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	<title>Hegemonía | Tricontinental: Institute for Social Research</title>
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		<title>Os Estados Unidos em busca de uma Nova Guerra Fria: uma perspectiva socialista</title>
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		<dc:creator><![CDATA[ariana]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 13 Sep 2022 03:00:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dilemas contemporâneos]]></category>
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					<description><![CDATA[Os Estados Unidos se empenham em travar uma Nova Guerra Fria contra a Rússia e a China, mesmo correndo o risco de destruir o planeta.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><b>Sumário</b></span></h3>
<ol start="1">
<li><a href="#section_1">Introdução</a> Vijay Prashad</li>
<li><a href="#section_2">O que motiva os EUA a aumentarem a ofensiva militar internacional?</a> John Ross (Luo Siyi)</li>
<li><a href="#section_3">Quem está levando os Estados Unidos à guerra?</a> Deborah Veneziale</li>
<li><a href="#section_4">“Notas sobre exterminismo” para os movimentos de ecologia e paz do século 21</a> John Bellamy Foster</li>
</ol>
<p> </p>
<p><img decoding="async" class="aligncenter wp-image-64189 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/09/mrs_logos.png" alt="Tricontinental Institute, Monthly Review Press and " width="600" height="51" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/09/mrs_logos.png 600w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/09/mrs_logos-300x26.png 300w" sizes="(max-width: 600px) 100vw, 600px"></p>
<p> </p>
<p><a name="section_1"></a></p>
<h1 class="mrst_section_title mrst_section_title_1"><span style="color: #ba2025;"><strong>Introdução</strong></span></h1>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #ba2025;">Vijay Prashad</span></h2>
<p> </p>
<p>Na reunião do Fórum Econômico Mundial em Davos (Suíça), em 23 de maio de 2022, o ex-secretário de Estado estadunidense Henry Kissinger fez algumas observações sobre a Ucrânia que foram ao ponto. Em vez de ser pego “no clima do momento”, disse Kissinger, o Ocidente — liderado pelos Estados Unidos — precisa permitir um acordo de paz que satisfaça os russos. “Buscar a guerra além [deste] ponto não seria [algo] sobre a liberdade da Ucrânia, mas uma nova guerra contra a própria Rússia”, comentou Kissinger. A maioria das reações do <em>establishment</em> da política externa ocidental foi revirar os olhos e rejeitar os comentários de Kissinger. Kissinger, que não é nenhum pacifista, no entanto, apontou não só para o grande perigo da escalada em direção ao estabelecimento de uma nova cortina de ferro ao redor da Ásia, mas também para uma possível guerra aberta e letal entre o Ocidente e a Rússia e a China. Esse tipo de resultado impensável foi demais, mesmo para Henry Kissinger, cujo chefe, o presidente Richard Nixon, falava frequentemente da “Teoria do Louco” nas relações internacionais; Nixon disse a seu chefe de gabinete, Bob Haldeman, que ele tinha “a mão no botão nuclear” para assim amedrontar Ho Chi Minh e forçá-lo a ceder.</p>
<p>Durante a invasão ilegal do Iraque pelos EUA em 2003, falei com um membro sênior do Departamento de Estado estadunidense que me disse que a teoria predominante em Washington equivalia a um simples <em>slogan</em>: dor de curto prazo para ganho de longo prazo. Ele explicou que a visão geral era de que as elites do país estão dispostas a tolerar a dor de curto prazo para outros países – e talvez dos trabalhadores dos Estados Unidos, que poderiam passar por dificuldades econômicas devido às perturbações e carnificinas criadas pela guerra. Esse preço, no entanto, resultará, se tudo correr bem, em ganhos de longo prazo, pois os Estados Unidos conseguiriam manter o que tem procurado conservar desde o fim da Segunda Guerra Mundial: sua primazia. Se tudo correr bem foi a premissa que me fez tremer enquanto ele falava, mas o que me abalou igualmente foi a insensibilidade sobre quem deve suportar a dor e quem irá desfrutar do ganho. Foi também cinicamente repetido que valia a pena o preço que o povo iraquiano e os soldados da classe trabalhadora dos EUA pagariam (com a vida inclusive), desde que grandes empresas petrolíferas e financeiras pudessem desfrutar das conquistas de um Iraque derrotado. Essa atitude — dor a curto prazo, ganho a longo prazo — é a alucinação definitiva das elites dos Estados Unidos, que não estão dispostas a tolerar o projeto de construção da dignidade humana e da longevidade da natureza.</p>
<p>Dor a curto prazo, ganho a longo prazo define a perigosa escalada dos Estados Unidos e seus aliados ocidentais contra a Rússia e a China. O que é impressionante sobre a postura dos Estados Unidos é que busca evitar um elemento histórico que parece inevitável: o processo de integração eurasiano. Após o colapso do mercado imobiliário dos EUA e a maior crise de crédito no setor bancário ocidental, o governo chinês buscou, ao lado de outros países do Sul Global, construir plataformas que não dependessem dos mercados da América do Norte e da Europa. Essas plataformas incluíram a criação dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) em 2009 e o anúncio do “Um Cinturão, Uma Rota” (posteriormente, “Iniciativa do Cinturão e Rota” – ICR -, ou a “Nova Rota da Seda”), em 2013. O fornecimento de energia russa e suas enormes explorações metálicas e minerais, ao lado da capacidade industrial e tecnológica chinesa, atraíram muitos países a se associarem à ICR (a exportação russa de energia está implícita nesse processo), independente de sua orientação política. Esses países incluíam Polônia, Itália, Bulgária e Portugal. A Alemanha é hoje o maior parceiro comercial da China no comércio de mercadorias.</p>
<p>O fato histórico da integração eurasiana ameaça a primazia dos Estados Unidos e das elites atlânticas. É essa ameaça que impulsiona a perigosa tentativa dos Estados Unidos de usar qualquer meio para “enfraquecer” tanto a Rússia quanto a China. Velhos hábitos continuam a dominar Washington, que há muito busca primazia nuclear para negar a teoria da distensão [<em>détente</em>]. Os Estados Unidos desenvolveram uma capacidade nuclear e uma postura que lhe permitiria destruir o planeta para manter sua hegemonia. As estratégias para enfraquecer a Rússia e a China incluem uma tentativa de isolar esses países por meio da escalada da guerra híbrida imposta pelos EUA (sanções e guerra de informações) e o desejo de desmembrá-los e dominá-los perpetuamente.</p>
<p>Os três ensaios neste volume analisam de perto e de forma racional as tendências de longo prazo que se manifestam agora na Ucrânia.</p>
<p>John Bellamy Foster, editor da revista Monthly Review, catalogou a teoria da “dominação por escalada” do <em>establishment</em> estadunidense, que está disposto a encarar os riscos de um inverno nuclear — ou seja, a aniquilação — para manter sua supremacia. Para além do número real de armas nucleares detidas pela Rússia e pelos Estados Unidos, este último desenvolveu toda uma arquitetura de contra-ataque que acredita poder destruir a Rússia e as armas nucleares chinesas e, em seguida, pulverizar esses países até a submissão. Essa fantasia emerge não apenas nos documentos empolados dos formuladores de políticas dos EUA, mas também aparece ocasionalmente na imprensa, na qual se argumenta sobre a importância de um ataque nuclear contra a Rússia.</p>
<p>Deborah Veneziale, uma jornalista que vive na Itália, escava o mundo social do militarismo nos Estados Unidos, olhando como as várias frações da elite política deste país se uniram para apoiar essa estratégia de confronto contra a Rússia e a China. O mundo íntimo dos <em>think tanks</em> e das empresas de produção de armas, dos políticos e seus escribas, negou as proteções constitucionais de pesos e contrapesos. Há uma corrida ao conflito para que as elites dos EUA possam proteger seu controle extraordinário sobre a riqueza social global (o patrimônio líquido combinado dos 400 cidadãos mais ricos dos EUA está agora perto de 3,5 trilhões de dólares, enquanto as elites globais, muitas delas dos Estados Unidos, acumulam quase 40 trilhões de dólares em paraísos fiscais ilícitos).</p>
<p>John Ross, membro do coletivo No Cold War, escreve que, com o conflito na Ucrânia, os Estados Unidos intensificaram qualitativamente seu ataque militar ao planeta. Esta guerra é perigosa porque mostra que eles estão dispostos a confrontar diretamente a Rússia, uma grande potência, e a intensificar seu conflito com a China “ucranizando” Taiwan. O que pode frear os Estados Unidos, argumenta Ross, é a resiliência da China e seu compromisso em defender sua soberania e seu projeto e o crescente descontentamento no Sul Global contra a imposição dos objetivos da política externa estadunidense. A maioria dos países do mundo não vê esse conflito como seu, uma vez que estão tomados pela necessidade de enfrentar dilemas mais amplos da humanidade. O chefe da União Africana, Moussa Faki Mahamat, disse em 25 de maio de 2022, que a África se tornou “a vítima colateral de um conflito distante entre a Rússia e a Ucrânia”. O conflito está distante não só em termos de espaço, mas também em termos dos objetivos políticos dos países da África, bem como na Ásia e na América Latina.</p>
<p>Este caderno é produzido conjuntamente pela Monthly Review, No Cold War e pelo Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. Nós convidamos você a lê-lo, compartilhá-lo com amigos/as e companheiros/as e discuti-lo onde quer que você tenha a oportunidade. A preciosa vida humana e a longevidade do planeta estão em jogo. É impossível ignorar esses fatos. A maioria das pessoas do mundo gostaria de lidar com nossos problemas reais. Não queremos ser arrastados para um conflito que é impulsionado por um desejo paroquial da elite ocidental de manter seu poder preponderante. Nós defendemos a vida.</p>
<p> </p>
<p><a name="section_2"></a></p>
<h1 class="mrst_section_title mrst_section_title_2"><span style="color: #ba2025;"><strong>O que motiva os Estados Unidos a aumentarem a ofensiva militar internacional?</strong></span></h1>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #ba2025;">John Ross</span></h2>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Introdução</strong></span></h3>
<p>Os eventos que levaram à Guerra da Ucrânia representam uma aceleração qualitativa de uma tendência de mais de duas décadas, nas quais os Estados Unidos intensificaram sua ofensiva militar internacionalmente. Antes da Guerra da Ucrânia, os EUA haviam realizados confrontos militares apenas contra países em desenvolvimento, que tinham forças armadas muito mais fracas e não possuíam armas nucleares: o bombardeio da Sérvia em 1999, a invasão do Afeganistão em 2001, do Iraque em 2003, e o bombardeio da Líbia em 2011. No entanto, a ameaça dos EUA de estender a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) à Ucrânia, que é a principal causa desta guerra, representa algo fundamentalmente diferente. Os Estados Unidos estavam cientes de que levar a Otan para a Ucrânia confrontaria diretamente os interesses nacionais da Rússia, um país com grandes forças militares e um enorme arsenal nuclear. Embora tal atitude cruze as linhas vermelhas russas, os Estados Unidos estavam prontos para correr esse risco.</p>
<p>Os Estados Unidos (ainda) não comprometeram seus próprios soldados neste recente conflito, afirmando que isso ameaçaria uma guerra mundial e arriscaria uma catástrofe nuclear. Mas está, de fato, envolvido em uma guerra por procuração contra a Rússia. Não só insistiram em deixar em aberto a possibilidade de que a Ucrânia pudesse se juntar à Otan, mas também treinaram o exército ucraniano na liderança da guerra, forneceram enormes quantidades de armas e passaram informações satelitais e de inteligência. Até agora, a ajuda de Washington a Kiev foi de cerca de 50 bilhões de dólares.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Como os Estados Unidos empurraram a Ucrânia para a guerra</strong></span></h3>
<p>Os Estados Unidos e seus aliados vêm preparando a Ucrânia para a guerra desde pelo menos 2014, com o envio de centenas de instrutores para treinar os militares ucranianos. A abordagem durante a Guerra do Golfo no Iraque em 1990 foi semelhante, refletindo um modelo que Washington parece estar usando para alcançar seus objetivos geopolíticos. A Rússia foi propositalmente atraída para a situação na Ucrânia a partir do golpe de 2014, quando as forças anti-russas tomaram o poder em Kiev, apoiadas por neonazistas ucranianos, bem como pelos Estados Unidos. Naquela época, o exército ucraniano não era uma poderosa força militar, pois havia sofrido consideravelmente com as “reformas” iniciadas em 1991 após o colapso da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Décadas de negligência e subfinanciamento levaram à deterioração da infraestrutura e dos equipamentos militares, juntamente com o esgotamento moral entre oficiais e soldados. Como diz Vyacheslav Tetekin, membro do Comitê Central do Partido Comunista da Federação Russa, “o exército ucraniano não queria e não podia lutar”.</p>
<p>Após o golpe de 2014, os gastos do Estado foram desviados dos investimentos em bem-estar social e direcionados para a construção de estrutura militar. De 2015 a 2019, o orçamento militar ucraniano aumentou de 1,7 bilhão para 8,9 bilhões de dólares, equivalente a 6% do PIB do país em 2019. Levando em conta a porcentagem em relação ao PIB, os gastos militares foram três vezes maiores comparado à maioria dos países desenvolvidos no Ocidente. Foram alocados fundos volumosos na restauração e modernização da estrutura militar do país, restabelecendo, assim, sua capacidade de combate.</p>
<p>Durante a guerra contra Donbass entre 2014 e 2015  (a região de língua russa no leste do país), a Ucrânia tinha pouco apoio de combate aéreo, já que quase todas as aeronaves de combate estavam precisando de reparos. No entanto, em fevereiro de 2022, a Força Aérea estava equipada com aproximadamente 150 caças, bombardeiros e aeronaves de ataque. O tamanho das Forças Armadas ucranianas também se expandiu enormemente. No final de 2021, a remuneração dos soldados aumentou três vezes, de acordo com os dados de Tetekin. Esse fortalecimento do poder militar, ao lado de poderosas fortificações erguidas perto de Donbass, indica a intenção dos EUA de iniciar conflitos na região.</p>
<p>No entanto, apesar desses preparativos para a guerra, o exército ucraniano não foi capaz de combater seriamente a Rússia. O equilíbrio de forças claramente não estava a favor de Kiev. Isso não importava para os Estados Unidos, que buscavam usar a Ucrânia como bala de canhão contra a Rússia. Segundo Tetekin, “os Estados Unidos planejaram duas opções para a nova e militarizada Ucrânia (…) A primeira foi conquistar Donbass e invadir a Crimeia. A segunda opção era provocar a intervenção armada da Rússia”.</p>
<p>Em dezembro de 2021, ciente do crescente perigo que enfrentava diante de uma Ucrânia sob influência dos EUA, a Rússia buscou um conjunto de garantias de segurança da Otan para desarmar a crise. Em particular, a Rússia exigiu que a Organização encerrasse sua expansão para o leste, incluindo a adesão da Ucrânia. “O Ocidente (…) ignorou essas exigências”, escreveu Tetekin, “sabendo que os preparativos para a invasão de Donbass estavam em pleno andamento. A maioria das unidades prontas para combate do Exército ucraniano, somando 150 mil pessoas, estavam concentradas perto de Donbass. Eles poderiam vencer a resistência das tropas locais em poucos dias, com a destruição completa de Donetsk e Lugansk e a morte de milhares” (Tetekin, 2022)<a href="#_section_2_ftn1" name="_section_2_ftnref1"><sup>1</sup></a>.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Ucrânia é uma escalada qualitativa da agressão militar estadunidense</strong></span></h3>
<p>É evidente tanto pelos fatos políticos fundamentais (a insistência dos EUA no “direito” da Ucrânia de entrar na Otan) quanto pelos fatos militares (o acúmulo de forças armadas da Ucrânia), que os Estados Unidos estavam preparando um confronto, embora isso inevitavelmente envolvesse um embate direto com a Rússia. Consequentemente, ao avaliar a crise da Ucrânia, é importante destacar que os EUA estavam preparados para intensificar suas ameaças militares, indo de ataques a países em desenvolvimento — sempre injustos, mas que não traziam risco direto de conflitos militares com grandes potências ou guerras mundiais — à agressão contra Estados muito fortes, como a Rússia, abrindo a possibilidade de conflitos militares globais. É crucial analisar o que funda essa escalada de ofensiva militar dos EUA. Seria algo temporário, retomando depois um curso mais conciliador, ou o aumento da escalada militar é uma tendência de longo prazo na política dos EUA?</p>
<p>Isso é, naturalmente, de extrema importância para todos os países, mas particularmente para a China, um Estado poderoso. Para tomar apenas um importante exemplo, paralelamente à escalada contra a Rússia, os Estados Unidos não apenas impuseram tarifas contra a economia chinesa e realizaram uma campanha internacional sistemática de mentiras sobre a situação em Xinjiang; como também tentaram minar a política conhecida como “Uma só China” em relação à província de Taiwan.</p>
<p>Entre as ações dos Estados Unidos em relação à província de Taiwan estão:</p>
<ul>
<li>Pela primeira vez desde o início das relações diplomáticas entre EUA e China, o presidente Biden convidou um representante de Taipei para a posse de um presidente estadunidense.</li>
<li>A presidente da Câmara dos Deputados, Nancy Pelosi – o terceiro cargo mais alto dos EUA na ordem de sucessão presidencial – visitou Taipei no dia 12 de agosto de 2022.</li>
<li>Os EUA pediram a participação de Taipei na ONU.</li>
<li>Os EUA intensificaram as vendas de armamentos e equipamentos militares para a ilha.</li>
<li>As delegações estadunidenses que visitam Taipei aumentaram.</li>
<li>Os EUA aumentaram sua presença militar no Mar do Sul da China e tem enviado regularmente navios de guerra através do Estreito de Taiwan.</li>
<li>As Forças de Operações Especiais treinaram tropas terrestres e marinhas</li>
</ul>
<p>Assim como na Ucrânia e Rússia, os Estados Unidos estão plenamente conscientes de que a política “Uma Só China” afeta os interesses nacionais mais fundamentais do país asiático, e tem sido a base das relações EUA-China durante os 50 anos desde a visita de Nixon a Pequim em 1972. Abandoná-la é cruzar as linhas vermelhas chinesas. É, portanto, evidente que os Estados Unidos estão tentando de forma confrontativa minar a política chinesa da mesma forma que deliberadamente decidiram cruzar as linhas vermelhas russas na Ucrânia.</p>
<p>Quanto à questão de saber se essas provocações dos EUA contra a China e a Rússia são temporárias, de longo prazo ou mesmo permanentes, minha conclusão clara é que a tendência de escalada militar dos EUA continuará. No entanto, dado que tal questão, potencialmente envolvendo guerras, é de extrema seriedade e tem consequências práticas extremamente importantes, exageros e meras propagandas são inaceitáveis. O objetivo aqui é, portanto, apresentar de forma factual, objetiva e ponderada as razões pelas quais os Estados Unidos tentarão aumentar ainda mais a sua ofensiva militar durante o próximo período. Além disso, verificarei quais tendências podem servir para neutralizar essa perigosa política dos EUA e quais podem exacerbá-la.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>A posição econômica e militar dos EUA durante a “Velha Guerra Fria” e a “Nova Guerra Fria”</strong></span></h3>
<p>Reduzidas aos fatos mais essenciais, as forças fundamentais que impulsionaram essa escalada da política estadunidense de agressão militar, que já dura mais de duas décadas, são claras. Em primeiro lugar está a perda permanente do peso esmagador da economia dos EUA na produção global, e, em segundo lugar, a preponderância do poder e dos gastos militares dos EUA. Essa assimetria cria um período muito perigoso para a humanidade, no qual os EUA podem tentar compensar seu relativo declínio econômico por meio do uso da força militar. Isso ajuda a explicar os ataques a países em desenvolvimento, bem como seu crescente confronto com a Rússia na Ucrânia. Uma questão importante é se a ofensiva dos EUA aumentará a ponto de incluir um confronto crescente com a China, chegando a cogitar uma guerra mundial. Para responder a essa pergunta, é necessário fazer uma análise precisa da situação econômica e militar dos Estados Unidos.</p>
<p>No aspecto econômico, em 1950, perto do início da primeira Guerra Fria, os Estados Unidos representavam 27,3% do PIB mundial. Em comparação, a URSS, a maior economia socialista do período, representava 9,6%. Em outras palavras, a economia dos EUA era quase três vezes maior que a economia soviética (Maddison, 2001)<a href="#_section_2_ftn2" name="_section_2_ftnref2"><sup>2</sup></a>. Durante todo o período pós-Segunda Guerra Mundial (a primeira Guerra Fria), a URSS nunca chegou perto do PIB dos EUA, pois representava apenas 44,4% dele em 1975. Ou seja, mesmo no auge do relativo desenvolvimento econômico soviético, a economia dos EUA ainda era duas vezes maior que a da URSS. Durante a “Velha Guerra Fria”, os Estados Unidos tiveram uma vantagem econômica significativa sobre a URSS, pelo menos em termos de medidas convencionais de produção.</p>
<p>Voltando para a situação atual, os Estados Unidos, em termos comparativos, possuem uma fatia do PIB global consideravelmente menor que em 1950, com uma variação de cerca de 15 a 25%, dependendo de como é medido. A China, principal rival econômica dos Estados Unidos hoje, está muito mais próxima da paridade com a economia estadunidense. Mesmo com as taxas de câmbio de mercado, que oscilam um pouco independentemente dos rendimentos reais com as flutuações cambiais, o PIB da China já representa 74% o PIB dos Estados Unidos, um nível muito superior ao que a URSS alcançou. Além disso, a taxa de crescimento econômico da China tem sido há algum tempo muito mais rápida que a dos Estados Unidos, o que significa que continuará a se aproximar do país americano.</p>
<p>Calculada em paridades de poder aquisitivo (que respondem pelos diferentes níveis de preços dos países), a medida usada por Angus Maddison e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), em 2021, apontava que os EUA tinham apenas 16% da economia mundial — ou seja, os outros 84% estão fora dos EUA. Segundo essa mesma medida, a economia chinesa já é 18% maior que a estadunidense. Até 2026, de acordo com as projeções do FMI, a economia da China será pelo menos 35% maior que a dos Estados Unidos. A brecha econômica entre os dois países está muito mais estreita que qualquer distância que a URSS tenha alcançado.</p>
<p>Levando em conta outros fatores, não importa a medição, a China tornou-se de longe a maior potência fabril do mundo. Em 2019, os últimos dados disponíveis mostram que o país asiático foi responsável por 28,7% da produção mundial de manufaturas, contra 16,8% dos Estados Unidos. Em outras palavras, a participação global da China na produção manufatureira foi 70% maior que a dos Estados Unidos. A URSS, por outro lado, nunca esteve próxima de ultrapassar os EUA na produção manufatureira.</p>
<p>No tocante ao comércio de bens, a derrota dos Estados Unidos pela China na guerra comercial lançada por Donald Trump é até um pouco humilhante para ele e seu país. Em 2018, a China já comercializava mais mercadorias que qualquer outra nação, embora seu comércio de bens fosse apenas 10% maior que o dos Estados Unidos no mesmo período. Em 2021, o comércio de bens da China superou os EUA em 31%. A situação foi ainda pior em termos de exportação de mercadorias: em 2018, as da China foram 58% maiores que as dos EUA e, em 2021, 91% maiores. Em resumo, não só a China se tornou de longe a maior nação comercial do mundo, mas os EUA sofreram uma clara derrota na guerra comercial travada pelos governos Trump e Biden.</p>
<p>Ainda mais fundamental do ponto de vista macroeconômico é a liderança da China em reservas financeiras (familiar, empresarial e estatal), a fonte do investimento real de capital e a força motriz do crescimento econômico. De acordo com os dados mais recentes disponíveis em 2019, a economia bruta de capital da China foi, em termos absolutos, 56% maior que a dos Estados Unidos — o equivalente a 6,3 trilhões de dólares, em comparação com 4,03 trilhões. No entanto, esse número subestima muito a liderança da China: se a depreciação for levada em conta, a criação líquida de capital anual da China foi 635% maior que a dos Estados Unidos — o equivalente a 3,9 trilhões de dólares, ante 600 bilhões. Em resumo, a China está aumentando muito seu capital a cada ano, enquanto os Estados Unidos, em termos comparativos, aumenta pouco.</p>
<p>O resultado líquido dessas tendências é que a China superou esmagadoramente os Estados Unidos em termos de crescimento econômico, não apenas em todo o período de quatro décadas desde 1978, como é amplamente sabido, mas também no período recente. Nos preços ajustados pela inflação, desde 2007 (um ano antes da crise financeira internacional), a economia dos EUA cresceu 24%, enquanto a da China cresceu 177% — ou seja, a economia chinesa cresceu sete vezes mais rápida. No terreno da competição relativamente pacífica, a China está ganhando<a href="#_section_2_ftn3" name="_section_2_ftnref3"><sup>3</sup></a>.</p>
<p>A liderança dos EUA em produtividade, tecnologia e dimensão das empresas significa que, no geral, sua economia ainda é mais forte que a da China, mas a diferença entre os dois países é muito menor que aquela entre Estados Unidos e URSS em outro momento. Além disso, seja lá o que se possa dizer sobre a força desses dois gigantes, está claro que os EUA perderam sua predominância econômica global. Do ponto de vista puramente econômico, já estamos em uma era multipolar.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>As forças militares dos EUA em um momento de declínio econômico</strong></span></h3>
<p>Esses reveses econômicos para os Estados Unidos levaram alguns a acreditar, particularmente em alguns círculos do Ocidente, que a derrota da potência é inevitável ou já ocorreu. Uma visão semelhante foi expressa por um pequeno número de pessoas na China que têm a opinião de que a abrangente força chinesa já ultrapassou a estadunidense. Essas visões estão incorretas. Esquecem as famosas palavras de Lênin, de que “a política deve prevalecer sobre a economia, que é o ABC do marxismo”, e, em relação à política, que “o poder político cresce do cano de uma arma”, no famoso ditado do presidente Mao Zedong. O fato de os Estados Unidos estarem perdendo sua superioridade econômica não significa que simplesmente permitirão que essa tendência continue pacificamente: presumir isso seria cometer o erro de colocar a economia antes da política. Pelo contrário, o fato de que os Estados Unidos estão perdendo terreno economicamente tanto para a China quanto para outros países faz com que se lance a táticas militares e político-militares que visam superar as consequências de suas derrotas econômicas.</p>
<p>Mais precisamente, o perigoso para todos os países é que os Estados Unidos não perderam sua supremacia militar. Na verdade, os gastos militares dos EUA são maiores que os dos próximos nove países juntos – da lista dos dez que mais gastam. Apenas em uma área, armas nucleares, o poderio estadunidense só pode ser comparado com a Rússia, devido à herança de armas nucleares da URSS. O número exato de armas nucleares dos países em geral são segredos de Estado, mas, a partir de 2022, uma estimativa ocidental da Federação de Cientistas Americanos aponta que a Rússia possua 5977 armas nucleares, enquanto os Estados Unidos têm 5428. A Rússia e os Estados Unidos têm cada um cerca de 1600 ogivas nucleares estratégicas ativas implantadas (porém os Estados Unidos têm muito mais armas nucleares que a China). Enquanto isso, no campo das armas convencionais, os gastos estadunidenses são muito maiores que os de qualquer outro país.</p>
<p>Essa divergência na posição dos Estados Unidos está por trás de sua política agressiva e cria a distinção entre suas posições econômicas e militares na atual “Nova Guerra Fria”, em comparação com a “Velha Guerra Fria” travada contra a URSS. Na Velha Guerra Fria, as forças militares dos EUA e da URSS eram aproximadamente iguais, mas, como já foi observado, a economia dos EUA era muito maior. Portanto, na Velha Guerra Fria, a estratégia dos EUA era tentar levar as questões para um terreno econômico. Mesmo o acúmulo militar de Reagan na década de 1980 não tinha a intenção de ser usado para travar uma guerra contra a URSS, mas sim para enfrentá-la em uma corrida armamentista que prejudicaria a economia soviética. Consequentemente, apesar da tensão, a Guerra Fria nunca se transformou em uma guerra quente. A situação atual dos EUA é oposta: sua posição econômica relativa enfraqueceu tremendamente, mas seu poder militar é grande. Por isso, tenta mover as questões para o terreno militar, o que explica sua escalada de agressões e porque essa é uma tendência permanente.</p>
<p>Isso significa que a humanidade entrou em um período muito perigoso. Os Estados Unidos podem estar perdendo a competição econômica pacífica, mas ainda mantêm uma vantagem militar sobre a China. A tentação é, então, que usem meios militares “diretos” e “indiretos” para tentar deter o desenvolvimento chinês.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>O uso direto e indireto de força militar estadunidense</strong></span></h3>
<p>Os EUA empregam meios “diretos” e “indiretos” para mostrar sua força militar, que são muito mais expansivas que a possibilidade “direta” mais extrema de uma guerra frontal contra a China. Algumas dessas abordagens já estão em uso, enquanto outras estão sendo discutidas. A primeira inclui, por exemplo:</p>
<ul>
<li>Subordinar outros países às forças armadas dos EUA e tentar pressioná-los a adotar políticas econômicas mais hostis em relação à China, como é o caso em relação à Alemanha e à União Europeia.</li>
<li>Tentar superar o caráter econômico multipolar do mundo, que já foi estabelecido, criando alianças dominadas unilateralmente pelos Estados Unidos. É claramente o caso da Otan, do Quad (Estados Unidos, Japão, Austrália, Índia) e de sua relação com algumas outras nações.</li>
<li>Tentar forçar países que têm boas relações econômicas com a China a enfraquecer essas relações. Isso é particularmente evidente com a Austrália, mas está agora sendo aplicado em todo lugar.</li>
</ul>
<p>Enquanto isso, as abordagens que estão sendo discutidas incluem a possibilidade de travar guerras contra aliados da China e da Rússia e tentar levar a China a uma guerra “limitada” com os Estados Unidos em relação à província de Taiwan.</p>
<p>Um exemplo do uso integrado de pressão militar direta e indireta pelos EUA foi dado pelo comentarista político estadunidense do Financial Times, Janan Ganesh, após a eclosão da guerra na Ucrânia, ao dizer que “a América será a ‘vencedora’ final da crise ucraniana”. Três dias após a intervenção russa, escreve Ganesh, a Alemanha acelerou a construção dos dois primeiros terminais de gás natural liquefeito (GNL) do país. Em 2026, os EUA provavelmente se tornarão o principal fornecedor de GNL para a Alemanha, pois estão mais próximos geográfica e politicamente, eliminando assim a dependência alemã das importações de energia russas. Ganesh também argumenta que a promessa alemã de aumentar seu orçamento de defesa também beneficiará os EUA porque a Alemanha “compartilharia mais do fardo financeiro e logístico da Otan” que atualmente recai sobre os EUA. Por fim, aponta o que pode ser um enorme avanço para os EUA:</p>
<p style="padding-left: 40px;">Uma Europa mais ligada aos EUA e, ao mesmo tempo, menos dependente deles (…) Longe de acabar com a volta dos EUA para a Ásia, a guerra na Ucrânia pode ser o evento que a possibilite.</p>
<p style="padding-left: 40px;">Quanto a essa parte [do Pacífico] do mundo (…) o Japão dificilmente poderia estar se esforçando mais para ficar do lado de Kiev, e, portanto, com Washington (Ganesh, 2022).</p>
<p>Em suma, os Estados Unidos utilizaram sua pressão militar para aumentar a subordinação econômica da Alemanha e do Japão. Embora muitas outras variantes possam ser previstas, sua característica comum é que os Estados Unidos usam sua força militar para tentar compensar sua posição econômica enfraquecida. Compreendido dessa forma, é evidente que os EUA já embarcaram nessa política fundamental de uso direto e indireto de sua força militar.</p>
<p>Uma vez que a China está experimentando um desenvolvimento econômico mais rápido do que os Estados Unidos, é provável que sua força militar eventualmente se torne similar. Levaria anos para a China construir um arsenal nuclear equivalente ao dos Estados Unidos, mesmo que decidisse embarcar em tal política. Provavelmente levaria ainda mais tempo para criar armamentos convencionais equivalentes aos dos Estados Unidos, dado o enorme desenvolvimento tecnológico e treinamento de pessoal necessário para tais forças aéreas e navais avançadas. Portanto, os Estados Unidos terão forças armadas mais fortes do que a China por um número muito significativo de anos, criando a tentação permanente de usar meios militares para compensar sua posição econômica em declínio.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>O significado da guerra na Ucrânia</strong></span></h3>
<p>Duas lições fundamentais podem ser tiradas dos eventos que levaram à guerra na Ucrânia.</p>
<p>Primeiro, confirma a inutilidade de pedir compaixão aos Estados Unidos. Após a dissolução da URSS, em 1991, durante 17 anos a Rússia prosseguiu uma política de tentar ter relações amistosas com seu rival. Sob Boris Yeltsin, a Rússia era humilhantemente subordinada aos Estados Unidos. Durante o início da presidência de Putin, deu assistência direta aos Estados Unidos na chamada guerra contra o terror e na invasão dos EUA no Afeganistão. A resposta estadunidense foi violar todas as promessas que havia feito de que a Otan não avançaria “um centímetro” em relação à Rússia, tudo isso enquanto aumentava agressivamente a pressão militar sobre Moscou.</p>
<p>Em segundo lugar, essa dinâmica deixa claro que o resultado da guerra na Ucrânia é crucial não só para a Rússia, mas também para a China e todo o mundo. A Rússia é o único país que se iguala aos Estados Unidos em termos de armas nucleares, e as boas relações entre a China e a Rússia são um grande impedimento para os EUA adotar qualquer política de ataque direto à China. O objetivo estadunidense na Ucrânia é justamente tentar trazer uma mudança fundamental na política russa e instalar um governo em Moscou que não defenda mais seus próprios interesses nacionais — e que seja hostil à China e subordinado aos EUA. Se isso for alcançado, não só a China enfrentará uma ameaça militar muito maior dos EUA, mas sua longa fronteira norte com a Rússia se tornará uma ameaça estratégica; a China estaria cercada no norte. Em outras palavras, tanto os interesses nacionais russos como chineses seriam prejudicados. Nas palavras de Sergei Glazyev (2022), um comissário russo do corpo executivo da União Econômica Eurasiana: “Depois de não conseguirem enfraquecer a China frontalmente por meio de uma guerra comercial, os estadunidenses mudaram o golpe principal para a Rússia, que eles veem como um elo fraco na geopolítica e na economia global. Os anglo-saxões estão tentando implementar suas eternas ideias russofóbicas para destruir nosso país e, ao mesmo tempo, enfraquecer a China, porque a aliança estratégica da Federação Russa e da RPC é muito dura para os Estados Unidos”.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Ações militares estadunidenses e as restrições enfrentadas</strong></span></h3>
