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	<title>feminism | Tricontinental: Institute for Social Research</title>
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		<title>Emancipação interrompida: mulheres e trabalho na Alemanha Oriental</title>
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		<dc:creator><![CDATA[ariana]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 19 Mar 2024 08:00:41 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Este dossiê analisa a história e o trabalho inacabado da libertação das mulheres na República Democrática Alemã, bem como as suas conquistas, legado e os desafios enfrentados.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="max-width: 400px; margin: 0 auto;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter wp-image-99770 size-large img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/03/D74_Images_logos-1024x416.jpg" alt="" width="1024" height="416" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/03/D74_Images_logos-1024x416.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/03/D74_Images_logos-300x122.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/03/D74_Images_logos-768x312.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/03/D74_Images_logos-1536x625.jpg 1536w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/03/D74_Images_logos-2048x833.jpg 2048w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px"></p>
<h2 style="margin:3em 0;">Um novo começo</h2>
<p>O período que se seguiu à Segunda Guerra Mundial na Alemanha foi marcado pela destruição, fome, escassez e propagação de doenças. As mulheres representavam 60% da população alemã, e um número considerável de homens ficou ferido, permanentemente, incapaz de trabalhar, ou mesmo prisioneiro de guerra (Schröter; Rohmann, 2002, p. 503). Por pura necessidade e vontade de sobreviver, as mulheres uniram forças para apoiar umas às outras, removendo escombros enquanto cuidavam de crianças, idosos, traumatizados e feridos. No rescaldo da guerra, foram formados comitês de mulheres antifascistas, em sua maioria liderados por social-democratas e comunistas. Como grupos de interesse apartidários em âmbito municipal na Zona de Ocupação Soviética (a parte da Alemanha sob a administração da URSS), esses comitês assumiram importantes tarefas de bem-estar social, como a criação de salas de costura e lavanderia, o fornecimento de refeições por meio de cozinhas comunitárias, e oferecimento de apoio médico e psicológico às mulheres (Enkelmann; Külow, 2019, p. 31).</p>
<div class="single-post--content--image-card" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<p><img decoding="async" class="aligncenter wp-image-99711 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/03/Katharina.jpg" alt="" width="950" height="848" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/03/Katharina.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/03/Katharina-300x268.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/03/Katharina-768x686.jpg 768w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<h4 class="single-post--content--image-card--title" style="margin:2em 0;">Katharina ‘Käthe’ Kern</h4>
<p class="single-post--content--image-card--blurb" style="text-align:center;"><small><strong>(1900-1985) //</strong> Katharina esteve envolvida na luta pelos direitos das mulheres em diversas frentes; foi integrante ativa da resistência antifascista no Partido Social Democrata (SPD) e co-fundadora da Federação Democrática das Mulheres da Alemanha (DFD, na sigla em alemão) em 1947 e compôs seu conselho até sua morte. Ela liderou o secretariado feminino do SPD e mais tarde do Partido da Unidade Socialista (SED, na sigla em alemão) até 1949, bem como a DFD no parlamento até 1984 e foi diretora do Departamento Materno-Infantil do Ministério da Saúde entre 1949 e 1970. Katharina também liderou a Sociedade de Amizade Alemão-Soviética de 1958 a 1962.</small></p>
</div>
<p>As discussões no seio dos comitês de mulheres antifascistas com a Administração Militar Soviética na Alemanha (SMAD, na sigla em alemão) levaram à formação da Federação Democrática das Mulheres da Alemanha (DFD, na sigla em alemão) em 1947, que se tornaria uma força motriz da reconstrução da democracia antifascista, abrangendo a Alemanha Oriental e Ocidental antes de ser proibida nesta última em 1957. No congresso de fundação da DFD, a delegada Käthe Kern do Partido da Unidade Socialista (SED, na sigla em alemão) enfatizou a importância dessa organização de massas de mulheres, que, segundo ela, permitiria que “um grande número de mulheres sem filiação política partidária participasse no desenvolvimento da democracia alemã” (Bundesvorstand des Demokratischen Frauenbundes Deutschlands, 1989, p. 9). A formação política de massas e o trabalho cultural tornaram-se campos de ação decisivos numa luta ideológica que se propôs a transmitir um novo conjunto de valores, dos quais a igualdade de gênero era um componente chave. A DFD também desempenhou um papel fundamental na consagração da igualdade na Constituição da República Democrática Alemã (1949) e na elaboração de novas leis que promoveram a emancipação das mulheres, como o Código da Família, que tornou leis as novas relações sociais que estavam se desenvolvendo sob o socialismo.</p>
<p>No campo, a reforma agrária levada a cabo entre 1945 e 1948 pôs fim à servidão secular das mulheres agricultoras e trabalhadoras agrícolas, uma vez que foram dadas a elas terras que haviam sido expropriadas de grandes proprietários. Em 1952, surgiu a agricultura cooperativa, alterando fundamentalmente as condições de vida dos agricultores ao estabelecer horários fixos de trabalho, uma renda estável e férias remuneradas que foram estabelecidas nos acordos feitos por cada cooperativa e reforçadas pelo código trabalhista da RDA (Hörz, 1968/2015, p. 66). O movimento cooperativista procurou transformar as hierarquias no campo, com novos arranjos – como a prestação de cuidados infantis – para suplantar “ideias e hábitos ultrapassados”, como disse a DFD (Bundesvorstand des Demokratischen Frauenbundes Deutschlands, 1989, p. 129). As mulheres camponesas, que historicamente tinham menos direitos no campo e talvez fossem as que mais ganhavam, desempenharam um papel decisivo nesse movimento.</p>
<p>As novas leis refletem a agenda democrática radical seguida pela República Democrática Alemã (RDA) no período pós-guerra. As mulheres desempenharam com autoconfiança um papel ativo e de liderança na construção de um movimento socialista de mulheres que transformou essas reformas em lei e procurou reconstruir a sociedade. Esse novo começo na RDA foi também um renascimento político que procurou superar as condições antidemocráticas e burguesas e garantir a igualdade de participação no processo de produção, abrindo caminho para um novo papel social para as mulheres.</p>
<p>A vida das mulheres melhorou enormemente durante os 40 anos de existência da RDA em áreas como a autodeterminação, os direitos reprodutivos e o acesso a cuidados infantis e assistência médica de qualidade e a preços acessíveis. A sua participação no processo de produção desempenhou um papel crucial na concretização desses direitos, com o local de trabalho socialista ancorando essas transformações.<a href="#_ftn1" name="_ftnref1"><sup>1</sup></a> Neste dossiê, o Fórum Zetkin para Pesquisa Social, o Centro Internacional de Pesquisa da RDA (IF-DDR, na sigla em alemão) e o Instituto Tricontinental de Pesquisa Social analisam a história e o trabalho inacabado da emancipação das mulheres na RDA. Apesar das condições menos favoráveis ​​que se seguiram à dissolução da RDA em 1990, esse processo continua no presente e oferece lições valiosas para as lutas contemporâneas.</p>
<h2 style="margin:3em 0;">Igualdade jurídica</h2>
<p>As novas leis e regulamentos estabelecidos na RDA derrubaram as disposições do direito burguês de propriedade e de família. Isso ocorreu em diversas frentes: economicamente por meio da expropriação de grandes corporações e propriedades rurais; legalmente por meio da abolição gradual das leis burguesas; e ideologicamente por meio do desmantelamento dos valores morais burgueses. Em total contraste com a Alemanha Ocidental, onde a supremacia dos homens foi protegida por lei até ao final da década de 1970 – o que, por exemplo, permitiu que os homens pudessem se opor a que suas esposas arranjassem emprego –, as mulheres na RDA estiveram diretamente envolvidas na elaboração, implementação e cumprimento de leis que aboliram sua subordinação.</p>
<p>O Código da Família, adotado em 1965, é o resultado desses esforços. Com base na compreensão da família como “a menor célula da sociedade”, o Código da Família estabeleceu os direitos e deveres das mulheres, dos homens e das crianças como membros iguais da sociedade, tanto dentro como fora do casamento (Deutsche Demokratische Republik, 1990). Como afirma o preâmbulo:</p>
<blockquote><p>Com o desenvolvimento do socialismo na República Democrática Alemã, surgem relações familiares de um novo tipo. O trabalho criativo livre de exploração, as relações de camaradagem entre as pessoas nele baseadas, a igualdade de estatuto das mulheres em todas as áreas da vida e as oportunidades educativas para todos os cidadãos são pré-requisitos importantes para fortalecer a família e torná-la duradoura e feliz (…) É tarefa do Código da Família promover o desenvolvimento das relações familiares na sociedade socialista. (idem, ibidem)</p></blockquote>
<p>O Código da Família proporcionou avanços numa série de medidas, tais como facilitar o divórcio e garantir a partilha equitativa dos bens.<a href="#_ftn2" name="_ftnref2"><sup>2</sup></a> Também promoveu a emancipação das mulheres ao determinar que “ambos os cônjuges são responsáveis pela criação e cuidado dos filhos e na gestão da casa” e que “as relações entre os cônjuges devem ser concebidas de tal forma que as mulheres possam combinar as suas atividades profissionais e sociais com a maternidade” (Deutsche Demokratische Republik, 1965). Embora o casamento continuasse a ser um compromisso para toda a vida, também poderia ser finalizado a qualquer momento sem consequências, uma vez que “os fatores que na sociedade burguesa exercem uma compulsão externa para manter um casamento pouco saudável [tinham] sido largamente ultrapassados” (Deutsche Demokratische Republik, 1969, p. 29). Isto também se refletiu nas taxas de divórcio e casamento: embora o número de casamentos <em>per capita</em> na RDA fosse semelhante ou por vezes até superior ao da Alemanha Ocidental, conservadora e cristã, a RDA tinha uma das taxas de divórcio mais elevadas do mundo, 60% dos quais foram pedidos por mulheres (Anuário Estatístico da República Federal da Alemanha, p. 1990, p. 70; Anuário Estatístico da República Democrática da Alemanha, p. 404).</p>
<p>Além disso, o trabalho de reprodução social, que era em grande parte não remunerado e muitas vezes invisível, era agora visível e gerido socialmente por meio de creches, jardins de infância, centros de aconselhamento de maternidade e policlínicas gratuitas.<a href="#_ftn3" name="_ftnref3"><sup>3</sup></a> A Lei sobre a Proteção das Mães e das Crianças e os Direitos das Mulheres (1950), por exemplo, exigia que organizações de massa e empresas de produção criassem creches, lavanderias e salas de costura (Hörz, 1968/2015, p. 89) .</p>
<div class="single-post--content--image-card" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<p><img decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-99722 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/03/Hilde.jpg" alt="" width="587" height="780" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/03/Hilde.jpg 587w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/03/Hilde-226x300.jpg 226w" sizes="(max-width: 587px) 100vw, 587px"></p>
<h4 class="single-post--content--image-card--title" style="margin:2em 0;">Hilde Benjamin</h4>
<p class="single-post--content--image-card--blurb" style="text-align:center;"><small><strong>(1902–1989) //</strong> Hilde, conhecida como ‘Red Hilde’, defendeu os comunistas perseguidos pelos nazistas como advogada da Red Aid. Ela ficou viúva após seu parceiro, Georg Benjamin, ser morto pelo nazismo num campo de concentração em 1942, embora isso não a tenha impedido de continuar o seu trabalho contra o fascismo. Apesar de perder o direito de exercer a advocacia, ela voltou à profissão após a guerra, tornou-se vice-presidente da Suprema Corte (1949-1953), bem como a primeira mulher ministra da Justiça do mundo (1953-1967), promovendo reformas administrativas e legais, como o Código da Família. Ela também se juntou ao comitê executivo nacional da Federação Democrática Alemã das Mulheres (DFD) em 1948.</small></p>
</div>
<p>Como explicou Hilde Benjamin, ministra da Justiça da RDA de 1953 a 1967, era essencial que as leis não só proporcionassem um marco para garantir e fazer cumprir os direitos sociais, mas também que “alcançassem mais progressos no desenvolvimento da consciência socialista” (Benjamin, 1958). As políticas da RDA fizeram isso de várias maneiras, tais como socializar os cuidados das crianças e dos idosos, permitindo assim aos cidadãos da RDA mais tempo para assumirem um papel ativo na construção de uma sociedade socialista.</p>
<p>Como resultado dessa mudança social, as mulheres exigiram cada vez mais melhores oportunidades de planejamento familiar. Com a aprovação da Lei sobre a Interrupção da Gravidez em 1972, pela primeira vez<br>
as mulheres alemãs puderam decidir se queriam ou não fazer um aborto nas primeiras 12 semanas de gravidez. Nenhum motivo era exigido, nenhuma avaliação era prescrita.</p>
<p>A imprensa da Alemanha Ocidental alertou que tais medidas levariam à “destruição da família”. Isso não aconteceu. Em vez disso, as medidas políticas da RDA aumentaram a liberdade das mulheres, garantindo subsídios para os anos iniciais do cuidado infantil; as mães tinham licença maternidade integralmente remunerada de 6 meses, podendo ser estendida a até 12 meses, com até 90% da remuneração, e garantia de estabilidade após o retorno ao trabalho. A licença paternidade também era de até 12 meses com um pagamento de até 90% dos rendimentos médios líquidos (Hörz, 1968/2015, p. 173).</p>
<div class="single-post--content--image-card" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<h4 class="single-post--content--image-card--blurb single-post--content--image-card--title" style="margin:2em 0;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-99733 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/03/Lykke.jpg" alt="" width="950" height="773" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/03/Lykke.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/03/Lykke-300x244.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/03/Lykke-768x625.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><br>
Lykke Aresin</h4>
<p class="single-post--content--image-card--blurb" style="text-align:center;"><small><strong>(1921–2011) //</strong> Ex-neurologista e psiquiatra, Lykke tornou-se uma das sexólogas e especialistas mais proeminentes do mundo em direitos das mulheres e direitos reprodutivos, desempenhando um papel crucial nas políticas da RDA sobre métodos contraceptivos acessíveis e aborto gratuito, bem como no combate à discriminação contra pessoas LGBTQ+, garantindo direitos das pessoas transexuais no sistema de saúde pública. Ela estava profundamente comprometida com a educação popular e publicou vários livros para jovens leitores que forneciam informações sobre casamento, sexualidade e planejamento familiar, contribuiu em mais de 200 publicações científicas e discursou em inúmeras conferências na África, Ásia, Europa e América Latina. Além disso, foi uma integrante influente da Federação Internacional de Parentalidade Planejada e da Organização Mundial da Saúde.</small></p>
</div>
<p>Embora o desmantelamento da lei burguesa e a introdução do Código da Família e de outras legislações semelhantes tenham sido passos decisivos para a igualdade, reconheceu-se que isso por si só não alcançaria a igualdade social. Como disse o SED:</p>
<blockquote><p>O importante agora é a solução gradual de todos os problemas que determinam até que ponto as mulheres podem fazer uso dos seus direitos iguais. Sem subestimar a crescente cooperação dos homens no agregado familiar, continua a ser um fato que o principal fardo é suportado pelas mulheres (…) [Devemos] melhorar os cuidados infantis para que as mulheres possam trabalhar. (Kranz, 2005, p. 73)</p></blockquote>
<p>Esses problemas ficaram particularmente evidentes na falta de mulheres em posições de direção e na carga do trabalho doméstico e de cuidados.</p>
<h2 style="margin:3em 0;"> Trabalhar</h2>
<p>O número crescente de mulheres que ingressaram no mercado de trabalho após a Segunda Guerra Mundial enfrentou vários desafios, incluindo a falta de estruturas de acolhimento de crianças adequadas, longos deslocamentos, infraestruturas de transporte subdesenvolvidas, horários de trabalho inadequados para as mães e discriminação persistente relativa à sua capacidade de desempenhar funções de gestão. Todos esses fatores restringiam a participação das mulheres na sociedade. A integração das mulheres na força de trabalho era, portanto, uma prioridade na RDA, uma vez que, como argumentou a especialista em ética Helga Hörz, a posição da mulher na sociedade só poderia ser “alterada por meio do seu papel no processo de trabalho”. Hörz (1968/2015, p. 23) argumentou que a incorporação das mulheres na força de trabalho não era apenas uma questão de proporcionar rendimento adicional ao agregado familiar ou de dar às mulheres o seu próprio dinheiro para despesas. Pelo contrário, o novo caráter social do trabalho, construído por meio da propriedade pública dos meios de produção, permitiu às mulheres um maior envolvimento na vida pública. Para as mulheres, isso significou não só uma maior participação na vida econômica, mas também um envolvimento ativo nos processos sociais e uma participação plena no sistema político.</p>
<div class="single-post--content--image-card" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-99743 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/03/Helga.jpg" alt="" width="751" height="780" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/03/Helga.jpg 751w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/03/Helga-289x300.jpg 289w" sizes="auto, (max-width: 751px) 100vw, 751px"></p>
<h4 class="single-post--content--image-card--title" style="margin:2em 0;">Helga E. Hörz</h4>
<p class="single-post--content--image-card--blurb" style="text-align:center;"><small><strong>(1935–) // </strong>Helga é uma filósofa marxista e militante dos direitos das mulheres. Ingressou no SED em 1952 e tornou-se professora de ética na Universidade Humboldt em Berlim Oriental, onde estudou a emancipação das mulheres na RDA de um ponto de vista filosófico e psicológico e lecionou sobre as interseções entre economia e direitos das mulheres. O seu trabalho e compromisso com a igualdade das mulheres levaram-na a tornar-se vice-conselheira da Federação Democrática Internacional das Mulheres de 1969 a 1990 e a ocupar cargos importantes como representante da RDA nas Nações Unidas, onde desempenhou um papel fundamental na elaboração e adoção da Convenção das Nações Unidas sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres.</small></p>
</div>
<p>No entanto, mesmo quando as mulheres foram integradas na força de trabalho numa escala sem precedentes, rapidamente se tornou evidente que elas estavam predominantemente envolvidas em tarefas menos complexas e não tinham a oportunidade de prosseguir com educação adicional e desenvolvimento profissional. Em seu <em>Comunicado das Mulheres</em>, publicado em Dezembro de 1961, o escritório político do comitê central do SED condenou o “fato de que uma percentagem totalmente insuficiente de mulheres e jovens exercem funções médias e de gestão”, culpando, em parte, “a subestimação do papel das mulheres” na sociedade socialista que ainda existe entre muitos – especialmente homens, incluindo dirigentes partidários, estatais, econômicos e sindicais” (Ulbricht, 1961, p. 1). O comitê central apelou a “todo o público” para superar esses problemas, mas considerou que os sindicatos, “como uma organização de massas de trabalhadores”, tinham a responsabilidade primária de “garantir o desenvolvimento de uma opinião social correta sobre o papel das mulheres no socialismo” (idem, p. 2).</p>
<p>Na recém-fundada Federação Sindical Alemã Livre (FDGB, na sigla em alemão), a revolucionária e sindicalista Grete Groh-Kummerlöw advertiu, já em 1946, que “[só] com as mulheres conseguiremos alcançar a unidade e, portanto, a vitória da classe trabalhadora” (SED Kreisleitung Plauen, 1985, p. 15). Até a década de 1950, contudo, os sindicatos não abordavam suficientemente a forma como as empresas representavam os interesses das mulheres. Em 1952, o SED começou a formar comitês de mulheres no local de trabalho, que deveriam atuar de forma independente ao lado dos sindicatos e exercer influência sobre eles. Assim que estes comitês surgiram, o DFD voltou ao seu foco original, trabalhando em áreas residenciais. Os comitês de mulheres defenderam a habitação, o cuidado das crianças e uma divisão do trabalho adequada à idade e contra as diferenças salariais (Clemens, 1990, p. 22-23).</p>
<div class="single-post--content--image-card" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-99753 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/03/Grete.jpg" alt="" width="709" height="780" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/03/Grete.jpg 709w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/03/Grete-273x300.jpg 273w" sizes="auto, (max-width: 709px) 100vw, 709px"></p>
<h4 class="single-post--content--image-card--title" style="margin:2em 0;">Grete Groh-Kummerlöw</h4>
<p class="single-post--content--image-card--blurb" style="text-align:center;"><small><strong>(1909–1980) //</strong> Nascida em uma família da classe trabalhadora, Grete foi militante sindical dos trabalhadores têxteis e membra do Partido Comunista (KPD). Ela ganhou um assento pelo partido no parlamento regional da Saxônia em 1930, aos 21 anos, tornando-a a integrante mais jovem do parlamento na Alemanha na época. Durante a Segunda Guerra Mundial, Grete lutou na resistência e foi presa. Após a guerra, ela mergulhou na reconstrução e renovação do movimento operário. Ela representou a Federação Sindical Alemã Livre (FDGB) no parlamento da RDA de 1950 a 1971. Como chefe do departamento de política social do FDGB, desempenhou um papel importante na reorganização do sistema de seguridade social, ajudando a implementar um sistema unificado gerido pelos próprios sindicatos e trabalhadores da RDA (Groh-Kummerlöw, 2024).</small></p>
</div>
<p>O comunicado, frequentemente referenciado em discussões subsequentes, criticava veementemente a complacência da direção do partido e das organizações de massas. A direção do partido reconheceu as suas deficiências e propôs soluções, como a introdução de “planos de avanço” para as mulheres. Esses planos, elaborados anualmente por um comitê de mulheres em consulta com representantes sindicais, criaram requisitos que a gestão da empresa era obrigada a seguir em questões como a educação das mulheres, medidas de saúde e segurança no trabalho e a expansão dos cuidados infantis e licenças para grávidas, lactantes e jovens mães (VFDG, 2017, p. 61). Tais planos eram parte integrante do acordo coletivo de trabalho entre o sindicato e a gestão, e a implementação e a execução eram supervisionadas pelos comitês de mulheres (VFDG, 2017, p. 62).</p>
<p>Esses planos tornaram-se uma ferramenta crucial para os comitês de mulheres defenderem medidas sociais e profissionais nas empresas e, assim, melhorarem as oportunidades de carreira para as mulheres (Hörz, 2010, p. 73). A incorporação dos comitês de mulheres nas estruturas sindicais do FDGB em 1965 aumentou ainda mais os direitos das mulheres trabalhadoras. Apesar dos desafios com que lutou nos seus primeiros anos, o FDGB emergiu como o órgão central de representação das mulheres, ultrapassando o DFD. Em 1987, dos 9,5 milhões de membros sindicalizados, 5 milhões eram mulheres, 1,4 milhões das quais estavam ativamente envolvidas em funções sindicais, como os comitês de mulheres (Enkelmann; Külow, 2019, p. 61).</p>
<p>No final da década de 1980, as mulheres tinham atingido os mesmos níveis de qualificação formal que os homens, com a proporção de mulheres no ensino superior e nas escolas técnicas chegando a 55% em 1988 (Schröter; Rohmann, p. 2002, p. 97). A paridade de gênero também se refletiu em áreas cruciais da vida político-democrática, influenciando as decisões e políticas tomadas sobre a vida social. As mulheres representavam mais de 50% de todos os juízes; 35% de todos os prefeitos; e 40% do parlamento (Aus erster Hand, 1986, p. 59). Apesar de não atingir a plena paridade de gênero em cargos de gestão, em 1986 havia mais mulheres em cargos de gestão na RDA (34%) do que na Alemanha hoje (28,9% em 2022).<a href="#_ftn4" name="_ftnref4"><sup>4</sup></a> Em 1989 (um ano antes da dissolução da RDA), 92,4% de todas as mulheres em idade ativa estavam empregadas e a maioria delas era sindicalizada (Kaminsky, 2016, p. 97).</p>
<p>As mulheres gozavam quase de paridade salarial em comparação com outras sociedades industrializadas naquela época e hoje, embora a RDA não tenha conseguido erradicar completamente as diferenças salariais. Para as trabalhadoras da produção, por exemplo, houve uma diferença notável nos níveis salariais entre homens e mulheres, que foi em média de 16% entre 1984 e 1988 (em comparação com 30% na Alemanha Ocidental durante o mesmo período) (Stephan; Wiedemann, 1990, p. 550 e 556). Existem várias razões para essa disparidade. Por um lado, foram pagos prêmios monetários especiais aos trabalhadores envolvidos em trabalho por turnos ou pesado, que mais frequentemente cabiam aos homens (Stephan; Wiedemann, 1990, p. 550). Se esses prêmios e suplementos forem deduzidos dos salários, a disparidade salarial líquida entre homens e mulheres cai de 16 para 12%, em média, no mesmo período (Bundesministerium für Familie, 2015, p. 26-27). Outro fator que contribuiu para essa disparidade foi que, na RDA, os trabalhadores industriais (um setor predominantemente constituído por homens) eram mais bem remunerados que os trabalhadores dos serviços (predominantemente mulheres). Por último, com essas diferenças salariais relacionadas com o setor, a histórica falta de formação profissional para as mulheres, o número insuficiente de mulheres em cargos de gestão e o aumento do trabalho de tempo parcial na última década da existência da RDA contribuíram para a redução dos rendimentos das mulheres.</p>
