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	<title>boom latino-americano | Tricontinental: Institute for Social Research</title>
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	<description>international, movement-driven institution focused on stimulating intellectual debate that serves people’s aspirations.</description>
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		<title>Uma revolução só pode ser filha da cultura e das ideias</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Stephanie Sandoval]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 31 May 2026 03:00:57 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Boletim de Arte]]></category>
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					<description><![CDATA[Enquanto as ofensivas imperialistas instrumentalizam a cultura para neutralizar a resistência, uma verdade radical permanece: a arte, a literatura e a imaginação nunca estão separadas da luta política, mas são uma forma necessária de resistência coletiva na construção de uma nova sociedade.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h4 style="text-align:center;">Boletim de Arte Tricontinental nº 27 (maio de 2026)</h4>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-144984 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/AB27_Header-1.jpg" alt="" width="950" height="550" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/AB27_Header-1.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/AB27_Header-1-300x174.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/AB27_Header-1-768x445.jpg 768w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px"></div>
<div class="rm-b-e-md">

<p class="single-post--content--text-small text-center"><a href="https://www.youtube.com/watch?v=tPvHCfYDIik">Ouça</a>: “Por qué Cantamos / Canción Nueva” do disco <em>A dos Voces</em>, uma parceria entre Mário Benedetti e Daniel Viglietti.</p>
</div>
<p>Na América Latina, os caminhos das lutas dos povos e o desenvolvimento de sua cultura se entrelaçam constantemente. Desde a colonização espanhola e portuguesa nos séculos XV e XVI, passando pelas lutas de independência e pela Doutrina Monroe (1823), os povos latino-americanos resistem à dominação. José Martí, uma das figuras centrais na luta pela independência, formulou o conceito de <em>Nuestra América</em>,  em texto de mesmo nome, sobre a unidade política e cultural do continente.</p>
<p>Para Martí, a noção de <em>Nuestra América</em> não se restringia a um aspecto geográfico sobre esse vasto território que vai “do Rio Bravo ao estreito de Magalhães”, mas também um projeto baseado nas diversas culturas, histórias e lutas do povos originários dessa região. Essa era a força anti-imperialista da reflexão de Martí: a América Latina só pode se libertar se se conhecer ao valorizar as raízes indígenas, africanas, camponesas e populares que o colonialismo e a intelectualidade europeia desprezaram.</p>
<p>Como o próprio Martí coloca em seu texto, “resolver o problema depois de conhecer os seus elementos é mais fácil que resolvê-lo sem conhecê-los. […] Conhecer é resolver. Conhecer o país e governá-lo conforme o conhecimento é o único modo de livrá-lo da tirania”. A literatura latino-americana ao longo de sua história foi uma das principais maneiras pelas quais foi possível conhecer a diversidade de povos e culturas desse território. Por meio de poemas, romances e canções, os povos do continente representaram suas distintas realidades não como abstrações, mas como experiências vivenciadas.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_144815" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-144815" class="size-full wp-image-144815 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/01_writers-on-the-truck.jpeg" alt="" width="994" height="426" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/01_writers-on-the-truck.jpeg 994w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/01_writers-on-the-truck-300x129.jpeg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/01_writers-on-the-truck-768x329.jpeg 768w" sizes="(max-width: 994px) 100vw, 994px"><p id="caption-attachment-144815" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Escritores viajando em caminhão para Minas de Frío, Cuba, s.d. Fonte: <em>Revista Casa de las Americas</em>.</small></p></div>
</div>