<p>Como os Estados Unidos estão sendo pressionados tanto por sua posição econômica em declínio quanto por sua força militar, não há limite para um nível “interno” (doméstico) à sua abordagem ofensiva. A história mostra claramente que os EUA estão preparados para realizar os mais violentos ataques militares a ponto de estarem dispostos a destruir países inteiros. Em um dos muitos exemplos, na Guerra da Coreia, os EUA destruíram quase todas as cidades e vilas do país,  incluindo cerca de 85% de seus edifícios.</p>
<p>O bombardeio dos EUA na Indochina durante a Guerra do Vietnã foi ainda maior em escala, usando dispositivos explosivos e armas químicas, como o notório Agente Laranja, que produz deformidades horripilantes. De 1964 a 15 de agosto de 1973, a Força Aérea estadunidense lançou mais de 6 milhões de toneladas de bombas e outras artilharias na Indochina, enquanto a Marinha e o Corpo de Fuzileiros Navais lançaram mais 1,5 milhões de toneladas no Sudeste Asiático. Como Micheal Clodfelter observa em <em>The Limits of Air Power:</em></p>
<p style="padding-left: 40px;">Essa proporção em toneladas excedeu em muito o gasto na Segunda Guerra Mundial e na Guerra da Coreia. A Força Aérea estadunidense consumiu 2,150 milhões de toneladas de munições na Segunda Guerra Mundial e na Guerra da Coreia — 1,613 milhões de toneladas no teatro europeu e 537 mil toneladas no teatro do Pacífico — e 454 mil toneladas na Guerra da Coreia (Clodfelter apud Miguel; Roland, 2011).</p>
<p>Edward Miguel e Gerard Roland discorrem sobre o mesmo ponto em seu estudo sobre o impacto a longo prazo do bombardeio no Vietnã, observando que:</p>
<p style="padding-left: 40px;">Os bombardeios da Guerra do Vietnã representaram, portanto, pelo menos três vezes mais (em peso) que os bombardeios da Segunda Guerra Mundial, e cerca de quinze vezes a tonelagem total na Guerra da Coreia. Considerando a população vietnamita pré-guerra de aproximadamente 32 milhões, os bombardeios se traduzem em centenas de quilos de explosivos per capita durante o conflito. Para outra comparação, as bombas atômicas lançadas em Hiroshima e Nagasaki tinham o poder de cerca de 15 mil e 20 mil toneladas de TNT. (…) O bombardeio na Indochina representa 100 vezes o impacto combinado das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki.</p>
<p>Na invasão do Iraque, os Estados Unidos estavam preparados para (e assim fizeram) devastar o país, usando armas hediondas como urânio empobrecido, que ainda produz terríveis defeitos congênitos muitos anos após o ataque. Em seu bombardeio à Líbia em 2011, reduziram o que havia sido um dos países com maior renda per capita da África, com um Estado de bem-estar desenvolvido a uma sociedade na qual existem conflitos tribais e em que pessoas escravizadas são vendidas abertamente. A lista continua.</p>
<p>Em suma, as evidências mostram que não há nenhum nível de crime ou atrocidade para o qual os EUA não estejam prontos para descer. Se afirmassem que poderiam eliminar a competição econômica da China lançando uma guerra atômica, não há evidências para acreditar que não fariam isso de fato. Além disso, embora haja certamente movimentos antiguerra nos Estados Unidos, eles não são suficientemente fortes para impedir que usem armas nucleares se assim decidirem. Não há restrições internas adequadas que os impeça de iniciar uma guerra contra a China.</p>
<p>Mas certamente há grandes restrições externas. A primeira é a posse de armas nucleares por outros países. É por isso que a explosão da primeira bomba nuclear da China em 1964 é justamente considerada uma grande conquista nacional. A posse de armas nucleares pela China é um impedimento fundamental para um ataque nuclear estadunidense. No entanto, ao contrário de seu adversário, a China tem uma política de “No First Use” [sem primeiro uso, isto é, só usar armas nucleares em resposta a um ataque nuclear em seu território], mostrando sua contenção e postura militar defensiva.</p>
<p>Uma guerra nuclear em larga escala envolvendo os Estados Unidos, a China e a Rússia seria uma catástrofe sem precedentes na história humana, na qual, no mínimo, centenas de milhões morreriam. Seria infinitamente preferível evitar a escalada militar estadunidense antes de chegar a esse ponto. Mas quais são as chances disso?</p>
<p>A tendência geral da política dos Estados Unidos desde a Segunda Guerra Mundial mostra um padrão claro e lógico. Quando sentem que estão em uma posição forte, sua política é agressiva; quando se sentem enfraquecidos, tornam-se mais conciliadores. Isso ficou demonstrado mais claramente antes, durante e depois da Guerra do Vietnã, mas também em outros períodos.</p>
<p>Imediatamente após a Segunda Guerra Mundial, consideraram-se — e de fato estavam — em uma posição forte e, portanto, preparados para realizar uma guerra contra a Coreia. Mesmo depois de não ter vencido essa guerra, ainda se sentia confiante o suficiente para tentar isolar diplomaticamente a China durante as décadas de 1950 e 1960, privando o país de um assento na ONU, bloqueando relações diplomáticas diretas, e assim por diante. No entanto, sofreram severas derrotas devido ao fracasso de sua guerra contra o Vietnã, na qual procurou derrotar a luta de libertação nacional do povo vietnamita e o apoio militar em larga escala que receberam da China e da URSS. O enfraquecimento da posição global dos Estados Unidos como resultado de sua derrota no Vietnã (começando antes mesmo do fim oficial da guerra em 1975) levou a nação a adotar uma política mais conciliatória, simbolizada pela visita de Nixon a Pequim em 1972 e seguida pelo estabelecimento de relações diplomáticas completas com a China. Logo após 1972, os Estados Unidos abriram uma política de <em>détente</em> com a URSS. No entanto, na década de 1980, tendo se reorganizado e recuperado da derrota no Vietnã, os Estados Unidos, sob o então presidente Ronald Reagan, voltaram a adotar uma política mais agressiva em relação à URSS.</p>
<p>Esse mesmo padrão ofensivo dos EUA em momentos de força ou uma atitude mais conciliadora em momentos de fraqueza pode ser visto em torno da crise financeira internacional que começou em 2007-2008. Essa crise causou um duro golpe na economia dos EUA, que começaram a dar mais peso à cooperação internacional. Embora o G20, que inclui as maiores economias do mundo e dois terços de sua população, tenha sido criado em 1999, ele só começou a realizar reuniões anuais após a crise econômica de 2007-2008. Em 2009, o G20 se configurou como a principal força para a cooperação econômica e financeira internacional, com os Estados Unidos desempenhando um papel importante. Em particular, como se sentiu enfraquecido, os Estados Unidos mostraram uma atitude mais cooperativa em relação à China nessas áreas.</p>
<p>À medida que se recuperava da crise financeira internacional, sua postura em relação à China tornou-se cada vez mais agressiva, culminando no lançamento da guerra comercial de Trump contra o país. Isto é, assim que os Estados Unidos se sentiram mais fortes, retomaram a postura mais agressiva.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Uma comparação da realidade de hoje e do período pré-Segunda Guerra Mundial</strong></span></h3>
<p>Em uma comparação histórica, podemos cotejar a situação atual com o período que antecede a Segunda Guerra Mundial. O caminho imediato para essa guerra começou com o fortalecimento do militarismo japonês e a consequente invasão do nordeste da China em 1931, seguido pela ascensão de Hitler ao poder na Alemanha, em 1933. No entanto, apesar desses eventos sinistros, a guerra não era inevitável. As primeiras vitórias do militarismo japonês e do fascismo alemão escalaram para a guerra mundial como resultado de uma série de derrotas e capitulações das potências aliadas entre 1931 e 1939, bem como seu fracasso em confrontar os militares japoneses e nazistas alemães.</p>
<p>O partido político governante na China, o Kuomintang, concentrou seus esforços durante a maior parte da década de 1930 não em repelir o Japão, mas em lutar contra os comunistas. Enquanto isso, os EUA falharam em intervir para deter o Japão até ser atacado em Pearl Harbor em 1941. Na Europa, a Grã-Bretanha e a França não conseguiram impedir a remilitarização da Alemanha nazista, mesmo quando tinham o direito de fazê-lo sob o Tratado de Versalhes. Além disso, não apoiaram o governo legítimo da Espanha em 1936 contra o golpe fascista e a guerra civil iniciada por Francisco Franco, que teve o apoio de Hitler. Depois, capitularam diretamente ao desmembramento da Tchecoslováquia por Hitler sob o notório Pacto de Munique, em 1938.</p>
<p>Hoje, vemos um padrão semelhante ao de 1931, que marcou o início da preparação para a Segunda Guerra Mundial. Embora o apoio a uma guerra mundial certamente não conte com as maiorias nos Estados Unidos, tal apoio existe entre um elemento pequeno e, até agora, marginal dentro da política externa/estrutura militar do país. Se os Estados Unidos sofrerem derrotas políticas, não avançarão diretamente para a guerra frontal com a China ou a Rússia. No entanto, existe o perigo a médio prazo de que possam obter vitórias em conflitos menores, o que provavelmente encorajaria o avanço a um grande conflito militar global  — como ocorreu após a invasão japonesa na China, em 1931, e a chegada de Hitler ao poder em 1933.  A luta decisiva deve ser para evitar um conflito mundial desse tipo. Isso significa que é de extrema importância que os Estados Unidos não ganhem lutas imediatas, como a guerra que provocou na Ucrânia, sua tentativa de minar a política da China em relação a Taiwan e suas guerras econômicas contra muitos outros países.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>As principais forças que se opõem aos EUA</strong></span></h3>
<p>Há duas forças poderosas que se opõem à agressão militar dos EUA. A primeira, e mais poderosa, é a China, cujo desenvolvimento econômico não é somente crucial para melhorar os padrões de vida de sua população, mas também para eventualmente permitir que o país coloque suas forças militares no mesmo patamar da dos Estados Unidos. Esse provavelmente será o último impedimento à agressão militar dos EUA. A segunda força é a oposição de um grande número de países à agressão dos EUA — incluindo muitos do Sul Global, que compreende a maioria do povo do mundo — não apenas do ponto de vista moral, mas também do ponto de vista dos interesses diretos. A tentativa dos EUA de superar as consequências de seus fracassos econômicos por meios militares e políticos inevitavelmente o leva a tomar atitudes contra os interesses de vários outros países.</p>
<p>Um dos muitos exemplos dos impactos dessas ações é que a provocação dos EUA na guerra na Ucrânia ajudou a criar um aumento maciço nos preços mundiais dos alimentos, porque a Rússia e a Ucrânia são os maiores fornecedores internacionais de trigo e fertilizantes do mundo. Enquanto isso, impedir a empresa chinesa de telecomunicações Huawei de participar no desenvolvimento de telecomunicações 5G significa que os habitantes de todos os países que concordam com tal boicote dos EUA pagarão mais por serviços desse tipo. A pressão dos EUA para forçar a Alemanha a comprar seu gás natural liquefeito em vez de gás natural russo eleva os preços da energia no país. Na América Latina, os Estados Unidos tentam impedir que os países desenvolvam políticas de independência nacional. As tarifas estadunidenses sobre as exportações chinesas aumentam o custo de vida das famílias nos EUA. O fato de que, na prática, as populações de outros países estão sendo forçadas a financiar o militarismo dos EUA está destinado a gerar oposição a tais políticas e seus resultados.</p>
<p>Essas duas forças que se nutrem mutuamente — o próprio desenvolvimento da China e o fato de que a política dos EUA se posiciona contra os interesses da esmagadora maioria da população mundial — constituem os principais obstáculos à ofensiva estadunidense. Integrar o desenvolvimento chinês às forças internacionais que se opõem aos ataques dos EUA é, portanto, a tarefa mais crucial para a maioria da população global. Embora nós que estamos fora do país não consigamos compreender completamente as complexidades enfrentadas pelos líderes da China, é possível afirmar que eles assumem uma grande responsabilidade não apenas para empurrar o mundo em direção à paz e a um planeta sustentável, mas também para cumprir as promessas de sua revolução e justificar os grandes sacrifícios de camponeses e trabalhadores — os próprios sacrifícios que tornaram possível a posição atual da China no mundo.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>As escolhas que os Estados Unidos enfrentam</strong></span></h3>
<p>Os EUA recorrem à escalada da ofensiva militar ao lado de sua perda de supremacia econômica, que já começou. Na Ucrânia, os EUA desafiam direta e vigorosamente a Rússia, um Estado com poderosas armas atômicas, aumentando assim o risco potencial de uma guerra nuclear. Simultaneamente, exerce pressão máxima sobre seus aliados, como a Alemanha, em prejuízo dos próprios interesses alemães, subordinando-os à política dos EUA.</p>
<p>No entanto, ainda hesitam em utilizar força militar total, evidentemente pesando os ganhos e riscos de aumentar a ofensiva. Embora os Estados Unidos tenham provocado a guerra na Ucrânia, ameaçando estender a Otan para o país, dando-lhe acesso à inteligência e armas cada vez mais letais, ela ainda não se atreveu a comprometer diretamente suas forças militares  nessa guerra, mostrando que ainda há uma incerteza considerável nos níveis mais altos das máquinas estatais dos EUA.</p>
<p>Tudo isso afeta diretamente as relações entre a Rússia e a China, e torna o resultado da guerra na Ucrânia crucial para todo o mundo. Como as relações sino-russas amistosas representam um formidável obstáculo econômico e militar às ameaças de guerra dos EUA, o objetivo estratégico central da política dos EUA é separar a Rússia e a China. Se isso puder ser alcançado, então terão uma maior capacidade de atacar os dois países separadamente, inclusive através do uso de sua força militar.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Conclusão</strong></span></h3>
<p>Os Estados Unidos aumentarão suas ofensivas em relação à China, bem como a outros países, não apenas no campo econômico, mas em particular pelo uso direto e indireto do poder militar, hesitando apenas quando sofrer derrotas. Naturalmente, toda abertura para desenvolver uma abordagem conciliatória pelos Estados Unidos deve ser aproveitada, mas é essencial deixar claro que a política dos EUA durante tais períodos, quando sofreu derrotas, é a de reagrupar suas forças para lançar uma nova ofensiva.</p>
<p>Derrotar as agressões militares estadunidenses depende em grande parte do desenvolvimento interno global da China nos campos econômicos, militares e outros, o que também é do interesse de outros países que sofrem com a agressão estadunidense. Após o próprio desenvolvimento interno da China, a força mais importante que bloqueia a agressão dos EUA é a oposição da maioria da população mundial e países cuja posição é agravada pela política do país. O grau em que a agressão militar dos EUA, direta e indireta, se intensificará depende da proporção de suas derrotas em batalhas isoladas. Quanto mais forem bem sucedidos, mais agressivos se tornarão; quanto mais estiverem enfraquecidos, mais conciliadores se tornarão.</p>
<p>A curto prazo, o resultado da guerra na Ucrânia será, portanto, crucial para a realidade geopolítica mais ampla. Embora os detalhes da política externa dos EUA não possam ser vistos com uma bola de cristal, a escalada geral das agressões depende claramente da combinação de enfraquecimento econômico e força militar, a menos que sofram derrotas significativas.</p>
<p> </p>
<div class="footnotes">
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Referências bibliográficas</strong></span></h3>
<p>Angus Maddison, The World Economy: A Global Perspective. Paris: Organisation for Economic Cooperation and Development, 2001.</p>
<p>Edward Miguel; Gerard Roland, “The Long-run Impact of Bombing Vietnam,” Journal of Development Economics 96, v. 1, 2011, p. 1–15. Disponível em: <a class="footnote-link" href="https://eml.berkeley.edu/~groland/pubs/vietnam-bombs_19oct05.pdf">https://eml.berkeley.edu/~groland/pubs/vietnam-bombs_19oct05.pdf</a></p>
<p>Federation of American Scientists, “Status of World Nuclear Forces,” 2022. Disponível em: <a class="footnote-link" href="https://fas.org/issues/nuclear-weapons/status-world-nuclear-forces/">https://fas.org/issues/nuclear-weapons/status-world-nuclear-forces/</a></p>
<p>Janan Ganesh, “The US will be the ultimate winner of Ukraine’s crisis,” Financial Times, April 5, 2022, Disponível em: <a class="footnote-link" href="https://www.ft.com/content/cd7270a6-f72b-4b40-8195-1a796f748c23">https://www.ft.com/content/cd7270a6-f72b-4b40-8195-1a796f748c23</a></p>
<p>Micheal Clodfelter apud Edward Miguel; Gerard Roland, “The Long-run Impact of Bombing Vietnam”. Journal of Development Economics 96, v. 1. 2011, p. 1-15. Disponível em: <a class="footnote-link" href="https://eml.berkeley.edu/~groland/pubs/vietnam-bombs_19oct05.pdf">https://eml.berkeley.edu/~groland/pubs/vietnam-bombs_19oct05.pdf</a></p>
<p>Sergey Glazyev. <em>The Saker</em>, 28 mar. 2022. Disponível em: <a class="footnote-link" href="https://thesaker.is/events-like-this-happen-once-a-century-sergey-glazyev-on-the-breakdown-of-epochs-and-changing-ways-of-life/">https://thesaker.is/events-like-this-happen-once-a-century-sergey-glazyev-on-the-breakdown-of-epochs-and-changing-ways-of-life/</a></p>
<p>Vyacheslav Tetekin, “How the US Pushed Ukraine into the War”, Communist Party of the Russian Federation, 4 abr. 2022, Disponível em: <a class="footnote-link" href="https://cprf.ru/2022/04/how-the-us-pushed-ukraine-into-the-war/">https://cprf.ru/2022/04/how-the-us-pushed-ukraine-into-the-war/</a></p>
</div>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Notas</strong></span></h3>
<div class="footnotes">
<p><a href="#_section_2_ftnref1" name="_section_2_ftn1"><sup>1</sup></a> As citações e análises nesta seção são desta fonte.</p>
<p><a href="#_section_2_ftnref2" name="_section_2_ftn2"><sup>2</sup></a> Outras fontes dão à economia dos EUA uma parcela muito maior do PIB global em 1950, com estimativas superiores a 40%.</p>
<p><a href="#_section_2_ftnref3" name="_section_2_ftn3"><sup>3</sup></a> Os dados que comparam o desempenho econômico dos Estados Unidos e da China são retirados do banco de dados do FMI publicado no World Economic Outlook de abril de 2022, https://www.imf.org/en/Publications/WEO/weo-database/2022/April; U.S. Bureau of Economic Analysis, International Data, https://apps.bea.gov/iTable/iTable.cfm?ReqID=62&amp;step=1#reqid=62&amp;step=9&amp;isuri=1&amp;6210=4; Trading Economics, https://tradingeconomics.com/; World Bank, World Development Indicators, https://databank.worldbank.org/reports.aspx?source=world-development-indicators.</p>
</div>
<p> </p>
<p><a name="section_3"></a></p>
<h1 class="mrst_section_title mrst_section_title_3"><span style="color: #ba2025;"><strong>Quem está levando os Estados Unidos à guerra?</strong></span></h1>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #ba2025;">Deborah Veneziale</span></h2>
<p> </p>
<p>O mundo está sentindo a crescente avidez dos Estados Unidos para a guerra.<a href="#_section_3_ftn1" name="_section_3_ftnref1"><sup>1</sup></a> Em meio ao desenvolvimento da crise na Ucrânia, os Estados Unidos e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) têm tentado intensificar sua guerra por procuração com a Rússia, enquanto continuam a aumentar seu cerco e provocações contra a China. Essa intenção foi exibida durante o programa de TV <em>Meet the Press</em>, da rede NBC<em>, </em>de 15 de maio de 2022, que simulou uma guerra dos EUA contra a China<em>.</em> Esse “jogo de guerra” foi organizado pelo Center for a New American Security (CNAS), um proeminente <em>think tank</em> de Washington financiado pelos EUA e seus aliados, incluindo o Escritório de Representantes Econômicos e Culturais de Taipei, a Fundação Open Society (de George Soros) e uma série de empresas militares e de tecnologia estadunidenses, como a Raytheon, Lockheed Martin, Northrop Grumman, General Dynamics, Boeing, Facebook, Google e Microsoft (Center for a New American Security, 2022).</p>
<p>Essa simulação está em linha com outros sinais alarmantes em direção à guerra tanto do Congresso quanto do Pentágono. Em 5 de abril, Charles Richard, chefe do Comando Estratégico dos EUA, defendeu diante do Congresso estadunidense que a Rússia e a China representavam ameaças nucleares aos Estados Unidos, alegando que a China provavelmente usará coerção nuclear para seu próprio benefício (Tiron, 2022). Pouco depois, em 14 de abril, uma delegação bipartidária de legisladores estadunidenses visitou Taiwan. Em 5 de maio, a Coreia do Sul anunciou que havia se unido a uma organização de defesa cibernética ligada à Otan. Em junho, em sua cúpula anual, a Otan nomeou a Rússia como sua “ameaça mais significativa e direta” e apontou a China como um “desafio [aos nossos interesses]”. Além disso, Coreia do Sul, Japão, Austrália e Nova Zelândia participaram da cúpula pela primeira vez, o que sugere a possibilidade de que uma filial asiática possa ser formada no futuro. Finalmente, em 2 de agosto, em uma provocação descarada a Pequim, a presidente da Câmara dos Deputados dos EUA, Nancy Pelosi – a terceira mais alta autoridade do governo de Joe Biden – visitou Taiwan, escoltada pela força aérea dos EUA (Otan, 2022).</p>
<p>Diante da agressiva política externa do governo Biden, não se pode deixar de pensar: quem está defendendo a guerra no interior da classe dominante dos EUA? Existe um mecanismo para conter tal beligerância?</p>
<p>Este artigo chega a três conclusões. Primeiro, no governo Biden, dois grupos da elite da política externa que costumavam competir entre si – liberais belicistas e neoconservadores — fundiram-se estrategicamente, formando o mais importante consenso na política externa dentro do alto escalão do país desde 1948, levando a política de guerra dos EUA a um novo nível. Em segundo lugar, em consideração aos seus interesses de longo prazo, a grande burguesia estadunidense chegou a um consenso de que a China é um rival estratégico, e estabeleceu um sólido apoio a essa política externa. Em terceiro, as chamadas instituições democráticas de pesos e contrapesos são completamente incapazes de impedir que essa política beligerante se expanda devido ao desenho da Constituição estadunidense, à expansão das forças de extrema-direita e à monetização das eleições.</p>
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<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>A fusão das elites beligerantes na política externa</strong></span></h3>
<p>Os primeiros representantes do intervencionismo liberal dos EUA incluíram presidentes democratas como Harry Truman, John F. Kennedy e Lyndon B. Johnson, cujas raízes ideológicas podem ser ligadas à ideia de Woodrow Wilson, de que a América deveria estar no cenário mundial lutando pela democracia. A invasão do Vietnã foi guiada por essa ideologia.</p>
<p>Após sua derrota, o Partido Democrata reduziu temporariamente os pedidos de intervenção como parte de sua política externa. No entanto, o senador democrata Henry “Scoop” Jackson (também conhecido na época como “o senador da Boeing”), um “falcão liberal”<a href="#_section_3_ftn2" name="_section_3_ftnref2"><sup>2</sup></a>, juntou-se a outros anticomunistas e intervencionistas, inspirando o movimento neoconservador. Estes, incluindo vários apoiadores e ex-funcionários de Jackson, deram aval ao republicano Ronald Reagan no final dos anos 1970 por seu compromisso em enfrentar o suposto expansionismo soviético.</p>
<p>Com a dissolução da União Soviética em 1991 e a ascensão do unilateralismo dos EUA, os neoconservadores entraram no <em>mainstream</em> da política externa dos EUA com seu líder intelectual, Paul Wolfowitz, que tinha sido ex-assessor de Henry Jackson. Em 1992, poucos meses após a desintegração da União Soviética, Wolfowitz, então subsecretário de Defesa, introduziu seu <em>Guia de política de defesa</em>, que defendia explicitamente que os Estados Unidos mantivessem uma posição unipolar permanente. Isso seria realizado, explicou ele, por meio da expansão do poder militar dos EUA na esfera de influência da antiga União Soviética e ao longo de todos os seus perímetros, com o objetivo de impedir o ressurgimento da Rússia como uma grande potência. A estratégia unipolar liderada pelos EUA, implementada por meio da projeção da força militar, guiou as políticas externas de George H. W. Bush e seu filho George W. Bush, bem como de Bill Clinton e Barack Obama. Os EUA foram capazes de lançar a primeira Guerra do Golfo em grande parte devido à fraqueza soviética. A essa guerra se seguiu o desmembramento militar da Iugoslávia pelos EUA e a Otan. Após o 11 de Setembro, a política externa do governo Bush Jr. foi completamente dominada pelos neoconservadores, incluindo o vice-presidente Dick Cheney e o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld.</p>
<p>Embora tanto os liberais belicistas quanto os neoconservadores tenham defendido arduamente intervenções militares estrangeiras, historicamente houve duas diferenças importantes entre eles. Em primeiro lugar, os liberais tendiam a acreditar que os Estados Unidos deveriam influenciar as Nações Unidas e outras instituições internacionais a realizar uma intervenção militar, enquanto os neoconservadores tendiam a ignorar instituições multilaterais. Em segundo lugar, os falcões liberais procuraram liderar intervenções militares ao lado de aliados ocidentais, enquanto os neoconservadores estavam mais dispostos a realizar operações militares unilaterais e violar flagrantemente o direito internacional. Como disse Niall Ferguson, historiador da Universidade de Harvard, os neoconservadores ficaram felizes em aceitar o título de Império Americano e decidir unilateralmente atacar qualquer país enquanto poder hegemônico do mundo (Ferguson, 2005);</p>
<p>Embora republicanos e democratas tenham historicamente desenvolvido suas próprias instituições políticas e de <em>advocacy</em>, é um equívoco pensar que eles têm abordagens distintas para a estratégia de política externa. É verdade que <em>think tanks</em> como a Heritage Foundation são grandes redutos neoconservadores que se aproximaram da política republicana, enquanto outros como a Brookings Institution e o posteriormente estabelecido CNAS têm sido o lar de falcões liberais pró-Democratas. No entanto, membros de ambos os partidos têm trabalhado em cada uma dessas organizações, com diferenças centradas em propostas políticas específicas, não em filiação partidária. Na realidade, por trás da Casa Branca e do Congresso, uma rede bipartidária de planejamento de políticas composta por fundações sem fins lucrativos, universidades, <em>think tanks</em>, grupos de pesquisa e outras instituições formatam coletivamente as agendas das corporações na forma de propostas e relatórios políticos.</p>
<p>Outro equívoco comum é achar que o chamado setor progressista do liberalismo pode promover o desenvolvimento social, fornecer assistência internacional e limitar gastos militares. No entanto, o período neoliberal, iniciado em meados da década de 1970, tem sido caracterizado pela subordinação do Estado às forças de mercado e à austeridade nos gastos sociais em áreas como saúde, assistência alimentar e educação, ao mesmo tempo que incentiva gastos militares ilimitados, prejudicando severamente a qualidade de vida da grande maioria da população. Tanto republicanos quanto democratas seguem os princípios do neoliberalismo, como exemplificado pelo orçamento anual de Biden para 2022, que inclui um aumento de 4% nos gastos militares, e o fato de que, durante a recente pandemia, 1,7 trilhão de dólares – dos 5 trilhões que o governo dos EUA forneceu em financiamento de estímulos – foram diretamente para os bolsos das corporações (Greve, 2022). O neoliberalismo teve um impacto particularmente devastador no Sul Global, onde arrastou os países em desenvolvimento para armadilhas de dívidas e os coagiu a fazer pagamentos intermináveis dessas dívidas ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e ao Banco Mundial.</p>
<p>No campo da política externa, o mais influente <em>think tank</em> dos EUA desde a Segunda Guerra Mundial foi o Council on Foreign Relations (CFR), financiado por uma série de fontes com origem na classe dominante. Os membros fundadores do conselho incluem líderes em energia (Chevron, ExxonMobil, Hess, Tellurian), finanças (Bank of America, BlackRock, Citi, Goldman Sachs, JPMorgan Chase, Morgan Stanley, Moody’s, Nasdaq), tecnologia (Accenture, Apple, AT&amp;T, Cisco), e internet (Google, Meta), entre outros setores, e o atual conselho do CFR inclui Richard Haass, o conselheiro de Bush pai para o Oriente Médio, e Ashton Carter, secretário de Defesa de Obama. A revista alemã <em>Der Spiegel</em> descreveu a CFR como “a instituição privada mais influente dos Estados Unidos e do mundo ocidental” e “o comitê central do capitalismo”, enquanto Richard Harwood (1993), ex-editor sênior e ouvidor do <em>The Washington Post</em>, chamou o conselho e seus membros de “a coisa mais próxima que temos de um <em>establishment</em> governante nos Estados Unidos” (Swiss Policy Research, 2022; Shoup, 2019). As propostas políticas da CFR refletem o pensamento estratégico de longo prazo da burguesia do país, como visto por sua proposta de “fortalecer a coordenação EUA-Japão em resposta à questão de Taiwan” em janeiro de 2022, antes da visita de Pelosi a Taiwan em agosto do mesmo ano.</p>
<p>Independentemente de qual partido os funcionários dessas várias instituições apoiam nas eleições, essa rede bipartidária e colaborativa de longa data tem mantido uma política externa consistente em Washington. Essa rede promove uma visão de mundo supremacista dos EUA que nega o direito de outros países de se envolverem em assuntos internacionais, uma ideologia que remonta à Doutrina Monroe de 1823, aquela que proclamou a dominação dos EUA sobre todo o hemisfério ocidental. A elite da política externa estadunidense de hoje estendeu a aplicação da Doutrina Monroe para o mundo inteiro. Sinergia entre partidos e troca de partidos são comuns para esse grupo de formuladores de política externa, que está intimamente ligado à classe capitalista dominante e seus substitutos dentro da elite do poder político que controlam a política externa dos EUA, bem como o Estado Profundo (os serviços de inteligência juntamente com os militares).</p>
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<div id="attachment_64433" class="wp-caption aligncenter"><img fetchpriority="high" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-64433" class="wp-image-64433 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/09/Graph-1_PT.jpg" alt="" width="950" height="725" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/09/Graph-1_PT.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/09/Graph-1_PT-300x229.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/09/Graph-1_PT-768x586.jpg 768w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-64433" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Processo de formação de políticas, de Who Rules America?, por William Domhoff.</small></p></div>
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<p>Na virada do século, os neoconservadores, reunidos no Partido Republicano, estavam mais preocupados com a desintegração e desnuclearização da Rússia do que com a China. Por volta de 2008, no entanto, as forças dentro da elite política dos EUA começaram a perceber que a economia chinesa continuaria sua forte ascensão e que seus futuros líderes não cederiam à influência dos EUA; não haveria um equivalente chinês de Gorbachev ou Yeltsin. A partir desse período, os neoconservadores começaram a adotar uma abordagem totalmente confrontativa com a China e buscar sua contenção. Ao mesmo tempo, alguns falcões liberais pró-democratas fundaram a CNAS, e Hillary Clinton, então secretária de Estado, liderou o desenvolvimento e a implementação do Pivô Asiático, uma mudança estratégica na política externa dos EUA que foi aplaudida pelos neoconservadores, que ainda estavam no campo republicano na época. Clinton foi saudado como uma “voz forte” por Max Boot, um comentarista político e membro sênior da CFR, que, em 2003, escreveu que, “dada a bagagem histórica que o ‘imperialismo’ carrega, não há necessidade de o governo dos EUA abraçar o termo. Mas deve definitivamente abraçar a prática” (Daalder, Lindsay, 2003). Hoje, estender a Otan à Ucrânia e confrontar a Rússia continua a ser uma prioridade para os neoconservadores e os falcões liberais. Ambos os grupos discordam dos realistas que propõem uma distensão com a Rússia, a fim de fortalecer o confronto com a China.</p>
<p>No entanto, a eleição de Donald Trump em 2016 criou uma breve turbulência no consenso dentro da CFR. Como John Bellamy Foster escreveu em seu livro de 2017 <em>Trump in the White House: Tragedy and Farce</em> [Trump na Casa Branca: Tragédia e Farsa], o ex-presidente chegou ao poder em parte pela mobilização de um movimento neofascista formado pela classe média-baixa branca. Apenas um pequeno número de pessoas do grande capital o apoiou inicialmente. Entre eles estavam Dick Uihlein, o dono da gigante de transporte Uline; Bernie Marcus, o fundador do varejista de materiais de construção Home Depot; Robert Mercer, um investidor na mídia de extrema-direita Breitbart News Network; e Timothy Mellon, neto do magnata bancário Andrew Mellon. A tendência de Trump de reduzir o engajamento nos assuntos globais — como visto com a retirada das tropas da Síria e o início da retirada do Afeganistão, bem como o contato diplomático com a Coreia do Norte — favoreceu os interesses de curto prazo da pequena burguesia e ganhou o apoio de realistas da política externa, incluindo Henry Kissinger, mas isso perturbou os neoconservadores. Um grupo da elite neoconservadora desempenhou um papel importante na campanha contra Trump, com cerca de 300 funcionários que apoiaram a administração Bush defendendo o Partido Democrata na eleição de 2020. Isso incluiu o já citado Boot, que se tornou um líder do pensamento na política externa e teve um forte impacto na administração Biden.</p>
<p>Sob Biden, o consenso da CFR foi retomado, e os neoconservadores e falcões liberais tornaram-se completamente alinhados na orientação estratégica do país. A consciência da ascensão da China promoveu uma unidade entre esses dois grupos nunca vista em décadas. Essa unidade se baseia na teoria dos assuntos internacionais que estipula que os Estados Unidos devem intervir ativamente na política de outros países, fazer todos os esforços para promover a “liberdade e a democracia”, reprimir os Estados que desafiam o domínio econômico e militar ocidental, remover governos indesejados e garantir a hegemonia global por todos os meios – com a Rússia e a China como seus principais alvos. Em maio de 2021, o secretário de Estado Antony Blinken (que anteriormente foi secretário-adjunto de Estado sob Obama) declarou que os EUA defendiam uma ambígua “ordem internacional baseada em regras”, um termo que se refere a organizações internacionais e de segurança dominadas pelos EUA, em vez de instituições mais amplas baseadas na ONU. A posição de Blinken sugere que, sob o governo Biden, os falcões liberais abandonaram oficialmente a pretensão de seguir a ONU ou outras organizações multilaterais internacionais, a menos que se curvem ao <em>diktat</em> dos EUA.</p>