<p>Apesar desses desafios, vale a pena notar que durante os 40 anos de existência da RDA, o nível salarial duplicou, enquanto as diferenças salariais globais entre os estratos sociais permaneceram pequenas. Por exemplo, os diplomados universitários ganhavam apenas 15% mais do que os trabalhadores da produção, em forte contraste com a Alemanha Ocidental, onde essa diferença chegava a 70% (Stephan; Wiedemann, 1990, p. 550). Outros exemplos notáveis ​​incluem o fato de apenas cerca de 5% dos salários serem destinados a aluguel (em comparação com cerca de 23% na Alemanha atual), os cuidados infantis e a escola serem gratuitos e os preços dos alimentos serem fixados em patamares baixos.</p>
<p>As conquistas da RDA em matéria de igualdade salarial continuam a ter impacto na antiga Alemanha Oriental. Por exemplo, um relatório publicado pelo Instituto Leibniz de Ciências Sociais em 2018 mostra que a disparidade salarial entre homens e mulheres é muito menor na antiga RDA (6,3%) do que na parte ocidental (20,6%), e a proporção do número de mulheres em posições de liderança também permanece superior (Wagner, 2021, p. 29). No entanto, o impacto duradouro da quase paridade salarial na antiga RDA é diminuído pelo fato de o rendimento na região permanecer muito inferior ao da Alemanha Ocidental, mesmo 34 anos após a chamada reunificação.</p>
<h2 style="margin:3em 0;">Brigadas de donas de casa</h2>
<p>No meio da atmosfera de reconstrução do pós-guerra, no início da década de 1950, surgiram coletivos auto-organizados de mulheres desempregadas, muitas vezes mães e donas de casa filiadas ao DFD, para aceitarem trabalho remunerado de curta duração onde a mão-de-obra era urgentemente necessária, seguindo o exemplo de mulheres camponesas que se organizaram para ajudar na colheita. As militantes do DFD rapidamente organizaram brigadas também em outros setores, encorajando cada vez mais mulheres a entrarem no mercado de trabalho e a desafiarem o papel isolado das mulheres na esfera doméstica privada e individual, promovendo a organização coletiva e a integração no processo de produção.</p>
<p>Em 1960, existiam 4.031 brigadas de donas de casa compostas por cerca de 30 mil mulheres (Bundesvorstand des Demokratischen Frauenbundes Deutschlands, 1989, p. 154). A maior parte das brigadas foi para cooperativas de produção agrícola em áreas rurais, embora outras tenham sido direcionadas para os setores industrial, de serviços e de saúde. Vendo sua eficácia, as empresas passaram a solicitar as brigadas. No entanto, depois de alguns deles terem começado simplesmente a convocar as brigadas por curtos prazos para cumprirem as suas cotas, o DFD e a Federação Sindical Alemã Livre (FDGB) tornaram obrigatório que as empresas estabelecessem contratos como pré-condição para o destacamento de brigadas, fortalecendo assim os direitos laborais das participantes da brigada e abrindo caminho para o seu emprego a longo prazo.</p>
<p>Como observou o DFD, havia uma crença generalizada de que, embora a escassez do pós-guerra tenha inicialmente levado as mulheres a procurar emprego, o socialismo tinha progredido o suficiente para que as mulheres abandonassem o trabalho e ainda desfrutassem de um padrão de vida confortável (Bundesvorstand des Demokratischen Frauenbundes Deutschlands, 1989, p. 154). Num artigo de 1958 sobre as suas experiências de agitação entre donas de casa, a deputada do DFD, Käte Lüders, analisou como os homens – incluindo membros do partido – não queriam abdicar do “conforto doméstico” das suas esposas que cuidavam deles de bom grado, reforçando ainda mais essa dinâmica. As brigadas de donas de casa cumpriram assim dois propósitos importantes: primeiro, revitalizaram o debate político sobre o isolamento das mulheres na esfera doméstica e, segundo, reforçaram a sua participação no processo de produção e, portanto, a sua independência econômica em relação aos homens (Arendt, 1979, pág. 66).</p>
<p>No entanto, com o aumento do emprego das mulheres, que já tinha atingido 70% em 1965, e no contexto da recuperação econômica após a construção do Muro de Berlim, em 1961, a falta de acesso das mulheres ao desenvolvimento profissional e à formação de competências emergiu como uma questão ainda mais premente e as brigadas diminuíram (Staatliche Zentralverwaltung für Statistik, 1966, p. 62 e 518). Eram urgentemente necessários trabalhadores qualificados e as mulheres exigiam as oportunidades de formação profissional que lhes foram prometidas.</p>
<h2 style="margin:3em 0;">Trabalho doméstico</h2>
<p>Embora a vida das mulheres tenha melhorado muito como resultado do projeto socialista na RDA, o duplo fardo do trabalho doméstico e os empregos remunerados revelou-se difícil de erradicar. Medidas como o Código da Família procuraram criar uma divisão mais igualitária do trabalho no lar, mas muitas vezes não foram implementadas de forma consistente. A entrada generalizada das mulheres no mercado de trabalho criou uma abertura para enfrentar esse duplo fardo: como resultado do seu envolvimento no processo de produção, as mulheres puderam expressar as suas necessidades e exigências como trabalhadoras, enquanto o próprio local de trabalho se tornou um lugar social onde o trabalho reprodutivo poderia ser socializado.</p>
<p>O Estado decidiu socializar o trabalho doméstico e criar condições para que as mulheres participassem mais plenamente na sociedade, em vez de ficarem presas à sua casa. Isso é particularmente evidente no caso do acolhimento de crianças: na Alemanha Ocidental, praticamente não havia acolhimento de crianças para as mulheres, o que muitas vezes impossibilitava que elas arranjassem trabalho ou se envolvessem de forma significativa na vida fora de casa (apenas 1,6% das crianças de 3 anos frequentavam creches em 1986). A RDA, entretanto, estabeleceu uma estrutura estatal abrangente de cuidados que oferecia creches gratuitas, frequentadas por 81,1% das crianças até os 3 anos de idade em 1986, bem como jardins de infância gratuitos e cuidados pós-escolares e programas de férias acessíveis ou financiados por empresas para crianças e famílias. Como resultado, enquanto a Alemanha Ocidental tinha uma taxa de colocação em jardins de infância de 67,6%, na RDA ela representava 93,4% (Bundesministerium für Familie, 2015, p. 54-55).</p>
<p>Embora tenham sido feitos esforços semelhantes para promover a igualdade no domínio do trabalho doméstico, não obtiveram o mesmo nível de sucesso. De acordo com os primeiros inquéritos detalhados sobre as horas dedicadas ao trabalho doméstico, realizados pelo <em>Institut für Bedarfsforschung </em>(Instituto de Investigação do Consumo) no início da década de 1960, as mulheres trabalhadoras dedicavam, em média, 4,6 horas por dia a tarefas domésticas – excluindo cuidar de crianças, os doentes e os idosos. Isso equivalia a 15 horas, ou 24% mais tempo de trabalho doméstico por semana do que os homens trabalhadores (Bischoff, 1966, p. 35 e 87).</p>
<p>No meio da recuperação econômica da década de 1960, prevaleceu o otimismo de que o tempo gasto nas tarefas domésticas poderia ser reduzido com a ajuda das novas tecnologias e que o trabalho que tinha sido realizado pelas mulheres individualmente, no isolamento da sua casa, poderia ser socializado. As diferentes soluções propostas para superar a dupla carga do trabalho doméstico suscitaram um debate: um lado argumentou que a melhor solução para esse problema era socializar o trabalho doméstico, enquanto o outro argumentou que a melhoria das condições para o trabalho doméstico – como o desenvolvimento e aumento do acesso a novas tecnologias – fizeram da abordagem individualizada do trabalho doméstico a melhor opção.</p>
<div class="single-post--content--image-card" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-99763 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/03/Herta.jpg" alt="" width="705" height="780" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/03/Herta.jpg 705w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/03/Herta-271x300.jpg 271w" sizes="auto, (max-width: 705px) 100vw, 705px"></p>
<h4 class="single-post--content--image-card--title" style="margin:2em 0;">Herta Kuhrig</h4>
<p class="single-post--content--image-card--blurb" style="text-align:center;"><small><strong>(1930–2020) //</strong> Herta foi integrante do órgão consultivo do governo Mulheres na Sociedade Socialista, e foi s ecretária científica do Conselho Científico de Pesquisa Sociológica da Universidade Humboldt. De 1964 a 1990 foi responsável por administrar o conteúdo e pela o pesquisa científica publicada no boletim INFORMATIONEN, que procurava proporcionar uma visão multifacetada sobre a posição da mulher na sociedade com base em contribuições de diversas áreas de investigação, como sociologia, história, literatura, economia e pedagogia. A pedido da Ministra da Justiça, Hilde Benjamin, Herta, junto com as Mulheres da Sociedade Socialista, redigiu, junto comos advogados Anita Grandke e Wolfgang Weise, o projeto do que viria a ser o Código da Família da RDA de 1965.</small></p>
</div>
<p>Esse debate ganhou força na década de 1960 com as pesquisas produzidas pelo Institute for Consumption Research<em>.</em> Seu diretor, Werner Bischoff, argumentou que a família deveria continuar a existir como uma unidade privada de consumo sob o estado nascente das forças produtivas na RDA. A aquisição e utilização adequada de aparelhos que aliviem o trabalho reprodutivo não só ajudariam a economia nacional, argumentou, mas também racionalizariam eficazmente o trabalho doméstico e poupariam tempo. Do outro lado desse debate estava Herta Kuhrig, que defendia a abolição e a socialização completa, ou industrialização, do trabalho doméstico. De acordo com Kuhrig, a tecnologia era suficientemente avançada para aliviar o fardo do trabalho doméstico das mulheres, mas faltava vontade política para fazê-lo. Bischoff, pelo contrário, enfatizou a validade da exigência de socialização, mas alertou para a sua natureza utópica se esta fosse vista como o único caminho a seguir nas condições econômicas dadas.</p>
<p>Em última análise, os tomadores de decisão optaram por uma estratégia para automatizar o trabalho doméstico. A partir da década de 1970, a mídia também mudou no sentido da participação de toda a família nas tarefas domésticas. Embora o trabalho doméstico tenha se tornado menos árduo devido ao maior acesso a tecnologias melhoradas (tais como novos sistemas de aquecimento e de lavagem), no geral, essa estratégia não foi eficaz: embora o trabalho doméstico tenha caído de 38 horas por semana em 1965 para 31 horas por semana no final da década de 1970, permaneceu praticamente inalterado durante a existência da RDA (Kaminsky, 2016, p. 117).</p>
<p>Um esforço para resolver essa questão foi o “dia do trabalho doméstico”, introduzido em 1952 para as mulheres que trabalhavam em período integral e eram casadas ou, se solteiras, eram mães que viviam em casa com as suas mães e com filhos menores de 16 anos.</p>
<p>As mulheres exigiram veementemente que o dia do trabalho doméstico se estendesse a outras camadas da população por meio de petições, reuniões sindicais e do DFD. Como resultado desses esforços, em 1965, os dias de trabalho doméstico foram estendidos às mães solteiras com filhos menores de 18 anos, independentemente de viverem ou não com as mães. O parágrafo 185 do Código do Trabalho da RDA de 1977 estendeu ainda mais os dias elegíveis para trabalho doméstico a mulheres solteiras e sem filhos com idade igual ou superior a 40 anos, bem como a pais solteiros e homens cujas esposas necessitassem de cuidados (Deutsche Demokratische Republik, 1990).</p>
<p>A decisão inicial de reservar o dia do trabalho doméstico apenas para as mulheres representou um dilema. Por um lado, havia uma necessidade real de evitar que o trabalho doméstico recaísse exclusivamente sobre os ombros das mulheres. Por outro lado, as estatísticas e a realidade da vida das mulheres trabalhadoras mostraram muito claramente que as mulheres continuaram a fazer a maior parte desse trabalho. A concessão de dias de trabalho doméstico a setores mais vastos da população foi uma tentativa de contrariar essa divisão de trabalho profundamente enraizada. Esta foi a primeira vez que uma parte do trabalho reprodutivo das mulheres, por menor que fosse, foi paga por lei.</p>
<h2 style="margin:3em 0;">O rescaldo</h2>
<p>No final da década de 1980, um movimento de mulheres “independente” emergiu em oposição à organização de massas femininas da RDA, criticando sua aparente estagnação. Isso se deu em grande parte ao fato de o movimento organizado de mulheres na RDA ter lutado para envolver as gerações mais jovens e desenvolver o fervor revolucionário dos primeiros anos da RDA. No entanto, quando a chamada reunificação seguiu o seu curso, foi o movimento independente que foi fácil e voluntariamente instrumentalizado para fazer retroceder as conquistas da RDA: todas as leis foram anuladas e tornou-se claro que não haveria continuidade das políticas socialistas da RDA na sociedade capitalista.</p>
<p>Além do retrocesso nas proteções legais para as mulheres e no bem-estar geral dos alemães orientais, a privatização e a desindustrialização sem precedentes da economia da Alemanha Oriental apresentaram desafios únicos. Quando a infraestrutura social da RDA foi desmantelada, as mulheres foram as primeiras a enfrentar o desemprego, bem como o desprezo dos seus novos superiores da Alemanha Ocidental e, em última análise, foram empurradas de volta para um modelo familiar tradicional em que dependiam dos homens como únicos provedores.</p>
<p>A experiência na RDA mostra que as mulheres fizeram grandes progressos para quebrar a secular dependência econômica dos homens. Este provou ser um processo complicado e demorado que enfrentou os maiores obstáculos no domínio do trabalho doméstico. Embora as políticas na RDA, especialmente nos primeiros anos, constituíssem passos importantes na melhoria da vida das mulheres, era impossível impô-las simplesmente “de cima”. Foram as iniciativas de massa das mulheres, como as brigadas de donas de casa, que provocaram a mudança de mentalidade necessária para conquistar grupos sociais em favor da emancipação das mulheres.</p>
<p>Esse processo permaneceu inacabado na RDA. Quando ela foi dissolvida em 1990, o trabalho doméstico foi largamente deixado às mulheres e a disparidade salarial persistiu, tal como os papéis familiares tradicionais (embora cada vez menos pronunciados nas gerações mais jovens). No entanto, os exemplos trazidos neste dossiê testemunham o compromisso e a capacidade da RDA em procurar criativamente os instrumentos necessários para promover a emancipação das mulheres num determinado conjunto de circunstâncias. As contradições que emergiram durante esse processo refletem a necessidade de sempre renovare re validar constantemente as táticas adotadas em nosso compromisso inabalável com tal emancipação.</p>
<h3 class="single-post--content--citations-title" style="margin:2em 0;">Nota</h3>
<div class="single-post--content--citations-block">
<p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1"><sup>1</sup></a> Para saber mais informações sobre o sistema de saúde da RDA, ver: Internacional Forschungsstelle DDR e Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, <em>“Socialismo é a melhor profilaxia: o sistema de saúde da República Democrática Alemã</em>, Estudos sobre a RDA n. 2, 14 fev. 2023. Disponível em: <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/estudos-2-rda-saude/">https://dev.thetricontinental.org/studies-2-ddr-health-care-2/</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref2" name="_ftn2"><sup>2</sup></a> Sobre filhos ilegítimos, ver Grandke, <em>Die Entwicklung des Familienrechts in der DDR</em>, 211; Deutsche Demokratische Republik, <em>Familiengesetzbuch</em>, seções 13 e 39.</p>
<p><a href="#_ftnref3" name="_ftn3"><sup>3</sup></a> Ver: Internacional Forschungsstelle DDR e Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, <em>“Socialismo é a melhor profilaxia”</em>.</p>
<p><a href="#_ftnref4" name="_ftn4"><sup>4</sup></a> A seguir indica-se a percentagem de mulheres em todas as funções gerenciais: Em 1986, mais de 34% (Aus erster Hand, <em>Gleiche Rechte,</em> p. 53); em 1987, 33% (VFDG, <em>Der FDGB</em>, p. 19); em 1988, 32% (Staatliche Zentralverwaltung für Statistik, 40 Jahre DDR, p. 97); e em 1988/89, 31,5% (Bundesministerium für Familie,<em> 25 Jahre Deutsche Einheit</em>, p. 23). Dienel, <em>Frauen in Führungspositionen</em>, 154; Statistisches Bundesamt, “Frauen in Führungspositionen”.</p>
</div>
<h3 class="single-post--content--citations-title" style="margin:2em 0;">Referências bibliográficas:</h3>
<div class="single-post--content--citations-block">
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<p>Arendt, Hans-Jürgen. ‘Zur Entwicklung der Bewegung der Hausfrauenbrigaden in der DDR 1958 bis 1961/62’ [O Desenvolvimento do Movimento da Brigada das Donas de Casa na RDA de 1958 a 1961/62]. <em>Jahrbuch für Wirtschaftsgeschichte</em> 20, n. 1 (1979), p. 53–70.</p>
<p>Aresin, Lykke. ‘Schwangerschaftsabbruch in der DDR’ [Aborto na RDA]. In: <em>Unter anderen Umständen – Zur Geschichte der Abtreibung</em> [Sob diferentes circunstâncias: a história do aborto], edited by Staupe, Gisela and Lisa Vieth. Dresden: Deutsches Hygiene-Museum, 1993, p. 86–95.</p>
<p>Aus erster Hand (editorial team). <em>Gleiche Rechte – gleich genutzt? Frauen in der DDR </em>[Direitos iguais, uso igual? Mulheres na RDA]. Berlim: Panorama DDR, 1986.</p>
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<p>Bischoff, Werner. <em>Charakter, Umfang und Struktur der Hausarbeit in den privaten Haushalten der DDR und Möglichkeiten der Erleichterung und Verringerung der Hausarbeit durch das Warenangebot und den Verbrauch von Konsumgütern – Dissertation.</em> [O Caráter, Extensão e Estrutura do Trabalho Doméstico em Domicílios Privados na DDR e Possibilidades de Facilitar e Reduzir o Trabalho Doméstico Através da Oferta e Consumo de Bens de Consumo – Dissertação]. Berlim: Hochschule für Ökonomie [University of Economics], 1966.</p>
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<p>SED Kreisleitung Plauen, ed. <em>Plauener Arbeiter ausgebeutet und verfolgt – Persönlichkeiten der revolutionären Arbeiterbewegung, Kämpfer gegen Faschismus und für ein Leben in Frieden und Wohlstand</em> [Trabalhadores de Plauen explorados e perseguidos: personalidades do movimento trabalhista revolucionário, lutadores contra o fascismo e por uma vida em paz e prosperidade]. Plauen: Kreiskommission zur Erforschung der Geschichte der örtlichen Arbeiterbewegung. Plauen, 1985.</p>
<p>Staatliche Zentralverwaltung für Statistik [Administração Central Estadual de Estatísticas]. <em>Statistische Jahrbücher der Deutsche Demokratische Republik</em> [Anuários Estatísticos da República Democrática Alemã]. Berlim: Staatsverlag der DDR, 1955–1990. Disponível em: <a href="https://www.statistischebibliothek.de/mir/receive/DESerie_mods_00007446">https://www.statistischebibliothek.de/mir/receive/DESerie_mods_00007446</a>.</p>
<p>Staatliche Zentralverwaltung für Statistik [Administração Central Estadual de Estatísticas]. <em>40 Jahre DDR: Zahlen und Fakten</em> [40 anos da DDR: fatos e números]. Berlim: Verlag für Agitations- und Anschauungsmittel, 1989.</p>
<p>Statistisches Bundesamt [Escritório Federal de Estatística]. <em>Statistische Jahrbücher für die Bundesrepublik Deutschland </em>[Anuários Estatísticos da República Federal da Alemanha]. Stuttgart: W. Kohlhammer GmbH, 1952–1990. Disponível em: <a href="https://www.statistischebibliothek.de/mir/receive/DESerie_mods_00006972">https://www.statistischebibliothek.de/mir/receive/DESerie_mods_00006972</a>.</p>
<p>Statistisches Bundesamt [Escritório Federal de Estatística]. <em>Frauen in Führungspositionen</em> [Mulheres em cargos de gestão], acesso em: 18 dez. 2023. Disponível em: <a href="https://www.destatis.de/DE/Themen/Arbeit/Arbeitsmarkt/Qualitaet-Arbeit/Dimension-1/frauen-fuehrungspositionen.html">https://www.destatis.de/DE/Themen/Arbeit/Arbeitsmarkt/Qualitaet-Arbeit/Dimension-1/frauen-fuehrungspositionen.html</a>.</p>
<p>Statistisches Bundesamt [Escritório Federal de Estatística]. “Frauen in Führungspositionen in der EU” [Mulheres em cargos de gestão na UE]. Accesso: 1 fev. 2024. Disponível em: <a href="https://www.destatis.de/Europa/DE/Thema/Bevoelkerung-Arbeit-Soziales/Arbeitsmarkt/Qualitaet-der-Arbeit/_dimension-1/08_frauen-fuehrungspositionen.html">https://www.destatis.de/Europa/DE/Thema/Bevoelkerung-Arbeit-Soziales/Arbeitsmarkt/Qualitaet-der-Arbeit/_dimension-1/08_frauen-fuehrungspositionen.html</a>.</p>
<p>Stephan, Helga; Wiedemann, Eberhard, “Lohnstruktur und Lohndifferenzierung in der DDR: Ergebnisse der Lohndatenerfassung vom September 1988” [Estrutura Salarial e Diferenciação Salarial na DDR: Resultados da Recolha de Dados Salariais de Setembro de 1988]. In <em>Mitteilungen aus der Arbeitsmarkt- und Berufsforschung</em><em> [Relatórios sobre pesquisas sobre mercado de trabalho e ocupações]</em>. Nuremberg: Institut für Arbeitsmarkt- und Berufsforschung (IAB) [Instituto de Pesquisa do Emprego], v. 23, n. 4, 1990, p. 550–562. Disponível em: <a href="https://doku.iab.de/mittab/1990/1990_4_MittAB_Stephan_Wiedemann.pdf">https://doku.iab.de/mittab/1990/1990_4_MittAB_Stephan_Wiedemann.pdf</a>.</p>
<p>Ulbricht, Walter. “Die Frauen – der Frieden und der Sozialismus. Kommuniqué des Politbüros des Zentralkomitees der SED” [Mulheres, Paz e Socialismo: Comunicado do Politburo do Comitê Central do SED]. <em>Neues Deutschland,</em> 23 dez. 1961, p. 1–2. Disponível em: <a href="https://www.nd-archiv.de/artikel/626009.die-frauen-m-der-frieden-und-der-sozialismus.html">https://www.nd-archiv.de/artikel/626009.die-frauen-m-der-frieden-und-der-sozialismus.html</a>.</p>
<p>Verein Freie Deutsche Gewerkschaften e.V. (VFDG) [Associação de Sindicatos Alemães Livres], ed. <em>Der FDGB – ein Bund von über 9 Millionen</em> [O FDGB – Uma central sindical de mais de 9 milhões]. Berlim, 2017.</p>
<p>Wagner, Wolf. “Im Osten hat sich das geschlechtergerechte Gehaltssystem der DDR erhalten” [No Leste, o sistema salarial equitativo de gênero da RDA foi preservado]. <em>Berliner Zeitung,</em> 13 ago. 2021. Disponível em: <a href="https://www.berliner-zeitung.de/open-source/im-osten-hat-sich-das-geschlechtergerechte-gehaltssystem-der-ddr-erhalten-li.175505">https://www.berliner-zeitung.de/open-source/im-osten-hat-sich-das-geschlechtergerechte-gehaltssystem-der-ddr-erhalten-li.175505</a>.</p>
</div>
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		<title>Josie Mpama</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/estudos-feminismos-5-josie-mpama/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[ariana]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 Mar 2023 10:49:20 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Feminismos]]></category>
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					<description><![CDATA[Este dossiê analisa a história e o trabalho inacabado da libertação das mulheres na República Democrática Alemã, bem como as suas conquistas, legado e os desafios enfrentados.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-75302 alignnone img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-0.jpg" alt="" width="1000" height="1000" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-0.jpg 1417w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-0-300x300.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-0-1024x1024.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-0-150x150.jpg 150w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-0-768x768.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px"></div>
<div class="single-post--content--image-acknowledgments">Poucas fotografias de Josie Mpama podem ser encontradas nos arquivos ou online. A arte neste estudo recupera a presença amplamente desconhecida de Josie em importantes espaços políticos e processos dentro das lutas anticoloniais e anti-apartheid nas quais ela desempenhou um papel importante. Sua figura é recortada, um reconhecimento de que, devido às condições materiais e políticas de então e agora, hoje temos poucos registros visuais de seu envolvimento na formação da história da África do Sul. A arte coloca Josie em momentos políticos importantes, refletindo a tentativa do estudo de recuperar um legado que foi “ignorado e amplamente excluído do registro histórico convencional”, como escrevemos na introdução.</div>
<p>O século 20 foi marcado pelas lutas de libertação nacional que surgiram na África e na Ásia, assim como na América Latina, em que as estruturas neocoloniais haviam subordinado os países formalmente independentes. As conquistas da Revolução Russa de 1917 inspiraram o campesinato e a classe trabalhadora em todo o Sul Global. A luta pela igualdade e libertação sob a liderança dos trabalhadores continua nas lutas anti-imperialistas de nosso tempo. As mulheres, de inúmeras maneiras, moldaram vigorosamente e continuam a moldar todas essas lutas.</p>
<p>Na série <em>Mulheres de Luta, Mulheres em Luta</em>, do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, apresentamos as histórias de mulheres lutadoras que contribuíram não apenas mais amplamente para a política, mas também foram pioneiras no estabelecimento de organizações de mulheres, abrindo caminhos de resistência e luta feminista ao longo do século 20.</p>
<p>A práxis, como conhecimento da teoria e dos métodos de organização de luta conforme mudam e respondem à história, dá sustentação às lutas contínuas contra a opressão. Como militantes, estudamos as diversas vidas, contextos e métodos organizacionais dessas mulheres não apenas para entender melhor suas contribuições políticas, mas também para nos inspirar enquanto construímos as organizações necessárias para vencer a luta contra a atual opressão e a exploração.</p>
