenderiam com os movimentos, veriam quais tipos de alternativas os movimentos propunham para construir teorias de futuro em todos os sentidos. Essa postura dos intelectuais socialistas não é mais auto evidente. Muitos deles, por várias razões, se encontram distantes dos movimentos. Isso ocorre por uma série de motivos: o aburguesamento da classe intelectual (tanto os intelectuais na mídia como os acadêmicos), a decomposição dos movimentos e a adoção da ideia de que grandes mudanças simplesmente não são possíveis, o constrangimento na era pós-moderna de tomar uma posição forte em favor de valores que são considerados contingentes e incertos. No entanto, existem milhões de intelectuais em todo o mundo que não foram impactados por esses processos e continuam a ter laços fortes com os movimentos e desempenhando papéis vitais para eles. Uma das tarefas do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social é unir esses intelectuais além das fronteiras nacionais e inspirar – pelo seu trabalho – outros a se juntarem a projetos que são realizados em estreita associação com movimentos sociais e políticos para fins emancipatórios.

Se olharmos atentamente para os nossos movimentos, descobriremos que eles querem colocar as políticas macroeconômicas sob controle democrático, querem aumentar o investimento social, querem construir infraestruturas para atender às necessidades populares, querem romper a greve fiscal das corporações e da elite, querem converter bancos, entidades privadas, em serviços públicos, querem garantir um meio de vida e querem moradia para todos. Aqui estão os elementos de um futuro. Cabe aos intelectuais pegar essas ideias e estimular debates em torno delas. É importante criarmos uma plataforma intelectual para uma ordem econômica, política, social e cultural alternativa, extraída da experiência dos próprios movimentos. É importante, igualmente, recuperar duas ideias que foram corroídas pelo ataque da ideologia burguesa, isto é, as ideias socialistas do que é humano e do que é futuro.

A cultura das mercadorias e a ideia de pessoas como consumidoras desintegraram a ideia do humano. Os socialistas bolivianos analisaram profundamente suas próprias tradições e elaboraram um vocabulário para falar sobre o caráter humano de uma sociedade humana não abrangida pelas normas sociais capitalistas. David Choquehuanca, secretário executivo da Aliança Bolivariana para Povos das Nossa América (ALBA), fala do Quapaq ñan, o caminho do bem viver, da necessidade de criar iyambae, pessoas sem dono, não consumidores e proprietários. Ser uma pessoa sem dono é, como Choquehuanca diz, “o futuro, o caminho das pessoas que buscam viver bem”. Tais esforços para reviver as ideias do humano e a necessidade da criação de uma comunidade humana exigem um grande de esforço, esforço este já aparente nos movimentos de massa que lutam contra a redução da capacidade de decisão humana à lógica dos livros contábeis de dupla entrada.

Como intelectuais socialistas, é importante recuperar a ideia de que o presente não é eterno e que uma transformação é possível. A possibilidade de tal transformação não é senão uma ideia do futuro. Não há debate entre nós sobre a existência de um passado e de um presente. Estes são termos auto evidentes. Mas não há um debate sobre o futuro. Sabemos que o amanhã chegará e o dia seguinte também, e o próximo mês e o ano que vem. Mas isso é apenas o tempo sequencial, o presente se estendendo para frente. Mas essa não é a ideia do futuro. Se há uma ideia de senso comum do futuro, ela foi tomada pela tecnologia. A tecnologia, não o caráter do humano, tornou-se a ideia do futuro. Nesse período, imaginamos que os novos avanços tecnológicos serão capazes de resolver nossas crises sociais: novas tecnologias verdes nos libertarão da mudança climática, novas tecnologias digitais e nanotecnologias nos libertarão da estagnação econômica. O determinismo tecnológico fez com que os problemas que cercam os sonhos de bilhões de pessoas não tenham barreiras sociais ou políticas, mas sejam problemas totalmente técnicos. Esta é uma ideia muito limitada da história e do futuro. Certamente, alguns desenvolvimentos tecnológicos serão essenciais para um mundo melhor, mas a tecnologia por si só não moldará a história. As mais antigas hierarquias herdadas de riqueza e poder devem ser confrontadas antes que os avanços tecnológicos possam ter um impacto social positivo e não apenas fornecer mais e mais riqueza e poder àqueles no topo dessas hierarquias herdadas.

Uma ideia de um futuro frutífero demanda que imaginemos que o presente não será eterno. Transformações são possíveis, novas soluções para os problemas atuais são necessárias, novos horizontes devem ser construídos. As soluções virão de pessoas que sabem na própria carne que a organização social da sociedade é inadequada às nossas esperanças e sonhos. Nossos movimentos nos dão indicadores desses horizontes. Devemos nos certificar que nossas ciências sociais não se tornem o cinismo do impossível.

A bestialidade organizada de nossos tempos, com comida sendo negada a pessoas e armas sendo vendidas com voracidade às nações que têm apenas escassos recursos públicos, vem com pouca condenação. O cinismo e niilismo são a ordem do dia. Isso abre espaço para uma atitude blasé em relação à ideia de humanidade, do esforço necessário para produzir a liberdade humana. Todas as tradições conhecidas da humanidade parecem estar sob grande ameaça. Conceitos como democracia, paz e cultura foram desgastados. Eles significam tão pouco, frequentemente uma frágil casca das ideias poderosas que eles poderiam se tornar. Está claro para nós que algo em nosso mundo está morrendo. O que não está tão claro é o que está nascendo no lugar do velho.

Trinta milhões de pessoas estão atualmente no limiar da fome. Elas gostariam de fugir em busca de comida e para longe da seca, dos incêndios e da guerra. Espremidos entre o fim dos meios de subsistência e a proibição da migração, os pobres do mundo sofrem punição por um crime que é desconhecido. O que eles fizeram para merecer esse destino? Por que eles estão sendo punidos quando não cometeram nenhum crime?

Vijay Prashad é o diretor executivo do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. Ele é autor de vinte e cinco livros e editor de vinte outros. Entre esses livros estão: The Poorer Nations: A Possible History of the Global South [As Nações Pobres: Uma História Possível do Sul Global] e The Darker Nations: A People’s History of the Third World [As Nações Escuras: Uma História Popular do Terceiro Mundo] Escreve regularmente para Frontline e The Hindu (Índia), Alternet (EUA) e BirGün (Turquia). Ele é o editor chefe da LeftWord Books (Nova Delhi).

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• Prabir Purkayastha, ‘Net Neutrality in the Age of Internet Monopolies’, The Marxist (2015).

• Spotlight on Sustainable Development 2017: Reclaiming Policies for the Public (Civil Society Reflection Group, 2017).

Strongmen: Trump-Modi-Erdogan-Duterte, edited by Vijay Prashad (LeftWord, 2018).

The Economic Value of Peace 2016 (Institute for Economics and Peace, 2016).

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• UNCTAD, Trade and Development Report (UNCTAD, 2017).

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• UNICEF, The State of the World’s Children 2016: A Fair Chance for Every Child (UNICEF, 2016).

• Utsa Patnaik and Prabhat Patnaik, A Theory of Imperialism (Tulika, 2016).

• Vijay Prashad, The Poorer Nations: A Possible History of the Global South (Verso, 2013).

• Vijay Prashad, No Free Left: the Futures of Indian Communism (LeftWord, 2015).

• Wendy Wolford, This Land is Ours Now: Social Mobilisation and the Meaning of Land in Brazil (Duke, 2010).

World Intellectual Property Indicators – 2016 (World Intellectual Property Organisation, 2016).

A arquitetura do poder: o dólar, a financeirização e a luta pela soberania

Em uma sociedade capitalista, o dinheiro cumpre uma função essencial. Ele é a representação material de uma relação social imaterial: o “valor”, que se estabelece por meio do trabalho de milhões de pessoas globalmente. O dinheiro serve como meio de troca, unidade de conta e ainda como forma de armazenar esse valor. Contudo, o dinheiro nunca é neutro. Quando uma moeda nacional específica transcende suas fronteiras para se tornar a moeda do mundo, ela passa a ser um poderoso instrumento de hegemonia, disciplina e poder imperial.

A história dos últimos duzentos anos é a história da ascensão e da contestação de duas dessas moedas-chave: a libra esterlina e, de forma muito mais abrangente, o dólar estadunidense.

A atual ordem global, sustentada pelo dólar, concede aos Estados Unidos o que foi apropriadamente chamado de “privilégio exorbitante”: o poder de emitir a moeda que o resto do mundo precisa como reserva de valor, meio de pagamento e unidade de conta (BATISTA JR., 2024). Isso permite aos EUA financiar seus déficits, consumir acima de sua produção e projetar seu poderio militar, simplesmente porque sua dívida pública é tratada como o ativo mais seguro do planeta. Além disso, permite aos EUA ter o mercado financeiro mais importante do mundo, base de formação de expectativas que transcendem a dimensão financeira e influenciam decisões de investir e de produzir; estabelece as condições mais importantes para definir a direção dos fluxos financeiros globais que limitam a autonomia dos países dependentes e subordinados.

Há hierarquia entre as moedas nacionais em relação ao dólar. Algumas delas têm aceitação internacional, como o euro e o renminbi. Para os países do Sul Global, essa arquitetura impõe um custo elevado. Suas moedas são tratadas como ativos financeiros voláteis, e suas economias ficam reféns da disciplina imposta pelo capital financeiro internacional. A necessidade de acumular dólares como defesa contra ataques especulativos e para garantir as importações resulta em uma transferência líquida e perversa de riqueza do Sul para o Norte Global, especialmente para investidores/especuladores da Europa Ocidental e dos EUA.

Diante dessas questões estruturais do capitalismo contemporâneo, compreender a ascensão do dólar, os mecanismos de sua dominação atual e os limites estruturais que qualquer alternativa enfrenta é, portanto, uma tarefa central para aqueles e aquelas que buscam uma ordem internacional mais justa e cooperada.


O dinheiro, o valor e a necessidade de uma moeda mundial

Em qualquer sociedade baseada na divisão do trabalho e na troca de mercadorias, o dinheiro surge como uma necessidade prática. Quando diferentes produtores se especializam — um cultiva trigo, outro fabrica tecidos, outro extrai minério — eles precisam trocar seus produtos entre si para satisfazer suas necessidades. Mas a troca direta, ou escambo, apresenta dificuldades evidentes: o agricultor que quer tecido precisa encontrar um tecelão que, naquele exato momento, queira trigo, na quantidade exata, e aceite a proporção de troca proposta.

O dinheiro resolve esse problema ao funcionar como um equivalente geral: uma mercadoria especial que todos aceitam em troca de qualquer outra. Com o dinheiro, o agricultor pode vender seu trigo a qualquer comprador, guardar o valor recebido e, quando quiser, comprar tecido de qualquer vendedor. O dinheiro cumpre assim três funções básicas: como meio de circulação, facilita as trocas; como unidade de conta, permite comparar o valor de mercadorias diferentes; e como reserva de valor, permite guardar riqueza para uso futuro.

Na análise marxista, o dinheiro não é uma invenção arbitrária nem um simples instrumento técnico. Ele é a expressão material de uma relação social: o valor. O valor de uma mercadoria corresponde ao tempo de trabalho socialmente necessário para produzi-la. Quando milhões de produtores independentes trocam mercadorias no mercado, eles estão, na prática, comparando quantidades de trabalho humano. O dinheiro é a forma pela qual essa comparação se torna possível e visível. Ele representa, de forma condensada, o trabalho social (MARX, 2023).

Dentro de um mesmo país, o uso do dinheiro é relativamente simples: existe uma moeda nacional, emitida e garantida pelo Estado, que todos os habitantes reconhecem e aceitam. Mas o que acontece quando produtores de países diferentes querem comercializar entre si?

Consideremos um exemplo concreto. Uma empresa brasileira exporta café para a Alemanha. O importador alemão possui euros; o exportador brasileiro precisa de reais para pagar seus trabalhadores, fornecedores e impostos. Como conciliar essas duas moedas?

O problema se desdobra em várias dimensões. Primeiro, é preciso estabelecer uma taxa de câmbio: quantos reais equivalem a um euro? Segundo, é preciso um mecanismo para converter efetivamente uma moeda na outra. Terceiro, é preciso que ambas as partes confiem que a moeda recebida terá valor estável e será aceita por outros.

Quando o comércio internacional era pequeno e esporádico, esses problemas podiam ser resolvidos caso a caso, frequentemente com o uso de metais preciosos (ouro e prata), que tinham aceitação universal. Mas à medida que o mercado mundial se expandiu, essa solução tornou-se insuficiente.

Com o crescimento do comércio internacional, surge a necessidade de um sistema organizado para liquidar (acertar) as contas entre países. Não é prático que cada transação individual envolva a transferência física de ouro ou a conversão direta entre duas moedas quaisquer. É preciso um mecanismo de compensação.

Imaginemos que, em um dado período, o Brasil exporte US$ 100 milhões em café para a Alemanha e importe US$ 80 milhões em máquinas. Em vez de realizar duas transferências separadas, basta que a Alemanha transfira ao Brasil a diferença líquida de US$ 20 milhões. Esse é o princípio da compensação.

Mas para que esse mecanismo funcione em escala global, envolvendo dezenas de países com moedas diferentes, é necessário que exista uma referência comum — uma divisa que todos aceitem como unidade de conta e meio de pagamento para liquidar os saldos. Historicamente, essa função foi desempenhada pelo ouro e, posteriormente, por moedas nacionais de países economicamente dominantes.

Portanto, as vantagens associadas ao controle da moeda de referência são tudo menos simples. Elas incluem:

(i) a possibilidade de o Estado emissor ampliar de forma desproporcional sua capacidade de endividamento e de gasto em relação aos demais Estados nacionais;

(ii) o uso da moeda como instrumento de política e dominação externa, por meio do controle de canais centrais da liquidez internacional, como no caso da aplicação de sanções econômicas; e

(iii) os benefícios garantidos à atuação internacional de seus bancos, que, inseridos em um sistema de reservas fracionárias lastreado nessa moeda expansível, passam a ocupar uma posição privilegiada no circuito das altas finanças globais.

Surge aqui uma questão fundamental: quem emite essa moeda de referência? Como ela é escolhida? E quais são as consequências de um país ter sua moeda nacional elevada à condição de moeda mundial?

O mercado mundial se expande, o problema se agrava

O mercado mundial não cresceu de forma gradual e pacífica. Sua expansão foi impulsionada, desde o século XV, pela conquista colonial, pelo tráfico de escravizados, pela apropriação de terras e recursos naturais e pela imposição de relações comerciais assimétricas às populações subjugadas. A acumulação primitiva de capital, que Marx analisou no primeiro volume de O Capital, foi um processo global e violento (MARX, 2023).

À medida que o capitalismo se consolidou como modo de produção dominante, o volume do comércio internacional cresceu exponencialmente. No século XVIII, a Revolução Industrial intensificou esse processo: as potências europeias precisavam de matérias-primas de todo o mundo (algodão, minérios, produtos agrícolas) e buscavam mercados para seus produtos manufaturados.

Esse crescimento tornou o problema da moeda internacional cada vez mais urgente. Com milhares de transações diárias entre dezenas de países, era indispensável um sistema monetário internacional organizado — um conjunto de regras, instituições e práticas que definisse como as moedas se relacionam entre si, como os pagamentos são liquidados e como os desequilíbrios comerciais são ajustados.

A solução encontrada no século XIX e início do século XX refletiu a estrutura de poder da época: um mundo dividido entre impérios coloniais concorrentes. Cada potência imperial organizou sua própria zona monetária, integrando suas colônias e áreas de influência ao espaço de circulação de sua moeda nacional.

Como maior potência industrial, comercial e financeira do século XIX, a Grã-Bretanha fez da libra esterlina a principal moeda do comércio internacional, fazendo valer suas “preferências imperiais”. O chamado padrão-ouro, que vigorou do último quartel do século XIX até 1914, era na prática um padrão libra-ouro: a libra era a moeda em que se denominavam a maioria dos contratos comerciais, em que se cotavam as principais commodities e em que se realizavam os empréstimos internacionais.

O sistema da libra esterlina como moeda internacional dominante foi possibilitado pela drenagem de riqueza das colônias. A Índia mantinha elevados superávits em conta corrente com a Europa continental, os Estados Unidos, o Canadá e o Japão. Mas, mantinha um déficit em conta corrente com a Grã-Bretanha, em parte devido às exportações britânicas para a Índia, e, prioritariamente, pelas obrigações impostas pelos britânicos à colônia, incluindo enormes quantias de “presentes” da Índia Britânica para a metrópole (Patnaik e Patnaik 2024). Segundo relatório denominado Estudos sobre Comércio Ultramarino Britânico, apresentado pelos autores, “A chave para todo o padrão de pagamentos da Grã-Bretanha residia na Índia, que provavelmente financiava mais de dois quintos do déficit total britânico.”

As colônias britânicas — da Índia à África, do Caribe à Oceania — foram integradas ao espaço monetário da metrópole pelo sistema de preferências imperiais britânico. Suas exportações eram cotadas em libras; suas importações, em grande parte provenientes da própria Grã-Bretanha devido ao exclusivismo comercial metropolitano, eram pagas em libras; seus sistemas bancários operavam com a libra como referência. As populações coloniais eram obrigadas a obter libras para pagar impostos e adquirir bens essenciais, o que as subordinava inteiramente aos termos de troca definidos pela metrópole.

O império colonial francês — que se estendia pelo norte e oeste da África, pela Indochina e por ilhas do Pacífico e do Caribe — constituía uma zona monetária própria, organizada em torno do franco. Até hoje, vestígios dessa estrutura sobrevivem no franco CFA, moeda utilizada por 14 países africanos que permanece atrelada ao euro e antes ao franco francês (METRI, 2023).

Embora não possuíssem um império colonial formal comparável aos europeus, os Estados Unidos exerciam hegemonia econômica sobre grande parte das Américas desde o final do século XIX. A Doutrina Monroe (“América para os americanos”) expressava essa pretensão. O dólar circulava amplamente na América Central, no Caribe e em partes da América do Sul, frequentemente imposto por intervenções militares e pela presença de empresas estadunidenses que controlavam setores estratégicos (como a United Fruit Company na América Central).

Outras zonas como Alemanha, Japão, Holanda, Bélgica e Portugal também mantinham suas próprias esferas monetárias coloniais, ainda que menores.

O resultado dessa configuração era um sistema monetário internacional fraturado. Não havia uma única moeda mundial, mas várias moedas regionais concorrentes, cada uma dominante em sua esfera de influência. A libra era a mais importante globalmente, mas não era universal.

Esse sistema refletia a estrutura do Imperialismo tal como analisado por Lenin e outros marxistas do início do século XX: um mundo dividido entre potências capitalistas rivais, cada uma controlando seu próprio bloco de territórios coloniais e semicoloniais. As tensões entre esses blocos — a disputa por mercados, matérias-primas e áreas de investimento — foram uma das causas profundas da Primeira Guerra Mundial (LENIN, 2012).

A guerra de 1914-1918 destruiu essa ordem. O conflito exigiu gastos colossais, financiados pela emissão monetária e pelo endividamento. A maioria dos países suspendeu a conversibilidade de suas moedas em ouro. O Reino Unido, antes o grande credor mundial, emergiu como devedor. Os Estados Unidos, que entraram na guerra tardiamente e forneceram suprimentos aos aliados, tornaram-se o principal credor internacional.

O período entre guerras (1918-1939) foi marcado por tentativas fracassadas de restaurar o padrão-ouro, por instabilidade cambial crônica, por desvalorizações competitivas, as chamadas guerras cambiais, e pelo colapso do comércio internacional após a crise de 1929. A Grande Depressão demonstrou que um sistema monetário internacional desorganizado era incompatível com a estabilidade do capitalismo.

A Segunda Guerra Mundial criou as condições para uma reorganização radical. Os Estados Unidos emergiram do conflito como a única grande potência com sua economia intacta e fortalecida. Embora mantendo um compartilhamento da hegemonia Global com a antiga URSS, foram apenas os EUA que se destacaram como uma potência capitalista líder disposta a não impor controles de capital, a permitir a alienação de seus ativos e a utilizar sua moeda como moeda mundial.

Os EUA ao final do conflito mundial detinha cerca de dois terços das reservas mundiais de ouro. Sua indústria respondia por quase metade da produção manufatureira global. Seu território não havia sido devastado pela guerra (MAZZUCHELLI, 2013).

Essa assimetria de poder permitiu aos EUA impor uma nova arquitetura monetária internacional. Em 1944, na conferência de Bretton Woods, foi criado um sistema que, pela primeira vez na história, estabelecia uma única moeda nacional como eixo do sistema monetário mundial: o dólar estadunidense.

O sistema de Bretton Woods marcou a transição de um cenário de zonas monetárias concorrentes vinculadas a impérios rivais para uma hegemonia monetária unificada sob a liderança dos Estados Unidos. Esse processo representou a mudança de um sistema interimperialista, caracterizado pela disputa entre múltiplas potências, para um modelo imperialista de ordem unipolar liderada pelos EUA, no qual uma única potência dominante organiza o conjunto (INSTITUTO TRICONTINENTAL DE PESQUISA SOCIAL; GLOBAL SOUTH INSIGHTS, 2024).

Essa transição não foi automática nem puramente econômica. Ela foi o resultado da guerra, da destruição das potências rivais, da ocupação militar de antigos impérios (Alemanha, Japão) e da construção de uma vasta rede de bases militares, alianças e instituições internacionais sob liderança norte-americana.

Como o dólar se tornou hegemônico

A verdadeira consolidação do dólar como moeda dominante foi um projeto estratégico meticulosamente executado pelos Estados Unidos durante e imediatamente após a Segunda Guerra Mundial. A ascensão do dólar não foi um acidente histórico; foi o resultado de três movimentos estratégicos decisivos.

1. O Financiamento das Guerras

Os EUA utilizaram sua posição como “arsenal da democracia” para estruturar a dependência global de sua moeda. Inicialmente, a regra cash-and-carry (Pague e Leve) de 1937 exigia que os compradores de suprimentos dos EUA pagassem imediatamente em dólares ou ouro.

Posteriormente, o mecanismo de Lend-Lease (Empréstimo e Arrendamento) forneceu financiamento vital para as importações dos países aliados. No entanto, isso teve um efeito estrutural profundo: ao final da guerra, as potências aliadas e dezenas de outros países acumularam dívidas massivas denominadas em dólares. Dada a vulnerabilidade dos demais países, os EUA puderam impor a moeda de denominação de seus créditos. Isso criou uma demanda estrutural e permanente pela moeda estadunidense; os países precisavam agora exportar bens reais ou contrair novas dívidas para obter os dólares necessários para liquidar seus passivos (METRI, 2023).

2. O Controle do Petróleo

O segundo pilar foi garantir o controle sobre a fonte de energia que alimentaria o capitalismo industrial do pós-guerra. O petróleo, em razão da transformação que provocou na lógica dos conflitos – já a partir da Primeira Guerra Mundial – acabou se tornando o recurso natural central do sistema internacional. O controle das regiões produtoras passou a integrar o núcleo das disputas geopolíticas globais. Mais especificamente, o petróleo converteu-se no principal combustível das Forças Armadas; ocupou posição decisiva na matriz de transportes em escala mundial; e seus derivados passaram a ser amplamente empregados em inúmeras cadeias produtivas.

Disso resultou uma implicação adicional para as relações internacionais: o petróleo passou a ser manejado como instrumento recorrente no “tabuleiro diplomático”, funcionando como mecanismo de pressão, retaliação, dissuasão, apoio ou sustentação, sempre vinculado a cálculos, interesses e iniciativas que refletem as disputas geopolíticas mais amplas próprias da competição entre Estados.

Em 1940, os EUA eram a potência petrolífera dominante, produzindo 63% do petróleo mundial (QUINTAS, 2020). Contudo, à medida que ficava claro que o centro de gravidade da produção futura se deslocava para o Oriente Médio, os EUA agiram de forma decisiva.

Desde 1933, empresas americanas haviam adquirido direitos de exploração na Arábia Saudita. Em 1943, o presidente Roosevelt incorporou o Reino da Arábia Saudita ao “território monetário do dólar”, autorizando o financiamento do Reino de Ibn Saud por meio do Lend-Lease. A intensa atuação diplomática e militar dos EUA na região, consolidando seu domínio sobre a Arábia Saudita, garantiu que o petróleo exportado desse novo centro nevrálgico fosse cotado e transacionado exclusivamente em dólares na década de 1970. Passava, assim, a ocorrer a transformação da Arábia Saudita em zona de influência e espaço econômico dos Estados Unidos, bem como sua incorporação à esfera monetária do dólar (METRI, 2015).

Essa decisão compeliu a maioria dos países, especialmente as nações industrializadas e importadoras de energia, a aderir ao território monetário do dólar. Para comprar energia, era preciso primeiro obter dólares.

Nesse sentido, mais do que o controle direto sobre a produção, foi decisiva a imposição de uma arquitetura monetária para o mercado petrolífero global. A partir da década de 1970, principalmente com os choques do petróleo, esse movimento foi institucionalizado por meio dos “petrodólares”. Com a Guerra do Yom Kippur, o preço do petróleo quadruplicou e a economia mundial entrou em colapso. Nesse contexto, o governo Nixon negociou um acordo secreto com a Arábia Saudita. Os termos eram os seguintes: os sauditas se comprometeram a vender seu petróleo exclusivamente em dólares e a investir os excedentes em títulos do Tesouro estadunidense. Em troca, os EUA garantiram proteção militar ao reino saudita. Os demais países da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) logo seguiram o mesmo modelo.

Ao atrelar a principal commodity do mundo à sua moeda, os Estados Unidos ampliaram de forma estrutural o alcance internacional do dólar.

3. Os Acordos de Bretton Woods

Em 1944, na conferência de Bretton Woods, os EUA formalizaram e institucionalizaram sua hegemonia, principalmente no campo econômico. Um ano depois, em 1945 ocorreu a Conferência de Yalta, que reorganizou a ordem geopolítica e militar e, do ponto de vista da moeda, acordou que as reparações de guerra da Alemanha seriam contabilizadas em dólares.

Em Bretton Woods, duas visões opostas para a ordem do pós-guerra colidiram. A proposta inglesa, liderada por John Maynard Keynes, era radicalmente diferente da vitoriosa. Keynes propunha o “Bancor”, uma moeda de conta internacional supranacional, controlada por um órgão multilateral (a Clearing Union). O objetivo de Keynes era criar um sistema simétrico, que penalizasse tanto países deficitários crônicos quanto países superavitários crônicos. Essencialmente, a proposta de Keynes visava vetar a passagem do “privilégio exorbitante” da libra para o dólar.

A proposta de Keynes foi sumariamente derrotada. Dada a correlação de forças, prevaleceu o plano dos EUA, liderado por Harry Dexter White. O plano de White era simples e centrado no poder estadunidense: o dólar seria definido como a moeda de conta internacional e seria a única moeda com conversibilidade plena em ouro, a uma taxa fixa de US$ 35 por onça de ouro. Todas as outras moedas manteriam sua conversibilidade no dólar a taxas de câmbio fixas, mas ajustáveis.

Para gerir essa nova ordem, foram criados o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD, hoje Banco Mundial). O capital de ambos foi definido em dólares e a estrutura dessas instituições foi desenhada para garantir o controle dos EUA.

O poder de voto de cada país-membro foi vinculado às suas quotas ou subscrições de capital. No FMI, essas subscrições eram pagas em parte em ouro e em parte na moeda nacional. No BIRD, parte do capital deveria ser integralizada em ouro ou dólares. Como os Estados Unidos detinham a maior participação em ambas as instituições, enquanto o Reino Unido aparecia em segundo lugar, consolidou-se uma estrutura decisória assimétrica. No caso do FMI, como decisões cruciais exigem maioria qualificada de 85% dos votos, os EUA passaram a exercer, na prática, poder de veto sobre reformas fundamentais (BATISTA JR, 2019).

Centralidade e declínio da hegemonia do dólar no Século XX

O sistema de Bretton Woods, por vezes chamado de “padrão dólar-ouro”, consolidou a centralidade estadunidense. Porém, esse sistema não funcionava sozinho. Ele precisava de liquidez. As economias devastadas da Europa e do Japão não tinham os dólares necessários para importar insumos e reiniciar suas exportações ou reconstruir as cidades, infraestruturas e aparelhos produtivos.

Os Estados Unidos resolveram esse problema com o Plano Marshall para a Europa e o Plano Dodge para o Japão, que forneceram os dólares necessários para financiar essa reconstrução. Esses planos “salvaram” o sistema de Bretton Woods, garantindo que seus aliados estratégicos se reerguessem já plenamente integrados ao território monetário do dólar. Simultaneamente, os EUA estimularam a expansão global de suas empresas multinacionais, que realizavam investimentos diretos em dólares.

Como os recursos em dólares eram, em grande medida, utilizados para a compra de bens e serviços produzidos nos próprios Estados Unidos, o plano acabou recebendo apoio interno de diversos segmentos econômicos. Em uma conjuntura de arrefecimento da atividade doméstica, agravada pelo aumento da capacidade industrial durante os anos de guerra na Europa e no Pacífico, esse fluxo de demanda externa ajudava a sustentar a economia estadunidense.

Do ponto de vista estratégico, os Estados Unidos não apenas viabilizaram os chamados “milagres” de reconstrução e crescimento em vários países, estabilizando regiões centrais para a lógica da Guerra Fria, como também fortaleceram, de forma duradoura, a posição hegemônica de sua moeda. Nas décadas seguintes, as áreas sob sua influência experimentaram um longo ciclo de expansão e prosperidade, ancorado na centralidade do dólar.

Mais concretamente, ao mesmo tempo que financiavam a recuperação econômica das regiões-chave para a contenção da URSS, os Estados Unidos reforçaram a primazia do dólar porque: i) injetaram dólares diretamente nas economias aliadas, por meio de programas como o Plano Marshall (1948-1951); ii) ampliaram de maneira significativa seus gastos militares no exterior, denominados em dólares, como no caso da Guerra da Coreia; iii) abriram, de forma unilateral, seu mercado às exportações de parceiros estratégicos, garantindo-lhes receitas em dólar; iv) aceitaram que esses países mantivessem taxas de câmbio artificialmente desvalorizadas, tendo o dólar como referência; e v) estimularam o investimento direto externo de suas grandes corporações, o que naturalmente se realizava em dólares, dada a origem dessas empresas.

Além disso, toleraram a adoção de controles unilaterais sobre movimentos de capitais internacionais (em qualquer moeda), aceitaram a inconversibilidade das demais moedas, não reagiram de forma contundente a políticas protecionistas e ainda enviaram missões de assistência técnica.

O Dilema de Triffin

Apesar de sua aparente solidez, o sistema de Bretton Woods carregava em si uma contradição fatal, identificada pelo economista Robert Triffin. O “Dilema de Triffin” expôs a falha lógica de usar uma moeda nacional como moeda internacional.

A contradição era a seguinte: para que o comércio global e o crescimento econômico se expandissem, o mundo precisava de uma oferta crescente de liquidez internacional, ou seja, de mais dólares. Mas, para fornecer esses dólares ao resto do mundo, os Estados Unidos eram obrigados a incorrer em déficits em sua balança de pagamentos, ou seja, mandar mais dólar para fora do que recebiam de fora. No entanto, ao emitir mais e mais dólares (passivos) do que possuía em ouro (ativos) em seus cofres, os EUA inevitavelmente erodiriam a confiança global na conversibilidade do dólar ao ouro (AKYÜZ, 2010).

O sistema estava, portanto, condenado. Se os EUA parassem seus déficits, o comércio mundial estagnaria. Se continuassem, a confiança no dólar entraria em colapso.

Durante os anos 1960, essa contradição tornou-se aguda. O aumento maciço dos gastos públicos dos EUA, impulsionado simultaneamente pela Guerra do Vietnã e pelos programas sociais domésticos, levou a déficits crescentes e a uma emissão descontrolada de moeda. Ao mesmo tempo, a hegemonia dos EUA era contestada pelas revoluções na periferia e pela crítica dos aliados europeus, especialmente os franceses. Em 1969, o FMI criou os Direitos Especiais de Saque (SDRs), apelidados de “ouro-papel”, um ativo de reserva sintético e supranacional, cujo valor era baseado em uma cesta de moedas. Era uma tentativa de criar uma fonte de liquidez que não dependesse dos déficits dos EUA.

Em 1971, o Dilema de Triffin chegou ao seu ponto de ruptura. Com os países superavitários (liderados pela França) trocando dólares por ouro, as reservas dos EUA diminuíram drasticamente. Em 15 de agosto de 1971, o presidente Richard Nixon agiu. Em uma decisão unilateral que reconfigurou todo o sistema que havia sido criado multilateralmente, Nixon suspendeu indefinidamente a conversibilidade do dólar em ouro. O “padrão dólar-ouro” estava morto. O mundo entrou em uma nova era: a do dólar “flexível, financeiro e fiduciário”. A moeda hegemônica não tinha mais qualquer lastro em uma mercadoria física; seu valor era determinado puramente pela confiança — ou, mais precisamente, pela imposição do poder.

Após 1973, diante das sucessivas desvalorizações e da instabilidade do valor do dólar, os principais países capitalistas passaram a adotar um regime de “câmbio flutuante”, ou seja, as moedas deixam de ter paridade fixa em relação ao dólar e o seu valor passa a ser determinado no mercado de câmbio de cada economia nacional.

O choque dos juros e a “diplomacia do dólar forte”

Para completar esse quadro, diante da crescente contestação à economia americana, especialmente nos campos econômicos e monetários, os EUA resolvem atuar no que ficou conhecido como “golpe dos juros”. Diante das pressões inflacionárias domésticas e da ameaça à hegemonia do dólar, Paul Volcker, presidente do Banco Central Americano (FED), resolveu elevar a taxa básica de juros americana. Assim, a taxa de juros de curto prazo nos Estados Unidos foi elevada de patamares em torno de 10–11% para níveis próximos de 20% ao ano, em um movimento que começou em 1979 e que se estendeu até 1980, representando praticamente uma duplicação do custo do dinheiro em escala mundial (TAVARES, 1985).