<p>Em 2019, o proeminente neoconservador Robert Kagan foi coautor de um artigo com Antony Blinken, instando os Estados Unidos a abandonarem a política <em>America First,</em> de Donald Trump. Eles pediram a contenção (isto é, cerco e enfraquecimento) da Rússia e da China e propuseram uma política de “diplomacia preventiva e dissuasão” contra os adversários estadunidenses, ou seja, tropas e tanques onde for considerado necessário. Aliás, a esposa de Kagan, Victoria Nuland, serviu como secretária assistente de Estado para assuntos europeus e eurasianos no governo Obama. Nuland desempenhou um papel fundamental na organização e apoio à revolução colorida de 2014 na Ucrânia e se gabou dos bilhões de dólares que os Estados Unidos gastaram para “promover a democracia” no país (Nuland, 2013). Atualmente, ela está servindo como subsecretária de Estado para assuntos políticos no governo Biden, a terceira posição mais alta no Departamento de Estado depois do secretário Blinken e da secretária-adjunta Wendy Sherman. Ela também é uma herdeira espiritual de sua mentora, a líder liberal belicista Madeleine Albright.</p>
<p>A orientação dos liberais pró-guerra defendida por Kagan e Blinken foi levada um passo adiante pelo <em>think tank </em>da Otan, o Conselho Atlântico, que tem defendido a <em>Brinkmanship</em><a href="#_section_3_ftn3" name="_section_3_ftnref3"><sup>3</sup></a> nuclear. Em fevereiro, Matthew Kroenig, vice-diretor do Centro de Estratégia e Segurança do Conselho Atlântico, defendeu a possibilidade do uso preventivo de armas nucleares “táticas” pelos EUA (Kroenig, 2022).</p>
<p>A partir desse pequeno círculo de belicistas, pode-se facilmente detectar a profunda integração de dois grupos de elite das relações exteriores, ambos os quais são os verdadeiros impulsionadores da crise da Ucrânia. A evolução dessa crise revela o seguinte conjunto de táticas adotadas por esse grupo beligerante:</p>
<ul>
<li>fortalecer a liderança dos EUA sobre a Otan, usando a aliança militar (e não a ONU) como principal mecanismo de intervenção estrangeira;</li>
<li>provocar um suposto adversário para a guerra, recusando-se a reconhecer sua reivindicação por soberania e por segurança sobre regiões sensíveis;</li>
<li>planejar o uso de armas nucleares táticas e conduzir uma “guerra nuclear limitada” dentro ou ao redor do chamado território adversário; e</li>
<li>impor uma guerra híbrida a fim de enfraquecer e subverter o adversário por meio de medidas coercitivas unilaterais e combinar sanções econômicas com medidas financeiras, informacionais, propagandísticas e culturais, juntamente com uma revolução colorida, guerra cibernética, <em>lawfare</em> e outras táticas.</li>
</ul>
<p>Se os resultados desejados forem alcançados na Ucrânia, a mesma estratégia será, sem dúvida, replicada no Pacífico Ocidental.</p>
<p>O alinhamento estratégico não significa que as elites políticas não estejam divididas em outras questões que considerem de menor importância, como as mudanças climáticas. Mesmo sobre esse assunto, no entanto, os Estados Unidos exigem que a Europa pare de importar gás natural da Rússia. John Kerry, assessor de Biden para assuntos climáticos, não se compromete com os potenciais impactos ambientais negativos de tal movimento, em parte porque os Estados Unidos querem substituir as vendas de gás russo na Europa por seus próprios recursos.</p>
<p>Nos últimos anos, forças progressistas em todo o mundo lançaram várias campanhas internacionais para expressar suas preocupações sobre a estratégia global agressiva que está sendo buscada pelos EUA, muitas vezes usando o termo “Nova Guerra Fria”. No entanto, as narrativas apresentadas às vezes subestimam a depravação de alguns aspectos da atual política externa dos EUA. A “Velha Guerra Fria” com a União Soviética seguiu certas regras e pano de fundo: os Estados Unidos usaram uma variedade de meios políticos e econômicos para exercer pressão e procurar subverter o Estado soviético, e os dois lados reconheceram o escopo de interesses e necessidades de segurança um do outro. No entanto, os EUA não tentaram mudar as fronteiras nacionais dos adversários nucleares. Não é o caso de hoje, como visto pela declaração aberta do<em> The Wall Street Journal, </em>de que os Estados Unidos devem demonstrar sua capacidade de vencer uma guerra nuclear, uma posição que é subjugada pela alegação da elite da política externa de que a Ucrânia e Taiwan devem ser protegidos, pois ambos são locais estratégicos dentro do perímetro militar ocidental (Cropsey, 2022). Até mesmo o líder da Guerra Fria, Kissinger, expressou preocupação e oposição à atual política externa dos EUA, argumentando que a estratégia correta é dividir a China e a Rússia, e advertiu que haverá consequências perigosas se os EUA prosseguirem simultaneamente com a guerra direta contra esses dois Estados nucleares.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>A burguesia dos EUA se prepara para a guerra contra a China</strong></span></h3>
<p>Washington tem procurado economicamente desatrelar os Estados Unidos da China por meio de guerras comerciais e tecnológicas, um processo que foi iniciado pelo governo Trump e continuou sob a liderança de Biden. No entanto, essa política gerou consequências não intencionais. Por um lado, devido à formação de cadeias globais de suprimentos, as indústrias manufatureiras dos EUA e da Europa dependem fortemente das importações da China, e Biden enfrentou a oposição interna com apelos para reduzir as tarifas de guerra comercial, a fim de aliviar a enorme pressão da inflação nos Estados Unidos. Por outro lado, embora a China não tenha iniciado a dissociação econômica, a pressão das guerras comerciais e tecnológicas tem promovido o desenvolvimento da “grande circulação interna” no país (reduzindo a dependência das exportações e confiando mais no consumo interno). Desde a pandemia, houve um aumento superficial do comércio de mercadorias entre os EUA e a China.</p>
<p>Deve-se notar, no entanto, que há uma mudança em curso na lógica básica das relações dos EUA com a China: a burguesia estadunidense vem apertando sua aliança contra a China e apoiando a estratégia belicista de Washington. Essa situação decorre tanto de fatores econômicos quanto ideológicos. Por um lado, os números do PIB dos EUA e de outros países do Ocidente mascaram as contribuições feitas pelo trabalho em fábricas no Sul Global. Por exemplo, as vendas altamente rentáveis da Apple nos Estados Unidos aparecem no PIB estadunidense, mas a fonte real de seus altos retornos é o excedente criado pela força de trabalho qualificada e muito eficiente em Shenzhen, Chongqing e outras cidades da China, onde as fábricas da Foxconn estão localizadas (Smith, 2012).<a href="#_section_3_ftn4" name="_section_3_ftnref4"><sup>4</sup></a> A China percorreu um longo caminho desde a era das grandes fábricas com trabalhadores não qualificados com baixa remuneração e desenvolveu uma infraestrutura industrial, logística e social extremamente sofisticada que, a partir de 2019, representou 28,7% da manufatura global (Richter, 2021). Mudar toda a cadeia de suprimentos da China para a Índia ou México seria um processo de décadas e não pode ser baseado apenas em salários mais baixos.</p>
<p>Poucos setores da economia dos EUA dependem fortemente do mercado chinês local para vendas; os fabricantes de chips dos EUA são a exceção. Grandes empresas como Boeing, Caterpillar, General Motors, Starbucks, Nike, Ford e Apple obtêm menos de 25% de sua receita da China. A Apple, por exemplo, obtêm 17% (Yahoo! Finance, 2020). A receita total das empresas do S&amp;P 500 é de 14 trilhões de dólares, não mais que 5% dos quais estão relacionados às vendas dentro da China (Yardeni Research, Inc., 2022). É improvável que os CEOs estadunidenses se oponham aos rumos da política externa dos EUA sobre a China, uma vez que não está sendo apresentado a eles um caminho claro para aumentar seu acesso a longo prazo ao crescente mercado interno chinês. Essa atitude foi exibida durante a chamada de resultados de maio de 2022 da Disney, quando o CEO Bob Chapek expressou confiança no êxito da empresa, mesmo sem acesso ao mercado chinês (Hall, 2022). Essa abordagem em relação à China é visível nas principais indústrias dos EUA.</p>
<p><strong>Tecnologia/internet</strong>  Nove dos dez americanos mais ricos estão na indústria de tecnologia/internet, o <em>zeitgeist</em> de nosso tempo, com a exceção parcial de Elon Musk, o CEO da fabricante de automóveis elétricos Tesla, cujo primeiro pote de ouro também veio da indústria da internet. Em comparação com as listas dos estadunidenses mais ricos das últimas décadas, aqueles de setores tradicionais como manufatura, bancos e petróleo foram ultrapassados por uma elite tecnológica em ascensão, que está mergulhada em atitudes anti-China por conta das dificuldades que enfrentaram para penetrar no mercado chinês. Gigantes da tecnologia dos EUA, como Google, Amazon e Facebook, praticamente não têm mercado na China, enquanto empresas como Apple e Microsoft enfrentam dificuldades crescentes. Na última década, a empresa chinesa de tecnologia e telecomunicações Huawei ultrapassou a Apple em termos de participação de mercado na China, mas logo a Apple recuperou o primeiro lugar devido às sanções dos EUA, que proibiram a venda de chips semicondutores – um componente chave em smartphones – para Huawei. O governo chinês está supostamente adotando seus próprios sistemas de Produtividade Linux e Office para substituir os softwares Microsoft Windows e Office. Empresas tradicionais de Tecnologia da Informação (TI) como IBM, Oracle e EMC (coletivamente referida como IOE) têm sido marginalizadas no mercado chinês pela onda liderada pelo Alibaba, que busca substituir servidores IBM, bancos de dados Oracle e dispositivos de armazenamento EMC por soluções próprias e de código aberto. Gigantes da tecnologia dos EUA anseiam por uma mudança no sistema político chinês que abriria as portas para o enorme mercado do país, e os principais atores desse setor estão trabalhando ativamente para que a política externa hostil de Washington avance. Eric Schmidt, ex-CEO e presidente executivo do Google, liderou o estabelecimento da Unidade de Inovação em Defesa do governo dos EUA em 2016 e da Comissão Nacional de Segurança Sobre Inteligência Artificial em 2018. Sua fervorosa promoção da teoria da “Ameaça chinesa” reflete a opinião predominante da comunidade <em>tech</em> dos EUA, que também molda o discurso público. O Twitter e o Facebook fizeram parcerias com governos dos EUA e do Ocidente para censurar cada vez mais as críticas à sua política externa e influenciar a discussão em torno de questões-chave — como a pandemia, Hong Kong e Xinjiang — em nome do combate a campanhas de desinformação supostamente lançadas pela China e outros pseudos adversários.</p>
<p><strong>Manufaturas </strong>A indústria manufatureira dos EUA continua dependente da capacidade de produção chinesa. O investimento consistente e a inovação tecnológica no setor de manufaturas dos EUA foram efetivamente abandonados durante o período neoliberal e, apesar dos apelos de Obama e Trump para que o setor se aproximasse novamente ao território estadunidense, pouco foi realizado a esse respeito. No entanto, os investimentos no setor manufatureiro dos EUA na China diminuíram nos últimos anos, com a notável exceção da mega fábrica da Tesla em Xangai. Mesmo nesse caso, no entanto, é importante notar que Elon Musk ganhou inúmeros contratos de aquisição da área militar do governo dos EUA por meio de sua empresa de exploração espacial SpaceX, cujo sistema de satélites Starlink foi criticado pela China por sua “proximidade” com a estação espacial chinesa em duas ocasiões em 2021. O Exército Popular de Libertação Chinês alertou que os EUA podem tentar militarizar o sistema Starlink. A implantação dos serviços da Starlink na Ucrânia durante a guerra é uma evidência dessa dinâmica. A possível aquisição do Twitter por Musk dificilmente mudaria o relacionamento da empresa com os governos dos EUA e do Ocidente e a orientação em relação à China e à Rússia.</p>
<p><strong>Finanças </strong><em> </em>A indústria de serviços financeiros dos EUA há muito espera que os mercados de capitais chineses se abram ainda mais para eles. Sua esperança final é a mudança de regime no país que levaria a um caminho neoliberal. A atitude anti-chinesa do influente magnata financeiro e filantropo húngaro George Soros é bem conhecida. Em janeiro de 2022, Soros tuitou que “a China de Xi Jinping é a maior ameaça que as sociedades abertas enfrentam hoje”. Esses comentários vieram depois que Jamie Dimon, o CEO do JPMorgan Chase, declarou em novembro de 2021 que o banco multinacional sobreviveria ao Partido Comunista da China (embora mais tarde ele tenha se desculpado por esse comentário dizendo que estava brincando). Dimon também insinuou que a China sofreria um forte ataque militar se tentasse unificar Taiwan, uma ameaça pela qual não se desculpou (Henry; Daga, 2021). Essa atitude hostil é uma resposta ao fato de que os mercados de capitais da China não estão avançando na direção que Wall Street gostaria, como evidenciado pelo governo chinês com o fortalecimento dos controles de capital e desindexando uma série de ações chinesas da bolsa de valores dos EUA. Na reunião anual de acionistas do conglomerado de investimentos Berkshire Hathaway em 2022, Charlie Munger, vice-presidente da empresa, afirmou que a China ainda valia o investimento. Mesmo nesse caso, no entanto, Munger aceitou a premissa de seu entrevistador, que caracterizou o governo chinês como um “regime autoritário” que comete “violações dos direitos humanos”. Para Munger, a China só vale o risco extra porque se pode investir em negócios melhores a preços mais baixos.</p>
<p><strong>Setores de varejo e consumo </strong>As indústrias de varejo e consumo dos EUA têm sido espremidas por seus concorrentes chineses. Em março de 2021, a Nike e outras empresas boicotaram o algodão de Xinjiang por alegações falsas de trabalho forçado. Pouco depois, a Nike divulgou um anúncio que foi criticado por promover estereótipos racistas sobre os chineses, resultando em uma nova perda de sua participação de mercado, que já havia começado a ser flanqueada pela marca chinesa Anta.</p>
<p>Além disso, há uma desconexão significativa entre as indústrias cultural e de entretenimento dos dois países, com filmes produzidos internamente representando 85% das bilheterias chinesas em 2021. Os filmes de super-heróis da Marvel, outrora populares entre os cinéfilos chineses, não conseguiram entrar no mercado chinês devido a preocupações ideológicas, com zero bilheteria na China em 2021. A recente produção da Marvel,<em> Doutor Estranho no Multiverso da Loucura, </em>apresenta mais uma vez cenas contrárias à China, incluindo uma referência ao jornal anti-governo de extrema direita<em> The Epoch Times</em>. O filme não foi exibido no gigante asiático. Esses casos refletem as trocas de empresas americanas entre interesses comerciais — atingindo o mercado consumidor chinês — e ideologia política — opondo-se ao sistema político chinês.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><strong><span style="color: #ba2025;">O complexo militar-industrial dos EUA e o desejo pela guerra</span> </strong></h3>
<p>O complexo militar-industrial dos EUA desempenha um papel especial na galvanização da cooperação entre setores estratégicos econômicos, tecnológicos, políticos e militares em direção a interesses imperialistas. Em 2021, os seis maiores contratados militares do mundo — Lockheed Martin, Boeing, Raytheon Technologies, BAE Systems, Northrop Grumman e General Dynamics — tiveram vendas combinadas de mais de 128 bilhões de dólares para o governo dos EUA (Bloomberg, 2021). Grandes empresas de tecnologia, incluindo Amazon, Microsoft, Google, Oracle, IBM e Palantir (fundada pelo extremista Peter Thiel) formaram laços estreitos com os militares dos EUA, assinando milhares de contratos no valor de dezenas de bilhões de dólares nas últimas décadas (Glaser, 2020; Nograles, 2021; Konkel, 2021). A indústria tecnológica desempenha o papel estratégico de coletar dados no vasto império de inteligência dos EUA e está no centro da hegemonia <em>soft power</em> das mídias e redes sociais dos EUA, garantindo a dominação digital sobre a maioria do Sul Global. Como tal, esse setor se tornou imune a uma regulação significativa ou ameaças de desmonopolização.</p>
<p>O impulso estadunidense pela supremacia militar leva a gastos nas áreas de armas, tecnologia computacional (chips de silício, em particular), comunicações avançadas (incluindo guerra cibernética por satélite) e biotecnologia. O governo dos EUA solicitou oficialmente 813 bilhões de dólares para os militares como parte de seu orçamento de 2023 (o que não leva em conta gastos militares adicionais disfarçados em outros setores do orçamento global), e o Pentágono afirma que precisará de pelo menos 7 trilhões de dólares nos próximos dez anos (Stone, 2022; Cohen, 2021).</p>
<p>A privatização do Estado sob o neoliberalismo levou ao desenvolvimento de uma porta giratória entre o governo dos EUA e o setor privado nas últimas quatro décadas. O Estado tornou-se um veículo para altos funcionários do governo, incluindo congressistas, senadores, conselheiros políticos e de segurança, membros do gabinete, coronéis, generais e presidentes de ambos os partidos se tornarem multimilionários, aproveitando seu <em>status</em> e conhecimento de alguém de dentro do governo, a ser usado por grupos de interesse privado.<a href="#_section_3_ftn5" name="_section_3_ftnref5"><sup>5</sup></a> Dentro da burocracia governamental, a frase “segurança nacional” abre a torneira para a ganância pessoal e corporativa e a expansão militar radical ainda mais ampla. Sob essa forma predominante de Primeiro Mundo, corrupção legalizada, as empresas frequentemente fazem pagamentos aos funcionários depois de deixarem cargos públicos. Esses subornos legais são essencialmente pagamentos em atraso por serviços concedidos enquanto estão no cargo. Por exemplo, ao deixar o cargo, ex-funcionários públicos são frequentemente contratados como funcionários privados, membros do conselho ou conselheiros com as mesmas empresas que anteriormente haviam defendido, desde que votassem favoravelmente ou concedessem contratos governamentais como funcionários públicos (Freeman, 2012). Alguns exemplos proeminentes dessa dinâmica difundida incluem o seguinte:</p>
<ul>
<li>Bill Clinton alega ter uma dívida de 16 milhões de dólares quando deixou a Casa Branca em 2001, mas, em 2021, tinha uma fortuna estimada de cerca de 80 milhões de dólares (DiSalvo, 2021).</li>
<li>Com uma chocante impunidade, pelo menos 85 das 154 pessoas de grupos de interesse privado que se reuniram ou tiveram conversas telefônicas agendadas com Hillary Clinton – enquanto ela liderava o Departamento de Estado sob o presidente Obama – doaram um combinado de 156 milhões de dólares para a Fundação Clinton (CNBC, 2016).</li>
<li>James “Mad Dog” Mattis, um general quatro estrelas aposentado, ex-secretário de Defesa de Trump e ex-membro do conselho da CNAS, teve um patrimônio líquido de 7 milhões de dólares em 2018, cinco anos após sua “aposentadoria” militar. Isso foi obtido por meio de pagamentos significativos de uma ampla lista de empresários do setor militar e incluiu de 600 mil a 1,25 milhão de dólares em ações e opções na grande empresa de defesa General Dynamics (Herb, O’brien, 2017).</li>
<li>Lloyd Austin, secretário de Defesa do presidente Biden, anteriormente serviu no conselho de administração de várias empresas militares, como United Technologies e Raytheon Technologies. Austin ganhou a maior parte de seu patrimônio líquido de 7 milhões de dólares depois de “se aposentar” como general quatro estrelas (Alexander, 2021).</li>
</ul>
<p>Entre 2009 e 2011, mais de 70% dos principais generais dos EUA trabalharam para contratistas militares depois de se aposentarem de seu cargo. Os generais também dobram a remuneração ao receber simultaneamente compensações do Pentágono e pagamentos de contratistas militares privados (Johnson, 2012). Só em 2016, cerca de 100 oficiais militares americanos passaram pela porta giratória entre o governo e contratistas militares privados, incluindo 25 generais, 9 almirantes, 43 tenentes-generais e 23 vice-almirantes (Vanden Brook, Dilanian, Locker, 2009).</p>
<p>Durante o governo Trump, muitos funcionários da era Obama se mudaram para o setor privado, dando consultoria e aconselhando as maiores corporações do mundo, para logo na sequência retornarem à Casa Branca sob Biden. Em uma exibição impressionante desta porta giratória, o governo Biden nomeou mais de 15 altos funcionários da empresa de consultoria corporativa WestExec Advisors, fundada em 2017 por uma equipe de ex-funcionários do governo Obama que afirma fornecer “análises incomparáveis de risco geopolítico” para seus clientes – incluindo “Gerenciamento de Risco Relacionado à China em uma Era de Concorrência Estratégica” (Guyer, Grim, 2021; WestExec Advisors, 2022). A empresa facilita a cooperação entre o setor <em>Big Tech</em> e os militares dos EUA, com clientes como Boeing, Palantir, Google, Facebook, Uber, AT&amp;T, a empresa de vigilância de drones Shield AI e a empresa israelense de inteligência artificial Windward. Os ex-funcionários da WestExec que trabalham na administração Biden incluem o secretário de Estado Blinken, o diretor de Inteligência Nacional Avril Haines, o vice-diretor da CIA, David Cohen, o secretário assistente de Defesa para assuntos de segurança indo-pacífico Ely Ratner, e a ex-secretária de Imprensa da Casa Branca Jen Psaki (Guyer, Grim, 2021; Thompson, Meyer, 2021; Lipton, Vogel, 2020).</p>
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<div id="attachment_64443" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-64443" class="wp-image-64443 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/09/Graph-2_PT.jpg" alt="" width="950" height="990" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/09/Graph-2_PT.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/09/Graph-2_PT-288x300.jpg 288w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/09/Graph-2_PT-768x800.jpg 768w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-64443" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #ba2025;">O fluxo da WestExec para a administração Biden, parte um. Gráfico: Soohee Cho/The Intercept</span><a href="#_section_3_ftn6" name="_section_3_ftnref6"> <sup><span style="color: #ba2025;">6</span></sup></a></small></p></div>
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<h3 style="margin:2em 0;"><strong><span style="color: #ba2025;">O enfraquecimento da resistência doméstica ao militarismo dos EUA</span> </strong></h3>
<p>Em 1973, os Estados Unidos aboliram a obrigatoriedade do serviço militar, ou o que era conhecido como o conscrição; depois, os militares dos EUA passaram a se referir inteligente e enganosamente ao seu exército como um exército de voluntários. Isso foi feito para reduzir a oposição interna às guerras dos EUA no exterior, especialmente dos filhos de famílias com propriedades e de classe média que se tornaram explicitamente contra a guerra no Vietnã. Embora a medida tenha se justificado em nome da escolha de soldados mais profissionais e dedicados, na realidade, a burguesia procurou aproveitar as vulnerabilidades econômicas das famílias mais pobres da classe trabalhadora, recrutadas para o serviço militar por meio de ofertas de treinamento técnico e ganhos estáveis. Os avanços tecnológicos permitiram que os Estados Unidos aumentassem simultaneamente sua capacidade de matar civis e combatentes inimigos nos países invadidos, reduzindo a taxa de morte de soldados americanos. Por exemplo, na guerra de 2,2 trilhões de dólares contra o Afeganistão entre 2001 e 2021, apenas 2.442 (1%) das 241 mil pessoas mortas (incluindo mais de 71 mil civis) eram militares dos EUA (Crawford, Lutz, 2021). A redução do número de mortes nos EUA e o aumento de contratistas privados enfraqueceu a conexão emocional doméstica com as campanhas de guerra dos EUA. Em meados da década de 2010, estima-se que quase metade das forças armadas dos EUA no Iraque e no Afeganistão eram empregados de contratistas privados (Stinchfield, 2017). Em 2016, a maior empresa militar privada do mundo, a ACADEMI (inicialmente fundada por Erik Prince como Blackwater) foi comprada pela maior empresa de <em>private equity</em> do mundo, Apollo, por cerca de 1 bilhão de dólares (Wilkers, 2016). Longe de um exército de voluntários, é cada vez mais adequado descrever o atual exército estadunidense como um exército de mercenários.</p>
<p>Os Estados Unidos estão ainda mais encorajados em seu belicismo pelo fato de que, embora tenham invadido ou participado de operações militares em mais de cem países, nunca foi invadido ou experimentou baixas civis em larga escala nas mãos de governos estrangeiros. A psicologia do excepcionalismo dos EUA é moldada pelo fato de que a atual geração de elites políticas cresceu em grande parte após o fim da Guerra Fria, um período definido como o chamado “fim da história”, quando seu país parecia ser invencível. Os Estados Unidos não tinham experimentado um desafiante sério no exterior ou em casa até a ascensão da China. Como resultado, essa elite é particularmente ahistórica em sua visão de mundo, tomada por ilusões de grandeza, e consequentemente se sente sem restrições — uma combinação extremamente perigosa.</p>
<p>O complexo militar-industrial, composto por generais, políticos, empresas de tecnologia e empresas militares privadas, está buscando uma expansão maciça da capacidade militar dos EUA. Hoje, quase todos em Washington usam a China, bem como a Rússia, como pretexto para este acúmulo. Enquanto isso, muitos deles cometeram ou apoiaram crimes de guerra no Iraque, Afeganistão, Síria, Líbia e em outros lugares.</p>
<p>Poucos capitalistas influentes nos Estados Unidos estão dispostos individualmente a se posicionarem abertamente contra o coro que demoniza a China, e aqueles que o fazem são disciplinados ou ostracizados. Raramente se depara com opiniões dissidentes publicamente ou pedidos de contenção nas seções <em>op-ed</em> do <em>The New York Times</em> ou <em>The Wall Street Journal</em>. Durante a campanha presidencial de 2020, Michael Bloomberg foi fortemente criticado por ser “suave” com a China depois que afirmou que o Partido Comunista era responsivo ao povo e se recusou a rotular o presidente Xi Jinping como um ditador. Bloomberg parece ter sido disciplinado com sucesso; sob o governo Biden, juntou-se à histeria belicista e foi nomeado presidente do Conselho de Inovação em Defesa do Pentágono em fevereiro de 2022. A empresa global de consultoria de gestão McKinsey &amp; Company, que tem favorecido um maior engajamento econômico com a China, tem enfrentado crescentes críticas, sendo difamada pelo <em>The New York Times </em>por “ajudar a elevar a estatura de governos autoritários e corruptos em todo o mundo” (Bogdanich, Forsythe, 2018). Consequentemente, a influência de McKinsey nos círculos de negócios dos EUA foi muito enfraquecida. Embora um pequeno número de figuras – como Ray Dalio, investidor bilionário e fundador da Bridgewater Associates – continue a expressar otimismo sobre as relações EUA-China, eles são exceções.</p>
<p>Mais criticamente, aqueles no atual alto escalão da elite burguesa dos EUA diversificaram seus investimentos em uma série de indústrias, permitindo-lhes superar os estreitos interesses econômicos de curto prazo de qualquer setor e se alinhar com o “quadro geral” da estratégia dos EUA. Em contraste com milionários de gerações passadas que estavam focados em uma única indústria, os bilionários de hoje desenvolveram uma consciência mais compartilhada e podem vislumbrar os principais retornos a longo prazo de um mercado chinês totalmente liberalizado que ocorreria após a derrubada do Estado chinês. Consequentemente, esses bilionários são motivados a apoiar a contenção dos EUA em relação à China, apesar das perdas de curto prazo que podem sofrer como resultado. Como detalhado acima, essa grande burguesia financia um grande espectro de <em>think tanks</em> e grupos políticos por meio de fundações sem fins lucrativos, moldando discussões e propostas políticas dos EUA.</p>
<p>Entre a classe média alta, há um pequeno grupo de isolacionistas libertários de extrema-direita compostos principalmente por intelectuais e representados pelo Instituto Cato. Essa rede política se posiciona contra o Sistema da Reserva Federal dos EUA e intervenção estrangeira e se opõe ao papel dos EUA na Ucrânia. No entanto, é marginalizada na área de política externa dos EUA e não exerce muita influência.</p>
<p>Como Karl Marx observou uma vez, os capitalistas sempre foram um “bando de irmãos em guerra”. Esse bando mantém um Estado moderno que tem um corpo maciço e permanente de homens e mulheres armados, funcionários de inteligência e espiões. Em 2015, 4,3 milhões de pessoas nos Estados Unidos tinham autorização para acessar material governamental “confidencial”, “secreto” ou “ultrassecreto” (Congressional Research Service, 2016). Independentemente de qualquer resultado eleitoral, esse aparato estatal é finalmente capaz de exercer seu domínio e orientar a política externa dos EUA, como evidenciado durante a incapacidade do governo Trump de implementar sua própria política externa.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><strong><span style="color: #ba2025;">A ascensão da extrema direita e a falsa natureza dos pesos e contrapesos no sistema político estadunidense</span> </strong></h3>
<p>A hostilidade da elite burguesa e das classes médias dos EUA em relação à China tem raízes profundas e racistas. Os quatro anos de Trump no cargo coincidiram com a formação de uma coalizão unida de movimentos populistas e supremacistas brancos de direita conhecidos como Alt-Right. Stephen Bannon, porta-voz deste movimento, é um ex-presidente do site supremacista branco<em> Breitbart News Network</em> e é, sem surpresa, um dos mais ativos ativistas anti-China nos Estados Unidos. A base de apoio da Alt-Right vem da classe média baixa: a maioria são pessoas brancas com renda familiar anual de cerca de 75 mil dólares. Enquanto Bannon e até o próprio Trump gostam de se gabar do apoio que recebem da “classe operária branca”, sua base de apoio principal é, na verdade, a classe média baixa — não o operariado.</p>
<p>O Partido Republicano beneficiou eleitoralmente a criação desse bloco de votação neofascista. A Alt-Right tende a idolatrar grandes personalidades capitalistas e deseja mobilidade ascendente para se juntar à elite. Esse bloco expressa ódio tanto aos líderes políticos e culturais da elite por bloquearem seu caminho para a riqueza, bem como para a classe trabalhadora. Em 1951, o proeminente sociólogo americano C. Wright Mills ofereceu a seguinte caracterização das classes médias dos EUA:</p>
<p style="padding-left: 40px;">Elas estão na retaguarda. No curto prazo, buscarão formas assustadoras de prestígio; a longo prazo, buscarão os caminhos do poder, pois, no final, o prestígio é determinado pelo poder. Enquanto isso, no mercado político (…) as novas classes médias estão à venda; quem parece respeitável o suficiente, forte o suficiente, provavelmente pode comprá-los. Até agora, ninguém fez uma oferta séria (Mills, 1951, p. 353).</p>
<p>O governo Trump deslocou o ressentimento da classe média baixa por sua deterioração econômica para a China. A economia dos EUA nunca se recuperou totalmente da crise hipotecária de 2008, quando a política monetária frouxa permitiu que os grandes capitalistas colhessem enormes lucros enquanto a classe trabalhadora e a classe média baixa sofreram grandes perdas. Esse último grupo, irritado e frustrado com sua situação e precisando de um porta-voz, foi mobilizado por Trump e se tornou sua principal fonte de votos com a ajuda dos supremacistas brancos, do capitalismo racial e de uma Nova Guerra Fria para suprimir totalmente a China como um oponente.</p>
<p>Hoje, a hostilidade contra a China se tornou generalizada em toda a população dos EUA. A impressão de que a China é o arqui-inimigo do mundo livre e a maior ameaça aos Estados Unidos tem sido enfaticamente reforçada pelos principais meios de comunicação e plataformas de internet, enquanto a liberdade de expressão para aqueles que se opõem a essa tendência perigosa tem sido cada vez mais restrita. Qualquer reconhecimento das perspectivas russas e chinesas ou críticas à política externa dos EUA em relação a esses países sofre fortes críticas. A opinião pública nos Estados Unidos se assemelha cada vez mais ao período macartista da década de 1950 e, de certa forma, o clima social tem semelhanças perturbadoras com o da Alemanha no início da década de 1930.</p>
<p>Os que estão alheios à política estadunidense não entendem a real natureza dos controles e equilíbrios e a separação de poderes no sistema político dos EUA. Ao contrário da história das reformas constitucionais europeias que foram geradas por movimentos revolucionários sociais, a Constituição dos EUA, originalmente fundada por um grupo de proprietários (incluindo escravistas), foi projetada desde o início para proteger os direitos dos donos de propriedades privadas contra o que temiam que poderia se tornar uma regra mafiosa. Até hoje, a Constituição permite o desmantelamento da maioria dos direitos sociais e legais burgueses tradicionais.</p>
<p>Medidas como o colégio eleitoral, originalmente implementada para proteger os interesses da exploração de escravos do sul e outros estados rurais menores, foram projetadas para impedir o voto direto do povo para presidente (uma pessoa, um voto). Esse sistema antidemocrático, que é protegido por um processo difícil e oneroso para alterar a Constituição, resultou tanto nas vitórias de Bush Jr. quanto na de Trump para a presidência, apesar de terem recebido menos votos que seus respectivos oponentes. Apesar da eventual extensão dos direitos de voto para negros, mulheres e pessoas sem propriedade, a desoneração dos eleitores continua até hoje. Desde 2021, 19 estados promulgaram um total de 34 leis de supressão de votantes que poderiam limitar os direitos de voto de até 55 milhões de eleitores nesses estados (Eskridge; Barnes, 2022). Enquanto isso, a Suprema Corte não eleita tem o poder de derrubar a legislação de direitos de voto, derrubar ações afirmativas e permitir que organizações religiosas apreciem os direitos civis.</p>
<p>Uma decisão da Suprema Corte de 2010 conhecida como <em>Citizens United</em> retirou os limites das contribuições privadas e corporativas para as eleições, tornando-as uma disputa de força financeira (Vandewalker, 2020). Nas eleições de 2020, os gastos totais para as corridas presidenciais e parlamentares foram de 14 bilhões de dólares (Schwartz, 2020). Há também a competição psicológica-tecnológica: as ferramentas persuasivas baseadas em mídias sociais, economia comportamental e Big Data desempenham um papel enorme na formação dos processos eleitorais. Ao mesmo tempo, essas ferramentas são extremamente caras, ajudando a garantir que a política seja um jogo quase exclusivo para os ricos. Em 2015, a riqueza mediana dos senadores dos EUA ultrapassou 3 milhões de dólares (Kopf, 2018). Este é um governo que dificilmente o povo pode fazer valer mecanismos de pesos e contrapesos.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Estamos condenados à guerra?</strong></span></h3>