<p>No quarto estudo desta série, discutimos a vida e as lutas políticas de Josie Mpama (1903–1979), uma liderança na resistência contra a opressão colonial e o sistema de <em>apartheid </em>na África do Sul. Josie foi uma figura chave na história das mulheres lutadoras na África do Sul e uma liderança do Partido Comunista da África do Sul. Sua vida nos ensina sobre a importância da organização de base e de massas, bem como os desafios que acompanham esse trabalho. Como tantas mulheres envolvidas na política radical, particularmente no Sul Global, as extraordinárias contribuições políticas e perspicácia teórica de Josie foram negligenciadas e amplamente excluídas do registro histórico dominante.</p>
<hr class="single-post--content--separator-section">
<p>Nascida Josephine Winifred Mpama, em 21 de março de 1903, Josie – como era conhecida por familiares, amigos/as e camaradas – chegou a ter muitos nomes em função das manobras que precisava realizar em diferentes contextos. Onde a língua inglesa dominava e permitia maior mobilidade social e econômica, seu sobrenome foi anglicizado e ela atendia por Josie Palmer. Em outras ocasiões, quando ela estava com seu companheiro, Edwin, com quem tinha uma união estável, e a política de respeitabilidade entrava em jogo, ela utilizava o sobrenome dele e se tornava Sra. Mofutsanyana. Em trabalhos mais secretos, seus pseudônimos conhecidos incluíam Winifred Palmer, Beatrice Henderson e Red Scarf.</p>
<p>Josie nasceu um ano após o fim da Guerra da África do Sul (1899–1902), durante a qual o Império Britânico e os Boers (descendentes de colonizadores holandeses) lutaram pelo controle da região. Ela cresceu e se tornou politicamente ativa durante um dos períodos políticos mais tumultuados da história de seu país, quando a minoria branca tentava consolidar seu controle sobre a terra, o trabalho e o poder político. Ao mesmo tempo, profundas mudanças e conflitos também ocorriam no cenário político e econômico internacional: antes de completar 40 anos, Josie viveria a Primeira Guerra Mundial, a Revolução Russa, a Grande Depressão, a formação da Internacional Comunista (Comintern), a ascensão do fascismo europeu e a eclosão da Segunda Guerra Mundial.</p>
<p>Embora o Tratado de Vereeniging, assinado em 31 de maio de 1902, tenha encerrado a guerra entre o Império Britânico e os bôeres, a paz não se fez presente na África do Sul. Durante as décadas que se seguiram, foram lançadas as bases para a ascendência sistemática e estrutural do domínio branco e da segregação racial, expropriação de terras e imposição de mão de obra migrante barata. O estabelecimento da União da África do Sul em 1910, que consolidou várias colônias britânicas e assentamentos bôeres em um estado unitário, iniciou uma fase que construiu as bases para o surgimento do sistema de <em>apartheid </em>de governança racialmente segregada. A aplicação mais intensa desse sistema viria após a vitória eleitoral de 1948 do Partido Nacional Africânder branco de direita, cujos líderes, como John Vorster, tinham conexões diretas com o fascismo alemão.</p>
<p>Em meio a essas convulsões políticas mais amplas, a jovem Josie experimentou em casa turbulência pessoal e pobreza. Aos sete anos, seus pais se divorciaram, iniciando uma longa batalha por custódia e um período em que ela passou continuamente entre os cuidados de diferentes familiares, alguns dos quais eram altamente abusivos (Mpama, 2003). Sua família operária também estava dividida pelas categorias raciais impostas pelo Estado colonial: seu pai era zulu e trabalhava como intérprete da corte, enquanto sua mãe era designada como “de cor” e trabalhou como empregada doméstica por vários anos, embora estivesse entre as mais bem pagas.<a href="#_prol_ftn1" name="_prol_ftnref1"><sup>1</sup></a> De acordo com a designação do Estado, Josie era considerada “de cor”, o que significava que ela poderia ter escolhido viver separada e “acima” da maioria africana, aceitando vantagens econômicas e políticas, por mais limitadas que fossem, de acordo com a hierarquia racial imposta pelo sistema do <em>apartheid</em>. Em vez disso, Josie rejeitou e escolheu se identificar e trabalhar entre os africanos durante toda a sua vida, vivendo em comunidades predominantemente africanas da classe trabalhadora ou em áreas racialmente diversas, como Sophiatown, que desafiava a segregação sancionada pelo Estado.</p>
<p>Josie chegou à militância por meio de protestos da comunidade por melhores condições e direitos de moradia durante o final dos anos 1920 e início dos anos 1930 em sua cidade natal, Potchefstroom, localizada a cerca de 120 quilômetros a sudoeste de Joanesburgo. Foi lá, nas trincheiras da luta, que ela se tornou uma das primeiras mulheres negras a ingressar no Partido Comunista da África do Sul (PCAS) em 1928 e, posteriormente, a ocupar um alto cargo de liderança no partido.<a href="#_prol_ftn2" name="_prol_ftnref2"><sup>2</sup></a> O movimento comunista influenciou profundamente seu pensamento e ação. Em uma comemoração da Revolução Russa organizada pelo CPSA em novembro de 1932, Josie afirmou a relevância da revolução para “todos os trabalhadores, independentemente da cor”, e continuou a ter profunda admiração pelo projeto soviético até sua morte (Edgar, 2020, p. 133, 221).</p>
<p>Na década de 1930, Josie se envolveu na seção sul-africana da Ajuda Vermelha Internacional do Comintern, conhecida como <em>Ikaka la Basebenzi</em> [escudo dos trabalhadores], criada em 1931 após o assassinato do militante comunista Johannes Nkosi pela polícia em um protesto em Durban.<a href="#_prol_ftn3" name="_prol_ftnref3"><sup>3</sup></a> Alguns anos depois, Josie viajou para a União Soviética e ganhou mais experiência em primeira mão com o Comintern.</p>
<p>Embora algumas de suas contribuições mais importantes tenham sido feitas para as campanhas nacionais contra a Lei do Passe do <em>apartheid</em>, seu foco na organização de mulheres, como ser fundadora da Federação Multirracial de Mulheres Sul-africanas (FEDSAW, sigla em inglês) em 1954, é particularmente significativo. Josie foi uma das poucas a defender publicamente o aumento da participação política das mulheres e o avanço das mulheres da classe trabalhadora, e foi uma das primeiras mulheres negras a falar publicamente sobre as conexões entre gênero, raça e classe (Edgar, 2020, p. 113 e 128; Lodge, 2021, p. 313; Roth, 1996, p. 122).</p>
<p>Devido a vários preconceitos – antigos e atuais – sobre quem pode ser considerado intelectual e o que é o trabalho intelectual, os papéis de Josie como intelectual orgânica, pensadora política e líder são frequentemente negligenciados.<a href="#_prol_ftn4" name="_prol_ftnref4"><sup>4</sup></a> Embora sua educação em teoria marxista fosse um tanto informal e irregular por natureza, ela valorizava claramente a necessidade da luta de classes organizada. Para Josie, a teoria e a ideologia serviam ao seu propósito na medida em que avaliavam as realidades e condições concretas para dar base ao plano de ação. Embora guiada pela linha partidária, como observa seu biógrafo Robert R. Edgar, “ela não hesitava em assumir posições independentes e criticar duramente as políticas do PCAS, que ela acreditava não estarem enraizadas nas realidades sul-africanas” (Edgar, 2020, p. 131).</p>
<p>Como muitos intelectuais orgânicos, Josie chegou à política por meio de suas experiências, no caso dela, crescendo sob o domínio branco na África do Sul do <em>apartheid </em>e participando de protestos comunitários. Encontrando o marxismo e a teoria revolucionária em cacos e fragmentos, ela – como muitos intelectuais orgânicos e organizadores políticos do Sul Global durante a era da libertação nacional – integrou os conceitos que aprendeu e os aplicou ao seu contexto específico para promover a luta popular.<a href="#_prol_ftn5" name="_prol_ftnref5"><sup>5</sup></a></p>
<p>Fora de sua vida política pública, ela assumiu tantos papéis quanto nomes, incluindo os de mãe, avó e, em seus últimos anos, militante comunitária eclesial e curandeira popular. Em última análise, seu compromisso duradouro de mudar a realidade social de seu povo foi baseado em sua afeição genuína por sua comunidade e estimulado por uma estrutura de revolução social.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-75166 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-1.jpg" alt="" width="680" height="680" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-1.jpg 680w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-1-300x300.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-1-150x150.jpg 150w" sizes="auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px"></p>
<div class="single-post--content--caption-block">
<p class="single-post--content--caption-block--text">Os protestos contra a taxa cobrada de inquilinos em Potchefstroom no final da década de 1920 frequentemente se opunham às autoridades do município, fotografados à distância. Essas foram experiências políticas formativas para Josie.</p>
<p class="single-post--content--caption-block--credit">Fotografia de referência de Gawie van der Walt, proveniente de Lennie Gouws.</p>
</div>
</div>
<h2 style="margin:3em 0;">Servindo a florescente economia branca</h2>
<p>Durante a virada do século 20, homens africanos de áreas rurais na África do Sul e países vizinhos foram atraídos para o emergente centro industrial de Joanesburgo como mão de obra para as minas da cidade. Somente os homens eram autorizados a realizar esse tipo de trabalho e, ao chegarem, viviam em conjuntos semi carcerários de trabalhadores, remunerados a uma taxa tão baixa que não podiam sustentar suas famílias em casa. A criação da moderna África do Sul estava enraizada em uma organização segregada e segmentada do trabalho, contando não apenas com a exploração implacável de uma maioria racializada da classe trabalhadora, mas também se beneficiando substancialmente das divisões de gênero do trabalho dentro dessa força de trabalho. Como a principal jornalista e comunista sul-africana Ruth First escreveu em 1978:</p>
<blockquote><p>É um sistema de mão de obra barata, de mão de obra migrante, que primeiro arrasta os homens para fora das reservas rurais para servir à economia branca, depois os retira dessa economia quando estão velhos e doentes demais para trabalhar; manda-os embora, de volta às reservas quando estão desempregados. Assim, os governantes brancos se absolvem simultaneamente de qualquer responsabilidade pelos idosos, doentes, desempregados e suas famílias; e removem a fonte de revolta da classe trabalhadora.</p>
<p>…</p>
<p>São as mulheres que carregam os fardos mais pesados desse sistema migratório. Elas são deixadas para trás com o fardo da família; e são deixadas para trás como produtoras, para manter a agricultura funcionando. Assim, elas são responsáveis tanto pela família quanto pela produção (First, 2006, p. 300).</p></blockquote>
<p>Esse trabalho consistia não apenas em cuidar de jovens e idosos doentes e desempregados, para garantir que famílias e comunidades sobrevivessem nas “reservas” rurais africanas (conceito retirado das reservas indígenas dos Estados Unidos), mas, posteriormente, também incluía o trabalho reprodutivo doméstico e social que era essencial para manter a classe dominante branca.</p>
<p>Embora as mulheres africanas tenham sido inicialmente excluídas das indústrias florescentes, as duras condições nas reservas rurais – juntamente com o fato de receberem pouca ou nenhuma remessa de seus parentes homens urbanos – acabaram levando-as a procurar trabalho ou meios de subsistência nas cidades. A maioria trabalhava como empregada doméstica, cervejeira, pequena comerciante e lavadeira. A precariedade e os baixos salários caracterizavam esse novo exército de reserva de mão de obra precária, que foi empurrado para as periferias das cidades e fortemente controlado e policiado.</p>
<p>No início da adolescência, Josie se juntou a essa força de trabalho informal, assumindo uma variedade de empregos domésticos precários e de curto prazo, como lavar roupas, limpar casas e cozinhar, além de dois aprendizados de costura. Ela ganhava salários extremamente baixos, em parte devido à sua pouca idade.</p>
<p>Após a Guerra da África do Sul, os britânicos e os bôeres (ou africâneres) firmaram uma aliança para estabelecer a União da África do Sul em 1910 e promulgar um sistema de leis opressivas e processos discriminatórios para consolidar o domínio branco. Famílias, lares, trabalho e terras africanas foram visados de várias maneiras, principalmente por meio do sistema instaurado pela Lei do Passe, que impôs várias restrições à maioria africana e sua capacidade de viver nas cidades, circular livremente e trabalhar. O sistema incluía medidas que criminalizavam as greves para os trabalhadores africanos, proibindo-os de certos tipos de emprego e fornecendo-lhes menos compensações por lesões do que os seus homólogos brancos. Essas políticas buscavam controlar e limitar sua capacidade de trabalhar em áreas urbanas, que tinham o maior potencial de ganho salarial, e limitar sua existência social e, em última instância, política. No entanto, as leis de aprovação também foram usadas para garantir um suprimento barato de mão de obra em cidades designadas quase exclusivamente para a florescente economia branca. Em vários pontos, o sistema de <em>apartheid </em>foi aplicado por meio de policiamento sistemático e do uso de cadernetas de passe, que os africanos tinham que carregar o tempo todo e que continham informações de identificação pessoal, incluindo detalhes biométricos e de emprego. Sob esse regime, os africanos estavam sujeitos à constante vigilância, assédio e ameaça de multa ou prisão.</p>
<p>A resistência popular e organizada para aprovar leis surgiu em todo o país no início da década de 1910, sendo uma das primeiras a histórica campanha liderada por mulheres em 1913 em Bloemfontein. Embora essas lutas tenham conseguido obter concessões em alguns casos, o sistema da Lei de Passes continuou a se expandir. A Lei dos Nativos (Áreas Urbanas), aprovada em 1923, abriu caminho para o reforço do sistema de controle de fluxo que se desenvolveria durante a era do <em>apartheid</em>, que restringiu ainda mais os movimentos e a conduta dos africanos nas áreas metropolitanas. Sob a lei de 1923, os africanos foram definidos como “peregrinos temporários” que só eram permitidos nas cidades na medida em que servissem “às necessidades da população branca”, como afirma a lei.<a href="#_prol_ftn6" name="_prol_ftnref6"><sup>6</sup></a> Embora as leis promulgadas em 1902 e 1913 já tivessem estabelecido as bases para a segregação racial e desapropriação de terras (alocando menos de 10% das terras aráveis para os africanos), a Lei dos Nativos de 1923 deu às autoridades locais maiores poderes para impor controles dentro de seus municípios.<a href="#_prol_ftn7" name="_prol_ftnref7"><sup>7</sup></a>Foi nesse contexto que Josie fez sua estreia política.</p>
<h2 style="margin:3em 0;">Resistência em Potchefstroom</h2>
<p>Potchefstroom foi um reduto político para o projeto de colonização africâner e, mais tarde, para o sistema do <em>apartheid</em>. Ao contrário de Bloemfontein, onde as lutas anti-passe se desenvolveram em um contexto de escassez de mão de obra, as lutas em Potchefstroom aconteceram pelo excesso de mão de obra (Wells, 1994, p. 66). Em uma tentativa de controlar a crescente população africana na área, o governo colonial impôs uma série de restrições, incluindo toque de recolher noturno e taxas de serviços públicos (como a construção de encanamentos de água), muitas das quais afetaram profundamente as mulheres africanas.</p>
<p>Fartas da onda de restrições e do aumento dos custos da sua vida cotidiana, em 28 de setembro de 1927, um grupo organizado de cerca de 200 mulheres africanas marchou contra o fechamento dos poços de água. As mulheres, muitas das quais ganhavam a vida lavando roupas de famílias brancas, marcharam até o magistrado local com uma faixa vermelha, branca e azul com as palavras “Por Misericórdia”, para mostrar seu descontentamento (Edgar, 2020, p. 65).</p>
<p>O Estado promulgou tais medidas para extrair receita das famílias africanas para cobrir <em>déficits </em>financeiros públicos que, de outra forma, teriam de ser pagos pelas famílias brancas (Edgar, 2020, p. 68-69). A oposição mais intensa surgiu em resposta à política de permissão do inquilino, que exigia que qualquer pessoa com mais de 18 anos morando em uma casa de propriedade de outra pessoa se registrasse e pagasse às autoridades municipais uma licença mensal. Isso significava que os próprios filhos e parentes tinham que pagar uma taxa mensal para morar na casa de sua família. Aqueles que não pagaram enfrentaram processos, despejos e expulsões, minando ainda mais a coesão social da família africana já desfeita pelo sistema de trabalho migrante.</p>
<p>Ao lado de outros líderes comunitários e quadros comunistas (incluindo Edwin Thabo Mofutsanyana, que mais tarde se tornou seu marido), Josie liderou protestos importantes contra o município local e moradores brancos em relação às autorizações do inquilino, incluindo uma campanha de resistência passiva que exigia a recusa em pagar a taxa. As mulheres foram particularmente criativas e resilientes durante esse período, usando várias táticas de resistência coletiva, como devolver rapidamente os moradores despejados e seus móveis de volta para suas casas (Wells, 1994, p. 84). Embora os protestos tenham começado espontaneamente, o PCAS forneceu apoio organizacional e legal, bem como direção política ao movimento. Em 1928, o crescente PCSA local tinha cerca de mil membros, com Josie entre as primeiras recrutadas nessa onda (Edgar, 2020, p. 54; Lodge, 2021, p. 222).</p>
<p>Antes de uma reunião massiva de mais de 500 pessoas realizada em 16 de dezembro de 1929, com o objetivo de agitar e recrutar pessoas para lutar contra o regime racista, os panfletos do PCAS declararam:</p>
<blockquote><p>Venham aos milhares! Trabalhadores africanos! Vocês não têm armas ou bombas como seus mestres, mas têm seus números; vocês têm seu trabalho e o poder de organizá-lo e recusá-lo. Estas são suas armas; aprenda a usá-las, colocando assim o tirano de joelhos (Edgar, 2020, p. 82-83).</p></blockquote>
<p>A luta em Potchefstroom atingiu o pico em janeiro de 1930, quando uma greve geral fechou grande parte da cidade. As mulheres africanas lideraram o ataque, organizando piquetes, bloqueando estradas importantes e impedindo outros africanos de irem trabalhar.</p>
<p>Embora essas lutas tenham criado obstáculos para as autoridades locais, que finalmente capitularam e retiraram as taxas de permissão do inquilino em maio de 1931, em maio de 1930 a resistência ativa havia diminuído, a organização do partido quase deixou de existir e Josie foi forçada a deixar a cidade (Wells, 1994, p. 84-85). As autoridades brancas usaram a luta em Potchefstroom como um experimento para melhorar os mecanismos de controle, que encontrariam expressões novas e mais duras nos anos posteriores.</p>
<p><strong> </strong>As lutas comunitárias que se desenrolaram em torno da resistência às autorizações de inquilino em Potchefstroom foram experiências formativas para Josie, tanto em termos de organização de mulheres quanto de introdução ao comunismo. Cultivaram nela um profundo senso de que, para avançar, a luta política tinha que se alicerçar em questões sobre o “ganha pão”, o que mais afetava a maioria. Quando membros do CPSA ou funcionários do Comintern minimizaram a importância dessas lutas, Josie continuou a insistir que o partido precisava apoiá-las para se tornar mais relevante para as massas trabalhadoras (Roth, 1996, p. 122; Edgar, 2020, p. 124-126).</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-75204 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-3.jpg" alt="" width="680" height="680" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-3.jpg 680w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-3-300x300.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-3-150x150.jpg 150w" sizes="auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px"></p>
<div class="single-post--content--caption-block">
<p class="single-post--content--caption-block--text"><i>Umsebenzi</i>, o jornal do Partido Comunista da África do Sul, foi uma das ferramentas do partido para compartilhar seus pontos de vista e trabalho. Josie escreveu para o jornal e defendeu mais contribuições dos trabalhadores negros.</p>
<p class="single-post--content--caption-block--credit">Fotografia de referência fornecida de Corinne Sandwith/Revolutionary Papers através da Historical Papers Library, University of the Witwatersrand.</p>
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<h2 style="margin:3em 0;">Vestindo o lenço vermelho</h2>
<p>Após meses de discussão e debate entre várias organizações de esquerda sobre a possibilidade de formar um partido comunista, o PCAS iniciou sua conferência de fundação em 30 de julho de 1921. Foi o primeiro desse tipo no continente. O objetivo inicial do partido era, conforme declarado em seu manifesto de fundação, “estabelecer o contato mais amplo e próximo possível com trabalhadores de todas <em>as classes e raças </em>e propagar o evangelho comunista entre eles”, inspirando-se e orientando-se no Comintern (Bunting, 1975, p. 26-27). O partido reconheceu a importância de apoiar as lutas africanas, particularmente relacionadas à habitação, desapropriação de terras, controle de fluxo de trabalho e emancipação política (Lodge, 2020, p. 69).</p>
<p>Moses Kotane, que se tornou o segundo secretário-geral africano do partido em 1939, lembrou que, dos primeiros quadros negros, Josie foi uma das primeiras a ingressar no partido (os registros do Comintern indicam que ela foi a integrante número 516, com ingresso em 1928) (Bunting, 1975, p. 53; Mpama, 2003, p. 160). O partido organizou aulas aos sábados à noite sobre ideologia e organização comunista, às quais novos recrutas como Josie passaram a ir depois de se mudarem para Joanesburgo no final de 1931. Mais tarde, ela abriu uma filial em Sophiatown e abriu uma escola noturna de formação ideológica, além de matemática básica e inglês (Edgar, 2020, p. 161). Em meados da década de 1930, Josie havia entrado para a liderança sênior do partido. Ela esteve no Bureau Político em vários momentos e no Comitê Central até pelo menos 1946. Talvez tenha sido a única mulher negra a ocupar tais cargos em qualquer partido político na África do Sul na época (Mpama, 2003, p. 160; Roth, 1996, p. 123).</p>
<p>De um modo geral, faltava ao partido mulheres ativas e líderes. Isso se deveu em grande parte às condições materiais, ou seja, encargos domésticos, divisões raciais, práticas patriarcais, restrições sociais e geográficas e falta de acesso à educação. No que diz respeito à percepção da capacidade das mulheres em realizar efetivamente o trabalho político, as atitudes patriarcais prevaleceram tanto na sociedade quanto no partido, e o trabalho partidário foi às vezes considerado o reflexo de uma cultura de “intelectualismo exclusivo” que marginalizava aqueles sem uma base educacional formal ou política (Klein, 2006, p. 19). No entanto, embora em pequeno número, as mulheres desempenharam um papel importante no PCAS do final da década de 1920 até a década de 1940. Isso permaneceu assim depois que o partido foi banido em 1950 e forçado à clandestinidade, reconstituindo-se como o Partido Comunista Sul-Africano (PCSA). Entre essas mulheres estavam Ray Alexander, Molly Wolton, Hilda Bernstein, Dora Tamana, Fatima Seedat, Cecilia Rosier, Rebecca Bunting, Sonia Bunting, Rica Hodgson, Thoko Mngoma, Winifred Seqwana, Florence Mkhize, Letitia Sibeko, Violet Weinberg e Ruth First.</p>
<p>Para subir na hierarquia do partido, era preciso ter formação e experiência política. Quando surgiu a oportunidade de se formar no exterior, Josie aproveitou a chance, acompanhando Matilda First, mãe da jornalista sul-africana e ícone comunista Ruth First, a Moscou em 1935 para estudar na Universidade Comunista dos Trabalhadores do Oriente (Bunting, 1975, p. 79; Edgar, 2020). Usando os pseudônimos Red Scarf e Beatrice Henderson, Josie participou de várias atividades durante seu tempo na União Soviética, incluindo o Sétimo Congresso Mundial do Comintern.</p>
<p>Enquanto estava em Moscou, ela testemunhou e forneceu relatórios perante uma comissão sobre a África do Sul em relação aos conflitos internos entre grupos opostos dentro do PCAS, que chegaram a tal ponto que muitos consideraram que o partido estava à beira do colapso. O então secretário-geral Moses Kotane levantou a importante crítica de que o partido não era suficientemente “africanizado”, referindo-se ao fato de que uma parte significativa da liderança, encabeçada por Lazarus Bach, conhecia pouco as realidades das massas africanas e estava preocupada com debates europeus, desvinculando os ideais da organização e da atividade partidária.<a href="#_prol_ftn8" name="_prol_ftnref8"><sup>8</sup></a> Embora ela tenha pedido maiores esforços para “africanizar” o partido e reconhecer as divisões raciais existentes, Josie, ao lado de Kotane, se opôs a posições que defendiam dividir a estrutura organizacional do partido racialmente, incluindo a proposta de Edwin de formar alas no partido com base em raça em 1938 (Roth, 1996, p. 122; Edgar, 2020, p. 131 e 155).</p>
<p>Josie teve o cuidado de não tomar partido durante a comissão e priorizou manter o partido unido. Ela não se esquivou, no entanto, de compartilhar suas preocupações, como a falta de iniciativas para organizar os trabalhadores em células nas fábricas, bem como a fraca retenção de membros, a formação insuficiente de quadros africanos para cargos de liderança e a decisão de priorizar a união de todas as raças em uma frente, em detrimento de abordar os problemas únicos enfrentados pelo povo africano (Mpama, 2003, p. 182-185). Josie também apontou para a abordagem do partido em relação à escrita e publicação de artigos, expressando sua frustração com as lideranças por não estimularem os esforços literários dos trabalhadores (Edgar, 2020, p. 149). “Se algo estava errado com o artigo”, ela perguntou, “não poderia ter sido corrigido? (Mpama, 2003, p. 193)”.</p>