Segundo a economista brasileira Maria da Conceição Tavares (1985), em um texto seminal chamado A retomada da hegemonia americana, antes do “golpe dos juros”, o sistema bancário privado estava funcionando praticamente à margem do controle dos bancos centrais, em especial do Federal Reserve (FED). As redes de filiais transnacionais estruturavam uma divisão regional de trabalho no interior das próprias empresas, muitas vezes em desacordo com os interesses nacionais dos Estados Unidos, e alimentavam um aumento da concorrência entre capitais que se mostrava desfavorável à economia americana. Em termos gerais, a configuração de uma economia mundial sem um polo hegemônico definido contribuía para a desorganização da ordem estabelecida no pós-guerra e para a crescente fragmentação de interesses privados e regionais. A partir de 1979, com o “golpe dos juros”, a condução da política econômica interna e externa dos Estados Unidos caminhou justamente no sentido de reverter essas tendências e recuperar o comando sobre as finanças internacionais.

Maria da Conceição Tavares (1985) usou a expressão “diplomacia do dólar forte” para se referir a essa ação unilateral estadunidense, que fez uso deliberado do seu poder monetário e financeiro como instrumento de política externa e de reconstrução da sua hegemonia. Não é possível entender o aumento dos juros apenas como uma medida de política monetária para lidar com os problemas macroeconômicos domésticos dos EUA, mas sim como uma ação central para a retomada da hegemonia do dólar e de reconstrução completa do sistema monetário e financeiro internacional.

Se a taxa de juros americana está elevada, os detentores da riqueza financeira passam a sair das suas posições nos demais países e tentam ganhar com o diferencial de juros da dívida pública americana. Com isso, aquele mercado de eurodólares que estava se gestando fora do controle do Banco Central americano, na Europa, volta quase todo para a praça financeira de Wall Street. Isso reforça o domínio do capital financeiro pelos EUA e reforça o poder do seu sistema bancário. Portanto, houve o uso da moeda estadunidense como arma geoeconômica: controlando juros, liquidez e acesso ao crédito internacional, os EUA disciplinam aliados, enquadram concorrentes e aprofundam a dependência da periferia. Portanto, a política de juros altos e dólar forte não é só economia, é uma estratégia de poder.

No entanto, essa ação teve impactos. O primeiro deles é que ela mergulhou os EUA e o resto do mundo em uma recessão prolongada, quebrando empresas e até bancos estadunidenses. Em segundo lugar, houve uma contração súbita do crédito internacional, causando danos especialmente à periferia capitalista que havia aproveitado o período de elevada liquidez internacional para se endividar em dólar e com taxas de juros pós fixadas. Em terceiro e último lugar, o golpe dos juros fez com que o crédito interbancário e os grandes bancos internacionais se recentralizassem em Nova York sob o guarda chuva do FED, que desde então comanda o sistema bancário privado internacional.

Outro objetivo do “golpe dos juros” foi enquadrar os concorrentes dos EUA. O Japão havia alcançado forte dinamismo industrial e tecnológico, obtendo crescentes superávits comerciais com os EUA, em uma trajetória para se tornarem os maiores credores do mundo, ao contrário dos EUA que estavam (e estão) na posição dos maiores devedores.

Com os juros muito altos, o dólar se manteve supervalorizado e com os enormes rendimentos dos títulos da dívida pública estadunidense houve um influxo de capitais para os EUA, inclusive japoneses, com empresas e bancos comprando títulos do Tesouro estadunidense.

Mesmo com superávits comerciais, o Japão se viu numa posição em que financiava o déficit estadunidense comprando ativos em dólar e passava a ter seu próprio desenvolvimento cada vez mais acoplado ao sistema financeiro e ao ciclo de ativos dos EUA.

Quando o déficit comercial dos EUA com o Japão explode e a pressão política interna aumenta, vem a segunda parte do enquadramento. Em 1985, o governo Reagan ameaça medidas protecionistas pesadas e força uma coordenação no G5, no que ficou conhecido como Acordo do Plaza. O objetivo era promover uma desvalorização coordenada do dólar frente ao iene e ao marco alemão. Resultado rápido: entre setembro de 1985 e abril de 1986, o iene se aprecia cerca de 35% frente ao dólar (MELIN, 1997).

Depois vem o Acordo do Louvre (1987), que tentou estabilizar as paridades após essa forte correção. Na leitura de Tavares e Melin (1997), esse não foi um ajuste “técnico” neutro, mas um movimento político visando consolidar seu poder: os EUA usaram sua posição no centro do sistema para obrigar o Japão a aceitar uma forte valorização do iene e uma reorganização do seu padrão de crescimento.

Portanto, os EUA obrigaram o Japão a ajustar a sua trajetória de crescimento e sua política cambial e financeira aos interesses da hegemonia americana,
garantindo que o iene não se tornasse uma moeda rival de reserva e que os superávits japoneses fossem reciclados em benefício do financiamento do déficit e da liderança financeira dos EUA. Em vez de uma ruptura, há uma reabsorção do Japão dentro de uma ordem comandada pelo dólar: o país mantém alta sofisticação produtiva, mas sob forte condicionamento financeiro e geopolítico definido em Washington.

Como o dólar se mantém

O colapso de Bretton Woods, paradoxalmente, não enfraqueceu o dólar. Pelo contrário, libertou os EUA de qualquer restrição material à sua política monetária e consolidou uma nova forma de hegemonia, baseada não mais no ouro, mas em três novos pilares: o petróleo, a profundidade de seus mercados financeiros e o uso da moeda como arma de guerra.

Para entender a ordem pós 1971, é crucial recorrer à análise marxista da “financeirização”. O abandono do lastro metálico (ouro) foi um divisor de águas. Ele removeu a restrição material à criação infinita de dinheiro. O dinheiro, que antes era uma representação de uma mercadoria (ouro), tornou-se uma representação de si mesmo — puros números em contas computadorizadas. Em outras palavras, houve autonomização da “moeda do mundo”.

Isso permitiu que o capital migrasse massivamente da esfera da produção de valor (o investimento em manufatura, agricultura etc., baseado na aplicação do trabalho social) para a esfera da circulação, do “capital fictício”. O capital fictício é o investimento em títulos de propriedade (ações) e, principalmente, em títulos de dívida (hipotecas, dívida pública), cujo valor não se baseia no valor já produzido, mas na antecipação de rendimentos futuros.

Esse processo, possibilitado pela criação ilimitada de dinheiro fiduciário, permitiu que o capital fictício se autoalimentasse, gerando mais capital fictício desconectado da base de valor do trabalho social.

O pilar 1: a reciclagem do petrodólar

Com o fim do lastro-ouro, os EUA agiram rapidamente para reancorar o dólar em outra commodity essencial. Eles reforçaram sua aliança estratégica e militar com a Arábia Saudita, garantindo que a OPEP continuasse a precificar e transacionar o petróleo exclusivamente em dólares. Isso recriou a demanda estrutural: como toda nação industrializada precisa de petróleo, toda nação precisa de dólares. Isso também criou um novo mecanismo de reciclagem. Os países produtores de petróleo (OPEP) acumulavam enormes superávits em dólares (“petrodólares”), que eram então “reciclados” de volta para os bancos de Wall Street, financiando os déficits dos EUA.

O pilar 2: a ditadura da liquidez (Treasuries)

A dominância do dólar hoje se baseia em algo pragmático: o dólar é a única moeda que garante acesso aos mercados financeiros mais líquidos e profundos do mundo. O pilar central desse sistema são os títulos da dívida pública dos EUA (U.S. Treasuries). Eles são universalmente considerados o “porto seguro” global, o ativo financeiro mais nobre, com risco de crédito mínimo e liquidez imediata.

Isso permite aos EUA subverterem completamente a lógica econômica: eles são o maior devedor do mundo, mas sua dívida é tratada como o ativo mais valioso pelos outros países. Em momentos de crise financeira global — mesmo em crises originadas nos próprios EUA, como a de 2008 — o capital internacional não foge do dólar; ele corre para o dólar, buscando a segurança dos Treasuries. Isso sustenta o “Mecanismo Global de Reciclagem de Excedentes” (MGRE), uma versão ampliada da reciclagem dos petrodólares:

  1. Os EUA absorvem os produtos excedentes do mundo, incorrendo em déficits comerciais massivos com países como China, Alemanha e Japão.
  2. Os lucros dessas exportações (dólares) acumulados por esses países superavitários retornam a Wall Street, porque esses países reciclam esses dólares recebidos de exportação na dívida pública estadunidense.
  3. Wall Street utiliza esse fluxo de capital estrangeiro para comprar Treasuries, financiando o déficit do governo estadunidense e fornecendo crédito aos consumidores do país para sustentar o consumo de produtos importados.

Nesse sistema, o resto do mundo é forçado a financiar os déficits gêmeos (comercial e fiscal) dos EUA, subsidiando o consumo estadunidense e, crucialmente, o poderio militar global dos EUA.

Na América Latina, esse processo se acelerou após as recomendações do Consenso de Washington, que sugeriu que os países deveriam abrir mão de controle das suas contas de capital. Isso significa que o capital pode entrar e sair livremente de cada país, mas isso tem impactos diretos na volatilidade das taxas de câmbio nacionais. Os países, por sua vez, para se protegerem dessa volatilidade, acumulam reservas cambiais na dívida pública estadunidense. Por isso, podemos afirmar que o dólar é uma arma de extorsão da periferia, que precisa, para se proteger internamente, sustentar os déficits gêmeos dos EUA, que, por sua vez, servem, entre outras coisas, para financiar as guerras imperialistas.

A crise de 2008 foi o momento em que as “pirâmides de dinheiro privado” (capital fictício) construídas por Wall Street sobre esse mecanismo colapsaram. No entanto, a crise não quebrou o sistema. O FED atuou como o banco central do mundo, fornecendo linhas de swap (proteção contra a volatilidade da taxa de câmbio) de dólares a outros bancos centrais, provando que, no colapso, a dependência do dólar era total, e não o contrário.

O pilar 3: a moeda como ativo de violência

O pilar final da hegemonia do dólar é o uso explícito da moeda como arma. Como a maior parte do comércio global, finanças e transações de commodities (especialmente petróleo) é denominada em dólares e compensada pelo sistema financeiro dos EUA, Washington ganha um poder de coerção imenso.

A diplomacia monetária é usada para restringir inimigos estratégicos e recompensar aliados. Os EUA podem impor sanções financeiras, congelar reservas de bancos centrais estrangeiros (como fizeram com o Irã, Venezuela e, mais dramaticamente, com a Rússia) e excluir países inteiros do sistema de pagamentos internacional (SWIFT).

Quando um país é sancionado, como ocorreu com a Rússia e a Venezuela, ele é excluído de redes de pagamento em dólar e pode ter ativos congelados no exterior. Isso encarece importações, atrapalha empresas e desorganiza o comércio daquele país.

O dólar, portanto, não é apenas uma ferramenta econômica; é um “ativo de violência”, um instrumento de disciplina geopolítica que garante que os interesses dos EUA prevaleçam.

A desdolarização já está em curso?

Os dados sobre as moedas de faturamento no comércio e nas finanças internacionais são escassos e apresentam defasagens maiores do que os dados comerciais (Gopinath, 2024). Ainda assim, as evidências disponíveis indicam que a preponderância do dólar é superior ao peso da economia dos Estados Unidos nos agregados globais de Produto Interno Bruto, comércio e finanças internacionais, refletindo uma assimetria estrutural no uso internacional das moedas.

Fontes: BIS Triennial Survey 2025 · SWIFT Watch 2024 · IMF COFER 2024 · Federal Reserve 2025

Dados da SWIFT mostram que a moeda responde por mais de 80% do financiamento do comércio internacional, em grande medida devido ao fato de que parcela significativa do comércio de commodities continua sendo faturada e liquidada em dólares. Além disso, o dólar mantém participação próxima a 60% nas reservas cambiais globais.

Por outro lado, a evolução das reservas cambiais globais em 2022-2023 foi marcada por um aumento significativo das aquisições de ouro por bancos centrais. Considerado um ativo seguro, o ouro oferece proteção contra riscos geopolíticos, ainda que apresente limitações como meio de transação. Esse padrão sugere que a intensificação das compras de ouro por determinados bancos centrais está associada à busca por mitigação de riscos econômicos e geopolíticos, em especial aqueles relacionados a sanções internacionais. No caso chinês, a participação do ouro nas reservas totais aumentou de menos de 2% em 2015 para 4,3% em 2023, ao passo que a proporção de ativos denominados em títulos do Tesouro e de agências dos Estados Unidos recuou de cerca de 44% para aproximadamente 30%, refletindo a recomposição de seu portfólio (GOPINATH, 2024).

Fonte: World Gold Council Gold Demand Trends Full Year 2024 (gold.org)

Ainda que se observe uma redução da participação do dólar nas reservas cambiais globais nas últimas décadas, os dados indicam que esse movimento não corresponde a uma substituição direta por uma outra moeda. Ao contrário, essa redução foi absorvida por um conjunto que o FMI apresenta como moedas não tradicionais: dólar australiano, dólar canadense, won sul coreano, coroa sueca e renminbi, em menor proporção. Isso, somado ao aumento de reservas em ouro, sugere que o processo em curso não é impulsionado principalmente por um projeto político coordenado de desdolarização, mas por estratégias de diversificação de portfólio adotadas por autoridades monetárias, voltadas à gestão de risco e à busca por maior segurança em um contexto de crescente instabilidade financeira global.

Esse movimento pode ser interpretado como uma resposta às próprias contradições da financeirização liderada pelos Estados Unidos e pela Europa, cuja dinâmica tende a gerar episódios recorrentes de volatilidade e formação de bolhas. Nesse sentido, a diversificação das reservas aparece menos como uma ruptura política e mais como um ajuste técnico diante das fragilidades do sistema, o que torna o processo de transformação do sistema monetário internacional simultaneamente mais robusto e mais lento do que sugerem as narrativas geopolíticas mais imediatas.

Fonte: IMF COFER | Federal Reserve, International Role of the U.S. Dollar 2025 Edition | *CNY no incluidado do 4T de 2016

Já a análise do comércio internacional até o primeiro quarto do século XXI indica que a participação combinada do dólar e do euro no faturamento do comércio global permaneceu relativamente estável ao longo do período, com a manutenção da dominância do dólar e o Euro com uma predominância maior dentro do próprio bloco da União Europeia. Embora a China tenha ampliado de forma significativa sua participação nas exportações globais desde os anos 2000, aproximando-se do peso comercial dos Estados Unidos, o uso do renminbi no faturamento do comércio internacional permanece limitado, sem que haja uma internacionalização da sua moeda. Ou seja, os dados apontam para a resiliência do dólar como principal moeda de faturamento do comércio internacional, ao mesmo tempo em que sugerem um processo ainda incipiente de diversificação monetária.

Fonte: IMF Working Paper (2025) Patterns of Invoicing Currency in Global Trade in a Fragmenting World Economy

Fonte: IMF Working Paper (2025) Patterns of Invoicing Currency in Global Trade in a Fragmenting World Economy

Fonte: IMF Working Paper (2025) Patterns of Invoicing Currency in Global Trade; IMF DOTS

Impulsionada pelos avanços na tecnologia financeira e na infraestrutura de pagamentos, observa-se a ascensão de sistemas alternativos de pagamento, custódia e liquidação, que passam a constituir possibilidades concretas ao sistema financeiro internacional centrado no dólar. Mais do que um debate recente, trata-se da materialização de novas arquiteturas institucionais capazes de viabilizar transações fora dos circuitos tradicionais. Nesse contexto, destacam-se iniciativas como o Sistema de Transferência de Mensagens Financeiras (SPFS), desenvolvido pela Rússia, e o Sistema de Pagamentos Interbancários Transfronteiriços (CIPS), liderado pela China, que ampliam a capacidade de liquidação internacional em moedas locais e reduzem a dependência de infraestruturas dominadas por países centrais.

Paralelamente, os países do BRICS têm intensificado esforços para fortalecer sistemas domésticos de pagamento digital e desenvolver soluções para operações transfronteiriças, com o objetivo de expandir o comércio internacional denominado em moedas locais e avançar na construção de um sistema monetário mais multipolar (ATLANTIC COUNCIL, 2024a). A China, em particular, tem ampliado o uso internacional do renminbi por meio da expansão do CIPS e de sua participação em projetos de Moeda Digital de Banco Central (CBDC)1. Observa-se também a rápida disseminação global de projetos de CBDC: 137 países e uniões monetárias, representando cerca de 98% do PIB mundial, encontram-se em algum estágio de desenvolvimento dessas moedas digitais (ATLANTIC COUNCIL, 2024b).

Iniciativas como o mBridge, que envolve o Banco Popular da China, o Banco Central de Hong Kong, o Banco Central dos Emirados Árabes Unidos e o Banco da Tailândia, com apoio do Bank for International Settlements e o sistema ACUMER, desenvolvido pelo Banco Central do Irã, sinalizam o potencial de novas infraestruturas digitais de liquidação em moedas locais entre bancos centrais através de CBDC, sem a necessidade de intermediários tradicionais, como bancos correspondentes ou sistemas como o SWIFT.

Soma-se a esse quadro o papel crescente dos acordos bilaterais de swap cambial, especialmente a partir da crise financeira de 2007-2008. Esses instrumentos têm sido utilizados tanto para prover liquidez em momentos de estresse quanto para reduzir os custos associados à acumulação de reservas internacionais, permitindo que países acessem moedas estrangeiras sem depender exclusivamente dos mercados financeiros internacionais. Nesse sentido, os swaps cambiais se consolidam como um componente central das estratégias contemporâneas de diversificação monetária e de mitigação da dependência do dólar (COUNCIL ON FOREIGN RELATIONS, 2025).

Em suma, os dados disponíveis indicam que o papel do dólar permanece dominante e relativamente estável no sistema monetário internacional. No entanto, esses dados também revelam mudanças importantes na composição e no funcionamento desse sistema. Um exemplo significativo é o caso do renminbi, cuja participação nas reservas internacionais partiu de praticamente zero, no início da década de 2010, para cerca de 2,2% em menos de uma década — um movimento sem precedentes históricos para a moeda de um país que ainda mantém controles relevantes sobre sua conta de capital.

Assim, a análise da desdolarização requer, portanto, uma distinção entre diferentes dimensões do sistema monetário internacional. No que se refere às reservas cambiais, o processo é lento, gradual e ainda longe de configurar uma ruptura com a centralidade do dólar. Já no plano dos pagamentos bilaterais, observa-se maior dinamismo, ainda que geograficamente concentrado em arranjos específicos, como no caso das transações entre Rússia e China, que, segundo reportagem de novembro passado, passaram a ser liquidadas em 99,1% em rublos e yuans (POLITICS TODAY, 2025). Por fim, no campo da infraestrutura financeira, que inclui sistemas de pagamento, compensação e liquidação, o processo ainda é incipiente, mas possui um caráter estrutural, uma vez que a criação dessas plataformas tende a reduzir, de forma duradoura, a dependência do sistema financeiro centrado no dólar.

Nesse sentido, a relevância da desdolarização reside na direção de seu processo e, sobretudo, na construção de alternativas institucionais e produtivas capazes de reduzir os custos de saída do sistema dólar para um número crescente de países.

Desdolarizar é lutar por soberania

Para a vasta maioria dos países do Sul Global, o sistema monetário e financeiro internacional centrado no dólar não é uma rede de segurança, mas uma camisa de força. Na medida em que os países precisam acumular reservas internacionais (moedas fortes, como o dólar) eles estão sendo extorquidos pelo sistema dólar, já que precisam manter essas reservas, e as fazem comprando títulos da dívida americana, portanto, financiando a capacidade desmedida dos EUA atuarem financiando guerras, por exemplo. Por outro lado, é um mecanismo de punição, pois os EUA podem decretar, mediante sanções e bloqueios, o banimento do sistema de pagamentos internacional àqueles países que não sejam a eles subservientes. Nas últimas décadas, Washington aumentou em 933% as sanções econômicas contra alvos de sua política externa (METRI, 2023).

Na prática, as moedas nacionais não são vistas como reserva de riqueza, mas como “ativos financeiros” voláteis. A demanda internacional por elas é especulativa, sujeita a pânicos e fugas de capital. Além disso, os países do Sul Global sofrem a incapacidade estrutural de emitir dívida externa em suas próprias moedas. Eles tomam empréstimos em dólares, mas geram receita em moeda local, criando um descasamento cambial devastador.

A hegemonia do dólar não se limita, portanto, à sua centralidade como meio de pagamento ou reserva de valor, mas se expressa também na forma como suas dinâmicas internas são transmitidas ao restante do mundo. Em momentos de valorização do dólar, as moedas periféricas tendem a se desvalorizar, encarecendo importações e pressionando a inflação doméstica, especialmente em economias dependentes de energia, alimentos e bens intermediários. Como grande parte das commodities internacionais é precificada em dólar, esses efeitos se amplificam mesmo na ausência de alterações nas condições reais de oferta e demanda.

No plano financeiro, decisões de política monetária dos Estados Unidos, como elevações nas taxas de juros, frequentemente desencadeiam fluxos de capitais em direção aos ativos denominados em dólar. Isso provoca desvalorizações cambiais, eleva o custo do financiamento externo e restringe o espaço de política econômica nos países do Sul Global, que muitas vezes são forçados a adotar medidas contracionistas para conter a inflação e estabilizar suas moedas, mesmo em contextos de baixo crescimento. Em economias com elevado endividamento em moeda estrangeira, a valorização do dólar aumenta imediatamente o peso da dívida em termos domésticos, aprofundando fragilidades estruturais.

Para atrair o capital internacional volátil, os ativos do Sul Global precisam oferecer taxas de juros muito mais altas do que os ativos “seguros” do Norte. Isso resulta em uma transferência líquida e constante de riqueza dos países mais pobres para os centros financeiros mais ricos.

Com as políticas neoliberais e a liberalização dos movimentos de capitais, a capacidade dos Estados de conduzir a macroeconomia foi enfraquecida. Qualquer governo que tente implementar políticas fiscais ou monetárias expansionistas, como reduzir juros para estimular o investimento, é imediatamente punido pelo “mercado” com uma fuga de capitais, que desvaloriza a moeda, gera inflação e pode levar ao colapso. Os governos ficam reféns da “confiança” dos financistas.

Para se protegerem dessa volatilidade, os países do Sul Global são forçados a acumular reservas internacionais massivas. O Brasil, por exemplo, detém mais de US$ 358 bilhões (BANCO CENTRAL DO BRASIL, 2026). Essas reservas são, em sua maioria, investidas em ativos em dólar, especialmente títulos da dívida dos EUA. Este é o paradoxo final: para se defender do sistema, o Sul Global é obrigado a financiar seu opressor, emprestando trilhões de dólares ao Tesouro dos EUA a juros baixos.

A hegemonia do dólar impõe custos insustentáveis ao Sul Global. A insatisfação com essa “assimetria desestabilizadora” não é nova, mas ganhou uma nova urgência em um mundo que caminha para a multipolaridade. A desdolarização tornou-se uma “tendência secular”, mas que enfrenta obstáculos estruturais imensos.

Segundo o economista Bruno de Conti (2025), observam-se hoje alguns movimentos que podem, a médio ou longo prazo, desencadear mudanças no sistema monetário e financeiro internacional:

i) a redefinição do papel de certos países na hierarquia da economia mundial;

ii) o acirramento das tensões geopolíticas entre as principais potências;

iii) o aumento das desconfianças em relação ao dólar, intensificadas durante o governo Trump, combinado à disposição política de um conjunto amplo de países em buscar caminhos, de forma isolada ou coordenada, para reduzir sua dependência da moeda estadunidense.

A discussão sobre desdolarização, contudo, não pode se restringir à proteção contra sanções ou à mitigação de vulnerabilidades externas. Uma análise mais profunda exige interrogar seu próprio propósito. A substituição de uma moeda hegemônica por outra não implica necessariamente uma transformação qualitativa da ordem internacional, nem garante maior estabilidade ou benefícios para os países periféricos. A experiência histórica sugere que a hierarquia monetária tende a se reproduzir, ainda que sob novas configurações.

Nesse sentido, a desdolarização deve ser compreendida não apenas como uma disputa entre moedas, mas como parte de um debate mais amplo sobre a natureza das relações econômicas internacionais. Para os países do Sul Global, isso implica deslocar o foco da mera substituição de instrumentos para a construção de alternativas estruturais, envolvendo novas formas de inserção comercial, cooperação tecnológica, integração produtiva e coordenação política.

Uma transformação efetiva do sistema monetário internacional exigiria, portanto, mais do que a criação de mecanismos financeiros alternativos. Ela demandaria enfrentar os pilares que sustentam a hegemonia do dólar, incluindo a centralidade da precificação das commodities, a dominância dos mercados financeiros denominados em dólar e a capacidade de coerção geopolítica. Nesse horizonte, a desdolarização não é um fim em si mesmo, mas parte de uma luta mais ampla pela soberania econômica e pela construção de uma ordem internacional mais equitativa, capaz de interromper a transferência sistemática de riqueza do Sul Global para os centros de poder.

A luta pela desdolarização, portanto, não é um mero ajuste contábil. É uma luta política fundamental pela soberania econômica e pelo fim da transferência de riqueza do Sul Global para os centros imperiais.


Notas

1 Cabe distinguir que as Moedas Digitais de Banco Central (CBDC) são dinheiro em sentido estrito, emitidas e garantidas por autoridades monetárias nacionais, desempenhando as funções clássicas da moeda. Já as criptomoedas privadas, como o Bitcoin e similares, não possuem lastro estatal, sendo ativos de caráter especulativos sem base produtiva de caráter especulativo, cuja existência e valorização são subordinadas à própria ordem monetária baseada no dólar.

Referências

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Alerta Vermelho n. 22: A verdade em meio aos escombros

Os desastres naturais revelam mais do que o movimento das placas tectônicas: a força das sociedades, a resiliência das comunidades e as fraturas políticas que moldam o sofrimento de quem é exposto e de quem é explorado. Poucas horas após os devastadores terremotos que atingiram a Venezuela em 24 de junho de 2026, as redes sociais e setores da imprensa internacional circulavam narrativas já conhecidas. Antes mesmo que as operações de resgate pudessem começar de fato, o desastre já havia se transformado em mais um campo de batalha na longa campanha liderada pelos EUA para minar o processo bolivariano iniciado com a eleição de Hugo Chávez em 1998.

Nada disso deve diminuir a imensa tragédia que o povo venezuelano enfrenta. Bairros inteiros foram devastados. Centenas de prédios desabaram. Hospitais, estradas, pontes e outras infraestruturas públicas estão em ruínas. Famílias continuam buscando por seus entes queridos enquanto equipes de resgate lutam contra a chuva, os tremores secundários e o difícil acesso pelas estradas. Mas a solidariedade exige mais do que compaixão. Exige a verdade. É por isso que o alerta vermelho n. 22 foi emitido, com o título A verdade em meio aos escombros. O texto examina alguns dos mitos mais comuns que circulam sobre o terremoto e os confronta com as evidências disponíveis.

Mito 1: O governo da Venezuela não respondeu de forma eficaz ao terremoto

A dimensão da catástrofe precisa ser compreendida antes que qualquer julgamento sério possa ser feito. O número de mortos aumenta a cada dia, enquanto equipes de resgate e voluntários vasculham os escombros, com dezenas de milhares de pessoas ainda desaparecidas. Quase duzentos prédios desabaram completamente, e centenas de outros foram parcialmente destruídos. Hospitais que normalmente receberiam os feridos também foram danificados. Uma importante ponte e diversas estradas foram danificadas no estado de La Guaira, onde o terremoto atingiu com mais força entre os seis estados afetados, tornando extremamente difícil o deslocamento de equipamentos e equipes de resgate para as áreas atingidas. As chuvas contínuas e quase 800 réplicas do terremoto complicaram ainda mais as operações de resgate, enquanto o colapso parcial do aeroporto de Caracas obrigou equipes de resgate internacionais a chegarem por aeroportos mais distantes e, em seguida, a viajarem por terra. Nenhum país possui capacidade ilimitada de resposta a emergências diante de uma destruição dessa magnitude.

No entanto, a Venezuela entrou nessa crise carregando um fardo adicional que poucos países já experimentaram nessa escala: anos de guerra econômica por meio de medidas coercitivas unilaterais impostas principalmente pelos Estados Unidos e seus aliados. Essas medidas congelaram mais de 30 bilhões de dólares em ativos públicos venezuelanos que poderiam ter fortalecido a preparação para desastres, modernizado a infraestrutura e financiado reservas de emergência. Elas restringiram severamente a capacidade do país de adquirir equipamentos de resgate especializados, maquinário pesado, medicamentos, peças de reposição e materiais de construção, além de provocarem migração em massa.

O endurecimento das sanções impostas pelos EUA em 2017 provocou a emigração e levou a uma profunda perda de trabalhadores em serviços públicos essenciais. A Relatora Especial das Nações Unidas, Alena Douhan, disse que, até 2021, os serviços públicos haviam perdido entre 30% e 50% de seu pessoal, incluindo muitos médicos, enfermeiros, engenheiros, professores, juízes e outros profissionais qualificados, e muitos hospitais públicos relataram que entre 50% e 70% dos cargos de especialistas estavam vagos. Essa perda de pessoal enfraqueceu a capacidade de resposta a emergências do país: menos trabalhadores treinados, cargas de trabalho mais pesadas para os que permaneceram e serviços públicos menos capazes de responder quando ocorria um desastre.

Os efeitos dos desastres naturais não podem ser dissociados das condições políticas e econômicas em que ocorrem. Contudo, a Venezuela não é uma vítima indefesa. Apesar do impacto devastador sobre a vida humana, o país começou a se recuperar lentamente. Após uma contração de 75% no PIB entre 2013 e 2021, o PIB venezuelano cresceu cerca de 9% em 2024 e novamente em 2025. O país passou de importar mais de 70% de seu suprimento alimentar em 2017 para produzir 96% internamente em março de 2026. A receita do petróleo, que havia caído de 93 bilhões de dólares em 2012 para 4,2 bilhões em 2020, mostrou recuperação de cerca de 18 bilhões nos últimos anos. As condições permaneceram difíceis e bem abaixo dos níveis pré-crise, mas a infraestrutura e os padrões de vida começaram a melhorar. A vida não estava isenta de desafios significativos, nem havia retornado aos níveis pré-crise, mas o país, sua infraestrutura e a qualidade de vida de muitos de seus habitantes começaram a melhorar. A capacidade de avançar rumo à recuperação econômica, apesar de mais de mil medidas coercitivas unilaterais em vigor, reflete-se em melhorias graduais na qualidade de vida e nos serviços públicos – incluindo a resposta a desastres.

Mito 2: O governo venezuelano está bloqueando a ajuda humanitária

Talvez a alegação mais difundida seja a de que as autoridades venezuelanas têm impedido deliberadamente que voluntários e ajuda cheguem às comunidades afetadas. No entanto, as operações modernas de busca e resgate dependem de uma coordenação cuidadosa. Cães de resgate precisam de silêncio para detectar sobreviventes sob os escombros. Máquinas pesadas precisam de vias de acesso desobstruídas. Ambulâncias precisam de estradas livres de congestionamento. A movimentação descoordenada de milhares de civis por zonas de desastre, por mais bem-intencionada que seja, pode obstruir as operações de resgate e custar vidas.

Relatórios no local indicam que veículos de resgate estavam ficando presos no trânsito civil. Trajetos que normalmente levam quarenta minutos demoraram mais de cinco horas. Ambulâncias transportando vítimas gravemente feridas foram atrasadas por estradas congestionadas e intransitáveis. Restringir o acesso a zonas de desastre, portanto, não é evidência de repressão, mas sim uma prática padrão de emergência empregada em todo o mundo.

Ao mesmo tempo, a participação organizada de voluntários tem sido ampla desde o início, com milhares de pessoas se registrando formalmente após 26 de junho para esforços coordenados de socorro ao lado de serviços de emergência profissionais, garantindo que a solidariedade fortaleça, em vez de interromper, as operações de resgate. A questão nunca foi se os civis deveriam ajudar, mas sim se a assistência está sendo organizada de forma a salvar vidas.

Mito 3: As comunidades afetadas estão sendo negligenciadas pelo governo venezuelano

No primeiro dia da tragédia, esforços conjuntos da Defesa Civil, das Forças Armadas Nacionais Bolivarianas (FANB), da polícia e das famílias e comunidades das vítimas responderam e ajudaram no resgate de 2.407 pessoas das áreas mais afetadas em La Guaira. Em 1º de julho, aproximadamente 26 mil pessoas de agências de defesa civil, serviços de emergência, polícia, forças armadas e outras instituições públicas haviam sido mobilizadas em toda a zona de desastre. Cerca de 17 mil voluntários se juntaram formalmente às operações de socorro. Nas áreas afetadas, 6.461 pessoas foram resgatadas. As autoridades coordenaram os esforços de resgate com mais de 4 mil profissionais de resgate estrangeiros e pelo menos 41 delegações internacionais participando dos esforços humanitários. A resposta humanitária já entregou diretamente quase 9 milhões de quilos de alimentos, cerca de 28 mil cestas básicas e 3,2 milhões de litros de água potável às áreas afetadas – números que aumentam significativamente a cada dia, com os esforços contínuos de socorro e os relatórios diários da Assembleia Nacional. Mais de 80 mil famílias receberam assistência, incluindo alimentos, transporte, atendimento médico, apoio psicológico e abrigo emergencial.