<p>Em 2014, Xi Jinping, pouco depois de se tornar o principal líder da China, disse então ao presidente Obama que, “o amplo Oceano Pacífico é vasto o suficiente para abraçar tanto a China quanto os Estados Unidos” (Embaixada da República Popular China nos Estados Unidos, 2014). Rejeitando esse aceno diplomático, a então secretária de Estado Hillary Clinton se gabou em um discurso privado de que os Estados Unidos poderiam chamar o Pacífico de “Mar Americano” e ameaçaram “tocar a China com defesa antimísseis” (Gallo, 2016). Em 2020, o Centro de Pesquisa em Economia e Negócios do Reino Unido (CEBR) previu que a China ultrapassaria os Estados Unidos e se tornaria a maior economia do mundo até 2028, um limiar que assombra a elite estadunidense. A política externa dos EUA e a opinião pública nos últimos anos se fixaram nos preparativos para travar uma guerra quente para conter a China antes que isso possa acontecer. A guerra por procuração na Ucrânia pode ser vista como um prelúdio para essa guerra quente. A mobilização ideológica que prepara para a guerra já está em pleno vapor nos Estados Unidos. As rodas do neofascismo estão girando, e uma nova era do macartismo surgiu. As chamadas políticas democráticas são apenas um disfarce para o governo da elite burguesa; elas não servirão como um mecanismo de frenagem para a máquina de guerra.</p>
<p>Há 140 milhões de pessoas que trabalham e são pobres nos Estados Unidos, e 17 milhões  de crianças passando fome — seis milhões a mais que antes da pandemia (Barnes, 2019. Save the Children, 2021).<sup>.</sup> Embora uma parte dessa classe expresse apoio ideológico à política belicista dos EUA, esse apoio contradiz diretamente seus interesses: o orçamento militar de quase trilhões de dólares vem às custas de fundos para garantir saúde, educação, infraestrutura e outros direitos humanos, bem como combater as mudanças climáticas. Historicamente, grupos progressistas nos Estados Unidos, como os movimentos negros e feministas, têm um forte espírito de luta antiguerra, e líderes como Martin Luther King Jr. e Malcolm X lutaram corajosamente para construir uma onda de resistência à agressão dos EUA no sudeste da Ásia. Infelizmente, hoje, alguns (mas não todos) líderes progressistas nos Estados Unidos não estão dispostos a desafiar a campanha anti-China de Washington ou, pior, até se tornaram apoiadores dela.</p>
<p>Há vozes importantes nos Estados Unidos que se posicionam. No entanto, deve-se notar que os poucos grupos progressistas contrários a uma Nova Guerra Fria foram zombados por supostamente justificarem o genocídio em Xinjiang. O sistema político dos EUA trabalha impiedosamente para marginalizar vozes dessa parte da sociedade.</p>
<p>Embora os Estados Unidos e seus aliados estejam agressivamente buscando a expansão militar global por meio da Otan, a grande maioria do mundo não aceita a sua guerra. Em 2 de março de 2022, a Assembleia Geral da ONU realizou a 11ª sessão especial de emergência, e os países que, juntos, constituem mais da metade da população mundial, votaram contra ou se abstiveram de votar o projeto de resolução intitulado “Agressão contra a Ucrânia”. Enquanto isso, países que representam 85% da população mundial não endossaram as sanções lideradas pelos EUA contra a Rússia (No Cold War, 2022). As tentativas de Washington de intensificar e prolongar a guerra e forçar uma dissociação de Moscou e Pequim levarão a um enorme deslocamento econômico, o que trará reações negativas consideráveis ao governo dos EUA. Mesmo países como a Índia e a Arábia Saudita estão profundamente preocupados com os excessos estadunidenses no congelamento das reservas cambiais russas e no reforço da hegemonia do dólar. Da mesma forma, os presidentes do México, Bolívia, Honduras, El Salvador e Guatemala não compareceram à Cúpula das Américas organizada em Los Angeles em junho de 2022 por causa da exclusão de Cuba, Venezuela e Nicarágua. A resistência ao domínio estadunidense está crescendo na América Latina. Deve-se notar, no entanto, que plataformas internacionais como a ONU não são realmente capazes de impedir os Estados Unidos de travar guerras. Washington se recusa a ser obrigado por qualquer coisa, menos por sua própria ordem internacional baseada em regras.</p>
<p>Nos Estados Unidos, o governo Biden está fornecendo ajuda militar maciça à Ucrânia para criar uma guerra prolongada para enfraquecer a Rússia e, na medida do possível, provocar mudança de regime. Também está se desviando do espírito das três declarações conjuntas sino-americanos e desestabilizando o estreito de Taiwan de várias maneiras. Embora os Estados Unidos tenham grande poder militar, sua força econômica atual, embora imensa, está em um estado perpétuo de declínio e crise.</p>
<p>Como John Ross mostra neste estudo em outro artigo, a supremacia econômica dos EUA está diminuindo e pode ser encerrada pelo rolo compressor econômico chinês. Além disso, Washington, juntamente com seus aliados da Otan, enfrentam múltiplas e profundas dificuldades econômicas e ecológicas. A guerra dirigida pelos EUA vai exacerbar esses problemas e pode condenar a Europa a um crescimento do PIB menor e possivelmente negativo, juntamente com a inflação e o aumento dos gastos militares socialmente inúteis. Os Estados Unidos abandonaram efetivamente qualquer pretensão de uma estratégia séria para enfrentar as mudanças climáticas, sem mencionar que sua busca interminável pela guerra exacerba a catástrofe climática. E, ironicamente, apesar do consenso político interno para a dissociação econômica, as empresas estadunidenses continuam aumentando as encomendas para a China – a dissociação substantiva continua sendo um sonho.</p>
<p>Os Estados Unidos, porém, não entrarão em colapso econômico; o impulso de Washington para a guerra, as sanções e a dissociação econômica continuarão a prejudicar sua própria economia e a colocar em risco a cadeia mundial de fornecimento de alimentos. A consequente instabilidade social global, por sua vez, enfraquecerá ainda mais a economia dos EUA e gerará mais desafios ao seu governo, incluindo a crescente oposição à hegemonia do dólar.</p>
<p>A governança social relativamente estável da China, a forte defesa nacional, a estratégia diplomática de paz e a resistência à sucumbência ao poder dos EUA podem, como disse o conselheiro de Estado chinês Yang Jiechi, permitir que o país prossiga “de uma posição de força” e eventualmente force os Estados Unidos a desistir da ilusão de que poderia entrar em guerra com a China e vencer (BBC News, 2021). É do interesse do Sul Global que a China continue sendo um Estado socialista forte e soberano e que continue a promover políticas alternativas para a governança global, como o conceito de “construir uma comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade” e a Iniciativa de Desenvolvimento Global. Deve haver um compromisso imediato de revigorar projetos multilaterais viáveis do Sul Global, como os BRICS e o Movimento dos não-Alinhados, iniciativas em que grande parte do mundo compartilha um interesse comum. A população mundial, a grande maioria das quais está localizada no Sul Global, deve resistir à guerra e pedir a paz. Os Estados Unidos não são o primeiro império a exagerar com sua arrogância, e ele, também, eventualmente verá seu poder chegar ao fim.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Referências bibliográficas</strong></span></h3>
<div class="footnotes">
<p>“10 US Companies with Highest Revenue Exposure to China”, Yahoo! Finance, 2 ago. 2020, https://finance.yahoo.com/news/10-us-companies-highest-revenue-225350456.html.</p>
<p>“A Conversation with Representative Michael McCaul”, Council on Foreign Relations, 6 abr. 2022, https://www.cfr.org/event/conversation-representative-michael-mccaul.</p>
<p>“China Says U.S. Cannot Speak from ‘a Position of Strength’”, BBC News, 19 mar. 2021, https://www.bbc.com/news/av/world-56456021.</p>
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<p>Cropsey, Seth. “The U.S. Should Show It Can Win a Nuclear War”, Wall Street Journal, 27 abr. 2022, https://www.wsj.com/articles/the-us-show-it-can-win-a-nuclear-war-russia-putin-ukraine-nato-sarmat-missile-testing-warning-11651067733</p>
<p>Daalder, Ivo H. y James M. Lindsay. “American Empire, Not ‘If’ but ‘What Kind’”, New York Times, 10 maio 2003, https://www.nytimes.com/2003/05/10/arts/american-empire-not-if-but-what-kind.html.</p>
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</div>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Notas</strong></span></h3>
<div class="footnotes">
<p><a href="#_section_3_ftnref1" name="_section_3_ftn1"><sup>1</sup></a> Este artigo foi originalmente escrito para um público chinês e adaptado e publicado em <em>Guancha</em>, um site de notícias chinês.</p>
<p><a href="#_section_3_ftnref2" name="_section_3_ftn2"><sup>2</sup></a> Do inglês, “liberal hawk”. Termo utilizado para designar liberais que defendem políticas externas intervencionistas e belicistas.</p>
<p><a href="#_section_3_ftnref3" name="_section_3_ftn3"><sup>3</sup></a> Brinkmanship é uma estratégia na qual se força uma situação perigosa até à iminência de um desastre, de forma a alcançar o resultado mais vantajoso. Na política externa e nas estratégias militares pode envolver a ameaça do uso de armas nucleares.</p>
<p><a href="#_section_3_ftnref4" name="_section_3_ftn4"><sup>4</sup></a> Ver também o Caderno do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social “O iPhone e a taxa de exploração”, 22 set. 2019. Disponível em: <a class="footnote-link" href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/o-iphone-e-a-taxa-de-exploracao/">https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/o-iphone-e-a-taxa-de-exploracao/</a>  e a Carta Semanal 39 de 2019: “Quantos trabalhadores foram explorados para você ter seu celular?”, 29 set. 2019. Disponível em: <a class="footnote-link" href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/newsletterissue/carta-semanal-39-2019-quantos-trabalhadores-foram-explorados-para-voce-ter-seu-celular/">https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/newsletterissue/carta-semanal-39-2019-quantos-trabalhadores-foram-explorados-para-voce-ter-seu-celular/</a></p>
<p><a href="#_section_3_ftnref5" name="_section_3_ftn5"><sup>5</sup></a> Ver: Open Secrets: <a class="footnote-link" href="https://www.opensecrets.org/">https://www.opensecrets.org/</a>. Acesso em: 9 ago. 2022</p>
<p><a href="#_section_3_ftnref6" name="_section_3_ftn6"><sup>6</sup></a> Guyer, Jonathan; Grim, Ryan. “Meet the Consulting Firm That’s Staffing the Biden Administration”. <em>The Intercept</em>, 6 jul. 2021. Disponível em: <a class="footnote-link" href="https://theintercept.com/2021/07/06/westexec-biden-administration/">https://theintercept.com/2021/07/06/westexec-biden-administration/</a></p>
</div>
<p> </p>
<p><a name="section_4"></a></p>
<h1 class="mrst_section_title mrst_section_title_4"><span style="color: #ba2025;"><strong>“Notas sobre exterminismo” para os movimentos de ecologia e paz do século 21</strong></span></h1>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #ba2025;">John Bellamy Foster</span></h2>
<p> </p>
<p>Em 1980, o grande historiador inglês e teórico marxista E. P. Thompson, autor de <em>A formação da classe operária inglesa</em> e líder do Movimento para o Desarmamento Nuclear Europeu, escreveu o ensaio inovador <em>Notes on Exterminism, the Last Stage of Civilization</em> [Notas sobre o exterminismo, a última etapa da civilização].<a href="#_section_4_ftn1" name="_section_4_ftnref1"><sup>1</sup></a> Embora o mundo tenha sofrido uma série de mudanças significativas desde então, o ensaio de Thompson continua sendo um ponto de partida útil para abordar as contradições centrais de nossos tempos, como a crise ecológica planetária,  a pandemia de Covid-19, a Nova Guerra Fria e o atual “império do caos” — todas decorrentes de características profundamente incorporadas na economia política capitalista contemporânea (Thompson, 1982; Amin, 1992).</p>
<p>Para Thompson, o termo <em>exterminismo</em> não se referia à extinção da vida, uma vez que alguma vida permaneceria mesmo diante de uma troca termonuclear global, mas sim à tendência ao “extermínio de nossa civilização [contemporânea]”, entendida em seu sentido mais universal. No entanto, o exterminismo apontou para a aniquilação em massa e foi definido nessas “características da sociedade — expressas em graus diferentes, dentro de sua economia, política e ideologia — que a impulsiona em uma direção cujo resultado é o extermínio de multidões” (Thompson, 1982, p. 64 e 73). <em>Notas sobre o exterminismo</em> foi escrito oito anos antes do famoso testemunho do climatologista James Hansen, em 1988, sobre o aquecimento global para o Congresso dos EUA e a formação, no mesmo ano, do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) da ONU. Assim, o tratamento de Thompson ao exterminismo se concentrou diretamente na guerra nuclear e não abordou a outra tendência exterminista emergente da sociedade contemporânea: a crise ecológica planetária. No entanto, sua perspectiva era profundamente socioecológica. A tendência ao exterminismo na sociedade moderna era, portanto, vista como diretamente oposta aos “imperativos da sobrevivência ecológica humana”, exigindo uma luta mundial por um mundo socialmente igualitário e ecologicamente sustentável (Thompson, 1982, p. 75–76).</p>
<p>Com o fim da União Soviética e o fim da Guerra Fria em 1991, a ameaça nuclear que pairava sobre o planeta desde a Segunda Guerra Mundial pareceu diminuir. Como resultado, a maioria das considerações subsequentes à tese do exterminismo de Thompson foram mais aplicadas ao contexto da crise ecológica planetária, também uma fonte de “extermínio de multidões” (Bahro, 1994). No entanto, o advento da Nova Guerra Fria na última década trouxe a ameaça do holocausto nuclear de volta ao centro das preocupações mundiais. A Guerra da Ucrânia de 2022, que tem sua origem no golpe de Maidan projetado pelos EUA em 2014, e a consequente Guerra Civil Ucraniana travada entre Kiev e as repúblicas separatistas da região de Donbass, de língua russa, agora evoluiu para uma guerra em larga escala entre Moscou e Kiev. Isso assumiu um significado mundial sinistro em 27 de fevereiro de 2022, com a Rússia, três dias após sua ofensiva militar na Ucrânia, colocando suas forças nucleares em alerta máximo como um aviso contra uma intervenção direta da Otan na guerra, seja por meios não nucleares ou nucleares.<a href="#_section_4_ftn2" name="_section_4_ftnref2"><sup>2</sup></a> O potencial para uma guerra termonuclear global entre as principais potências é agora maior que em qualquer momento no mundo pós-Guerra Fria.</p>
<p>Portanto, é necessário abordar essas duas tendências exterministas duplas: tanto a crise ecológica planetária (incluindo não apenas a mudança climática, mas também o cruzamento das oito outras fronteiras planetárias chave que os cientistas definem como essenciais para a capacidade da Terra de ser um lar seguro para a humanidade) e a crescente ameaça da aniquilação nuclear global. Ao abordar as interconexões dialéticas entre essas duas ameaças existenciais globais, deve-se dar ênfase à atualização da compreensão histórica do impulso ao exterminismo nuclear na forma como se metamorfoseou durante as décadas de poder unipolar dos EUA, enquanto a atenção do mundo era direcionada para outros lugares. Como a ameaça da guerra termonuclear global está novamente pairando sobre o mundo, três décadas após o fim da Guerra Fria e em um momento em que o risco de mudanças climáticas irreversíveis paira no horizonte? Quais abordagens precisam ser adotadas dentro dos movimentos pacifistas e ambientalistas para combater essas ameaças existenciais globais inter-relacionadas? Para responder a essas perguntas, é importante abordar questões como a controvérsia acerca do inverno nuclear, a doutrina da contraforça e a busca dos EUA pela supremacia nuclear global. Só assim podemos perceber todas as dimensões das ameaças existenciais globais impostas pelo “capitalismo catástrofe” de hoje.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Inverno nuclear</strong></span></h3>
<p>Em 1983, equipes de cientistas atmosféricos dos Estados Unidos e da União Soviética produziram modelos que apareceram nas principais revistas científicas prevendo que uma guerra nuclear levaria ao chamado “inverno nuclear”. Isso ocorreu em meio ao acúmulo nuclear do governo Ronald Reagan, associado à Iniciativa Estratégica de Defesa (mais conhecida como Star Wars) e à crescente ameaça de um Armagedom nuclear. Descobriu-se que o resultado de uma ofensiva termonuclear global resultaria em mega incêndios em 100 ou mais cidades, reduzindo enormemente a temperatura média da Terra, uma vez que a fuligem e a fumaça seriam empurradas para a atmosfera, bloqueando a radiação solar. O clima seria alterado muito mais abruptamente e na direção oposta do aquecimento global, introduzindo um rápido resfriamento que faria as temperaturas caírem vários graus ou mesmo “várias dezenas de graus” Celsius em todo o mundo (ou pelo menos em todo o hemisfério) em questão de um mês, com consequências horríveis para a vida na Terra. Assim, embora centenas de milhões de pessoas – talvez um bilhão ou mais – fossem mortas pelos <em>efeitos diretos</em> de uma troca termonuclear global, os <em>efeitos indiretos</em> seriam muito piores, aniquilando a maioria das pessoas no planeta por fome – inclusive aquelas não atingidas pelos efeitos diretos das bombas nucleares. A tese do inverno nuclear teve um efeito poderoso sobre a corrida armamentista nuclear que ocorria na época e contribuiu para que os governos dos EUA e da União Soviética recuassem ao se depararem com o abismo (Schneider, 1988. Francis, 2017. Sagan, Turco, 1990).</p>
<p>No entanto, a elite do poder nos Estados Unidos viu a tese do inverno nuclear como um ataque direto à indústria de armamentos nucleares e ao Pentágono, visando o programa Star Wars em particular. Isso levou a uma das maiores controvérsias científicas de todos os tempos; apesar de que tal controvérsia era mais política, uma vez que cientificamente nunca tenha havido realmente dúvida. Embora tenham sido feitas alegações de que os modelos iniciais do inverno nuclear dos cientistas da NASA eram muito simples e que estudos foram produzidos apontando efeitos menos extremos do que o originalmente imaginado — um “outono nuclear” — a tese do inverno nuclear foi validada repetidamente por modelos científicos (Browne, 1990).</p>
<p>Todavia, se a resposta inicial dos líderes políticos aos estudos sobre o inverno nuclear ajudou a criar um forte movimento para desmantelar as armas nucleares, contribuindo para seu controle e o fim da Guerra Fria, isso foi logo combatido por poderosos interesses militares, políticos e econômicos por trás da máquina de guerra nuclear dos EUA. Assim, a mídia corporativa, juntamente com as forças políticas, lançou várias campanhas destinadas a desacreditar a tese do inverno nuclear (Starr, 2016-17). Em 2000, a popular revista científica <em>Discover</em> chegou ao ponto de listá-lo como um de seus “20 maiores erros científicos dos últimos 20 anos”. Entretanto, o máximo que a <em>Discover</em> poderia alegar era que os principais cientistas por trás do estudo mais influente sobre o tema na década de 1980 haviam recuado em 1990, alegando que a redução média da temperatura resultante de uma troca nuclear global foi estimada como um pouco menor do que originalmente concebida e constituiria no máximo uma queda de 20°C <em>na temperatura média no Hemisfério Norte. Essa estimativa atualizada, no entanto, permaneceu apocalíptica em um nível planetário. </em></p>
<p>Em um dos maiores casos de negacionismo na história da ciência, superando até mesmo aquele em relação às mudanças climáticas, a esfera pública e os militares rejeitaram amplamente essas descobertas científicas com base na acusação de que a estimativa original havia sido de forma “exagerada”. Tal acusação tem sido usada nos círculos dominantes há décadas para minimizar os efeitos de uma guerra nuclear. No caso do capitalismo do Pentágono, tal negação foi claramente motivada pela realidade de que, se os resultados científicos sobre o inverno nuclear fossem mantidos, o planejamento estratégico acerca de uma guerra nuclear “vencível” – ou pelo menos uma em que um lado “prevaleceria” – deixaria de ter sentido. Uma vez considerados os efeitos atmosféricos, a devastação não pode se limitar a um determinado teatro nuclear; efeitos inimagináveis dentro de vários anos destruiriam tudo, exceto uma pequena fração da população da Terra, indo além do que foi imaginado pela Destruição Mútua Assegurada (em inglês, Mutual Assured Destruction, cuja sigla, MAD, forma a palavra “louco”).</p>
<p>Os efeitos catastróficos da guerra nuclear sempre foram minimizados pelos planejadores nucleares. Como Daniel Ellsberg aponta em <em>The Doomsday Machine</em>, o número estimado de mortes em uma guerra nuclear total fornecido pelos analistas estratégicos estadunidenses foi “fantasticamente subestimado” desde o início, “mesmo antes da descoberta do inverno nuclear”, uma vez que eles deliberadamente omitiram os incêndios resultantes de explosões nucleares em cidades — o maior impacto sobre a população urbana global — sob a alegação questionável de que o nível de devastação era muito difícil de estimar.<a href="#_section_4_ftn3" name="_section_4_ftnref3"><sup>3</sup></a> Como Ellsberg (2017) escreve:</p>
<p style="padding-left: 40px;">No entanto, mesmo nos anos 1960 os incêndios causados por armas termonucleares eram conhecidos por presumivelmente causar a <em>maior</em> produção de fatalidades em uma guerra nuclear (…) Além disso, o que ninguém reconheceria… [até que os primeiros estudos sobre o inverno nuclear surgiram cerca de 21 anos após a Crise dos Mísseis Cubanos] eram os efeitos indiretos do nosso primeiro ataque planejado, que ameaçava gravemente os outros dois terços da humanidade. Esses efeitos surgiram de outra consequência negligenciada de nossos ataques às cidades: fumaça. Ao ignorar o fogo, os Chefes [do Estado Maior] e seus planejadores ignoraram o fato de que onde há fogo há fumaça. Mas o perigoso para a nossa sobrevivência não é a fumaça de incêndios comuns, mesmo os muito grandes – fumaça que permanece na atmosfera inferior e logo é dispersada pela chuva – mas a fumaça propagada para a atmosfera superior que os incêndios que nossas armas nucleares certamente produziriam nas cidades alvejadas.</p>
<p style="padding-left: 40px;">Correntes ferozes dessas múltiplas tempestades de fogo levantariam milhões de toneladas de fumaça e fuligem na estratosfera, que não seriam dispersas pela chuva e rapidamente cercariam o globo, formando um cobertor que bloquearia a maior parte da luz solar ao redor da Terra por uma década ou mais. Isso reduziria a luz solar e as temperaturas em todo o mundo a um ponto em que destruiria as plantações e mataria de fome — não todos, mas quase todos — seres humanos (e outros animais que dependem da vegetação para comer). A população do Hemisfério Sul — poupada de quase todos os efeitos diretos de explosões nucleares, inclusive de precipitações radioativas — seria quase aniquilada, assim como a da Eurásia (a partir de efeitos diretos, como previsto), África e América do Norte (Ellsberg, 2017, p. 141-42).</p>
<p>Pior do que a reação original contra a tese do inverno nuclear, de acordo com escritos de Ellsberg de 2017, foi o fato de que, ao longo das décadas seguintes, planejadores nucleares nos Estados Unidos e na Rússia “continuaram a incluir ‘opções’ para detonar centenas de explosões nucleares perto de cidades, o que levantaria fuligem e fumaça suficientes na estratosfera para levar [via inverno nuclear] à morte pela fome quase todos na Terra,  incluindo, afinal, nós mesmos” (Ellsberg, 2017, p.142).</p>
<p>O negacionismo embutido na máquina do fim do mundo (o impulso para o exterminismo entrincheirado no capitalismo do Pentágono) é ainda mais significativo dado que não apenas os estudos originais sobre o inverno nuclear nunca foram refutados, mas aqueles produzidos no século 21, baseados em modelos de computador mais sofisticados que os do início da década de 1980, passaram a mostrar que o inverno nuclear pode ser desencadeado em níveis mais baixos de troca nuclear do que os previstos nos modelos originais (Toon, Robrock, Turco, 2008. Robock, Toon, 2009). A importância desses novos estudos é simbolizada pelo fato de que a revista <em>Discover</em>, em 2007 — apenas sete anos depois de ter incluído o inverno nuclear em sua lista dos vinte “maiores erros científicos” das duas décadas anteriores – trazia um artigo intitulado “O retorno do inverno nuclear”, essencialmente repudiando seu artigo anterior (Saarman, 2007).</p>
<p>Os estudos mais recentes, motivados em parte pela proliferação nuclear, demonstraram que uma hipotética guerra nuclear entre a Índia e o Paquistão travada com 100 bombas atômicas do tamanho de Hiroshima poderia produzir mortes diretas comparáveis a todas as fatalidades da Segunda Guerra Mundial, além das resultantes da fome global a longo prazo. As explosões atômicas imediatamente provocariam incêndios de três a cinco milhas quadradas. Cidades em chamas liberariam cerca de cinco milhões de toneladas de fumaça na estratosfera, cercando a Terra em duas semanas, que não seriam dispersa por chuvas e permaneceriam por mais de uma década. Ao bloquear a luz solar, a produção global de alimentos se reduziria em 20 a 40%. A camada estratosférica de fumaça absorveria a luz solar aquecida, aquecendo a fumaça a temperaturas próximas ao ponto de ebulição da água, resultando em uma redução da camada de ozônio de 20 a 50% perto de áreas povoadas e gerando aumentos de raios UVB sem precedentes na história humana, de tal forma que indivíduos de pele clara poderiam ter queimaduras solares graves em cerca de seis minutos e os níveis de câncer de pele sairiam do controle. Enquanto isso, estima-se que até 2 bilhões de pessoas morreriam de fome (Starr, 2016-17. Robock, Oman, Stenchikov, 2007).</p>
<p>A nova série de estudos sobre o inverno nuclear, publicada nas principais revistas científicas e revisada por pares de 2007 até o presente, não para por aí. Esses estudos também analisaram o que aconteceria se houvesse uma troca termonuclear global envolvendo as cinco principais potências nucleares: Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido. Só os dois primeiros, que representam a maior parte do arsenal nuclear mundial, têm milhares de armas nucleares com um poder explosivo que varia de sete a oitenta vezes a bomba de Hiroshima (embora algumas delas desenvolvidas nos anos 1950-1960 e que foram descontinuadas chegaram a ser mil vezes mais poderosas que a bomba atômica). Uma única arma nuclear estratégica atingindo uma cidade provocaria um incêndio cobrindo uma área de 90 a 152 milhas quadradas. Os cientistas calcularam que os incêndios de uma troca termonuclear global em larga escala lançaria na estratosfera de 150 a 180 milhões de toneladas de fuligem de carbono negro e fumaça que permaneceriam por 20 a 30 anos e impediriam que até 70% da energia solar chegasse ao Hemisfério Norte e até 35% ao Hemisfério Sul. O sol do meio-dia acabaria parecendo uma lua cheia à meia-noite. As temperaturas médias globais ficariam abaixo de zero todos os dias por um ou dois anos, ou até mais nas principais regiões agrícolas do Hemisfério Norte. As temperaturas médias cairiam abaixo das experimentadas na última Era Glacial. A época de crescimento dos cultivos nas áreas agrícolas desapareceria por mais de uma década, enquanto as chuvas diminuiriam em até 90%. A maioria da população humana morreria de fome (Starr, 2016-17. Robock, Oman, Stenchikov, 2007. Coupe et al., 2019. Robock, Toon, 2012. Starr, 2015).</p>
<p>Em seu livro <em> Sobre a </em><em>guerra</em> <em>termonuclear</em>, o físico da RAND Corporation Herman Kahn apresentou a noção da “máquina do juízo final”, que mataria todos na Terra em caso de uma guerra nuclear (Kahn, 2007). Kahn não defendia a construção de tal máquina, nem afirmava que os Estados Unidos ou a União Soviética a haviam feito ou estavam procurando construí-la. Ele apenas sugeriu que um mecanismo que garantisse não haver nenhuma forma de sobreviver da guerra nuclear seria uma alternativa barata para alcançar uma dissuasão completa e irrevogável de todos os lados para tirar a guerra nuclear da mesa. Como Ellsberg, ele também um ex-estrategista nuclear, tem afirmado desde então — em linha com Carl Sagan e Richard Turco, que ajudaram a desenvolver o modelo de inverno nuclear — os arsenais estratégicos de hoje nas mãos das potências nucleares dominantes, se detonadas, constituem uma máquina real do juízo final. Uma vez posta em movimento, a máquina do juízo final quase certamente aniquilaria direta ou indiretamente a maior parte da população do planeta (Ellsberg, 2017. Sagan, Turco, 1990).<a href="#_section_4_ftn4" name="_section_4_ftnref4"><sup>4</sup></a></p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Contraforça e os EUA</strong><strong>: desejo pela primazia nuclear</strong></span></h3>
<p>Desde a década de 1960, quando Moscou alcançou uma dura paridade nuclear com Washington, até o fim da União Soviética, a estratégia nuclear dominante durante a Guerra Fria foi baseada na noção de Destruição Mútua Assegurada (MAD). Esse princípio, que se refere à possibilidade de devastação total de ambos os lados, incluindo a morte de centenas de milhões de pessoas, efetivamente se traduz em paridade nuclear. No entanto, como os estudos sobre o inverno nuclear indicam, as consequências de uma guerra nuclear seriam muito além disso, estendendo-se à destruição de quase toda a vida humana (assim como a maioria das outras espécies) em todo o planeta. Ainda assim, ignorando os alertas de inverno nuclear, os Estados Unidos, com muito mais recursos que a União Soviética, procuraram transcender a MAD na direção da “primazia nuclear”, de modo a restaurar o nível de preeminência nuclear dos EUA nos primeiros anos da Guerra Fria. <em>A primazia</em> nuclear, em oposição à <em>paridade</em> nuclear, significa “eliminar a possibilidade de um ataque retaliatório” e, portanto, também é referida como “capacidade de primeiro ataque” (Lieber, Press, 2006, p. 44). A esse respeito, é significativo que a postura oficial de defesa de Washington tenha consistentemente incluído a possibilidade de realizar um primeiro ataque nuclear contra Estados nucleares ou não nucleares.</p>
<p>Além de introduzir o conceito de máquina do juízo final, Kahn, como um dos principais planejadores estratégicos dos EUA, também cunhou os termos-chave <em>contravalor e</em>  <em>contraforça </em>(Sagan, Turco, 1990).<em> O contravalor </em>se refere a atingir cidades, população civil e economia de um inimigo e tem como objetivo a aniquilação completa, levando assim ao MAD. <em>A contraforça</em>, em contraste, se refere a atacar as instalações de armas nucleares do inimigo para evitar retaliações.</p>
<p>Quando a estratégia de contraforça foi originalmente introduzida por Robert McNamara, o secretário de defesa dos EUA na administração de John F. Kennedy, foi visto como uma estratégia “sem cidades” que atacaria as armas nucleares do oponente em vez de populações civis, e tem sido justificada falaciosamente nesses termos desde então. McNamara, no entanto, logo percebeu as falhas na estratégia de contraforça, nomeadamente, que ela provoca uma corrida armamentista nuclear direcionada a alcançar (ou negar) a primazia nuclear. Além disso, a ideia de que um ataque de contraforça “preventivo” não envolvia ataques às cidades estava incorreta desde o princípio, já que os alvos incluíam centros de comando nuclear nas cidades. Ele, portanto, abandonou o esforço pouco depois em favor de uma estratégia nuclear baseada no MAD, que ele via como a única abordagem verdadeira para a dissuasão nuclear (Correll, 2005; Ellsberg, 2017).</p>
<p>Essa estratégia nuclear dos EUA prevaleceu durante a maior parte das décadas de 1960 e 1970 e foi caracterizada pela aceitação da paridade nuclear áspera com a União Soviética e, portanto, da possível realidade do MAD. No entanto, isso se quebrou no último ano da administração Jimmy Carter. Em 1979, Washington armou fortemente a Otan para permitir que o cruzeiro nuclear e os mísseis Pershing II, ambos contraforças destinadas ao arsenal nuclear soviético, fossem colocados na Europa, uma decisão que incendiou o movimento antinuclear europeu (Magdoff, Sweezy, 1981. Barnet, 1984). Na subsequente administração dos EUA sob Ronald Reagan, Washington adotou em pleno vigor a estratégia de contraforça (Correll, 2005). A administração Reagan introduziu o Star Wars, com o objetivo de desenvolver um sistema abrangente de mísseis antibalísticos capazes de defender os EUA. Embora isso tenha sido posteriormente abandonado como impraticável, levou a outros sistemas de mísseis antibalísticos em administrações posteriores (Pifer, 2015). Além disso, sob a administração Reagan, os Estados Unidos empurraram o míssil MX (que mais tarde ficou conhecido como Pacificador), visto como uma arma de contraforça capaz de destruir mísseis soviéticos antes de serem lançados. Todas essas armas ameaçaram a “decapitação” das forças soviéticas em um primeiro ataque, bem como a capacidade de interceptação através de sistemas de mísseis antibalísticos ao qual poucos mísseis soviéticos sobreviveriam (Roberts, 2020. Correll, 2005). As armas de contraforça exigiam maior precisão, uma vez que não eram mais concebidas como destruidoras de cidades como em ataques de contravalor, mas sim como arma de precisão contra silos de mísseis endurecidos, mísseis terrestres móveis, submarinos nucleares e centros de comando e controle. Foi aqui, em armas de contraforça, que os Estados Unidos tinham uma vantagem tecnológica.</p>
<p>Esse grande acúmulo de armas nucleares, iniciado a partir de 1979 com a implantação planejada na Europa de sistemas de entrega de mísseis transportando ogivas nucleares, gerou grandes protestos contra a guerra nuclear dos anos 1980 na Europa e na América do Norte, bem como a crítica de Thompson ao exterminismo e à pesquisa científica sobre o inverno nuclear. No entanto, hoje, “a contraforça continua a ser o princípio sacrossanto da estratégia nuclear estadunidense”, voltado para a primazia nuclear, nas palavras de Janne Nolan, da Associação de Controle de Armas (Nolan apud Correll, 2005).</p>
<p>Com a dissolução da União Soviética em 1991 e o fim da Guerra Fria, Washington imediatamente iniciou o processo de traduzir sua nova posição unipolar em uma visão de supremacia permanente dos EUA em todo o mundo, começando com a <em>Orientação da Política de Defesa</em> de fevereiro de 1992, emitida pelo então subsecretário de Defesa Paul Wolfowitz. Isso deveria ser decretado através de uma expansão geopolítica das áreas de domínio ocidental para regiões anteriormente pertencentes à União Soviética ou em sua esfera de influência, a fim de impedir o ressurgimento da Rússia como uma grande potência. Ao mesmo tempo, em um clima de desarmamento nuclear e com a deterioração da força nuclear russa sob Boris Yeltsin, os Estados Unidos procuraram “modernizar” suas armas nucleares, substituindo-as por armamentos estratégicos tecnologicamente mais avançados com o objetivo não de aumentar a dissuasão, mas sim de alcançar a primazia nuclear.</p>
<p>A busca dos EUA pela primazia nuclear no mundo pós-Guerra Fria, continuando a promover armas de contraforça, era conhecida como a estratégia “maximalista” nos debates sobre política nuclear na época e foi contraposta por aqueles que defendiam uma estratégia “minimalista” que dependia do MAD. No final, os maximalistas venceram e a Nova Ordem Mundial passou a ser definida tanto pelo alargamento da Otan, com a Ucrânia vista como o pivô geopolítico e estratégico final, quanto pela busca dos EUA por um objetivo maximalista de domínio nuclear absoluto e capacidade de primeiro ataque (Paulsen, 1994. Mazarr, 1992. Brzezinski, 1997).</p>
<p>Em 2006, Keir A. Lieber e Daryl G. Press publicaram o artigo <em>The Rise of U.S. Nuclear Primacy</em> [A ascensão da primazia nuclear dos EUA], na <em>Foreign Affairs</em>, a principal revista de Relações Exteriores. Em seu artigo, Lieber e Press argumentaram que os Estados Unidos estavam “à beira de alcançar a primazia nuclear”, ou capacidade de primeiro ataque, e que este tinha sido seu objetivo desde pelo menos o fim da Guerra Fria. “O peso das evidências sugere que Washington está, de fato, deliberadamente buscando primazia nuclear”, afirmam (Lieber, Press, 2006, p. 43, 50).</p>