<p>Um tema importante nas críticas de Josie relacionava-se com a falta de engajamento do partido com a realidade concreta e de vitalidade política. Ela expressou preocupação com a natureza mecânica das reuniões de liderança, dizendo que “costumávamos apenas discutir o trabalho do grupo e nunca discutíamos questões políticas” (idem, p. 182). Ela argumentou que essa abordagem levou a um problema fundamental: a negligência geral do partido em relação às questões levantadas e que afetam o povo africano. Para Josie, o partido não estava suficientemente enraizado na realidade social do país, concentrando-se nas discussões teóricas marxistas ortodoxas e nos desenvolvimentos políticos europeus (Edgar, 2020, p. 120).</p>
<p>Notavelmente, Josie alertou o partido contra a demissão de lideranças nacionalistas africanas, argumentando que eles constituíam uma “burguesia nativa” e que, dentro da ampla frente de resistência, eles iriam “nos ajudar a nos unir e lutar contra o imperialismo” (Mpama, 2003, p. 195). Ela explicou que “se subestimamos a burguesia como classe, isso significa que ainda não entendemos o poder do capitalismo”, e que “não devemos fugir do fato de que, embora sejam reformistas, eles têm influência sobre as massas” (idem, p. 195; Lodge, 2021, p. 189-190, 216). Em seus primeiros anos, o PCAS explicitamente desencorajou alianças com grupos nacionalistas africanos, apesar da posição do Comintern que defendia o apoio tático aos principais movimentos de libertação nacional e descolonização.<a href="#_prol_ftn9" name="_prol_ftnref9"><sup>9 </sup></a>As conclusões do Comintern da comissão sobre os conflitos internos do partido ecoaram muitas das preocupações de Josie em relação ao fracasso do Partido em construir uma base de massas e alianças táticas, que, segundo eles, surgiram de uma incapacidade em compreender adequadamente o contexto sul-africano. Aqui, os esforços de Josie e outros foram bem-sucedidos: na década de 1940, o PCAS havia aumentado sua cooperação com o Congresso Nacional Africano (CNA), um movimento de libertação nacional que começou como um projeto burguês em 1912, na tentativa de construir uma frente de luta mais ampla e de massas.</p>
<p>Embora o processo de participação nas reuniões do Comintern fosse em si parte da formação política de Josie, seu principal motivo para viajar para a União Soviética foi estudar na Universidade Comunista dos Trabalhadores do Leste. Um dos mandatos da universidade era fornecer educação e formação política marxista-leninista para lideranças anticoloniais e comunistas do Sul Global, com ex-estudantes como Jomo Kenyatta, Ho Chi Minh, Deng Xiaoping e Harry Haywood. Na década de 1930, a universidade oferecia um curso de 14 meses para estudantes internacionais que se concentrava principalmente na teoria, mas também incluía dois meses de trabalho prático (incluindo três dias em uma fazenda coletiva e quinze dias em organização partidária) (McClellan, 1993, p. 375). Os assuntos incluíam economia política, história, leninismo, materialismo histórico, construção de partidos, ciência militar, política contemporânea e educação em língua inglesa (ibidem).</p>
<p>Embora os estudos de Josie tenham sido interrompidos por vários surtos de problemas de saúde e hospitalização, essa experiência internacional teve um impacto profundo sobre ela, aprofundando sua perspectiva internacionalista e consciência de classe e solidificando ainda mais sua crença na centralidade da organização para o avanço da luta. Durante o Sétimo Congresso do Comintern, ao discutir as mobilizações dos estivadores negros na Cidade do Cabo, que se recusavam a carregar ou tripular carregamentos italianos durante a invasão da Itália na Abissínia (Etiópia), em 1935-1936, Josie destacou a importância do internacionalismo da classe trabalhadora: “embora tenham ocorrido protestos, não fizemos o suficiente. Se todos os africanos estivessem organizados como os estivadores, nenhum barco teria sido carregado com suprimentos para as tropas italianas (…) Os trabalhadores africanos devem ajudar os trabalhadores da Europa a lutar por sua liberdade. A paz só é possível pela ação dos trabalhadores” (Mpama, 2003, p. 215-216). No mesmo discurso, ela também falou sobre a “necessidade de organização”, argumentando que a “composição do PCAS é ruim”, pois não tinha africâneres e muito poucos africanos, argumentando que seu mandato central deveria ser criar uma organização que “vai atrair todos os pobres e se tornar um poderoso partido de massas” (ibidem).</p>
<p>Ao retornar à África do Sul no final de 1936, Josie concentrou-se na construção do caráter de massas do Partido, alimentada pela urgência de construir uma oposição ampla e organizada ao crescente sistema de <em>apartheid</em>. Ela era membro do comitê de coordenação do PCAS, que foi formado em 1937 para trabalhar na “questão da organização em escala nacional” (Bunting, 1975, p. 87). Essa mudança para a organização de um movimento de massas em todo o país marcou uma nova fase para o PCAS, o movimento trabalhista e a luta de libertação como um todo. Isso foi em parte favorecido pelas consequências políticas e econômicas da Segunda Guerra Mundial, como o afluxo de africanos para as áreas urbanas, resultante das exigências de mão de obra por conta do aumento da industrialização em um contexto de duras condições econômicas (inflação, escassez de alimentos, superlotação, etc).</p>
<p>Para Josie, a prioridade era clara: como ela disse em um debate partidário, “os camaradas devem estar entre as massas” (Edgar, 2020, p. 156). Em uma reunião da Frente de Unidade Não-Europeia, em 1939, ela encorajou as pessoas ali presentes a “ir para as fábricas, ir para o campo, e onde quer que os não-europeus estejam trabalhando para o benefício dos empregadores, diga-lhes que eles têm um direito a uma parte e que temos direito a uma parte dos lucros da riqueza da África do Sul” (idem, p. 164).</p>
<p>O PCAS tornou-se uma força de liderança nesse momento e depois da guerra. Um papel fundamental que desempenhou foi entre os grupos políticos que se reuniram para a Conferência Contra o Passe em novembro de 1943, na qual concordaram em buscar todos os meios possíveis para aumentar a pressão pela abolição dos passes, inclusive trabalhando mais de perto com grupos menos alinhados ideologicamente, mas com interesses comuns que se sobrepõem. Josie estava à frente dos esforços de várias mulheres nessa luta, incluindo a organização de uma conferência sobre leis de passe em março de 1944, antes do lançamento de uma campanha oficial em maio (Lodge, 2021, p. 242 e 245). Esses esforços estabeleceriam as bases para campanhas posteriores para combater o sistema de <em>apartheid, </em>depois que ele foi formalmente inaugurado com a eleição do Partido Nacional em 1948.</p>
<p>Ao longo da década de 1940, o PCAS construiu uma ampla frente contra a dominação colonial, formando novas alianças táticas e campanhas nacionais, como o movimento contra o passe. Como descreve o autor Tom Lodge, isso resultou na “ampliação do apoio público à organização, [maior] militância das atividades comunistas, e no desenvolvimento de percepção e entendimento mútuos entre o Partido e o Congresso Nacional Africano” (idem, p. 280–283). Josie costumava ser encontrada ao lado de uma ampla gama de lideranças políticas em reuniões do CNA e outros grupos que organizavam encontros multirraciais, defendendo o não-racialismo e a participação de mulheres negras, além de oferecer perspectivas de resistência enraizadas em uma análise de classe.<a href="#_prol_ftn10" name="_prol_ftnref10"><sup>10</sup></a></p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-75194 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-2.jpg" alt="" width="680" height="680" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-2.jpg 680w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-2-300x300.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-2-150x150.jpg 150w" sizes="auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px"></p>
<div class="single-post--content--caption-block">
<p class="single-post--content--caption-block--text">Muitos líderes anticoloniais, incluindo Josie, receberam formação política na Universidade Comunista dos Trabalhadores do Leste em Moscou. Seu prédio principal (à esquerda), não mais existente, localizava-se em frente à Praça Pushkin.</p>
<p class="single-post--content--caption-block--credit">Fotografia de referência de I. N. Pano, proveniente de Rossen Djagalov.</p>
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<h2 style="margin:3em 0;">Abram caminho às mulheres que lideram</h2>
<p>À medida que o PCAS enfrentava o desafio de se organizar em um movimento nacional de massas, deparava-se com a necessidade de dar mais atenção aos problemas únicos enfrentados pelas mulheres e fazer um esforço mais concentrado para organizá-las. Embora o partido tivesse certas posições progressistas, a questão da libertação das mulheres existia “mais no espírito do que de fato”, nas palavras da historiadora Mia Roth (1996, p. 128). Por que organizar mulheres era necessário para o sucesso geral do partido?</p>
<p>Na década de 1930, o trabalho organizado e o PCAS começaram a voltar sua atenção para as mulheres trabalhadoras e seu papel nas indústrias de manufatura e processamento. No entanto, as mulheres africanas estavam principalmente restritas ao serviço doméstico e constituíam uma pequena fração da força de trabalho formal (menos de 1%, de acordo com os dados disponíveis na década de 1950) (Schmidt, 1992). Aqui, Josie desempenharia um papel indispensável, construindo conexões entre o partido, outros grupos políticos, o movimento trabalhista e as mulheres. Desde sua estreia política em lutas comunitárias lideradas por mulheres, Josie sempre defendeu os direitos das mulheres, com foco particular nas lutas das africanas. Como disse um historiador, “através dela, o PCAS foi capaz de disseminar ideias mais radicais sobre o papel que as mulheres deveriam desempenhar na política de oposição negra, entre as mulheres negras” (Walker, 1978. p. 83-84).</p>
<p>Para Josie, a participação das mulheres era uma necessidade estratégica para a classe trabalhadora conseguir derrubar o domínio colonial racista. Como resultado, ela defendeu ferozmente a participação política das mulheres em uma época em que poucas delas participavam de um discurso público tão radical. Nesse sentido, ela fez o seguinte apelo no jornal do partido contra o Projeto de Emenda às Leis dos Nativos de 1937, que limitaria ainda mais o tamanho das populações africanas em áreas urbanas de acordo com o número mínimo de trabalhadores necessários, além de outras restrições:</p>
<blockquote><p>Nós, mulheres, devemos entrar em campo como lutadoras, pois somente com a nossa ajuda nossos homens podem lutar com sucesso contra esse novo projeto de lei. Somente pela luta conjunta podemos obrigar [a retirada] dessa nova lei escravagista.</p>
<p>Mulheres, não podemos mais ficar em segundo plano ou nos preocupar apenas com assuntos domésticos e esportivos. Chegou a hora de entrar no campo político e ficar lado a lado com os homens na luta (Mpama, 2003, p. 248).</p></blockquote>
<p>Ao mesmo tempo, ela não se absteve de apontar e criticar como as relações patriarcais foram infundidas não só na sociedade, mas também dentro do partido, limitando a participação política das mulheres:</p>
<blockquote><p>Entre todos os nossos líderes, é muito raro alguém ver suas esposas ou amigas acompanhando-os às reuniões, e em todas as suas lutas apenas algumas mulheres participam ativamente, exceto em locais em que tais lutas por taxas de inquilino são travadas, então algumas que não podem pagar tais taxas, e porque isso afeta a família como um todo [quando] eles descobrem que não há outra saída senão unir-se aos outros e assistir às reuniões. Então, assim que descobrem que ganharam ou perderam, voltam para casa e se voltam para suas esferas domésticas (Edgar, 2020, p. 245-246).</p></blockquote>
<p>Junto com o combate às influências patriarcais, Josie também lutou para encorajar as mulheres a participar de lutas que pareciam distantes de suas realidades imediatas. No caso de uma proposta para dar aos homens africanos direitos limitados de voto e representação, ela refletiu que “muito poucas mulheres participaram da luta contra os Native Bills, provavelmente porque não tendo o voto, elas não achavam importante ajudar seus homens para manter o voto” (Mpama apud Edgar, 2020, p. 249).</p>
<p>Embora as mulheres africanas tenham resistido ao controle colonial de seu trabalho, terras e vida cotidiana ao longo do início do século 20 (e bem antes), suas primeiras atividades de organização na África do Sul reforçaram os papéis de gênero conservadores, exigindo voz e voto enquanto mães, donas de casa etc., ou se limitaram a funções de apoio na luta contra o racismo. Em certas estruturas limitadas, as mulheres alavancaram consciente e taticamente conceitos como a maternidade, que eram muito valorizados, para promover sua emancipação de forma mais ampla, usando-os intencionalmente para manobrar dentro de espaços políticos limitados e atrair mulheres que não eram politicamente ativas (apesar de os tons essencialistas que tais conceitos retiveram).</p>
<p>Após a emancipação política das mulheres brancas em 1930 e o consequente aumento da participação das mulheres na atividade política, em 1931 o PCAS criou um departamento de mulheres que Josie lideraria. Inicialmente, predominavam as visões conservadoras, com as mulheres sendo vistas apenas como partidárias dos homens na luta. No entanto, isso começou a mudar à medida que o partido deu maior ênfase à possibilidade de as mulheres trabalharem lado a lado com seus colegas masculinos, encorajou concepções mais radicais de papéis de gênero e forneceu maior flexibilidade para as mulheres se organizarem em seus próprios termos.</p>
<p>Embora elas permanecessem uma minoria na filiação e liderança do partido, como observa o historiador CJ Walker, “na área da emancipação das mulheres, o PCAS trouxe novas perspectivas para o incipiente movimento de libertação nacional da época” (1978, p. 76). A evolução progressiva da abordagem do PCAS em relação à questão de gênero surgiu de seu entendimento de que a principal contradição na sociedade era aquela entre os donos de propriedade e capital e aqueles que vendiam e dependiam de seu trabalho para sobreviver. Como resultado, embora suas palavras muitas vezes falassem mais alto que seus atos, essa análise, bem como sua defesa do não-racialismo, posicionou o partido para entender melhor os problemas enfrentados pelas mulheres trabalhadoras em comparação com outras organizações da época. Por exemplo, em comunicado divulgado em fevereiro de 1932, o partido declarou:</p>
<blockquote><p>Trabalhadoras nativas, trabalhadoras brancas, realizem seus interesses, acordem para lutar por melhores condições lado a lado com seus maridos, pais e irmãos: somente por uma frente unida vocês poderão se livrar de toda a exploração que vocês sofrem sob o capitalismo no qual vocês como mulheres são as maiores sofredoras (idem, p. 90).</p></blockquote>
<p>No início dos anos 1930, o partido planejou realizar uma conferência nacional de mulheres trabalhadoras, que visava “unificar e consolidar a luta seccional das mulheres (…) e trazer à existência uma organização permanente de luta pelas mulheres trabalhadoras da África do Sul”. Apesar dessa conferência não ter se concretizado devido à agitação política dentro do partido, entre 1935-1937, Josie, junto com outros membros do partido, como Ray Alexander, continuou a convocar a organização e a atividade de mulheres militantes (idem, p. 85). Como Josie afirmou ao criticar uma organização conservadora de bem-estar social de mulheres por não conseguir organizar com sucesso campanhas em torno de questões que as afetavam: “eles devem abrir caminho [para] mulheres que liderarão e farão um movimento para realizar o trabalho” (Mpama apud Edgar, 2020, p. 252).</p>
<p>À medida que a campanha contra a Lei do Passe começou a crescer no final da década de 1940, aumentou a necessidade de uma organização feminina de base mais ampla. Em 1947, as mulheres do PCAS reuniram-se em Joanesburgo para estabelecer uma organização feminina não racial, a Transvaal All-Women’s Union, elegendo Josie como sua presidenta. Apesar de pequeno e localizado, foi de certa forma o protótipo de uma organização nacional de mulheres mais ampla que se formou nos anos posteriores (Sturman, 1996, p. 65-66). Pouco tempo depois, o sistema legal repressivo ganhou força com a aprovação da Lei de Supressão do Comunismo de 1950, que efetivamente baniu o PCAS, e uma proposta renovada para emitir cadernetas para mulheres africanas, entre muitas outras medidas, foi mais uma vez colocada na mesa.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-75216 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-4.jpg" alt="" width="680" height="680" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-4.jpg 680w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-4-300x300.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-4-150x150.jpg 150w" sizes="auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px"></p>
<div class="single-post--content--caption-block">
<p class="single-post--content--caption-block--text">Policiais verificam cadernetas de passes, que os negros eram obrigados a carregar sob o sistema do apartheid para restringir e controlar sua mobilidade socioeconômica e política.</p>
<p class="single-post--content--caption-block--credit">Fotografia de referência proveniente de South African History Online, fotógrafo desconhecido.</p>
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<h2 style="margin:3em 0;">Mulheres em marcha</h2>
<p>A crescente repressão do Estado de <em>apartheid </em>apenas estimulou o movimento das mulheres a aprofundar seus esforços de organização. Em 1954, 146 delegadas representando cerca de 230 mil mulheres em todo o país de uma variedade de origens políticas reuniram-se em Joanesburgo para a conferência de fundação da Federação das Mulheres Sul-Africanas (FEDSAW, na sigla em inglês). Na conferência, os delegados prometeram seu apoio à emergente Aliança do Congresso, uma coalizão multirracial que foi formalmente estabelecida no ano seguinte e lançaria uma campanha nacional <em>antiapartheid </em>que gerou a maior participação em massa já vista. Josie participou da conferência em nome do Transvaal All-Women’s Union e tornou-se presidente da filial do Transvaal da FEDSAW.</p>
<p>Apesar da historiografia pública propagada pelo CNA, após o fim formal do <em>apartheid </em>em 1994, tenha retratado a federação como sendo liderada quase exclusivamente por mulheres liberais afiliadas ao CNA, é importante notar que o FEDSAW foi, de fato, ideia da integrante do PCAS, Ray Alexander, e teve uma participação considerável de mulheres trabalhadoras de esquerda, de sindicalistas como Francis Baard a comunistas como Josie. Mesmo que apresentasse amplas demandas e objetivos liberais, como o direito de voto, seu documento fundador, a Carta das Mulheres, também incluía uma série de elementos mais radicais que provavelmente foram adicionados devido à participação e esforços de mulheres de esquerda. Essas incluíam provisões que exigiam “pagamento igual e possibilidades de promoção em todas as esferas de trabalho”, “direitos iguais aos dos homens em relação à propriedade, casamento e filhos” e “a organização das mulheres em sindicatos” (FEDSAW, 1954). Enquanto a carta delineava as particularidades dos fardos reprodutivos sociais das mulheres e pedia que elas se auto-organizassem para alcançar direitos políticos e condições econômicas equitativas, também pedia que as mulheres lutassem ao lado dos homens em “uma luta comum contra a pobreza,  discriminação de raça e classe, e os males do colorismo”. A Carta das Mulheres acabaria por se tornar a base para certos direitos constitucionais na África do Sul <em>pós-apartheid</em>.</p>
<p>Mesmo que a FEDSAW trabalhasse dentro da Aliança do Congresso, a Federação também tinha um mandato independente. No ano seguinte à sua criação, a FEDSAW e suas filiais organizaram mulheres em torno de questões de gênero, bem como campanhas mais amplas da Aliança do Congresso. Josie podia ser ouvida falando em eventos como a comemoração do Dia Internacional da Mulher em Joanesburgo em março de 1955, interpelando mulheres de várias origens sobre a situação das africanas.</p>
<p>O primeiro protesto nacional em grande escala da FEDSAW ocorreu em 27 de outubro de 1955, quando duas mil mulheres de todas as raças marcharam contra as Leis do Passe e o sistema de <em>apartheid</em>. No entanto, um mês antes da marcha, Josie recebeu ordens de restrição, o que tornou crime para ela participar de reuniões políticas públicas e participar de várias organizações políticas, incluindo a FEDSAW. Aos 52 anos, essas medidas repressivas obrigaram Josie a retirar-se publicamente das manifestações e dos principais órgãos de luta. Em sua última comunicação oficial do FEDSAW, Josie declarou a seus companheiros e companheiras:</p>
<blockquote><p>Nunca as mentes dos seres humanos foram controladas. Nunca os olhos dos seres humanos foram fechados… Portanto, é natural que toda alma viva finalmente veja e siga o caminho para a LIBERDADE.</p>
<p>Josie ou não Josie, a luta continuará e o nosso será o dia da vitória (Mpama, 1995).</p></blockquote>
<p>Um ano depois, em 9 de agosto de 1956, após décadas de trabalho, 20 mil mulheres desceram ao Union Buildings em Pretória, a sede oficial do governo colonial, carregando consigo pacotes de petições assinadas exigindo a abolição de todos as Leis do Passe do <em>apartheid</em>. A marcha, mostrando o sucesso dos esforços para organizar em massa as mulheres de todas as raças em um período de tempo relativamente curto, inaugurou uma nova fase que transbordava de esperança. A Aliança do Congresso decidiria mais tarde que 9 de agosto seria comemorado como o Dia da Mulher na África do Sul. Hoje, o aniversário da histórica e multirracial Marcha das Mulheres para Pretória é um feriado oficial no país.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-75324 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-5-1.jpg" alt="" width="680" height="680" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-5-1.jpg 680w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-5-1-300x300.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-5-1-150x150.jpg 150w" sizes="auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px"></p>
<div class="single-post--content--caption-block">
<p class="single-post--content--caption-block--text">A Federação de Mulheres Sul-Africanas realizou sua conferência inaugural em 17 de abril de 1954 no Trades Hall em Joanesburgo, onde Josie presidiu a sessão “Women’s Struggle for Peace”.</p>
<p class="single-post--content--caption-block--credit">Fotografia de referência de Eli Weinberg, proveniente do Arquivo de Pesquisa de Artigos Históricos, Universidade de Witwatersrand, por meio do Arquivo da Universidade de Western Cape Mayibuye.</p>
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</div>
<h2 style="margin:3em 0;">Sempre colocando as pessoas pra cima</h2>
<p>A partir do final da década de 1940, Josie tornou-se mais ativa na Igreja Anglicana e em grupos religiosos femininos, como a Sociedade Feminina da Igreja Mzimhlophe e o Comitê da Igreja Ekurhuleni, os quais desempenharam um papel importante na obtenção de bolsas para crianças, cestas básicas para famílias pobres e outras formas de assistência (Zwane, 2012, p 81-82). Vários fatores levaram Josie a fazer essa mudança, incluindo o desejo de se reconectar com sua família e comunidade após décadas priorizando o trabalho político, bem como o desejo de melhorar sua saúde física e bem-estar espiritual. Talvez o mais importante, para muitas mulheres que, como Josie, estiveram ligadas ao FEDSAW e foram banidas da vida política pública, os grupos religiosos de mulheres serviram como refúgio e forma alternativa de organização social dentro de um clima político hostil moldado pela repressão da atividade política <em>antiapartheid </em>(Zwane, 2012, p. 215).</p>
<p>Josie não via contradição entre o comunismo e o cristianismo (Davidson et al. 2003, p. xxvii). Em vez disso, como observa Edgar, ela via ambos como “expressões de seu compromisso com a justiça social” (Edgar, 2020, p. 214). Muito parecido com as tradições da teologia da libertação que se enraizaram em várias lutas de libertação nacional em todo o mundo, o envolvimento de Josie em comunidades religiosas de base nas últimas décadas de sua vida pode ser melhor compreendido como sendo incorporado em uma compreensão libertadora semelhante de teologia e reconhecimento das funções sociais que a religião pode cumprir.<a href="#_prol_ftn11" name="_prol_ftnref11"><sup>11</sup></a></p>
<p>Apesar de seu afastamento da vida política pública, Josie continuou sendo alvo do Estado. Ela foi detida e presa por várias semanas durante o Estado de emergência declarado após o Massacre de Sharpeville em 1960 (a morte de 69 pessoas pela polícia durante um protesto público contra as leis de passe) e permaneceu no radar da polícia do <em>apartheid </em>nos anos que se seguiram (idem, p. 211-213). Isso não a impediu de, em suas próprias palavras, continuar a “colocar o povo para cima” (idem, p. 240). Ela apoiou seus netos quando eles atingiram a maioridade nas lutas políticas do final dos anos 1970, particularmente durante as revoltas estudantis de 1976, e continuou a encorajar as mulheres a “se levantarem e se mexerem” (ibidem).</p>
<p>Após sua morte em 1979, Josie foi sepultada no Cemitério Avalon em Soweto ao lado de muitos conhecidos e desconhecidos baluartes da luta.</p>
<h2 style="margin:3em 0;">Josie ou não Josie, a luta continuará</h2>
<p>De altos índices de violência a desemprego crônico, baixos salários e trabalho precário, os africanos, e as mulheres africanas em particular, vivem em um estado de profunda crise aninhada em um contexto social mais amplo de crise do capitalismo. Na África do Sul moderna, o feminismo é rotineiramente entendido como uma profissão, um modo de trabalho acadêmico e de ONGs, e não um projeto político popular. As feministas de base são sistematicamente ignoradas e prejudicadas pelo discurso da elite. Hoje, não há nenhum movimento feminista nacional popular organizado que esteja promovendo o legado de Josie.</p>