Equipes médicas atenderam mais de 17 mil pessoas em hospitais, clínicas de campanha e centros de triagem de emergência. O fornecimento de energia elétrica foi amplamente restabelecido nas áreas afetadas. As alegações de que as casas construídas pelo programa Gran Misión Vivienda Venezuela – o principal programa habitacional do governo, que já abrigou 5,2 milhões de famílias – eram mal construídas não se sustentou quando se constatou que casas construídas por governos anteriores e por empreiteiras privadas sofreram danos semelhantes. Até 1º de julho, 13 grandes abrigos foram abertos em La Guaira, com outros 12 em funcionamento em Caracas, Miranda e outros estados afetados, e planos de expansão estão em andamento. Nenhuma dessas conquistas apaga o enorme sofrimento que ainda persiste. Mas demonstram que, longe de se omitirem, as instituições públicas da Venezuela e milhares de cidadãos organizados continuam os esforços de assistência em condições extremamente difíceis.

Mito 4: A preocupação dos EUA com a Venezuela pode ser separada da guerra híbrida dos EUA

Toda contribuição humanitária genuína merece reconhecimento, independentemente de sua origem. Mas os gestos humanitários não podem ser separados da realidade política mais ampla nem do registro histórico. Os Estados Unidos continuam mantendo as sanções que enfraqueceram sistematicamente a economia da Venezuela, restringem seu acesso ao financiamento internacional, bloqueiam a importação de bens essenciais e congelam bilhões de dólares pertencentes ao povo venezuelano. Não se pode elogiar a assistência humanitária e, ao mesmo tempo, manter políticas que agravam as emergências humanitárias.

Sanções e outras medidas coercitivas unilaterais são frequentemente eficazes politicamente justamente por serem invisíveis. Ao contrário das bombas, raramente produzem imagens dramáticas. Em vez disso, corroem lentamente os sistemas de saúde pública, a infraestrutura, a capacidade produtiva e as instituições estatais ao longo de muitos anos. Quando o desastre finalmente ocorre, as instituições enfraquecidas são apresentadas como prova de incompetência governamental, em vez do efeito cumulativo de uma guerra econômica deliberada. O custo humano dessa guerra econômica tem sido devastador, com as sanções dos EUA causando mais de 40 mil mortes entre 2017 e 2018 e colocando 300 mil pessoas em risco de sofrer o mesmo destino por falta de acesso a medicamentos ou tratamentos essenciais.

Aproximadamente 31 toneladas de ouro venezuelano – avaliadas em cerca de 1,95 bilhão de dólares em 2020 – permanecem retidas no Banco da Inglaterra, após o Reino Unido ter se alinhado à campanha de pressão de Washington contra a Venezuela. O país também enfrenta uma dívida pública estimada em cerca de 240 bilhões de dólares, incluindo títulos soberanos e da PDVSA inadimplentes, juros acumulados, faturas não pagas, indenizações arbitrais e empréstimos bilaterais. Embora as sanções financeiras impostas em 2017 não tenham criado toda essa dívida, elas isolaram a Venezuela dos mercados financeiros dos EUA e restringiram severamente sua capacidade de honrar e reestruturar suas obrigações. A retenção contínua de ativos e o excesso de dívida privam o país dos recursos necessários para reconstruir a infraestrutura, fornecer moradia e cuidar dos sobreviventes com dignidade.

O gesto humanitário mais significativo hoje não seria outra declaração de preocupação. Seria o levantamento imediato de todas as medidas coercitivas unilaterais e a liberação dos ativos soberanos congelados da Venezuela para a reconstrução.

Mito 5: O terremoto prova que o processo bolivariano fracassou

O desastre revelou a capacidade de uma sociedade organizada de agir coletivamente sob pressão extraordinária. Comunas, organizações de bairro, redes de saúde pública, sistemas de distribuição de alimentos, brigadas de voluntários e instituições locais, construídas ao longo de décadas, tornaram-se indispensáveis ​​para a resposta à emergência. Em todo o país, comunidades organizadas mobilizaram alimentos, abrigo, transporte, assistência médica e voluntários por meio de estruturas que antecedem o terremoto.

Nenhuma sociedade pode eliminar o sofrimento causado por um desastre dessa magnitude. Mas sociedades com comunidades organizadas geralmente são mais capazes de resistir e responder a tais crises do que aquelas que dependem exclusivamente de mercados e iniciativa privada. Essa resiliência não surgiu espontaneamente. Ela se baseia em décadas de investimento em educação pública, alfabetização, saúde e organização comunitária. Desde o início do processo bolivariano, milhões de venezuelanos tiveram acesso à educação, o analfabetismo foi erradicado, novas universidades públicas expandiram o ensino superior e o investimento público em saúde aumentou drasticamente. Apesar dos danos causados ​​pela guerra híbrida liderada pelos EUA, esses avanços fortaleceram não apenas os indicadores sociais, mas também as formas de organização coletiva que se tornam indispensáveis ​​em momentos de emergência nacional.

Para o povo venezuelano, as seguintes medidas devem ser tomadas:

  1. Todas as medidas coercitivas unilaterais, incluindo as sanções econômicas, impostas à Venezuela devem ser suspensas imediatamente, e os ativos públicos venezuelanos que permanecem congelados, retidos ou inacessíveis no exterior devem ser liberados.
  2. A intervenção estrangeira em todas as suas formas deve ser encerrada.
  3. A dívida externa da Venezuela deve ser cancelada.
  4. A assistência humanitária deve ser coordenada com as instituições públicas e as comunidades organizadas da Venezuela, em vez de ser usada como instrumento de intervenção política ou militar.
  5. Os movimentos internacionais devem continuar a apoiar o povo venezuelano muito depois de a atenção da mídia internacional inevitavelmente se voltar para outros assuntos.

Desastres naturais são inevitáveis. Mas a transformação deles em catástrofes humanitárias depende de escolhas políticas. O povo venezuelano enfrenta agora o imenso desafio de reconstruir casas, escolas, hospitais e comunidades, enquanto arca com as consequências de décadas de guerra econômica. A solidariedade internacional, portanto, deve significar mais do que simpatia: deve rejeitar os mitos propagados pelos inimigos da Venezuela, exigir o fim das sanções e restrições patrimoniais que enfraqueceram a capacidade de resposta do país e defender o direito da Venezuela de se recuperar, reconstruir e determinar seu próprio futuro, livre de coerção externa.

Cinquenta anos depois de Soweto; uma luta sem documentação não é uma luta

Este boletim de arte é dedicado a Abdullah Ibrahim (1934–2026), o lendário músico de jazz sul-africano e ativista anti-apartheid que faleceu este mês. Durante sua vida, ele transformou a expressão cultural – e em particular o piano – em um ato profundo de resistência política, inclusive através de sua canção “Soweto“.

Imagina-se na esquina das ruas Moema e Vilakazi em Orlando West, Soweto, África do Sul. Hector Pieterson, de 12 anos, foi baleado aqui às 9h30 da manhã do dia 16 de junho de 1976 – meio século atrás, neste mês. Agora olhe para baixo. Perto deste local, o fotógrafo Masana Samuel “Sam” Nzima fez seis fotos com uma Pentax SL e uma lente de 50mm. A terceira imagem viajou o mundo: Mbuyisa Makhubo, de 18 anos, correndo com o corpo de Hector, e sua irmã Antoinette Sithole correndo ao lado deles. No chão abaixo deles, uma sombra profunda cai sobre o asfalto. Essa sombra é uma evidência – registra o ângulo do sol da manhã, o trecho específico da estrada de Soweto, o exato momento em que o Estado do apartheid disparou contra uma criança em idade escolar.

Hector Pieterson sendo carregado por Mbuyisa Makhubo, 16 de junho de 1976. Crédito: Sam Nzima.

Esta imagem se tornou um símbolo internacional, reproduzida infinitamente em cartazes e serigrafada em milhões de camisetas ao longo da década de 1980 pelo movimento internacional de solidariedade anti-apartheid, desde a Organização de Solidariedade com os Povos da Ásia, África e América Latina (Ospaal) em Havana e o Movimento Anti-Apartheid (AAM) em Londres até o Medu Art Ensemble em Gaborone, Botswana. Juntos, esses grupos tornaram visíveis as brutalidades do regime de apartheid e ajudaram a mobilizar um movimento global em direção à sua derrota. Este boletim, no entanto, não é sobre uma única fotografia, mas sobre uma geração de fotógrafos que documentaram o apartheid, revelando suas sombras e a luta pela libertação travada contra ele.

Fotografando a Revolta de Soweto

Em 16 de junho de 1976, entre 3 mil e 10 mil estudantes marcharam em onze colunas em direção ao Estádio Orlando. Sua queixa imediata era a imposição do africâner como língua de instrução nas escolas africanas, decretada sem consulta. A reivindicação mais ampla era a Educação Bantu – ou, como o primeiro-ministro Hendrik Verwoerd havia planejado ao longo de duas décadas, um sistema “separado e inferior” projetado para ensinar às crianças negras que não havia lugar para elas além de sua força de trabalho. O Conselho Representativo dos Estudantes de Soweto – liderado por Teboho “Tsietsi” Mashinini, de 19 anos, Murphy Morobe, de 19 anos, e Seth Mazibuko, de 16 anos – havia decidido iniciar a marcha na Escola Secundária Naledi no dia 13 de junho.

Os primeiros tiros foram disparados por volta das 9h30. Lesley “Hastings” Ndlovu, de 15 anos, foi a primeira criança morta; Hector Pieterson foi a segunda. Ao final do dia, havia pelo menos 23 mortos em Soweto, a maioria deles estudantes e jovens; ao final do ano, mais de 700 foram mortos em todo o país.

Estudantes ajoelhados no chão para escrever, anos 1960. Crédito: Ernest Cole.

Ao lado dos estudantes estavam alguns fotógrafos, entre eles Sam Nzima, que trabalhava para The World, o jornal negro mais proeminente do país na época; Peter Magubane fotografava para o Rand Daily Mail; e Alf Kumalo, que  trabalhava para o Sunday Times. Eles fotografaram; foram espancados; alguns foram presos. Eles contrabandeavam os negativos por qualquer canal disponível.

Kumalo, que viveu em Soweto e documentou a cidade por meio século, foi perseguido pelas mesmas forças do apartheid que estava fotografando. “Fui preso, espancado. Quebraram meu crânio”, lembrou.

Não foram apenas fotógrafos que testemunharam as atrocidades naquele dia em Soweto. No interior do Hospital Chris Hani Baragwanath, o Dr. Malcolm Klein notou que algumas das vítimas chegaram com “feridas estranhas: pequenos buracos de entrada em seus corpos superiores, com feridas de saída maiores mais abaixo”. Os médicos perceberam mais tarde que a polícia estava disparando de helicópteros. Quando a polícia exigiu uma lista de todos os pacientes admitidos com ferimentos de bala para que os sobreviventes pudessem ser processados por “rebelião”, os médicos e os funcionários de admissão se recusaram. Em vez disso, registraram o motivo da admissão como “abscesso”. “Dessa forma”, disse Klein, “protegemos um número desconhecido de pacientes de serem vitimados duas vezes pela brutalidade policial”.

A câmera era minha arma

As câmeras continuaram funcionando após aquela manhã e, ao longo das décadas, a fotografia se tornou mais do que um registro de eventos: tornou-se uma prática de educação política, memória coletiva e resistência. “Uma luta sem documentação não é uma luta”, recordou Peter Magubane aos jovens manifestantes que se recusaram a tirar suas fotos naquela manhã em Soweto. O próprio Magubane passou 586 dias em confinamento solitário em 1969 por seu trabalho fotográfico, muitas vezes escondendo sua câmera em uma Bíblia oca.

Procissão fúnebre em Zwelitsha, King William’s Town (agora Qonce), Eastern Cape, 1978. Crédito: Peter Magubane.

Olhe para uma das fotografias de Magubane, publicada em Soweto: O fruto do medo (1986): um ônibus lotado de enlutados, punhos erguidos pelas janelas, mais no telhado, uma fila de carros atrás, colinas abertas além. O ano é 1978. O lugar é o Eastern Cape, a região de Steve Biko, um co-fundador do Movimento da Consciência Negra que inspirou a Revolta de Soweto. Biko foi morto sob custódia policial em setembro do ano anterior. Aqui, Magubane documenta uma nova forma política sob o apartheid, na qual as procissões fúnebres se tornaram substitutos para as reuniões e marchas que haviam sido banidas. Nesse contexto, as câmeras também adquiriram um novo significado. Como Magubane dizia, “eu consegui carregar minha arma; a câmera era minha arma. Eu consegui matar o apartheid com minha arma”.

Olhe para outra imagem, desta vez de Ernest Cole. Uma fila de homens negros, nus e de frente para uma parede, levantam os braços enquanto passam pela exame médico dos mineiros sob o sistema de trabalho migrante do apartheid. O mesmo aparato que classificava aqueles corpos havia classificado o de Cole: para obter o passaporte que lhe permitiu deixar a África do Sul com seus negativos, ele se reclassificou de negro para “pardo” e mudou seu sobrenome de Kole para o mais anglófono Cole. Os negativos que ele levou – incluindo a imagem dos mineiros – foram publicados nos Estados Unidos em 1967 como o livro Casa da Escravidão. O livro foi banido em seu país. Após a embaixada da África do Sul recusar renovar seu passaporte, Cole passou anos vivendo nas ruas. Em 1990, um dos maiores fotógrafos da África do Sul morreu apátrida em Nova York. Suas cinzas foram posteriormente devolvidas à África do Sul e enterradas em Mamelodi.

Limpeza noturna polindo a mesa da sala de reuniões, Joanesburgo, 1984. Crédito: Lesley Lawson.

Veja o Trabalho das mulheres de Lesley Lawson (1985). Lawson passou o início dos anos 1980 fotografando mulheres negras trabalhando em toda a África do Sul, desde trabalhadoras domésticas em cozinhas suburbanas brancas até operárias em linhas de produção e trabalhadores agrícolas em fazendas de brancos. O livro emparelhava suas fotografias com as próprias palavras das mulheres sobre horas, salários e a jornada de trabalho, dando um registro visual a mulheres cujo ofício sustentava a economia do apartheid, mas que era amplamente invisível na iconografia midiática da década. Lawson trabalhou com o Comitê Sul-Africano de Educação Superior (Sached), que era o fundo de educação dos trabalhadores, e Trabalho das mulheres funcionou não apenas como uma ferramenta de ensino para grupos de estudo de trabalhadores, mas também como um registro documental.

Veja a série fotográfica de Santu Mofokeng de 1986, Igreja do Trem. Uma imagem captura um vagão da linha de trem de Soweto-Joanesburgo ao amanhecer: trabalhadores estão de mãos levantadas, no meio da canção, enquanto um homem bate na parede interna do trem como se fosse um tambor. A linha de trem – o mecanismo diário da economia do apartheid que transportava trabalhadores negros para dentro e fora da cidade branca antes do amanhecer e após o escurecer – foi transformada em uma igreja, onde principalmente mulheres de meia-idade vestidas para o trabalho cantavam, pregavam e encontravam consolo. Era “um ritual diário”, como Mofokeng chamou. Apesar da lógica desumanizadora da economia do apartheid, os trabalhadores negros estavam ativamente construindo a vida cultural e espiritual que o sistema foi projetado para negar. O compromisso de Mofokeng era fotografar “sul-africanos negros comuns levando a vida cotidiana” – sobrevivência e vida coletiva como resistência.

Mãos em adoração, Linha Joanesburgo–Soweto da série Igreja do Trem, 1986. Crédito: Santu Mofokeng.

Nenhum desses fotógrafos trabalhou sozinho; todos estavam imersos nessa vida coletiva, e muitos estavam envolvidos na organização política. Omar Badsha, nascido na comunidade indiana de Durban em 1945, foi um sindicalista antes de se tornar fotógrafo, servindo como o primeiro secretário-geral do Sindicato dos Trabalhadores Químicos. Ele comprou sua primeira câmera em 1975 para documentar as condições das fábricas e para ensinar trabalhadores. Em 1981, Badsha ajudou a iniciar a Afrapix, um coletivo de cerca de quarenta mulheres e homens fotógrafos que operava a partir da Casa Khotso do Conselho Sul-Africano de Igrejas em Joanesburgo – invadida e posteriormente bombardeada em 1986 – e mantinha câmaras escuras em Durban e na Cidade do Cabo.

Um fio conectando todo esse trabalho fotográfico e político era a Consciência Negra, um movimento e um conjunto de ideias articulados pela primeira vez por Steve Biko. No Manifesto de política da organização dos estudantes sul-africanos de 1973, Biko escreveu que o Movimento da Consciência Negra “busca infundir à comunidade negra um novo orgulho em si mesma, em seus esforços, em seus sistemas de valores, em sua cultura, em sua religião e em sua visão de vida”. O “homem negro”, conforme definido por Biko, era uma categoria política, nomeando todos aqueles que o estado do apartheid havia classificado em suas camadas não brancas – os trabalhadores africanos das minas e dos subúrbios, os trabalhadores mestiços das fábricas e docas do Cabo, os descendentes dos trabalhadores indianos e chineses contratados que a Grã-Bretanha enviou para cortar açúcar ou trabalhar nas minas de ouro – e os mantinha como uma maioria definida por sua relação com o capital branco. Por essa razão, Biko enfatizou que “a importância da solidariedade negra para os diversos segmentos da comunidade negra não deve ser subestimada”. A fotografia do movimento anti-apartheid também visava visibilizar toda uma ordem visual e racial colonial e construir a solidariedade para desmantelá-la.

Apenas uma pequena atrocidade, nas profundezas da cidade

Cinquenta anos depois, mais de três décadas após o fim legal do apartheid, o sistema racial-capitalista permanece. A fotografia de Hector Pieterson e a comemoração anual de 16 de junho em Soweto continuam inspirando novas gerações de jovens na África do Sul, em todo o continente e em toda a diáspora em suas próprias lutas pelo trabalho inacabado da libertação.

Jovens em Diepsloot, Joanesburgo, silhuetados contra o céu noturno, anos 1970. Crédito: Alf Kumalo.

A luta não é apenas sul-africana. Desde que o genocídio contra os palestinos cometido por Israel e apoiado pelos EUA começou em outubro de 2023, mais de duzentos jornalistas palestinos – entre eles fotógrafos – foram mortos. Entre aqueles que forçaram o mundo a continuar vendo Gaza estão Bisan Owda, cujos vídeos diários nas redes sociais de Gaza alcançaram dezenas de milhões, e Wael Dahdouh, o chefe de escritório da Al Jazeera que continuou a reportar após enterrar seu filho, o cinegrafista Hamza Dahdouh, em janeiro de 2024. Ao lado deles estão incontáveis fotógrafos, jornalistas e pessoas comuns palestinas documentando a destruição de seu próprio mundo à medida que se desenrola. O dossiê do Tricontinental, Apesar de tudo: resistência cultural por uma Palestina livre, traça o arco mais longo dos trabalhadores culturais palestinos ao documentar a resistência desde a Nakba, insistindo que uma luta sem documentação não é uma luta.

Como Miriam Makeba cantou em “Soweto Blues“, o Estado tentou reduzir o massacre a “apenas uma pequena atrocidade, no fundo da cidade”. Cinquenta anos depois, as fotografias, canções, testemunhos e arquivos da luta continuam a recusar essa anulação:

As crianças receberam uma carta do mestre
Dizia: sem mais Xhosa, Sotho, sem mais Zulu
Recusando-se a obedecer, enviaram uma resposta
Foi então que os policiais vieram em socorro
Crianças estavam voando, balas, morte
Mães gritando e chorando
Os pais estavam trabalhando nas cidades
O noticiário da noite trouxe toda a publicidade:
Apenas uma pequena atrocidade, nas profundezas da cidade

Em solidariedade,

Tings Chak

Diretora de arte do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social

Amílcar Cabral

Esta edição conta com a participação de 17 editoras de diversos países do Sul Global, além da Fundação Amílcar Cabral, de Cabo Verde e o Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. São textos que recuperam a importância da Revolução Russa e do legado de Lenin para as lutas anticoloniais, em especial, para os processos de libertação na África nos anos 1970. Este livro conta com uma apresentação de Desmond Fonseca que contextualiza a vida e o pensamento de Amílcar Cabral na história de Guiné Bissau, Cabo Verde e do movimento de esquerda. Além disso, os textos de Luiz Fonseca, presidente da Fundação Amílcar Cabral, em Cabo Verde, e de João Pedro Stedile, da coordenação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra do Brasil, recuperam a importância e a atualidade do pensamento e da práxis de Amílcar Cabral para as lutas sociais hoje.

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O dilema do Leste Asiático: contradições e possibilidades na Nova Guerra Fria

As imagens deste dossiê, editadas pelo departamento de arte do Instituto Tricontinental, destacam o trabalho de Kinjo Minoru, um escultor okinawano que homenageia as gerações que resistiram à guerra e à ocupação. Durante décadas, Kinjo esculpiu as atrocidades cometidas durante e após a Guerra Mundial Antifascista (amplamente conhecida como Segunda Guerra Mundial). Kinjo trabalha com concreto, gesso e metal – os mesmos materiais que agora estão sendo usados ​​em Okinawa para construir mais uma base militar estadunidense. Em Okinawa – hoje uma linha de frente da Nova Guerra Fria – as esculturas de Kinjo representam memória e refutação material: uma história áspera e pesada que se recusa a ser suavizada.1

Quando os Estados Unidos e Israel iniciaram sua guerra ilegal de agressão contra o Irã em 28 de fevereiro de 2026, era inevitável que o Irã retaliasse restringindo o tráfego pelo Estreito de Ormuz. Embora o país nunca tenha fechado ou limitado a circulação pelo estreito anteriormente, o governo de Teerã deixou claro que a geografia do estreito passaria a fazer parte de sua estratégia defensiva caso fosse provocado. Para as nações da Ásia, o Estreito de Ormuz e o Estreito de Malaca são rotas vitais — pontos de controle — para o fluxo de mercadorias, especialmente energia. Cerca de 90% do petróleo do Japão e 75% do da Coreia do Sul passam pelo estreito. Qualquer lentidão no estreito afeta drasticamente as economias industriais do Leste Asiático, que consomem muita energia. Do ponto de vista econômico, a guerra dos EUA e de Israel contra o Irã é também uma guerra contra os interesses do Japão e da Coreia do Sul — e, na verdade, de todos os países asiáticos que dependem do petróleo do Golfo Pérsico. Apesar disso, muitos países asiáticos mantiveram silêncio diplomático ou, como no caso do Japão e da Coreia do Sul, apoiaram abertamente os Estados Unidos.

Países como o Japão e a Coreia do Sul alinham-se com os Estados Unidos contra seus próprios interesses econômicos porque foram integrados à estrutura militar estadunidense após o fim da Guerra Mundial Antifascista (amplamente conhecida como Segunda Guerra Mundial) (Instituto Tricontinental, 2025). A presença contínua de enormes bases militares estadunidenses nesses países acaba por arrastá-los inexoravelmente para as guerras intermináveis dos Estados Unidos. Esses países não podem romper com os EUA na questão da guerra contra o Irã enquanto estiverem militarmente subordinados a ele.

O principal alvo militar dos EUA na Ásia não é o Irã, mas a China, que é um dos principais parceiros comerciais do Japão, da Coreia do Sul, das Filipinas, de Taiwan e da maioria dos outros países asiáticos. Dado o papel central da China nas cadeias industriais da região, qualquer ação hostil contra o país perturbaria todo o paradigma de desenvolvimento do Leste Asiático. Em contrapartida, os Estados Unidos continuam sendo o principal patrocinador militar do Japão, da Coreia do Sul, das Filipinas e de Taiwan, além de constituírem um importante mercado de exportação para vários desses países. Isso coloca essas economias em uma situação delicada: elas não conseguem romper facilmente com sua dependência militar e financeira dos EUA, nem com sua relação econômica vital com a China — a nova fábrica do mundo.

Em O dilema da Ásia Oriental: contradições e possibilidades na Nova Guerra Fria, analisamos como o Japão, a Coreia do Sul, as Filipinas e Taiwan se encontram presos em uma contradição intransponível que persiste independentemente das mudanças no governo. Embora nosso foco seja o Leste Asiático, também analisamos brevemente o papel de países como a Austrália e a Índia neste contexto. As contradições exploradas neste dossiê são principalmente de natureza econômica e geopolítica; no entanto, elas oferecem possibilidades para impulsionar a luta de classes nessas sociedades, ao revelarem a necessidade de romper com as alianças subordinadas ao imperialismo.


O Leste Asiático e o papel da China

Nos últimos trinta anos, o Japão, a Coreia do Sul, as Filipinas e Taiwan passaram por uma mudança radical em seus padrões comerciais e trajetórias de desenvolvimento (Glawe; Wagner, 2021; Asian Development Bank, 2025). Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos foram o principal pilar da ordem econômica da região, seguidos pelo Japão no final do século XX (Chalmers, 1982; Aoki, 1995). Hoje, o novo centro de gravidade é a China, que desempenha um papel central — embora desigual — nessas economias. Embora cada um tenha seu próprio modelo de desenvolvimento e relação política com Beijing, os quatro estão profundamente integrados a uma rede de produção na qual a China atua como centro de manufatura, âncora da cadeia de suprimentos e principal mercado.

Estudos realizados pelo Banco Mundial e pelo Banco Asiático de Desenvolvimento demonstraram claramente a importância econômica da China no Leste Asiático (Asian Development Bank, 2025). A China é o maior parceiro comercial do Japão e da Coreia do Sul, respondendo por cerca de 20% a 25% das exportações de cada um desses países. A relação de Taiwan é ainda mais forte, com 30% a 40% de suas exportações destinadas à China. As Filipinas estão menos integradas, mas a China continua figurando entre seus principais parceiros comerciais, absorvendo cerca de 15% a 20% de suas exportações. Esses números indicam que uma parcela significativa da atividade econômica do Leste Asiático está diretamente ligada à demanda das indústrias chinesas (Yifu, 2012).

Quando analisada em relação à produção econômica global, a importância da China torna-se ainda mais evidente. O comércio com a China, ou seja, o total das exportações para o país, representa um décimo do Produto Interno Bruto (PIB) da Coreia do Sul. Um quarto do PIB de Taiwan está ligado ao comércio com a China continental. O Japão, cuja economia é muito mais voltada para o mercado interno, tem, no entanto, 5% do seu PIB vinculado às exportações para a China (aproximadamente a mesma porcentagem do seu PIB está vinculada aos EUA, o que inclui o impacto econômico das 120 instalações militares estadunidenses no Japão). Embora as Filipinas sejam um país menos dependente das exportações, cerca de 6% do seu PIB está ligado às exportações para a China (Comtrade, s.d.). A vitalidade da economia chinesa está, portanto, diretamente ligada aos níveis de produção, emprego e investimento em todo o Leste Asiático.

Na cúpula da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean) de 2011, realizada em Bali, na Indonésia, os Estados-membros discutiram a necessidade de criar um enquadramento regional para a integração econômica. Essas discussões acabaram por conduzir à Parceria Econômica Regional Abrangente (RCEP), um acordo comercial assinado em 2020 e que entrou em vigor em janeiro de 2022. A RCEP representa cerca de 30% da população mundial e 30% do PIB global. Abrangendo economias que vão da Nova Zelândia ao Japão, o bloco reúne uma variedade de setores, da mineração à alta tecnologia, e um mercado de 2,2 bilhões de consumidores. Os signatários concordaram em reduzir ou eliminar 92% das tarifas ao longo de vinte anos. O Japão, a Coreia do Sul e as Filipinas fazem parte da RCEP, que reforça os fluxos comerciais e formaliza o espaço econômico interconectado no qual a China é a maior economia (Cheng, 2023).

Por trás dos dados comerciais agregados, a estrutura da produção reforça ainda mais essa integração. A China não é apenas um mercado de destino, mas também um nó central nas cadeias industriais regionais e globais, na qualidade de grande consumidora e produtora de bens intermediários. Empresas japonesas e sul-coreanas exportam componentes de alto valor — como máquinas e peças automotivas, produtos petroquímicos e semicondutores — que muitas vezes são montados ou processados na China antes de serem exportados globalmente. A indústria de semicondutores de Taiwan está intimamente ligada à indústria manufatureira chinesa, já que os chips produzidos em Taiwan são frequentemente enviados para a China para serem incorporados em produtos eletrônicos acabados (Tinn, 2025; Sinha, 2026). Essas estruturas de produção integradas geraram interdependências setoriais. A indústria de semicondutores da Coreia do Sul — liderada por empresas como a Samsung Electronics e a SK Hynix — depende da demanda da indústria eletrônica chinesa. Os setores automotivo e de maquinário do Japão — liderados por empresas como Toyota, Honda, Nissan, Mazda, Komatsu, Hitachi e Mitsubishi — dependem dos consumidores chineses e das redes de produção do país.

Em conjunto, essas ligações comerciais e de produção mostram que todas as quatro economias estão estruturalmente ligadas à China, embora o grau de integração varie (sendo mais elevado em Taiwan e na Coreia do Sul e mais moderado no Japão e nas Filipinas). Isso gera tanto oportunidades de crescimento quanto pontos vulneráveis, à medida que a pressão dos EUA sobre a China se reflete em toda a região.

A rede de bases militares dos EUA

Na última década, os Estados Unidos consolidaram uma estratégia militar coerente com o objetivo de cercar a China. Essa “estratégia de negação” foi formalizada em sucessivos documentos da Estratégia de Defesa Nacional dos EUA e exposta de forma proeminente no livro de Elbridge A. Colby, de 2021, intitulado The Strategy of Denial: American Defense in an Age of Great Power Conflict. Colby liderou a elaboração da Estratégia de Defesa Nacional de 2018 enquanto subsecretário adjunto de Defesa para Estratégia e Desenvolvimento de Forças durante o primeiro mandato de Trump e é, atualmente, subsecretário de Guerra para Políticas dos Estados Unidos, além de ser um dos principais estrategistas por trás da abordagem do governo Trump em relação à China (Colby, 2021). No cerne da estratégia de negação está a ideia de que o Indo-Pacífico — que se estende da África Oriental até a costa oeste dos Estados Unidos e abrange os oceanos Índico e Pacífico — é a região economicamente mais importante do mundo. Os interesses estratégicos dos EUA dependem de impedir que a China suplante a primazia estadunidense na região do Indo-Pacífico. A estratégia se baseia na dissuasão por meio da superioridade militar e da coordenação entre aliados, que foi institucionalizada por meio do Diálogo Quadrilateral de Segurança, ou Quad, que reúne Austrália, Índia, Japão e Estados Unidos (2017); do AUKUS, a parceria trilateral de segurança entre Austrália, Reino Unido e Estados Unidos (2021); da Iniciativa de Dissuasão do Pacífico, um quadro de financiamento militar e postura de forças dos EUA para a região Indo-Pacífico (2021); e do Acordo Trilateral EUA-Japão-Coreia do Sul (2023) (Fernandes, 2022; Fowler, 2024; Wagner; Song, 2023).

Em vez de um confronto direto, como no caso do Irã, os EUA buscam elevar os custos de defesa da China a um nível inaceitável, fortalecendo o sistema de alianças baseado em Washington e o posicionamento avançado das bases militares americanas. Atualmente, existem cerca de 270 instalações militares dos EUA, que se estendem desde Diego Garcia, no Arquipélago de Chagos, até Guam. No cerne dessa estratégia está a convicção de Washington de que uma capacidade militar confiável dos EUA pode limitar as opções estratégicas da China, ao mesmo tempo que preserva uma ordem regional liderada pelos EUA e continua aproveitando o papel da China como motor econômico da região.

Taiwan ocupa um lugar fundamental nesse enquadramento estadunidense (Zhao; Yang, 2024). Em 1º de janeiro de 1979, os Estados Unidos reconheceram formalmente a República Popular da China e aceitaram a posição de Beijing de que existe uma “China Única”, da qual Taiwan faz parte. No entanto, em 10 de abril de 1979, o Congresso dos Estados Unidos aprovou a Lei de Relações com Taiwan, que estabeleceu a base jurídica para que Washington mantivesse relações não oficiais com Taiwan. Isso permitiu que os EUA adotassem uma postura ambígua, reconhecendo formalmente o princípio de “Uma China”, ao mesmo tempo que provocavam Beijing por meio da venda de armas a Taiwan e mantinham laços econômicos e culturais diretos com Taipei. Desde 1950, os Estados Unidos venderam a Taiwan quase 50 bilhões de dólares em equipamentos e serviços de defesa (Council on Foreign Relations, 2023). Para os EUA, a questão do status de Taiwan não é apenas política, mas também estratégica, pois a reunificação de Taiwan com o continente proporcionaria à China um acesso significativamente maior ao Oceano Pacífico. Para Washington, Taiwan funciona como um instrumento para pressionar Beijing e conter a China.

A estratégia de contenção dos EUA está organizada geograficamente por meio de um sistema de cerco que começa com a primeira cadeia de ilhas (um arco de ilhas que se estende do Japão às Filipinas e funciona como uma barreira ao acesso da China ao Oceano Pacífico). Isso se estende à “profundidade do cerco” mais ampla que abrange Diego Garcia, o Sri Lanka e as bases estadunidenses na região do Golfo Pérsico.2 Os Estados Unidos desenvolveram uma rede de bases e acordos de acesso ao longo dessa cadeia para controlar pontos-chave e rotas marítimas, restringindo a mobilidade militar chinesa. Essa estratégia de cerco inclui não apenas grandes instalações militares permanentes (como as do Japão e da Coreia do Sul), mas também, cada vez mais, uma rede dispersa de bases menores e mais flexíveis espalhadas pelos oceanos Pacífico e Índico, destinadas a reforçar a resiliência militar. As bases estão integradas a sistemas de vigilância, inteligência e mísseis que permitem o monitoramento e uma resposta rápida. Em conjunto, essa rede militar constitui um sistema estruturado de contenção. Embora os documentos de segurança nacional dos EUA apresentem isso como dissuasão defensiva, o posicionamento efetivo das forças estadunidenses ao longo da fronteira com a China gera tensões, em vez de resolvê-las.

O quadro estratégico dos EUA de contenção e cerco tem sido posto em prática por meio de uma expansão contínua das capacidades militares e da infraestrutura dos EUA no Leste Asiático, especialmente nas últimas duas décadas e com intensidade crescente desde 2020. Os EUA também têm financiado exercícios militares em grande escala, como o Exercício Balikatan (com as Filipinas), o Exercício Malabar (com a Austrália, a Índia e o Japão) e o Exercício Talisman Sabre (com a Austrália). Esses esforços são elaborados de forma a melhorar a interoperabilidade militar e transformar os aliados dos EUA de parceiros regionais em participantes de primeira linha na contenção da China.