<p>O que colocou essa capacidade de primeiro ataque aparentemente ao alcance de Washington foram os novos armamentos nucleares associados à modernização nuclear que, aliás, acelerou após a Guerra Fria. Cruzeiros armados com mísseis nucleares, submarinos nucleares capazes de disparar seus mísseis perto da costa e bombardeiros B-52 furtivos, que carregam mísseis de cruzeiro com armas nucleares e bombas de gravidade nuclear, poderiam penetrar mais efetivamente nas defesas russas ou chinesas. Mísseis balísticos intercontinentais mais precisos poderiam eliminar totalmente silos de mísseis endurecidos. Uma melhor vigilância poderia permitir o rastreamento e destruição de mísseis terrestres móveis e submarinos nucleares. Enquanto isso, os mísseis Trident II D-5, mais precisos, que estavam sendo introduzidos em submarinos nucleares dos EUA, carregavam ogivas de maior rendimento para usar em silos endurecidos. Tecnologia de sensoriamento remoto mais avançada, a qual os Estados Unidos tiveram a liderança, aumentou consideravelmente sua capacidade de detectar mísseis terrestres móveis e submarinos nucleares. A capacidade de atingir os satélites de outras potências nucleares poderia enfraquecer ou eliminar a capacidade de usar mísseis nucleares (Lieber, Press, 2006, p. 45).</p>
<p>A localização de armas estratégicas em países recentemente admitidos na Otan e perto ou nas fronteiras russas serviria para aumentar a velocidade com que as armas nucleares poderiam atingir Moscou e outros alvos russos, não dando ao Kremlin tempo de reação. As instalações de defesa de mísseis balísticos Aegis, que os Estados Unidos estabeleceram na Polônia e na Romênia, também são potenciais armas ofensivas capazes de lançar mísseis de cruzeiro Tomahawk com armas nucleares (Detsch, 2022. Baud, 2022. Starr, 2016-17).<a href="#_section_4_ftn5" name="_section_4_ftnref5"><sup>5</sup></a> Instalações de defesa de mísseis nucleares, principalmente úteis no caso de combater uma retaliação a um primeiro ataque dos Estados Unidos, poderiam derrubar um número limitado de mísseis que sobreviveram e foram lançados do outro lado, mas esses sistemas de mísseis antibalísticos seriam ineficazes diante de um primeiro ataque, uma vez que seriam sobrecarregados pelo grande número de mísseis e iscas. Além disso, nas últimas décadas, os Estados Unidos desenvolveram um grande número de armas aeroespaciais não nucleares de alta precisão para<em> s</em>erem usadas em um ataque de contraforça direcionado a mísseis inimigos ou instalações de comando e controle que são comparáveis às armas nucleares em seus efeitos devido à precisão de alvos baseados em satélites.</p>
<p>De acordo com Lieber e Press, em 2006, “as chances de Pequim adquirir uma dissuasão nuclear sobrevivente na próxima década são pequenas”, e a sobrevivência da dissuasão russa estava em questão diante de um grande primeiro ataque dos EUA. “O que nossa análise sugere é profundo: os líderes da Rússia não podem mais contar com um sistema de dissuasão nuclear sobrevivente”. Como eles escreveram, os Estados Unidos estavam “buscando primazia em todas as dimensões da tecnologia militar moderna, tanto em seu arsenal convencional quanto em suas forças nucleares”, algo conhecido como “domínio da escalada” (Lieber, Press, 2006, 2017).<a href="#_section_4_ftn6" name="_section_4_ftnref6"><sup>6</sup></a></p>
<p>A assinatura do Novo Tratado Estratégico de Redução de Armas ou Novo START (na sigla em inglês) entre os Estados Unidos e a Rússia, em 2010, ao mesmo tempo que limitou as armas nucleares, não impediu uma corrida para a modernização das armas de contraforça que permitiriam que um lado destruísse os armamentos do outro. Limitar o número de armas nucleares permitidas tornou mais viável o fortalecimento de uma estratégia de contraforça; nessa área, os Estados Unidos tinham a vantagem, uma vez que uma das três bases primárias para a sobrevivência de um arsenal de retaliação nuclear (juntamente com o endurecimento de locais de mísseis terrestres e ocultação) é o número absoluto e, portanto, a redundância de tais armas (Lieber, Press, 2017). Com a primazia nuclear como meta estabelecida em Washington, os Estados Unidos começaram unilateralmente a se retirar de alguns dos principais tratados nucleares estabelecidos na Guerra Fria. Em 2002, sob a administração George W. Bush, os Estados Unidos se retiraram unilateralmente do Tratado de Mísseis Antibalísticos. Em 2019, sob o governo Donald Trump, Washington retirou-se do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário, alegando que a Rússia o havia violado. Em 2020, ainda sob Trump, os Estados Unidos se retiraram do Tratado de Céu Aberto (que impôs limites aos voos de reconhecimento sobre outros países); a isso se seguiu a retirada da Rússia em 2021. Há pouca dúvida de que a saída desses tratados foi favorável a Washington, permitindo ao país expandir suas opções de contraforça em sua busca pela primazia nuclear.</p>
<p>Dada a busca dos EUA pelo domínio nuclear global, a Rússia tentou modernizar seus sistemas de armas nucleares nas últimas duas décadas, embora esteja em uma desvantagem distinta em termos de capacidade de contraforça. Sua estratégia nuclear fundamental é, portanto, determinada por temores de um primeiro ataque dos EUA que poderia efetivamente eliminar seu sistema de dissuasão nuclear e sua capacidade de retaliação. Assim, tem se esforçado para restabelecer uma dissuasão plausível. Como Cynthia Roberts, do Instituto Saltzman de Guerra e Paz da Universidade de Columbia, escreveu em <em>Revelações sobre a </em><em>política de dissuasão nuclear da Rússia</em>, em 2020, os russos percebem mais melhorias dos EUA para as forças estratégicas convencionais e nucleares como parte de um esforço contínuo para “perseguir a dissuasão nuclear russa e negar a Moscou uma opção viável de segundo ataque”, eliminando efetivamente sua dissuasão por meio da “decapitação” (Roberts, 2020. Sankaran, 2022). Embora os Estados Unidos tenha adotado uma postura máxima de “defesa” nuclear de ameaçar o “primeiro uso nuclear e a escalada em fases”, em que mantém o domínio em todos os níveis da escalada, isso se compara à abordagem russa de “guerra total se a dissuasão falhar” enquanto continua a depender principalmente do MAD (Arbatov, 2016. Roberts, 2015).</p>
<p>No entanto, nos últimos anos, a Rússia e a China avançaram em tecnologia e sistemas estratégicos de armas. A fim de combater as tentativas de Washington de desenvolver a capacidade de primeiro ataque e neutralizar seus impedimentos nucleares, tanto Moscou quanto Pequim recorreram a sistemas de armas estratégicas assimétricas projetadas para combater a superioridade dos EUA na defesa antimísseis e na mira de alta precisão. Mísseis balísticos intercontinentais são vulneráveis porque, embora atinjam velocidades hipersônicas — geralmente definidas como Mach 5, ou cinco vezes a velocidade do som ou mais — quando entram novamente na atmosfera seguem um arco que constitui um caminho balístico previsível, como uma bala. Portanto, não há surpresa; seus alvos são previsíveis, e podem teoricamente ser interceptados por mísseis antibalísticos. Silos de mísseis endurecidos, que abrigam mísseis balísticos intercontinentais, também são alvos distintos e hoje são muito mais vulneráveis, tanto a mísseis nucleares como a não nucleares estadunidenses de alta precisão, guiados por satélite. Confrontadas com essas ameaças de contraforça aos seus impedimentos básicos, a Rússia e a China avançaram em relação aos Estados Unidos no desenvolvimento de mísseis hipersônicos com manobras aerodinâmicas, a fim de evitar mísseis de defesa e impedir que o adversário saiba o alvo final pretendido. A Rússia desenvolveu um míssil hipersônico chamado Kinzhal, que tem fama de alcançar Mach 10 ou mais por conta própria, e outra arma hipersônica, a Avangard, que, impulsionada por um foguete, pode atingir a velocidade surpreendente de Mach 27. A China tem um míssil de cruzeiro hipersônico “waverider” que atinge Mach 6. Emprestado do folclore chinês, seu nome se refere a uma “maçã assassina”, uma arma eficaz contra um adversário muito mais bem armado (Stone, 2020. Brito et al., 2002). A Rússia e a China, por sua vez, vêm desenvolvendo armas antisatélites “contraespaço” projetadas para remover a vantagem dos EUA de armas nucleares e não nucleares de alta precisão (Sankaran, 2022).<a href="#_section_4_ftn7" name="_section_4_ftnref7"><sup>7</sup></a></p>
<p>A chamada primazia nuclear permaneceu um pouco além do alcance de Washington, dada a proeza tecnológica das outras potências nucleares líderes. Além disso, uma corrida armamentista nuclear, estimulada por uma estratégia de contraforça, é fundamentalmente irracional, ameaçando uma conflagração termonuclear global com consequências muito maiores do que aquelas imaginadas pelo cenário MAD, com suas centenas de milhões de mortes de ambos os lados. O inverno nuclear significa que, em uma guerra nuclear global, <em>todo o planeta</em> seria engolido pela fumaça e fuligem, que engoliria a estratosfera, matando quase toda a humanidade.</p>
<p>Dada essa realidade, a postura nuclear dos EUA, que se baseia na noção de vencer em uma guerra nuclear total, é particularmente perigosa, uma vez que nega o papel dos incêndios nas cidades e, assim, os efeitos da fumaça que se levantaria na atmosfera superior e apagaria a maioria dos raios solares. A busca pela primazia nuclear, portanto, nos leva da MAD à loucura (Johnstone, 2017). Como Ellsberg (2017) escreve:</p>
<p style="padding-left: 40px;">A esperança de evitar com êxito a aniquilação mútua por um ataque decapitador sempre foi tão mal fundamentada quanto qualquer outra. A conclusão realista seria que uma troca nuclear entre os Estados Unidos e os soviéticos [russos] era — e é — virtualmente certa de ser uma catástrofe absoluta, não apenas para ambos, mas para o mundo. … [Os formuladores de políticas] optaram por agir como se acreditassem (e talvez realmente acreditassem) que tal ameaça não é o que é: uma prontidão para desencadear o onicídio global.<a href="#_section_4_ftn8" name="_section_4_ftnref8"><sup>8</sup></a></p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>A Nova Guerra Fria e o teatro europeu</strong></span></h3>
<p>Em <em>Notas sobre exterminismo</em> e sua posição geral como líder do Movimento para o Desarmamento Nuclear Europeu na década de 1980, Thompson argumentou que o acúmulo de armas nucleares na Europa ocorrido na época era um produto de máquinas militares e imperativos tecnológicos “tendo lugar independentemente da flutuação da diplomacia internacional, embora seja dado um impulso ascendente a cada crise ou a cada inovação por parte do ‘inimigo’” (Thompson, 1992). Seu argumento era parte de uma estratégia para unir os movimentos pacifistas do Ocidente e do Oriente contra os respectivos <em>establishments</em>, com base na premissa de que o acúmulo nuclear era igualmente um produto de ambos os lados. No entanto, a esse respeito, ele desmentiu suas próprias evidências, que apontavam para o agressivo acúmulo nuclear de armas de contraforça de Washington e a colocação de armas estratégicas na Europa visando a União Soviética. Em um artigo intitulado <em>Nuclear Chicken</em> na edição de setembro de 1982 da Monthly Review, Harry Magdoff e Paul M. Sweezy desafiaram essa parte do argumento de Thompson, apontando não apenas para as expansões estratégicas da Otan sob os Estados Unidos, mas também para o fato de que a ordem imperial dos EUA era fortemente dependente de ameaças críveis de primeiros ataques direcionados a outros países, tanto nucleares quanto não nucleares (Magdoff, Sweezy, 1981).</p>
<p>Em uma introdução de 1981 à edição americana de <em>Protest and Survive</em> editada por Thompson e Dan Smith, Ellsberg listou uma longa série de casos documentados, a partir de 1949, nos quais os Estados Unidos ameaçaram ataques nucleares para pressionar outros países (nucleares e não nucleares) a recuar para alcançar seus fins imperiais (Ellsberg, 1981). Somente entre 1945 e 1996, foram documentados 25 casos de ameaças nucleares, embora outros tenham ocorrido desde então (Ellsberg, 2017). Nesse sentido, o uso da guerra nuclear como ameaça é incorporado à estratégia dos EUA. O desenvolvimento da primazia nuclear através de armas de contraforça sustentou a possibilidade de que tais ameaças pudessem ser novamente dirigidas com credibilidade até mesmo para grandes potências nucleares, como a Rússia e a China. Magdoff e Sweezy chamaram toda essa abordagem de “frango nuclear”, no qual os Estados Unidos eram o jogador mais agressivo.</p>
<p>O “Frango nuclear” não pôs fim à Guerra Fria. O Estado de segurança nacional dos EUA, influenciado por figuras-chave como Zbigniew Brzezinski, conselheiro de segurança nacional de Carter e um dos principais arquitetos da expansão pós-Guerra Fria da Otan, continuou a buscar a hegemonia geopolítica final dos EUA sobre a Eurásia, que ele chamou de “grande tabuleiro de xadrez”. Xeque-mate, segundo Brzezinski, constituiria trazer a Ucrânia para a Otan como uma aliança nuclear estratégica (embora Brzezinski tenha cuidadosamente excluído o aspecto nuclear ao apresentar sua estratégia geopolítica), soletrando o fim da Rússia como uma grande potência e possivelmente levando ao seu rompimento em vários Estados, marcando assim a supremacia dos EUA sobre todo o mundo (Brzezinski, 1997). Essa tentativa de transformar o poder unipolar dos EUA após a Guerra Fria em um império global permanente exigiu a expansão da Otan para o leste, que começou em 1997 durante o governo Bill Clinton, gradualmente anexando à Aliança Atlântica praticamente todos os países entre a Europa Ocidental e a Ucrânia, com este último como o prêmio final e uma adaga no coração da Rússia (The Editors, 2022). Aqui, havia uma espécie de unidade exibida entre a estratégia dirigida pelos EUA de expandir a Otan e o desejo de Washington por primazia nuclear, que foi posta em prática quase à risca.</p>
<p>O fato de a Rússia ter sido obrigada a considerar a questão de sua própria segurança nacional diante da tentativa da Otan de expandir militarmente para a Ucrânia dificilmente deve surpreender alguém. Uma década após a expansão da Otan, que já englobava onze nações que antes estavam no Pacto de Varsóvia ou em parte da União Soviética, e apenas um ano depois da primazia nuclear dos EUA quase ter sido destacada na <em>Foreign Affairs</em>, o presidente russo Vladimir Putin assustou o mundo ao declarar inequivocamente na Conferência de Segurança de Munique de 2007 que “o modelo unipolar não é apenas inaceitável, mas impossível no mundo de hoje” (Johnstone, 2017). No entanto, consistente com sua estratégia de longo prazo para estender-se ao que Brzezinski havia chamado de “pivô geopolítico” da Eurásia, enfraquecendo fatalmente a Rússia, em 2008 a Otan declarou abertamente em sua Cúpula de Bucareste que pretendia trazer a Ucrânia para a aliança militar-estratégica (nuclear).</p>
<p>Em 2014, o golpe de Maidan, projetado pelos EUA na Ucrânia, depôs o presidente democraticamente eleito do país e impôs em seu lugar um líder escolhido pela Casa Branca, colocando a Ucrânia nas mãos de forças ultranacionalistas de direita. A resposta da Rússia foi incorporar a Crimeia em seu território após um referendo popular que deu à população, predominantemente russa, que se considerava independente e não parte da Ucrânia, uma escolha sobre permanecer na Ucrânia ou se juntar à Rússia. O golpe (ou “revolução colorida”) levou à violenta repressão de Kiev às populações da região de Donbass, de língua russa, na Ucrânia, resultando na Guerra Civil Ucraniana entre Kiev (apoiada por Washington) e as repúblicas separatistas de Donbass nas áreas de Donetsk e Luhansk (apoiadas por Moscou). A Guerra Civil Ucraniana, que resultou em mais de 14 mil mortes entre 2014 e início de 2022, continuou em baixa nos oito anos seguintes, apesar da assinatura dos acordos de paz de Minsk em 2014, destinados a acabar com o conflito e dar autonomia às repúblicas de Donbass dentro da Ucrânia. Em fevereiro de 2022, Kiev havia juntado 130 mil soldados nas fronteiras de Donbass, no leste da Ucrânia, atirando em Donetsk e Luhansk (The Editors, 2022. Johnstone, 2022. Mearsheimer, 2022).</p>
<p>À medida que a crise ucraniana piorou, Putin insistiu em várias linhas vermelhas da Rússia relacionadas às necessidades essenciais de segurança do país, consistindo em:</p>
<ol>
<li>adesão ao acordo anterior de Minsk (elaborado pela Rússia, Ucrânia, França e Alemanha e assinado pelas repúblicas do povo de Donbass e apoiado pelo Conselho de Segurança da ONU), garantindo assim a autonomia e a segurança de Donetsk e Luhansk,</li>
<li>o fim da militarização da Otan sobre a Ucrânia, e</li>
<li>um acordo de que a Ucrânia permaneceria fora da Otan (Episkopos, 2021. Associated Press, 2021).</li>
</ol>
<p>A Otan, instada pelos Estados Unidos, continuou a cruzar todas essas linhas vermelhas, fornecendo ajuda militar  crescente a Kiev em sua guerra contra as repúblicas de Donbass, no que a Rússia interpretou como uma tentativa de fato de incorporar a Ucrânia na Otan.</p>
<p>Em 24 de fevereiro de 2022, a Rússia interveio na Guerra Civil Ucraniana ao lado de Donbass, atacando as forças militares do governo de Kiev. Em 27 de fevereiro, Moscou colocou suas forças nucleares em alerta máximo pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria, confrontando o mundo com a possibilidade de um holocausto nuclear global, dessa vez entre grandes potências capitalistas rivais. Figuras em Washington, como o senador Joe Manchin III (Democrata, Virgínia Ocidental), apoiaram a ideia de uma imposição dos EUA de uma zona de exclusão aérea na Ucrânia, o que significaria derrubar aviões russos, com toda a probabilidade de escalar para uma Terceira Guerra Mundial (Broadwater, Cameron, 2022).</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Exterminismo em duas direções</strong></span></h3>
<p>É comum hoje reconhecer que a mudança climática representa uma ameaça existencial global que coloca em risco a própria sobrevivência da humanidade. Estamos diante de uma situação em que a contínua expansão do capitalismo baseada na queima de quantidades cada vez maiores de combustíveis fósseis aponta para a possibilidade — mesmo a probabilidade, se o sistema de produção não for alterado radicalmente em questão de décadas — da queda da civilização industrial, colocando em questão a sobrevivência da humanidade. Esse é o significado do exterminismo ambiental em nosso tempo. De acordo com o Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (IPCC), as emissões líquidas de dióxido de carbono zero devem ser alcançadas até 2050 para que o mundo tenha uma esperança razoável de manter as mudanças das temperaturas médias globais abaixo de 1,5°C, ou bem abaixo de 2°C. Não conseguir isso é dar espaço à devastação da Terra tal como um lar seguro para a humanidade e inúmeras outras espécies.</p>
<p>A mudança climática faz parte de uma crise ecológica planetária mais geral associada ao cruzamento das nove fronteiras planetárias, incluindo aquelas – além da mudança climática em si – relacionadas à extinção de espécies, esgotamento estratosférico do ozônio, acidificação dos oceanos, interrupção dos ciclos de nitrogênio e fósforo, perda de cobertura/florestas terrestres, declínio das fontes de água doce associada à desertificação, carga atmosférica de aerossóis e introdução de novas entidades, como novos produtos químicos sintéticos e novas formas genéticas (Stephen, 2015). Para isso deve-se adicionar o surgimento de novas zoonoses, como mostra a pandemia de Covid-19, resultante principalmente da transformação da relação dos seres humanos com o meio ambiente, estimulada pelo agronegócio (Walace, 2020).</p>
<p>No entanto, não há dúvida de que a mudança climática está no centro da atual crise ecológica global. Assim como o inverno nuclear, representa uma ameaça à civilização e à continuação da espécie humana. O IPCC nos diz em seus relatórios de 2021-2022 sobre a ciência física das mudanças climáticas e seus impactos que o cenário mais otimista, embora afastando mudanças climáticas irreversíveis, ainda é uma das crescentes catástrofes globais nas próximas décadas. Ações imediatas são necessárias para proteger as condições de vida de centenas de milhões de pessoas, talvez bilhões, que serão expostas a eventos climáticos extremos de um tipo que a civilização global nunca viu antes (IPCC, 2022). Para combater isso é necessário o maior movimento de trabalhadores e povos que o mundo já viu para restaurar as condições que permitam sua existência, usurpadas pelo regime do capital, e restabelecer  um mundo ecologicamente sustentável enraizado na igualdade substancial.<a href="#_section_4_ftn9" name="_section_4_ftnref9"><sup>9</sup></a></p>
<p>Ironicamente, o relatório do IPCC de 2022, que deveria chamar a atenção do mundo para a natureza catastrófica da crise climática atual, foi publicado em 28 de fevereiro de 2022, quatro dias após a entrada russa na Guerra Civil Ucraniana em desafio à Otan, resultando em uma preocupação crescente sobre a possibilidade de uma troca termonuclear global. Assim, a atenção do mundo foi afastada em relação à ameaça existencial global que coloca em risco toda a humanidade, <em>o onicídio</em> de carbono, pelo súbito ressurgimento de outro <em>onicídio </em>nuclear.</p>
<p>À medida que o mundo voltava sua atenção para a possibilidade de guerra entre as principais potências nucleares e toda a escala planetária da ameaça nuclear, entendido pela ciência como inverno nuclear, o aquecimento global ficou ausente do quadro. O aquecimento global e o inverno nuclear, embora surgindo de diferentes formas, estão intimamente ligados em termos climáticos, demonstrando que o mundo está à beira de destruir a maioria dos habitantes da Terra de uma forma ou de outra: o aquecimento global levando a um ponto sem retorno para a humanidade, e/ou a morte de centenas de milhões por fogo nuclear,  seguido por dias e meses de resfriamento global (inverno nuclear) e o extermínio da maioria da população mundial através da fome. Assim como as implicações destrutivas da mudança climática que ameaçam a própria existência da humanidade são negadas em grande parte pelas potências, os efeitos planetários completos da guerra nuclear também são negados, ainda que as evidências científicas sobre o inverno nuclear demonstrem que ele efetivamente aniquilará a população de todos os continentes da Terra. Além disso, se o aquecimento global aumentar na medida em que a civilização global se desestabilizar, algo que os cientistas acreditam que pode acontecer se as temperaturas médias globais aumentarem em 4°C, a concorrência entre os Estados-nação capitalistas crescerá, aumentando assim o risco de uma conflagração nuclear e, portanto, do inverno nuclear (Ellsberg, 2017, p. 18).</p>
<p>Hoje, somos confrontados com uma escolha entre <em>exterminismo</em> e o <em>imperativo </em>ecológico humano (Thompson, 1982, p. 76). O agente causal nas duas crises existenciais globais que agora ameaçam a espécie humana é o mesmo: o capitalismo e sua busca irracional por aumentar exponencialmente a acumulação de capital e o poder imperial em um ambiente global limitado. A única resposta possível a essa ameaça ilimitada é um movimento revolucionário universal enraizado tanto na ecologia quanto na paz, que se afaste da destruição sistemática atual da Terra e seus habitantes e caminhe em direção a um mundo de igualdade substancial e sustentabilidade ecológica: ou seja, o socialismo.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Referências bibliográficas</strong></span></h3>
<div class="footnotes">
<p>Angus, Ian. Facing the Anthropocene, Nueva York: Monthly Review Press, 2016. 178-81.</p>
<p>Amin, Samir. Empire of Chaos, Nueva York: Monthly Review Press, 1992.</p>
<p>Arbatov, Alexey. “The Hidden Side of the U.S.-Russian Strategic Confrontation”, Arms Control Association, septiembre de 2016.</p>
<p>Associated Press. “Russia Publishes ‘Red Line’ Demands of U.S. and NATO Amid Heightened Tension Over Kremlin Threat to Ukraine”, Marketwatch, 18 dez. 2021.</p>
<p>Axe, David. “Estonia’s Getting a Powerful Cruise Missile. Now It Needs to Find Targets”, Forbes, 12 out. 2021.</p>
<p>Bahro, Rudolf. Avoiding Social and Ecological Disaster, Bath: Gateway Books, 1994.</p>
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</div>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Notas</strong></span></h3>
<div class="footnotes">
<p><a href="#_section_4_ftnref1" name="_section_4_ftn1"><sup>1</sup></a> As citações desse ensaio no presente artigo foram retiradas da versão ligeiramente revisada em E. P. Thompson, <em>Beyond the Cold War</em>. Nova York: Pantheon, 1982, p. 41–79. Ver também E. P. Thompson et al., <em>Exterminism and the Cold War</em>. London: Verso, 1982. E. P. Thompson; Dan Smith (ed.), <em>Protest and Survive</em>. New York: Monthly Review Press, 1981. As traduções para o português foram todas feitas livremente a partir do original.</p>
<p><a href="#_section_4_ftnref2" name="_section_4_ftn2"><sup>2</sup></a> Para uma breve discussão sobre os eventos que antecederam a atual Guerra da Ucrânia, consulte: The Editors, “Notes from the Editors”, <em>Monthly Review</em> 73, n. 11, abr. 2022.</p>
<p><a href="#_section_4_ftnref3" name="_section_4_ftn3"><sup>3</sup></a> O fracasso em incluir a principal causa de morte por armas termonucleares dirigidas a cidades sob a forma de incêndio está profundamente arraigada no Pentágono. O guia prático desclassificado sobre o estoque e o gerenciamento de armas nucleares publicado pelo Departamento de Defesa dos EUA em 2008 inclui mais de vinte páginas sobre os efeitos de uma explosão de armas nucleares em uma cidade sem uma única menção a incêndios. Ver também: U.S. Department of Defense. <em>Nuclear Matters: A Practical Guide</em>. Washington: Pentagon, 2008, p. 135–58.</p>
<p><a href="#_section_4_ftnref4" name="_section_4_ftn4"><sup>4</sup></a> Aqui, a máquina do juízo final não deve ser confundida com a versão da máquina do juízo final no filme <em>Dr. </em><em>Fantástico</em>. No entanto, o filme de Kubrick se baseou nas ideias de Kahn e mantém um significado concreto no contexto da realidade nuclear contemporânea. Ver Ellsberg (2017).</p>
<p><a href="#_section_4_ftnref5" name="_section_4_ftn5"><sup>5</sup></a> A Rússia também está preocupada com a possível reintrodução dos mísseis balísticos intermediários Pershing II na Europa.</p>
<p><a href="#_section_4_ftnref6" name="_section_4_ftn6"><sup>6</sup></a> Um elemento-chave do impedimento nuclear de Pequim é reduzir a hidroacústica ou o nível de ruído de seus submarinos nucleares. Em 2011, acreditava-se que a China levaria décadas para reduzir a hidroacústica de seus submarinos o suficiente para sobreviver a um primeiro ataque dos EUA. No entanto, em menos de uma década, a China fez avanços significativos em direção a esse objetivo. Ver: Lieber, Press, 2017, 2020. Ver também Riqiang, 2011. O artigo de Lieber e Press na Foreign Affairs em 2006 resultou em críticas tanto pela Rússia quanto pela China, e também serviu para gerar preocupações nesses Estados que levaram ao reavivamento e modernização de suas capacidades nucleares. No entanto, a ameaça representada pelos EUA e seu desejo pela primazia nuclear continua perseguindo os planejadores estratégicos russos e chineses. Ver Lieber, Press, 2016.</p>
<p><a href="#_section_4_ftnref7" name="_section_4_ftn7"><sup>7</sup></a> O desenvolvimento de estratégias e tecnologias de “contramedida” para iludir o ataque contraforça à dissuasão nuclear de uma nação é enfatizado pela Rússia e pela China, dada a liderança dos EUA na contraforça. Ver Lieber, Press, 2017.</p>
<p><a href="#_section_4_ftnref8" name="_section_4_ftn8"><sup>8</sup></a> Hoje, há mais uma vez uma discussão crescente nos círculos estratégicos dos EUA de uma capacidade de “de baixo risco” ou “decapitação” por parte dos Estados Unidos, o que parece tornar os incêndios nucleares menos prováveis. Ver Lieber, Press, 2017.</p>
<p><a href="#_section_4_ftnref9" name="_section_4_ftn9"><sup>9</sup></a> Essa conclusão é de fato consistente com a terceira parte do Sexto Relatório de Avaliação do IPCC na forma do relatório de mitigação a ser publicado em março, mas vazado antecipadamente pelos cientistas. Ver “Summary for Policymakers” of Part III of the UN Intergovernmental Panel on Climate Change’s <em>Sixth Assessment Report on Climate Change</em>.</p>
</div>
<p> </p>
<div class="creative-commons-license">Esta publicação está sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International (CC BY-NC 4.0). O resumo legível da licença está disponível em <a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc/4.0/">https://creativecommons.org/licenses/by-nc/4.0/</a>.</div>
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		<title>CoronaChoque e a guerra híbrida contra a Venezuela</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/estudos-2-sancoes-e-coronachoque/</link>
		
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		<pubDate>Tue, 02 Jun 2020 07:29:04 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Os Estados Unidos se empenham em travar uma Nova Guerra Fria contra a Rússia e a China, mesmo correndo o risco de destruir o planeta.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h4 style="margin:2em 0;"><strong><i>CoronaShock n. 2</i></strong></h4>
<p style="padding-left: 40px;">CoronaChoque é um termo que se refere à forma como o vírus atingiu o mundo com uma força avassaladora e como a ordem social do Estado burguês desmoronou diante dele, enquanto a ordem socialista pareceu mais resiliente.</p>
<p>Este é o segundo de uma série de três artigos sobre o CoronaChoque. É baseado em vários artigos escritos por Ana Maldonado (Frente Francisco de Miranda, Venezuela), Paola Estrada (Assembleia Internacional dos Povos e Movimentos da ALBA – capítulo Brasil), Zoe PC (<i>People’s Dispatch</i>) e Vijay Prashad (diretor do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social).</p>
<p> </p>
<div id="attachment_20247" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-20247" class="size-full wp-image-20247 img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/06/caracas-San-Juan-1.jpg" alt="We carry on resisting. San Juan, Caracas. 2010. Comando Creativo" width="950" height="468" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/06/caracas-San-Juan-1.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/06/caracas-San-Juan-1-300x148.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/06/caracas-San-Juan-1-768x378.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-20247" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #403b99;">Seguimos en resistencia. San Juan, Caracas. 2010.</span><br><strong><span style="color: #403b99;">Comando Creativo</span></strong></small></p></div>
<p> </p>
<p style="text-align: right;"><i>But even the president of the United States<br>
sometimes must have to stand naked.<br>
[Até mesmo o presidente dos Estados Unidos<br>
às vezes precisa ficar nu]</i></p>
<p style="text-align: right;">[Bob Dylan, It’s Alright, Ma, 1965.]</p>
<p> </p>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #403b99;"><strong>A loucura da guerra híbrida</strong></span></h2>
<p>O coronavírus e a Covid-19 movem-se rapidamente, percorrem continentes, saltam oceanos, aterrorizando populações em todos os países. O número de pessoas infectadas continua a aumentar, assim como o número de vítimas fatais. Mãos estão sendo lavadas, testes estão sendo feitos, o distanciamento social está sendo realizado. Não sabemos ainda o quão devastadora será essa pandemia ou quanto tempo durará.</p>
<p>Em 23 de março, doze dias após a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarar a pandemia, o Secretário Geral da ONU, António Guterres, <a href="https://www.un.org/sg/en/content/sg/press-encounter/2020-03-23/transcript-of-the-secretary-generals-virtual-press-encounter-the-appeal-for-global-ceasefire">disse</a>: “a fúria do vírus ilustra a loucura da guerra. É por isso que hoje estou pedindo um cessar-fogo global imediato em todos os cantos do mundo. Chegou a hora de encerrar o conflito armado e concentrar-se na verdadeira luta de nossas vidas”. O secretário-geral falou sobre silenciar as armas, deter a artilharia e acabar com os ataques aéreos. Ele não se referiu a um conflito específico, deixando seu pedido pairar pesadamente no ar. Após seis semanas de deliberação e atraso, causado por Washington, na primeira semana de maio o governo estadunidense <a href="https://www.theguardian.com/world/2020/may/08/un-ceasefire-resolution-us-blocks-who">bloqueou</a> uma votação no Conselho de Segurança da ONU sobre uma resolução que pedia um cessar-fogo global.</p>
<p>No entanto, mesmo essa resolução não dedicava atenção ao tipo de guerra que os EUA estão levando a cabo contra Cuba, Irã e Venezuela, entre outros. Trata-se da imposição de uma guerra híbrida. O complexo militar dos EUA fez avanços em seu <a href="https://www.youtube.com/watch?v=D-uxISFZbG8">programa de guerra híbrida</a>, que inclui uma série de técnicas para minar governos e projetos políticos, como a mobilização do poder dos EUA sobre instituições internacionais (como o FMI, o Banco Mundial e o serviços de transferências bancárias internacionais) para impedir que governos administrem sua atividade econômica básica; o uso do poder diplomático dos EUA para isolar governos; utilização de sanções para impedir que empresas privadas façam negócios com certos países; uso de guerra de informações para construir a imagem de governos e forças políticas como criminosos ou terroristas, e assim por diante. Esse poderoso complexo de instrumentos é capaz – à luz do dia – de desestabilizar governos e justificar mudanças de regime (para mais informações, consulte o dossiê n. 17 do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, <a href="https://www.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-17-venezuela-e-as-guerras-hibridas-na-america-latina/"><i>Venezuela e guerras híbridas na América Latina</i></a>).</p>
<p>Durante uma pandemia, é de se esperar que todos os países colaborem de todas as maneiras para mitigar a propagação do vírus e seu impacto na sociedade. É de se esperar que uma crise humanitária dessa magnitude possibilite pôr fim a todas as sanções econômicas desumanas e isolamentos políticos contra certos países. Em 24 de março, um dia após o pedido do Secretário-Geral da ONU, Guterres, a Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, <a href="https://news.un.org/en/story/2020/03/1060092">concordou</a> que “neste momento crucial, tanto por razões de saúde pública global, quanto por apoiar os direitos e as vidas de milhões de pessoas nesses países, as sanções setoriais devem ser flexibilizadas ou suspensas. Em um contexto de pandemia global, impedir esforços médicos em um país aumenta o risco para todos nós”.</p>
<p>Alguns dias depois, Hilal Elver, relatora especial da ONU sobre direito à alimentação, <a href="https://soundcloud.com/user-936032402/ep20-pandemic-sanctions-shake-up">disse</a> estar satisfeita ao ouvir Guterres e Bachelet pedir o fim do regime de sanções. O problema, ela indicou, está em Washington: “os EUA, sob o atual governo, estão muito interessados em continuar com as sanções. Felizmente, alguns outros países não. A União Europeia, por exemplo, e outros países europeus estão respondendo positivamente e flexibilizando as sanções durante esse período do coronavírus. Eles não estão levantando completamente as sanções, mas as interrompendo, e há algumas conversas em andamento, mas não nos EUA, infelizmente”.Em 6 de maio, outros três relatores especiais da ONU – Olivier De Schutter (pobreza extrema e direitos humanos), Léo Heller (direitos humano à água potável e saneamento) e Koumbou Boly Barry (direito à educação) – <a href="https://www.ohchr.org/EN/NewsEvents/Pages/DisplayNews.aspx?NewsID=25867&amp;LangID=E">disseram</a> que “à luz da pandemia de coronavírus, os Estados Unidos devem suspender imediatamente sanções gerais, que estão afetando severamente os direitos humanos do povo venezuelano”. No entanto, o governo Trump deixou de lado toda preocupação e continuou com sua agenda de guerra híbrida em direção à mudança de regime.</p>