<p>O estrangulamento do feminismo de elite só pode ser desafiado e desfeito com o desenvolvimento de um feminismo genuinamente popular, um feminismo que entenda a agência e a organização política anticapitalista como essenciais para transformar nossa realidade social. Como disse Josie, “somente quando [os oprimidos] são politicamente avançados é que eles podem avançar educacionalmente, socialmente, economicamente e comercialmente” (Mpama, 2003, p. 247-48). Ao contrário de muitas mulheres de seu tempo, para Josie, ser membro e liderança de uma organização comunista desempenhou um papel importante para possibilitar esse avanço político.</p>
<p>Ao longo de sua vida, Josie nunca vacilou em seu compromisso de mudar a realidade social da maioria. Em uma carta ao ministro da justiça do governo do <em>apartheid</em>, protestando contra o banimento de Josie da vida política pública, a ativista da Congress Alliance e secretária nacional da FEDSAW, Helen Joseph, a descreveu como alguém que “sempre trabalhou para o bem do povo como um todo” (Joseph, 1955). Para o bem do povo como um todo: esse é o legado de Josie Mpama.</p>
<hr class="single-post--content--separator-section single-post--content--separator-section-end">
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-75236 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-6.jpg" alt="" width="680" height="680" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-6.jpg 680w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-6-300x300.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Josie-6-150x150.jpg 150w" sizes="auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px"></p>
<div class="single-post--content--caption-block">
<p class="single-post--content--caption-block--text">Esta fotografia de membros do Comitê Distrital de Joanesburgo do CPSA em 1945 é uma das únicas imagens disponíveis em domínio público que captura Josie engajada no trabalho partidário.</p>
<p class="single-post--content--caption-block--credit">Fotografia de referência proveniente de South African History Online, fotógrafo desconhecido.</p>
</div>
</div>
<h3 class="single-post--content--citations-title" style="margin:2em 0;">Notas</h3>
<div class="footnotes">
<div class="single-post--content--citations-block">
<p><a href="#_prol_ftnref1" name="_prol_ftn1"><sup>1</sup></a> Os governos coloniais e de <em>apartheid </em>na África do Sul desenvolveram um sistema de classificação racial que separou os africanos dos colonos europeus e designou indivíduos miscigenados como uma terceira categoria separada, identificada como “de cor”. Hoje, a designação continua a ser usada e passou a ser associada aos africanos na África do Sul que têm ascendência racial “miscigenada” ou são descendentes de escravos trazidos para a Colônia do Cabo de várias partes do mundo. Porém, é importante lembrar que o termo foi uma imposição colonial que servia para separar famílias e comunidades. Também apagou as identidades únicas e diversas dos grupos indígenas ao categorizar aqueles que não pertenciam aos clãs étnicos de língua bantu como “de cor” como um método da elite dominante para dividir e conquistar a população africana. Para uma leitura mais aprofundada sobre este tópico, consulte “The Lie of 1652: Race and Class in South Africa, Interview with Patric Mellet”, <em>Amandla!</em>, n. 73/74, dez. 2020. Disponível em: <a class="footnote-link" href="https://aidc.org.za/the-lie-of-1652-race-and-class-in-south-africa-interview-with-patric-mellet/">https://aidc.org.za/the-lie-of-1652-race-and-class-in-south-africa-interview-with-patric-mellet/</a>.</p>
<p><a href="#_prol_ftnref2" name="_prol_ftn2"><sup>2</sup></a> Na África do Sul, o termo “africano” refere-se a pessoas que descendem de grupos que migraram da África Ocidental e Central entre 2.000 a.C. e 1.500 d.C. Eles foram classificados pela primeira vez pelos colonos brancos como “nativos” e “bantos” sob o colonialismo e “africanos” sob o <em>apartheid</em>. O termo “negro” refere-se a todos os que não são classificados como “brancos” sob o <em>apartheid</em>, incluindo pessoas classificadas como “indianas” e “de cor”.</p>
<p><a href="#_prol_ftnref3" name="_prol_ftn3"><sup>3</sup></a> A Ajuda Vermelha Internacional, também conhecida por sua sigla russa MOPR, foi fundada pelo Comintern em 1922 “para organizar assistência material e moral aos combatentes de vanguarda pela causa do comunismo que estão presos na prisão, forçados ao exílio ou por qualquer motivo excluídos contra sua vontade de nossas fileiras de combate”. Ver John Riddell, “International Red Aid 1922–1937: Uniting to Defend Class War Prisoners”, <em>Monthly Review Online</em>, 5 ago. 2021, <a class="footnote-link" href="//mronline.org/2021/08/05/international-red-aid-1922-1937-uniting-to-defend-class-war-prisoners/%22">https://mronline.org/2021/08/05/international-red-aid-1922-1937-uniting-to-defend-class-war- prisioneiros/</a>; Roth, ‘Josie Mpama’, 122; Hakim Adi, <em>Pan-africanismo e comunismo: The Communist International, Africa, and the Diaspora, 1919–1939</em> (Africa World Press, 2013), 386.</p>
<p><a href="#_prol_ftnref4" name="_prol_ftn4"><sup>4</sup></a> Para saber mais sobre intelectuais orgânicos, ver Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, <em>O novo intelectual</em>, dossiê n. 12, 11 fev. 2019. Disponível em: <a class="footnote-link" href="//thetricontinental.org/the-new-intellectual/%22">https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/o-novo-intelectual/</a>.</p>
<p><a href="#_prol_ftnref5" name="_prol_ftn5"><sup>5</sup></a> Para ler mais sobre esse tópico, ver Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, <em>Amanhecer: Marxismo e Libertação Nacional</em>, dossiê n. 37, 8 fev. 2021. Disponível em: <a class="footnote-link" href="//thetricontinental.org/dossier-37-marxism-and-national-liberation/%22">https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossier-37-marxismo-e-libertacao-nacional/</a>.</p>
<p><a href="#_prol_ftnref6" name="_prol_ftn6"><sup>6</sup></a> Ver (em inglês): a Lei de Nativos (Áreas Urbanas), Lei n. 21 de 1923. Disponível em: <a class="footnote-link" href="//disa.ukzn.ac.za/leg19230614028020021%22">https://disa.ukzn.ac.za/leg19230614028020021</a>.</p>
<p><a href="#_prol_ftnref7" name="_prol_ftn7"><sup>7</sup></a> Ver (em inglês): Centenário da Lei da Terra dos Nativos de 1913. Disponível em:<a class="footnote-link" href="//www.gov.za/1913-natives-land-act-centenary%22">https://www.gov.za/1913-natives-land-act-centenary</a>.</p>
<p><a href="#_prol_ftnref8" name="_prol_ftn8"><sup>8</sup></a> Na mesma época, Josie assinou uma carta escrita por doze membros do partido que foi enviada ao Bureau Político, criticando uma pequena “camarilha” por promover políticas incorretas que isolavam o partido das massas e por tentar remover Kotane de sua posição. Ver Bunting, <em>Moses Kotane</em>; Lodge, <em>Red Road</em>, p. 317.</p>
<p><a href="#_prol_ftnref9" name="_prol_ftn9"><sup>9</sup></a> Durante o Segundo Congresso do Comintern, o líder soviético Vladimir Lênin apresentou uma tese sobre a questão nacional e colonial, descrevendo como, naquele momento específico, “a Internacional comunista deve entrar em uma aliança temporária com a democracia burguesa no colonial e atrasados, mas não devem fundir-se com ele, e devem em todas as circunstâncias defender a independência do movimento proletário”. Ver V. Lenin, “Draft Theses on the National and Colonial Questions”, 2 jun. 1920, Second Congress of the Communist International, <a class="footnote-link" href="//www.marxists.org/archive/lenin/works/1920/jun/05.htm%22">https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1920/jun/05.htm</a>; Lodge, <em>Red Road</em>, p. 69.</p>
<p><a href="#_prol_ftnref10" name="_prol_ftn10"><sup>10</sup></a> O não-racialismo é uma ideologia proeminente e uma tradição política na África do Sul que nasceu da oposição ao sistema racializado do apartheid. O termo é consagrado como um valor fundador no capítulo um da Constituição da África do Sul, embora seu significado preciso seja contestado por diferentes forças políticas. O PCAS era uma organização líder de política não racial, enquanto, por exemplo, o CNA reservou sua filiação exclusivamente para africanos até 1969. Ver Imraan Buccus, “The Dangerous-Collapse of Non-Racialism”, <em>New Frame</em>, 30 jul. 2021. Disponível em: https://www.newframe.com/the-dangerous-collapse-of-non-racialism/.</p>
<p><a href="#_prol_ftnref11" name="_prol_ftn11"><sup>11</sup></a> Para saber mais sobre a relação entre religião e política, ver Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, dossiê n. 59, <em>Fundamentalismo religioso e imperialismo na América Latina: ação e resistência</em>, 19 de dezembro de 2022, <a class="footnote-link" href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-59-fundamentalismo-religioso-e-imperialismo-latinoamerica/">https://dev.thetricontinental.org/dossier-59-religious-fundamentalism-and-imperialism-in-latin-america/</a>.</p>
</div>
</div>
<h3 class="single-post--content--citations-title" style="margin:2em 0;">Referências bibliográficas</h3>
<div class="footnotes">
<div class="single-post--content--citations-block">
<p>Bunting, Brian. <em>Moses Kotane: South African Revolutionary</em>. Western Cape: Mayibuye Books, 1975.</p>
<p>Edgar, Robert R. <em>Josie Mpama/Palmer: Get Up and Get Moving</em>. Athens: Ohio University Press, 2020.</p>
<p>Federation of South African Women, Women’s Charter, Johannesburg, 17 abr. 1954.</p>
<p>First, Ruth. “Appendix:Transcription of Ruth First’s Speech on South African Women’s Day”, 9 ago. 1978′, In: Klein, D. R. Negotiating Femininity, Ethnicity, and History: Representations of Ruth First in South African Struggle Narratives. Dissertação de PhD, University of Cape Town, 2006.</p>
<p>Joseph, Helen. Helen Joseph to Josie Mpama, 19 nov. 1955, Historical Papers Research Archive at the University of Witwatersrand, collection n. AD1137. Disponível em:</p>
<p>Lodge, Tom. Red Road to Freedom: A History of the South African Communist Party, 1921–2021. Johannesburg: Jacana Media, 2021.</p>
<p>McClellan, Woodford. “Africans and Black Americans in the Comintern Schools, 1925–1934”, The International Journal of African Historical Studies 26, n. 2, 1993.</p>
<p>Mpama, Josie. “Autobiography of J. Mpama”. In: Davidson et al. (eds.) <em>South Africa and the Communist International: A Documentary History</em>. Vol. 2 Bolshevik Footsoldiers to Victims of Bolshevisation 1931–1939. London: Frank Cass, 2003.</p>
<p>Mpama, Josie to the Federation of South African Women, 26 out. 1955, Federation of South African Women 1954–1963, Historical Papers Research Archive at the University of Witwatersrand, collection n. AD1137. Disponível em:</p>
<p>Roth, Mia. “Josie Mpama: The Contribution of a Largely Forgotten Figure in the South African Liberation Struggle”, Kleio 28, n. 1, 1996.</p>
<p>Schmidt, Elizabeth S. “Now You Have Touched the Women: African Women’s Resistance to the Pass Laws in South Africa, 1950–1960”. In: Redd, E. S (ed.). <em>The Struggle for Liberation in South Africa and International Solidarity: A Selection of Papers Published by the United Nations Centre Against Apartheid</em>, New Delhi: Sterling Publishers, 1992.</p>
<p>Sturman, Kathryn. <em>The Federation of South African Women and the Black Sash: Constraining and Contestatory Discourses About Women in Politics, 1954–1958. </em>Tese de doutorado<em>, </em>University of Cape Town, 1996.</p>
<p>Walker, C. J. <em>Women in Twentieth Century South African Politics: The Federation of South African Women, Its Roots, Growth and Decline</em>. Dissertação de mestrado, University of Cape Town, 1978.</p>
<p>Wells,  Julia C. We Now Demand!: The History of Women’s Resistance to Pass Laws in South Africa. Johannesburg: Witwatersrand University Press, 1994.</p>
<p>Zwane, Miriam Jeanette. <em>The Federation of South African Women and Aspects of Urban Women’s Resistance to the Policies of Racial Segregation, 1950-1970. </em>Dissertação de mestrado, University of Johannesburg, 2012.</p>
</div>
</div>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Crisálidas: Memórias feministas da América Latina e do Caribe</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/estudos-feminismos-4-crisalidas-memorias-feministas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[ariana]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 08 Mar 2023 08:00:46 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Feminismos]]></category>
		<category><![CDATA[Plataforma Nacional de Trabalhadoras Rurais]]></category>
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					<description><![CDATA[Este estudo discute a vida e as lutas políticas de Josie Mpama, uma líder na resistência contra a opressão colonial e o sistema de apartheid na África do Sul.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-73427 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/02/WF-crisalidas01.jpg" alt="" width="950" height="713"></p>
<p> </p>
<table style="border-collapse: collapse; border-spacing: 0; border: none; width: 100%;">
<tbody>
<tr>
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</tr>
</tbody>
</table>
<p> </p>
<nav class="p73361-toc">
<h5 class="p73361-font-active">Neste número:</h5>
<ol>
<li><a href="#section-1"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-73361 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/02/01-Arlen-icono.png" alt="" width="250" height="250" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/02/01-Arlen-icono.png 250w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/02/01-Arlen-icono-150x150.png 150w" sizes="auto, (max-width: 250px) 100vw, 250px"></a></li>
<li><a href="#section-2"><img loading="lazy" decoding="async" class="p-image-73371 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/02/03-Nina-icono.png" alt="" width="250" height="250"></a></li>
<li><a href="#section-3"><img loading="lazy" decoding="async" class="wp-image-73341 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/02/02-Bartolina-icono.png" alt="" width="250" height="250" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/02/02-Bartolina-icono.png 250w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/02/02-Bartolina-icono-150x150.png 150w" sizes="auto, (max-width: 250px) 100vw, 250px"></a></li>
</ol>
</nav>
<p> </p>
<p> </p>
<h2 class="p73361-title" style="margin:3em 0;">Apresentação</h2>
<p>Iniciar um processo retrospectivo de histórias, lutas e resistências na América Latina e no Caribe implica não apenas uma enorme diversidade de setores, geografias, climas, sabores e sons, mas também todo um universo de mulheres, homens e dissidentes que caminharam, passo a passo, a história que nos deu origem e à qual procuramos homenagear nesta publicação.</p>
<p>Nesse mar de lutas continentais, nos propusemos a rebobinar a fita cassete e nos colocarmos naqueles momentos da história de <em>Nuestra América</em> em que as mulheres protagonistas estiveram na linha de frente da batalha para construir outro mundo possível. Dessa forma, iniciamos uma jornada para recuperar a história das lutas, resistências, insurreições e sonhos de revolução liderados por mulheres, lésbicas, travestis e transexuais em diferentes épocas em toda nossa região, a fim de encontrar as sementes do que hoje são nossos feminismos populares latino-americanos.</p>
<p>Referimo-nos àqueles feminismos silvestres que emergem das lutas populares pelo coletivo, que nascem como autodefesa vital nas margens das periferias. Na América Latina e no Caribe, falar de feminismos populares implica pensar no que fazem cotidianamente todas aquelas mulheres, lésbicas, travestis, trans e não-binárias que lutam pelo comum onde a precariedade habita. É falar dessa intersecção onde o comunitário se torna um espaço fundamental para garantir a vida, sempre em tensão com a pedagogia da crueldade que rege as nossas sociedades. Para nós, o feminismo popular ergue a bandeira do coletivo sobre o individual; transforma tudo o que deve ser transformado para conquistar uma vida digna para os ‘ninguéns’.</p>
<p>Pretendemos resgatar aquelas histórias que até hoje nos inspiram, nos desafiam e nos transformam de forma permanente. De algumas delas temos alguns rastros e de outras temos apenas um fio da meada. Em todas procuramos resgatar processos coletivos de desobediência, de revolução. Algumas são mais emblemáticas, transformadas em referências para outras gerações de militância. E há outras que estão menos perceptíveis, cotidianas, mas sem dúvida fundamentais para sustentar revoluções ao longo do tempo. Saímos em busca de algumas dessas histórias, já outras encontramos em nossos próprios processos de organização e luta.</p>
<p>Nos sentimos contentes em poder compartilhar que todas essas memórias foram selecionadas e produzidas por outras militantes feministas populares da América Latina e Caribe, que, além de serem organizadoras e dirigentes de processos nacionais em vários setores sociais, colocaram sobre seus ombros, juntamente com centenas de companheiros e companheiras, a criação e apoio de uma articulação continental de movimentos sociais em torno da Alba. Fundada em uma madrugada na Ilha Margarita, na Venezuela, por Hugo Chávez e Fidel Castro, a ALBA é um conceito polissêmico caro à nossa região.</p>
<p>Essa articulação de organizações populares do continente, Alba Movimentos, realizou na Argentina de 27 de abril a 1º de maio de 2022 sua terceira Assembleia Continental, que contou com a presença de mais de 300 delegados e delagadas de 20 países de <em>Nuestra América</em> em um momento histórico especial, que busca atualizar e ler a situação continental por meio dos olhos da luta e da mobilização. Para isso, naturalmente, é essencial ter material que recupere a história da luta das mulheres e pessoas LGBTQIA+ de <em>Nuestra América</em>, que precederam a luta do que é hoje um poder transformador da história em cada canto de nossa região.</p>
<p>Nós, do Instituto Tricontinental, nos sentimos contentes de poder compartilhar esse material, e escolhemos um formato fanzine para sua publicação. Esse pequeno formato impresso traz consigo em cada grampo e dobra a mística editorial emergente de uma publicação que passa de mão em mão. Um convite colorido que se multiplica em cada bolso e mochila, para distribuir e compartilhar essas memórias de desobediência de forma simples e contundente, como sabemos fazer em nosso continente.</p>
<p> </p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-73648 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Bartolinas2.png" alt="" width="931" height="950" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Bartolinas2.png 931w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Bartolinas2-294x300.png 294w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Bartolinas2-768x784.png 768w" sizes="auto, (max-width: 931px) 100vw, 931px"></p>
<p> </p>
<p><a name="section-1"></a></p>
<h2 class="p73361-title" style="margin:3em 0;">Arlen Siu</h2>
<h3 class="p73361-subtitle" style="margin:2em 0;">O cenzontle fala de Arlen</h3>
<p><strong> </strong></p>
<p>As vozes que a conheceram dizem que Arlen era uma mulher que, apesar dos tempos em que viveu, tinha ideias revolucionárias e avançadas, incrementou sua inteligência com talentos musicais, tocava violão, acordeão e piano. Também possuía o dom de escrever, desenhar e pintar. Foi poetisa, artista, intelectual, mulher e revolucionária.</p>
<p>Arlen Siu nasceu em Jinotepe, no departamento de Carazo, na Nicarágua, em 15 de julho de 1955. Cresceu no seio de uma família intercultural, seu pai era um migrante de origem chinesa e sua mãe nicaraguense. Levando em conta as possibilidades econômicas de sua família e sua inteligência, Arlen poderia ter alcançado qualquer um dos objetivos que as jovens mulheres de seu tempo e de sua condição econômica estabeleceram para si mesmas. Porém, ela quis ser guerrilheira e reivindicar sua “Maria Rural”.</p>
<p style="padding-left: 40px;">“É por isso que nesta ocasião,<br>
Hoje quero cantar ao seu coração<br>
Hoje quero te dizer o que sinto<br>
Por tanta pobreza e desolação”.</p>
<p> </p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-73659 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Arlen1.png" alt="" width="950" height="716" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Arlen1.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Arlen1-300x226.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Arlen1-768x579.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<p> </p>
<p>E com esse compromisso, ela decidiu ir para as montanhas e se embrenhou no espaço onde as crueldades da ditadura de Somoza eram mais ferozes.</p>
<p>Arlen possuía a virtude da escrita, usava as letras para expressar sua indignação diante das injustiças, e entre seus escritos, um dos mais representativos foi a última carta que ela enviou a seus pais:</p>
<blockquote class="p73361-blockquote"><p>“A luta tenaz do homem pelo perfeito é o verdadeiro amor; somos mais autênticos na medida em que derrubamos barreiras e limitações, enfrentando com valentia e otimismo as vicissitudes que se apresentam em nosso caminho; e se descobre um dia que somos capazes de mais do que o que nos é pedido, e que podemos alcançar o que para alguns é proibido ou impossível”.</p></blockquote>
<p>Arlen tornou-se mais autêntica em cada uma de suas ações revolucionárias, como quando em dezembro de 1974, após acompanhar mais de 500 trabalhadores em rebelião contra os abusos da empresa Sacos Centroamericanos (SACSA) em Diriamba, Carazo, ela se dedicou a organizar círculos de estudo com a liderança dos trabalhadores, aproveitando os dois comunicados emitidos pela Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) durante a invasão à casa do ministro Chema Castillo e no decorrer da troca de presos políticos da FSLN por guardas de Somoza que haviam sido capturados.</p>
<p>Em 1975, ela realizou trabalho guerrilheiro no oeste da Nicarágua, onde se voluntariou para dar cobertura à retirada de seus companheiros, caindo em combate em 1º de agosto de 1975, em El Sauce, León (oeste da Nicarágua) enquanto dava cobertura aos seus companheiros que recuavam durante uma batalha desigual contra 300 guardas nacionais armados.</p>
<p>Arlen Siu não conseguiu ver o triunfo da Revolução Popular Sandinista em 1979, mas foi essencial na luta e na organização dos trabalhadores e das trabalhadoras e do povo. Para a Associação dos Trabalhadores Rurais, Arlen Siu foi a primeira inspiração para a construção de um movimento social de trabalhadores camponeses, por meio de seu poema Maria Rural.</p>
<p> </p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-73669 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Arlen2.png" alt="" width="950" height="906" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Arlen2.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Arlen2-300x286.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Arlen2-768x732.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025; font-size: 18pt;"><strong>María Rural</strong></span></h3>
<p style="text-align: center;">Pelos caminhos do campo<br>
Você carrega sua tristeza<br>
Sua tristeza de amor e de pranto<br>
Em seu ventre de barro e terra</p>
<p style="text-align: center;">Seu pequeno frasco redondo<br>
Que você preenche ano após ano<br>
Com a semente que semeia<br>
O camponês em sua pobreza</p>
<p style="text-align: center;">Hoje eu quero cantar a você María rural<br>
Oh, mãe do campo<br>
Mãe sem igual<br>
Hoje eu quero cantar<br>
Sua pobre descendência<br>
Seus tristes pertences<br>
Dores maternas</p>
<p style="text-align: center;">Desnutrição e pobreza<br>
É o que te rodeia<br>
Cabana de palha silenciosa<br>
Somente o murmúrio da selva</p>
<p style="text-align: center;">Suas mãos são de cedro<br>
Seus olhos crepúsculos tristes<br>
Suas lágrimas são barro<br>
Que você derrama nas serras</p>
<p style="text-align: center;">É por isso que nesta ocasião<br>
Hoje quero cantar ao seu coração<br>
Hoje quero te dizer o que sinto<br>
Por tanta pobreza e desolação</p>
<p style="text-align: center;">Pelos prados e rios<br>
Vai a mãe camponesa<br>
Sentindo frio no inverno<br>
E terrível seu destino</p>
<p style="text-align: center;">Pelos caminhos do campo<br>
Você carrega sua tristeza<br>
Sua tristeza de amor e de pranto<br>
Em seu ventre de barro e terra</p>
<p style="text-align: center;">Hoje eu quero cantar para você Maria rural<br>
Oh, mãe do campo<br>
Mãe sem igual<br>
Hoje eu quero cantar<br>
Sua pobre descendência<br>
Seus tristes pertences<br>
Dores maternas</p>
<p> </p>
<p><a name="section-2"></a></p>
<h2 class="p73361-title" style="margin:3em 0;">Dona Nina</h2>
<blockquote class="p73361-blockquote"><p>“Comecei minha militância muito cedo, sem saber que eu era militante, né? Ser feminista. De casa, na luta pela independência […]”.</p>
<p class="p73361-blockquote-cite">                                                                                                                                  (Dona Nina)</p>
</blockquote>
<p> </p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-73679 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Nina1.png" alt="" width="950" height="625" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Nina1.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Nina1-300x197.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Nina1-768x505.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<p> </p>
<p>Maria Madalena dos Santos, mais conhecida como Dona Nina, nascida em 1949, tem duas filhas e três filhos, três netas e dois netos. Ela nasceu na comunidade Quilombola Cafundó dos Crioulos, na cidade de Santa Maria da Vitória, na Bahia, Brasil, onde iniciou e continua sua militância que, embora tenha se estendido por todo o mundo, manteve suas raízes em seu lugar.</p>
<p>Ela se dedicou à luta e organização das mulheres camponesas no início dos anos 1980, após os ataques aos camponeses de sua região, com a expulsão da terra, a construção de barragens e a enorme exploração do trabalho dos camponeses, que recaiu principalmente sobre as mulheres, que recebiam um quarto do que os homens ganhavam por dia de trabalho. Mais tarde, ela soube que o mesmo fenômeno estava ocorrendo em várias regiões do país e que as mulheres camponesas também estavam em processos de organização.</p>