<p>A América Latina é marcada por profundas transformações políticas e sociais na segunda metade do século XX. A revolução cubana, em 1959, rompe com a dependência direta dos EUA, inicia a construção do socialismo e soa como um sopro de esperança para os povos em luta nos outros países da região. Esse processo desencadeia mais uma onda ofensiva imperialista em <em>Nuestra América</em> por meio da invasão frustrada à Baía dos Porcos, em Cuba, em 1961; pelo patrocínio e apoio político ao golpe empresarial-militar no Brasil, em 1964; no golpe contra o governo da Unidade Popular e derrubada do presidente Salvador Allende, no Chile, em 1973, além de apoiar outras ditaduras e projetos de contrainsurgência sanguinários na região na década de 1970.</p>
<p>A literatura, neste contexto, continua desempenhando um papel importante de resistência, principalmente pelo fato de ter ocorrido o chamado <em>boom </em>da literatura latino-americana nos anos 1960-1970, quando alguns escritores ganharam fama na Europa. Também assume relevância um debate já antigo sobre a relação entre arte e política, tendo a revolução política e cultural cubana como um dos eixos principais da polêmica.</p>
<p>Ainda em 1959, primeiro ano da revolução, foram criadas várias instituições culturais na ilha, como o Teatro Nacional, o Instituto Cubano de Arte e indústria cinematográfica (Icaic) e a <em>Casa de las Américas</em>, dirigida por Haydée Santamaria, referência incontestável para se pensar cultura, arte e literatura na América Latina. O escritor uruguaio Mário Benedetti (1920-2009) também teve um papel central no aprofundamento do trabalho cultural da <em>Casa de las Américas</em>, ao reforçar o papel da literatura como frente de resistência na América Latina. Seu próprio desenvolvimento literário e intelectual, assim como o de muitos outros escritores latino-americanos da segunda metade do século XX, está diretamente vinculado com a política e as atividades desenvolvidas na <em>Casa de las Américas</em>.</p>
<p>A <em>Revista da Casa</em>, cujo primeiro número foi publicado em 1960, foi responsável por circular e divulgar o pensamento em torno da cultura e da arte latino-americana e caribenha sob uma perspectiva emancipatória, de modo a fortalecer a construção de uma nova sociedade.</p>
<p>No que toca à revolução cubana, é preciso destacar a atenção dada ao tema da cultura. Além das diversas instituições criadas no primeiro ano da revolução, as reflexões de Fidel Castro em seu discurso <em>Palavra aos intelectuais</em>, de 1961, traça as linhas gerais de uma política cultural para a revolução, ao destacar a iniciativa das brigadas Conrado Benitéz, que acabaram com o analfabetismo em Cuba, ou a impressão de milhões de exemplares de livros da literatura clássica para a população da ilha. Vale destacar que o primeiro título impresso e distribuído pela revolução cubana foi o clássico<em> Dom Quixote de la Mancha</em>, de Miguel de Cervantes.</p>
<p>No entanto, a ofensiva imperialista estadunidense contra Cuba também ganha força no âmbito cultural. Ela buscava combater a projeção e o prestígio cada vez maior da <em>Casa de las Américas </em>entre a intelectualidade mundial, que ganhava cada vez mais projeção com sua revista e seu prêmio literário. Para tanto o famigerado Congresso pela Liberdade da Cultura, organização financiada pela CIA e que criou a revista <em>Mundo Nuevo,</em> com vistas a reunir escritores para fazer frente às iniciativas da instituição cubana. Dirigida pelo crítico uruguaio Emir Rodriguéz Monegal, <em>Mundo Nuevo </em>disputou a atenção das principais figuras literárias da época, apresentando-se como uma publicação literária independente, ao mesmo tempo que trabalhava para afastar os escritores do <em>boom </em>latino-americano em torno do projeto cultural da Revolução Cubana, e procurava aproximá-los da órbita do anticomunismo liberal.</p>
<p>À medida que a contradição entre revolução e contrarrevolução avançava na região, escritores e escritoras se posicionaram de diferentes maneiras frente à construção do socialismo, à guerra cultural estadunidense, à Guerra Fria e à tentativa de conter e abafar as experiências revolucionárias. Escritores de projeção mundial da época, como Júlio Cortázar, Mário Vargas Llosa, Gabriel García Márquez, Carlos Fuentes, se posicionaram, cada qual a sua maneira, diante desse debate fundamental que expressava a estreita relação entre literatura, arte e política.</p>