<p> </p>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #403b99;"><strong>Hábitos de mudança de regime</strong></span></h2>
<p>Quando a Covid-19 chegou à América do Sul, o governo dos EUA aumentou a pressão sobre o governo venezuelano. Em fevereiro de 2020, na Conferência de Segurança de Munique, o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, <a href="https://www.state.gov/the-west-is-winning/">disse</a> que os EUA buscam “derrubar Maduro”. No mês seguinte, em 12 de março, os <a href="https://www.nytimes.com/2020/02/18/world/americas/venezuela-russia-sanctions-trump.html">EUA reforçaram as sanções contra a Venezuela</a> e, em seguida, o Departamento do Tesouro <a href="https://peoplesdispatch.org/2020/03/19/imf-refuses-aid-to-venezuela-in-the-midst-of-the-coronavirus-crisis/">pressionou</a> o Fundo Monetário Internacional (FMI) de modo a não permitir que a Venezuela tenha acesso a fundos de emergência para enfrentar a pandemia global. Nada disso funcionou. Apesar da falta de apoio do FMI, o governo venezuelano mobilizou a população para frear a cadeia de infecção, com assistência internacional da China, Cuba e Rússia, bem como da Organização Mundial da Saúde.</p>
<p>Nesse ponto, o governo dos EUA mudou de foco. Sugeriu que o presidente Nicolás Maduro e seus principais líderes estão envolvidos no narcotráfico. Nenhuma evidência foi oferecida para essa alegação alucinatória, embora haja evidências substanciais da culpabilidade de políticos colombianos no comércio de drogas. O presidente dos EUA, Donald Trump, <a href="https://www.whitehouse.gov/briefings-statements/remarks-president-trump-vice-president-pence-members-coronavirus-task-force-press-briefing-16/">autorizou</a> um destacamento naval atracar na costa venezuelana, ameaçar seu governo e intimidar sua população. Em 30 de abril, para aumentar a pressão, o governo Trump <a href="https://www.whitehouse.gov/presidential-actions/executive-order-ordering-selected-reserve-armed-forces-active-duty/">ativou</a> partes da Reserva Selecionada das Forças Armadas para ajudar as FFAA dos EUA em uma missão chamada: “Operação Avançada de Combate ao Narcóticos do Departamento de Defesa no Hemisfério Ocidental”. Todos os sinais apontam para aventuras dos EUA e de seus aliados colombianos contra o povo venezuelano.</p>
<p>O governo dos Estados Unidos tem sido totalmente sincero quanto ao seu objetivo de derrubar o governo venezuelano e reverter a Revolução Bolivariana. Em agosto de 2017, Trump <a href="https://www.nytimes.com/2017/08/12/world/americas/trump-venezuela-military.html">falou</a> abertamente sobre a “opção militar” e formaram o Grupo de Lima, junto com Canadá, Colômbia e uma lista de outros países governados pela extrema direita e subordinada a Washington. Este tentou manter uma fachada liberal em torno de seu objetivo, afirmando em sua <a href="https://www.gob.pe/institucion/rree/noticias/51277-declaracion-del-grupo-de-lima">declaração</a> que desejava “facilitar (…) a restauração do Estado de Direito e da ordem constitucional e democrática na Venezuela”. Trump se despiu de todo floreio desse tipo de linguagem liberal e interpretou a frase “restauração da ordem democrática” como um apelo a um golpe militar ou a uma intervenção armada para derrubar o governo.</p>
<p>Em janeiro de 2019, os Estados Unidos aprofundaram sua guerra híbrida com uma manobra diplomática inteligente. Declarou que Juan Guaidó, um político insignificante, era o presidente da Venezuela e lhe entregou substanciais bens venezuelanos que estavam fora do país. Porém, uma tentativa de levante liderada por Guaidó e pela extrema-direita na Venezuela para derrubar Maduro e reivindicar o poder não se concretizou, e Guaidó se viu com mais amigos em Washington e entre a oligarquia da Colômbia do que em casa, na Venezuela. No entanto, essa tentativa fracassada de derrubar o governo venezuelano não freou os Estados Unidos. De fato, o fracasso aprofundou a intervenção estadunidense na região.</p>
<p>Em maio de 2019, a senadora Lindsey Graham foi às <a href="https://www.wsj.com/articles/match-words-with-actions-in-venezuela-mr-president-11558565556">páginas do Wall Street Journal</a> para defender que os “EUA devem estar dispostos a intervir na Venezuela da mesma maneira que fizemos em Granada”. Em 1983, os fuzileiros navais dos EUA desembarcaram em Granada para derrubar o governo legítimo e arrancar o Movimento New Jewl. Caso certas medidas não sejam tomadas, a senadora Graham escreveu que os Estados Unidos “deveriam transferir ativos militares para a região”. Os Estados Unidos tentaram criar uma falange de aliados nas forças armadas brasileira e colombiana para se preparar para uma invasão da Venezuela. Felizmente, na reunião do Grupo de Lima em fevereiro de 2019, o vice-presidente do Brasil, Hamilton Mourão, <a href="https://valor.globo.com/mundo/noticia/2019/02/25/brasil-nao-permitira-que-eua-usem-territorio-para-invadir-venezuela.ghtml">disse</a> à imprensa que seu país não permitiria que os EUA usassem seu território para uma intervenção militar na Venezuela. Os planos de uma invasão em grande escala tiveram que ser adiados.</p>
<p> </p>
<p> </p>
<div id="attachment_20229" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-20229" class="size-full wp-image-20229 img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/06/Caracas-La-Candelaria-3.jpg" alt="‘This is our great homeland’ / Tenemos Patria Grande. La Candelaria, Caracas. 2013. Passersby in front of a mural that references the vision of a free and united Latin America, following the vision of José Martí and the Bolivarian Revolution. Comando Creativo" width="950" height="844" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/06/Caracas-La-Candelaria-3.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/06/Caracas-La-Candelaria-3-300x267.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/06/Caracas-La-Candelaria-3-768x682.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-20229" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #403b99;">“Temos pátria”. La Candelária, Caracas, 2013. Pedestres em frente a um mural que faz referência à visão de uma América Latina livre e unida, seguindo a visão de José Martí e da Revolução Bolivariana.</span><br><strong><span style="color: #403b99;">Comando Creativo</span></strong></small></p></div>
<p> </p>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #403b99;"><strong>Punição coletiva</strong></span></h2>
<p>Em 10 de março, o ministro de Relações Exteriores venezuelano, Jorge Arreaza, nos disse que as “ações coercitivas unilaterais e ilegais que os Estados Unidos impôs sobre a Venezuela são uma forma de punição coletiva”. O uso da frase “punição coletiva” é significativo; sob a Convenção de Genebra de 1949, qualquer política que inflige danos em uma população inteira é um crime de guerra. A política estadunidense, segundo Arreaza, “resultou em dificuldades na aquisição necessária de medicamentos.”</p>
<p>Em teoria, as sanções unilaterais estadunidenses não se aplicariam a medicamentos, o que é uma ilusão. No dia 26 de março, onze senadores dos EUA enviaram uma <a href="https://www.murphy.senate.gov/newsroom/press-releases/-murphy-organizes-senate-effort-to-call-for-ease-of-us-sanctions-hindering-response-to-covid-19">carta</a> ao secretário de Estado Mike Pompeo e o secretário do Tesouro Steve Mnuchin, que dizia: “Entendemos que a administração declarou que as necessidades humanitárias e médicas estão isentas das sanções dos EUA, mas nosso regime de sanções é tão amplo que os fornecedores de medicamentos e as organizações de socorro simplesmente evitam fazer negócios com Irã e Venezuela com medo de serem presos acidentalmente pela rede de sanções dos EUA”. Venezuela e Irã não conseguem comprar suprimentos médicos facilmente, tampouco transportá-los a seus países, ou utilizá-los em seus sistemas de saúde majoritariamente públicos. O embargo contra esses países – nessa era de Covid-19 – não é apenas um crime de guerra pelos parâmetros da Convenção de Genebra (1949), mas também um crime contra a humanidade, conforme define a Comissão de Leis Internacionais das Nações Unidas (1947).</p>
<p>Em 2017, o presidente Donald Trump restringiu ainda mais o acesso da Venezuela aos mercados financeiros. Dois anos depois, o governo estadunidense colocou o Banco Central Venezuelano numa lista suja e declarou embargo geral a suas entidades estatais. Se qualquer empresa fizer negócios com o setor público venezuelano, pode sofrer sanções secundárias. O Congresso americano passou a Lei de Combate a Adversários Americanos por Sanções (CAATSA, sigla em inglês) em 2017, que aumentou as sanções contra o Irã, Rússia e Coréia do Norte. No ano seguinte, Washington lançou novas limitações que sufocaram a economia iraniana. Mais uma vez, o corte do acesso ao sistema bancário global e ameaças às empresas que comercializavam com o Irã impossibilitou o país de fazer negócios. Em particular, os EUA deixaram muito claro que qualquer transação com os setores públicos e estatais da Venezuela e do Irã estava proibida. A infraestrutura de saúde que atende a grande parte da população do Irã e da Venezuela é administrada pelo Estado, o que significa que enfrenta dificuldades desproporcionais no acesso a equipamentos e suprimentos, incluindo kits de teste e medicamentos.</p>
<p>A Venezuela e o Irã confiaram na OMS para obter medicamentos e exames. No entanto, a organização enfrenta seus próprios desafios com sanções, principalmente quando se trata de transporte. Essas duras sanções forçaram as empresas de transporte a reconsiderar o atendimento ao Irã e à Venezuela. Algumas companhias aéreas pararam de voar para estes países e muitas companhias de navegação decidiram não irritar Washington. Quando a OMS tentou levar kits de teste para a Covid-19 dos Emirados Árabes Unidos (EAU)para o Irã, enfrentou dificuldades – como <a href="https://twitter.com/cahamelmann/status/1233348062136938497">afirmou Christoph Hamelmann</a>, da OMS – “devido a restrições de voo”. Os Emirados Árabes Unidos enviaram o equipamento por meio de um avião de transporte militar.</p>
<p>Da mesma forma, disse Arreaza, a Venezuela “recebeu solidariedade de países como China e Cuba”. No final de fevereiro, uma equipe da Sociedade da Cruz Vermelha chinesa chegou a Teerã para trocar informações com o Crescente Vermelho Iraniano e com funcionários da OMS. A China também doou kits e suprimentos para testes. As sanções, disseram as autoridades chinesas, não devem ter importância durante uma crise humanitária como essa; eles não irão obedecê-las.</p>
<p>Enquanto isso, os iranianos desenvolveram um aplicativo para ajudar sua população durante o surto de Covid-19 e o Google decidiu removê-lo de sua loja de aplicativos, uma consequência das sanções dos EUA.</p>
<p>Que tipo de fibra moral mantém unido um sistema internacional em que um punhado de países pode agir de maneira contrária a todas as aspirações mais elevadas da humanidade? Quando os Estados Unidos dão continuidade a seus embargos contra 39 países – com maior intensidade contra Cuba, Irã e Venezuela – em meio a uma pandemia global, o que isso diz sobre a natureza do poder e da autoridade em nosso mundo? As pessoas sensíveis devem se ofender com esse comportamento e seu espírito nefasto evidente nas mortes não naturais que provoca.</p>
<p>Quando a secretária de Estado dos EUA, Madeleine Albright, foi questionada em 1996 sobre o meio milhão de crianças iraquianas que morreram por causa das sanções americanas, ela disse que essas mortes eram “um preço que valia a pena pagar”. Certamente não eram um preço que os iraquianos queriam pagar, nem os venezuelanos ou mesmo a maioria da humanidade.</p>
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<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #403b99;"><strong>FMI recebe ordens do Tesouro Nacional</strong></span></h2>
<p>No dia 16 de março de 2020, a chefe internacional do FMI, Kristalina Georgieva, escreveu <a href="https://blogs.imf.org/2020/03/16/policy-action-for-a-healthy-global-economy/">um post na página do FMI</a>; representa o tipo de generosidade necessária em meio a uma pandemia global. “O FMI segue pronto para mobilizar sua capacidade de empréstimo de 1 trilhão de dólares para ajudar seus membros”. Países com “necessidades urgentes de balança de pagamentos” poderiam ser ajudados pelo “flexível e rápido pacote de ferramentas de resposta a emergências” da instituição. Por meio desses mecanismos, e contra o seu próprio histórico de condições de ajuste estrutural, o FMI disse que poderia fornecer 50 bilhões para países em desenvolvimento e 10 bilhões de dólares para países de baixa renda a uma taxa de juros zero – sem as restrições usuais.</p>
<p>Um dia antes de Georgieva fazer essa declaração pública, o Ministério das Relações Exteriores da Venezuela enviou uma carta ao FMI solicitando fundos para financiar os “sistemas de detecção e resposta” do governo em seus esforços contra o coronavírus. Na <a href="https://twitter.com/jaarreaza/status/1240035272601059328/photo/1">carta</a>, o presidente Nicolás Maduro escreveu que seu governo está “executando diferentes medidas de controle altamente abrangentes, rigorosas e exaustivas (…) para proteger o povo venezuelano”. Essas medidas requerem financiamento e é por isso que o governo está “recorrendo à sua [organização] honorável para solicitar sua avaliação sobre a possibilidade de conceder à Venezuela um mecanismo de financiamento de 5 bilhões do fundo de emergência do Instrumento de Financiamento Rápido (RFI, sigla em inglês), recursos que contribuirão significativamente para fortalecer nossos sistemas de detecção e resposta”.</p>
<p>A política de Georgieva de fornecer assistência especial aos países deveria ter sido suficiente para o FMI prestar a assistência que o governo venezuelano havia solicitado. Mas, muito rapidamente, o Fundo recusou o pedido.</p>
<p>É importante ressaltar que essa negativa foi feita no momento em que o coronavírus começou a se espalhar na Venezuela. Em 15 de março, dia em que o governo de Nicolás Maduro enviou a carta ao FMI, o presidente também se encontrou com altos funcionários do governo em Caracas. O órgão farmacêutico venezuelano estatal (Cifar) e as empresas venezuelanas de equipamentos médicos disseram que seriam capazes de aumentar a produção de máquinas e medicamentos para conter a crise; no entanto, afirmaram que necessitariam de matérias-primas essenciais que precisam ser importadas. O governo foi ao FMI para poder pagar por essas importações. A negativa impactou diretamente o aparato sanitário venezuelano e impediu o combate adequado da pandemia.</p>
<p>“Esta é a situação mais terrível que já enfrentamos”, disse o presidente Maduro ao implantar novas medidas. O país entrou em quarentena indefinida e implementou processos para distribuir alimentos e suprimentos essenciais, com base nas comunas locais que foram desenvolvidas durante a Revolução Bolivariana. Todas as instituições do Estado estão agora envolvidas em ajudar a “achatar a curva” e “quebrar a cadeia” de contágio. Mas, devido à negativa do FMI, o país teve mais dificuldade em produzir kits de teste, respiradores e medicamentos essenciais para os infectados pelo vírus.</p>
<p>A Venezuela é um membro fundador do FMI. Apesar de ser um Estado rico em petróleo, recorreu ao FMI para várias formas de assistência. O ciclo de intervenções do Fundo na Venezuela, na década de 1980 e no início da década de 1990, levou a um levante em 1989 – o Caracazo – que colocou em xeque a elite venezuelana; foi por trás dos protestos populares contra o FMI que Hugo Chávez construiu a coalizão que o levou ao cargo em 1998 e iniciou a Revolução Bolivariana em 1999. Em 2007, a Venezuela pagou suas dívidas pendentes ao FMI e ao Banco Mundial; o país cortou seus laços com essas instituições, na esperança de construir um Banco do Sul – enraizado na América Latina – como alternativa. Porém, antes da criação deste Banco, uma série de crises atingiu a América Latina, forçada pela queda nos preços das commodities de 2014 a 2015.</p>
<p>A economia venezuelana dependia das exportações de petróleo para gerar a renda necessária para importar produtos. Junto à queda do preço do barril entre 2014 e 2018, veio um ataque direto dos EUA, que impôs novas sanções unilaterais. Essas sanções impedem empresas de petróleo e transporte de fazer negócios com a Venezuela; bancos internacionais apreenderam bens venezuelanos em seus cofres (inclusive 1,2 bilhão de dólares em ouro no Banco da Inglaterra) e pararam de fazer negócios com o país. Essas sanções, que pioraram depois de Donald Trump virar presidente dos Estados Unidos, diminuíram muito a capacidade da Venezuela de vender seu combustível e comprar produtos, inclusive mantimentos para o setor de saúde.</p>
<p>Em janeiro de 2019, após o governo estadunidense tentar usurpar o poder, bancos nos Estados Unidos começaram a tomar posse de bens venezuelanos e entregá-los ao autoproclamado presidente. Depois, em uma decisão inesperada, o FMI anunciou que Caracas não poderia utilizar seus 400 milhões de dólares em direitos de saque especiais, a moeda do FMI. Justificaram a ação alegando a incerteza política na Venezuela. Em outras palavras, por causa da tentativa de golpe, que falhou, o FMI disse que não iria “escolher lados” na Venezuela; ao não tomar partido, o Fundo impediu que o governo venezuelano acessasse seu próprio dinheiro. Surpreendentemente, Ricardo Hausmann, ex-secretário de Guaidó, disse na época que sua expectativa era de que, quando houvesse a troca de regimes, o dinheiro estaria disponível ao novo governo. Isso é um exemplo do FMI intervindo diretamente na política venezuelana.</p>
<p>Naquela época, tanto como agora, o FMI não nega que o governo de Nicolás Maduro seja o legítimo governo venezuelano. O órgão continua a reconhecer oficialmente que o representante do país é Simon Alejandro Zerpa Delgado, o ministro de finanças de Maduro. Uma das razões disso é o fato que Guaidó não conseguiu o apoio de uma maioria de Estados membros do Fundo. Porque Guaidó não conseguiu estabelecer sua legitimidade, o FMI – mais uma vez de maneira inesperada – negou ao governo de Maduro seu direito de acesso a seus próprios fundos e de fazer empréstimos com a mesma facilidade que outros membros.</p>
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<div id="attachment_20211" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-20211" class="size-full wp-image-20211 img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/06/Caracas-Bellas-Artes-2.jpg" alt="History is watching us. Bellas Artes, Caracas, 2011. Comando Creativo" width="950" height="713" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/06/Caracas-Bellas-Artes-2.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/06/Caracas-Bellas-Artes-2-300x225.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/06/Caracas-Bellas-Artes-2-768x576.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-20211" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #403b99;">A História nos observa. Belas Artes, Caracas, 2011.</span><br><strong><span style="color: #403b99;">Comando Creativo</span></strong></small></p></div>
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<p>Normalmente, o FMI demora em dar um retorno quando recebe um pedido de dinheiro, que é estudado por analistas que fazem um levantamento da situação e determinam se o pedido é legítimo. Dessa vez, deram uma resposta de imediato: não.</p>
<p>Um porta-voz do fundo – Raphael Aspach – não respondeu perguntas específicas sobre essa decisão; em 2019, foi igualmente cauteloso ao explicar a não liberação de 400 milhões de dólares em SDR. Dessa vez, Anspach enviou uma nota oficial que o FMI já havia divulgado na imprensa. O comunicado dizia que embora entendesse a situação do povo venezuelano, não estava “numa posição para considerar esse pedido”. O motivo, disse o FMI, era que “relações com países membros são predicadas no reconhecimento oficial de seus governos pela comunidade internacional”. Atualmente, não há “esclarecimento sobre esse reconhecimento neste momento”, dizia a nota.</p>
<p>Mas existe clareza. O FMI listava o ministro de relações exteriores de Nicolás Maduro em sua página, ao menos até meados de março. Esse deveria ser o parâmetro oficial para fazer essa determinação. Porém, não é. O fundo está recebendo ordens dos Estados Unidos. Em abril de 2019, o vice-presidente norte-americano, Mike Pence, foi ao Conselho de Segurança da ONU, onde declarou que o órgão deveria aceitar Juan Guaidó como o legítimo presidente da Venezuela. Depois, virou-se ao embaixador venezuelano nas Nações Unidas, Samuel Moncada Acosta, e disse: “Você não devia estar aqui”. Um momento de enorme simbolismo, com os EUA se comportando como se a ONU fosse sua casa e pudessem convidar e desconvidar quem quiserem. A rejeição do pedido venezuelano de 5 bilhões de dólares vai ao encontro das declarações de Mike Pence. É uma violação do espírito de cooperação internacional que está no coração da Carta das Nações Unidas.</p>
<p>Há sinais de fraqueza na posição dos EUA. Em 18 de dezembro de 2019, a Assembleia Geral das Nações Unidas <a href="https://www.un.org/press/en/2019/ga12232.doc.htm">adotou</a> – sem voto – uma resolução que aceitou as credenciais dos diplomatas nomeados pelo governo de Maduro. O fato de não ter havido votação revela que os Estados Unidos não querem explicitar claramente o apoio minoritário do mundo em relação a sua posição de isolar o governo da Venezuela. Os EUA preferem renunciar a uma votação em nome do interesse de fabricar e manter uma narrativa obscura, do que permitir que a comunidade internacional de fato vote abertamente e mostre que aceita o governo Maduro como o governo legítimo da Venezuela.</p>
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<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #403b99;"><strong>As acusações alucinatórias do narcotráfico</strong></span></h2>
<p>Em uma <a href="https://www.justice.gov/opa/video/attorney-general-barr-and-doj-officials-announce-significant-law-enforcement-actions">coletiva de imprensa</a> em 26 de março, foi embaraçosa a pouca evidência que o Departamento de Justiça dos EUA forneceu quando acusou o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e vários dos líderes de seu governo de narcotráfico. Os EUA ofereceram 15 milhões de dólares pela prisão de Maduro e 10 milhões pelos demais. Maduro, disse o procurador dos EUA Geoffrey Berman de forma dramática, “implantou deliberadamente a cocaína como arma”. Provas? Não apresentadas. Uma acusação não é um veredicto de culpa, mas apenas uma afirmação – neste caso – preparada pelo governo dos EUA contra um adversário; não há nada na acusação que comprove que qualquer um dos indivíduos mencionados tenha algo a ver com o contrabando de entorpecentes. Ficou evidente na conferência de imprensa do Departamento de Justiça dos EUA que se tratava de teatro político, uma <a href="https://peoplesdispatch.org/2020/03/28/trumps-narcoterrorism-indictment-of-maduro-already-backfires/">tentativa</a> de deslegitimar ainda mais o governo de Maduro.</p>
<p>É surreal que os Estados Unidos – durante a pandemia global de Covid-19 – optem por dedicar esforços nessa acusação ridícula e sem evidências contra Maduro e outros membros do governo. Já há pressão para suspender as sanções não apenas contra a Venezuela, mas também contra o Irã (até o <a href="https://www.nytimes.com/2020/03/25/opinion/iran-sanctions-covid.html"><i>The New York Times</i></a> de 25 de março pediu o fim das sanções contra o país persa). A Organização Mundial da Saúde deixou claro que esse não é o momento de dificultar a capacidade dos países de obter suprimentos preciosos para enfrentar a pandemia. Desesperados, os EUA tentaram mudar a conversa – não mais sobre a Covid-19 e as sanções, mas sobre o narcoterrorismo.</p>
<p>Quando perguntado sobre essas acusações, o procurador-geral dos EUA, William Barr, tentou dizer que a falha não estava em Washington, mas em Caracas. Ele disse, na ausência de qualquer evidência, que a Venezuela impede a entrada de ajuda no país. Nada poderia estar mais longe da verdade, já que a Venezuela recebeu equipamentos e pessoal médico da China, Cuba e Rússia, bem como da OMS; esta última, de fato, pressionou os EUA a flexibilizar as rédeas para permitir a entrada de mercadorias no país – um pedido que os EUA acataram. Barr pode dizer tão facilmente o oposto da verdade porque nenhum dos meios de comunicação na conferência de imprensa o desafiaria em relação a esses assuntos publicamente.</p>
<p>Em 1989, os EUA usaram a acusação de narcotráfico – especificamente de cocaína – para manchar a reputação de seu antigo patrimônio, o então presidente do Panamá Manuel Noriega. Com base nessa <a href="https://topdocumentaryfilms.com/the-panama-deception/">acusação</a> na Flórida, os EUA finalmente invadiram o país, prenderam Noriega, colocaram as marionetes de Washington na Cidade do Panamá e jogaram o ex-presidente panamenho em uma prisão na Flórida. A sombra de como os EUA <a href="https://original.antiwar.com/dave_decamp/2020/03/29/william-barr-greenlit-bushs-invasion-of-panama-is-venezuela-next/">lidaram</a> com Noriega paira sobre Caracas.</p>
<p>A recompensa pela cabeça de Maduro e sua liderança sugere que o governo dos Estados Unidos deu um golpe de máfia. Uma jogada muito perigosa. Essencialmente, dá a bandidos uma luz verde para tentar assassinar Maduro dentro da Venezuela. A recusa em permitir que Maduro viaje para o exterior viola uma série de convenções internacionais que promovem a diplomacia sobre a beligerância. Mas, dada a maneira sem lei que os EUA formularam sua estratégia de mudança de regime na Venezuela – e ao longo da História – é improvável que alguém vá criticar esse movimento.</p>
<p>Poucas horas antes do anúncio, em Washington, começou a se espalhar a <a href="https://www.cnn.com/2020/03/26/politics/venezuela-trump-administration-terrorism/index.html">notícia</a> de que os Estados Unidos colocariam o governo da Venezuela na lista de “Estados patrocinadores do terrorismo” – a mais alta condenação de um governo. Mas tiveram que fazer uma pausa, ainda que por razões absurdas. Se o governo dos EUA acusasse o governo de Maduro de ser um “Estado patrocinador do terrorismo”, estaria tacitamente reconhecendo Maduro como presidente da Venezuela. Desde janeiro de 2019, uma das tentativas de desestabilização foi negar a legitimidade do governo Maduro, na verdade, negar o governo. Seria impossível dizer que a Venezuela é um “Estado patrocinador do terrorismo” sem reconhecer o atual governo venezuelano. Assim, os Estados Unidos tiveram que recuar, pegos pela própria lógica.</p>
<p>A <a href="https://www.justice.gov/opa/pr/nicol-s-maduro-moros-and-14-current-and-former-venezuelan-officials-charged-narco-terrorism">declaração</a> divulgada pelo Departamento de Justiça dos EUA parece uma obra de suspense, e a falta de evidências a compara à ficção. Lista nomes e acusações, faz constantes referências ao “narcoterrorismo” e afirma que o governo venezuelano deseja “inundar” os Estados Unidos com cocaína. Seria necessário um esforço sobre-humano de cegueira para acreditar nesse delírio sem fundamento. A questão é que tal atitude deve ser levada a sério pelo povo venezuelano, pois representa um aprofundamento da beligerância estadunidense. Os venezuelanos estão cientes dos perigos de uma situação do tipo Panamá. É difícil resposabilizá-los. Esse é o histórico do governo dos Estados Unidos.</p>
<p>A comparação com uma situação do tipo Panamá não pode ser considerada paranoia. No dia da mentira, 1º de abril, Trump deu uma conferência de imprensa na qual <a href="https://www.whitehouse.gov/briefings-statements/remarks-president-trump-vice-president-pence-members-coronavirus-task-force-press-briefing-16/">anunciou</a> um novo “esforço antinarcótico” por parte do Comando Sul dos EUA. “Estamos implantando destróieres na Marinha, navios de combate, aeronaves e helicópteros, embarcações da Guarda Costeira, e aeronaves de vigilância da Força Aérea, dobrando nossas capacidades na região”, disse. O objetivo desta missão – que será acompanhada por outros países – é “aumentar a vigilância, interrupções e apreensões de remessas de drogas”. “Não devemos deixar que os cartéis de drogas explorem a pandemia para ameaçar vidas americanas”, acrescentou.</p>
<p>Em menos de uma semana após a acusação estadunidense, ficou claro que o objetivo não é realmente atrapalhar o comércio de cocaína, mas pressionar a Venezuela. Nenhuma evidência foi fornecida durante a conferência de imprensa do Departamento de Justiça, quando os Estados Unidos acusaram Maduro de narcotráfico, e nenhuma evidência foi apresentada na conferência de imprensa de Trump quando ele anunciou que um grupo de transportadores navais entraria no Caribe. Não houve evidência apresentada em nenhum evento de alto nível, porque não existe nenhuma evidência; até as próprias agências governamentais estadunidenses dizem que na Venezuela não se produz nem se trafica narcóticos. Além do mais, os Estados Unidos têm consistentemente deslegitimado a Venezuela para derrubar o governo com base em crescentes histórias alucinatórias sobre seu governo.</p>
<p>Em dezembro de 2019, a Agência Antidrogas dos EUA (DEA) lançou sua <a href="https://www.dea.gov/sites/default/files/2020-01/2019-NDTA-final-01-14-2020_Low_Web-DIR-007-20_2019.pdf">Avaliação Nacional de Ameaças às Drogas</a>. Esse estudo oferece uma visão mais detalhada da movimentação das drogas nos Estados Unidos. Em vários pontos do documento, o DEA diz que a Colômbia é a “principal fonte de cocaína apreendida nos Estados Unidos”. De acordo com o DEA, em 2018, “aproximadamente 90% das amostras de cocaína testadas eram de origem colombiana, 6% eram de origem peruana e 4% eram de origem desconhecida”. De acordo com a própria agência antidrogas estadunidense, não há cocaína ou qualquer outro narcótico proveniente da Venezuela.</p>
<p>Tanto na coletiva de imprensa do Departamento de Justiça quanto na de Trump, foram mostrados mapas que indicavam o tráfico de cocaína da Venezuela para os Estados Unidos. Uma mentira, segundo as próprias informações do DEA: “A maior parte da cocaína e heroína produzida e exportada pelas Organizações Criminosas Transnacionais (OCT) da Colômbia para os Estados Unidos é transportada pela América Central e México”, escrevem funcionários do DEA em seu relatório de 2019. No entanto, há sugestões de que os narcotraficantes colombianos às vezes “armazenam grandes quantidades de cocaína em áreas remotas da Venezuela e do Equador até que o transporte marítimo ou aéreo possa ser garantido”. É importante reconhecer que a cocaína e a heroína estão escondidas em “áreas remotas” dos vizinhos da Colômbia, sendo esta o foco de todo o comércio. Em nenhum momento em todo o documento do DEA de 146 páginas, e de documentos de anos anteriores, as autoridades antidrogas fazem qualquer declaração que implique ao governo venezuelano na produção, armazenamento ou transporte de cocaína e heroína. A única vez que a Venezuela entra em cena é quando os narcotraficantes colombianos escondem entorpecentes em suas “áreas remotas” antes de transportá-los para a América Central e México e depois para os Estados Unidos.</p>
<p>Contudo, existem evidências significativas – conforme apresentado pelo jornalista colombiano Gonzalo Guillén em <a href="https://lanuevaprensa.com.co/component/k2/interceptaciones-al-narcotraficante-nene-hernandez-destapan-compra-de-votos-para-duque-por-orden-de-uribe"><i>La Nueva Prensa</i></a><i>,</i> em 3 de março de 2020 – de que o presidente da Colômbia, Iván Duque, e seu patrono, o ex-presidente Álvaro Uribe, mantiveram laços estreitos com o narcotraficante José Guillermo Hernández Aponte, também conhecido por Ñeñé. No dia anterior, Duque estava no Salão Oval quando Trump o repreendeu por não fazer o suficiente para erradicar a produção de cocaína na Colômbia. “Bem, você terá que fumigar”, <a href="https://www.whitehouse.gov/briefings-statements/remarks-president-trump-president-duque-colombia-bilateral-meeting-2/">disse Trump</a> a Duque. “Se você não fumigar, não se livrará deles. Então, em relação às drogas na Colômbia, você tem que fumigar”.</p>
<p>Trump estava falando sobre a fumigação de glifosato que o governo da Colômbia interrompeu em 2015 porque a OMS disse que essas fumigações causavam câncer. Apesar disso, Duque disse que as retomará. Não houve menção às acusações de que Duque está ligado a narcotraficantes; como ele está alinhado a Washington, seus próprios supostos crimes não são trazidos à tona. O patrono de Duque – Uribe, ex-presidente colombiano e atual membro do Senado – está atualmente <a href="https://nsarchive.gwu.edu/briefing-book/colombia/2018-05-25/narcopols-medellin-cartel-financed-senate-campaign-former">envolvido</a> em mais de 270 processos na Colômbia, com acusações que incluem escutas telefônicas ilegais, crime organizado, assassinatos seletivos e desaparecimentos forçados. Uribe e membros de sua família têm vínculos comprovados com o grupo paramilitar Bloque Metro, de Antioquia, responsável por milhares de assassinatos de civis colombianos e profundamente envolvido no narcotráfico.</p>
<p>Estranhamente, naquela conferência de imprensa, Trump e Duque conversaram sobre a Venezuela, mas não mencionaram drogas ou narcotráfico. Era tudo sobre mudança de regime.</p>
<p>Em 31 de março, o secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, anunciou que a Venezuela deve ter um governo de transição; isso, por si só, é bizarro porque Pompeo não é nem venezuelano nem funcionário das Nações Unidas e, no entanto, sentiu-se encorajado a falar pelo povo venezuelano. Seu plano, “Quadro de Transição Democrática para a Venezuela”, pedia que Maduro renunciasse e que Juan Guaidó, substituto favorito de Washington, renunciasse à sua reivindicação imaginária de poder. Membros dos quatro principais partidos, incluindo o Partido Socialista, de Maduro, formariam um conselho e seriam liderados por um “presidente interino”. Se esse plano for aceito, Washington levantará suas sanções coercitivas unilaterais que impôs a partir de 2014.</p>
<p>No fim de semana anterior, Guaidó anunciou no Twitter que a Venezuela precisava de um “governo de emergência” que tivesse a participação de todos os partidos e governaria até que novas eleições pudessem ser realizadas. Após o anúncio de Pompeo, Guaidó assumiu o crédito e agradeceu publicamente a ele. Outros políticos de extrema direita, como Leopoldo López, Carlos Vecchio e Julio Borges, <a href="https://twitter.com/carlosvecchio/status/1245119783370178560?s=20">saudaram</a> o plano e agradeceram aos EUA por apoiarem o “governo de emergência” de Guaidó. Quando soube que as canhoneiras estão chegando em direção à costa venezuelana, María Corina Machado, do Partido Vente Venezuela, <a href="https://twitter.com/MariaCorinaYA/status/1245470886397915143">twittou</a>: “Assim se constrói uma ameaça crível”. É crível porque as canhoneiras já fizeram isso antes.</p>