Um dos marcos mais recentes promovidos pelos EUA é a Iniciativa de Dissuasão do Pacífico (PDI, na sigla em inglês), estabelecida pela Lei de Autorização de Defesa Nacional dos EUA de 2021 (Prashad et al., 2022). A PDI garante financiamento específico para o envio de forças, infraestrutura de bases, defesa antimísseis e exercícios conjuntos com aliados dos EUA, como Japão, Coreia do Sul e Filipinas. No Japão, a PDI garantiu melhorias na defesa antimísseis e nas forças de mobilização rápida. Na Coreia do Sul, ela possibilitou a realização de exercícios conjuntos, enquanto nas Filipinas permitiu a modernização das bases estadunidenses e dos sistemas de vigilância. A PDI também sustenta a integração e a implantação de sistemas de mísseis de precisão de longo alcance em toda a região do Indo-Pacífico. Isso inclui o reforço das capacidades de defesa aérea e antimísseis que foram implementadas em bases militares dos EUA em locais como Guam e as Ilhas Marianas, bem como na Base Aérea de Basa, nas Filipinas (para a qual o governo dos EUA destinou cerca de 66 milhões de dólares em 2023) (Heydarian, 2023). A PDI garante sistemas de inteligência, vigilância e reconhecimento que aprimoram o monitoramento das atividades militares na região e possibilitam o que é conhecido como “ataques de precisão” — a identificação rápida e o ataque preciso de alvos militares.

Esses acontecimentos transformaram países como o Japão, a Coreia do Sul e as Filipinas em plataformas operacionais avançadas para a agressão dos EUA.

Semeando o conflito: contradições de classe e os limites da democracia

A estratégia de contenção dos EUA depende não apenas da integração militar, mas também do alinhamento das classes dominantes ao longo da primeira cadeia de ilhas em uma postura coordenada contra a China — particularmente no Japão, em Taiwan e nas Filipinas, e, de forma mais ampla, na vizinha Coreia do Sul. Essa aliança reflete os interesses das elites industriais, militares e políticas nacionais ligadas ao poder dos Estados Unidos. Em todo o Japão, Coreia do Sul, Filipinas e Taiwan, o aprofundamento da integração militar com os EUA agrava as contradições de classe existentes e expõe as limitações dos sistemas eleitorais. Embora isso gere resistência da base, esses sistemas políticos são concebidos para impedir o crescimento de qualquer força que seja contrária à intervenção dos EUA. Além disso, cada uma dessas sociedades carrega as marcas da Guerra Mundial Antifascista e da presença militar estadunidense no pós-guerra, incluindo bases militares que hoje parecem permanentes — uma experiência que continua definindo a visão política desses “Estados clientes”.3

Japão

O sistema político japonês do pós-guerra tem sido dominado pelo Partido Liberal Democrático (PLD), uma formação política de direita a extrema direita com laços estreitos com o Estado e o capital dos Estados Unidos. Embora seja formalmente democrático, o sistema político do Japão é, na prática, dominado por um único partido, com o PLD no poder durante todos os anos, exceto quatro, desde sua fundação em 1955. Embora o artigo 9 da Constituição japonesa de 1947, por vezes denominado “cláusula pacifista”, proíba o reforço militar para além da defesa mínima, a direita política tem defendido a sua revogação desde o mandato do primeiro-ministro Nobusuke Kishi (1957-1960). Em 2014, durante o mandato do neto de Kishi, Shinzō Abe (2012-2020), o artigo 9 foi reinterpretado para permitir a “autodefesa coletiva”, possibilitando a expansão dos gastos militares japoneses — que aumentaram significativamente desde 2022, sob os mandatos dos primeiros-ministros Fumio Kishida, Shigeru Ishiba e Sanae Takaichi. Entre 2023 e 2024, os gastos militares do Japão aumentaram 21%, representando 1,4% do PIB do país (Sipri, 2025). Em abril de 2026, sob o governo de Takaichi, o Japão suspendeu a proibição da exportação de armas letais, que havia sido instituída com base na lógica de que um país pacifista não deveria lucrar com as guerras.

A contradição entre o aumento dos gastos militares e as demandas democráticas para que a riqueza do Japão seja investida em necessidades sociais — exemplificada pelos protestos contra as bases militares em regiões mais pobres, como Okinawa — revela as limitações da democracia formal do país. A sociedade japonesa continua subordinada às prioridades militares definidas por uma elite interna permanente alinhada com os Estados Unidos.

A construção de uma nova base do Corpo de Fuzileiros Navais na área da Baía de Henoko-Oura, em Okinawa, destinada a substituir a Base Aérea de Futenma — há muito criticada por estar localizada no meio da densamente povoada Ginowan —, tem enfrentado oposição contínua desde 1996. Em 2018, Denny Tamaki foi eleito governador de Okinawa com uma plataforma contrária à base; em um referendo provincial realizado em 2019, 70% dos votantes se opuseram à sua construção. Apesar desses mandatos democráticos e de décadas de contestação judicial, o governo central do Japão prossegue com as operações de aterro que estão destruindo os ecossistemas de corais da Baía de Oura em nome das Forças Armadas dos Estados Unidos (Mitchell, 2026). Organizações como o Conselho de Toda Okinawa contra a Construção da Nova Base em Henoko, o Centro do Movimento pela Paz de Okinawa, o Projeto de Justiça Ambiental de Okinawa e os manifestantes do acampamento de Henoko — que mantêm uma resistência diária há mais de duas décadas — representam uma política que vincula a luta local a questões mais amplas de imperialismo e autodeterminação (McCormack, 2018).

Coreia do Sul

A história política da Coreia do Sul é marcada por uma intensa luta de classes. Nascida em meio à Guerra da Coreia, que teve início em 1950 e permanece formalmente sem solução – uma vez que o armistício de 1953 não resultou em um tratado de paz –, a Coreia do Sul tem sido tratada pelos Estados Unidos como uma base militar e um baluarte econômico contra o comunismo. Embora o país tenha sido governado por governos pró-EUA, incluindo uma ditadura militar de 1967 a 1988, seu sistema político tem se mostrado mais dinâmico do que o do Japão: nenhum partido isolado governou de forma ininterrupta. No entanto, os governos eleitos, tanto conservadores quanto liberais, continuam estruturalmente dependentes dos Estados Unidos. Essa dinâmica se evidenciou tanto durante o governo de Yoon Suk-yeol, um conservador fortemente alinhado com os Estados Unidos e os chaebols (conglomerados sul-coreanos), quanto durante o governo de Moon Jae-in, um liberal que buscava uma autonomia limitada, mas continuava vinculado ao capital orientado para a exportação e aos chaebols. De fato, em 2018, durante a presidência liberal de Moon Jae-in, os gastos militares da Coreia do Sul subiram para 2,5% do PIB, estabelecendo um patamar que os orçamentos anuais subsequentes continuaram buscando (subindo para 2,6% em 2022) (World Bank, s.d.).

Desde meados da década de 2010, a Coreia do Sul tem vivenciado uma onda de lutas democráticas, que vão da Revolução das Velas ou Chot-bul Hyuk-myung (2016-2017), que destituiu a presidenta Park Geun-hye do cargo, até a Revolução das Luzes ou Bit-eh Hyuk-myung (2024-2025), que buscou defender a democracia sul-coreana contra a lei marcial imposta pelo presidente Yoon Suk-yeol em dezembro de 2024. Apesar das repetidas mobilizações da classe trabalhadora e da sociedade civil contra a desigualdade e dos apelos por uma maior independência na política externa, a subordinação da Coreia do Sul aos Estados Unidos tem impedido essa transformação. Além disso, a dependência econômica e militar da Coreia do Sul em relação aos EUA significa que o país é obrigado a adotar medidas profundamente impopulares, como o envio de tropas coreanas ao Iraque ou a instalação do sistema antimísseis balísticos, o Terminal High Altitude Area Defense (THAAD). Desde a sua fundação, a Coreia do Sul tem alinhado sua política externa à dos Estados Unidos. Uma das consequências disso é que o fracasso da Cúpula de Hanói entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos, em 2019, levou a um congelamento nas relações intercoreanas (Song, 2024). Enquanto isso, o estreitamento das relações entre a República Popular Democrática da Coreia (RPDC) e a Rússia ampliou a margem de manobra de Pyongyang.

Em junho de 2025, Lee Jae-myung foi eleito presidente após ter contribuído para impedir que o presidente Yoon impusesse a lei marcial alguns meses antes. Apesar de ser advogado especializado em direitos humanos e direito do trabalho, o presidente Lee continuou estreitando os laços entre o complexo militar-industrial da Coreia do Sul e os Estados Unidos. Embora Lee tenha tentado recuperar o controle operacional das Forças Armadas da Coreia do Sul em tempo de guerra, suas concessões econômicas ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, integraram ainda mais a Coreia do Sul à máquina de guerra estadunidense. Lee não só concordou com os apelos dos EUA para que os aliados destinem 3,5% do PIB à defesa, como também estabeleceu que a Coreia do Sul também investirá 350 bilhões de dólares nos próximos dez anos para aumentar a produção de semicondutores nos EUA (cujo uso duplo permite a expansão da IA militar) e ampliar a construção naval estadunidense, ajudando a aliviar os gargalos crônicos na base industrial marítima dos EUA — um impulso refletido no slogan coreano bajulador MASGA: Make American Shipbuilding Great Again [Tornemos a construção naval dos EUA grande novamente]. Mais especificamente, a aquisição do Estaleiro da Filadélfia pelo Grupo Hanwha da Coreia do Sul, em 2024, permite que este sirva como uma solução potencial para a demanda reprimida por submarinos de propulsão nuclear na Marinha dos Estados Unidos e contribua para a produção de navios de guerra da corporação. Além disso, a Coreia do Sul acolhe a presença da Força Espacial dos EUA e coopera na criação de uma rede de satélites interoperáveis para o “Golden Dome” de Trump, um sistema de defesa antimíssil (Song, 2024). Todas essas medidas permitiram que a Coreia do Sul se unisse a Israel no seleto grupo de “aliados exemplares” dos Estados Unidos (US Department of war, 2026).

Filipinas

As Filipinas têm enfrentado dificuldades para afirmar sua soberania desde a ocupação pelos Estados Unidos em 1898. O poder político no país tem sido dominado por algumas famílias da elite (por exemplo, o atual presidente, Bongbong Marcos, é filho de Ferdinand Marcos, que governou o país de 1965 a 1986). O país dependia inteiramente dos Estados Unidos para seus planos de segurança até 1991 e, em 1995, lançou o Programa de Modernização das Forças Armadas das Filipinas, que permitiu a expansão da Marinha e da Força Aérea filipinas, principalmente por meio da aquisição de equipamento militar estadunidense. As Forças Armadas das Filipinas se tornaram integradas às dos Estados Unidos por meio de intervenções e exercícios conjuntos.

A estrutura do domínio dos Estados Unidos sobre as Filipinas é mais bem ilustrada pelo Acordo de Cooperação Reforçada em Defesa (EDCA, na sigla em inglês), assinado pela primeira vez em 2014 e posteriormente ampliado em 2022. O EDCA permite que as forças militares dos EUA tenham acesso rotativo às bases militares filipinas, possibilitando o pré-posicionamento de equipamentos, o treinamento conjunto e a construção de infraestrutura militar dos EUA nessas instalações, com supervisão mínima por parte do governo filipino.

Em 2023, no início do governo de Marcos Jr., o número de locais designados no âmbito do EDCA quase dobrou (passando de cinco para nove). A Base Naval Camilo Osias e o Aeroporto de Lal-lo estão localizados no extremo norte das Filipinas, permitindo uma “resposta rápida” a conflitos no Estreito de Taiwan (Guzman, 2023). Essas duas bases contam com o apoio do Acampamento Melchor F. Dela Cruz, localizado no vale montanhoso de Cagayan, que funciona como base logística. A presença dos EUA nessas instalações ajuda Washington a projetar sua força por meio do Estreito de Luzon, que as Filipinas compartilham geograficamente com Taiwan. O quarto local recém-designado ainda não foi divulgado publicamente, mas sua localização deixa clara sua importância para a projeção de poder dos EUA no Mar da China Meridional. Por meio do EDCA, as forças estadunidenses realizam o Exercício Balikatan, que atingiu uma escala sem precedentes durante o governo de Marcos Jr., com a participação do Japão prevista para 2025. Organizações da sociedade civil e ativistas pela paz continuam debatendo as implicações da estreita aliança do governo de Marcos Jr. com os Estados Unidos. Essa aliança tem se desenvolvido em paralelo a uma repressão cada vez mais intensa contra ativistas e militantes rurais, incluindo o assassinato de dezenove pessoas pelas tropas filipinas em Toboso, Negros Ocidental, em abril de 2026 — um incidente que grupos de direitos humanos têm exigido que seja investigado de forma independente.

Taiwan

Após a derrota do partido nacionalista Kuomintang (KMT) na Revolução Chinesa, este se refugiou na ilha de Taiwan sob a liderança de Jiǎng Jièshí (Chiang Kai-shek na antiga transliteração) e ali estabeleceu o seu governo. O KMT governou Taiwan sob a lei marcial por trinta e oito anos, até 1987, e depois continuou a governar em um sistema eleitoral dominado por um único partido até 2000. Desde então, o Partido Democrático Progressista (PDP) tem estado, em grande parte, no poder, conduzindo a política taiwanesa cada vez mais na direção do separatismo em relação à China continental e de uma integração mais profunda da ilha nos planos estratégicos dos Estados Unidos. O PDP reflete uma coalizão de tecnocapitalistas, elites separatistas e instituições militares, enquanto o KMT conta com o apoio de empresas com interesses no comércio entre os dois lados do Estreito com a China. Ambos, no entanto, atuam dentro de um escopo definido pelas prioridades estratégicas dos Estados Unidos. Desde 2022, os gastos militares de Taiwan e o apoio militar dos EUA têm apresentado um padrão de fortalecimento constante e coordenado, em vez de um rearmamento repentino. O orçamento militar de Taiwan disparou, chegando a aproximadamente 30 bilhões de dólares em 2026. Os gastos militares aumentaram de 2% do PIB na década de 2010 para 3,3% em 2026, com planos de chegar a 5% até 2030. Esse enorme desvio de recursos recai sobre uma sociedade que já enfrenta salários estagnados e aumento do custo de vida.

O orçamento militar financia a compra de armas e enriquece as empresas do setor de defesa dos EUA. As vendas de armamento estadunidense a Taiwan tornaram-se mais frequentes, com pacotes de armas regulares focados em mísseis, defesa aérea e drones. Entre 2019 e 2024, os Estados Unidos aprovaram mais de 32 bilhões de dólares em vendas de armas para a ilha, incluindo caças F-16V (8 bilhões), tanques M1A2 Abrams (2 bilhões), sistemas de foguetes HIMARS (436 milhões) e mísseis de defesa costeira Harpoon, com novos pacotes de grande porte, no valor de mais de 11 bilhões de dólares, anunciados em 2025 (No Cold War, 2023). Mas a venda de armas já não é o único limite do envolvimento militar dos EUA. Desde 2024, as Forças Especiais do Exército dos EUA, conhecidas popularmente como Boinas Verdes, estão estacionadas nas ilhas de Kinmen e Penghu, marcando a primeira presença militar duradoura dos EUA em território taiwanês em mais de quarenta anos. A escalada militar é, sem dúvida, impulsionada por Washington, criando as condições para uma crise que se autoalimenta por meio da militarização, ao mesmo tempo que as respostas chinesas são apresentadas como “provocações”.

A fragilidade política desse caminho rumo à militarização merece destaque. Lai Ching-te, do escritório do DPP, assumiu a presidência em 20 de maio de 2024 após obter apenas 40,1% dos votos, enquanto o KMT conquistou 33,5% e o Partido Popular de Taiwan (TPP), 26,5%. É importante destacar que a oposição, formada pelo KMT e pelo TPP, controla o Yuan — o órgão legislativo máximo de Taiwan — pela primeira vez desde 2016. Dos 113 assentos, 52 são ocupados pelo KMT, 8 pelo TPP e 51 pelo DPP. Essa abertura política ficou evidente em abril de 2026, quando a presidenta do KMT, Cheng Li-wun, visitou Beijing e se reuniu com Xi Jinping — a primeira visita desse tipo realizada por uma liderança do partido em uma década —, sinalizando que parte da oposição está tentando retomar o diálogo entre os dois lados do estreito, em vez de seguir o caminho de escalada militar traçado pelo DPP. O legislativo, portanto, não tem respaldado a escalada militar defendida pelo DPP.

Uma pesquisa de opinião pública realizada pelo Centro de Estudos Eleitorais da Universidade Nacional Chengchi revela que apenas 3,8% da população, o menor índice desde 2002, apoia a “independência imediata”, enquanto 1,2% defende a unificação imediata. Enquanto isso, de 83% a 88% preferem a manutenção do status quo, com um recorde de 33,2% que desejam o “status quo indefinidamente” (National Chengchi University Election Study Center, 2025). A postura de confronto do DPP com a China continental, intensificada com a Lei Anti-Infiltração de 2019 – que visava conter a suposta influência política da China em Taiwan – carece agora tanto de mandato legislativo quanto de apoio popular.

Organizações unificacionistas de esquerda, como o Partido Trabalhista de Taiwan, têm argumentado que a base social do separatismo do DPP tem suas raízes nos colaboradores japoneses da era colonial e que a questão de Taiwan é um legado da intervenção dos EUA na Guerra Civil Chinesa. Os EUA não precisam ampliar formalmente sua presença na ilha da mesma forma que fazem no Japão ou nas Filipinas, já que o DPP apoia incondicionalmente a estratégia de contenção estadunidense. Essas tendências indicam uma integração militar cada vez mais estreita entre os EUA e Taiwan, aproximando-se, na prática, de uma quase-aliança, uma vez que um tratado formal provocaria uma reação de Beijing. Desde 2022, tem havido uma militarização contínua de Taiwan, marcada por momentos de total indiferença em relação ao próprio desenvolvimento nacional — os EUA chegaram até a sugerir a destruição das fábricas de semicondutores de Taiwan para proteger os interesses estadunidenses na ilha.4

Além da primeira cadeia de ilhas


A estratégia dos EUA para conter a China vai além da primeira cadeia de ilhas, operando por meio de alianças como o Aukus e o Quad. Esses acordos criam camadas sobrepostas de cooperação militar que restringem a mobilidade da China nas águas vizinhas e em toda a região do Indo-Pacífico. Eles também revelam tensões entre a interdependência econômica com a China e as alianças militares voltadas para o confronto. As contradições resultantes levantam dúvidas quanto à durabilidade dessas formações. Dois atores importantes destacam-se como figuras centrais nessa estrutura mais ampla: a Austrália e a Índia.

Austrália

A Austrália é membro da Five Eyes — uma rede de compartilhamento de informações liderada pelos EUA — e é um dos seis “Parceiros de Oportunidades Alargadas” da Otan. Nesse sentido, o país sempre desempenhou um papel fundamental na estratégia dos Estados Unidos na Ásia. O desenvolvimento mais significativo na aliança entre os EUA e a Austrália é o acordo Aukus, de 2021, que, em seu primeiro pilar, prevê o fornecimento de submarinos de ataque movidos a energia nuclear à Austrália. O programa teve início com o aumento das visitas de submarinos estadunidenses a portos australianos, seguidas por destacamentos rotativos em bases locais, e deverá culminar na aquisição, pela Marinha Real Australiana, de pelo menos oito submarinos de propulsão nuclear a partir da década de 2030 (sendo que uma parte deles será construída no país por meio de cooperação conjunta na década de 2040). Com um custo total estimado em mais de 264 bilhões de dólares, esses submarinos de propulsão nuclear são estratégicos, pois permitem operações de longo alcance nos oceanos Índico e Pacífico. Embora isso não seja explicitamente declarado, a interoperabilidade e a profunda dependência operacional em relação aos Estados Unidos fariam com que a Austrália se integrasse à posição dos EUA diante da China, inclusive nos esforços para controlar as rotas marítimas e apoiar as operações estadunidenses no Estreito de Taiwan ou no Mar da China Meridional.

Embora a Austrália já tenha pago 500 milhões de dólares a Washington, o governo Trump, que enfrenta seu próprio gargalo no programa de submarinos, está avaliando se fornecerá à Austrália os submarinos prometidos. Um relatório do Congresso chegou a considerar a possibilidade de manter os submarinos sob controle dos EUA e operá-los a partir de bases australianas, dada a relutância da Austrália em prometer intervenção militar em uma eventual guerra entre os EUA e a China, já que esta última é o maior parceiro comercial da Austrália (Doherty, 2026). Isso é revelador das contradições e tensões entre os interesses nacionais e os compromissos de aliança.

Índia

A posição da Índia na estrutura de contenção difere daquela do Japão ou de Taiwan. A Índia não mantém nenhuma aliança formal com os EUA, faz parte do Brics e da Organização para Cooperação de Xangai (OCX) e herda uma forte tradição de não-alinhamento. No entanto, a trajetória da política externa indiana na última década revela uma tendência de alinhamento com as preferências estratégicas dos EUA, muitas vezes disfarçada pela retórica da autonomia estratégica. A Índia assinou acordos de defesa com os EUA que integram as forças indianas às estruturas de comando, controle e inteligência estadunidenses. A aproximação da Índia com Washington torna-se ainda mais evidente quando analisada no contexto do enfraquecimento de suas relações com o Irã, um tradicional parceiro comercial e aliado. Quando o governo Trump restabeleceu as sanções contra o Irã em 2018 e exigiu a interrupção das compras de petróleo iraniano, a Índia atendeu à exigência, reduzindo as importações de 500 mil barris por dia para quase zero em maio de 2019. O cumprimento das exigências por parte da Índia significou abrir mão do petróleo iraniano mais barato e colocar em risco seus investimentos no porto de Chabahar, no Irã, um projeto de importância estratégica para a Índia, pois garante acesso à Ásia Central sem passar pelo Paquistão (Prashad, 2013; Karat, 2007; Bhadrakumar et al., 2007). Em 12 de março de 2025, entraram em vigor tarifas globais de 25% sobre o aço e o alumínio, elevando as tarifas sobre o aço e o alumínio indianos para 26%. Em 6 de agosto, Trump impôs uma tarifa adicional de 25% sobre os produtos indianos em resposta à compra de petróleo russo a preço reduzido pela Índia, elevando a alíquota acumulada para 50%. A Índia acabou concordando em suspender as compras de petróleo russo, mas não chegou a assinar um acordo comercial decisivo com os EUA após a Suprema Corte anular as tarifas impostas por Trump.

Apesar desses acordos com os EUA, a Índia continua sendo membro do grupo Brics e mantém relações econômicas importantes tanto com a China quanto com a Rússia. O comércio bilateral entre a Índia e a China cresceu 12% em relação ao ano anterior em 2025, atingindo 155,6 bilhões de dólares. A participação indiana na Organização para a Cooperação de Shanghai (OCX) se intensificou, especialmente após a visita do primeiro-ministro indiano Narendra Modi à cúpula de 2025 em Tianjin. Em 2018, a Índia assinou um contrato de 5,4 bilhões de dólares para adquirir o sistema de defesa aérea S-400 da Rússia, apesar das ameaças de sanções por parte dos Estados Unidos. O comércio entre a Índia e a Rússia cresceu significativamente nos últimos anos, impulsionado principalmente pelas compras de petróleo bruto russo a preços reduzidos, que passaram de níveis insignificantes antes de 2022 para um pico de dois milhões de barris por dia em 2025, tornando a Rússia o maior fornecedor de petróleo da Índia. O fato de a Índia manter relações comerciais com a Rússia e a China contrasta com sua participação no Quad e nos acordos de parceria com os EUA, revelando uma contradição no cerne do posicionamento da Índia. A Índia ilustra um padrão de coerção gradual por parte dos EUA; mesmo como parceira estratégica, a Índia não está imune à coerção imperial (Srujana, 2025; Instituto Tricontinental, 2026).

Fragilidade da aliança e contradições econômicas

A estratégia de negação parte do pressuposto de que os EUA podem convencer seus aliados a conter a China — uma suposição que se desmorona quando analisada com mais cuidado. A prosperidade material dos aliados dos EUA depende cada vez mais da integração econômica com a China, mesmo que os alinhamentos militares os comprometam em um possível conflito. Todas as regiões analisadas neste dossiê enfrentam a mesma contradição fundamental: o dilema entre a integração econômica com a China e o alinhamento militar contra ela. Em 2025, o comércio desses países com a China — 331 bilhões de dólares da Coreia do Sul, 322 bilhões do Japão, 73 bilhões das Filipinas e 207 bilhões da Austrália — superou em muito o comércio com os EUA — 241,2 bilhões de dólares com a Coreia do Sul, 228 bilhões com o Japão, 27 bilhões com as Filipinas e 89,6 bilhões com a Austrália. Até mesmo o comércio da Índia com a China (156 bilhões de dólares) é maior do que o comércio com os EUA (149 bilhões de dólares). Esses fluxos representam riqueza, empregos e receitas públicas que seriam devastados por uma guerra ou por um confronto prolongado com a China. Quando um conflito real se aproxima, esses interesses econômicos podem revelar-se mais decisivos do que compromissos militares abstratos.

Durante a guerra dos EUA contra o Iraque, importantes aliados estadunidenses se recusaram a participar, apesar da enorme pressão exercida pelos EUA e da invocação dos compromissos das alianças. Na Ásia, o Japão e a Coreia do Sul se recusaram a enviar forças de combate, embora tenham fornecido assistência logística e recursos para a reconstrução. Mais recentemente, nenhum dos aliados dos EUA (incluindo o Japão e a Coreia do Sul) atendeu às exigências de Trump para que enviassem navios para abrir o Estreito de Ormuz. Se os aliados se mostraram pouco confiáveis em uma guerra contra um adversário mais fraco, qual seria a probabilidade de sua participação em uma guerra contra a China, uma potência industrial e nuclear? A Austrália enviaria forças de combate para lutar contra a China, arriscando sofrer retaliações contra cidades australianas e a perder seu maior parceiro comercial? A Coreia do Sul participaria, se uma guerra regional pudesse desencadear uma intervenção da Coreia do Norte? Será que o povo japonês, traumatizado pelos bombardeios nucleares dos EUA, aceitaria baixas em combate? A Índia enviaria tropas, considerando que a situação de Taiwan não tem relevância direta para a segurança indiana e que tal participação colocaria em risco suas relações com a China e a Rússia? As Filipinas entrariam em conflito se isso significasse o risco de uma retaliação chinesa?

As alianças funcionam bem quando os custos permanecem hipotéticos e abstratos: exercícios conjuntos, compartilhamento de informações, aquisição de armamentos e coordenação diplomática. Elas enfrentam provações severas quando uma guerra real exige o sacrifício de vidas, a aceitação da devastação econômica e o risco da própria existência nacional em prol dos interesses de outra potência, especialmente quando essa potência é a agressora. A dependência da estratégia de negação em relação à participação dos aliados pode ser sua falha fatal caso surja um conflito, especialmente quando as alianças se baseiam na subordinação e na coerção, em vez de em interesses comuns genuínos.

Resistindo à máquina de guerra e construindo o multilateralismo

A Nova Guerra Fria que está surgindo, com foco no Leste Asiático, é uma resposta estratégica dos Estados Unidos à mudança do centro de gravidade da economia mundial. À medida que as capacidades econômicas e tecnológicas da China se expandem, a política dos EUA depende cada vez mais da força militar e das estruturas de alianças para manter sua influência estratégica na região do Indo-Pacífico (Instituto Tricontinental, 2024). Essa estratégia de contenção visa conter a China por meio da militarização, da coordenação de alianças e da modernização da defesa. Washington está construindo uma estrutura militar provocativa na região por meio de uma rede de iniciativas e parcerias.

Em toda a Ásia Oriental e na região do Indo-Pacífico, as implicações da crescente militarização são profundas. O Japão, a Coreia do Sul, as Filipinas, Taiwan, a Austrália e a Índia possuem infraestrutura militar significativa ou participam de uma cooperação militar que poderia colocá-los no centro de um grande conflito. Para muitas sociedades da região, a perspectiva de uma maior militarização suscita preocupações quanto aos custos de oportunidade, uma vez que os recursos destinados aos gastos com defesa competem com os investimentos em bem-estar social, infraestrutura, resiliência climática e desenvolvimento econômico.

Analistas de política externa e formuladores de políticas progressistas da região propuseram várias reformas com o objetivo de promover a paz e a redução das tensões. Entre elas estão medidas de fortalecimento da confiança em zonas de atrito, como o Estreito de Taiwan, novas iniciativas de controle de armas e mecanismos multilaterais para a gestão de disputas marítimas no Mar da China Meridional. As organizações regionais, em particular a Asean, são frequentemente citadas como plataformas potenciais para a promoção do diálogo e a gestão de conflitos.

Embora essas propostas sejam bem-vindas, qualquer transformação deve, inevitavelmente, partir do próprio povo organizado da região. Diversos movimentos sociais em toda a região continuam defendendo a diplomacia, a cooperação regional e a desmilitarização. Em Okinawa, organizações como o Projeto de Justiça Ambiental de Okinawa e o movimento “No More Battle of Okinawa” protestam contra a expansão das bases estadunidenses. Nas Filipinas, organizações como a Bagong Alyansang Makabayan (Bayan) se opõem à ampliação dos acordos de acesso militar e reivindicam maior soberania nacional. Na Coreia do Sul, partidos políticos e movimentos sociais, como a Ação Internacional Popular contra Trump, apoiam a retomada do diálogo diplomático para reduzir as tensões na Península Coreana. Debates semelhantes ocorrem em Taiwan, na Austrália, na Índia e em outras regiões que enfrentam o militarismo dos EUA.

A Assembleia Internacional dos Povos (AIP) — uma rede de cerca de 200 movimentos sociais, partidos políticos e sindicatos fundada em 2015 — tem trabalhado em estreita colaboração com organizações de base locais, promovendo a solidariedade e o consenso em questões fundamentais. Nesta conjuntura crucial, em que a militarização ameaça a paz e o desenvolvimento na Ásia e, na verdade, em todo o mundo, a AIP lançou a campanha “Hands-Off Asia” [Tire as mãos da Ásia]. Essa iniciativa gira em torno de quatro reivindicações para amenizar as tensões dessa Nova Guerra Fria na região:

  1. Retirar todas as bases militares estrangeiras e democratizar a segurança. As centenas de bases militares estrangeiras espalhadas pela região asiática devem ser removidas para que a política regional possa ser democratizada e a paz possa ser mais do que apenas uma preparação para a próxima guerra. Os Estados devem evitar a formação de blocos militares rígidos, limitar as mobilizações avançadas e se comprometer a impedir uma corrida armamentista. A política militar deve prestar contas ao público — deve haver supervisão por parte do Parlamento, dos governos locais e da sociedade civil sobre acordos militares, orçamentos de defesa e o envio de tropas ao exterior.
  2. Aumentar o contato entre as pessoas. Apoiar a cooperação entre sindicatos, grupos estudantis, organizações pela paz e movimentos sociais em toda a Ásia para se opor à corrida armamentista, às bases estrangeiras e à escalada do confronto. Incentivar o intercâmbio entre os povos, os laços culturais e a diplomacia de base além das fronteiras — especialmente entre sociedades em conflito ou sob tensão elevada — para construir uma cultura regional comum de paz.
  3. Institucionalizar um diálogo contínuo. Estabelecer canais de comunicação regulares e de alto nível, tanto políticos quanto entre as Forças Armadas, para gerenciar crises, reduzir erros de avaliação e construir a confiança mútua. Promover mecanismos práticos de fortalecimento da confiança, como linhas diretas e acordos de prevenção de incidentes.
  4. Priorizar a segurança cooperativa e os desafios comuns. Mudar o foco da competição de soma zero para a colaboração em questões fundamentais, como as mudanças climáticas, a saúde pública, a estabilidade econômica e o desenvolvimento, reforçando a interdependência como base para a paz. Promover campanhas pela redução dos gastos militares e pela realocação de recursos para a saúde, a ação climática, a educação e a redução da desigualdade, vinculando diretamente a paz à justiça social.

Por trás dessas dificuldades está uma mudança estrutural mais ampla na economia global. O crescimento da China como grande potência industrial remodelou as redes de produção globais e alterou a distribuição da influência econômica. Essas mudanças deram um novo impulso aos movimentos que lutam pela soberania em todo o Sul Global. Ainda não se sabe se essa transição levará a um multilateralismo estável e pacífico ou a uma competição mais acirrada. Muito depende de se a luta de classes poderá avançar de forma a orientar a agenda para a paz e o desenvolvimento, em vez de para a guerra e a austeridade.


Notas

1 Embora Okinawa represente apenas 0,6% da área territorial do Japão, abriga cerca de 70% de todas as instalações militares estadunidenses no país. Leia mais sobre Kinjo e a história de Okinawa em nosso boletim de arte n. 26 (abril de 2026), “Não se pode engolir uma agulha, por menor que seja: o escultor da resistência de Okinawa” https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/boletim-arte-escultor-resistencia-okinawa/.

2 Sobre o papel do Sri Lanka no epicentro da estratégia indo-pacífica dos EUA, ver Illanperuma, 2024. Sobre Diego Garcia, ver Sands, 2022.

3 Estamos seguindo a narrativa apresentada por McCormack, 2007.

4 A sugestão dessa estratégia de “terra arrasada” foi apresentada pela primeira vez por McKinney & Harris, em 2021, e retomada dois anos depois pelo ex-conselheiro de segurança nacional dos EUA, Robert O’Brien. Ver também: Clemons, 2023.

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Uma revolução só pode ser filha da cultura e das ideias

Ouça: “Por qué Cantamos / Canción Nueva” do disco A dos Voces, uma parceria entre Mário Benedetti e Daniel Viglietti.