<p>Nesse sentido, é importante recuperar uma formulação de Mário Benedetti sobre o papel do escritor na luta de classes durante uma entrevista para a revista <em>Cuba,</em> em 1968, logo após o Congresso Cultural de Havana:</p>
<blockquote><p>Se o dever de todo revolucionário é fazer a revolução, o dever de todo escritor, como tal, é fazer literatura […] a literatura, entre outras funções, cumpre a de ampliar os horizontes do homem. Na medida em que o povo pode captar os significados, últimos ou intermediários, de uma grande literatura de ficção, ele estará mais próximo de nossa luta, e ainda mais se for capaz de analisar a alienação que o inimigo lhe impõe. Por isso, não vemos motivo para colocar a obrigação de que o escritor militante se reduza genérica ou tematicamente a uma linha muito estreita.</p></blockquote>
<p>O potencial da literatura vai além da posição política pessoal do escritor, ainda que num contexto de ofensiva imperialista esta seja fundamental para o fortalecimento ou enfraquecimento de um processo político. O ponto central de Benedetti era o de que a força revolucionária da literatura não pode ser reduzida a um tema, gênero ou palavra de ordem determinados. A literatura pode ampliar os horizontes dos povos, aguçar sua capacidade de reconhecer a alienação e levá-los à luta justamente pela sua potencialidade formal que toca a sensibilidade humana.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">Cultura não é luxo, é um direito</h3>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><img decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-144831 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/03_Mario-Benedetti_950x950.jpg" alt="" width="950" height="950" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/03_Mario-Benedetti_950x950.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/03_Mario-Benedetti_950x950-300x300.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/03_Mario-Benedetti_950x950-150x150.jpg 150w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/03_Mario-Benedetti_950x950-768x768.jpg 768w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px"></div>
<p>Mario Benedetti foi um dos mais importantes escritores latino-americanos do século XX, por sua literatura engajada e sensível, que retratou as complexidades sociais e afetivas de seu país. Sua obra abrange poesia, romance, conto e ensaio, sempre marcada por uma linguagem direta e profundamente humana.</p>
<p>Além da sua importância na literatura, ele teve uma atuação fundamental no cenário político cultural de esquerda na América Latina. Na <em>Casa de las </em><em>Américas</em>, atuou primeiro como jurado do prêmio literário da instituição, e depois como fundador e diretor do Centro de Investigaciones Literárias (CIL). Nesse sentido, Benedetti contribuiu para se pensar uma cultura literária latino-americana – que valorizava o desenvolvimento literário europeu ao mesmo tempo que enfatizava a importância política, estética e cultural das produções literárias de <em>Nuestra </em><em>América</em>. Entre outros aspectos, vale destacar suas reflexões sobre o papel do intelectual e dos trabalhadores da cultura no processo revolucionário.</p>
<p>Em 1968, Benedetti fez uma exposição no Congresso Cultural de Havana sobre as contradições entre as pessoas da ação e as do intelecto. Em um contexto no qual a luta armada era uma das principais formas de ação política, os intelectuais e artistas eram instados a participar na linha de frente da batalha. O escritor uruguaio delineia alguns traços da atividade intelectual importantes para o desenvolvimento revolucionário. Segundo ele, “o intelectual, por sua vez, é quase por definição alguém inconformado, um crítico de seu meio social, uma testemunha de memória implacável”.</p>
<p>Além disso, ele também destaca o papel da cultura e dos trabalhadores da cultura como um direito e não um luxo: “[…] o artista que defende seu direito de sonhar, de criar beleza, de criar fantasia, com a mesma obstinação, a mesma convicção com que defende seu direito de comer, de ter um teto, de cuidar de sua saúde, esse artista será o único capaz de demonstrar que seu ofício não é um luxo, mas uma necessidade, não só para si mesmo, mas também para seu semelhante”.</p>