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<div id="attachment_20256" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-20256" class="size-full wp-image-20256 img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/06/Macuro2-4.jpg" alt="‘This is our homeland’ / Tenemos patria. Macuro, Sucre. 2014. Comando Creativo" width="950" height="713" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/06/Macuro2-4.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/06/Macuro2-4-300x225.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/06/Macuro2-4-768x576.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-20256" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #403b99;">Temos pátria. Macuro, Sucre, 2014.</span> <br><strong><span style="color: #403b99;">Comando Creativo</span></strong></small></p></div>
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<p>A Organização dos Estados Americanos (OEA), que se <a href="https://www.counterpunch.org/2020/03/11/elon-musk-is-acting-like-a-neo-conquistador-for-south-americas-lithium/">comportou</a> como uma extensão do Departamento de Estado dos EUA durante o <a href="https://www.thetricontinental.org/bolivia/">golpe</a> contra o governo de Evo Morales na Bolívia, em novembro passado, juntou-se ao coro iniciado por Pompeo e Guaidó. Em <a href="https://www.oas.org/en/media_center/press_release.asp?sCodigo=E-027/20">comunicado</a>, a OEA declarou que “considera que o plano apresentado constitui uma proposta válida para um caminho para acabar com a ditadura usurpadora e restaurar a democracia no país”.</p>
<p>O governo venezuelano liderado pelo presidente Maduro rejeitou o plano. Mas não ficou sozinho. O principal oponente de Maduro nas eleições presidenciais de 2018, Henri Falcón, do partido Avanzada Progresista, também rejeitou o plano Pompeo-Guaidó e o envio de navios de guerra dos EUA à costa venezuelana. A remoção de Maduro, <a href="https://twitter.com/HenriFalconLara/status/1245093356629372936?s=20">disse Falcón</a>, é um processo e não uma imposição; exige acordos entre adversários para que seja bem-sucedida. A solução na Venezuela é entre os venezuelanos. “A pandemia”, <a href="https://twitter.com/HenriFalconLara/status/1245742474099859456">escreveu</a>, “está causando estragos no mundo. A Venezuela é uma das mais vulneráveis. Seria humanitário e muito bom se os navios viessem com ajuda e remédios e seria muito desumano se viessem carregados de armas e ameaças”.</p>
<p>A maioria da oposição na Venezuela, como Falcón, não aprovou a submissão de Guaidó a Trump e Pompeo. Claudio Fermín, do Partido Soluciones para Venezuela, <a href="https://www.eltubazodigital.com/columnistas/claudio-fermin-ya-no-saben-que-hacer/2020/03/31/">atacou</a> a “tese irresponsável e fantasiosa” de Guaidó e seus apoiadores, que depende da “nuvem fantasiosa de instruções enviadas a ele por seus chefes Elliot Abrams, Pompeo e Trump”. Henrique Capriles Radonski, que duas vezes concorreu sem sucesso para ser presidente, <a href="https://talcualdigital.com/maduro-convoca-nuevo-dialogo-con-la-oposicion-para-hablar-sobre-el-coronavirus/">disse</a> que Maduro tem “controle interno”, enquanto o pessoal de Guaidó tem “alianças internacionais”.</p>
<p>Muito disso nos dá a sensação de déjà vu. Em 7 de outubro de 1963, o presidente dos EUA, John F. Kennedy, reuniu seus assessores na Casa Branca para discutir como derrubar o governo democraticamente eleito de João Goulart, no Brasil. Kennedy <a href="https://nsarchive2.gwu.edu/NSAEBB/NSAEBB465/docs/Document%209%20brazil-jfk%20tapes-100763-revised.pdf">perguntou</a> com franqueza: “Você acredita que estamos chegando a um ponto em que teremos – que acharemos desejável intervir militarmente?”. Seu embaixador no Brasil, Lincoln Gordon, disse que havia trabalhado em um plano com o Comando Sul dos EUA – com sede no Panamá – e com seus contatos nas Forças Armadas brasileiras. Uma invasão dos EUA, disse Gordon a Kennedy, exigiria uma “operação militar massiva”, que “dependeria do que os militares brasileiros fariam”. Qualquer golpe sem grande apoio militar levaria ao “início do que seria uma guerra civil”.</p>
<p>Assim, em vez de arriscar uma guerra civil, Gordon acreditava que os militares tinham que agir e os Estados Unidos deveriam fornecer a eles apoio diplomático e militar. Em março de 1964, Gordon disse que o “desenvolvimento mais significativo é a cristalização de um grupo de resistência militar sob a liderança do general Humberto Castelo Branco”. Washington deu a luz verde. A operação Irmão Sam foi acionada, que incluía incitar os generais e enviar uma enorme força-tarefa naval para a costa do sul do Brasil. Um porta-aviões, dois destróieres de mísseis guiados e outras embarcações de apoio deixaram Aruba e fizeram sua jornada ao Brasil. O general Castelo Branco moveu-se contra Goulart; esse golpe criou uma ditadura militar – apoiada por Washington – que durou 21 anos e matou, deteve e torturou milhares de pessoas.</p>
<p>O grupo de transportadores dos EUA que fica na costa da Venezuela parece imitar a Operação Irmão Sam de 1964. Em vez de focar a atenção no problema premente de controlar o coronavírus nos Estados Unidos – ou mesmo entre suas forças militares – Trump começou manobras que poderiam muito bem levar a um perigoso e sério choque no mar do Caribe.</p>
<p> </p>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #403b99;"><strong>O povo colombiano rejeita a guerra híbrida contra a Venezuela</strong></span></h2>
<p>Em 21 de novembro de 2019, o povo colombiano foi às ruas em grande número para rejeitar as políticas do governo lideradas pelo presidente Iván Duque. Em particular, o povo pediu a retirada de duas políticas. Primeiro, queriam que o governo de direita de Duque avançasse os Acordos de Paz de 2016 entre o governo e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Esses acordos, negociados de boa fé, teriam encerrado uma guerra que durou seis décadas (70% da sociedade colombiana nasceu durante essa guerra). Segundo, o povo queria acabar com as duras políticas de austeridade impulsionadas pelo governo de Duque, que incluem cortes nas universidades públicas, no sistema de aposentadorias e diversos gastos sociais. A principal federação sindical, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) da Colômbia, convocou esse protesto, que depois se expandiu para uma revolta em massa contra Duque e o sistema político colombiano.</p>
<p>O secretário-geral da CUT e porta-voz do Congresso do Povo, Edgar Mojica, estava nas barricadas diariamente, ajudando a mobilizar as massas, o que sugeria que a sociedade colombiana não queria mais ser refém dos caprichos de sua oligarquia esclerótica e do governo dos Estados Unidos. Esse era o clima. Isso ficou claro nos slogans e grafites que surgiram em Bogotá, capital da Colômbia, e depois em cidades menores. As duas demandas – implementar os Acordos de Paz e acabar com a austeridade – estão relacionadas. A oligarquia colombiana teme que contribuir para a construção de uma paz abrangente e genuína fará as FARC chegar ao cenário político e fortalecerá a esquerda; uma esquerda mais forte terá o poder de anular não apenas a agenda de austeridade, mas também a orientação pró estadunidense das classes dominantes colombianas (para mais informações, consulte o dossiê n. 23 <a href="https://www.thetricontinental.org/pt-pt/paz-neoliberalismo-e-mudancas-politicas-na-colombia/"><i>Paz, Neoliberalismo e mudanças políticas na Colômbia</i></a>).</p>
<p>A outra organização de esquerda – o Exército de Libertação Nacional (ELN) – tentou de boa fé negociar com o governo de Duque, mas viu a porta bater em seu rosto repetidamente, como Pablo Beltrán, líder do ELN, <a href="https://peoplesdispatch.org/2019/02/09/exclusive-interview-with-pablo-beltran-chief-negotiator-of-colombias-eln/">disse</a> à jornalista e educadora argentina Claudia Korol ano passado. Duque intensificou a campanha militar contra o ELN. Se os Acordos de Paz com as Farc e as conversas com o ELN se aprofundarem, isso minará o poder da oligarquia e de Washington. Como Olimpo Cárdenas, do Congresso do Povo, <a href="https://peoplesdispatch.org/2018/07/30/there-is-a-sector-of-the-colombian-oligarchy-that-benefits-from-the-war/">disse</a> há dois anos, “existe um setor da oligarquia colombiana que se beneficia da guerra”.</p>
<p>Há dias em que parece que o presidente Duque não pode tomar decisões sem consultar o governo dos EUA e seu mentor, Álvaro Uribe. O conselho que recebe é se aprofundar em uma aliança com os Estados Unidos, mesmo à custa da opinião pública na Colômbia. Seria adequado chamar a política de Duque em relação aos Estados Unidos de “política de capacho”: oferece a Colômbia para que os Estados Unidos limpe seus pés antes de marchar para a vizinha Venezuela. Quando falamos recentemente com Mojica, ele disse que “o governo colombiano é um governo submisso. É inclinado para as decisões do governo norte-americano”.</p>
<p>Este não é um novo desenvolvimento. No início do século 20, a política externa da Colômbia foi definida pelo princípio do <i>Respicium Polum</i> (“Olhe em direção ao norte”). Mais recentemente, nos anos 1990, a política externa dos EUA mudou seu olhar da América Central para a Colômbia; O Plano Colômbia, desenvolvido em 1999, conduziu uma agenda militarizada dos EUA e da oligarquia colombiana na “Guerra às Drogas”, que era essencialmente uma tentativa de derrotar qualquer insurgência revolucionária e consolidar o controle sobre o território andino-amazônico. O que é realmente novo, diz Mojica, é que Duque fez tudo para facilitar o bloqueio contra a Venezuela e a potencial intervenção militar.</p>
<p>Quando os governos do Canadá e dos Estados Unidos instaram seus parceiros na América Latina a criarem uma plataforma contra a Venezuela, que se tornou o Grupo de Lima, em 2017, a Colômbia era um ávido participante. Em fevereiro de 2019, Duque deu as boas-vindas ao Grupo de Lima em Bogotá durante uma aposta de alto risco pelos Estados Unidos para derrubar o governo venezuelano do presidente Maduro. Naquela época, Mojica e outros líderes do movimento social criticaram a maneira como seu país estava sendo usado pela oligarquia colombiana e pelos Estados Unidos para fins restritos, contra o interesse do povo colombiano. Mojica nos disse: “Temos denunciado isso desde o ano passado, começando quando o presidente Duque se prestou a legitimar Guaidó e a legitimar as posições que o Grupo de Lima teve em relação à Venezuela”. A crescente tensão militar com a Venezuela se adequa à agenda do governo de Duque. Isso significa que ele pode adiar qualquer discussão sobre a plena implementação dos Acordos de Paz e deixar de lado qualquer crítica a suas políticas de austeridade. Desde 2016, centenas de líderes de movimentos sociais foram <a href="https://www.telesurenglish.net/news/Worldwide-Protests-Called-Against-Murder-of-Colombian-Social-Leaders-20190722-0010.html">assassinados</a> em toda a Colômbia; essa violência é obscurecida pelo foco que a mídia dá à fronteira colombiano-venezuelana.</p>
<p>Com o governo dos EUA afirmando absurdamente que a Venezuela é a fonte de narcotráfico – embora todas as evidências apontem para seu enraizamento na Colômbia – a pressão sobre este país para lidar com seu problema agora foi suspensa. De fato, os laços íntimos entre a oligarquia e os narcotraficantes estão agora ocultos pela alegação alucinatória de que Maduro está envolvido nesse comércio ilegal.</p>
<p>Mojica nos disse que toda a política antidrogas é uma “distração” porque falha em entender o problema real. “Rejeitamos as políticas de fumigação de culturas e a chantagem do governo colombiano” pelos EUA, que usam seu poder internacional para forçar mudanças de política no país. Mojica explicou que o fato da produção de folhas de coca por pequenos agricultores ser o “primeiro passo da produção”, e como eles não têm outra fonte de receita para sustentar suas famílias, os agricultores servem como “o elo mais fraco da cadeia” e um alvo fácil para programas de erradicação da cocaína.</p>
<p>Esses pequenos agricultores, cujas fazendas e corpos serão saturados por produtos químicos tóxicos, não são os principais culpados por trás do comércio de drogas, nem o bem-estar deles é a principal preocupação do governo de Duque. No entanto, se configuram como um bode expiatório conveniente para mascarar as ações daqueles que realmente puxam as cordas. A responsabilidade pelo comércio colossal de drogas, sobre a qual o governo Trump e seus comparsas estão supostamente tão preocupados, recai principalmente sobre os grandes cartéis colombianos, que traficam as drogas pelo México e América Central para a América do Norte; a máfia das drogas na própria América do Norte; e a imensa demanda – principalmente nos EUA e na Europa – por consumo de cocaína da América do Sul.</p>
<p>Mas nenhum dos principais culpados enfrenta o peso da política de erradicação de drogas, reservada ao “elo mais fraco”. “Os plantadores de coca e suas famílias não têm alternativa em termos de apoio financeiro para a erradicação de suas plantações”, disse Mojica. Apesar disso, tornaram-se injustamente a linha de frente da guerra. Os Acordos de Paz de Havana de 2016 fornecem um mecanismo para auxiliar os agricultores na transição do cultivo de culturas ilícitas. No entanto, como em muitas outros pontos do processo de paz, o protocolo não foi respeitado; comunidades camponesas denunciaram repetidamente incidentes de <a href="https://twitter.com/COCCAMColombia/status/1242601209174855682?s=20">erradicação</a> forçada pelo Exército. O assassinato dos líderes dessas comunidades geralmente é realizado por grupos paramilitares, cartéis e uma seção das forças armadas conhecida como <i>Fuerza Pública</i>.</p>
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<div id="attachment_20220" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-20220" class="size-full wp-image-20220 img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/06/Caracas-Chapellin-5.jpg" alt="" width="950" height="558" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/06/Caracas-Chapellin-5.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/06/Caracas-Chapellin-5-300x176.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/06/Caracas-Chapellin-5-768x451.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-20220" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #403b99;">Moral e luzes. Chapellín, Caracas, 2014.</span> <br><strong><span style="color: #403b99;">Comando Creativo</span></strong></small></p></div>
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<p>Os governos dos EUA e Duque, diz Mojica, usam a questão das drogas para colocar em marcha uma agenda de mudança de regime na Venezuela. As questões são tão graves que o governo colombiano permitiu que as tropas estadunidenses entrassem em seu território – tanto na costa do Caribe quanto na fronteira venezuelano-colombiana, como na região de Catatumbo. “Pensamos que de lá eles estão preparando uma invasão de terra”, diz Mojica. Estes são tempos tensos, com a possibilidade iminente de manobras militares se transformarem em guerra.</p>
<p>O Senado colombiano tem manifestado sua oposição ao uso do território do país para desestabilizar a Venezuela. Em abril de 2020, um grupo de congressistas escreveu uma carta pública a Duque dizendo que seu país não deve interferir na mudança de regime na Venezuela. Se Duque quiser seguir tal agenda, deve pedir permissão ao Congresso. Mojica nos disse que os movimentos sociais colombianos “rejeitam completamente” a agenda de Trump. “Nós não somos o seu quintal”, disse o líder sindical sobre os Estados Unidos e, portanto, também não é o seu capacho. “Não toleramos suas políticas antidrogas; não toleramos suas políticas de saquear nossos recursos naturais e nosso meio ambiente”.</p>
<p> </p>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #403b99;"><strong>A Baía dos Leitões</strong></span></h2>
<p>Nas primeiras horas da manhã de domingo, 3 de maio, lanchas deixaram as costas colombianas e se dirigiram à Venezuela – embora não tivessem autorização para atravessar a fronteira marítima – e <a href="https://peoplesdispatch.org/2020/05/06/venezuela-arrests-eight-mercenaries-part-of-operation-gedeon-including-two-us-citizens/">desembarcaram</a> na costa venezuelana de La Guaira. Era claramente uma ação hostil, já que os barcos carregavam armas pesadas, incluindo rifles de assalto e munição. Os tripulantes possuíam telefones via satélite, além de uniformes e capacetes com a bandeira dos Estados Unidos da América. A incursão foi interceptada pelos militares venezuelanos (FANB), que os combateram; oito dos beligerantes foram mortos, enquanto dois foram detidos e vários escaparam temporariamente. Um dos presos disse ser um agente da Agência Antidrogas dos EUA (DEA). No dia 4 de maio, as forças de segurança venezuelanas, auxiliadas pelos pescadores e milícias bolivarianas da cidade costeira de Chuao, prenderam mais oito mercenários em uma lancha que tentavam entrar no país. Outros dois foram capturados pelas forças de segurança venezuelanas no mesmo dia na cidade de Puerto Maya. Durante as prisões, mais armas e equipamentos de inteligência militar foram apreendidos pelas forças de segurança venezuelanas.</p>
<p>Néstor Reverol, ministro de assuntos internos da Venezuela, disse às emissoras de televisão venezuelanas horas após a frustrada incursão que o governo recebeu informações sobre o ataque de fontes na Colômbia e de suas próprias patrulhas regulares no litoral. “Não podemos aceitar nenhuma de suas ameaças”, disse o político venezuelano Diosdado Cabello. “O que aconteceu hoje é um exemplo do desespero” dos Estados Unidos e de seus aliados, afirmou</p>
<p>Tais tramas cercam a Venezuela, os conspiradores são um elenco de personagens dos bairros mais pobres, do mundo militar e das drogas, bem como da inteligência americana e paramilitares colombianos. A trama para uma pequena invasão que ocorreu em 2019 está <a href="https://apnews.com/79346b4e428676424c0e5669c80fc310">documentada</a> por Joshua Goodman, da Associated Press. Essa conspiração foi liderada por Jordan Goudreau, que serviu no Exército dos EUA como médico no Iraque e no Afeganistão e depois se tornou um segurança privado; ele trabalhou com Cliver Alcalá, um ex-oficial militar venezuelano que reuniu algumas centenas de militares desertores para conduzir o ataque. Alcalá agora está preso nos Estados Unidos por seu envolvimento no tráfico de drogas. Goudreau e Alcalá foram apoiados pelo guarda-costas de Trump, Keith Schiller, e Roen Kraft, da Kraft Foods. Toda a operação cheira a uma aventura maluca da CIA, semelhante à malfadada invasão em 1961 de Playa Girón, Cuba.</p>
<p>Um dos <a href="https://www.elciudadano.com/ingles/did-he-know-or-did-he-not-know-was-duque-aware-of-a-mercenary-plan-to-kidnap-maduro/05/08/">aspectos mais feios</a> da incursão militar em 2020 foi que – em nome do combate ao narcotráfico – toda a operação parece ter sido financiada por traficantes. José Alberto Socorro Hernández (também conhecido como Pepero), que foi capturado durante a invasão, admitiu que o cartel de La Guajira, da Colômbia, ofereceu-lhes 2 milhões de dólares por suas ações. Pepero confessou que a operação foi financiada por Elkin Javier López Torres (também conhecido como <i>La Silla</i> [A Cadeira], ou <i>Doble Rueda</i>, [Roda Dupla]), um parente da esposa de Alcalá, Marta González.</p>
<p>É provável que essa invasão mais recente de maio de 2020 tenha emergido do campo de desertores militares criado por Alcalá na Colômbia. Um dos homens envolvidos no ataque foi o capitão Robert Levid Colina, também conhecido como Pantera. Colina esteve envolvido na tentativa de golpe em nome de Juan Guaidó, em 30 de abril de 2019, e é um colaborador íntimo de Alcalá. Antonio Sequea, ex-membro da Guarda Nacional Venezuelana, que foi visto pela última vez em 30 de abril de 2019 <a href="https://twitter.com/leopoldolopez/status/1123169379661819904?s=20">durante o fracassado golpe de Estado</a> liderado por Leopoldo López e <a href="https://peoplesdispatch.org/2020/02/05/guaido-is-surprise-guest-at-trumps-state-of-the-union/">Juan Guaidó</a>, estava entre os presos. Acredita-se que Sequea tenha liderado a operação. Também foi digna de nota a prisão de duas autoridades militares do Texas, Luke Denman e Airan Berry, membros da empresa mercenária estadunidense Silvercorp. O governo dos EUA negou toda a <a href="https://www.aljazeera.com/news/2020/05/pompeo-gov-involvement-venezuela-overthrow-plot-200506173821037.html">participação</a> na operação e a ignorou amplamente, mas, de acordo com um dos mercenários detidos, a dupla tem relação com o chefe de segurança de Trump.</p>
<p>A Silvercorp é a empresa de Jordan Goudreau, a quem Guaidó prometeu pagar 212,9 milhões de dólares para “capturar, deter ou ‘remover’ o presidente Nicolás Maduro e colocá-lo em seu lugar”, conforme <a href="https://thegrayzone.com/2020/05/10/guaido-mercenary-contract-venezuelas-maduro-us-bounty-death-squad/">relatado</a> pelo jornalista Alan MacLeod. Em fevereiro de 2019, Goudreau e sua empresa forneceram segurança à direita venezuelana durante o provocador show de Ajuda Humanitária. Vídeos e fotos também surgiram nas mídias sociais, mostrando um <a href="https://www.washingtonpost.com/context/read-the-attachments-to-the-general-services-agreement-between-the-venezuelan-opposition-and-silvercorp/e67f401f-8730-4f66-af53-6a9549b88f94/">contrato</a> assinado entre Goudreau e o líder da oposição de direita Guaidó. O ex-agente especial dos EUA expressou frustração porque Guaidó não sustentou sua parte da negociação, e a Silvercorp ainda não recebeu pagamento pelo trabalho.</p>
<p>Acredita-se que operação, sob investigação das autoridades venezuelanas nos últimos dois meses, tenha sido planejada e financiada pela oposição venezuelana e seus diversos aliados com o objetivo de assassinar o presidente eleito Nicolás Maduro e outros altos funcionários do governo venezuelano. É provável que a recompensa do governo dos EUA para Maduro e outros líderes tenha desempenhado um papel nessa tentativa de invasão.</p>
<p>No entanto, como explicou Hernán Vargas, membro do <i>Movimiento de Pobladoras e Pobladores</i> e o Secretário de Movimentos da ALBA, é provável que a missão desse grupo “não seja dominar o país, não era para assumir o governo. Era simplesmente realizar uma série de atividades que seriam coordenadas com outras forças, que dependiam de uma cadeia de eventos que não ocorreram… Eles realmente esperavam talvez uma resposta das Forças Armadas, de uma mobilização de rua ou de outro grupo armado que iria se juntar e isso não aconteceu”.</p>
<p>Os mercenários se fazendo de combatentes da liberdade, entretanto, “não esperavam a resposta do povo”, disse Vargas, e subestimaram amplamente a habilidade da inteligência venezuelana. Vargas acredita que os mercenários provavelmente achavam que seriam recebidos com aplausos e festejos. Pensaram  que o povo ou uma força armada os apoiariam… mas não há pessoas na Venezuela dispostas a fazer isso. A maioria dos venezuelanos quer que seja resolvido por meio da paz. Não há setores que estejam dispostos a fazer essa aposta ou não estão satisfeitos com o que precisam neste momento”.</p>
<p>A ameaça, todavia, permanece. Vargas pede um estudo detalhado do contrato da Silvercorp com Juan Guaidó e <a href="https://www.washingtonpost.com/world/the_americas/from-a-miami-condo-to-the-venezuelan-coast-how-a-plan-to-capture-maduro-went-rogue/2020/05/06/046222bc-8e4a-11ea-9322-a29e75effc93_story.html">Juan José Rendón</a> – um consultor político da direita e ex-conselheiro de Guaidó – que afirma existir “toda uma série de cláusulas que permitem ou concordam com ações de violações de direitos humanos, execução de civis ou uso de armas pesadas, que introduzem outra dimensão. Em outras palavras, essa é uma situação igualmente perigosa porque esses grupos podem facilmente realizar ações terroristas e também definir objetivos civis e militares estratégicos na Venezuela”.</p>
<p>Vladimir Padrino López, ministro da Defesa da Venezuela, disse que o governo e o povo haviam derrotado esse ataque e permaneceriam vigilantes contra outros planos similares. Uma das características do processo bolivariano tem sido a mobilização da população para se defender – da tentativa de golpe contra Chávez em 2002 até hoje. “Nós nos declaramos em rebelião”, disse Padrino, acrescentando que a Venezuela está agora sob um estado de “vigilância permanente”. Apesar da pandemia global, o antigo manual da CIA e do governo dos EUA, com seus golpes sujos e guerras híbridas, permanece operacional. Assim como os cubanos frustraram a tentativa de invasão estadunidense em Playa Girón, ou na Baía dos Porcos (1961), o povo venezuelano derrotou esse ataque da Baía dos Leitões em La Guaira (2020).</p>
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<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #403b99;"><strong>A fraqueza do poder dos EUA</strong></span></h2>
<p>Cinco navios-tanque iranianos – carregados de gasolina – moveram-se rapidamente com suas bandeiras e radares abertos à detecção de Bandar Abbas (Irã) em direção ao mar do Caribe. Um deles, acidentalmente chamado de “Fortune”, rompeu o febril bloqueio naval dos EUA para entrar em El Palito, Venezuela, em 24 de maio. O fato de os EUA não terem conseguido forçar um confronto com os navios iranianos sinaliza a fraqueza da posição estadunidense. Uma nova ponte marítima se abre entre dois países sob imensa pressão americana; isso demonstra as limitações – mas não o fim – do poder dos EUA e da guerra híbrida.</p>
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<div id="attachment_20238" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-20238" class="size-full wp-image-20238 img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/06/Caracas-Pte-Llaguno-6.jpg" alt="Chávez lives. Puente Llaguno, Caracas. 2015. Comando Creativo" width="950" height="713" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/06/Caracas-Pte-Llaguno-6.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/06/Caracas-Pte-Llaguno-6-300x225.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/06/Caracas-Pte-Llaguno-6-768x576.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-20238" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #403b99;">Chávez vive. Puento Llaguno, Caracas, 2015.</span> <br><strong><span style="color: #403b99;">Comando Creativo</span></strong></small></p></div>
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<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #403b99;"><strong>Sobre as fotos</strong></span></h3>
<p><span class="caption" style="color: #403b99;">O Comando Creativo [Comando Criativo] é um coletivo que agrupa trabalhadores/as do campo da comunicação visual, especialistas e pesquisadores das ciências sociais, e pessoas que entre muitos ofícios se reconhecem como sujeitos produtores de sentidos, relatos e símbolos. Desde 2007, o Comando Criativo tem apostado na produção de uma comunicação popular e contra hegemônica. Atualmente o coletivo é responsável pela plataforma <a href="https://utopix.cc/author/comando-creativo/">utopix.cc</a></span></p>
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		<title>Frantz Fanon: o brilho do metal</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-26-fanon/</link>
		
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		<pubDate>Mon, 02 Mar 2020 07:06:01 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Dossiê no. 26 Nesta terra há aquilo que merece vida Mahmoud Darwish &#160; Frantz Fanon nasceu na ilha caribenha Martinica em 25 de julho de 1925. Morreu nos Estados Unidos, de leucemia, em 6 de dezembro de 1961. Tinha 36 anos. Em sua curta vida, já havia sido protagonista de duas guerras, militado no Caribe, [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><a href="https://www.thetricontinental.org/pt-pt/dossie/"><strong>Dossiê no. 26</strong></a></p>
<div id="attachment_15881" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-15881" class="size-full wp-image-15881 img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/00_Frantz-Fanon-sur-une-passerelle-dembarquement-de-bateau-avec-derrie%CC%80re-lui-Rheda-Malek-journaliste-dEl-Moudjahid-1.jpg" alt="Frantz Fanon walking up a ship gangway." width="950" height="669" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/00_Frantz-Fanon-sur-une-passerelle-dembarquement-de-bateau-avec-derrière-lui-Rheda-Malek-journaliste-dEl-Moudjahid-1.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/00_Frantz-Fanon-sur-une-passerelle-dembarquement-de-bateau-avec-derrière-lui-Rheda-Malek-journaliste-dEl-Moudjahid-1-300x211.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/00_Frantz-Fanon-sur-une-passerelle-dembarquement-de-bateau-avec-derrière-lui-Rheda-Malek-journaliste-dEl-Moudjahid-1-768x541.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-15881" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><strong><span style="color: #ba2025;">Frantz Fanon subindo uma passarela de navio. À direita de Fanon está Rheda Malek, jornalista do jornal da Frente de Libertação Nacional da Argélia, El Moudjahid.</span></strong><br><span style="color: #ba2025;">Arquivos Frantz Fanon/IMEC</span></small></p></div>
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<div id="attachment_15715" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-15715" class="size-full wp-image-15715 img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/01_1742_Covens_and_Mortier_Map_of_Martinique_-_Geographicus_-_Martinique-covensmortier-1742.jpg" alt="French colonial map of Martinique" width="950" height="749" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/01_1742_Covens_and_Mortier_Map_of_Martinique_-_Geographicus_-_Martinique-covensmortier-1742.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/01_1742_Covens_and_Mortier_Map_of_Martinique_-_Geographicus_-_Martinique-covensmortier-1742-300x237.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/01_1742_Covens_and_Mortier_Map_of_Martinique_-_Geographicus_-_Martinique-covensmortier-1742-768x606.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-15715" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #ba2025;">Mapa da colonização francesa na Martinica do Novo Atlas Covens &amp; Mortier, 1942. <br>Wikimedia Commons / Geographicus Rare Antique Maps</span></small></p></div>
<blockquote><p><i>Nesta terra há aquilo que merece vida</i></p>
<p style="padding-left: 40px;">Mahmoud Darwish</p>
</blockquote>
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<p>Frantz Fanon nasceu na ilha caribenha Martinica em 25 de julho de 1925. Morreu nos Estados Unidos, de leucemia, em 6 de dezembro de 1961. Tinha 36 anos. Em sua curta vida, já havia sido protagonista de duas guerras, militado no Caribe, na Europa e no norte da África; foi dramaturgo, psiquiatra praticante, autor de vários artigos em revistas científicas, professor, diplomata, jornalista, editor de um jornal anticolonial, autor de três livros e um dos principais pan-africanistas e internacionalistas.</p>
<p>Como a trajetória de Ernesto “Che” Guevara – outro revolucionário que valorizava a poética e era um comprometido internacionalista, médico, militante, professor e teórico –, a vida de Fanon foi marcada por um movimento permanente, corajoso e militante no presente e na especificidade das situações em que se encontrava.</p>
<p>O pensamento de Fanon carrega, como Ato Sekyi-Otu definiu, uma “abertura irreprimível (…) ao universal”. No âmbito político, como no poético, o caminho mais verdadeiro para o universal sempre foi o intenso envolvimento com o particular em suas manifestações concretas no espaço e no tempo: um pedaço de terra ocupado nos interstícios dessa cidade, mulheres reconstruindo sobre as ruínas do último ataque, o plástico queimando no braseiro à medida que a noite passa, homens armados que saem das sombras.</p>
<p>Alain Badiou escreve que a coragem é uma virtude local. “Ela emerge de uma moralidade do lugar”, completa. É esse o terreno no qual os pensadores radicais – que produzem uma obra que sustenta uma capacidade de iluminação e inspiração através do espaço e do tempo – fundamentam seu intelecto. Pode ser um terreno perigoso. Nas próprias palavras de Fanon escritas na França, em 1952, o preço da possibilidade de que “duas ou três verdades lancem seu brilho eterno sobre o mundo” pode correr o risco da “aniquilação”.</p>
<p>Para o intelectual radical, o confronto com o particular às vezes pode exigir trabalho solitário, como em algumas formas de escrita na prisão. Mas o principal fundamento da razão militante é, nas palavras de Karl Marx, “participação na política e, portanto, em lutas reais”. E a emancipação – comunismo, nas palavras de Marx – é “o movimento real que abole o estado atual das coisas”, e não “um ideal ao qual a realidade [terá] que se ajustar”.</p>
<p>Para Marx, o mundo só será moldado pelas ideias mais valiosas dos esforços filosóficos quando a própria filosofia se tornar mundana por meio da participação na luta. Cedric Robinson fala sobre esse imperativo quando escreve que, para “cimentar a dor ao propósito, experimentação à expectativa, consciência à ação coletiva”, é necessário garantir que “a prática da teoria seja informada pela luta”.</p>
<p>Para Fanon, o desenvolvimento da razão radical – ou seja, da razão emancipatória – certamente inclui conversas com a filosofia tal como é definida por Paulin Hountondji: “não um sistema, mas uma história”. Mas o plano de transformação no qual esse trabalho se constitui é, não muito diferente da filosofia da práxis de Antônio Gramsci, o da luta – as lutas dos condenados da terra. Fanon é, nos termos de Gramsci, um filósofo democrático. “Este filósofo não é mais definido em termos de separação da ‘vida do povo’, mas como um elemento expressivo dessa vida que ele pretende cultivar, aumentando sua capacidade de relações ativas de conhecimento e prática”, escreve Peter Thomas.</p>
<p>Desde a morte de Fanon, no final de 1961, seu pensamento teve uma vida extraordinária, alcançando desde o turbilhão da revolução argelina até as prisões estadunidenses, passando pelas <i>banlieues</i> francesas e pelas favelas brasileiras e além. Às vezes expressa através de um poeticismo potente e sempre enraizada em um humanismo radical – afirmação imediata, universal e militante da igualdade e do valor da vida humana –, sua visão política se opõe resolutamente à lógica maniqueísta do colonialismo. O maniqueísmo é um conceito central no pensamento de Fanon. O termo nos chega de uma religião fundada por Mani, conhecida por seus seguidores como “Apóstolo da Luz”, na Babilônia, no terceiro século. Mani teceu um conjunto de religiões diversas em uma única nova fé que propunha um dualismo absoluto entre o bem e o mal representado, em termos simbólicos, pela luz e pela escuridão. Trazido ao discurso contemporâneo como metáfora, o maniqueísmo fala de uma divisão absoluta entre o bom (verdadeiro, bonito, limpo, saudável, próspero etc.) e o sombrio e o mau (falso, feio, sujo, doente, empobrecido etc.). É uma perspectiva inerentemente paranoide em relação ao mundo.</p>
<p>O pensamento de Fanon é marcado por um compromisso axiomático com um igualitarismo imediato e radical – incluindo o reconhecimento de uma capacidade universal da razão. É moldado, em sua estrutura profunda, por um sentido profundamente dialético da capacidade do ser humano de estar em movimento. Seu pensamento, tomado como um todo, não hesitou naquilo que Aimé Césaire, o extraordinário poeta surrealista, descreveu como a obrigação de “ver claramente, pensar claramente – isto é, perigosamente”.</p>
<p>Fanon insiste que a libertação deve restaurar a “dignidade de todos os cidadãos, encher suas mentes e banquetear seus olhos com coisas humanas e criar uma perspectiva que é humana, pois pessoas conscientes e soberanas a habitam”. Para Fanon, a restauração da dignidade não é uma questão de retorno. A jornada rumo ao que, no último ano de sua vida, em uma carta escrita ao intelectual iraniano Ali Shariati, ele chamou de “aquele destino onde a humanidade vive bem” é empreendida por meio de um processo constante de transformação e ampliação da esfera da razão democrática. Como observa Lewis Gordon, para Fanon, a legitimidade não é uma questão de oferecer prova de autenticidade racial ou cultural; em vez disso, surge “do engajamento ativo nas lutas pela transformação social e na construção de instituições e ideias que nutrem e libertam aqueles anteriormente colonizados”.</p>