<p>A década de 1980 foi uma época de ressurgimento de organizações populares no Brasil. Na Bahia, Dona Nina, junto com outras camponesas, percebeu que precisava de processos autônomos e auto-organizados; sem isso, suas reivindicações não seriam incluídas nas agendas de lutas.</p>
<p>Dona Nina foi uma das coordenadoras da Articulação Nacional da Mulher Rural (ANMTR), e participou ativamente das lutas pela Previdência Social na Constituição de 1988. Ela foi coordenadora da campanha nacional “Nenhum trabalhador rural sem documentos”.</p>
<p>A luta por um mundo melhor levou Dona Nina a viajar pelo Brasil e pelo mundo, levando-a a participar de debates sobre a necessidade de uma organização camponesa mundial, e dos primeiros congressos da CLOC/Via Campesina.</p>
<p>Dona Nina foi fundamental no processo de nacionalização do Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), em 2004. Como coordenadora das mulheres camponesas do Nordeste, foi a vários estados para debater com as trabalhadoras rurais a importância de se ter um movimento nacional pela luta feminista e camponesa para transformar a realidade. Um movimento que já estava nascendo com a articulação camponesa internacional. “Não foi fácil, algumas pessoas não queriam, atrapalharam, mas sabíamos que era importante, que o nome “camponês” era mais inclusivo, o que hoje está provado”, relembra Dona Dina.</p>
<p>Dona Nina é uma camponesa quilombola, educadora popular, sindicalista, presidente de sua associação comunitária e continua contribuindo para a coordenação política do MMC na Bahia. Guardiã das sementes nativas e do Cerrado, aos 73 anos ela continua sendo uma inspiração de resistência, luta e compromisso das mulheres do campo, das florestas e das águas. É uma história viva do feminismo camponês popular.</p>
<p> </p>
<nav class="p73361-toc">
<h5 class="p73361-font-active">Com o feminismo,</h5>
<h5 class="p73361-font-active">Nós construímos o socialismo!</h5>
<p> </p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-73689 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Nina2.png" alt="" width="807" height="950" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Nina2.png 807w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Nina2-255x300.png 255w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Nina2-768x904.png 768w" sizes="auto, (max-width: 807px) 100vw, 807px"></p>
<p> </p>
<p><a name="section-3"></a></p>
<h2 class="p73361-title" style="margin:3em 0;">Las Bartolinas</h2>
<blockquote class="p73361-blockquote"><p>‘”A dupla discriminação que sofremos por sermos mulheres e por sermos mulheres camponesas e indígenas em nossas famílias, comunidades, organizações e sociedade como um todo, nos levou a lutar contra a violação de nossos direitos fundamentais e a defender nossa participação plena e igualitária na tomada de decisões”. Federación Nacional de Mujeres Campesinas de Bolivia (FNMCB)</p></blockquote>
<p> </p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-73699 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Bartolinas1.png" alt="" width="950" height="808" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Bartolinas1.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Bartolinas1-300x255.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Bartolinas1-768x653.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<p> </p>
<p>O movimento feminino conhecido como “Las Bartolinas” – a organização feminista mais importante da Bolívia e que é prestigiada mundo afora – homenageia a heroína aymara Bartolina Sisa, uma das mulheres mais emblemáticas nas lutas anticoloniais do século 18 na América Latina.</p>
<p>Como organização, foi fundada em 10 de janeiro de 1980 resultado do papel decisivo desempenhado por muitas mulheres nos períodos das ditaduras militares por meio dos sindicatos de mulheres camponesas, que decidiram em um congresso nacional criar a Confederação Nacional de Mulheres Camponesas Bolivianas “Bartolina Sisa”.</p>
<p>Esse movimento surgiu e se desenvolveu quando a Bolívia reconstruiu sua democracia e as organizações populares começaram a se reagrupar. A organização foi criada com a visão de que as mulheres do campo participariam plenamente desse processo por meio de sua própria organização e poderiam realizar bloqueios de estradas, greves de fome, marchas e outras formas de ação coletiva dos camponeses.</p>
<p>Por meio de suas ações, Las Bartolinas buscam recuperar a soberania territorial e alimentar e a dignidade das mulheres camponesas e indígenas da Bolívia. O trabalho da Confederação procura alcançar a participação igualitária das mulheres nas esferas política, social e econômica por meio da estrutura aymara de chacha warmi, como um conceito de equidade de gênero. Além disso, busca promover a formação e o treinamento das companheiras de forma permanente, como único mecanismo para libertar as mentes da opressão e da ignorância e alcançar a verdadeira liberdade.</p>
<p><strong>As Bartolinas lutam </strong>por melhorias sociais, econômicas, políticas e culturais das mulheres camponesas, indígenas e afro-bolivianas, bem como buscam construir uma plataforma política a essas mulheres, com base em sua nacionalidade, programa político, unidade, reciprocidade e solidariedade com as organizações trabalhistas e populares do país.</p>
<p>Além disso, participam da luta contra o analfabetismo no campo, reivindicando educação pública e gratuita para crianças junto aos pais, professores e autoridades educacionais, promovendo laços de fraternidade, solidariedade e reciprocidade entre as mulheres e meninas camponesas e indígenas da Bolívia. Este processo também ajuda a defender os direitos fundamentais, incluindo o direito das mulheres à educação e à soberania alimentar, e garantir a igualdade de gênero e a plena participação das mulheres.</p>
<p>Las Bartolinas também lutam por terra e pelos direitos territoriais, fundamentais para a soberania dos povos indígenas e do campo. Com isso, buscam divulgar e reafirmar a identidade cultural e histórica dos povos indígenas da Bolívia para a construção de um Estado unificado e plurinacional.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><strong><span style="color: #ba2025;">Três períodos na história das mulheres “Bartolinas”</span></strong></h3>
<p>A Confederação Nacional de Mulheres Bartolina Sisa foi moldada por uma sucessão de eventos, começando com seu debate incipiente sobre seu papel dentro do movimento camponês. Isso incluiu a necessidade de construir uma organização autônoma ao invés de se integrar na organização já existente formada por homens, a Confederação Unificada de Trabalhadores Camponeses da Bolívia (CSUTB). Dessa forma, Las Bartolinas construíram sua própria identidade como um movimento autônomo de mulheres camponesas, formando uma confederação própria com a mesma influência e importância no cenário sociopolítico boliviano.</p>
<p>Num segundo momento, a Confederação Bartolina Sisa logo assumiu um papel de destaque no país. Em 1994, Las Bartolinas estava entre as organizações que fundaram o Instrumento Político para a Soberania dos Povos (IPSP), mais tarde conhecido como MAS-IPSP, com o objetivo de assegurar protagonismo e participação direta na política parlamentar da Bolívia. Posteriormente, o MAS-IPSP seria o partido com o qual as classes populares, indígenas e camponesas conquistariam o poder por mais de uma década, a partir da primeira presidência de Evo Morales.</p>
<p>Nesse período, a organização participou diretamente do Estado e da formulação de políticas públicas, como a busca pela garantia da participação política das mulheres bolivianas por meio de uma política de paridade de gênero. Desde então, tornou-se impossível falar da política boliviana sem reconhecer o papel pioneiro das Bartolinas. Hoje, as mulheres que integram a entidade ocupam cargos de destaque no Estado e são lideranças da política regional.</p>
<p>As Bartolinas representam um grande passo adiante em termos de participação política das mulheres na Bolívia, pois se tornaram uma organização de referência entre os movimentos sociais bolivianos e até mesmo em sua capacidade de influenciar as políticas públicas no país. Embora essa experiência bem sucedida de emergência da mulher em espaços tão importantes deva ser ainda mais ampliada, é também o dever de todas as organizações garantir o pleno exercício dos direitos políticos das mulheres bolivianas e de todo o Sul Global.</p>
<p> </p>
<h3 class="p73361-subtitle" style="margin:2em 0;">Contracapa</h3>
<div class="p73361-back-cover">
<p>Aparentemente inativa, a crisálida descansa. Muitos optam por se camuflar e assimilar sua forma e cor ao seu entorno. Elas passam despercebidas enquanto se preparam para a metamorfose final. Com esforço, elas irrompem e despertam. Elas abrem suas asas, se conectam com o mundo transformado.</p>
<p>Crisálidas são Arlen Siu em sua dedicação à luta camponesa e à revolução nicaraguense; Dona Nina com seu incansável compromisso com a organização das mulheres camponesas no Brasil; e as Bartolinas que fizeram seu caminho como atores fundamentais na resistência contra a ditadura e o neoliberalismo e na construção de um projeto político plurinacional na Bolívia.</p>
<p>Com a mística da fanzine – de mão em mão e de boca em boca – que possam crescer as Crisálidas, memórias de desobediência no Sul Global.</p>
</div>
<p> </p>
<div class="cc-by-nc-40">Esta publicação está sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International (CC BY-NC 4.0). O resumo legível da licença está disponível em<br>
<a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc/4.0/">https://creativecommons.org/licenses/by-nc/4.0/</a></div>
<p> </p>
</nav>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Nela Martínez Espinosa (1912 &#8211; 2004)  Mulheres de luta, mulheres em luta</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/estudos-feminismos-3-nela-martinez/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[ariana]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 30 Mar 2022 20:16:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Feminismos]]></category>
		<category><![CDATA[Partido Comunista do Equador]]></category>
		<category><![CDATA[Federação Equatoriana de Índios]]></category>
		<category><![CDATA[Aliança Feminina Equatoriana]]></category>
		<category><![CDATA[A Gloriosa]]></category>
		<category><![CDATA[Aliança Democrática Equatoriana]]></category>
		<category><![CDATA[Equador]]></category>
		<category><![CDATA[União Revolucionária de Mulheres do Equador]]></category>
		<category><![CDATA[feminism]]></category>
		<category><![CDATA[Nela Martínez]]></category>
		<category><![CDATA[Ecuador]]></category>
		<category><![CDATA[Luisa Gómez de la Torre]]></category>
		<category><![CDATA[indigenous]]></category>
		<category><![CDATA[Dolores Cacuango]]></category>
		<category><![CDATA[Joaquín Gallegos Lara]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://thetricontinental.org/?p=58010</guid>

					<description><![CDATA[Com a Alba Movimentos recuperamos as sementes dos feminismos populares latino-americanos, histórias de luta que nos inspiram, protagonizadas por mulheres, lésbicas, travestis e trans em diferentes épocas.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: center;"><span style="color: #582e50;"><strong>Nela Martínez Espinosa (1912 – 2004)</strong></span></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #582e50;">Mulheres de luta, mulheres em luta</span></p>
<div id="attachment_57885" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-57885" class="wp-image-57885 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/02-F068-CopyBN-1.jpg" alt="" width="950" height="1323" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/02-F068-CopyBN-1.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/02-F068-CopyBN-1-215x300.jpg 215w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/02-F068-CopyBN-1-735x1024.jpg 735w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/02-F068-CopyBN-1-768x1070.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-57885" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #582e50;">Nela Martinez, em agosto de 1988, um mês após a morte de seu marido Raymond Meriguet. <br>Créditos: Nela Meriguet Martínez, Arquivo Martínez-Meriguet</span></small></p></div>
<p> </p>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #582e50;"><strong>Introdu</strong><strong>ção</strong></span></h2>
<p>A segunda metade do século XX foi marcada pelas lutas de independência nos países ainda colonizados da África e da Ásia. Na América Latina, as estruturas neocoloniais subordinaram as repúblicas constituídas como independentes no início do século XIX, consolidando a posição dominada dos novos Estados na divisão internacional do trabalho.</p>
<p>Durante as décadas de crise mundial (1914-1948), foram travados na América Latina combates entre uma corrente oligárquica, que tentava violentamente impor o peso da crise sobre os ombros das classes populares; e uma corrente de esquerda, alimentada por dois processos: a crescente organização popular camponesa e sindical, e uma classe média radicalizada. Ambos os setores da corrente de esquerda, olhando para as novas formas de desapropriação material que impossibilitavam as promessas da democracia republicana, levantaram um discurso sobre as contradições de classe, as dominações patriarcal e neocolonial, ao lado de novas visões do conceito de nacional e perspectivas de internacionalismo democrático e socialista contra o fascismo que surgia. Inspiraram-se nas mobilizações e transformações de poder popular alcançadas pela Revolução Mexicana e pela Revolução Russa. A luta pela igualdade e poder popular com a direção da classe trabalhadora continua nas disputas anti-imperialistas de nosso tempo. As mulheres, de inúmeras maneiras, moldaram e continuam a moldar essa luta contra o capitalismo oligopolista, patriarcal, racista e neocolonial.</p>
<p>Na série <em>Mulheres de Luta, Mulheres em Luta</em> do Instituto Tricontinental de Pesquisas Social, apresentamos as histórias de mulheres que contribuíram não apenas para o campo mais amplo da política, mas que também foram pioneiras na criação de organizações de mulheres, abrindo caminhos de resistência e de luta feminista ao longo do século XX.</p>
<p>A práxis é fundamental como conhecimento da teoria e dos métodos organizacionais de luta. Esses métodos, à medida que mudam e respondem à história, dão sustentação aos movimentos em marcha para enfrentar a opressão. Como militantes, estudamos os diversos métodos das mulheres e suas organizações não apenas para entender melhor suas contribuições políticas, mas também para nos inspirarmos enquanto construímos as organizações necessárias para nossa luta contra a opressão e a exploração.</p>
<p>Neste terceiro estudo analisamos a vida e o legado de Nela Martínez Espinosa, lutadora popular equatoriana. Escritora e militante comunista desde cedo, com ampla trajetória internacionalista, foi a primeira deputada eleita no Equador, criou uma das primeiras grandes organizações políticas de mulheres, em 1938. Como primeira mulher ministra de governo, na prática esteve no comando do país nos caóticos três dias que se seguiram à insurreição chamada <em>La Gloriosa,</em> em maio de 1944.</p>
<p>Sua rica história de militância nos ensina sobre a trajetória das mulheres nas lutas locais, nacionais e internacionais que vinculam os direitos das mulheres às lutas anticapitalistas, antifascistas, antirracistas, anticoloniais e anti-imperialistas ao longo do século XX. Nas palavras da própria Nela, no Congresso Nacional do Equador em 2003, um ano antes de sua morte, referindo-se à primeira vez que esteve lá como deputada em 1945:</p>
<p>Vim, pela primeira vez, no transe do meu amor por esta Pátria que ainda continua em luta consigo mesma, mas já então resgatada de uma ditadura que aumentou a opressão. Aqueles que viram na revolução que nós reivindicamos o maior perigo, e nos negaram o direito de fazê-la e vivê-la, ficaram simplesmente comovidos. Uma mulher no Congresso entre os que falavam e não apenas entre os que ouviam? A norma colonial herdada na prática de pensar e fazer regeu — palavra que vem de reinar, de Rei: o supremo, aquele que comanda — durante a Colônia destruidora da outra cultura, a do índio, a ponto de constituir-se em caráter, em forma de vida daqueles que mais tarde se tornaram republicanos. A prática da que falamos permaneceu deitada nas normas e, mais ainda, na ação social. Por isso minha presença era estranha no Congresso Nacional e, ao cumprimentá-la, os dirigentes políticos reconheceram, pela primeira vez, a cidadania das mulheres também na instância do poder.</p>
<p> </p>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #582e50;"><strong>Primeiros anos</strong></span></h2>
<p>Nela Martínez nasceu em 1912 em Cañar, uma pequena cidade abrigada pela Cordilheira dos Andes, no sul do Equador, em uma família proprietária de terras e muito religiosa. O pai, César Martínez, era membro do Partido Conservador. A mãe, Enriqueta Espinosa, era uma mulher culta e de tendências liberais, que inculcou em seus quinze filhos o gosto pela leitura, conhecimento e cultura.</p>
<p>Desde a infância, Nela conviveu com os filhos e filhas dos trabalhadores indígenas da fazenda de seu pai, submetidos à exploração econômica e racial herdada da Colônia e que continuou na época republicana. “Daí meu apego às questões indígenas. Quando eu era muito jovem, eu via o mundo dos índios muito longe do mundo dos patrões, o índio estava lá, em tudo, mas ao mesmo tempo ausente”. Aos 10 ou 11 anos, participou de um protesto dos indígenas da fazenda contra seu pai (Laurini, 1992).</p>
<p>Aos 12 anos, Nela ingressou no internato do Colégio Católico de los Sagrados Corazones, na cidade de Cuenca. Foi nessa fase da adolescência que teve seu primeiro contato com textos revolucionários: a revista <em>Amauta</em>, editada e publicada por José Carlos Mariátegui, em Lima (Peru), foi uma de suas primeiras leituras. Ela gastou o pouco dinheiro que sua família lhe deu em livros e estudou o socialismo andino. Ela voltou para sua cidade em 1927 sem diploma, porque naquela época as mulheres não podiam se graduar.</p>
<p> </p>
<p> </p>
<p> </p>
<p> </p>
<div id="attachment_57895" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-57895" class="wp-image-57895 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/06_F080.jpg" alt="" width="950" height="732" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/06_F080.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/06_F080-300x231.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/06_F080-768x592.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-57895" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #582e50;">Plenária do Comitê Central do Partido Comunista do Equador, reunido em Quito em 1947. Sentadas, as três mulheres que faziam parte dele: à esquerda Luisa Gómez de la Torre, à direita, Dolores Cacuango, líder da Federação Equatoriana de Índios e Nela Martínez Espinosa<br>Créditos: Arquivo Martínez-Meriguet</span></small></p></div>
<p> </p>
<h2 style="margin:3em 0;"><strong><span style="color: #582e50;">A Revolução Liberal e a crise do projeto liberal radical</span> </strong></h2>
<p>A Revolução Liberal de 1895, liderada pelo general Eloy Alfaro, havia iniciado o árduo processo de remoção das bases do Estado latifundiário-conservador no Equador: o predomínio da Igreja (transnacional) sobre a República; a censura da imprensa e de representação política imposta ao Partido Liberal e ao Radicalismo<a href="#_ftn1" name="_ftnref1"><sup>[1]</sup></a> e o domínio servil das comunidades indígenas da Serra, sustentado na desapropriação de suas terras ancestrais.</p>
<p>Esses novos horizontes políticos mobilizaram amplas camadas rurais, plebeias urbanas e até setores periféricos da burguesia. A bem-sucedida articulação desses grupos sustentou a vitória militar que marcou uma nova via de formação estatal, antagônica à do tradicional partido latifundiário ultraconservador e clerical. O impacto do auge liberal permeou o Estado e marcou as identidades sociais de setores progressistas nas décadas seguintes. No entanto, a expansão da economia em torno do cultivo e exportação de cacau, bem como a dependência financeira e comercial das elites equatorianas de países estrangeiros, marcaram uma trajetória oligárquica ainda mais acentuada durante a crise global pós-Primeira Guerra Mundial.</p>
<p>O ódio político dos conservadores e as disputas internas do Partido Liberal motivaram o cruel assassinato de Eloy Alfaro pelas mãos de uma multidão enfurecida, em 1912. Esse fato não acabou com o regime liberal, mas deu início a um período de recomposição de suas forças. Uma nova aliança entre as oligarquias da costa litorânea, associadas ao comércio e aos bancos, e a incipiente burguesia incrustada nas estruturas do Partido Liberal, fez com que os setores mais progressistas e revolucionários dos trabalhadores, do campesinato e das comunidades indígenas, melhor representados pela corrente de Alfaro, reagissem e questionassem a hegemonia liberal.</p>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #582e50;"><strong><em>As cruzes sobre a água</em></strong><strong>: pujança das organizações classistas</strong></span></h2>
<p>Diante da crescente desigualdade e do consequente descontentamento popular, o governo liberal recorreu à repressão com maior assiduidade e violência. Na cidade com a maior concentração proletária do país, o porto de Guayaquil, estourou uma greve geral vitoriosa, na qual convergiram as demandas de numerosos setores profissionais e do proletariado industrial. Após a paralisação total da cidade por dias, o governo liberal fez uso do Exército para esmagar a mobilização, resultando em um massacre com centenas de vítimas em 15 de novembro de 1922. Joaquín Gallegos Lara imortalizou o massacre de trabalhadores em sua obra <em>Las cruces sobre el agua </em>[As cruzes sobre a água], em alusão aos cadáveres flutuando no rio Guayas.</p>
<p>Longe de extinguir o conflito, esse episódio brutal radicalizou a ação dos setores mais organizados e revolucionários da classe trabalhadora. Em um contexto de crescente antagonismo de classes, consolidou a incorporação de novos atores políticos – o movimento indígena, o movimento camponês, o incipiente proletariado industrial, as mulheres –, antes desprovidos de poder político e de representação efetiva perante o Estado e a oligarquia.</p>
<p>Alguns desses novos atores articularam uma crítica radical ao projeto liberal. Por um lado, dentro da própria estrutura do Partido Liberal, grupos radicais questionaram as novas alianças com a oligarquia comercial e financeira e, finalmente, optaram pelo Partido Socialista Equatoriano. Em segundo lugar, as comunidades indígenas e camponesas despojadas de suas terras, cada vez mais pressionadas pela pujança dos latifundiários (sejam conservadores, sejam novos proprietários aliados às elites liberais), fortaleceram suas demandas por reconhecimento político por parte do Estado liberal. Em terceiro lugar, as massas trabalhadoras urbanas – o novo proletariado industrial – desenvolveram novas ferramentas de organização e luta por meio dos sindicatos setoriais e locais recém-criados, sendo o Partido Comunista do Equador muito importante nesse processo. Outros segmentos insatisfeitos com o regime liberal alimentaram a oposição progressista: grandes contingentes de professores e educadoras, jovens intelectuais, setores progressistas do exército, entre outros.</p>
<p>O Partido Comunista do Equador (PCE) foi formado em 1931, a partir de uma cisão do Partido Socialista Equatoriano (PSE), fundado em 1926. A discussão sobre a adesão ou não ao Comintern – o PCE foi o partido que aderiu à III Internacional – foi o último capítulo na crescente divergência entre as lideranças do PSE, não apenas nas esferas doutrinárias e ideológicas, mas também nas organizativas e táticas.</p>
<p>O Partido Socialista Equatoriano foi um ator fundamental nas reformas do Estado implementadas pelo recém-criado Ministério da Assistência Social e Trabalho: redistribuição de terras para comunidades indígenas, proibição do trabalho servil nas fazendas, consagração de direitos trabalhistas e até mesmo a configuração do Senado, incluindo a representação das classes trabalhadoras, indígenas, professores e funcionários públicos. Apesar de sua aposta por uma intervenção a partir das estruturas do Estado para efetivar uma reforma democrática radical, os militantes socialistas não conseguiram conter a pressão das elites para reprimir as organizações autônomas das classes populares. Aspirações reformistas de justiça social, representatividade, direitos sociais e políticos, bem como o reconhecimento de direitos ancestrais (no caso dos setores indígenas) foram incluídos na Constituição de 1928, tendo sido chave o papel dos quadros e advogados socialistas na formulação dessas reformas na lei.</p>
<p>Por sua vez, o PCE participou ativamente da organização da classe trabalhadora, tanto urbana quanto rural. Consciente da importância de fortalecer a ação coletiva organizada para efetivar os direitos consagrados na nova Constituição, a liderança comunista propôs um intenso trabalho com as comunidades indígenas da Serra Central e os setores camponeses despossuídos; promoveu articulações entre setores da classe trabalhadora para fortalecer a solidariedade entre grupos e a organização de greves, em âmbitolocal como nos setores sindicais e profissionais; e foi fundamental na batalha de ideias, desenvolvendo uma imprensa crítica vigorosa.</p>