Na América Latina, os caminhos das lutas dos povos e o desenvolvimento de sua cultura se entrelaçam constantemente. Desde a colonização espanhola e portuguesa nos séculos XV e XVI, passando pelas lutas de independência e pela Doutrina Monroe (1823), os povos latino-americanos resistem à dominação. José Martí, uma das figuras centrais na luta pela independência, formulou o conceito de Nuestra América,  em texto de mesmo nome, sobre a unidade política e cultural do continente.

Para Martí, a noção de Nuestra América não se restringia a um aspecto geográfico sobre esse vasto território que vai “do Rio Bravo ao estreito de Magalhães”, mas também um projeto baseado nas diversas culturas, histórias e lutas do povos originários dessa região. Essa era a força anti-imperialista da reflexão de Martí: a América Latina só pode se libertar se se conhecer ao valorizar as raízes indígenas, africanas, camponesas e populares que o colonialismo e a intelectualidade europeia desprezaram.

Como o próprio Martí coloca em seu texto, “resolver o problema depois de conhecer os seus elementos é mais fácil que resolvê-lo sem conhecê-los. […] Conhecer é resolver. Conhecer o país e governá-lo conforme o conhecimento é o único modo de livrá-lo da tirania”. A literatura latino-americana ao longo de sua história foi uma das principais maneiras pelas quais foi possível conhecer a diversidade de povos e culturas desse território. Por meio de poemas, romances e canções, os povos do continente representaram suas distintas realidades não como abstrações, mas como experiências vivenciadas.

Escritores viajando em caminhão para Minas de Frío, Cuba, s.d. Fonte: Revista Casa de las Americas.

A América Latina é marcada por profundas transformações políticas e sociais na segunda metade do século XX. A revolução cubana, em 1959, rompe com a dependência direta dos EUA, inicia a construção do socialismo e soa como um sopro de esperança para os povos em luta nos outros países da região. Esse processo desencadeia mais uma onda ofensiva imperialista em Nuestra América por meio da invasão frustrada à Baía dos Porcos, em Cuba, em 1961; pelo patrocínio e apoio político ao golpe empresarial-militar no Brasil, em 1964; no golpe contra o governo da Unidade Popular e derrubada do presidente Salvador Allende, no Chile, em 1973, além de apoiar outras ditaduras e projetos de contrainsurgência sanguinários na região na década de 1970.

A literatura, neste contexto, continua desempenhando um papel importante de resistência, principalmente pelo fato de ter ocorrido o chamado boom da literatura latino-americana nos anos 1960-1970, quando alguns escritores ganharam fama na Europa. Também assume relevância um debate já antigo sobre a relação entre arte e política, tendo a revolução política e cultural cubana como um dos eixos principais da polêmica.

Ainda em 1959, primeiro ano da revolução, foram criadas várias instituições culturais na ilha, como o Teatro Nacional, o Instituto Cubano de Arte e indústria cinematográfica (Icaic) e a Casa de las Américas, dirigida por Haydée Santamaria, referência incontestável para se pensar cultura, arte e literatura na América Latina. O escritor uruguaio Mário Benedetti (1920-2009) também teve um papel central no aprofundamento do trabalho cultural da Casa de las Américas, ao reforçar o papel da literatura como frente de resistência na América Latina. Seu próprio desenvolvimento literário e intelectual, assim como o de muitos outros escritores latino-americanos da segunda metade do século XX, está diretamente vinculado com a política e as atividades desenvolvidas na Casa de las Américas.

A Revista da Casa, cujo primeiro número foi publicado em 1960, foi responsável por circular e divulgar o pensamento em torno da cultura e da arte latino-americana e caribenha sob uma perspectiva emancipatória, de modo a fortalecer a construção de uma nova sociedade.

No que toca à revolução cubana, é preciso destacar a atenção dada ao tema da cultura. Além das diversas instituições criadas no primeiro ano da revolução, as reflexões de Fidel Castro em seu discurso Palavra aos intelectuais, de 1961, traça as linhas gerais de uma política cultural para a revolução, ao destacar a iniciativa das brigadas Conrado Benitéz, que acabaram com o analfabetismo em Cuba, ou a impressão de milhões de exemplares de livros da literatura clássica para a população da ilha. Vale destacar que o primeiro título impresso e distribuído pela revolução cubana foi o clássico Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes.

No entanto, a ofensiva imperialista estadunidense contra Cuba também ganha força no âmbito cultural. Ela buscava combater a projeção e o prestígio cada vez maior da Casa de las Américas entre a intelectualidade mundial, que ganhava cada vez mais projeção com sua revista e seu prêmio literário. Para tanto o famigerado Congresso pela Liberdade da Cultura, organização financiada pela CIA e que criou a revista Mundo Nuevo, com vistas a reunir escritores para fazer frente às iniciativas da instituição cubana. Dirigida pelo crítico uruguaio Emir Rodriguéz Monegal, Mundo Nuevo disputou a atenção das principais figuras literárias da época, apresentando-se como uma publicação literária independente, ao mesmo tempo que trabalhava para afastar os escritores do boom latino-americano em torno do projeto cultural da Revolução Cubana, e procurava aproximá-los da órbita do anticomunismo liberal.

À medida que a contradição entre revolução e contrarrevolução avançava na região, escritores e escritoras se posicionaram de diferentes maneiras frente à construção do socialismo, à guerra cultural estadunidense, à Guerra Fria e à tentativa de conter e abafar as experiências revolucionárias. Escritores de projeção mundial da época, como Júlio Cortázar, Mário Vargas Llosa, Gabriel García Márquez, Carlos Fuentes, se posicionaram, cada qual a sua maneira, diante desse debate fundamental que expressava a estreita relação entre literatura, arte e política.

Nesse sentido, é importante recuperar uma formulação de Mário Benedetti sobre o papel do escritor na luta de classes durante uma entrevista para a revista Cuba, em 1968, logo após o Congresso Cultural de Havana:

Se o dever de todo revolucionário é fazer a revolução, o dever de todo escritor, como tal, é fazer literatura […] a literatura, entre outras funções, cumpre a de ampliar os horizontes do homem. Na medida em que o povo pode captar os significados, últimos ou intermediários, de uma grande literatura de ficção, ele estará mais próximo de nossa luta, e ainda mais se for capaz de analisar a alienação que o inimigo lhe impõe. Por isso, não vemos motivo para colocar a obrigação de que o escritor militante se reduza genérica ou tematicamente a uma linha muito estreita.

O potencial da literatura vai além da posição política pessoal do escritor, ainda que num contexto de ofensiva imperialista esta seja fundamental para o fortalecimento ou enfraquecimento de um processo político. O ponto central de Benedetti era o de que a força revolucionária da literatura não pode ser reduzida a um tema, gênero ou palavra de ordem determinados. A literatura pode ampliar os horizontes dos povos, aguçar sua capacidade de reconhecer a alienação e levá-los à luta justamente pela sua potencialidade formal que toca a sensibilidade humana.

Cultura não é luxo, é um direito

Mario Benedetti foi um dos mais importantes escritores latino-americanos do século XX, por sua literatura engajada e sensível, que retratou as complexidades sociais e afetivas de seu país. Sua obra abrange poesia, romance, conto e ensaio, sempre marcada por uma linguagem direta e profundamente humana.

Além da sua importância na literatura, ele teve uma atuação fundamental no cenário político cultural de esquerda na América Latina. Na Casa de las Américas, atuou primeiro como jurado do prêmio literário da instituição, e depois como fundador e diretor do Centro de Investigaciones Literárias (CIL). Nesse sentido, Benedetti contribuiu para se pensar uma cultura literária latino-americana – que valorizava o desenvolvimento literário europeu ao mesmo tempo que enfatizava a importância política, estética e cultural das produções literárias de Nuestra América. Entre outros aspectos, vale destacar suas reflexões sobre o papel do intelectual e dos trabalhadores da cultura no processo revolucionário.

Em 1968, Benedetti fez uma exposição no Congresso Cultural de Havana sobre as contradições entre as pessoas da ação e as do intelecto. Em um contexto no qual a luta armada era uma das principais formas de ação política, os intelectuais e artistas eram instados a participar na linha de frente da batalha. O escritor uruguaio delineia alguns traços da atividade intelectual importantes para o desenvolvimento revolucionário. Segundo ele, “o intelectual, por sua vez, é quase por definição alguém inconformado, um crítico de seu meio social, uma testemunha de memória implacável”.

Além disso, ele também destaca o papel da cultura e dos trabalhadores da cultura como um direito e não um luxo: “[…] o artista que defende seu direito de sonhar, de criar beleza, de criar fantasia, com a mesma obstinação, a mesma convicção com que defende seu direito de comer, de ter um teto, de cuidar de sua saúde, esse artista será o único capaz de demonstrar que seu ofício não é um luxo, mas uma necessidade, não só para si mesmo, mas também para seu semelhante”.

Para Benedetti, a cultura revolucionária não pode ser tratada como algo secundário na luta política. Arte e literatura são expressões que possibilitaram aos povos compreender suas condições de vida e defender sua dignidade e luta por uma nova sociedade.

Benedetti no júri do Prémio Casa de las Américas com Haydée Santamaría e Alejo Carpentier, 1978. Fonte: Fundación Mario Benedetti.

A poesia é responsável pela maior parte de sua obra e dentro dela transitou entre as várias formas poéticas. No fim da vida, por exemplo, ele se dedicou aos haikais, uma estrutura poética de origem japonesa composta por apenas três versos. Sua poesia, assim como toda sua escrita, é marcada pelo cotidiano e, principalmente, pela abertura ao outro, como podemos ver nesse haikai:

la más cercana
de todas las fronteras
es con mi prójimo

A prosa também é fundamental em sua contribuição literária. Com mais de nove volumes de contos publicados e três romances, Benedetti trata de temas como a memória, a ditadura uruguaia, o amor e a vida cotidiana. Entre os seus livros de contos, vale mencionar Geografias, Correio do tempo e Montevideanos. Entre suas obras mais impactantes está Primavera num Espelho Partido (1982).

A vida e a obra de Benedetti são expressões de uma vivência militante no campo da cultura e da arte – aspectos fundamentais da construção revolucionária. Seus poemas e sua prosa são sutis e profundas, trazendo à tona as contraditórias relações cotidianas e afetivas que vivemos e que são perpassadas pelos dilemas políticos para a construção de um novo ser humano em uma nova sociedade.

Por que cantamos?

A dinâmica da luta de classes no século XXI segue acirrada; o império em decadência, segue realizando uma ofensiva cada vez mais feroz sobre os territórios e povos do Sul Global; estes, por sua vez, continuam resistindo, como nos casos da Palestina, Venezuela e Cuba. A batalha de ideias e de sentimentos, na formulação de Fidel Castro, assume cada vez mais uma centralidade em nossa época.

O legado de Mário Benedetti como escritor e como ser de ação é fundamental para pensarmos como um intelectual pode e deve agir não apenas como um trabalhador da cultura, mas também como um organizador e militante de um projeto revolucionário. A Casa de las Américas segue sendo uma das mais importantes instituições culturais em Nuestra América para divulgar e fomentar a produção artística enraizada nas experiências de nossos povos. Ao mesmo tempo, mantém viva a convicção de que a cultura não apenas faz parte da luta política, mas é uma das suas formas mais necessárias.

Neste momento em que a ofensiva estadunidense tenta sufocar Cuba, é mais que fundamental a solidariedade das diferentes organizações populares para manter acesa a chama da revolução e para que as gerações atuais e futuras continuem lutando e respondam como o poema de Benedetti Por que cantamos?

[…] Cantamos porque chove sobre o sulco
e somos militantes desta vida
e porque não podemos nem queremos
deixar que a canção se torne cinzas.

Atenciosamente,

Miguel Yoshida

Membro do Departamento de Arte e Cultura e do escritório Nuestra América do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social e editor da Expressão Popular.

O futuro

A arte deste dossiê pertence à coleção Arte de Nuestra América Haydée Santamaría (Arte de Nossa América Haydée Santamaría) da Casa de las Américas. Desde sua fundação em 1959, após a Revolução Cubana, essa instituição tem servido como uma plataforma fundamental para o internacionalismo cultural anti-imperialista, construindo laços estreitos com artistas, escritores, intelectuais e ativistas políticos renomados. As galerias da Casa acolheram exposições de diversos gêneros, disciplinas e técnicas, realizadas por gerações de artistas, principalmente latino-americanos e caribenhos. Muitas dessas obras foram exibidas pela primeira vez nas galerias da Casa, premiadas em seus concursos ou doadas pelos artistas. Desde então, passaram a integrar o acervo, formando um patrimônio artístico excepcional.

José Venturelli (Chile), Serigrafía (Serigrafia), 1970, ed. 15/90. 260 x 430 mm.

Todos os meses, nos últimos 10 anos, nossa equipe do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social realizou uma pesquisa, redigiu e elaborou um dossiê. Esses dossiês — que abrangem desde histórias do imperialismo e da libertação nacional até análises de política econômica, soberania, guerra e a ordem mundial em transformação — têm circulado pelo mundo em diversas línguas, como inglês, hindi e português, passando pelo árabe, tailandês e espanhol. Este é o nosso dossiê n. 100, e por isso decidimos fazer uma pausa para apresentar uma análise histórico-materialista de um conceito fundamental em nosso instituto: o futuro.

Quando nosso instituto foi concebido em 2015, tínhamos três linhas principais de investigação em vista:

  1. Compreender melhor o capitalismo contemporâneo e a natureza da luta de classes que o molda.
  2. Compreender melhor a ascensão do que chamamos de extrema direita de um tipo especial (Instituto Tricontinental, 2024a).
  3. Compreender melhor o futuro — ou o que vem a seguir.

Essa terceira linha de investigação surgiu de uma compreensão materialista do processo histórico, que vê o presente não como uma realidade eterna, mas como algo aberto à transformação. Em outras palavras, o presente pode ser moldado para se tornar um futuro de natureza diferente. O sistema capitalista em que vivemos não é permanente: ele pode ser transformado em um sistema socialista por meio da luta de classes e do desenvolvimento das forças produtivas.

Aqui, pela primeira vez, apresentamos uma análise filosófica e política do futuro. Inspirando-nos na tradição do marxismo de libertação nacional, defendemos que esse futuro deve ser chamado não apenas de socialismo, o objetivo, mas também de esperança, a sensibilidade para tal futuro (Instituto Tricontinental, 2021a).

Esperamos que leiam este dossiê da mesma forma que leram os 99 anteriores e que o compartilhem, debatam e discutam coletivamente em círculos de leitura e outros espaços de formação política. Estamos sempre abertos às suas contribuições e comentários.


Todas as línguas do mundo têm uma palavra para “futuro”, o tempo que vem depois do presente. Por exemplo, nas línguas mais faladas do mundo, estas são algumas das palavras para o futuro:

Inglês: future, o tempo que ainda não aconteceu.

Chinês mandarim: wèilái (未来), o que ainda não chegou.

Hindi: bhavishya (भविष्य), aquilo que está por vir ou que se tornará.

Espanhol: futuro, o tempo que ainda está por vir.

Francês: avenir, o que está por vir.

Árabe: mustaqbal (مستقبل), aquilo que está por vir.

Bengali: bhobishyot (ভekomst), aquilo que ainda está por vir ou por se tornar.

Português: futuro, o tempo que ainda está por vir.

Russo: budushchee (будущее), o que está por vir.

Urdu: mustaqbil (مستقبل), aquilo que está por vir ou que deve ser enfrentado.

Essas palavras não têm todas o mesmo significado; elas refletem diferentes abordagens culturais em relação à mudança. Algumas delas tratam do calendário vazio, da ideia de que existe um amanhã assim como existe um hoje, enquanto outras tratam dos encontros que ocorrerão e que devem ser enfrentados. É importante reconhecer que, mesmo ao ler um texto como este — escrito em uma língua e traduzido para várias outras —, a palavra “futuro” carrega uma variedade de significados que não podem ser totalmente transmitidos de uma língua para outra. Embora essas palavras tenham diferentes perspectivas em relação ao que está por vir, há perguntas que podemos fazer em todas as línguas faladas na civilização capitalista: o futuro existe, ou estamos vivendo no que o realismo capitalista nos garante ser um presente permanente? (Fischer, 2009). Será que existe mesmo um amanhã que possa ser diferente de hoje?

Essas questões são essenciais para o momento que vivemos, enquanto lutamos para compreender a catástrofe e o apartheid climático, a guerra permanente e o genocídio sem fim, bem como a ditadura do capital financeiro e a normalização da austeridade. Décadas de realismo capitalista obscureceram nossa consciência, impedindo-nos de imaginar qualquer coisa além de uma catástrofe global.

Existe um futuro? Claro que sim. Estamos lutando para construí-lo e estamos construindo-o agora.


Emilio Pettoruti (Argentina), Pájaro rojo (Pássaro vermelho), 1959. Óleo sobre tela, 116 x 63 cm.

Parte 1: Ruptura

Na linguagem dominante do poder, o futuro é apresentado como uma extensão neutra do presente. É medido em calendários, projetado em curvas de crescimento e gerenciado por meio de previsões. Nessa perspectiva, o futuro não é algo pelo qual se deva lutar, mas algo pelo qual se deve esperar. Chega automaticamente, como a página seguinte de um livro contábil. Essa visão do futuro é profundamente conservadora. Isso pressupõe que as estruturas de exploração, hierarquia e dominação que definem o presente serão simplesmente otimizadas, em vez de derrubadas. Essa visão do futuro é reproduzida por todas as principais instituições da sociedade capitalista — como a mídia, as escolas, as universidades, think tanks e as fundações filantrópicas —, que insistem em slogans vazios sobre mudança, mas, na verdade, pregam o evangelho de que “não há alternativa” ao sistema capitalista que nos sufoca.

Na nossa opinião, o futuro não é uma data no calendário. É um rompimento. Uma ruptura com a ordem existente, uma transformação estrutural das relações sociais, do poder político e das possibilidades humanas. Falar do futuro dessa maneira não é entregar-se à fantasia, mas recuperar uma dimensão da política que foi deliberadamente suprimida: a capacidade de imaginar e construir um mundo fundamentalmente diferente daquele em que vivemos, um mundo que os projetos socialistas e de libertação nacional dos séculos XX e XXI buscaram construir e, mesmo com seus limites, começaram a concretizar. Essa visão rejeita as ideias de continuidade controlada (reformismo) e colapso não planejado (catastrofismo). A classe dominante cria uma série de futuros falsos: mitos do empreendedorismo, do capitalismo verde e da segurança militarizada — mas nada que tenha qualquer conteúdo emancipatório.

As bases para essa visão do futuro foram desenvolvidas pelo filósofo marxista Ernst Bloch (2000) com sua noção do “Ainda Não” (Noch-Nicht). Para Bloch, inspirando-se diretamente nos escritos de Marx, o futuro não é uma abstração adiada para o amanhã, mas uma força ativa que está imersa no presente, lutando para emergir de suas limitações. A realidade é inacabada, afirma Bloch, o que o colocou em desacordo com as correntes filosóficas que tratam o mundo como algo fechado, concluído ou já totalmente explicado. Ele insistiu que o presente está impregnado de tendências, desejos e contradições que apontam para além. O “Ainda Não” não é uma utopia que paira acima da história, mas um potencial latente contido nas condições materiais e na luta coletiva. Esse “Ainda Não” pode ser percebido nos sonhos das lutas anticoloniais que encontraram expressão programática no comunicado final da Conferência de Bandung (1955), na declaração de Belgrado da Cúpula do Movimento dos Países Não Alinhados (1961), nas resoluções da Conferência Tricontinental (1966) e na declaração sobre a Nova Ordem Econômica Internacional adotada pela Assembleia Geral das Nações Unidas (1974). Isso também pode ser observado nos processos revolucionários desencadeados pela Revolução de Outubro (1917), pela Revolução Vietnamita (1945), pela Revolução Chinesa (1949) e pela Revolução Cubana (1959) (Instituto Tricontinental, 2025a, 2025b).

Nessa tradição marxista, o futuro não é inevitável. Essa visão baseia-se em duas proposições materialistas que decorrem das contradições do sistema capitalista.

Em primeiro lugar, o próprio curso da história desenvolve as forças produtivas e amplia o excedente social. Mas, como esses avanços continuam limitados pela propriedade privada, eles também agravam a desigualdade e o sofrimento social da grande maioria. É importante reconhecer que, hoje em dia, as forças produtivas não se limitam às fábricas e às máquinas. Isso inclui também, por exemplo, o trabalho de cuidados, as infraestruturas digitais e as cadeias de abastecimento globais, todos organizados por meio de uma força de trabalho cada vez mais socializada. É também fundamental observar que o capitalismo, simultaneamente, desenvolve essas forças e sabota seu potencial, mantendo-as sob controle por meio da propriedade privada, dos monopólios de plataformas uberizadas, da repressão sindical, da austeridade, da militarização e outras formas de controle capitalista.

Em segundo lugar, o sofrimento social inerente ao capitalismo gera indignação e raiva, que podem se transformar espontaneamente em revolta. Mas essas lutas não avançam automaticamente em direção à emancipação: elas são moldadas por forças políticas, seja em direção ao socialismo — promovendo as demandas concretas do povo —, seja contra ele — distorcendo essas demandas e colocando as pessoas umas contra as outras por meio de uma agenda tóxica e antissocial (Instituto Tricontinental, 2024d). O futuro, portanto, não é algo que simplesmente acontece, mas algo que devemos construir, e só poderemos construí-lo rompendo com as estruturas que geram e perpetuam o sofrimento. Essa visão rompe com o fatalismo e a inevitabilidade e nos lembra que a história é aberta e que o presente contém possibilidades ainda não concretizadas que podem ser ativadas por meio da luta.

A esperança, nessa tradição, não é otimismo nem uma expectativa passiva, mas uma orientação militante em relação ao caráter inacabado do mundo. Ela surge da miséria, da opressão e da despossessão, e da recusa em aceitar a miséria como destino. Para os movimentos do Sul Global que orientam o trabalho do nosso instituto, a esperança nunca foi um luxo. Isso se concretizou em diversos movimentos e organizações liderados por camponeses, trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade, que representam esforços coletivos para promover a causa da dignidade (Instituto Tricontinental, 2025a, 2024b). Esses movimentos não lutam por uma versão melhor do presente, mas por uma ordem social totalmente diferente. O futuro deles não está ligado a um calendário, mas sim a uma transformação estrutural. Esperançar é reconhecer que o presente é insuportável e passageiro e que as condições de exploração e opressão não são nem naturais nem definitivas. Essa esperança é perigosa para a classe dominante porque é uma força concreta que transforma a consciência, levando as pessoas a deixar de simplesmente suportar o presente para passar a agir em prol do futuro.

Nessa tradição de ruptura, o futuro não é uma criação individual: ele tem um caráter coletivo. A cultura capitalista nos incentiva a imaginar um futuro particular — uma carreira, uma casa, segurança pessoal e o projeto interminável de “autoaperfeiçoamento” — ao mesmo tempo que nos priva de horizontes coletivos. Essa cultura é marcada pela ansiedade individual, em vez de responsabilidade coletiva ou transformação social. No capitalismo, o futuro do calendário é tratado como algo administrável — como algo a ser previsto, programado, avaliado, garantido e gerenciado por instituições que se apresentam como neutras. Suas decisões são apresentadas como necessidades técnicas, e não como escolhas políticas, como questões a serem reguladas em nosso nome por especialistas, mercados, Estados e aparelhos de segurança. Essas instituições não oferecem um horizonte de emancipação, mas apenas a continuação controlada da catástrofe. Nesse contexto, surge uma extrema direita de um tipo especial para propor um futuro mítico baseado na exclusão, na hierarquia e na violência; trata-se de um sintoma da incapacidade do capitalismo de gerar um futuro positivo (Instituto Tricontinental, 2024a). O futuro não pode ser construído por essa extrema direita; ele deve ser reconquistado como um espaço de soberania popular. Nem a catástrofe nem a emancipação são inevitáveis. É preciso lutar contra o primeiro e lutar pelo segundo. Do ponto de vista da ruptura, ou da transformação estrutural, o instrumento não é o avanço individual, mas sim forças organizadas capazes de enfrentar o poder estabelecido, tais como partidos políticos, sindicatos e movimentos sociais. Sem essas forças, o “Ainda Não” continuará sendo um sonho sem caminho. A esperança requer estrutura, disciplina e persistência.

O futuro não é algo que se situa fora da história da humanidade. Já está presente em fragmentos, gestos e lutas que prenunciam outro mundo. Entre elas estão as formas cooperativas de trabalho, as práticas de cuidado, as experiências de democracia popular e os processos inacabados e contestados de construção socialista em países como China e Cuba (Instituto Tricontinental, 2021a, 2019a). Não se trata de curiosidades marginais; são antecipações de uma lógica social diferente. Descrevê-los não significa romantizá-los, mas compreender seu significado e seu potencial latente. Eles nos lembram que o mundo que buscamos construir não é um horizonte abstrato, mas uma possibilidade concreta. A tarefa de um marxista não é prever o futuro, mas sim se organizar para ele. Para romper com o presente, é preciso clareza, coragem e disciplina coletiva. O futuro só poderá chegar se provocarmos uma ruptura. O futuro é, portanto, um campo de batalha. Para lutar por isso, precisamos identificar as forças que tentam impedir que isso aconteça.

Silvano Lora (República Dominicana), Serigrafía (Serigrafia), 1976, ed. 18/60. 640 x 570 mm.

Os inimigos do futuro

O futuro não é um horizonte vazio que aguarda para ser preenchido pelas aspirações humanas. É ativamente planejado, estruturado e condicionado por forças poderosas que buscam reproduzir as relações de dominação existentes. Os inimigos do futuro não são tendências abstratas: são forças concretas determinadas a prolongar a ordem atual no futuro (Instituto Tricontinental, 2024a). A seguir, analisamos quatro grandes inimigos do futuro: o capital financeiro, o capital de plataforma, o extrativismo e o militarismo. Essas forças não se limitam a defender as relações sociais do presente — elas procuram colonizar o futuro antecipadamente.

O capital financeiro. ocupa o centro dessa constelação. Por meio do controle sobre os rendimentos do colonialismo e do neocolonialismo, dos fluxos de investimento, da magia da especulação e do poder da dívida, o capital financeiro disciplina os Estados e as sociedades, restringindo o leque de seus futuros possíveis (Instituto Tricontinental, 2024c). As agências de classificação de risco, os credores multilaterais e as instituições financeiras privadas — em sua maioria localizadas no Norte Global — atuam como planejadores do futuro para a classe dominante do Norte, garantindo que o amanhã continue favorável à acumulação de capital, e não ao florescimento humano. Os ditames do Fundo Monetário Internacional (FMI), do Banco Mundial, da Organização Mundial do Comércio e de inúmeras outras instituições tornam-se uma realidade concreta para muitas ex-colônias, hoje países sobrecarregados por dívidas (Instituto Tricontinental, 2023).

Capital de plataforma. Os monopólios tecnológicos capitalistas canalizam a inovação e a eficiência para a extração de dados, a reorganização do trabalho e a fragmentação da vida social. Os algoritmos controlam o tempo, a atenção e o desejo, enquanto o trabalho plataformizado priva os trabalhadores de estabilidade e poder coletivo (Instituto Tricontinental, 2021b).

Extrativismo. Apesar das evidências científicas contundentes de uma catástrofe ecológica, os conglomerados dos setores de petróleo, gás, carvão, mineração e agronegócio continuam moldando os sistemas energéticos, os mercados de trabalho e as políticas públicas. O horizonte de planejamento deles é extremamente curto: extrair, lucrar, abandonar. A crise climática, por exemplo, não é uma falha de previsão, mas o resultado de decisões deliberadas por parte de corporações capitalistas que aceitam a destruição do planeta como um custo aceitável da acumulação (Instituto Tricontinental, 2024e, 2025g).

Militarismo. As crises geradas e agravadas pelo sistema capitalista — guerra, deslocamento e catástrofe climática — não são enfrentadas com soluções sociais e políticas, mas com uma economia de guerra permanente que impõe soluções militares para problemas políticos. Nos centros imperiais, o militarismo se manifesta na forma de acumulação de armas, regimes fronteiriços, vigilância e normalização do estado de emergência. No Sul Global, isso se manifesta como agressão imperialista, guerras por procuração, ocupação e o desvio forçado de recursos públicos escassos para os exércitos e as infraestruturas de segurança, sempre em benefício da indústria de armas. O militarismo estreita os horizontes políticos: as situações de emergência justificam medidas autoritárias, reprimem a dissidência e normalizam o medo. Para grande parte da humanidade, especialmente no Sul Global, o futuro não se apresenta como uma promessa, mas como instabilidade permanente, deslocamento e morte. A guerra torna-se um mecanismo para gerenciar as crises geradas pelo próprio capitalismo (Instituto Tricontinental, 2025e, 2024g).

Esses inimigos do futuro não se limitam a impedir a transformação social: eles criam ativamente um futuro que garante privilégios para poucos, enquanto condena a maioria ao esgotamento, à insegurança e ao desespero. Não é possível recuperar o futuro sem um desafio frontal ao poder deles.

As forças sociais prestes a provocar a ruptura

Como as classes proprietárias insistem no presente permanente, o futuro só pode ser reconquistado por meio da luta coletiva em massa. As forças sociais capazes de provocar uma ruptura com a ordem atual já estão aqui, embora estejam fragmentadas, desiguais e, muitas vezes, invisibilizadas. Entre elas estão os trabalhadores tanto da economia formal quanto da informal, camponeses e trabalhadores agrícolas sem terra, mulheres, jovens, comunidades oprimidas e o que Marx chamou de “população excedente” — aqueles excluídos ou marginalizados pelos ciclos da acumulação capitalista, mas ainda assim indispensáveis como exército de reserva de mão de obra e como parte das forças de reprodução social (Marx, 1976).

Apesar de todo o debate sobre o “pós-marxismo” e as novas teorias sobre a fragmentação dos sujeitos políticos, a classe trabalhadora — tanto urbana quanto rural — continua sendo fundamental, embora sua composição tenha, sem dúvida, mudado. Vários relatórios da Organização Internacional do Trabalho e do Banco Mundial sugerem que a força de trabalho global totaliza quase 4 bilhões de pessoas (incluindo aqueles que estão empregados e aqueles que procuram emprego ativamente). A seguir, apresentamos uma divisão aproximada do emprego global por setor:

  1. Agricultura / 923 milhões.
  2. Indústria / 800 milhões.
  3. Serviços / 1,8 bilhão
  4. Transporte/Logística / 230 milhões.
  5. Trabalhadores de plataformas / 154 milhões.

Os trabalhadores da indústria convivem com os trabalhadores dos setores de serviços, transporte, armazenagem, assistência, entregas e plataformas (ou “uberizados”). Na maior parte do Sul Global, o trabalho informal não é uma exceção, mas sim a regra. Esses trabalhadores — seja na fábrica, no campo ou no armazém — enfrentam extrema precariedade, proteções legais fracas ou inexistentes e ameaça constante de desemprego. No entanto, apesar da queda na taxa de sindicalização, esses trabalhadores detêm um poder estratégico: eles produzem e transportam mercadorias, cultivam a terra, extraem recursos minerais, prestam cuidados, constroem cidades e sustentam a vida cotidiana. Suas lutas — desde greves em centros logísticos até rebeliões em massa de trabalhadores sem terra e paralisações de empregadas domésticas — revelam o antagonismo contínuo entre capital e trabalho.

As lutas nem sempre se manifestam de forma direta, por meio de uma organização consciente da força de trabalho contra o capital. Frequentemente, se manifestam por meio de outras estruturas de opressão, como o patriarcado e a hierarquia social (casta, raça), ou são impulsionadas pela experiência geracional e por outras formações sociais. Por exemplo, os movimentos feministas têm revelado como os sistemas econômicos dependem da exploração dos corpos e do tempo, especialmente dos corpos das mulheres em geral e, em particular, das mulheres negras, migrantes e da classe trabalhadora racializada. Da mesma forma, as lutas pela dignidade social se refletem em identidades que, embora não sejam em si mesmas de natureza de classe, revelam a maneira complexa como o capitalismo reativa antigas hierarquias para as suas próprias estratégias de acumulação: a casta e a raça, por exemplo, são mobilizadas pelo sistema capitalista a serviço da acumulação e, assim, os protestos pela dignidade também criam bases para a luta socialista. A população excedente — migrantes, desempregados, camponeses sem terra e pobres urbanos — é frequentemente tratada como politicamente marginalizada, mas vive o sistema capitalista em sua forma mais crua. As lutas dessas pessoas por moradia, serviços e dignidade são lutas pela reprodução da vida. Essas inúmeras lutas demonstram a energia existente na classe trabalhadora para formar um bloco histórico contra o capitalismo e lutar pelo futuro.

No entanto, muitos dos protestos que agitam nossas cidades e o interior do país assumem a forma de grandes mobilizações, muitas vezes organizadas por pequenas organizações ou impulsionadas por convocatórias nas redes sociais dirigidas a indivíduos. O capital prospera com a divisão: formal versus informal, urbano versus rural, homens versus mulheres e pessoas de gêneros dissidentes, cidadão versus migrante (Instituto Tricontinental, 2026). Hoje, a estrutura de classes fragmentada e a organização social representam grandes desafios para a organização política e a unidade de ação baseada em princípios. Há muitos exemplos dessa raiva mobilizada sendo aproveitada por forças reacionárias ou se dissipando na forma de desespero. Uma ruptura exige a construção da unidade sem apagar as diferenças, forjando projetos políticos capazes de articular interesses compartilhados e horizontes comuns. Sem essa organização, as forças sociais continuam a agir de forma reativa. Com isso, tornam-se agentes históricos capazes de construir o próprio futuro. A verdadeira questão organizacional para a esquerda em todo o mundo é como construir as bases subjetivas da luta a partir das condições objetivas de sofrimento e sobrevivência enfrentadas pelo povo.