<p>Para Benedetti, a cultura revolucionária não pode ser tratada como algo secundário na luta política. Arte e literatura são expressões que possibilitaram aos povos compreender suas condições de vida e defender sua dignidade e luta por uma nova sociedade.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_144823" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-144823" class="size-full wp-image-144823 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/02_mario_benedetti_jurado_premio_casa_americas_haydee_santamaria_alejo_carpentir_1978_s.jpg" alt="" width="300" height="445" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/02_mario_benedetti_jurado_premio_casa_americas_haydee_santamaria_alejo_carpentir_1978_s.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/02_mario_benedetti_jurado_premio_casa_americas_haydee_santamaria_alejo_carpentir_1978_s-202x300.jpg 202w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px"><p id="caption-attachment-144823" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Benedetti no júri do Prémio Casa de las Américas com Haydée Santamaría e Alejo Carpentier, 1978. Fonte: <em>Fundación Mario Benedetti</em>.</small></p></div>
</div>
<p>A poesia é responsável pela maior parte de sua obra e dentro dela transitou entre as várias formas poéticas. No fim da vida, por exemplo, ele se dedicou aos <em>haikais, </em>uma estrutura poética de origem japonesa composta por apenas três versos. Sua poesia, assim como toda sua escrita, é marcada pelo cotidiano e, principalmente, pela abertura ao outro, como podemos ver nesse haikai:</p>
<blockquote><p>la más cercana<br>
de todas las fronteras<br>
es con mi prójimo</p></blockquote>
<p>A prosa também é fundamental em sua contribuição literária. Com mais de nove volumes de contos publicados e três romances, Benedetti trata de temas como a memória, a ditadura uruguaia, o amor e a vida cotidiana. Entre os seus livros de contos, vale mencionar <em>Geografias</em>, <em>Correio do tempo</em> e <em>Montevideanos</em>. Entre suas obras mais impactantes está <em>Primavera num Espelho Partido</em> (1982).</p>
<p>A vida e a obra de Benedetti são expressões de uma vivência militante no campo da cultura e da arte – aspectos fundamentais da construção revolucionária. Seus poemas e sua prosa são sutis e profundas, trazendo à tona as contraditórias relações cotidianas e afetivas que vivemos e que são perpassadas pelos dilemas políticos para a construção de um novo ser humano em uma nova sociedade.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">Por que cantamos?</h3>
<p>A dinâmica da luta de classes no século XXI segue acirrada; o império em decadência, segue realizando uma ofensiva cada vez mais feroz sobre os territórios e povos do Sul Global; estes, por sua vez, continuam resistindo, como nos casos da Palestina, Venezuela e Cuba. A batalha de ideias e de sentimentos, na formulação de Fidel Castro, assume cada vez mais uma centralidade em nossa época.</p>
<p>O legado de Mário Benedetti como escritor e como ser de ação é fundamental para pensarmos como um intelectual pode e deve agir não apenas como um trabalhador da cultura, mas também como um organizador e militante de um projeto revolucionário. A <em>Casa de las Américas</em> segue sendo uma das mais importantes instituições culturais em <em>Nuestra América</em> para divulgar e fomentar a produção artística enraizada nas experiências de nossos povos. Ao mesmo tempo, mantém viva a convicção de que a cultura não apenas faz parte da luta política, mas é uma das suas formas mais necessárias.</p>
<p>Neste momento em que a ofensiva estadunidense tenta sufocar Cuba, é mais que fundamental a solidariedade das diferentes organizações populares para manter acesa a chama da revolução e para que as gerações atuais e futuras continuem lutando e respondam como o poema de Benedetti <em>Por que cantamos?</em></p>
<p>[…] Cantamos porque chove sobre o sulco<br>
e somos militantes desta vida<br>
e porque não podemos nem queremos<br>
deixar que a canção se torne cinzas.</p>
<p>Atenciosamente,</p>
<p>Miguel Yoshida</p>
<p>Membro do Departamento de Arte e Cultura e do escritório <em>Nuestra América</em> do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social e editor da Expressão Popular.</p>
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