<p>Como organização política incipiente, o PCE se organizou em células locais compostas por poucos militantes, mas muito atuantes e bem conectadas entre as regiões. Essa estrutura permitiu a articulação da militância comunista com um grande número de organizações de vários tipos, desde comunidades indígenas do centro e norte da Serra e do Litoral até sindicatos, associações etc. Alguns cálculos sugerem que o Partido conseguiu organizar até 600 mil camponeses em 1943 (Coronel, 2022). Foi esse trabalho militante de base, lado a lado com as organizações sindicais e camponesas nos centros de trabalho, nas localidades, e progressivamente nas instituições – muitas vezes, em coordenação com o Partido Socialista Equatoriano, estrutura com maior número de quadros e inserção institucional –, aquela que colocou o Partido Comunista na vanguarda do processo de acumulação de forças no período 1941-1944, que levaria à insurreição denominada <em>La Gloriosa</em>.</p>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #582e50;"><strong>Militância primeira: sindicatos, Partido Comunista do Equador e a Federação Equatoriana de Índios </strong></span></h2>
<p>O encontro de Nela Martínez com Joaquín Gallegos Lara, em 1930, durante uma visita de Nela, acompanhada de sua mãe, a Guayaquil, mudaria a vida de ambos para sempre. Gallegos Lara, com apenas 21 anos, já era um escritor consagrado, ligado ao mundo sindical e militante do Partido Comunista. Nela descobriu em Gallegos um vínculo de vida e militância, um “amor pelo futuro coletivo”, em suas próprias palavras.</p>
<p>Nela se mudou para Ambato, cidade da Sierra Central, e conseguiu um emprego humilde como professora. Em 1933, ingressou no Partido Comunista, sendo a única mulher do núcleo local, e iniciou sua atividade política por meio de intenso trabalho de organização de base com trabalhadores e camponeses. Durante esse período, estabeleceu relações com sindicatos de diferentes ofícios, publicou textos revolucionários radicais e organizou protestos e manifestações.</p>
<p>A distância física entre Nela Martínez e Joaquín Gallegos Lara não impediu que o relacionamento deles se tornasse cada vez mais íntimo e mais comprometido politicamente. Durante anos, a correspondência entre os dois sustentou a relação amorosa e foi o veículo para a troca frutífera de ideias políticas que enriqueceram o diálogo entre Sierra e Costa. Em uma das cartas que Nela escreve aos 19 anos, ela expressa a Joaquín sua posição sobre a situação da mulher, referindo-se à tentativa de seu pai de casá-la com o filho de um latifundiário:</p>
<p>Ele quer me deter na inconsciência da rotina do viver, fazer dos meus pensamentos ironia, os poucos que ele sabe de mim, na realidade resignada que deveria ser. Dar-me um marido católico para que nem meus filhos nem as gerações futuras mudem, para que eu mesma seja o que minha mãe é, o que são as mulheres infelizes desta terra: a mulher-vítima, a mulher-coisa, a mulher-escrava. Minha recusa direta o exasperou.</p>
<p>(Doc. N-19320102, Arquivo Martínez-Meriguet)</p>
<p>O pai de Nela Martínez nunca viu com bons olhos a relação dela com Gallegos Lara. Apesar da rejeição, eles se casaram em Ambato, em 1934. Pouco tempo depois, fugindo da perseguição política das autoridades locais, Nela e Joaquín se mudaram para Guayaquil. Sua reputação de comunista militante, sindicalista e agitadora impediu Nela de estabilizar sua situação econômica. Apesar das dificuldades, os dois desenvolveram uma intensa atividade política tanto na Serra quanto no Litoral. O papel de ambos como líderes orgânicos e intelectuais do Partido Comunista, forjando vínculos e alianças com diferentes setores da classe trabalhadora e da intelectualidade, foi fundamental para superar as divisões setoriais e regionais que permitiriam a unidade de ação das classes populares.</p>
<p>Em 1935, o PCE envia Nela Martínez a Quito para um encontro com diferentes setores políticos do país. Ela decide se estabelecer na capital, onde Joaquín a encontra logo depois. A convivência se deteriora e eles vivem separados, embora continuem seu casamento e seu trabalho político.</p>
<p>Nesse ano, Joaquín escreve os primeiros capítulos de uma obra fundamental da literatura equatoriana, <em>Los Guandos<a href="#_ftn2" name="_ftnref2"><sup><strong>[2]</strong></sup></a></em>, uma história comovente sobre a desapropriação e subjugação dos povos indígenas da Serra, a brutalidade do sistema de dominação imposto pelas classes latifundiárias e as contradições da modernização. O romance foi concebido conjuntamente por Nela e Joaquín e sua história principal emerge da narrativa da violência da exploração dos indígenas que Nela presenciou em sua infância e juventude. “Um livro índio. O primeiro livro índio que será feito em nosso Equador. Um livro novo. Mas não será só com o meu nome que aparecerá. Vamos escrever e publicar juntos”, diz Gallegos Lara em carta a Nela em 1930 (Doc J-19301123, Arquivo Martínez-Meriguet). Décadas depois, nos anos 1980, seria Nela quem terminaria de escrever e publicaria o texto, que ficou inacabado após a morte de Gallegos Lara. A obra faz parte da literatura indigenista equatoriana, em que autores não indígenas escrevem sobre os indígenas, buscando reivindicá-los no contexto das lutas pela recuperação de seu legado à nação.</p>
<p>Em 1936, após tentar tirar a própria vida, Gallegos Lara decide retornar a Guayaquil acompanhado de sua mãe, que dedicou especial atenão à saúde do filho desde que este nascera com problemas para caminhar. Essa nova separação acabou sendo definitiva: Nela escreveu a Joaquín, expressando seu desejo de se divorciar. O fim de sua história de amor não os impediu de continuar sendo companheiros, de militância e de vida, até a morte de Joaquín, em 1947.</p>
<p>Nela continuou suas tarefas políticas no Partido Comunista e estabeleceu relações com Ricardo Paredes, o primeiro secretário-geral do Partido e arquiteto da cisão com o PSE. Os dois tiveram um filho, que foi criado por Nela, já que Ricardo Paredes, casado, não queria se divorciar. Como mãe solteira, Nela teve que enfrentar a rejeição de uma sociedade profundamente conservadora, o que se deu desde o primeiro dia, andando abertamente na rua com seu filho (Martínez e Costales, 2018). Nela foi morar com a amiga Luisa Gómez de la Torre, também professora e integrante do PCE, que durante uma década a ajudou a cuidar do filho.</p>
<p>Durante esses anos, Nela esteve intimamente envolvida com o processo de formação da Federação Equatoriana de Índios (FEI), a primeira organização nacional de povos indígenas do Equador. A FEI se formou a partir de vários sindicatos e organizações existentes desde a década de 1920, que lutaram contra a brutalidade com os camponeses indígenas que trabalhavam na propriedade branca, exigindo igualdade efetiva, o direito à terra e à sua identidade. Em 1930, foi organizada uma greve na fazenda Pesillo (Cayambe), que acabou por significar o evento de fundação da federação. O Partido Comunista esteve envolvido nessa e nas mobilizações subsequentes e é nesse processo que Nela Martínez conhece a líder indígena Dolores Cacuango, conhecida como “Mamá Dolores de los índios”, figura chave do movimento indígena e do PCE.</p>
<p>Como Dolores Cacuango era analfabeta, Nela atuou como sua secretária. Nesse período, Nela aprofundou sua consciência sobre a importância da educação como ferramenta e processo emancipatório. Já em 1940, Dolores, Nela e sua amiga e companheira de partido, Luisa Gómez de la Torre, começaram a estabelecer centros de educação bilíngue para que as crianças indígenas tivessem uma educação adequada. Esses núcleos de ensino foram pensados ​​para educá-los na perspectiva de que pudessem ser professores, mas também líderes e militantes, e assim favorecer a construção de instrumentos de mobilização popular.</p>
<p>A FEI foi finalmente fundada em 1944 por esses grupos indígenas mobilizados e também por alguns mestiços brancos. Em ambos os grupos havia muitos militantes comunistas, motivo pelo qual desde o início se estabelece uma relação estreita entre a FEI e o PCE.</p>
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<div id="attachment_57905" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-57905" class="wp-image-57905 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/05_AFE_F067.jpg" alt="Meeting of the Ecuadorian Women's Alliance (AFE) at the Workers' House, Quito. Seated at the centre is Nela Martínez and standing, first on the right, is Luisa Gómez de la Torre. Source: Pacheco / Martínez-Meriguet Archive" width="950" height="657" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/05_AFE_F067.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/05_AFE_F067-300x207.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/05_AFE_F067-768x531.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-57905" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #582e50;">Reunião da Aliança Feminina Equatoriana (AFE) na Casa del Obrero, Quito. Sentada, ao centro, Nela Martínez e de pé, primeira à direita, Luisa Gómez de la Torre. </span><br><span style="color: #582e50;">Créditos: Pacheco/Arquivo Martínez-Meriguet</span></small></p></div>
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<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #582e50;"><strong>A luta antifascista e a Aliança Feminina Equatoriana</strong></span></h2>
<p>Desde a década de 1930, Nela Martínez participou do movimento antifascista e antitotalitário que resistiu à influência no Equador dos fascistas italianos e espanhóis, bem como dos nazistas alemães. O programa nazista foi amplamente transmitido no rádio e nas universidades equatorianas, e os simpatizantes alemães do nazismo tiveram forte presença nos negócios do país, principalmente na indústria do petróleo. Oficiais da SS dirigiam as operações de espiões alemães independentes e estrategistas militares próximos ao gabinete do presidente, que os consultava sobre como estruturar o governo. Da mesma forma, o governo fascista do general Franco também teve influência no Equador por meio do Partido Conservador.</p>
<p>Em contrapartida, havia um movimento por uma Espanha livre, formado por espanhóis e equatorianos que se opunham à Espanha fascista e vários grupos antifascistas que colaboravam e conversavam, sobretudo, com os governos britânico e soviético.</p>
<p>Em 1941, foi criado em Quito o Movimento Popular Antitotalitário do Equador (MPAE), uma organização de esquerda antifascista, promovida principalmente pelo militante francês Raymond Mériguet. Nela, que se torna secretária de Organização e Propaganda, escreve sobre o antifascismo em diversos meios de comunicação, convocando a mobilização nas assembleias populares que organizam. Nessas assembleias, os militantes antifascistas de várias tendências, equatorianas e estrangeiras, construíram a unidade de ação contra a colaboração com as potências do eixo. Em 1942, Nela se tornou secretária da Organização Feminina do MPAE.</p>
<p>Ao mesmo tempo membro do Comitê Central e do Comitê Executivo do Partido Comunista, Nela Martínez acreditava firmemente na necessidade de um trabalho de organização de base, e seu envolvimento nessa tarefa desafiou as estruturas partidárias em mais de uma ocasião, especialmente no que diz respeito à participação ativa das mulheres. Já em 1931, em carta a Gallegos, ela dizia que:</p>
<p>A ideologia socialista só pode triunfar completamente em sua idiossincrasia ao canalizar as mulheres para seu movimento… Quem são os primeiros a lançar seu anátema contra a nova mulher? Criticá-la, caluniá-la e colocar barreiras impossíveis ao seu gesto redentor? Os homens. (Doc. N19310101, Arquivo Martínez-Meriguet).</p>
<p>A partir da legitimidade construída em anos de militância de base e incidência no debate público por meio de seus escritos na imprensa, Nela Martínez contribuiu para ampliar os espaços de união e articulação, particularmente com os setores indígenas e as mulheres, por meio da formação de organizações autônomas que permitissem a esses setores excluídos se expressarem com sua própria voz. Nela estava ciente da importância de envolver outros líderes e militantes comunistas regionais proeminentes nesses espaços de unidade.</p>
<p>Apesar de as mulheres terem uma importante participação e até liderança nas lutas da classe trabalhadora no Equador, isso não se refletiu na liderança dos partidos políticos. Durante sua viagem a Quito em 1935, Nela soube da existência de organizações de mulheres de direita e religiosas, mas nenhuma que reunisse mulheres de esquerda. Nesse momento, colocou em prática sua visão de unir todas as mulheres de partidos de esquerda e de diferentes origens para lutar por causas comuns e participou da fundação da Alianza Femenina de Ecuador (AFE), em 1938. Tratava-se de uma plataforma ampla e heterogênea de mulheres de diferentes setores sociais e políticos, entre as quais estavam liberais progressistas que lutaram pelo direito ao sufrágio feminino, lideranças indígenas como Dolores Cacuango, militantes comunistas como a própria Nela, outras socialistas, também operárias e mulheres de comitês de bairros. Nela logo se tornou secretária-geral e presidente da entidade, construída a partir de uma proposta de autonomia política das mulheres, para ter expressão própria na esfera política nacional (Salazar, 2018).</p>
<p>Dentro da ideologia da AFE estava a defesa da “igualdade de direitos econômicos, sociais e políticos para todos os equatorianos”. As mulheres equatorianas foram as primeiras da região a consagrar o direito ao voto, em 1929, de modo que essa demanda não estava no centro de sua agenda política, como no restante da região nas décadas de 1930 e 1940. As mulheres da AFE buscavam a unificação de todas as “forças femininas” em torno da defesa das mulheres e da transformação de todo o país. Inicialmente combinaram a luta política com campanhas de auxílio social, mas essas logo se tornaram instâncias políticas de apoio mútuo e socialização da reprodução da vida, como aconteceu com a criação de refeitórios sociais, oficinas diversas e alfabetização de mulheres privadas de liberdade na Prisão García Moreno, em Quito. A organização foi fortalecida pela luta pelos direitos trabalhistas das mulheres em meio ao debate nacional sobre o novo Código do Trabalho (1938), quando lutaram por salário igual para trabalho igual, reserva de emprego na gravidez, descanso pós-parto, criação de creches. Embora não a apresentassem nesses termos, naquela época já pensavam na política levando em conta as diferenças de gênero (Salazar, 2017a).</p>
<p>Como uma organização aliada, mas não sujeita à estrutura do Partido Comunista, a AFE desenvolveu suas atividades até 1950, principalmente em Quito, mas também tentou realizar atividades em outras localidades do Equador e até no exterior, chegando a ter delegadas nos Estados Unidos.</p>
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<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #582e50;"><strong>Revolução <em>A Gloriosa</em> (1944)</strong></span></h2>
<p>O presidente da época, Carlos Alberto Arroyo del Río, que assumiu em 1940, era uma figura da nova elite financeira internacional, que tentava reposicionar o poder do capital sobre os Estados reformistas da América Latina e frear as políticas redistributivas por meio de impostos, nacionalização de setores estratégicos e extensão dos direitos trabalhistas, assumidos por vários governos da região (Equador e México, entre outros) na década de 1930.</p>
<p>A linha reacionária de Arroyo del Río, contrária às Constituições de 1928 e 1938, bem como sua inimizade com os funcionários públicos da educação nacional e das universidades e sua intervenção contra os direitos à terra e ao trabalho conquistados, somados ao uso da força repressiva, condensaram uma oposição de esquerda na luta contra o retorno da oligarquia (Coronel, 2022).</p>
<p>Em julho de 1941, o Peru invadiu o Equador pelo sul e conquistou uma extensão de território na Amazônia equivalente a quase metade do país. Como gatilho para o conflito estavam os interesses de empresas europeias e estadunidenses pelos ricos campos petrolíferos da região. O conflito terminou — e a desapropriação foi sancionada — com a assinatura do Protocolo do Rio de Janeiro em 1942, que estabeleceu as novas fronteiras. A gestão do conflito pelo governo de Arroyo del Río foi vista como uma traição nacional em um momento crítico para a mobilização nacional contra o governo oligárquico.</p>
<p>No curto período entre 1943 e 1946, acelerou-se o processo de construção do poder autônomo das organizações populares no Equador. Embora nos anos anteriores houvessem sido feitos esforços para mobilizar e organizar a classe trabalhadora em nível local e setorial, a prioridade agora era formar alianças em nível nacional, buscando um acúmulo de forças que permitisse um confronto efetivo com os blocos dominantes no âmbito político e econômico. De um lado estava a Confederação dos Trabalhadores do Equador (CTE), uma ampla aliança de sindicatos e organizações camponesas de todo o país, fruto de um longo processo de alianças e criação de espaços de ação conjunta. Por outro lado, a já mencionada Federação Equatoriana de Índios.</p>
<p>Em seu compromisso por um projeto de “reconstrução nacional” que superasse as estruturas feudais e impulsionasse as forças produtivas no caminho em direção ao socialismo, as forças revolucionárias de esquerda, com o PCE na vanguarda, promovem a criação de uma frente. Convocam a unir-se não só a esquerda socialista e comunista, mas também os seguidores liberais do ex-presidente José María Velasco Ibarra e os “democratas conservadores”, para enfrentar com unidade o autoritarismo de Arroyo del Río, a crise oligárquica, a ameaça de fascismo e avançar no programa de desenvolvimento industrial nacional e na defesa da democracia.</p>
<p>O resultado, a Aliança Democrática Equatoriana (ADE), foi uma coalizão que incluiu os partidos Conservador, Liberal Radical Independente, Socialista e Comunista, e as plataformas da Frente Democrática Nacional e da Vanguarda Socialista Revolucionária Equatoriana. A ADE elaborou um documento programático que recolheu as demandas históricas dos setores excluídos e consolidou a unidade de ação para a construção nacional. O programa posicionou a demanda por democracia popular, garantindo liberdade de organização e de imprensa; a organização da economia para o aumento da capacidade produtiva tanto na indústria como na agricultura; a melhoria do nível de vida da classe trabalhadora e do campesinato e o estabelecimento de um salário digno; a plena “integração do índio e do montubio” e a promoção da educação; democratização das Forças Armadas e colaboração continental contra as forças fascistas.</p>
<p>Nessa conjuntura, em 28 de maio de 1944, ocorreu uma grande insurreição popular contra o governo de Arroyo del Río, liderada por forças populares: trabalhadores, estudantes, indígenas e mulheres articuladas através da ADE. Em 29 de maio, quando o presidente Arroyo se refugia pela primeira vez na Embaixada da Colômbia, os carabineiros vão à sede da ADE para indicar que não atacarão, só se defenderão se forem atacados e, finalmente, os militares reconhecem o direito à insurreição e a direção da ADE. Nela Martínez vê o vácuo de poder e decide ocupar o Palácio do Governo acompanhada de estudantes. Nela foi ministra do Governo e esteve à frente do país durante três dias épicos.</p>
<p>Do Ministério eu ordenei a libertação dos prisioneiros, principalmente os do Movimento Antifascista, que se encontravam em diferentes províncias ou confinados no Leste, por lutarem contra o regime de Arroyo del Río. Todo o país foi informado de que o ADE assumiu a Presidência da República; pedimos que fossem organizados governos setoriais para impedir a ação da contrarrevolução – embora o termo não seja exato. Ordenei o que tinha que ser ordenado: a coordenação de toda a atividade em escala nacional (Martínez; Costales, 2018).</p>
<p>Quando Velasco Ibarra finalmente chegou — ele estava no norte do país na época do levante — em vez de convocar eleições, se instalou diretamente no poder. Nela percebeu que a revolta popular havia sido traída e deixou o Palácio sem aceitar nenhum cargo. Velasco fecha imediatamente a repartição pública onde ela trabalhava, deixando-a desempregada.</p>
<p>Uma Assembleia Constituinte, composta por representantes dos trabalhadores e de diversos setores sociais anteriormente excluídos, promulgou uma nova Constituição em 1945, que consagrou os direitos sociais a favor da classe trabalhadora e dos indígenas, subordinando a propriedade privada ao interesse geral e reconhecendo os direitos ancestrais em terras comunitárias. Da mesma forma, garantiu a representação parlamentar de trabalhadores, indígenas, educadores e outros setores anteriormente excluídos por meio do sistema funcional<a href="#_ftn3" name="_ftnref3"><sup>[3]</sup></a> de eleição.</p>
<p>Lideradas por Nela, as mulheres da AFE buscaram representação política formal na Assembleia, pela qual tiveram que lutar apesar de já terem direito ao voto e terem participado ativamente de La Gloriosa. Na assembleia realizada na Central de Trabalhadores do Equador (CTE) para designar os candidatos à Assembleia Nacional Constituinte, os líderes comunistas manobraram para que a candidatura a principal parlamentar não recaísse sobre Nela Martínez, apesar do apoio a seu favor. Apesar disso, Nela concorreu como deputada substituta, conquistou a cadeira e quando finalmente foi eleita, em 1945, tornou-se a primeira mulher deputada no Equador. Essa foi talvez a primeira grande batalha interna que Nela teve que travar contra a discriminação de gênero muito clara de seus próprios companheiros do PCE.</p>
<p>Velasco Ibarra aproveitou as lutas internas da ADE, multipartidarista e interclassista, e manobrou para revogar a Constituição de 1945 e se proclamar ditador em 1946. A contrarrevolução que liderou ajudou a consolidar o poder de setores conservadores no Estado, mas não conseguiu enfraquecer de imediato o ímpeto da organização popular construída nas duas décadas anteriores.</p>
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<div id="attachment_57915" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-57915" class="wp-image-57915 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/04_FDNC14-NME-1-CONGRESO-MUJ-TRA-1956.jpg" alt="" width="950" height="1089" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/04_FDNC14-NME-1-CONGRESO-MUJ-TRA-1956.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/04_FDNC14-NME-1-CONGRESO-MUJ-TRA-1956-262x300.jpg 262w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/04_FDNC14-NME-1-CONGRESO-MUJ-TRA-1956-893x1024.jpg 893w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/04_FDNC14-NME-1-CONGRESO-MUJ-TRA-1956-768x880.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-57915" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #582e50;">Intervenção de Nela Martínez no Primeiro Congresso da Mulher Trabalhadora. Quito, 1956. Créditos: Pacheco/Arquivo Martínez-Meriguet </span></small></p></div>
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<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #582e50;"><strong>Militante comunista internacionalista</strong></span></h2>
<p>Após a derrota das forças populares em maio de 1944, Nela Martínez se distanciou completamente do governo e dedicou anos importantes à luta internacionalista.</p>
<p>Em uma longa viagem que começou com um convite para o Congresso Interamericano de Mulheres na Guatemala, em 1946, ela ajudou clandestinamente na reorganização do Partido Comunista daquele país, banido pela ditadura, e na formação de uma organização nacional de mulheres, a Aliança Feminina. Em Honduras e na Nicarágua, ela conheceu em primeira mão a repressão da militância comunista. Na Costa Rica e no Panamá, encontrou partidos comunistas mais organizados que podiam participar da política local. Finalmente, na Colômbia, desempenhou um papel importante na formação da Alianza de Mujeres.</p>
<p>Em 1949, ela inicia uma estadia de um ano na Europa. Viaja a Paris como representante das mulheres comunistas do Equador, convidada pela Federação Democrática Internacional de Mulheres, onde contribui para a organização do Primeiro Congresso Mundial pela Paz. Em seguida foi convidada a participar de um encontro internacional de mulheres comunistas em Moscou. Essa viagem lhe permitiu conhecer dirigentes e militantes comunistas, não só de vários países europeus, mas também de Cuba, escala da sua viagem transatlântica, país onde criou laços que se fortaleceriam ainda mais após o triunfo da Revolução Cubana em 1959.</p>
<p>Após sua viagem, Nela retorna à sua militância no Partido Comunista do Equador e na AFE. Junto com Dolores Cacuango, Luisa Gómez de la Torre e outros militantes comunistas, trabalhou nos anos seguintes na consolidação de escolas indígenas em Cayambe.</p>
<p>Em 1950, Nela se casou com Raymond Mériguet, militante comunista e antifascista francês, como mencionado, um dos fundadores e secretário-geral do Movimento Popular Antitotalitário do Equador (MPAE). Mériguet se estabeleceu no Equador na década de 1930 e os dois se conheciam desde a época do MPAE. Tiveram três filhos e compartilharam vida e militância até a morte dele, em 1988.</p>
<p> </p>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #582e50;"><strong>A União Revolucionária de Mulheres do Equador</strong></span></h2>
<p>Nas décadas de 1950 e 1960, o PCE enfrentou fortes tensões em torno da luta armada e da participação de mulheres e jovens. A morte de Stalin em 1953 coloca em questão o chamado “culto ao líder” e o triunfo da Revolução Cubana em 1959 abre fortes debates sobre a luta armada. O PCE, que em seu congresso de 1962 havia definido que a luta armada era o caminho para a revolução, sancionou e expulsou, em 1964, militantes que organizaram uma tentativa de guerrilha em 1962 com a frente de massas da juventude do partido, a União Revolucionária da Juventude Equatoriana ( URJE).</p>
<p>Entre 1954 e 1955, três projetos foram apresentados ao Comitê Central do PCE para criar uma organização de mulheres. A Comissão Nacional da Mulher do PCE apresentou dois (provavelmente elaborados por Nela Martínez e Luisa Gómez de la Torre): uma Organização de Mulheres Democráticas e depois uma Federação Democrática de Mulheres Equatorianas. Por sua vez, Pedro Saad e Rafael Echeverría, do Comitê Central, apresentaram um “Plano de Organização do Trabalho entre Mulheres”. Finalmente, foi criada a União Democrática de Mulheres Equatorianas (Salazar, 2017b) sobre a qual há muito pouca informação.</p>
<p>Em um incidente pouco claro, mas expresso como “confrontos internos com membros do Comitê Central”, Nela Martínez foi suspensa do PCE em 1957 (ibid). Nos anos seguintes, além de cuidar de seus três filhos pequenos, dedicou-se à ação feminista e à solidariedade com os refugiados que chegaram ao país fugindo das múltiplas ditaduras do continente.</p>