Tempo

O capitalismo impõe sua concepção de tempo às sociedades — uma concepção que reflete urgência sem rumo, velocidade sem propósito, crise sem solução. Há uma sensação de frenesi que toma conta da vida social, prejudicando a nossa capacidade de controlar o nosso dia e criando uma desordem que consome o nosso tempo de lazer. Sem tempo livre, não é fácil encontrar tempo para construir uma comunidade (embora o enfraquecimento das políticas sociais em âmbito estatal tenha forçado as mulheres da classe trabalhadora a criarem estruturas de reprodução social que têm sido vitais para o seu papel em tantos movimentos de protesto da classe trabalhadora em nossa época). Sem tempo, é impossível construir poder organizacional nos locais de trabalho, bairros e comunidades.

As contradições do capitalismo geram lutas espontâneas, muitas vezes desencadeadas por baixos salários e más condições de trabalho, mas também pelas condições de reprodução social, como o acesso à água, ao espaço público e a alimentos e combustível a preços acessíveis. Essas lutas baseiam-se, por vezes, em redes sociais e relações construídas ao longo do tempo, mas também podem surgir de uma rápida deterioração das condições de trabalho e de vida, que geram um sentimento compartilhado com muitas outras pessoas.  Essas revoltas espontâneas — embora muitas vezes heroicas — são insuficientes; elas podem perturbar o presente sem uma organização disciplinada, mas raramente remodelam o futuro. Os exemplos das grandes revoluções são, todos, histórias de uma atividade revolucionária resiliente ao longo de períodos extensos, que preparou as comunidades, por meio da luta, para os grandes surtos que viraram o mundo de cabeça para baixo. As lutas espontâneas refletem raiva e injustiças genuínas. Elas podem ocupar as ruas e inspirar esperança, e também podem derrubar governos. No entanto, os registros históricos (como o caso do Egito em 2011) mostram que, sem continuidade e solidez organizacionais, esses momentos ficam vulneráveis à repressão, à cooptação e ao esgotamento. As classes proprietárias têm uma visão estratégica do tempo. Eles planejam, muitas vezes com décadas de antecedência. Os movimentos que atuam apenas no calor do momento do protesto acabam cedendo o terreno a longo prazo aos seus inimigos.

Organização

Ir além da imediatez requer organização, que pode assumir diversas formas — desde movimentos sociais mais difusos até partidos leninistas que adotam o centralismo democrático. O debate entre essas duas formas não é o tema central deste dossiê. O que queremos destacar aqui é a importância de como a organização política — em suas diversas formas — constitui um veículo por meio do qual o tempo é estruturado com fins emancipatórios. Partidos, frentes, sindicatos, organizações camponesas, associações de mulheres e movimentos de juventude desempenham papéis distintos, mas interligados. Os partidos de tipo leninista são capazes de elaborar programas de longo prazo e disputar o poder estatal. As organizações de massas podem integrar as lutas ao cotidiano e proporcionar continuidade às comunidades. As frentes podem promover a unidade entre forças diversas sem exigir uniformidade ideológica. A organização permite que a classe trabalhadora, fragmentada e oprimida, socialize o tempo de que dispõe e construa uma sociedade que, de outra forma, lhes teria sido roubada.

Disciplina

 A vantagem de um partido leninista reside na importância central que essa tradição atribui à disciplina. Disciplina não significa obediência nem rigidez burocrática, embora muitas vezes possa degenerar, aos poucos, nessas formas. Isso significa formar quadros politicamente instruídos e que compreendam a necessidade da forma partidária, os procedimentos coletivos necessários para construir um entendimento político comum ou um programa, as estruturas essenciais da liderança representativa dentro do partido e um compromisso absoluto com objetivos, estratégias e formas de prestação de contas em comum. A disciplina permite que as organizações economizem energia, aprendam com a experiência e resistam aos momentos de crise. Isso transforma a revolta em um projeto.

No centro de toda essa operação estão aqueles a quem chamamos de novos intelectuais, os defensores incansáveis de um projeto político oriundo da classe trabalhadora, do campesinato e dos movimentos populares (Instituto Tricontinental, 2019b). A tarefa deles é esclarecer, sintetizar e comunicar — traduzir a experiência vivida em estratégia política. Eles ajudam os movimentos a compreender não apenas contra o que estão lutando, mas também o que o futuro deve trazer.

Internacionalismo

Nenhuma ruptura com o capitalismo pode ser sustentada apenas dentro das fronteiras nacionais. O capital se organiza internacionalmente por meio das finanças, do comércio, dos blocos militares, das cadeias de abastecimento e das instituições ideológicas. As forças que buscam construir o futuro devem fazer o mesmo. O internacionalismo não é um complemento moral nem um gesto sentimental, mas uma necessidade prática enraizada na estrutura da economia mundial e na condição comum dos oprimidos. Isso significa estabelecer laços entre países e lutas, aprender com os processos revolucionários, defender a soberania contra o imperialismo e coordenar a educação política, as campanhas e as formas de solidariedade material. Sem o internacionalismo, as vitórias permanecem isoladas e vulneráveis. Com isso, as lutas nos âmbitos local, nacional e regional começam a adquirir a dimensão necessária para enfrentar um sistema global.

O futuro não pode ser capturado em um único instante. Isso deve ser construído com paciência, de forma coletiva e consciente. O tempo cria o espaço para a luta, a organização lhe dá forma, a disciplina lhe dá resistência e o internacionalismo lhe dá amplitude. Contra o futuro de exploração e exclusão planejado pela classe dominante, essas ferramentas permitem que os oprimidos planejem o seu próprio futuro — um futuro baseado na dignidade, na igualdade e na própria vida.

Alfredo Plank, Ignacio Colombres, Carlos Sessano, Juan Manuel Sánchez, e Nani Capurro (Argentina), Che (séries coletivas), 1968. Óleo sobre tela, 195 x 150 cm cada.

Parte 2: Construindo o futuro

 O que deve ser construído para substituir o que existe atualmente? O futuro não pode limitar-se apenas à luta, à organização e à disciplina; ele também deve assumir uma forma concreta, institucional e internacional. Isso significa abordar questões como propriedade, planejamento, soberania e as formas de coordenação por meio das quais uma ordem social diferente pode ser sustentada.

Propriedade pública e planejamento

 A questão do futuro é indissociável da questão da propriedade e da coordenação. No capitalismo, a propriedade privada dos meios de produção confere a uma pequena classe o poder de determinar o que é produzido, como é produzido e para quem é produzido. Esse poder não é exercido em benefício da sociedade como um todo, mas de acordo com os imperativos do lucro, da concorrência e da acumulação a curto prazo. O resultado é uma contradição profunda: as forças produtivas tornaram-se profundamente socializadas, enquanto o controle sobre elas continua sendo estritamente privado. O trabalho hoje já é coletivo e internacional, mas a base tecnológica e os excedentes econômicos desse esforço coletivo são apropriados por uma minoria. Qualquer discussão séria sobre um futuro socialista deve, portanto, enfrentar essa contradição por meio da transformação das relações de propriedade.

A propriedade pública não é simplesmente uma reorganização jurídica dos ativos, transferindo-os das mãos privadas para o Estado. O próprio Estado é um campo de luta de classes e deve ser reivindicado como uma ferramenta para orientar o rumo do desenvolvimento. Quando setores estratégicos como energia, transporte, finanças, terra, comunicações e indústria pesada são de propriedade pública, a sociedade ganha a capacidade de orientar a produção e a inovação para as necessidades coletivas, em vez de para a acumulação privada. O capitalismo distribui os recursos de forma sistematicamente inadequada, produzindo em excesso bens de luxo e indústrias destrutivas, enquanto se retira de serviços de assistência social, educação, saúde e habitação popular. A propriedade pública cria a base material para reorientar a produção para a reprodução social, o investimento de longo prazo e a prosperidade compartilhada.

O argumento a favor da propriedade pública também está relacionado à tecnologia. Sob a propriedade privada, o desenvolvimento tecnológico está subordinado à rentabilidade, aos monopólios de propriedade intelectual e à disciplina no trabalho. A inovação está voltada para reduzir custos, promover vigilância, militarização e apropriação do conhecimento, em vez de se concentrar na redução do tempo de trabalho socialmente necessário ou na melhoria do bem-estar coletivo. O controle democrático sobre as forças de produção permite que a tecnologia seja utilizada em prol do bem-estar social: para reduzir a jornada de trabalho, gerar empregos, ampliar os serviços públicos, aprimorar as competências humanas e diminuir os danos ecológicos. Os mesmos sistemas digitais e logísticos que o capitalismo utiliza para intensificar a exploração contêm em si o potencial para uma produção e distribuição racionais e humanas.

A ideologia capitalista apresenta o planejamento como algo inerentemente autoritário e ineficiente, ao mesmo tempo que exalta o mercado como um mecanismo neutro e democrático de coordenação. O capitalismo já é altamente planejado – mas é planejado para o interesse dos capitalistas. As empresas multinacionais, as instituições financeiras e as alianças militares realizam um extenso trabalho de planejamento interno, previsões de longo prazo e coordenação estratégica. O mercado não substitui o planejamento: ele fragmenta a tomada de decisões sociais, obscurece a responsabilidade e submete a vida coletiva à lógica estreita da acumulação. Os preços só transmitem sinais depois que os danos sociais e ecológicos já ocorreram. Os mercados recompensam a rentabilidade a curto prazo, e não a racionalidade social a longo prazo.

O planejamento socialista não se resume a uma imposição burocrática alheia à vida popular: trata-se de uma coordenação consciente e democrática do trabalho social ao longo do tempo. O planejamento é uma arma temporal contra o curto-prazismo capitalista. Isso permite que a sociedade estabeleça prioridades coletivas — como a descarbonização, a diversificação industrial, a soberania alimentar e a assistência universal — e mobilize recursos de acordo com elas. Isso permite equilibrar as regiões, os setores e as necessidades sociais, em vez de deixar o desenvolvimento à mercê dos resultados desiguais e destrutivos da concorrência de mercado. O planejamento é o meio pelo qual a sociedade pode agir com base no entendimento de que o futuro não é automático, mas deve ser construído de forma consciente.

É fundamental ressaltar que o planejamento não nega a democracia; ao contrário, exige a sua ampliação. Para que o planejamento seja emancipatório, ele deve estar enraizado na participação popular, sob o controle dos trabalhadores e em organizações de massa capazes de articular as necessidades sociais. A socialização do trabalho no capitalismo já exige coordenação em vastas redes; o socialismo busca tornar essa coordenação transparente, responsável e voltada para o desenvolvimento humano. Quando os trabalhadores, as comunidades e as instituições públicas participam da definição de metas e do acompanhamento dos resultados, o planejamento torna-se um processo de aprendizagem coletiva, em vez de uma imposição tecnocrática. É por meio desses processos que o excedente social pode ser conscientemente direcionado para a educação, a saúde, a habitação, a cultura e a restauração ecológica (Instituto Tricontinental, 2025c).

Rumo a um novo internacionalismo

Após a Segunda Guerra Mundial, a ascensão de um poderoso bloco socialista e as sucessivas ondas de descolonização prepararam o terreno para um internacionalismo enraizado na rejeição do imperialismo e do neocolonialismo. Foi marcado por uma tentativa de construir novos modelos econômicos e sociais, bem como uma nova arquitetura global (Instituto Tricontinental, 2025d, 2025h).

Esse internacionalismo entrou em colapso devido à crise da dívida, ao avanço do neoliberalismo e à queda da União Soviética e do bloco socialista. Em seu lugar, surgiu a falsa globalização imposta pelo FMI — a abertura dos mercados, a retirada do Estado dos setores produtivos, a eliminação dos controles de câmbio, a entrega de recursos e a subordinação acadêmica e cultural —, uma erosão generalizada da soberania.

Décadas após a queda da União Soviética, estão surgindo as condições objetivas para o surgimento de um novo internacionalismo. O Norte Global está passando por uma crise profunda, marcada pela desindustrialização e pela erosão da capacidade produtiva, ao mesmo tempo que a China e outros países do Sul Global emergem como os motores da economia global. A ascensão do BRICS, da Organização de Cooperação de Xangai e de outros fóruns bilaterais reflete essas mudanças nas condições objetivas.

No entanto, o Norte Global mantém o controle sobre a arquitetura global. A ONU e suas agências foram neutralizadas pelos EUA e seus aliados, como demonstrado pela escalada de ataques por todo o mundo, desde Gaza, Venezuela e Cuba até a República Democrática do Congo e o Irã. O FMI e o Banco Mundial continuam com a tirania do ajuste estrutural. As propostas climáticas deixaram a população na mão. A pandemia trouxe consigo o “apartheid vacinal”. Para piorar, muitas organizações multilaterais do Sul Global estão inertes ou contaminadas pela lógica neoliberal.

Os debates em torno de uma nova arquitetura global têm-se centrado na multipolaridade, que é limitada e limitante, pois reproduz o espírito da rivalidade da Guerra Fria. Em vez disso, o novo internacionalismo deve caracterizar-se pelo multilateralismo. Recuperar as Nações Unidas e defender a Carta das Nações Unidas como patrimônio comum dos povos do mundo são pontos fundamentais nessa questão. Tanto o Conselho de Segurança quanto a Assembleia Geral precisam de reformas, e os países do Sul Global devem trabalhar em prol de uma agenda comum para uma série de agências da ONU, desde a Organização Mundial da Saúde e a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas até a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento. Há uma necessidade urgente de renovar a luta intelectual e política para definir e defender um programa popular para cada uma dessas organizações que reflita as aspirações do Sul Global.

A par de um multilateralismo renovado, as forças de esquerda e patrióticas devem apoiar e fortalecer as organizações regionais que perderam o rumo nos últimos 30 anos e, nos casos em que isso não for possível, defender a criação de novas organizações. As alianças econômicas, sociais e políticas que se formaram na América Latina durante a Onda Rosa da década de 2000 e início da década de 2010 continuam sendo um modelo do que é possível alcançar. Nos dias de hoje, a Aliança dos Estados do Sahel tem refletido um forte anseio em toda a África por uma integração mais sólida, ao mesmo tempo que resiste à lógica neocolonial da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Cedeao) (Instituto Tricontinental, 2025f). Os processos lançados pelo BRICS em diversas áreas — desde finanças, comércio e infraestrutura até ciência, tecnologia, saúde, educação, agricultura, cooperação climática e pesquisa — oferecem outro modelo para essas organizações regionais.

O novo internacionalismo começa com a defesa da soberania, mas não se limita a isso. Deve também incorporar uma visão internacionalista de um futuro baseado em relações sociais transformadas. Essa visão não pode ser concretizada por um único país – nem pode ser defendida apenas pelos Estados. É necessária a mobilização de movimentos em todo o mundo para transcender o capitalismo. Os socialistas devem construir pontes para o futuro, valorizando, aprendendo com e aproveitando projetos que tenham o potencial de alterar o equilíbrio de forças.

No entanto, nenhum programa, por mais necessário que seja, pode se sustentar sem uma força social capaz de levá-lo adiante e sem um horizonte capaz de animar a luta. Se o futuro deve ser construído por meio de instituições, senso de pertencimento, planejamento e coordenação internacional, ele também deve ser vivido como uma sensibilidade política. Essa sensibilidade é a esperança.

Luis González Palma (Guatemala), La Rosa (A rosa), 1991. Impressão em gelatina de prata com tonalização e aplicação de cor, 47 x 48.5 cm.

Parte 3: Esperança

Hoje, o capitalismo atravessa uma crise de legitimidade, uma vez que as suas ideias e os seus valores — individualismo, empreendedorismo, consumismo — já não proporcionam a mobilidade social e a prosperidade material há muito prometidas pelo neoliberalismo. Ao mesmo tempo, à medida que o bloco imperialista liderado pelos EUA vê o seu poder declinar – tanto econômica quanto politicamente —, ele redobra os seus esforços nas duas áreas em que esse poder permanece praticamente incontestado: a produção cultural e o poder militar. Embora sejam muito diferentes em suas formas de expressão, ambas têm o mesmo objetivo: preservar o presente e barrar o futuro. Por meio da agressão militar, o bloco liderado pelos EUA busca disciplinar qualquer país que se recuse a se submeter ao Consenso de Washington e aos interesses do capital privado, fechando qualquer horizonte político que rejeite a subordinação. Por meio de seu monopólio sobre os meios de produção cultural, ela busca não apenas controlar a informação — o que é aceito como verdade —, mas também moldar a cultura e os valores das massas dominadas. Ao fazer isso, limita o horizonte do que ousamos imaginar e, em última análise, do que ousamos esperar. Na ausência de esperança, a classe trabalhadora é assim empurrada para uma de duas posições políticas: ou é levada ao pessimismo implacável da extrema direita e condicionada a encarar com escárnio a própria ideia de um futuro diferente, ou é dominada por um derrotismo escapista que acredita que o futuro já está perdido.

Dois conceitos chineses de “futuro” ajudam a esclarecer o que está em jogo aqui. “未来” (wèilái), a palavra para futuro ou, literalmente, “o que ainda não chegou”, é composta por duas palavras: “未” (wèi) significa “ainda não” ou “não tem” e “来” (lái) significa “vir” ou “chegar”. Juntos, eles destacam a característica essencial do futuro, que é a incompletude, e o pessimismo e a esperança giram em torno dessa diferença: o futuro não está predeterminado. É uma possibilidade, e é aí que entra a ação humana.

Nesse contexto, a esperança torna-se um campo de batalha na luta entre ideias e emoções. É por isso que a esperança deve ser mais do que um sentimento, mas sim uma prática — uma prática construída por meio da educação popular e da cultura, enraizada na história e vivida ativamente em nosso dia a dia.

 A batalha de ideias

 A classe dominante se empenha em obscurecer as relações de classe e os interesses comuns das classes por meio da promoção de seus valores (individualismo, impiedade e conservadorismo). Essa lógica leva as classes dominadas a rejeitar, por reflexo, formas de atividade política, consideradas perda de tempo, irrealistas ou utópicas, e a considerar a ação coletiva como algo ingênuo ou perigoso. Nessas condições, não se pode esperar que a esperança surja de forma individual. Deve ser construída como uma prática que reabra o horizonte das possibilidades e conteste o “senso comum” cotidiano do presente capitalista.

A esperança deve, portanto, ser construída por meio de práticas políticas concretas que reabram o horizonte de possibilidades. Isso exige de nós:

Estimular a imaginação política. As forças de esquerda devem tornar o futuro tangível, construindo formas alternativas de organização do trabalho e de relações sociais. A esperança no futuro pode ser mobilizada quando está ligada a ações concretas que transformam as condições materiais das pessoas no presente e quando a classe trabalhadora consegue se reconhecer como protagonista da história, em vez de espectadora das crises capitalistas.

Ler para aprender, aprender para fazer. Ho Chi Minh disse: “Você pode ler mil livros, mas se não colocar em prática o que leu, não passa de uma estante de livros” (Minh, 1961, p. 496). A leitura torna-se uma prática de esperança quando está ligada à ação. O estudo deve ser coletivo e voltado para os problemas que as pessoas enfrentam em seus locais de trabalho, bairros e organizações. O importante não é a acumulação de conhecimento, mas o desenvolvimento de uma linguagem comum, de uma capacidade de análise e de uma confiança que possam ser postas à prova na prática.

Desenvolver uma contracultura popular. Não é possível construir uma contraideologia sem uma contracultura. Isso significa criar formas de expressão cultural populares que quebrem o feitiço do individualismo e do pessimismo, que promovam a dignidade e tornem a solidariedade atraente, ao mesmo tempo que valorizam a cultura da classe trabalhadora.

Comunicar o futuro. A esquerda deve traduzir seu programa para que possa ser transmitido de maneira didática. Didático não significa falar com superioridade; significa ser estratégico e comunicar com clareza propostas que estejam ligadas às experiências das pessoas e sejam transmitidas por meio de exemplos práticos. O objetivo é passar da abstração para a orientação, para que as pessoas possam compreender o que pode ser feito, por quem e com quais recursos (Instituto Tricontinental, 2025c).

Voltar à origem. Resgatar a história e a cultura revolucionárias, bem como a história e a cultura em geral. A história é uma prática de esperança, pois rompe com a ideia de que o presente é eterno. Ao relembrar momentos de ruptura, de luta coletiva e de transformação, as pessoas recuperam a certeza de que a mudança é possível e aprendem como ela foi alcançada. A história não é nostalgia — é uma escola de estratégia, sacrifício e confiança (Instituto Tricontinental, 2024f).

Tornar-se persuasores permanentes. A esquerda deve disputar todos os espaços coletivos para divulgar as ideias da classe trabalhadora. Deve estar presente onde quer que as pessoas se reúnam, não como um palestrante convidado, mas como uma força organizadora. O “novo intelectual” de Gramsci é um “construtor” e um “organizador”, um “persuasor permanente” enraizado na vida prática, e não na eloquência ocasional.

A Batalha das Emoções

 A classe dominante precisa trabalhar continuamente para canalizar o descontentamento generalizado que constitui a resposta racional à exploração e às privações inerentes à sociedade capitalista. O descontentamento é perigoso quando passa a ser organizado, quando conhece seu inimigo e quando responde com solidariedade. Por isso, é constantemente desviado da luta coletiva e direcionado para o medo, o ressentimento, o cinismo e a resignação. Hoje, essa luta é intensificada por um panorama de comunicação no qual a juventude da classe trabalhadora é atraída para espaços virtuais que promovem o individualismo, são projetados para capturar e monetizar sua atenção e esgotar sua capacidade cognitiva, e são controlados por forças da extrema direita (Assange, 2014; Foer, 2017). Nesses espaços, o descontentamento é captado e encontra um alívio temporário por meio de uma participação afetiva efêmera. O resultado não é o desaparecimento do descontentamento, mas sim sua gestão (lucrativa), fragmentando a classe trabalhadora em espectadores isolados e ensinando-os a confundir reação com política.

Neste contexto, precisamos transformar a raiva e a confusão em clareza, a clareza em esperança e a esperança em ação coletiva. Para isso, é necessário:

Alfabetização midiática. A esquerda deve esclarecer a classe trabalhadora sobre a infraestrutura, os objetivos (intencionais e não intencionais) e a economia política dos espaços virtuais e das tecnologias. Isso significa tornar visível a diferença entre a participação controlada e o poder — entre publicar e organizar — e ensinar a classe trabalhadora a reconhecer como a classe dominante usa o seu monopólio sobre os espaços virtuais para controlar a informação, amplificar a indignação e normalizar o isolamento. O objetivo não é se afastar dos espaços virtuais, mas sim proporcionar às pessoas as ferramentas necessárias para interpretá-los, utilizá-los e reconhecer seus limites.

A política tal como ela é. Ao mesmo tempo que aproveita os espaços virtuais para a educação e a mobilização, a esquerda deve criar canais de participação política em que as pessoas possam perceber a possibilidade real de transformar o presente para construir um futuro melhor. Isso requer momentos organizados de interação sem a mediação de algoritmos, nos quais as pessoas possam se encontrar, trocar ideias, organizar-se, tomar decisões, realizar tarefas coletivas e ver os resultados. O objetivo é passar de interações efêmeras baseadas em interesses limitados para uma organização de longo prazo baseada em interesses de classe comuns.

Contravalores. A esquerda deve desenvolver valores socialistas e concretizá-los por meio da ação política. Isso significa transformar a solidariedade, o cuidado, a disciplina e o companheirismo em realidades no mundo, em vez de apenas palavras de ordem. Os valores ganham credibilidade quando se refletem na forma como nos organizamos: na maneira como tratamos uns aos outros, como trabalhamos juntos, como resolvemos divergências e como nos relacionamos com as comunidades que afirmamos servir. Em uma cultura que promove o individualismo impiedoso e o pessimismo, a promoção dos valores socialistas constitui, por si só, uma estratégia na batalha das emoções: ela oferece um vislumbre de uma forma diferente de convívio social e, portanto, uma noção clara de como será uma sociedade futura organizada em torno de valores distintos.

A esperança como prática

Se o futuro é 未来(wèilái) — o “ainda não” que está “por vir” —, então a esperança é a sensibilidade que mantém esse “ainda não” aberto e a prática que impede que ele seja selado pelo pessimismo, pelo espetáculo e pela resignação. A classe dominante trabalha para transformar o futuro em uma prisão, para eternizar o presente e para transformar o descontentamento capitalista em cinismo ou crueldade. Em contrapartida, nossa tradição insiste que a esperança não é um otimismo passivo ou uma mera expectativa, mas uma orientação militante em relação ao caráter inacabado do mundo, forjada nas lutas pela dignidade em todo o Sul Global. É perigoso precisamente por sua materialidade: desperta a consciência e leva as pessoas da mera resistência à ação.

É por isso que a esperança exige estrutura, disciplina e organização. Quando a cultura e as ideias de um povo em movimento impedem a reprodução do senso comum capitalista, elas podem se tornar fundamentais e decisivas, não como uma negação do materialismo, mas como a sua realização dialética. Nesse sentido, 大同 (dàtóng) – o estado utópico caracterizado pela “harmonia universal” – não é um ideal meramente simbólico, mas um horizonte que orienta a estratégia, enquanto 小康 (xiǎokāng, “sociedade moderadamente próspera”) designa as medidas concretas que permitem às pessoas se desenvolverem com recursos limitados, mas em condições de dignidade. A esperança se torna realidade quando transforma o 将来 (jiānglái, “o futuro”), o “que está por vir”, de uma promessa em um plano. A tarefa não é sonhar de forma abstrata, mas construir uma utopia concreta, enraizada em tendências reais e fortalecida pela prática, até que o “Ainda Não” se torne um futuro tangível que está sendo construído no presente.


Alfonso Soteno Fernández (Metepec, Estado de México, México), Árbol de la vida (Árvore da Vida), 1975. Barro cozido em forno aberto, pintado com tinta vinílica envernizada, 6 m.

Referências

 Assange, Julian. When Google Met Wikileaks. New York: OR Books, 2014.

Bloch, Ernst. The Principle of Hope. v. 1. Cambridge: MIT Press, 1986.

Bloch, Ernst. The Spirit of Utopia. Palo Alto: Stanford University Press, 2000.

Fischer, Mark. Capitalist Realism: Is There No Alternative? Winchester: Zero Books, 2009.

Foer, Franklin. “World Without Mind”: The Existential Threat of Big Tech. New York: Penguin Press, 2017.

Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, “A Arte da Revolução será Internacionalista”, dossiê n. 15, 8 abr. 2019a. Disponível em: https://dev.thetricontinental.org/the-art-of-the-revolution-will-be-internationalist/.

Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. “O novo intelectual”, dossiê n. 12, 11 fev. 2019b. Disponível em: https://dev.thetricontinental.org/the-new-intellectual/.

Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. “A serviço do povo: a erradicação da pobreza extrema na China”. Estudos sobre a Construção Socialista n. 1, 23 jul. 2021a. Disponível em: https://dev.thetricontinental.org/studies-1-socialist-construction/.

Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. “Big Techs e os desafios atuais para a luta de classes”, dossiê n. 46, 1 nov. 2021b. Disponível em: https://dev.thetricontinental.org/dossier-46-big-tech/.

Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. “Amanhecer: marxismo e libertação nacional”, dossiê n. 37, 8 fev. 2021c. Disponível em: https://dev.thetricontinental.org/dossier-37-marxism-and-national-liberation/.

Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. “Vida ou dívida: o limiar estrangulador do neocolonialismo e a busca por alternativas na África”, dossiê n. 63, 9 jun. 2023. Disponível em: https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-63-crise-da-divida-africana/.

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Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. “A organização política do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)”, dossiê n. 75, 16 abr. 2024b. Disponível em: https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-75-movimento-dos-trabalhadores-rurais-sem-terra-brasil/.

Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. “Como o neoliberalismo usou a ‘corrupção’ para privatizar a vida na África”, dossiê n. 82, 24 nov. 2024c. Disponível em: https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-como-o-neoliberalismo-usou-a-corrupcao-para-privatizar-a-africa/.

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Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. “Os congoleses lutam pela sua própria riqueza”, dossiê n. 77, 25 jun. 2024e. Disponível em: https://dev.thetricontinental.org/dossier-77-the-congolese-fight-for-their-own-wealth/.

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Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. “Hiperimperialismo: um novo estágio decadente e perigoso”. Estudos sobre dilemas contemporâneos n. 4, 23 jan. 2024g. Disponível em: https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/estudos-sobre-dilemas-contemporaneos-4-hiper-imperialismo/.

Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. “Guerra imperialista e resistência feminista no Sul Global”, dossiê n. 86, 5 mar. 2025a, https://dev.thetricontinental.org/dossier-imperialist-war-and-feminist-resistance-in-the-global-south/.

Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. “O 80º Aniversário da vitória na Guerra Mundial Antifascista, compreendendo quem salvou a humanidade: Uma história Restauracionista”. Dilemas Contemporâneos n. 5, 12 nov. 2025b. Disponível em: https://dev.thetricontinental.org/the-80th-anniversary-of-the-victory-in-the-world-anti-fascist-war/.

Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. “Rumo a uma nova teoria do desenvolvimento para o Sul Global”, dossiê n. 84, 14 jan. 2025c. Disponível em: https://dev.thetricontinental.org/towards-a-new-development-theory-for-the-global-south/.

Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. “O espírito de Bandung”. Dossiê n. 87, 8 abr. 2025d. Disponível em: https://dev.thetricontinental.org/dossier-the-bandung-spirit/.

Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.  “Otan: A Organização Mais Perigosa do Mundo”. Dossiê n. 89, 10 jun. 2025e. Disponível em: https://dev.thetricontinental.org/dossier-nato-the-most-dangerous-organisation/.

Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. “O Sahel em busca de soberania”. Dossiê n. 91, 12 ago. 2025f. Disponível em: https://dev.thetricontinental.org/dossier-sahel-alliance-sovereignty/.

Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. “A crise ambiental como parte da crise do capital”. Dossiê n. 93, 14 out. 2025g. Disponível em: https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-crise-ambiental/.

Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. “O imperialismo será inevitavelmente derrotado: o ressurgimento do Espírito Tricontinental”. Dossiê n. 95, 9 dez. 2025h. Disponível em: https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-tricontinental-conferencia-60/.

Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. “A agenda antifeminista da extrema direita latino-americana”. Dossiê n. 98, 3 mar. 2026. Disponível em: https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-agenda-direita-contra-mulheres/.

Marx, Karl. O capital. Crítica da Economia Política, v. 1, trad. Ben Fowkes. Londres: Penguin Books, 1976.

Minh, Ho Chi. “Modifying Working Methods”. Selected Works, v. 2. Hanoi: Foreign Languages Publishing House, 1961.

Não se pode engolir uma agulha, por menor que seja: o escultor da resistência de Okinawa

Ouça o rapper de Okinawa Kakumakushaka, a cantora de jazz de Okinawa Takako Gibo e o rapper japonês Kinoko Beats cantando sobre guerra e paz, de Okinawa à Palestina, em japonês, inglês e uchinaguchi (idioma indígena da região de Luchuan).

Ikusa yu nu Nuwati
Miruku yu nu
Iyarichun Nakuna yuu kuninga
Nuchi du Takara
Depois que a guerra acabar
Quando chegar o mundo de Miruku (paz)
Não repita essa dorA vida é um tesouro
– Ryūka de Okinawa, um poema lírico tradicional, atribuído ao rei Shō Tai (尚泰), o último do Reino de Ryukyu.

No caminho arborizado que leva à Caverna de Chibichiri, no sul de Okinawa, pequenas estatuetas de pedra se erguem entre as raízes das figueiras-de-bengala. Na altura dos quadris e isoladas, com as cabeças ligeiramente inclinadas e as mãos postas em oração. O musgo e os líquens começaram a tomar conta delas, como se a floresta as estivesse absorvendo lentamente. Ao sair da caverna, percebi as figuras com mais clareza do que quando entrei. Pareciam estar ali como testemunhas silenciosas ou guardiãs, colocadas ali para recordar os mortos e alertar os vivos. Mas sobre o que elas nos alertam?

Esculturas de Kinjo Minoru na Caverna Chibichiri.

Em 2 de abril de 1945, um dia após o desembarque das forças estadunidenses em Okinawa, cerca de 140 civis — em sua maioria idosos, mulheres e crianças — se refugiaram nesta caverna. Mais de oitenta deles foram levados ao suicídio depois que o Exército Imperial Japonês lhes disse que os soldados estadunidenses que se aproximavam eram “demônios vermelhos” que violariam e torturariam qualquer pessoa que capturassem. Como súditos do Imperador Hirohito, a rendição não era uma opção — a morte era preferível à vergonha de serem capturados vivos. Numa caverna vizinha, no entanto, todos sobreviveram, pois duas pessoas que tinham morado no Havaí e conseguiam se comunicar com os soldados estadunidenses lá se esconderam. Foi a supressão da verdade e a divulgação de mentiras por parte do exército japonês que tiraram a vida das pessoas na Caverna de Chibichiri. Durante as três décadas seguintes, nenhum dos sobreviventes falou dessa tragédia, que assombra a comunidade até hoje.

Ao caminhar das cavernas até a vila vizinha de Yomitan, fui recebida por uma estátua imponente que se erguia acima da tranquila rua da vila — uma mulher com o braço direito estendido em direção ao céu e a cabeça erguida, como se resistisse à violência que se abatia sobre ela. Com o braço esquerdo, ela segura quatro crianças pequenas bem junto ao corpo. Aos seus pés, encontrei as mesmas figuras de pedra solitárias, erguidas entre o cascalho e as ervas daninhas como se formassem uma procissão. Eles nos conduziram por um caminho até um pátio, onde nos deparamos com grandes esculturas em relevo e um senhor de barba branca sentado em uma cadeira de jardim de plástico.

Somos ryukyuanos, nunca japoneses

Entrada da oficina de Kinjo Minoru.

Kinjo Minoru (金城実) tem 86 anos. Nascido em 1939 na pequena ilha de Hamahiga, Kinjo perdeu o pai em 1944, durante a Segunda Guerra Mundial — ou a Guerra Mundial Antifascista —, antes mesmo de ter tido a oportunidade de conhecê-lo. Kinjo passou décadas construindo uma obra monumental de escultura que narra as histórias marcantes de Okinawa antes, durante e depois da Batalha de Okinawa de 1945, uma das campanhas mais sangrentas da Guerra do Pacífico. As obras são feitas de concreto, gesso e armação metálica — os mesmos materiais de construção usados diariamente em Henoko para construir mais uma base militar dos EUA. Kinjo as utiliza para recuperar aquilo que aquelas bases foram construídas para fazer as pessoas esquecerem. As superfícies de suas obras são ásperas, porosas e inacabadas, não porque falte refinamento ao artista, mas porque a história que suas obras carregam ainda é, ela própria, inacabada, crua e contestada.

Na galeria ao ar livre da oficina de Kinjo, você encontra painéis em relevo com cerca de um andar de altura. Figuras quase em tamanho real de civis, soldados, mães e crianças emergem da parede em alto-relevo, inclinando-se em sua direção como se quisessem contar sua história. São uma metáfora concreta do que Kinjo entende como a condição de seu povo: imersos numa história que não escolheram, lutando contra ela, mas ainda não libertos dela.

O próprio Kinjo nos conduz pelos quadros, apontando com sua bengala de madeira e narrando cada cena.

Kinjo Minoru com sua arte gravada na Caverna de Chibichiri.

“Por que uma mãe mataria a própria filha?” Kinjo pergunta, diante de um painel no qual os corpos de mulheres e crianças estão tão entrelaçados que é impossível distinguir quem está protegendo quem, e quem está matando quem. Ele continua: “Por que um irmão mataria o próprio irmão mais novo?” Você deveria fazer essa pergunta. “Por que isso aconteceu apenas aqui em Okinawa, e não no Japão continental?”.

A resposta dele vai direto à raiz colonial. Por mais de quinhentos anos, o Reino de Ryukyu governou essas ilhas como um Estado independente, com suas próprias línguas, culturas, religiões e relações diplomáticas — mantendo relações comerciais com o Leste e o Sudeste Asiático, além de laços tributários com a China e desenvolvendo uma civilização distinta da japonesa. Em 1879, o governo Meiji anexou o reino à força, depôs seu último rei, Shō Tai, e transformou as ilhas na Província de Okinawa, o território mais meridional, mais pobre e mais dispensável de um império em rápida industrialização. O que se seguiu foi uma repressão cultural sistemática destinada a apagar a identidade ryukyuan e formar súditos imperiais leais.

O governo Meiji nomeou um novo governador, Matsuda Michiyuki, e trouxe educadores do Japão continental para transformar as escolas de Okinawa em instrumentos de assimilação imperial. No entanto, o governo Meiji se recusou a criar universidades em Okinawa, apesar de assim ter feito em todos outros distritos. “Por quê?”, Kinjo pergunta. “Para nos controlar”. Os suicídios em massa em Chibichiri não foram exceções — foram o resultado lógico de um sistema educacional colonial que passou décadas ensinando os habitantes de Okinawa a morrer por um imperador que nunca os tratou como iguais. “Somos de Ryukyu”, diz-me Kinjo com ar desafiador. “Eu nunca serei japonês”.

Apesar dessa história angustiante, alguns políticos japoneses afirmam hoje que não houve coerção militar por trás dos suicídios em massa em Okinawa, enquanto outros negam as atrocidades cometidas pelo Japão durante a guerra, incluindo o Massacre de Nanjing, que ceifou a vida de 300 mil chineses em poucas semanas. As esculturas de Kinjo são uma lembrança e uma contestação concreta: uma história difícil e pesada que se recusa a ser suavizada.

Uma ilha que não pode ser engolida

Detalhe da obra de Kinjo Minoru.

Hoje, Okinawa representa apenas 0,6% da área territorial do Japão, mas abriga cerca de 70% de todas as instalações militares dos EUA no país. Ao ver o distrito com os próprios olhos, percebe-se rapidamente que não se trata de bases isoladas; trata-se de uma ocupação militar permanente da vida cotidiana. Cercas isolam o litoral, caças rasgam o ar e comunidades inteiras ficam cercadas por infraestruturas construídas para a guerra.

A mesma ilha, que serviu de campo de batalha em 1945, está sendo preparada para voltar a estar na linha de frente, com a China sendo retratada como o “demônio” de uma Nova Guerra Fria. Há novas implantações de mísseis, planos de evacuação estão sendo elaborados, exercícios militares conjuntos entre os EUA e o Japão estão em andamento e uma nova base militar estadunidense está sendo construída na vila de Henoko, em Okinawa. Tudo isso apesar de três décadas de oposição majoritária por parte dos habitantes de Okinawa, expressa por meio de referendos e protestos diários liderados pelos anciãos das comunidades afetadas e organizados em movimentos de base, incluindo o “No More Battle of Okinawa” [Basta de Batalha de Okinawa], que recebeu a visita do Instituto Tricontinental.

Apesar dos corajosos atos de resistência, Kinjo observa essa ocupação com a impaciência de quem já teve paciência demais. “Os habitantes de Okinawa são muito calados, muito gentis”, ele me disse durante nossa visita. “Eles deveriam ficar mais irritados”. “Se [os exércitos dos EUA e do Japão] querem usar Okinawa, deveriam nos tratar como seres humanos”. Mas ele não se desespera. “Enquanto eu estiver vivo, pode ser difícil, mas a próxima geração — tenho certeza de que eles vão se levantar e resistir”.

“Okinawa é pequena”, disse Kinjo. “Mas não dá para engolir uma agulha”.

Das cavernas de Okinawa aos bunkers de Chongqing

Obra de arte de Kinjo Minoru retratando o bombardeio de Chongqing.

Um painel na oficina de Kinjo merece atenção especial: foi criado em colaboração com artistas de Chongqing, na China, que viajaram até Okinawa para trabalhar ao lado dele. Durante a Guerra Mundial Antifascista, as forças armadas japonesas submeteram Chongqing a anos de bombardeios estratégicos, especialmente entre 1938 e 1943, matando milhares de pessoas e levando a população a se refugiar em cavernas e bunkers escavados nas encostas da cidade. Dois povos que estiveram em lados opostos da mesma guerra imperial, ambos abrigados em cavernas, criam arte juntos oito décadas depois.

A ressonância se intensifica quando Kinjo conta uma história notável que une as histórias de resistência de ambos os povos. Em outubro de 1962, no auge da Crise de Outubro de 1962 (conhecida no Ocidente como a Crise dos Mísseis de Cuba), as tripulações da Força Aérea dos EUA em Okinawa receberam ordens para lançar 32 mísseis de cruzeiro Mace B com ogivas nucleares contra alvos em toda a Ásia, incluindo Pequim, onde moro. Os oficiais de lançamento em terra questionaram a ordem e se recusaram a prosseguir. O fato de os artistas de Chongqing e o escultor de Okinawa estarem agora construindo algo juntos — mãos moldando o mesmo concreto, esculpindo a mesma história a partir de dois lados — não é meramente simbólico. É uma recusa viva à guerra que quase os destruiu a ambos e à Nova Guerra Fria que ameaça fazê-lo novamente.

Não chore — Estude sua própria história

Obra de arte de Kinjo Minoru sobre a Batalha de Okinawa.

Os pais de Kinjo se casaram aos 18 anos. Depois que seu pai foi morto na guerra, sua mãe nunca mais se casou. Ela chorava todos os anos no dia 23 de junho, Dia da Memória de Okinawa. Certa vez, Kinjo disse a ela: “Não chore. Não estou triste pela morte do meu pai. Era uma época assim. Todos sofreram. Um em cada quatro morreu na guerra de Okinawa. Hoje não é dia para chorar. É um dia para refletir sobre a sua própria história: História de Okinawa”.

Foi isso que Kinjo Minoru fez com a sua vida. Transformando o luto e a raiva em escultura — imprimindo as formas dos mortos no concreto para que os vivos não possam fingir que eles nunca existiram. O seu ateliê não é uma galeria burguesa. As esculturas ficam ao ar livre, sofrendo as intempéries tal como a própria ilha, e são visitadas por estudantes, visitantes internacionais e velhos amigos que vêm ver seu trabalho e ouvir suas histórias.

Mas a questão já não se resume apenas a 1945. Kinjo percebe claramente o que está acontecendo agora. Ele observa que 70% dos jovens de Okinawa não sabem o que o Japão fez na Ásia durante a guerra — na China, na Coreia e no Sudeste Asiático. “Talvez eles não apoiassem o primeiro-ministro”, diz ele, “e a mídia fala da China como uma ameaça”. O mesmo mecanismo que outrora levou as mães de Okinawa a matarem seus próprios filhos — a educação militarizada, o medo induzido e a supressão do conhecimento histórico — está sendo reativado hoje em torno da “ameaça” chinesa. Okinawa, mais uma vez, está sendo preparada para servir de zona de sacrifício. Mas os habitantes de Okinawa, como Kinjo, continuam a se lembrar — e a resistir.

Tinsagu nu hana ya, chimasaki ni sumiti
Uya nu yushi gutu ya, chimu ni sumiri
A flor de bálsamo tinge as pontas dos dedos
Os ensinamentos dos pais moldam o coração
– Tinsagu nu Hana (てぃんさぐぬ花, Flores de bálsamo), canção folclórica de Okinawa.

Cordialmente,

Tings Chak

Diretora de arte do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social

PS: Junte-se a nós no dia 30 de abril, no 51º aniversário do Dia da Libertação do Vietnã, para um webinário para lançar “Hands Off Asia! [Tire as mãos da Ásia!]”, a campanha da Assembleia Internacional dos Povos contra o militarismo dos EUA na região.

Luta de classes e catástrofe climática no Sahel

As imagens deste dossiê, fotografadas por Pedro Stropasolas em 2025 para a reportagem do Brasil de FatoComo Burkina Faso está vencendo o deserto com agroecologia”, retratam trabalhadoras da Associação de Mulheres Watinoma, em Burkina Faso.1

Por meio dessas imagens, com as paisagens editadas, o Instituto Tricontinental de Pesquisa Social evidencia os esforços coletivos dessas trabalhadoras para recuperar e regenerar a terra. Essas fotografias testemunham não apenas o trabalho cotidiano, mas também a solidariedade, o conhecimento e a esperança obstinada que o tornam possível.


Em Koubri, cerca de 40 quilômetros de Uagadugu, capital de Burkina Faso, o canto marca o início do trabalho diário das 30 mulheres da Associação Feminina de Watinoma.

Desde a era colonial, os conflitos na África têm sido explicados por todas as categorias imagináveis — antagonismo tribal, ódio étnico, extremismo religioso, falhas de governança, pressão populacional e escassez de recursos, para citar algumas —, exceto por aquela que está na base de todas elas: classe. Embora essas categorias, sem dúvida, moldem as contradições da África, elas não podem ser explicadas sem uma avaliação das relações de produção. Cada período da história pós-colonial da África produziu novas explicações que compartilham uma característica em comum: o apagamento sistemático de como a extração imperial e a exploração de classe organizam a violência e reproduzem a instabilidade.

Muitos, incluindo setores no interior das lutas anticoloniais, insistiram que as categorias de análise de classe e luta de classes não se aplicam à África porque uma sociedade baseada em classes não teria se formado no continente. Há cinquenta anos, o livro Class Struggles in Tanzania, de Issa Shivji, apresentou dois argumentos principais que contestaram essa tese:

  1. As relações capitalistas de produção no continente africano dividiram as populações em classes, remodelando outras relações sociais — étnicas, de parentesco, comunitárias — por meio das pressões da formação de classes.
  2. Portanto, classe social, enquanto categoria, é analiticamente necessária para compreender a realidade africana (Shivji, 2025).

Em Salvadores e Sobreviventes, Mahmood Mamdani (2009) argumentou que a guerra em Darfur não pode ser compreendida sem considerar a reorganização colonial da terra e da identidade política, particularmente a divisão entre tribos com pátrias reconhecidas (dars) e aquelas sem. Ele mostrou como essas divisões, combinadas com a desertificação e a intensificação da competição por recursos, exacerbaram as tensões de classe e a violência, especialmente à medida que a região do Sahel se tornava cada vez mais árida.2

Embora as mudanças climáticas desempenhem um papel inegável nas transformações da região, a estrutura dominante de “conflito climático” rotineiramente — e de maneira falsa — enquadra a escassez de recursos impulsionada pelo clima como a raiz da violência e da instabilidade no Sahel.

A arquitetura institucional da estrutura do “conflito climático” consolidou-se na década de 2010. O relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente Segurança de subsistência: mudanças climáticas, migração e conflito no Sahel identificou as mudanças climáticas como um “multiplicador de ameaças” que impulsiona o conflito entre agricultores e pastores, enquanto o debate do Conselho de Segurança da ONU em 2018 sobre os riscos de segurança relacionados ao clima o posicionou como uma ameaça que exige resposta militar (Pnuma, 2011; Conselho de Segurança da ONU, 2018). Esse discurso sobre o “nexo clima-segurança” emergiu durante um período marcado pela crise financeira global de 2008, pela destruição da Líbia pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em 2011 e pela subsequente militarização do Sahel por meio da expansão da presença militar dos EUA e da França — contexto que a própria estrutura omite sistematicamente.

Luta de classes e catástrofe climática no Sahel argumenta que os conflitos crescentes na região só podem ser compreendidos se forem analisados com base na luta de classes, visto que operam dentro da economia política da extração imperialista: a catástrofe climática é um acelerador que intensifica contradições preexistentes — e não a sua causa raiz. A segunda parte do dossiê analisa detalhadamente os casos do Mali e do Sudão como exemplos dessas mudanças no Sahel.


Parte I: A dessecação do Sahel e seu impacto político

A catástrofe climática

A palavra árabe ṣaḥrāʾ significa “deserto”, ou seja, um lugar árido com pouca chuva. No entanto, esse é um termo enganoso. Houve longos períodos, influenciados por mudanças na órbita da Terra e pela insolação solar,3 em que o Saara experimentou fases pluviais. Um desses períodos, conhecido como “Saara Verde” ou “Período Úmido Africano”, abrangeu o final da última Era Glacial e o início do Holoceno, entre 14.800 e 5.500 anos atrás, quando lagos, rios, pastagens e savanas, bem como vegetação densa, estavam presentes no Saara e ao longo da borda sul do Sahel (termo oriundo da palavra árabe sāḥil, para “costa” ou “margem”). Nessa época, as sociedades se organizavam em torno do pastoralismo comunitário (rebanho nômade com acesso compartilhado à água e pastagens), adaptando-se às oscilações climáticas por meio da coordenação coletiva de movimentos, em vez de depender do controle privatizado de recursos (Adkins et al., 2000). Do século XVI ao XVIII, partes da franja do Sahel-Saara voltaram a experimentar condições úmidas, antes de entrarem em um longo ciclo de aridez no século XX (Spinage, 2012).

Embora essas “mudanças de regime”, como denominam os cientistas climáticos, tenham uma tendência de ocorrer de forma relativamente abrupta, seu ritmo nas últimas décadas acelerou muito mais rapidamente do que qualquer situação que o planeta tenha experimentado em períodos anteriores (Foley et al., 2003). De acordo com a avaliação das terras secas do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (Ifad, na sigla em inglês) das Nações Unidas, nos últimos 30 anos a zona ecológica do Sahel deslocou-se de 50 a 200 quilômetros para o sul, levando a grandes perdas de biodiversidade e terras aráveis (Ifad, 2024). Embora o Período Úmido Africano seja geralmente considerado como tendo terminado “rapidamente” em termos paleoclimáticos, biomarcadores de cera vegetal de alta resolução e reconstruções do nível de lagos (registros de núcleos de sedimentos de granulação fina sobre mudanças passadas na precipitação e no balanço hídrico) mostram que a principal transição de condições úmidas para áridas abrangeu vários séculos, não décadas (Collins et al., 2017). “O passado”, como argumenta um artigo científico, “não é o futuro” (Claussen et al., 2003).4

No Sahel, o recente aquecimento antropogênico (induzido pelo ser humano) e as consequentes alterações nos padrões de precipitação ao longo de várias décadas estão ocorrendo em taxas sem precedentes claros no registro do Holoceno.5 Estudos recentes mostram que o Sahel aqueceu cerca de 1,5 vez mais rápido que a média global nas últimas décadas, apesar de contribuir com menos de 1% das emissões globais de gases de efeito estufa (por exemplo, a África foi responsável por menos de 3% das emissões globais cumulativas de CO₂ entre 1750 e 2021, enquanto a África Subsaariana, excluindo a África do Sul, contribuiu com apenas 0,6%). Em contraste, os Estados Unidos, que estão aquecendo a uma taxa semelhante (1,6 vez mais rápido que a média global), são responsáveis por 25% das emissões globais (Eboreime et al., 2025; Ritchie, 2023). O sexto relatório de avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas (2023) confirma com “alta confiança” que: 1) a temperatura da África aumentou mais rapidamente do que a de qualquer outra região do mundo; 2) o aquecimento contínuo acelerará as temperaturas extremas e, principalmente; 3) que “as mudanças climáticas induzidas pelo ser humano [têm sido] o principal fator” (IPCC, 2021).

Essas descobertas não são novas. Um artigo científico de 2001, por exemplo, mostrou que o Sahel “fornece o exemplo mais dramático em todo o mundo de variabilidade climática medida direta e quantitativamente” (Hulme, 2001). Entre o início da década de 1980 e o final da década de 1990, a região do Sahel registrou um aumento nas chuvas e na vegetação, recuperando-se da severa seca das duas décadas anteriores. No entanto, a partir de 1999, as tendências de crescimento se estabilizaram (Chen et al., 2020). Embora estudos anteriores tenham sugerido que as severas secas que ocorreram do final da década de 1960 até a década de 1980 foram causadas pelo desmatamento — o que ainda é uma preocupação —, dados e análises mais precisos mostram que a variabilidade das chuvas no Sahel é causada pelo aumento da temperatura da superfície do mar no Mediterrâneo, no Atlântico Norte e nos oceanos tropicais. Em outras palavras, essa variabilidade se deve às tendências gerais do aquecimento antropogênico, em grande parte resultado das emissões industriais de gases de efeito estufa do Ocidente (Park et al., 2016). Futuras mudanças climáticas, incluindo aquelas influenciadas por alterações oceânicas, podem facilmente reverter ou desestabilizar ainda mais esse frágil equilíbrio no Sahel.6

Os padrões climáticos oscilantes no Sahel também causaram problemas no lençol freático, alimentando conflitos entre diferentes comunidades. Análises estatísticas de longo prazo dos padrões climáticos mostraram uma forte recuperação após as secas, seguida de uma estabilização, indicando que não houve uma recuperação permanente. Essa estabilização também é amplamente atribuída ao aumento da temperatura da superfície do mar, impulsionado pelas emissões industriais globais concentradas no Norte Global (Chen, 2019; Saley & Salack, 2023; Salack et al., 2018). Utilizando o Índice de Precipitação do Sahel, derivado de observações pluviométricas, esses estudos mostram que o que mudou foi a natureza da precipitação: as chuvas agora são mais intensas, porém intermitentes, resultando em padrões climáticos mais extremos, incluindo tanto inundações quanto secas.

Em um terreno de mais de dois hectares, cerca de 30 mulheres cultivam alimentos com práticas agroecológicas que abastecem suas famílias, além de escolas e mercados locais da região de Koubri.

A catástrofe social e econômica

Com as temperaturas no Sahel subindo 1,5 vez mais rápido que a média global, a agricultura e o pastoralismo têm sofrido forte pressão (Doblas-Reyes et al., 2021). Uma alta correlação foi documentada entre a disponibilidade de chuvas no Sahel e a produtividade de culturas básicas de que contam exclusivamente com a água da chuva, como o milheto e o sorgo (Sultan & Gaetani, 2016). Há fortes evidências científicas de que os pastores no Sahel enfrentam uma diminuição na disponibilidade de pastagens devido ao aquecimento global e ao atraso das chuvas. Como resultado, eles precisam migrar por distâncias maiores, muitas vezes para territórios de pastagem desconhecidos. Pesquisas recentes sobre o pastoralismo no Sahel mostram que o aumento das temperaturas, as chuvas irregulares e a degradação do solo estão reduzindo as áreas de pastagem acessíveis e forçando os pastores a estender sua mobilidade sazonal. Uma síntese de 2025 sobre clima e meios de subsistência pastoris observa que, no Sahel, a redução da disponibilidade de pastagens devido ao aquecimento global e às chuvas irregulares está estimulando os pastores a migrações forçadas mais longas por territórios desconhecidos em busca de pastagens e fontes de água cada vez mais escassas, remodelando assim os calendários e rotas tradicionais de transumância (os corredores habituais ou demarcados usados para os movimentos sazonais de gado entre áreas de pastagem e pontos de água) (Awazi, 2025, p. 85). Estudos anteriores da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) documentaram de forma semelhante que a redução da disponibilidade de pastagens exigiu deslocamentos de maior distância e duração, com as rotas dos rebanhos se movendo para o sul, em direção a zonas mais úmidas e frequentemente desconhecidas (Ickowicz et al., 2012, p. 269).

Essa intensificação da mobilidade torna-se catastrófica não porque a mobilidade em si seja inerentemente prejudicial, mas porque os regimes de posse de terras coloniais e pós-coloniais desmantelaram as proteções legais para os corredores de transumância, o desenvolvimento pós-independência priorizou a agricultura sedentária e, a partir da década de 1980, décadas de ajuste estrutural corroeram a regulamentação pública da terra e da água (Instituto Tricontinental, 2023). Nessas condições, a mobilidade induzida pelo clima expõe cada vez mais os pastores mais pobres ao cercamento de terras, à extração de rendas, à criminalização e à violência, convertendo um estresse ecológico em uma crise de reprodução mediada por classes sociais.

Essas dinâmicas não são abstratas; suas consequências foram sentidas com maior intensidade nos corpos dos jovens. As secas do final da década de 1960 até a década de 1980, e os choques climáticos e ambientais que elas produziram, resultaram em graves crises alimentares e fome (Mortimore, 2010; Assaf et al., 2014). Pesquisas sobre clima e sistemas alimentares mostram que, mesmo quando as chuvas e as colheitas se recuperam, a deterioração da saúde das crianças a longo prazo tem sido drástica. Um estudo, por exemplo, relaciona o aumento das temperaturas, a diminuição das chuvas — bem como sua maior variabilidade — e a quebra das estações do ano ao baixo peso ao nascer e ao atraso no crescimento infantil, impulsionados por uma combinação de estresse térmico intrauterino e desnutrição resultante de repetidas perdas de colheitas e criações de animais. Onde predominam a agricultura de subsistência e a agricultura familiar, as perdas sazonais crônicas se traduzem diretamente em déficits de saúde duradouros (Davenport et al., 2017; Grace et al., 2015, 2018). Essa correlação entre a variabilidade climática e a saúde infantil reflete como os programas de ajuste estrutural (PAEs) do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional (FMI) eliminaram as reservas de grãos, os insumos subsidiados e os serviços de extensão rural que antes protegiam contra as quebras de safra, ao mesmo tempo que impuseram uma agricultura de exportação que prioriza os mercados europeus em detrimento da segurança alimentar local.

Com a intensificação das mudanças climáticas, a crise da fome tem sido gradualmente acompanhada pela crise das doenças, levando a uma catástrofe política na região. Por exemplo, o foco epidêmico da malária deslocou-se para o norte, em direção à zona de transição entre o Sahel e o Sudão, com aumento das taxas de mortalidade entre crianças que não possuem imunidade à malária e outras doenças associadas (Caminade et al., 2014). Enquanto isso, houve uma intensificação das rebeliões tuaregues (Amazigh) no norte do Mali e do Níger, enraizadas em antigas queixas contra o Estado; das rebeliões islamistas resultantes da destruição da Líbia pelas mãos da Otan; e das tensões entre pastores e agricultores sedentários. Da insegurança alimentar aos surtos de doenças, a região mergulhou em conflitos violentos, provocando migração interna e transfronteiriça, bem como deslocamento em massa e rápida urbanização (Cattaneo & Massetti, 2015; Conte, 2023; Henderson et al., 2015).

A catástrofe política

Com a intensificação das secas, a irregularidade das chuvas e o colapso dos meios de subsistência agrários e pastoris, toda a ordem social e política passa a ser remodelada. O rareamento das pastagens e a redução das fontes de água têm levado agricultores e pastores a confrontos cada vez mais violentos. À medida que as rotas de pastoreio secam e os poços falham, os pastores são forçados a avançar cada vez mais sobre as terras agrícolas, enquanto os agricultores — enfrentando o declínio de suas próprias colheitas — tornam-se menos dispostos a acomodar rebanhos nômades na ausência de uma mediação eficaz. Essa intensificação da competição não ocorre isoladamente: as mudanças nos padrões climáticos tornam os recursos vitais mais escassos em regimes fundiários moldados pela desapropriação colonial, pela tendência do Estado pós-colonial de favorecer a agricultura sedentária e pela erosão da regulamentação pública (Benjaminsen, 2016).

Essas tensões localizadas se intensificam em crises nacionais precisamente porque os Estados do Sahel — enfraquecidos por décadas de marginalização, desenvolvimento desigual e reestruturação econômica imposta externamente — não têm capacidade para lidar com essas pressões. Em regiões periféricas como o norte do Mali, Níger e Chade — onde a presença do Estado tem sido mínima há muito tempo —, os choques climáticos interagem com o subinvestimento crônico, corroendo ainda mais a já frágil capacidade estatal. A incapacidade do Estado de fornecer acesso à água, gerir pastagens e proteger a população da violência durante períodos de seca mina sua legitimidade, aprofunda o ressentimento e acelera a fragmentação política, instrumentalizando identidades religiosas e étnicas (Buhaug & Uexkull, 2021). Esse vácuo de autoridade, moldado pelo recuo do Estado e pela negligência política, oferece terreno fértil para grupos armados, particularmente sob as condições criadas pelo estresse ecológico. Movimentos insurgentes, desde redes jihadistas do Sahel até o Boko Haram, aprenderam a explorar a crise ecológica como uma oportunidade para expansão política. Quando as pessoas perdem gado, plantações ou renda devido à seca, tornam-se mais vulneráveis ao recrutamento — não porque essa ideologia se torne repentinamente irresistível, mas porque os grupos armados oferecem uma aparência de sustento, proteção e resolução de conflitos. Estudos realizados no Quênia, Mali e norte da Nigéria mostram que o colapso dos meios de subsistência induzido pelas mudanças climáticas aumenta a probabilidade de jovens se juntarem a grupos armados, com evidências da Nigéria demonstrando picos de recrutamento em regiões afetadas pela seca (Zougmoré et al., 2011). A crise climática, portanto, remodela o campo de batalha político: grupos armados entram em cena onde o Estado recua, muitas vezes fornecendo acesso à água, arbitrando conflitos locais ou distribuindo os espólios — funções que podem mimetizar a governança.

Contudo, o colapso de mecanismos de adaptação de longa data não é apenas institucional, mas também cultural e político. Os povos do Sahel desenvolveram, ao longo de muito tempo, sistemas complexos de conhecimento para interpretar os ciclos ecológicos, prever as chuvas e coordenar os movimentos dos rebanhos em vastos e inóspitos territórios. Esses não eram meros costumes; eram formas de governança enraizadas em rituais, obrigações sociais e acordos intercomunitários. A volatilidade climática desestabilizou esses sistemas de conhecimento, cujo funcionamento dependia de ritmos ecológicos relativamente previsíveis. As chuvas irregulares tornam os calendários agrícolas autóctones pouco confiáveis, enquanto os ciclos de pastoreio interrompidos forçam os pastores a abandonar rotas migratórias ancestrais (Carney, 1993; Nébié et al., 2024). À medida que essas tecnologias culturais se desfazem, as comunidades perdem a capacidade de autorregular o uso de recursos, criando mais oportunidades para conflitos e deslegitimando ainda mais tanto as autoridades tradicionais quanto as instituições estatais.

Mulheres e meninas estão no centro desta crise climática e política interligada, embora suas experiências sejam frequentemente classificadas erroneamente como sociais em vez de políticas. À medida que a água e a lenha se tornam mais escassas, as mulheres precisam caminhar distâncias maiores diariamente, reduzindo o tempo disponível para participação econômica ou cívica (Cools & Kotsdam, 2017). Os impactos climáticos podem levar as famílias a tirar as meninas da escola ou a forçá-las a casamentos precoces — um retrocesso que enfraquece ainda mais os alicerces sociais da participação democrática e da igualdade de gênero. Há também evidências de que o estresse econômico causado pela seca está correlacionado ao aumento da violência doméstica (Benjaminsen & Ba, 2021). Essas pressões restringem a atuação política das mulheres e sua capacidade de participar da tomada de decisões comunitárias, da construção da paz ou da governança local. As mudanças climáticas, portanto, não estão apenas remodelando as paisagens físicas, mas também reduzindo o espaço político para metade da população.

Em conjunto, as dinâmicas descritas acima — conflitos por recursos, erosão da autoridade estatal, expansão de grupos armados, colapso de sistemas de governança não estatais e redução da capacidade política das mulheres — formam uma crise política interligada, na qual o estresse climático intensifica contradições enraizadas na intervenção imperialista, no desenvolvimento desigual e no enfraquecimento das instituições públicas e comunitárias. As mudanças climáticas não operam como um choque externo, mas como uma força que reorganiza o poder, remodelando as lutas por terra, mobilidade e autoridade em todo o Sahel. Esses processos não se desenrolam uniformemente em toda a região; são mediados por histórias nacionais, trajetórias estatais e escolhas políticas. Para entender como a crise climática se torna uma crise política na prática, é necessário, portanto, examinar essas dinâmicas no contexto de países específicos. A menos que a justiça climática, a adaptação equitativa e o fortalecimento das instituições sociais sejam colocados no centro da estratégia política da região, a espiral descendente continuará, transformando o choque climático em convulsão política e a degradação ambiental em colapso estatal.

O cultivo de milho orgânico tornou-se parte da resistência camponesa à expansão das sementes geneticamente modificadas em Burkina Faso, um movimento impulsionado em defesa da soberania alimentar.

Parte II: Mali e Sudão

Mali

Antes da invasão francesa da região da Curva do Rio Níger na década de 1890, as sociedades da África Ocidental já haviam desenvolvido sistemas para governar a terra, a água e a mobilidade pastoral. No Mali, manuscritos de Timbuktu, produzidos entre os séculos XV e XIX, vinculavam a legitimidade política à proteção dos meios de subsistência, combinando o raciocínio jurídico com a observação astronômica para antecipar as chuvas e inundações sazonais.7 O  Império Macina (1818-1862) formalizou posteriormente essa abordagem por meio do dina (um código legal abrangente que regulamentava o uso da vasta planície aluvial sazonal do Rio Níger — o Delta Interior do Níger — entre pastores fulani, agricultores dogon e bambara e pescadores bozo). Esse sistema era supervisionado por uma hierarquia de autoridades, incluindo chefes pastoris conhecidos como jowros, que coordenavam a entrada sazonal de gado, mantinham corredores de pastoreio e mediavam conflitos de recursos com base nos padrões de inundação observados (Benjaminsen & Ba, 2021).

Esses manuscritos e sistemas de governança mostram que a gestão de recursos e do meio ambiente no Mali era inseparável da legitimidade política, da obrigação social e do trabalho produtivo, em vez de ser tratada como um problema técnico de segurança. O estresse ambiental era entendido como fracasso político quando os governantes não protegiam os meios de subsistência. O que hoje é descrito como “conflito climático” é, na verdade, o resultado da destruição sistemática da capacidade estatal necessária para administrar os sistemas regulatórios — primeiro pelo colonialismo francês, depois pela formação do Estado neocolonial e, hoje, intensificada pelas mudanças climáticas antropogênicas que operam dentro de estruturas de desenvolvimento estagnado.

O colonialismo francês desmantelou a capacidade regulatória das instituições existentes, preservando, ao mesmo tempo, suas funções extrativistas. No Mali, a legislação fundiária estatutária retirou o reconhecimento legal dos chefes pastoris, embora continuasse a utilizá-los para controlar o acesso às terras pastoris e cobrar taxas, criando uma situação de dupla ilegitimidade, uma vez que perderam tanto a autoridade consuetudinária quanto a legal. Ao reconhecer apenas títulos de propriedade individuais, a legislação fundiária colonial subordinou os direitos consuetudinários e pastoris de uso da terra, privilegiando a agricultura sedentária e tornando o pastoralismo nômade juridicamente precário.

O primeiro presidente do Mali, Modibo Keïta (1960-1968), desafiou essa herança. Inspirado pelo socialismo do Terceiro Mundo, seu governo retirou-se da Comunidade Francesa,8 abandonou o sistema monetário apoiado pela França, conhecido como zona do franco CFA, nacionalizou indústrias-chave e buscou o desenvolvimento liderado pelo Estado. Visava, assim, restaurar a autoridade pública sobre a terra e os recursos em um contexto de crescente variabilidade ambiental, incluindo esforços para restringir o poder político das elites pastoris intermediárias. Isso incluiu a rejeição de projetos apoiados pela França para externalizar o controle de recursos nas regiões desérticas do Mali — principalmente a Organisation Commune des Régions Sahariennes [Organização Conjunta das Regiões do Saara], um projeto francês do final do período colonial que buscava manter o controle sobre o território e os recursos do Saara além das fronteiras coloniais, fomentando divisões entre grupos étnicos.

O governo militar de Moussa Traoré (1968-1991), que depôs Keïta em um golpe de Estado em 1968, reverteu essas medidas e restaurou o papel privilegiado das empresas e do setor financeiro francês no comércio, na área bancária e nas licitações públicas na década de 1980. Essa restauração do privilégio comercial francês revelou a função do regime de Traoré dentro do sistema da Françafrique (uma matriz informal de mecanismos políticos e econômicos franceses de controle em suas antigas colônias africanas). Assim como ocorreu com outros líderes nacionalistas radicais na África francófona, o desafio de Keïta ao controle neocolonial foi abruptamente interrompido.