<p>O PCE manteve seu alinhamento com a URSS e a linha de criar alianças com a burguesia e a pequena burguesia para participar das eleições. Além de vários episódios de expulsão de militantes chamados de ultra-esquerdistas, a partir de então o PCE passou a criticar duramente o Partido Comunista Chinês, em repetidas ocasiões. Um grupo de quadros e militantes se separou do PCE em 1964 para criar o Partido Comunista Marxista-Leninista do Equador, de tendência maoísta.</p>
<p>A Revolução Cubana, com seu importante papel feminino e a criação da Federação de Mulheres Cubanas, assim como as guerrilhas vietnamitas, influenciou uma certa abertura do PCE a um maior protagonismo femenino. O PCE entendeu que o papel das mulheres, como o de todos os militantes, era participar da luta de classes para acabar com o capitalismo; porém, suas problemáticas específicas se reduziam à luta pela paz, ao papel materno e à defesa da infância. O PCE sempre considerou que, se houvesse alguma organização de mulheres, ela deveria ser tutelada pelo Comitê Central, tanto pelo perigo do chamado “fracionalismo” quanto por temer a influência reformista do feminismo burguês (Salazar, 2017b, 2018). O compromisso do partido era construir frentes de massas femininas, enquanto a necessidade de melhorar a representação política das mulheres, as condições para sua participação ou o questionamento da divisão sexual do trabalho não faziam parte das propostas da época.</p>
<p>A AFE funcionou apenas até o início da década de 1950, mas boa parte do grupo de mulheres que a formou permaneceu ativo. Estabelecendo vínculos com estudantes universitárias e sindicalistas, essas mulheres criaram em 1962 a União Revolucionária de Mulheres do Equador (URME). Seu objetivo era “a libertação efetiva das mulheres equatorianas que permita a elas exercer seus direitos como cidadãs, sem restrições ou limitações; a real independência do Equador, em pleno exercício de sua soberania; soberania popular como expressão política, social e económica de um povo cujos direitos foram sistematicamente roubados ou traídos” (Estatuto, citado em Salazar, 2017a).</p>
<p>A URME foi criada como uma organização sem uma estrutura hierárquica clássica, que dividiu seu trabalho em torno de comissões. A organização não se identificava como feminista; na verdade, as participantes rejeitaram categoricamente o conceito por considerá-lo burguês e reformista, uma concepção geralmente compartilhada pela esquerda equatoriana da época.</p>
<p>Em 1963, a URME, o Comitê de Unidade pela Paz e Soberania e a União Democrática das Mulheres do Equador convocaram uma reunião para o dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, na qual, além das organizações convocantes, participaram militantes dos partidos socialista, socialista revolucionário e comunista. A reunião foi interrompida por uma briga com membros da Alianza Femenina Universitaria (AFU), organização criada pelo PCE em 1952, que, segundo a URME, compareceu com intenções de “sabotagem”. Após esse incidente, o PCE declarou, em março de 1963, que Nela Martínez já não integrava o partido. Acusaram-na de não ter pedido seu reingresso após se separar em 1957, em uma “atitude contrária à linha do partido” e de atacar os dirigentes. Na mesma situação ficaram os outros dois integrantes de sua célula, Primitivo Barreto e Modesto Rivera. Também foram expulsos do partido Jaime Galarza e José María Roura que foram acusados de sectários: ultraesquerdista o primeiro e maoísta o segundo.</p>
<p>Na realidade, para as dirigentes da URME e especialmente para Nela, a origem do conflito foi que elas se recusaram a permitir que a organização das mulheres fosse totalmente tutelada pelo Comitê Central do PCE. Além disso, Nela (e também sua célula) mantinham diferenças de longa data com o Comitê Central no que diz respeito à relação do PCE com outras forças políticas por considerar que estava influenciado pelo browderismo<a href="#_ftn4" name="_ftnref4"><sup>[4]</sup></a>.</p>
<p>Internacionalmente, a URME estabeleceu relações formais com a Federação Democrática Internacional de Mulheres (FDIM), criada em 1945 e que foi a maior influência do PCE até a década de 1970, especialmente em relação às reivindicações das mulheres comunistas e às formas de organização. Essa filiação foi uma nova fonte de conflito com o PCE, considerado o único interlocutor legítimo da FDIM no Equador.</p>
<p>Nela escreveu sistematicamente para <em>Nuestra Palabra</em>, publicação oficial da URME, fundada em 1963, um marco na imprensa do movimento de mulheres equatorianas. A revista não só publicou sobre a situação da mulher, mas também falava de temas como a dupla discriminação de afro-equatorianas e indígenas, e de questões mais relevantes da situação nacional. O editorial de seu primeiro número expressa a ideologia da organização:</p>
<p>NUESTRA PALABRA vem de um silêncio de séculos, de uma servidão secular, de uma dor que nos pesa como parte de um povo sofredor, cujo fardo aumenta quando se é mulher. Temos que dizer Nuestra Palavra para expressar um pensamento: a libertação das mulheres tem que ser obra delas mesmas. Nossa voz foi silenciada, ignorada, difamada. O selo de uma sociedade injusta pesou como uma lápide no destino das mulheres equatorianas. As sobrevivências patriarcais e feudais, os preconceitos burgueses, o egoísmo das classes dominantes, estendem-se a todos os setores, mesmo àqueles que, por sua natureza revolucionária, deveriam ser os primeiros a limpar as teias de aranha de suas mentes (citado en Martínez y Costales, 2018).</p>
<p><em>Nuestra Palabra</em> deixou de ser publicada após quatro números, quando o quinto foi interrompido após um golpe de Estado. A Junta Militar que tomou posse começou a reprimir todas as organizações de esquerda, mas principalmente as comunistas, declarando oficialmente o comunismo e o PCE ilegais. A URME teve que ir para a clandestinidade. Vários militantes tiveram que se esconder ou se exilar. Nela se refugiou com seus três filhos menores na casa de sua mãe em Cañar, sua cidade natal.</p>
<p>A URME permaneceu ativa até 1966 — o mesmo ano do fim da ditadura —, fora da tutela que o PCE pretendia exercer por meio de algumas de suas integrantes. Continuaram a reunir e distribuir panfletos de resistência em defesa das pessoas privadas de liberdade e perseguidas, contra o imperialismo estadunidense, claramente refletido nas ações da Junta Militar, rejeitando o bloqueio contra Cuba e a favor da soberania mundial, da paz e do desarmamento. Colaboraram constantemente com outras organizações de mulheres, como o Comitê Feminino de Defesa dos Direitos Humanos, a Frente Nacional das Mulheres contra a Ditadura e a Comissão de Direitos Humanos. As razões para a dissolução da organização não são claras.</p>
<p> </p>
<div id="attachment_58023" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-58023" class="wp-image-58023 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/F-180.jpg" alt="" width="950" height="627" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/F-180.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/F-180-300x198.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/F-180-768x507.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-58023" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #582e50;">Aula em uma das escolas bilíngues para indígenas, criadas pela Federação Equatoriana de Índios em Cayambe que Luisa Gómez de la Torre e Nela Martínez contribuíram para formar.</span><br><span style="color: #582e50;">Créditos: Blomberg/Arquivo Martínez-Meriguet</span></small></p></div>
<p> </p>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #582e50;"><strong>Luta contra as ditaduras e solidariedade com a Revolução sandinista</strong></span></h2>
<p>Sempre, mas com maior ênfase na década de 1970, a casa Martínez Meriguet acolheu muitos refugiados políticos das ditaduras que assolaram a América Latina. Em 1983, Nela Martínez participou ativamente da formação da Frente Continental de Mulheres pela Paz e contra a Intervenção. Fez parte da Coordenação, como plataforma para denunciar, tanto no Equador como internacionalmente, o plano intervencionista dos Estados Unidos. A Frente Continental Feminina nasceu sob o signo da solidariedade internacional latino-americana: Cuba, bloqueada e vitoriosa; Nicarágua, sob a guerra imposta por Reagan; Guatemala e El Salvador, em heróica luta pelos direitos de seus povos; o Chile, sob a cruel ditadura civil-militar de Pinochet; Argentina, com sua guerra e seus 30 mil mortos e desaparecidos.</p>
<p>Durante as reuniões internacionais, foram ratificados quatro pontos essenciais:</p>
<ol>
<li>A solidariedade que as mulheres constroem diariamente.</li>
<li>Anti-imperialismo forte e combativo.</li>
<li>A necessidade de autodeterminação.</li>
<li>A consciência da condição da mulher, o aprofundamento da sua autoestima e a vontade de lutar contra todas as formas de discriminação.</li>
</ol>
<p>Durante os anos 1980, o Comitê também convocou as mulheres da América Latina a reconhecer e homenagear Manuela Sáenz, uma heroína de Quito da independência sul-americana, em sua qualidade de política e por sua participação direta nas batalhas pela independência.</p>
<p> </p>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #582e50;"><strong>Solidariedad</strong><strong>e a Cuba</strong></span></h2>
<p>Em 1977, Nela fundou, ao lado de outros intelectuais, o Instituto Cultural José Martí. Dois anos depois, em 1979, com o retorno à democracia, após o último período da ditadura (1971-1979), o Equador retomou as relações diplomáticas com a ilha. Nesse momento, Nela devolve ao novo embaixador a bandeira que lhe havia sido entregue para custódia quando, em 1962, o Equador, pressionado pelos Estados Unidos, rompeu relações diplomáticas com Cuba.</p>
<p>Nela apoiou a iniciativa liderada por Oswaldo Guayasamín, o mais importante pintor equatoriano do século passado, com laços estreitos com a Revolução Cubana e membro destacado do Instituto Cultural Equatoriano-Cuba José Martí, de criar a Coordenação Nacional Equatoriana de Amizade e Solidariedade a Cuba, em 1992, entidade que presidiu por vários anos.</p>
<p>Além disso, em solidariedade com a Nicarágua, Nela Martínez fundou a Casa da Amizade Equatoriano-Nicaraguense e deu continuidade ao trabalho do Tribunal Anti-imperialista de Nossa América.</p>
<p>Nela escreveu artigos e ensaios durante toda a vida, mas também poesia e alguns contos. Os seus textos foram por vezes publicados em jornais, mas sobretudo em publicações e revistas comunistas e nas diferentes organizações feministas e antifascistas nas quais militou. Muitas vezes – mais de 100, ela diz em uma entrevista – publicou sob pseudônimos. Cada vez que uma das frequentes ditaduras ou governos autoritários do Equador descobria que era ela, uma mulher comunista, que escrevia sob um certo pseudônimo, esse pseudônimo era proibido e ela tinha que inventar um novo.</p>
<p> </p>
<div id="attachment_57925" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-57925" class="wp-image-57925 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/07_F082-URME.jpg" alt="" width="950" height="632" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/07_F082-URME.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/07_F082-URME-300x200.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/07_F082-URME-768x511.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-57925" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #582e50;">Mulheres da União Revolucionária de Mulheres do Equador (URME). Quito, 1963. </span><br><span style="color: #582e50;">Créditos: Utreras/Arquivo Martínez-Meriguet</span></small></p></div>
<p> </p>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #582e50;"><strong>Oposi</strong><strong>ção à Base militar em Manta e ao Plano Colômbia</strong></span></h2>
<p><strong> </strong>Nela permaneceu ativa até seus últimos dias. Na década de 1990, <a href="https://www.voltairenet.org/article121639.html">se opôs à participação do Equador no Plano Colômbia</a>, uma iniciativa estadunidense que fazia parte do que chamam de “Guerra às Drogas”, mais um passo nas constantes tentativas de controle geopolítico da América Latina por parte dos EUA, nesse caso por meio da penetração na polícia e exércitos.</p>
<p>Em 2000, como presidenta da Frente Continental de Mulheres, Nela participou de um processo contra o estabelecimento de uma base militar estadunidense no porto de Manta. A base foi estabelecida, mas teve que ser desmantelada após a aprovação em 2008 de uma nova Constituição que proíbe bases militares estrangeiras em território equatoriano. Em maio de 2003, Nela, ao receber o prêmio Dra. Matilde Hidalgo de Prócel,<a href="#_ftn5" name="_ftnref5"><sup>[5]</sup></a> disse:</p>
<p>A colonização retorna. Especificamente, a terra do lutador e presidente Eloy Alfaro é hoje estadunidense. Manta; base de barcos e implementos de guerra e empréstimo para o novo ataque ianque. Também Esmeraldas e toda a sua baía e possivelmente Galápagos. Nós, os sobreviventes, aprendemos – eu em uma escola de freiras – a amar os feitos de Bolívar e seus exércitos de patriotas. Como sairemos dessa colonização? Como podemos nos justificar diante de nossa covardia?</p>
<p>Nos anos 1980 uma doença a deixou quase paralisada, mas conseguiu se recuperar graças a seus enormes esforços e depois de dois anos de intensa reabilitação. Apesar de sua doença, seguiu trabalhando duro nas décadas seguintes.</p>
<p>Em 2004, Nela, já bastante doente, foi a Havana para receber tratamento médico e lá morreu, em julho do mesmo ano. Suas cinzas repousam tanto em Havana quanto em Quito. Recebeu duas homenagens nos dois países.</p>
<p>—</p>
<p>Este estudo foi realizado por uma equipe composta por Pilar Troya, do Instituto Tricontinental de Pesquisas Sociais, a historiadora Valeria Coronel, e Daniela Schroder e Iván Orosa, que fizeram parte do grupo de pesquisa sobre Nela Martínez formado no curso “Marxismo e libertação”, realizado em 2020 pelo Instituto Tricontinental de Pesquisa Social e pela Assembleia Internacional dos Povos.</p>
<p>Esta é uma publicação conjunta com o Arquivo Martínez-Meriguet, instituição a quem agradecemos a enorme abertura e a dedicada colaboração na pessoa de Nela Meriguet Martínez.</p>
<p> </p>
<div id="attachment_57935" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-57935" class="wp-image-57935 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/03_RECORTE-FOTO-10-AGOSTO1993-ANA-NME.jpg" alt="" width="950" height="1203" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/03_RECORTE-FOTO-10-AGOSTO1993-ANA-NME.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/03_RECORTE-FOTO-10-AGOSTO1993-ANA-NME-237x300.jpg 237w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/03_RECORTE-FOTO-10-AGOSTO1993-ANA-NME-809x1024.jpg 809w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/03/03_RECORTE-FOTO-10-AGOSTO1993-ANA-NME-768x973.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-57935" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #582e50;">Mulheres de vários movimentos políticos na Plaza de la Independencia, Quito, manifestam-se em defesa da soberania nacional; no centro Nela Martínez, em 10 de agosto de 1993.</span><br><span style="color: #582e50;">Fonte: Arquivo Martínez-Meriguet<br></span></small></p></div>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #582e50;"><strong>Referências bibliográficas</strong></span></h3>
<p>Fontes primárias:</p>
<p>Archivo Martínez Mériguet (Quito, Ecuador)</p>
<p>Fondo Epistolario entre Nela Martínez Espinosa y Joaquín Gallegos Lara</p>
<p>Documento N-19300101, Carta de Nela Martínez a Joaquín Gallegos, 1 de enero de 1930.</p>
<p>Documento N-19320102, Carta de Nela Martínez a Joaquín Gallegos, 2 de enero de 1932.</p>
<p>Documento J-19301123, Carta de Joaquín Gallegos a Nela Martínez, 23 de noviembre de 1930.</p>
<p>Becker, Marc</p>
<p>“Comunistas, indigenistas e indígenas en la formación de la Federación Ecuatoriana de Indios y el Instituto Indigenista Ecuatoriano”. <em>Íconos, no 27</em>, Quito: FLACSO, 2006.</p>
<p>“Ecuador, izquierda y movimientos populares”, 1940s-present, en <em>International Encyclopedia of Revolution and Protest: 1500 to the Present</em>, ed. Immanuel Ness (Hoboken, Wiley-Blackwell), 2009.</p>
<p>“Construcciones de nacionalidades indígenas en el pensamiento marxista ecuatoriano”, en <em>Izquierdas, movimientos sociales y cultura política en América Latina</em>, ed. Lazar Jeifets, Víctor Jeifets y Miguel Ángel Urrego. Universidad Michoacana de San Nicolás de Hidalgo; Universidad Estatal de San Petersburgo, 2016.</p>
<p>Cabrera Hanna, Santiago, <em>La Gloriosa, ¿Revolución que no fue?</em> Biblioteca de Historia, 46, Universidad Andina Simón Bolívar, 2016.</p>
<p>Coronel, Valeria</p>
<p>“La Fragua de la Voz: Cartas sobre Revolución, Subjetividad y Cultura Nacional-Popular”, en Alemán, Gabriela y Coronel, Valeria (eds.), <em>Vienen Ganas de Cambiar el Tiempo. Epistolario entre Nela Martínez Espinosa y Joaquín Gallegos Lara 1930 a 1938</em>. Instituto Metropolitano de Patrimonio y Archivo Martínez-Meriguet, 2012.</p>
<p>“La Revolución gloriosa: una relectura desde la estrategia de la hegemonía de la izquierda de entreguerras.” en <em>La Gloriosa: la revolución que no fue</em>. Corporación Editora Nacional y Universidad Andina Simón Bolívar, Sede Ecuador, 2016</p>
<p>“Izquierdas, sindicatos y militares en el bloque democrático del Ecuador de entreguerras (1925-1945)”, en Camarero, Hernán y Mangiantini, Martín, eds. <em>El </em><em>movimiento obrero y las izquierdas en América Latina. Experiencias de lucha, inserción y organización</em>, Volumen I. Contracorriente, 2018.</p>
<p>“The Ecuadorian Left during Global Crisis: Republican Democracy, Class Struggle and State Formation (1919-1946)”. En: <em>Words of Power, the Power of Words. The Twentieth-Century Communist Discourse in International Perspective</em>. EUT Edizioni, Università di Trieste, 2020.</p>
<p><em>El Estado Indoamericano: reforma, democracia y socialismo en el Ecuador de entreguerras</em>. en prensa, FLACSO, Colección Atrio, 2022.</p>
<p>Ibarra, Hernán. <em>El pensamiento de la izquierda comunista (1928-1961)</em>. Quito, Ministerio de Coordinación de la Política y Gobiernos Autónomos Descentralizados, 2013.</p>
<p>Laurini, Tania. “Ser mujer y rebelde nunca fue fácil”. 9 de marzo de 1992. Disponible en: <a href="https://hoy.tawsa.com/noticias-ecuador/nacer-en-1912-ser-mujer-y-ser-rebelde-nunca-fue-facil-61358.html">https://hoy.tawsa.com/noticias-ecuador/nacer-en-1912-ser-mujer-y-ser-rebelde-nunca-fue-facil-61358.html</a></p>
<p>Löwy, Michael. “Introducción. Puntos de referencia para una historia del marxismo en América Latina”, en <em>El marxismo en América Latina</em>. Santiago, LOM, 2007.</p>
<p>Martínez Espinosa, Nela</p>
<p>“Prólogo”. En Ycaza, Patricio, Historia del movimiento obrero ecuatoriano. Segunda parte. Centro de Investigación de los Movimientos Sociales del Ecuador (CEDIME) – Centro de Investigaciones CIUDAD, 1991.</p>
<p>“Discurso de entrega de la concesión del Premio Manuela Espejo”. 8 de marzo de 2001. Disponible en: <a href="https://www.voltairenet.org/article121639.html">https://www.voltairenet.org/article121639.html</a></p>
<p>“Carta de Nela Martínez a sus camaradas comunistas”, 23 de mayo de 2001. Disponible en: <a href="https://www.voltairenet.org/article121691.html">https://www.voltairenet.org/article121691.html</a></p>
<p>“Manifiesto del Comité Ecuatoriano por la Paz y la Soberanía”. 4 de julio de 2001. Disponible en: <a href="https://www.voltairenet.org/article121693.html">https://www.voltairenet.org/article121693.html</a>,</p>
<p>“Carta a Fidel Castro”. 21 de mayo de 2003. Disponible en: <a href="https://www.voltairenet.org/article121688.html">https://www.voltairenet.org/article121688.html</a></p>
<p>“Discurso de entrega de la concesión del Premio Dra. Matilde Hidalgo de Prócel”. 27 de mayo de 2003. Disponible en: <a href="https://www.voltairenet.org/article121689.html">https://www.voltairenet.org/article121689.html</a></p>
<p><em>Insumisas. Textos sobre las mujeres.</em> Quito: Ministerio Coordinador de Patrimonio, 2012.</p>
<p>Martínez, Nela y Ximena Costales. <em>Yo siempre he sido Nela Martínez Espinosa. Una autobiografía hablada</em>. UNAE, 2018.</p>
<p>Meriguet Cousségal, Raymond. <em>Antinazismo en el Ecuador. Años 1941-1944.</em> Quito, edición del autor, 1988.</p>
<p>Meriguet Calle<em>, </em>Pablo Raymond. “Antifascismo en el Ecuador (1941-1944): Historia del Movimiento Popular Antitotalitario del Ecuador y del Movimiento Antifascista del Ecuador”. Disertación para la obtención de la Licenciatura en Historia, Pontificia Universidad Católica del Ecuador, 2013.</p>
<p>Mora, Galo. <em>Revolucionarias del siglo XX</em>. Quito: Ministerio del Trabajo, 2015.</p>
<p>Muñoz Vicuña, Elías “Temas obreros” en <em>Biblioteca de autores ecuatorianos, 62</em>. Departamento de Publicaciones de la Facultad de Ciencias Económicas de la Universidad de Guayaquil, 1986.</p>
<p>Prashad, Vijay. “Belgrado, la Conferencia del Movimiento de los No Alineados de 1961” y “La Habana, la Conferencia Tricontinental de 1966”, en <em>The Darker Nations, A People’s History of the Third World</em>. The New Press, 2007.</p>
<p>RomoLeroux , Ketty. “Nela Martinez Espinosa, revolucionaria ejemplar”. 18 de febrero de 2016. Disponible en: <a href="https://www.eltelegrafo.com.ec/noticias/columnistas/15/nela-martinez-espinosa-revolucionaria-ejemplar">https://www.eltelegrafo.com.ec/noticias/columnistas/15/nela-martinez-espinosa-revolucionaria-ejemplar</a></p>
<p>Rodas, Germán. <em>La izquierda ecuatoriana en el siglo XX</em>. Editorial Abya Yala, 2000.</p>
<p>Salazar, Tatiana</p>
<p>“La experiencia militante de la Unión Revolucionaria de Mujeres del Ecuador (URME), 1962-1966”. Tesis para la obtención de la Maestría en Historia. Universidad Andina Simón Bolívar. Sede Ecuador, 2017.</p>
<p>“La militancia política femenina en la izquierda marxista ecuatoriana de la década de los sesenta: La URME y el PCE”. <em>Procesos</em>, No 46, 2017.</p>
<p>“Una lectura a la versátil militancia de la Alianza Femenina Ecuatoriana, 1938- 1950”. <em>Trashumante</em>, no 8, 2018.</p>
<p>“Ecuatorianas comunistas entre las décadas de los 60 y 70: estrategias locales para intereses internacionales”, <em>Crisol, N<sup>o</sup> 20: Las mujeres en los Andes (siglos XIX-XXI): entre la participación y la disputa. </em>Centre de Recherches Ibériques et Ibéro-américaines de l’Université Paris Nanterre, 2022.</p>
<p>Ycaza, Patricio. <em>Historia del movimiento obrero ecuatoriano. Segunda parte</em>. Centro de Investigación de los Movimientos Sociales del Ecuador (CEDIME) – Centro de Investigaciones CIUDAD, 1991.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #582e50;">Notas</span></h3>
<p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1"><sup>[1]</sup></a> Ala esquerda do Partido Liberal que ao lado de  algumas organizações sociais de base argumentava a favor da luta armada e por sempre antepor a vontade popular.</p>
<p><a href="#_ftnref2" name="_ftn2"><sup>[2]</sup></a> Na língua quéchua, significa carregadores, em referência aos indígenas que transportavam todo tipo de mercadoria nos ombros.</p>
<p><a href="#_ftnref3" name="_ftn3"><sup>[3]</sup></a> Eleição de uma parte dos deputados do Congresso de modo que representassem especificamente setores da sociedade como professores, estudantes, cientistas, industriais, comerciantes, mas também trabalhadores, camponeses e indígenas.</p>
<p><a href="#_ftnref4" name="_ftn4"><sup>[4]</sup></a> O browderismo foi uma corrente ideológica marxista de curta duração que sustentava a necessidade de que os partidos comunistas fizessem alianças e criassem frentes interclassistas com governos e setores de centro e direita em nome de enfrentar a ameaça do fascismo. Seu nome deriva do secretário geral (1930-1945) e presidente (1932-1945) do Partido Comunista dos Estados Unidos, Earl Browder e teve influência sobretudo na América Latina. Nela Martínez escreveu posteriormente um artigo a respeito: “Pedro Saad e o browderismo”, em <em>Mañana</em>, Época III, n. 225, 11 jan. 1968, p. 16. (citado en Ycaza, 1991).</p>
<p><a href="#_ftnref5" name="_ftn5"><sup>[5]</sup></a> Discurso ao receber este reconhecimento, concedido pelo Congresso Nacional (atual Assembleia Nacional) do Equador, que leva o nome da primeira mulher a votar no país, no ano de 1924 Dra Matilde Hidalgo, além de pioneira na luta pelo sufrágio feminino no país, conquistado em 1929, foi a primeira médica e a primeira mulher candidata a (e eleita) vereadora.</p>
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		<title>Dossiê 10: Argentina de volta ao FMI</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/argentina-de-volta-ao-fmi/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[celina]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 13 Nov 2018 11:27:26 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dossiê]]></category>
		<category><![CDATA[feminism]]></category>
		<category><![CDATA[Argentina]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://www.thetricontinental.org/?p=3225</guid>

					<description><![CDATA[Nela Martínez Espinosa (1912-2004), militante popular equatoriana, foi uma figura central nas lutas da classe trabalhadora e das mulheres no Equador no século 20.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p></p><div class="iframe-container"><iframe loading="lazy" src="https://www.youtube.com/embed/3L9meTrLmVY" width="853" height="480" frameborder="0" allowfullscreen="allowfullscreen"></iframe></div>
<p>Por seis meses, a Argentina vem sofrendo com uma nova crise econômica e social de larga escala. Em uma conjuntura de desvalorização da moeda local, crescente inflação e uma profunda recessão, a administração de Macri fechou um acordo com o FMI, marcando uma importante mudança para o futuro do país. O acordo corta gastos públicos e priorizam o pagamento da dívida, entre outras medidas. Este dossiê examina as diferentes dimensões da crise, as disputas abertas e as possibilidades para o futuro imediato.</p>
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