Sob o governo de Traoré, os chefes pastoris foram gradualmente reabilitados, mas dentro de estruturas legais e administrativas que haviam perdido sua função de coordenação justamente quando a variabilidade ambiental se intensificou. Os códigos fundiários reconheciam apenas títulos de propriedade individuais, reduzindo os direitos consuetudinários a direitos de uso frágeis e transformando os chefes pastoris de gestores de recursos em agentes de extração de renda. À medida que as chuvas se tornaram cada vez mais irregulares após as secas do final da década de 1960 até a década de 1980 e a “recuperação” parcial na década de 1990, que se estabilizou em 1999, o acesso a corredores de pastoreio e pastagens de várzea tornou-se mais disputado, permitindo que os políticos redefinissem a entrada de gado como uma fonte de receita. Embora os chefes pastoris permanecessem responsáveis pela gestão desses corredores, eles não tinham autoridade legal sobre eles e tornaram-se dependentes de funcionários do governo local que controlavam o acesso e extraíam rendas. O aumento das taxas de acesso às pastagens de várzea, impulsionado pela necessidade de financiar subornos a funcionários locais, onerou desproporcionalmente os pastores de terras secas. Ao contrário dos agropecuaristas, eles não tinham terras agrícolas para recorrer, e seus rebanhos dependiam do acesso sazonal aos pastos aluviais do delta. Enquanto isso, agências estatais como o Escritório de Desenvolvimento do Arroz de Mopti (Office Riz Mopti Rice) confiscaram pastagens ricas em nutrientes sem fornecer compensação significativa pela perda do acesso ao pasto. Às comunidades pastoris que nominalmente serviam, os tribunais emitiam decisões deliberadamente ambíguas em meio a subornos generalizados, perpetuando conflitos para garantir a extração contínua. Embora as instituições de governança pastoril formalmente permanecessem, sua capacidade de coordenar terra, água e mobilidade sob crescente pressão climática foi sistematicamente desmantelada (Benjaminsen & Ba, 2021).

Os programas de ajustamento estrutural (PAE) foram implementados a partir de 1988 e aprofundados ao longo da década de 1990. A crise foi agravada pelo desmantelamento da capacidade do Estado de regular a terra, a água e a mobilidade, precisamente quando a variabilidade das chuvas se intensificou. As condicionalidades do Banco Mundial e do FMI reduziram o número de funcionários de extensão rural e veterinária, eliminaram os subsídios aos insumos (com aumentos acentuados nos preços dos fertilizantes), privatizaram a manutenção dos pontos de água e impuseram uma desvalorização cambial de 50% em 1994, levando ao colapso da infraestrutura rural e à imposição de uma comercialização voltada para a exportação (Banco Mundial, 1996; FMI, 1998; Inter-réseaux, 2020). Com o desaparecimento da capacidade de mediação, a competição pela terra se intensificou e a mobilidade pastoral foi criminalizada, gerando uma extração contínua de rendas das economias pastoris. Os pastores fulani de classe baixa foram sistematicamente desapropriados, enquanto funcionários do Estado e elites pastoris acumulavam riquezas. A governança pastoral foi convertida em um mecanismo de extração. As mudanças climáticas intensificaram essas condições, reduzindo as pastagens disponíveis, aumentando a importância do controle de acesso e forçando migrações mais longas para territórios desconhecidos, onde a extração predatória era mais facilmente imposta (Benjaminsen & Ba, 2019).

Com o afastamento do Estado de suas funções de governança, grupos armados — atuando não como movimentos de libertação, mas como atores que exploravam o vácuo deixado pelo colapso institucional — passaram a abordar as queixas materiais que nenhuma autoridade política se dispunha a enfrentar. Entre 2015 e 2018, a Katiba Macina (Frente de Libertação de Macina) — um grupo jihadista armado formado em 2015, cuja base era composta principalmente por pastores fulani marginalizados e que, a partir de 2017, operava sob a égide do Jama’at Nusrat ul- Islam wa al-Muslimin (Grupo de Apoio ao Islã e aos Muçulmanos, JNIM), afiliado à Al-Qaeda — aboliu todas as taxas de pastoreio. Essas taxas eram impostas pelos chefes pastoris para obter acesso a pastagens aluviais ricas em nutrientes e consumiam uma parcela substancial da renda em dinheiro dos pastores (Benjaminsen, 2024). A abolição das taxas eliminou uma importante fonte de extração de renda, aliviando o fardo financeiro e melhorando o acesso às pastagens para os pastores de terras áridas. Para as famílias mais pobres, isso significou ajuda material imediata — muitas vezes a diferença entre a viabilidade e o desapossamento (Benjaminsen & Ba, 2019).

Nesse contexto, a divisão de classes dentro das comunidades fulani e dogon moldou os padrões de mobilização armada. Entre os fulani, chefes pastoris ricos e proprietários de gado se opunham aos pastores pobres das terras áridas. As comunidades agrícolas dogon eram igualmente estratificadas entre proprietários de terras vinculados a programas estatais e agricultores com pouca terra que enfrentavam insegurança alimentar. As políticas estatais instrumentalizaram essas divisões de classe. No Escritório de Arroz de Mopti, as mudanças nos corredores pastoris e no acesso ao pasto favoreceram os fazendeiros ricos, muitas vezes sem uma compensação significativa para os pastores. Com a retirada das forças estatais das áreas rurais após 2015, as autoridades do país delegaram a segurança local às milícias de caçadores dozo (fraternidades tradicionais reaproveitadas como grupos armados), fornecendo-lhes treinamento, armas e apoio financeiro. A mais estruturada delas, a Dan Na Ambassagou, recrutava principalmente jovens dogon pobres, cuja desapropriação foi canalizada para a hostilidade étnica contra as comunidades fulani, em vez de contra as elites que desapropriavam ambas. As consequências foram devastadoras: no massacre de Ogossagou, em março de 2019, combatentes da Dan Na Ambassagou mataram aproximadamente 160 civis fulani — uma atrocidade que forçou a renúncia do primeiro-ministro, mas não resultou em responsabilização duradoura (Nsaibia, 2025).

 Embora o estresse climático não tenha criado essa divisão de classes, ele multiplicou seus efeitos: chuvas irregulares e pastagens degradadas tornaram o acesso oportuno ao delta ainda mais crucial, transformando taxas de exploração em barreiras existenciais. Foi essa intensificação da extração preexistente, e não a escassez em si, que levou os pastores à resistência armada.

Apesar de impor códigos sociais coercitivos — incluindo restrições à circulação de mulheres e violência contra dissidentes —, a Katiba Macina conseguiu resolver disputas de terras, regular o acesso ao pasto e exigir indenização por danos às plantações, exercendo funções de governança que o Estado neocolonial havia abandonado. O impacto econômico concreto da abolição das taxas ajuda a explicar por que os pastores de terras áridas apoiaram a Katiba Macina e, posteriormente, o JNIM de forma mais ampla, já que este atendia a reivindicações que nenhuma outra força política enfrentava. Depois que a Katiba Macina restabeleceu taxas menores em 2018, sob pressão dos jowros (governadores tradicionais), muitos pastores de terras áridas transferiram sua lealdade para o Dawlat al-Islamiyah (Estado Islâmico no Grande Saara, ISGS), uma nova facção alinhada ao Estado Islâmico formada no final de 2019, cujo apelo pela coletivização da terra e pelo fim dos pagamentos pelo acesso ao pasto atraiu diretamente os fulanis de classe baixa (Benjaminsen & Ba, 2019).

A cisão entre o JNIM e o ISGS não se baseava em doutrina religiosa ou estratégias de adaptação climática — tratava-se da possibilidade de as elites fulani continuarem a extrair rendas dos pastores pobres. O apelo do ISGS pela coletivização da terra desafiou diretamente o poder de classe dos chefes pastoris, atraindo o apoio dos fulani de classe baixa que enfrentavam tanto o estresse ambiental quanto a exploração sistemática de classe. O estresse climático amplificou essas dinâmicas, tornando o acesso aos recursos mais crítico, mas a luta em si era uma disputa sobre quem definiria as regras de mobilidade, acesso a pastagens e compensação no delta. A narrativa de “conflito étnico” patrocinada pelo Estado serviu para obscurecer essas dinâmicas de classe. Ao apresentar a violência como um antagonismo primordial entre fulani e dogon, ela impede a solidariedade entre os agricultores e pastores pobres que sofrem com a exploração pelas mãos da elite e justifica as operações militares como uma forma de “contraterrorismo”.

Nesse contexto, a Aliança dos Estados do Sahel (AES) — formada em setembro de 2023 por Mali, Burkina Faso e Níger e formalizada como confederação em julho de 2024 — representa uma tentativa de romper com a dependência neocolonial e retomar o controle dos recursos, abrindo espaço para uma adaptação climática abrangente. Os documentos de planejamento do Mali – que incluem a Estratégia Nacional para Emergência e Desenvolvimento Sustentável, 2024-2033 e o Mali Kura ɲɛtaasira ka bɛn san 2063 ma (Um Novo Mali: Uma Visão para 2063) – enquadram explicitamente a soberania como um pré-requisito para a restauração ambiental e promovem políticas como o investimento público em infraestrutura pastoril e de irrigação, a restauração de corredores de pastagem e a priorização da soberania alimentar em detrimento da agricultura voltada para a exportação.

No entanto, a AES enfrenta desafios profundos, como dívidas herdadas, capacidade industrial limitada, conflitos armados em curso e a pressão francesa e da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Cedeao). A dependência do Mali em relação a investidores estrangeiros levanta questões cruciais sobre se a AES será capaz de alcançar uma soberania genuína ou se cederá aos interesses do imperialismo francês. Não obstante, esta aliança ecoa o reconhecimento de Keïta de que as crises ambientais não podem ser enfrentadas sem confrontar o imperialismo.

Uma das conquistas da Associação de Mulheres Watinoma foi a instalação de um poço e de um reservatório de 15 m³ abastecido por painéis solares, garantindo acesso à água mesmo durante a estação seca.

Sudão

Darfur, do árabe Dār Fūr, significa “terra natal do povo Fur”. No entanto, hoje, a palavra frequentemente evoca uma sensação de crises naturais persistentes. Rotulado como “o primeiro conflito climático do mundo” por organizações humanitárias, funcionários da ONU e analistas de política externa, essa designação apaga tanto quanto explica (Kamen, 2021). Quando o ex-secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, declarou em 2007 que “o conflito de Darfur começou como uma crise ecológica, decorrente, pelo menos em parte, das mudanças climáticas”, ele realizou um truque de mágica familiar: reconheceu o estresse ambiental enquanto deixava de lado sistematicamente a economia política que transformou a seca em genocídio. A narrativa (Ki-moon, 2007) segue de maneira previsível: à medida que o Deserto do Saara avança um quilômetro e meio por ano e as chuvas diminuem entre 15% e 30%, pastores árabes e agricultores negros africanos competem por recursos cada vez mais escassos e antigos ódios étnicos se reacendem. O clima se torna o principal fator; a questão de classe desaparece por completo.

A violência que irrompeu em Darfur em 2003 e posteriormente se espalhou para Kordofan e o Nilo Azul não foi um surto repentino de conflito étnico, nem uma combustão espontânea da escassez. Foi precipitada por uma convergência estrutural na qual a aceleração das mudanças climáticas se cruzou com uma economia política forjada por uma reestruturação neoliberal de longo prazo e pela predação estatal. O conflito é, em essência, uma guerra de classes ecológica. O Estado desmantelou sistematicamente os meios de subsistência tradicionais, privatizou os recursos comunitários e criou uma população despossuída dependente de uma economia militarizada — todos fatores que amplificaram a precariedade ambiental. O resultado é mais do que uma crise humanitária; é a reestruturação violenta da sociedade para a acumulação de capital.

A deterioração física do meio ambiente no Sudão é aguda, com 40% dos anos registrados (entre 1943 e 2017) no sul de Darfur classificados como anos de seca, acompanhado do avanço da desertificação em direção ao sul (Pnuma, 2007; Atiem et al., 2022). Isso não é uma “escassez” neutra: é uma consequência geograficamente desigual da ordem econômica global, que externalizou seus custos ecológicos para a periferia. No Sudão, a aceleração do aquecimento antropogênico atua como um amplificador brutal das vulnerabilidades existentes.

O estresse ecológico só se torna uma catástrofe quando encontra um sistema político que prioriza o lucro em detrimento das pessoas. No Sudão, a virada crucial ocorreu com o golpe de 1989 e a reestruturação neoliberal sob o governo de Omar al-Bashir, imposta pelos Programas de Ajuste Estrutural (PAE) do FMI e do Banco Mundial, que determinaram a remoção dos subsídios agrícolas, a privatização de terras comunitárias e o desmantelamento dos serviços de apoio estatal (Bush, 2007). Essa retirada estratégica do Estado destruiu o contrato social no Sudão rural. O regime de Bashir instrumentalizou ativamente essa nova ecologia política, transformando a terra de um recurso comunitário em moeda de troca para as elites alinhadas ao regime, que mecanizaram a agricultura, bloquearam os corredores pastoris e desapropriaram os agricultores (Waal, 2005). Para suprimir a agitação resultante, o Estado terceirizou a violência para milícias pastoris — os Janja’wid [demônios a cavalo] — dando-lhes carta branca para confiscar gado, colheitas e terras (Instituto Tricontinental, 2025). Nesse processo, os bens foram transferidos violentamente de mãos comunitárias para mãos privadas, criando uma nova classe de acumuladores militarizados.

A corrida do ouro do século XXI, impulsionada pelos mercados globais, adicionou uma lógica extrativista frenética a esse sistema. Milícias, notadamente as Forças de Apoio Rápido (RSF), evoluíram para empresas capitalistas que controlavam minas e rotas de contrabando (Craze, 2025). O deslocamento populacional provocado pelas mudanças climáticas criou uma reserva de mão de obra desesperada e abriu novos territórios para a captura de recursos, monetizando efetivamente o deslocamento humano e ecológico (Romankiewicz & Doevenspeck, 2015).

A narrativa “árabe versus africano negro” é uma poderosa ferramenta política que é ativamente cultivada e instrumentalizada pelo regime para conter um crescente conflito de classes. Essa estratégia etnicizou o que era fundamentalmente uma crise sobre os meios de produção — sobretudo terras férteis e água — em um contexto de escassez artificial. Também impediu a formação de uma frente unificada dos despossuídos e permitiu que grupos armados recrutassem membros com base em identidades fragmentadas, capitalizando-se sobre a angústia de um povo cuja esperança de uma vida digna foi aniquilada.

O caminho para a radicalização segue um claro circuito de desapropriação. Jovens, separados de seus meios de subsistência agrários ou pastoris por choques ecológicos e econômicos combinados, veem sua força de trabalho mercantilizada em sua forma mais brutal: como combatentes armados. As RSF, portanto, não são meramente uma milícia; elas operam como uma organização governamental que oferece salários, resolução de conflitos e proteção em zonas onde o Estado oferece apenas negligência ou violência. Unir-se a elas torna-se uma estratégia racional de sobrevivência em uma economia em colapso, transformando o estresse ecológico em mão de obra militar (Verhoeven, 2011).

Nesse contexto, os atores internacionais são componentes integrais do sistema que molda e explora a crise — e não salvadores externos. Entre esses atores estão:

  • Os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita financiaram as Forças de Apoio Rápido (RSF) como uma força mercenária para ter acesso ao ouro do Sudão. Isso representa uma nova modalidade imperial, na qual o capital do Golfo utiliza a acumulação militarizada para garantir recursos e projetar poder (Kebede, 2025).
  • A União Europeia, cujo financiamento, canalizado por meio do Processo de Cartum para agências estatais sudanesas de controle de fronteiras, efetivamente forneceu recursos e legitimou forças — incluindo unidades ligadas às RSF — encarregadas de conter a migração. Essa política militarizou diretamente a resposta às populações deslocadas pelas mudanças climáticas, tratando as vítimas dessa crise político-ecológica como uma ameaça à segurança (Andersson, 2014).
  • As instituições financeiras ocidentais, que criaram as condições para o colapso do Estado e a vulnerabilidade social — por meio de dívidas e Programas de Ajuste Estrutural (PAE) —, tornaram o Sudão um terreno fértil para as ondas subsequentes de crise (Kadri, 2016).

A revolução sudanesa de 2019 e os comitês de resistência persistentes – órgãos de nível comunitário que coordenaram a revolta e continuam a organizar a governança civil em meio à guerra – representam um profundo desafio a toda essa estrutura (Salih, 2021). Suas demandas por democracia, justiça e paz são tanto anti-imperialistas quanto ecológicas, visto que um projeto progressista e soberano no Sudão exigiria o desmantelamento da economia de guerra, a renacionalização e a democratização do controle sobre a terra e a riqueza mineral, e o lançamento de uma restauração agroecológica massiva para reconstruir a resiliência comunitária. Isso confrontaria diretamente os interesses da elite militarizada local e de seus apoiadores internacionais — interesses que ambos os atores domésticos na guerra atual (as Forças Armadas Sudanesas e as RSF) buscam proteger. Esta guerra é, tragicamente, uma batalha entre facções rivais dessa elite pelos despojos do sistema, garantindo que as massas permaneçam presas na ecologia da desapropriação. Uma verdadeira resolução não será alcançada por um cessar-fogo entre generais que representam essa elite, mas por uma transformação revolucionária das relações político-ecológicas que definem a vida sudanesa.

 Conclusão

Em todo o Sahel, as condições de vida são definidas pelo deserto há muito tempo. Artistas como o Tinariwen, uma banda tuaregue considerada pioneira do “blues do deserto”, cantaram sobre exílio, desapropriação e sede no norte do Mali. A canção “Tenere” é um exemplo disso. Maloulat [O deserto branco] descreve uma condição familiar à maioria na região: “perdido na noite, minha sede, meu desejo por água me acordou”. Longe de ser uma metáfora ou uma mera constatação da realidade, essa canção denuncia as condições políticas vividas pelo povo do Sahel. Quando cantam sobre a água negada, sobre a terra perdida, sobre a vida marginalizada, expressam o que este dossiê argumenta: a catástrofe climática no Sahel não é vivenciada como uma mudança ambiental abstrata, mas como a intensificação de uma economia política já violenta. A seca, o calor e as chuvas irregulares tornam-se catastróficos onde o imperialismo, a reestruturação neoliberal e a predação estatal desmantelaram as proteções coletivas e transformaram a terra, a água e o trabalho em locais de extração. A sede, no Sahel, é criada pelo capitalismo.

O que está em jogo é uma luta pela soberania, pelo poder de classe e pela própria organização social da natureza. Qualquer caminho a ser seguido deve, portanto, romper com a securitização climática e, em vez disso, priorizar a soberania alimentar, o controle democrático sobre a terra e a água e a reconstrução de instituições públicas e comunitárias capazes de gerir a variabilidade ambiental. O futuro do Sahel não será assegurado por muros de fronteira, bases militares ou mercados, mas sim pelo confronto com as estruturas capitalistas e imperialistas que convertem o estresse climático em desapropriação e guerra. Nesse sentido, a luta que se desenrola no Sahel não é periférica à luta global contra o capitalismo — é uma de suas linhas de frente mais cruéis.


Entre as práticas agroecológicas da associação está o uso de um biopesticida feito com folhas de nim, gengibre pilado, alho e pimenta, cuja acidez e amargor afastam insetos reduzindo os danos na plantação.

Notas

1 A matéria completa com as fotografias originais está disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2025/11/08/entenda-como-a-agroecologia-e-um-dos-pilares-da-revolucao-agricola-em-burkina-faso/.

2 Para um ensaio excelente que critica o uso do tribalismo como marco para entender a política queniana, ver Nyong’o & Karugu (2023). A crítica clássica pode ser encontrada em Mafeje (1971).

3 A insolação solar refere-se à quantidade de energia solar recebida por uma região, que varia devido à inclinação axial da Terra e às variações orbitais, influenciando os padrões de temperatura e precipitação.

4 Ver também: Lézine, 2011.

5 O Grupo de Trabalho 1 do AR6 do IPCC (2021) conclui que as taxas de aquecimento atuais não têm precedentes nos últimos 2 mil anos pelo menos. Especificamente no Sahel, as secas que começaram no final da década de 1960 e persistiram até a década de 1980 foram “o exemplo mais dramático em todo o mundo de variabilidade climática que foi medida direta e quantitativamente”. Em comparação, o fim do Período Úmido Africano — a mudança de regime mais significativa do Holoceno na região — ocorreu ao longo de centenas a milhares de anos, embora tenha incluído subepisódios abruptos de décadas. Ver Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, 2021; Hulme, 2011; Collins et al., 2017); Foley et al., 2003; Trauth et al., 2024.

6 No entanto, uma crença não científica na dessecação permanente é igualmente prejudicial. Ver Gangeron et al., 2022.

7 O Tratado de Maghili sobre Política (c. 1450-1504) articula princípios que vinculam a legitimidade política à proteção dos meios de subsistência agrários e pastoris, bem como proíbem a apropriação arbitrária de terras e a monopolização de poços. Méritos Benditos do Artesanato e da Agricultura (c. 1500-1900) exalta o trabalho produtivo e condena a especulação imobiliária. Conhecimento do Movimento das Estrelas (c. 1733) documenta observações astronômicas utilizadas para prever padrões de chuva, inundações e doenças. Veja Muhammad ibn Abd al-Karim al- Maghili, As’ilat. Askiyah wa-Ajwibat al- Maghili [Tratado sobre Política de Maghili], exibido na Biblioteca do Congresso, “Manuscritos Antigos das Bibliotecas do Deserto de Tombuctu” (https://www.loc.gov/exhibits/mali/mali-exhibit.html); Anônimo, Kitab al-Barakah fi Fadl al- Hiraf wa -al- Zar [O livro que descreve os méritos abençoados do artesanato e da agricultura], Biblioteca Comemorativa Mamma Haidara, Tombuctu; Nasir al-Din Abu al-Abbas Ahmad ibn al-Hajj al-Amin al-Tawathi al-Ghalawi, Kashf al-Ghummah fi Nafa al-Ummah [As estrelas importantes entre a multidão dos céus], copiado em 1733, Biblioteca Comemorativa Mamma Haidara, Timbuktu.

8 A Comunidade Francesa foi um quadro constitucional de curta duração criado pela França em 1958, durante o processo de descolonização.

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Contando nossas histórias: quadrinhos argentinos e feminismo para desmistificar crenças populares

Escute “Vivas y Furiosas”, uma cumbia de Sudor Marika com Tita Print. Com um ritmo que poderia ser escutado em qualquer rua dos bairros populares na Argentina, surgem nesta canção versos de resistência feminista.

Na Argentina, por exemplo, o dia 8 de março — Dia Internacional da Mulher — coloca os pés em marcha, tingindo as ruas de violeta feminista e internacionalista. Mais adiante, no dia 24 — Dia da Memória por Verdade e Justiça — o mês é encerrado com uma mobilização massiva de organizações, partidos políticos, estudantes e famílias com crianças, dando continuidade à construção do “Nunca Mais”, expressão que une a luta constante para esclarecer os inúmeros crimes da ditadura cívico-militar apoiada pelos EUA (1976-1983). Um Nunca Mais passou a ser mais necessário do que nunca, especialmente sob o governo de extrema direita e negacionista de Javier Milei. Março mobiliza todas as frentes neste país sul-americano e, no campo cultural, renova a força de coletivos como o Feminismo Gráfico, um projeto cultural nascido na Argentina que busca difundir as histórias em quadrinhos a partir de uma perspectiva transfeminista.

A circulação da cultura e da arte é repleta de mitos, obstáculos e maravilhas ocultas e ocultadas. O 8 de março oferece uma oportunidade para dar visibilidade a discussões e práticas realizadas por diversos espaços culturais militantes. A partir da perspectiva específica dos quadrinhos, o arquivo digital “Nosotras Contamos” (Nós Contamos) busca contribuir para isso. Trata-se de um arquivo vivo, onde o Feminismo Gráfico visa compilar, divulgar e recuperar os nomes de autoras, pessoas trans e não binárias da Argentina, do início do século XX até os dias atuais. Em homenagem ao dia 8 de março, iniciamos uma nova atualização neste mês, adicionando autoras contemporâneas e dando continuidade à busca por colegas do passado. Estamos resgatando uma genealogia feminista dos quadrinhos argentinos, uma história brilhante de luta e criação que muitas vezes permanece invisível.

Jules Mamone (Argentina). Capa do catálogo original de Nosotras contamos, 2019.

Um mar de ilustrações e papel barato

Vamos situar esse campo da produção cultural: quadrinhos, humor gráfico, comics. Certamente você já leu algumas. Os quadrinhos são uma linguagem artística apreciada pelo povo e historicamente vista com desdém pelas formas de arte “eruditas”. Podemos supor que esse caráter popular dos quadrinhos e do humor gráfico vem de suas origens nos periódicos baratos e de grande circulação. Desde o início, se preocuparam com o humor, a sátira, narrar futuros possíveis por meio de imagens ou a representação de monstros em uma variedade de metáforas. Também possuem o enorme poder de contar histórias para aqueles que estão aprendendo a ler. Mais de uma vez na história das lutas populares, os quadrinhos disseminaram declarações de resistência em painéis, na forma de ficção, crônicas jornalísticas ou experimentações poéticas.

Na Argentina, um grande número de histórias em quadrinhos tem sido produzida desde o seu início, sem interrupção, embora com algumas mudanças. Conseguimos manter revistas populares que competiam destemidamente com as que vinham do norte. Algumas delas foram alvo de perseguição e censura, especialmente durante a última ditadura cívil-militar. Héctor G. Oesterheld, roteirista de El Eternauta, entre outros, pertence a esse período. Ele foi escritor, editor e militante de Montoneros — uma organização guerrilheira peronista de esquerda ativa principalmente na década de 1970 — que desapareceu durante essa mesma ditadura, no âmbito da Operação Condor.

Este mês se comemora o 50º aniversário, na Argentina, do golpe que buscou eliminar muito mais do que nossas narrativas. As mudanças provocadas pela violenta imposição do neoliberalismo neste país impactaram a dinâmica da produção nacional de quadrinhos. Mesmo assim, nunca paramos de desenhar. Se não em revistas, então em fanzines, ou livros de cooperativas editoriais, ou webcomics… E em todos esses momentos, as autoras estavam lá.

Assinando como “Cerebella” ou “Cotta”, a popular cozinheira argentina Blanca Cotta assinava seu humor gráfico na revista satírica Tía Vicenta. Essas duas tirinhas foram publicadas em 1957.

O mito da ausência

Uma das ferramentas do poder é a invisibilidade. Se algo não é nomeado, eventualmente deixa de existir; não conseguimos construir porque estamos sempre começando do zero. Um brilho eterno de lutas sem memória, narrativas suprimidas de modo que construir resistência parece erguer muros na areia.

Em relação ao “lugar das mulheres e pessoas não binárias nos quadrinhos”, surgem questões batidas e mitos persistentes. O mito da ausência é o primeiro a ser desfeito: porque sempre existiram mulheres artistas de quadrinhos. Na Argentina, quando se discute artistas mulheres de quadrinhos e humor gráfico, geralmente se mencionam duas ou três, quando existem mais de cem, e o Arquivo Digital de Artistas Mulheres de Quadrinhos e Humor Gráfico “Nosotras Contamos” [Nós contamos] abrange quase cem anos.

Este arquivo foi criado por Mariela Acevedo, militante feminista, pesquisadora, editora e roteirista de histórias em quadrinhos. Baseando-se em sua experiência como ativista, ela coletivizou uma furiosa curiosidade para encontrar aquelas que não eram mencionadas. Buscou contribuir para a mística do “somos muitas”, empregando a genealogia feminista como metodologia de pesquisa, com a convicção contagiante da importância de responder com informação, sagacidade e militância às afirmações banais que constroem o senso comum do machismo. O grupo que se constituiu a partir desse espírito contagiante continua o projeto até hoje.

Ao consultar colecionadores, entrevistar autoras e pesquisar em bibliotecas, descobrimos que devemos considerar uma certa margem de dúvida quando alguém afirma categoricamente: “Ela foi a primeira a…”. Constatamos que, sob pseudônimos ambíguos, havia mulheres que eram confundidas com homens. Ao observarmos assinaturas em algumas histórias em quadrinhos e vermos um “G.” antes de “Dester”, talvez imaginemos um “Gonzalo” ou um “Gilberto”, nunca uma “Gisela”. Mas Gisela, entre outras coisas, desenhava e assinava páginas para Ticonderoga, com roteiro daquele colega desaparecido que mencionamos anteriormente. Descobrimos também que, por trás do trabalho dos criadores homens, estavam as mulheres de suas famílias, que cuidavam de tudo, da manutenção da casa e dos cuidados, ou até mesmo os possíveis vestígios anônimos de irmãs ou esposas que ajudavam a finalizar as páginas para cumprir os prazos.

Parece básico encontrá-las e nomeá-las, mas nesses encontros emerge uma genealogia, revelando a certeza de que o sistema patriarcal permeia todos os aspectos da vida. Para aqueles que estão trilhando seu caminho na área hoje, é importante saber que Martha Barnes trabalhou ao lado de homens na Editora Columba na década de 1970 (uma das editoras de quadrinhos mais importantes da Argentina), mas sempre recebeu menos e foi relegada a escrever histórias em quadrinhos românticas quando o que queria era trabalhar com terror. Conhecer nossa história e construir uma memória coletiva é fundamental.

Para o feminismo popular, isso não é novidade: o trabalho de cuidado não é visto como trabalho, os trabalhos feminizados são invisibilizados e os papéis ativos na história de campos dominados por homens são ocultados. Mas, ao sairmos dos espaços feministas, descobrimos que as percepções podem permanecer distorcidas. Essa distorção se aprofunda quando está ligada à esfera cultural, na qual é necessário continuar afirmando que aqueles que produzem arte são, de fato, parte da classe trabalhadora.

Também não é segredo que, ao longo dos anos, mulheres e pessoas não binárias têm conquistado seu espaço na mídia, figurativa ou literalmente. Seja criando novos espaços ou ocupando e transformando os já existentes, a presença de autoras nos quadrinhos é inegável hoje em dia. “Okupas”, costumamos dizer entre nós, em parte com humor, em parte de forma provocativa. E quando essa okupación se torna visível, somos “muitas”.

Mostra de Feminismo Gráfico na Feira de Editores, Buenos Aires, 2025. Foto: Cé, Archivo Intangible.

O mito do estilo e temática

Ao mito da ausência ou exceção soma-se outro: a ideia de um estilo ou estética homogênea. Presume-se que as artistas mulheres abordem apenas certos temas, que desenhem de maneiras específicas (ou simplesmente que “desenhem mal”). Torna-se brutal quando isso é apresentado como um elogio: “Que estranho, você desenha como um homem”. Como se a relação entre mão e mente estivesse misteriosamente ligada ao gênero no momento em que se pega um lápis e um papel.

Quando o arquivo começou sua compilação, encontrou estilos clássicos, linhas experimentais, explorações plásticas, vislumbres das belas artes e tramas típicas de fanzines. Em resumo: encontramos de tudo, sem restrições.

Narrativamente, universos de todas as dimensões também se revelam: terror, ficção científica, crônicas políticas, autobiografias, experimentos narrativos, humor… Talvez uma observação transversal possível é que identificamos uma busca por representar algo diferente do que a indústria mainstream costuma exibir. Vemos corpos diversos, tons de pele geralmente invisibilizados, identidades e demandas que se manifestam de maneiras mais ou menos explícitas. Partindo disso, o arquivo propôs eixos temáticos, uma forma de construir conexões que transcendem a cronologia e ligam as preocupações de um autor de meados do século XX às de uma jovem que está apenas começando sua carreira. É outra forma de coletivização, de nos vermos como parte de algo maior que nos une àqueles que vieram antes, àqueles que compartilham este espaço hoje e àqueles que virão no futuro.

Diana Raznovich (desenhos) e Lucrecia Oller (textos). Manual de instrucciones para mujeres golpeadas, Argentina, 1989. Material feito para Lugar de mulher, coletivo chave para o feminismo organizado na década de 1980. Donado a Feminismo Gráfico para sua leitura gratuita.

Para fazer cair mitos, nos organizamos e nos (re)presentamos

O projeto Nosotras contamos está vivo e em constante expansão. Sabemos que jamais poderá estar completo. Sabemos também que esses esforços devem fazer parte de uma rede cultural internacionalista. Existem projetos irmãos na região, como no Chile, ou na Europa, como o projeto espanhol Presentes. Buscamos pistas sobre outros, prestando muita atenção às cenas de quadrinhos e narrativa gráfica, especialmente no Sul Global.

O arquivo do Graphic Feminism representa uma genealogia com lacunas, peças faltantes que (ainda) não conseguimos encontrar. Percebemos obras invisíveis, colaborações mal documentadas e assinaturas ausentes. Percebemos também um potencial imensurável de autoras emergentes nas novas mídias. Por isso, adotamos as palavras de nossa colega Mariela como um estandarte para nós, cartunistas: “Contamos esta história: ela é incompleta e inacabada, mas é coletiva e busca tornar visível que o que está faltando pode ser reconstruído de alguma forma, imaginado, escrito e tornado presente”.

O dossiê deste mês, A agenda antifeminista da extrema direita latino-americana, inclui obras de arte selecionadas em colaboração com o arquivo digital. Para explorar a coleção em constante expansão, visite feminismografico.com. Esperamos que, talvez, na próxima vez que alguém ler uma história em quadrinhos, imagine nomes diversos por trás de cada inicial assinada.

Cordialmente,

Dani Ruggeri

Designer do departamento de Cultura do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social
Co-coordenadora de Feminismo Gráfico

Valeria Reynoso (Argentina), fragmento do fanzine Se vos, Editora In Bocca al Lupo, 2017. A frase é uma citação literal de Lohana Berkins, líder travesti trans argentina, fundadora de ATTTA (Asociación de Travestis, Transexuales y Transgéneros de Argentina) que impulsionou a Lei de Identidade de Gênero (Lei 26.743).