<p>Para o intelectual formado na universidade, Fanon apresenta uma exigência simples, mas que mantém sua carga radical quase 60 anos depois: ir além da ordem ontológica e espacial da opressão e se comprometer com uma forma de práxis insurgente e democrática na qual “uma corrente mútua de iluminação e enriquecimento” é desenvolvida entre protagonistas de diferentes locais sociais.</p>
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<div id="attachment_15724" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-15724" class="size-full wp-image-15724 img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/02_Frantz-Fanon-lors-dune-confe%CC%81rence-de-presse-du-Congre%CC%80s-des-e%CC%81crivains-a%CC%80-Tunis-1959.jpg" alt="Frantz Fanon at a press conference of writers in Tunis" width="950" height="659" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/02_Frantz-Fanon-lors-dune-conférence-de-presse-du-Congrès-des-écrivains-à-Tunis-1959.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/02_Frantz-Fanon-lors-dune-conférence-de-presse-du-Congrès-des-écrivains-à-Tunis-1959-300x208.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/02_Frantz-Fanon-lors-dune-conférence-de-presse-du-Congrès-des-écrivains-à-Tunis-1959-768x533.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-15724" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #ba2025;"><strong>Frantz Fanon em uma conferência de imprensa de escritores na Tunísia, em 1959.</strong><br>Arquivos Frantz Fanon/IMEC</span></small></p></div>
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<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #ba2025;">(Más) leituras</span></h2>
<p>O último livro de Fanon, <i>Os condenados da terra</i>, chegou ao mundo logo depois do autor nos deixar. Em 1963, foi traduzido incorretamente para o inglês como <i>The Wretched of the Earth</i>. Alguns estudiosos preferem se referir a ele como <i>The Damned of the earth</i>, que é uma tradução melhor. Desde o início, Jean-Paul Sartre, um intelectual anticolonial comprometido, afastou muitos leitores com uma introdução que – embora compreensiva – interpretou mal Fanon como um pensador maniqueísta. Em 1970, Hannah Arendt, uma pensadora que adquiriu posição significativa na academia estadunidense, apesar de assumir posições consistentemente antinegras, agravou o problema com uma influente leitura errônea que reduziu o pensamento complexo de Fanon ao seu apoio à luta armada contra o colonialismo.</p>
<p>No entanto, há um conjunto de intelectuais que leram Fanon como um pensador sofisticado, e não como um arquétipo racial. Paulo Freire foi um dos primeiros grandes intelectuais a entender a teoria da práxis de Fanon. Em 1968, Freire estava terminando o manuscrito de seu segundo livro, <i>Pedagogia do oprimido</i>, em Santiago do Chile, exilado pela ditadura militar do Brasil. Em uma entrevista na Califórnia, em 1987, ele lembrou: “um jovem que estava em Santiago em uma tarefa política me deu o livro <i>Os condenados da terra</i>. Eu estava escrevendo <i>Pedagogia do oprimido</i>, e estava quase terminando quando li Fanon. Tive que reescrever o livro”.</p>
<p>Depois de ler Fanon, Freire desenvolveu um humanismo radical comprometido com o reconhecimento imediato da personalidade plena e igual dos oprimidos como pré-condição para a ação emancipatória. Como Fanon, sua práxis se baseia em uma ética de reciprocidade entre o intelectual autorizado e as pessoas que não tiveram acesso a muita educação formal.</p>
<p><i>Pedagogia do oprimido</i> foi publicado no final daquele ano e, em 1972, foi adotado pela Organização dos Estudantes da África do Sul (SASO, sigla em inglês), formada por Steve Biko, Barney Pityana, Rubin Phillip e outros, em 1968. A começar por Durban, as ideias freireanas tornaram-se centrais para uma forma de ação radicalmente democrática que visava trabalhar em direção à consciência crítica como um projeto compartilhado, em vez de anunciar novas versões do que Marx havia chamado de “abstração dogmática” para o povo.</p>
<p>No final dos anos 1970 e 1980, as ideias freireanas sobre a práxis – moldadas em grande parte por Fanon e, em muitos casos, lidas em conjunto com Fanon – foram essenciais para o trabalho político realizado nos locais de trabalho e nas lutas comunitárias pela África do Sul. A teoria da práxis de Freire permitiu o surgimento de algumas das forças sociais mais impressionantes e poderosas do planeta na época, nas quais as pessoas comuns se tornaram protagonistas centrais da luta e na criação de significados, de contrapoder e da história vista pelos de baixo.</p>
<p>Em relação a ler Fanon como um teórico da práxis, a resposta rápida, mas extraordinária e duradoura de Sylvia Wynter aos distúrbios de 1992 em Los Angeles foi exemplar. Em sua conclusão explicitamente fanoniana de <i>No humans involved: a letter to my colleagues </i>[<i>Nenhum humano envolvido: uma carta a meus colegas, </i>tradução livre], ela foi além de Los Angeles e em direção “às vidas descartáveis (…) da grande maioria dos povos que habitam ‘as favelas/os bairros de lata’ do mundo e seus arquipélagos sem trabalho”. Wynter argumentou que, para intelectuais formados na universidade – que ela entende como “gramáticos” da ordem constituída, uma ordem que não conta a todos como igualmente humanos –, é imperativo “casar nosso pensamento” com o dos oprimidos.</p>
<p>Em 1996, Sekyi-Otu produziu uma leitura brilhante e profundamente dialética de Fanon, centrada na África, que situava a questão da práxis e – crucialmente – o que Sekyi-Otu chama de “o alívio da razão pródiga” na base do que Fanon se referia como “o cansativo caminho até o conhecimento racional”. Estudiosos como Nigel Gibson, Lewis Gordon e Tracy Sharpley-Whiting também contribuíram significativamente para os estudos de Fanon.</p>
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<div id="attachment_15733" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-15733" class="wp-image-15733 size-full img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/03_PHOTO-2020-02-11-19-36-46-2.jpg" alt="Meeting of Abahlali baseMjondolo, South Africa" width="950" height="633" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/03_PHOTO-2020-02-11-19-36-46-2.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/03_PHOTO-2020-02-11-19-36-46-2-300x200.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/03_PHOTO-2020-02-11-19-36-46-2-768x512.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-15733" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #ba2025;"><strong>Encontro do Abahlali baseMjondolo, movimento de moradores de favelas da África do Sul, em fevereiro de 2020. </strong> <br>Rajesh Jantilal</span></small></p></div>
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<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #ba2025;"><b>Humanismo radical</b></span></h2>
<p>Na África do Sul contemporânea, Fanon é lido e discutido tanto em oficinas de educação política organizadas em uma ocupação urbana duramente conquistada como em uma escola política sindical, e também na academia, tanto em seus espaços mais dissidentes como nos de maior proeminência. A vida e o trabalho de Fanon oferecem inspiração e acuidade analítica a todos esses públicos. Achille Mbembe, escrevendo em Johanesburgo, explica que:</p>
<p style="padding-left: 40px;">Eu próprio fui atraído pelo nome e voz de Fanon porque ambos têm o brilho do metal. O pensamento dele é metamórfico, animado por uma vontade indestrutível de viver. O que dá a esse pensamento metálico sua força e poder é o ar de indestrutibilidade e, seu corolário, a injunção para se levantar. É o silo inesgotável da humanidade que abriga e que, ontem, deu força aos colonizados e que, hoje, nos permite olhar para o futuro.</p>
<p>Existem inúmeras conexões que abrem possibilidades frutíferas de diálogo entre o trabalho de Fanon e as formas contemporâneas de luta. Elas vão desde seu relato da centralidade da racialização do espaço e da espacialização da raça no projeto dos colonizadores até questões de linguagem, policiamento, inconsciente racial e – é claro – as realidades brutais do que passou a ser denominado a pós-colônia.</p>
<p>Na academia, o humanismo de Fanon é, com notáveis ​​exceções – como o valioso trabalho de Paul Gilroy –, frequentemente ignorado ou tratado como ultrapassado, ou mesmo pré–crítico. A condescendência sarcástica de pessoas cuja humanidade nunca foi posta em questão não é incomum. Mas na África do Sul contemporânea, é a questão do ser humano – de como se mede o ser humano e como a humanidade é afirmada – que liga o trabalho teórico de Fanon mais estreitamente ao trabalho intelectual realizado nas muitas vezes perigosas lutas por terra e dignidade. Aqui, dignidade é entendida como o reconhecimento de uma humanidade plena e igualitária, incluindo o direito de participar na decisão de assuntos públicos. Esse tipo de luta – frequentemente empreendida contra uma considerável violência do Estado e do partido no poder e contra o desprezo da sociedade civil – está fundamentalmente enraizada em um humanismo insurgente que legitima e sustenta a resistência. O importante trabalho de Nigel Gibson sobre Fanon e a África do Sul traz uma sólida compreensão disso.</p>
<p>A potência política contemporânea do humanismo radical não é exclusiva da África do Sul. De Caracas a La Paz, passando por Porto Príncipe, relatos de políticas populares e potencialmente emancipatórias frequentemente enfatizam o bairro, ou o território, como um importante local de luta, o bloqueio de estradas e a ocupação como táticas importantes, e a afirmação da humanidade dos oprimidos como o fundamento da força para sustentar a resistência. Essa afirmação é muitas vezes explicada como sendo sustentada por práticas sociais nas quais as mulheres desempenham um papel de liderança, e frequentemente mencionadas em termos de recuperação da dignidade. Não é incomum ouvir as pessoas falarem da falta de dignidade como consequência da expropriação do direito de participar na tomada de decisões em assuntos públicos, bem como terra, trabalho e autonomia sobre os corpos.</p>
<p>A questão do humano é, em parte, uma questão de como a opressão procura distribuir a atribuição da capacidade de raciocinar e reconhecer um discurso como tal enquanto descarta outros discursos, considerados como mero ruído – ruído que é um produto da irracionalidade. É uma questão de como determinamos quem tem honra e quem não, quem pode ser caluniado impunemente e quem merece respeito público, qual vida é valorizada e qual não, quais vidas devem ser regidas pela lei e quais devem ser rotineiramente governadas com violência, quais mortes devem ser lamentadas e quais não. A negação da humanidade plena e igualitária permite à opressão estabelecer os limites entre as formas de organização e contestação que podem ser vistas como política e aquelas que não, entre o que é a sociedade civil e o que é um setor engajado considerado irracional, criminoso e conspirativo.</p>
<p>O humanismo radical de Fanon, um humanismo feito – na famosa frase de Césaire – “à medida do mundo”, sustenta uma capacidade de falar com poder real a muitas das maneiras pelas quais a questão do humano é colocada e contestada dentro de formas contemporâneas de militância popular empreendidas a partir de zonas de exclusão e dominação social.</p>
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<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #ba2025;">A porta aberta de toda consciência</span></h2>
<p>Antes de vir para a França no final de 1946, para estudar Medicina e depois se especializar em psiquiatria, Fanon havia sido um soldado das <i>Forces françaises libres </i>[Forças Francesas Livres], onde lutou contra o fascismo na Europa, enfrentando simultaneamente o racismo constante dentro do exército francês. Em 1944, ele foi ferido na batalha de Colmar, uma cidade francesa perto da fronteira alemã, e recebeu a <i>Croix de Guerre </i>[Cruz da Guerra] por bravura. Em 1945, ele voltou para casa na Martinica, onde trabalhou para a bem-sucedida campanha de Césaire para ser eleito prefeito de Fort de France com base em uma plataforma comunista.</p>
<p>Desde o início, os escritos de Fanon na França mostravam preocupação pela forma como o racismo produz o que Michel-Rolph Trouillot chamaria mais tarde de “uma ontologia, uma organização implícita do mundo e de seus habitantes”. Em <i>Le syndrome nord-africain </i>[A síndrome norte-africana, tradução livre], um ensaio publicado aos 26 anos de idade, Fanon examinou como a ciência médica francesa abordou o migrante norte-africano com “uma postura <i>a priori</i>” que, crucialmente, não era derivada “experimentalmente”, mas sim com “base em uma tradição oral”. Ele observou que: “O norte-africano não vem com um substrato comum à sua raça, mas com uma base construída pelos europeus. Em outras palavras, o norte-africano, espontaneamente, pelo simples fato de aparecer em cena, entra em uma estrutura preexistente”. Nesse contexto, o norte da África aparece para o médico francês como “um simulador, um mentiroso, um falsificador, um preguiçoso, um ladrão”.</p>
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<div id="attachment_15742" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-15742" class="size-full wp-image-15742 img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/04_S-BIKO.jpg" alt="Stephen Biko (standing) at the 1971 conference of the South African Students' Organisation " width="950" height="573" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/04_S-BIKO.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/04_S-BIKO-300x181.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/04_S-BIKO-768x463.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-15742" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #ba2025;"><strong>Stephen Biko (em pé) na conferência de 1971 da Organização de Estudantes Sul-africanos (Saso, sigla em inglês). O Alan Taylor Residence Hall, lugar onde o evento ocorreu, era a única residência para estudantes de medicina negros na Universidade de Natal, sob o apartheid.   </strong><br>Steve Biko Foundation</span></small></p></div>
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<p>Fanon mostra que, na consciência do racista, e no intelecto geral das formações sociais racistas, a imaginada divisão ontológica da qual a ideologia racista depende é parte do que Immanuel Kant chamou de <i>a priori</i> – as categorias pelas quais o sentido é feito da experiência. Esse engano da razão – o que Gordon chama de “racionalidade racista” – resulta em sociedades racistas que produzem formas de conhecimento que, embora autorizadas como as instâncias mais completas da razão em funcionamento, são fundamentalmente irracionais.</p>
<p>O primeiro livro de Fanon, <i>Pele negra, máscaras brancas,</i> foi publicado no verão francês de 1952, alguns meses após <i>A síndrome do Norte da África</i> e no mesmo ano de <i>Invisible Man </i>[O homem invisível, tradução livre], de Richard Wright, com o qual muitas vezes é lido em conjunto. Analisado de forma soberba por Gordon, a obra é ao mesmo tempo uma declaração de um compromisso radical e afirmativo com a liberdade humana e uma crítica brilhante do racismo no Caribe e na metrópole que envolve questões que variam da linguagem à cultura popular, do romance ao sexo, da antropologia à psicologia. Continua sendo um texto fundamental para estudos críticos sobre raça.</p>
<p><i>Pele negra, máscaras brancas</i> foi ditado a Josie Dublé, companheira com quem Fanon se casaria mais tarde, enquanto perambulava de um lado para o outro em seu quarto de estudante em Lyon. A prosa carrega a cadência desse movimento e é esculpida por um poetismo convincente com influências discerníveis da leitura de poetas como Aimé Césaire e Jacques Roumain. Partes do livro eram lidas, não muito diferentes de algumas passagens de Walt Whitman, como se para declamar.</p>
<p>Toda política repousa, conscientemente ou não, em uma ontologia, em uma teoria do ser humano. Para Fanon, existem dois fatos importantes sobre o ser humano, ambos mediados por uma disposição afirmativa. O primeiro é que o ser humano “é um movimento em direção ao mundo”. Na tradição da filosofia francesa que vai de Sartre a Badiou, a perspectiva do que Fanon chamou de “mutação” da consciência – a capacidade do ser humano de mudar – continuaria sendo um tema central de seu pensamento até o fim. Em seu trabalho produzido durante sua imersão na revolução argelina, a mutação da consciência seria explorada no contexto da luta coletiva.</p>
<p>Para Fanon, a consciência não é apenas dinâmica. O segundo fato importante sobre o ser humano é que a consciência é livre da mesma maneira que no existencialismo de Sartre. Para Fanon: “No mundo em que me encaminho, eu me recrio continuamente. Sou solidário do Ser na medida em que o ultrapasso”. Mas Fanon não compartilha do pessimismo da visão de Sartre de que o humano é “uma paixão inútil”. O humanismo de Fanon carrega um otimismo fundamental que pode ser discutivelmente localizado em uma tradição do humanismo do Caribe com antecedentes e paralelos africanos que vão de Toussaint Louverture a Aimé Césaire, Sylvia Wynter e Jean-Bertrand Aristide. Ele começa e termina seu primeiro livro insistindo que “o homem é um sim”.</p>
<p>O humanismo dele também carrega uma dimensão universal: “O antissemitismo me atinge em plena carne, eu me emociono, esta contestação aterrorizante me debilita, negam-me a possibilidade de ser homem”. Fanon afirma que “Todas as vezes em que um homem fizer triunfar a dignidade do espírito, todas as vezes em que um homem disser não a qualquer tentativa de opressão do seu semelhante, sinto-me solidário com seu ato”. É claro que o uso da palavra “homem” é lamentável para um intelectual que insistiu em que “[nós] devemos nos proteger contra o perigo de perpetuar a tradição feudal que mantém sagrada a superioridade do elemento masculino sobre o feminino”.</p>
<p>Para Fanon, o imperativo de reconhecer toda consciência como autônoma e possuidora da capacidade de raciocinar e exercitar a liberdade é ético e empírico. Ele conclui seu primeiro livro, <i>Pele negra, máscaras brancas</i>, insistindo que “ao fim deste trabalho, gostaria que as pessoas sintam, como eu, a dimensão aberta da consciência”. O compromisso de Fanon no reconhecimento de toda consciência como uma porta aberta é um princípio universal, um axioma militante, totalmente oposto à concepção aristocrática da filosofia que, de Platão a Nietzsche e seus descendentes contemporâneos, reserva a razão a uma casta privilegiada. No início do livro, ele escreve como clínico e de acordo com a teoria da práxis que mais tarde seria elaborada no vórtice da guerra na Argélia:</p>
<p style="padding-left: 40px;">Diante de uma velha camponesa de setenta e três anos, doente mental, em franco processo demencial, sinto, de repente, desmoronarem as antenas com as quais toco e pelas quais sou tocado. O fato de adotar uma linguagem apropriada à demência, à debilidade mental, o fato de me dedicar a essa pobre velha de setenta e três anos, o fato de ir ao seu encontro à procura de um diagnóstico, é o estigma de um afrouxamento da minha conduta nas relações humanas.</p>
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<div id="attachment_15751" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-15751" class="size-full wp-image-15751 img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/05_UDF-meeting-courtesy-Wits-Historical-Papers.jpg" alt="Meeting of the United Democratic Front (UDF)" width="950" height="646" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/05_UDF-meeting-courtesy-Wits-Historical-Papers.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/05_UDF-meeting-courtesy-Wits-Historical-Papers-300x204.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/05_UDF-meeting-courtesy-Wits-Historical-Papers-768x522.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-15751" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #ba2025;"><strong>Encontro da Frente Democrática Unida, organização anti-apartheid criada em 1883 e que se uniu às lutas de diversas organizações sul-africanas. </strong><br>Wits Historical Papers</span></small></p></div>
<h2 style="margin:3em 0;"></h2>
<hr>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #ba2025;">Delírio maniqueísta</span></h2>
<p><i>Pele negra, máscaras brancas</i> também é uma teoria de como o racismo “envolve” o ser humano. Fanon descreve o desejo “de ter chegado puro e jovem em um mundo nosso, ajudando a edificá-lo conjuntamente”, mas se vê “Enclausurado nesta objetividade esmagadora”. Ele oferece uma teoria da ideologia racista como uma forma de “delírio maniqueísta”, na qual, na imaginação racista que estrutura tudo, desde publicidade ao entretenimento, ciência e inconsciente, a brancura está associada à beleza, razão, virtude, limpeza e assim por diante. E escuridão com o anverso. Na medida em que o progresso é possível dentro da lógica desse esquema, “do negro ao branco, tal é a linha de mutação. Ser branco é como ser rico, como ser bonito, como ser inteligente”.</p>
<p>Fanon descreve o inevitável fracasso das tentativas de encontrar uma maneira de obter o reconhecimento necessário para viver livremente contra o peso esmagador do racismo: “Toda mão era uma mão perdida para mim”. Uma dessas mãos perdidas era a razão. O fanatismo com o qual a razão era codificada como branca na imaginação racista era tal que era impossível ser reconhecida como simultaneamente razoável e negra: “[Quando] eu estava presente, não estava; quando estava lá, não estava mais”. O resultado final é o colapso: “Ontem, abrindo os olhos ao mundo, vi o céu se contorcer de lado a lado. Quis me levantar, mas um silêncio sem vísceras atirou sobre mim suas asas paralisadas. Irresponsável, a cavalo entre o Nada e o Infinito, comecei a chorar”.</p>
<p>Fanon conclui que não pode haver solução pessoal para o problema do racismo. O que é necessário é “uma reestruturação do mundo”. Ele encerra <i>Pele negra, máscaras brancas</i> afirmando que “conduzir o homem a ser acional, mantendo na sua esfera de influência o respeito aos valores fundamentais que fazem um mundo humano, tal é a primeira urgência daquele que, após ter refletido, se prepara para agir”. Esse é um compromisso com a práxis, um termo que aparece consistentemente nas publicações francesas originais do trabalho que ele produziria em Túnis, mas que é amplamente omitido nas traduções para o inglês.</p>
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<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #ba2025;">Mutações radicais</span></h2>
<p>Após concluir seus estudos na França, Fanon assumiu a posição de chefe do Hospital Psiquiátrico Blida-Joinville, na Argélia, uma instituição colonial na qual implementou reformas radicais. Alice Cherki, estagiária do hospital e, mais tarde, a biógrafa mais sensível de Fanon, lembra que seu objetivo como clínico era “não amordaçar a loucura, mas ouvi-la”.</p>
<p>Em 1956, descrevendo a sociedade colonial como “uma rede de mentiras, covardia, e desprezo pelo homem”, ele renunciou ao cargo no hospital para se juntar à revolução contra o colonialismo francês de uma base em Tunis. Ele trabalhava para a revolução como psiquiatra, jornalista, editor e diplomata, realizava trabalhos de reconhecimento e ensinava filosofia – incluindo a <i>Crítica da razão dialética</i>, de Jean-Paul Sartre – a soldados no fronte. Em seus anos como revolucionário, ele encontrava pessoas como Simone de Beauvoir, Cheikh Anta Diop, Patrice Lumumba, Es’kia Mphahlele, Kwame Nkrumah e Jean-Paul Sartre.</p>
<p>Em dezembro de 1957, Abane Ramdane, camarada mais próximo de Fanon no movimento de libertação nacional da Argélia, foi assassinado por uma facção de direita dentro do movimento que pretendia subordinar o trabalho político à autoridade militar. O nome de Fanon foi colocado em uma lista de pessoas a serem observadas e sujeitas a um destino semelhante, caso houvesse disputa aberta dentro do movimento em resposta ao assassinato. A partir daí, Fanon viveu sabendo que havia um potencial de risco significativo dos nacionalistas autoritários no movimento e uma luta vital dentro da luta.</p>
<p>O segundo livro de Fanon, <i>L’An V de la Révolution Algérienne </i>[O ano V da revolução argelina, tradução livre], foi publicado em 1959 e traduzido para o inglês em 1965, ficando conhecido como <i>A dying colonialism</i> [Um colonialismo moribundo, tradução livre] desde 1967. O livro é, explica Fanon, um relato de como a participação na luta “para impor a razão à (…) irracionalidade [colonial]”, para se opor à “indignidade, mantida viva e nutrida todas as manhãs”, resulta no que ele chama de “mutações essenciais na consciência dos colonizados”.</p>
<p>É, como Cherki observa, muito deliberadamente um livro sobre “homens e mulheres comuns” – mulheres e homens em uma sociedade em movimento, em vez de personalidades e ações de elites revolucionárias. Em contraste com as formas elitistas de anticolonialismo que visam direcionar “as massas” de cima, o imperativo de reconhecer a “porta aberta de toda consciência” é estendido às pessoas comuns.</p>
<p>Fanon deixa clara sua posição desde o início: “O poder da revolução argelina (…) reside na mutação radical pela qual o argelino sofreu”. No contexto da luta revolucionária, a mutação escapou do domínio da ideologia racista – que só pode entender o progresso como movimento do negro para o branco – e agora é um processo autônomo e autodirigido.</p>
<p>O livro oferece cinco estudos de caso do tipo de “mutação radical” – ou mudança de consciência – que pode ocorrer no turbilhão da luta, do movimento coletivo. Em cada caso, Fanon oferece um relato de como o maniqueísmo introduzido pelo colonialismo se desintegra na luta. O livro examina como as tecnologias introduzidas por meio do colonialismo e inicialmente identificadas como intrinsecamente coloniais – ou seja, o rádio e a medicina biomédica – são abordadas na luta, como as relações de gênero mudam na luta e, no capítulo final, como algumas minorias europeias optam por oferecer apoio à revolução anticolonial.</p>
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<div id="attachment_15760" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-15760" class="size-full wp-image-15760 img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/06_Frantz-Fanon-et-son-e%CC%81quipe.jpg" alt="Frantz Fanon and his medical team at the Blida-Joinville Psychiatric Hospital" width="950" height="663" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/06_Frantz-Fanon-et-son-équipe.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/06_Frantz-Fanon-et-son-équipe-300x209.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/06_Frantz-Fanon-et-son-équipe-768x536.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-15760" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #ba2025;"><strong>Frantz Fanon e sua equipe médica no Hospital Psiquiátrico Blida-Joinville, na Argélia, onde trabalhou de 1953 a 1956.</strong> <br>Arquivos Frantz Fanon/IMEC</span></small></p></div>
<p> </p>
<p>Talvez não seja surpreendente, dado o contexto de tudo ou nada da guerra na Argélia, que os estudos de caso de Fanon sobre o desenvolvimento de solidariedades políticas radicais entre classe, gênero e raça teçam um movimento unidirecional de iluminação progressista. Assim, o médico – antes visto como um agente do colonialismo – e que agora dorme “no chão com homens e mulheres dos <i>mechtas</i>, vivendo o drama do povo” – torna-se então “nosso médico”.</p>
<p>As normas de gênero também são mostradas para mudar na luta. Fanon descreve a mulher argelina, “que assumiu um lugar cada vez mais importante na ação revolucionária”, “rompendo os limites do mundo estreito em que viveu (…) [e] participando ao mesmo tempo da destruição do colonialismo e do nascimento de uma nova mulher”. Esse aspecto do trabalho de Fanon e seu envolvimento mais amplo com o gênero é muito bem analisado por Sharpley-Whiting, que conclui, em uma rigorosa análise feminista, que é evidente que “Fanon reconheceu o direito da mulher argelina de existir como uma pessoa autônoma e um ser social completo”.</p>
<p>Qualquer pessoa que tenha participado de uma luta popular regular reconhecerá imediatamente o valor e a validade do relato de Fanon sobre as “mutações radicais” que podem mudar de maneira dramática e frequentemente rápida as capacidades e o pensamento das pessoas. No entanto, em <i>Um colonialismo moribundo</i>, não há sentido de luta dentro da luta, nem há sentido de que o progresso dialético possa ser revertido, o que muitas vezes ocorre quando as lutas desaparecem.</p>
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<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #ba2025;">Um vermelho muito duro</span></h2>
<p>Em junho de 1959, Fanon sofreu ferimentos graves quando um jipe em que viajava foi atingido pela explosão de uma mina perto da fronteira entre Tunísia e Argélia. Ele foi enviado a Roma para tratamento médico, onde escapou por pouco de ser assassinado, provavelmente nas mãos de uma violenta organização de colonos ligada ao Estado francês.</p>
<p>Em março de 1960, Fanon foi enviado a Accra para se tornar um embaixador itinerante do Governo Provisório do movimento de libertação nacional da Argélia, a Frente de Libertação Nacional (FLN). Seus encontros com Estados recém-independentes eram frequentemente desanimadores. Em novembro de 1960, ele fazia parte de uma equipe encarregada de uma missão de reconhecimento destinada a abrir uma frente no sul, na fronteira com o Mali, com linhas de suprimentos que partiam de Bamako através do Saara. No último minuto, suspeitando de uma armadilha, abandonaram o plano de viajar de avião e dirigiram os dois mil quilômetros de Monróvia a Bamako. O avião no qual eles estavam programados para viajar foi desviado para Abidjan, onde foi revistado pelos militares franceses.</p>
<p>Em seu diário de bordo, Fanon registrou sua preocupação com os limites das formas políticas que fracassaram em ir além do maniqueísmo introduzido pelo colonialismo e desenvolver ideias e práticas emancipatórias: “o colonialismo e seus derivados não constituem, de fato, os atuais inimigos da África. Em pouco tempo, este continente será libertado. Da minha parte, quanto mais fundo eu entro nas culturas e nos círculos políticos, mais seguro estou que o grande perigo que ameaça a África é a ausência de ideologia”.</p>
<p>Movido pelas amplas vistas do deserto, e voltando ao poeticismo de seus primeiros trabalhos, Fanon escreveu que: “há alguns dias vimos um pôr do sol que transformou o manto do céu em violeta brilhante. Hoje o olho encontra um vermelho muito duro”. Embora a viagem pelo deserto o tenha deixado visivelmente exausto, ele foi imediatamente a Accra para escrever uma contribuição para uma publicação em inglês pelo governo provisório da Argélia. Um exame realizado por um médico em Accra levantou a possibilidade de leucemia. Ele voltou a Túnis, fez um exame de sangue e confirmou o diagnóstico. Naquela noite, anunciou sua decisão de escrever um novo livro. Depois de receber tratamento em uma clínica nos arredores de Moscou, teve uma breve janela de oportunidade para escrever enquanto o câncer entrava em remissão.</p>
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<div id="attachment_15769" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-15769" class="size-full wp-image-15769 img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/07_Image-FNN178_3_0_0007.tif-Cote-178FNN_3_0-Titre-du-dossier-Photographies-Frantz-Fanon-co%CC%81pia.jpg" alt="After Frantz Fanon died in 1961, his body was carried across the border from Tunisia to be buried in Algeria." width="950" height="670" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/07_Image-FNN178_3_0_0007.tif-Cote-178FNN_3_0-Titre-du-dossier-Photographies-Frantz-Fanon-cópia.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/07_Image-FNN178_3_0_0007.tif-Cote-178FNN_3_0-Titre-du-dossier-Photographies-Frantz-Fanon-cópia-300x212.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/07_Image-FNN178_3_0_0007.tif-Cote-178FNN_3_0-Titre-du-dossier-Photographies-Frantz-Fanon-cópia-768x542.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-15769" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #ba2025;"><strong>Após a morte de Frantz Fanon em 1961, seu corpo foi carregado através da fronteira da Tunísia para ser enterrado na Argélia. </strong><br>Arquivos Frantz Fanon/IMEC</span></small></p></div>
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<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #ba2025;">O cansativo caminho do conhecimento racional</span></h2>
<p>Partes do último trabalho de Fanon, <i>Os condenados da terra</i>, foram ditadas por ele em um colchão no chão de um apartamento em Túnis enquanto ele morria. O livro traz uma crítica abrasadora do colonialismo e dos colonos, um relato crítico da luta contra o colonialismo, um relato igualmente arrebatador do pântano pós-colonial e uma visão radicalmente democrática da práxis emancipatória. Termina com um relato angustiante dos danos causados pela violência da guerra colonial.</p>
<p> </p>
<p>A crítica da cidade colonial nas páginas iniciais do livro é particularmente poderosa e continua a ressoar no presente. A ideologia maniqueísta que Fanon criticou na França assumiu uma forma material concreta na colônia, da qual o <i>apartheid</i> foi um caso paradigmático. O mundo colonial é dividido em diferentes zonas, destinadas a diferentes tipos de pessoas. É um mundo “de emaranhados de arame farpado”, “um mundo dividido em compartimentos”, “um mundo dividido em dois”, “um mundo estreito repleto de violência”. Na visão de Fanon, a descolonização autêntica requer um fim decisivo para uma situação em que “este mundo se divide em compartimentos, este mundo cindido em dois é habitado por espécies diferentes”.</p>
<p>A descrição da luta anticolonial continua a explorar a mutação coletiva desenvolvida em <i>Um colonialismo moribundo</i>. Na narrativa de Fanon, a resposta inicial à opressão colonial é fundamentalmente moldada por aquilo ao qual se opõe: “o maniqueísmo do colonizador produz um maniqueísmo dos colonizados”. Fanon é claro sobre os custos desse contra-maniqueísmo: “à mentira da situação colonial, o colonizado responde com uma mentira igual”. Dentro da luta, diz ele, há uma inicial “brutalidade de pensamento e desconfiança da sutileza”.</p>
<p>Mas, como há movimento ao longo do que Fanon chama de “o cansativo caminho do conhecimento racional”, os paradigmas coloniais são mais transcendidos do que meramente invertidos. As pessoas começam a “passar do nacionalismo total e indiscriminado para a consciência social e econômica”. Fanon é explícito ao assinalar que esse processo exige que “as pessoas também descartem a concepção muito simples de seus senhores”, pois “o padrão de julgamento racial e racista é transcendido”.</p>
<p>Sekyi-Otu, ao afirmar ser crucial permitir leituras sérias do trabalho, mostra que um conjunto de declarações enfáticas oferecidas como definitivas no início do livro são posteriormente desafiadas à medida que a narrativa de Fanon se desenrola. Para usar apenas um exemplo, no início é afirmado que: “Autêntico é tudo aquilo que precipita o desmoronamento do regime colonial, que favorece a emergência da nação. Autêntico é o que protege os indígenas e arruína os estrangeiros”. Mais tarde, Fanon explica que – à medida que fica claro que “a exploração pode apresentar uma aparência negra ou árabe” – as certezas iniciais encontram limites óbvios.</p>
<p>Fanon escreve que, à medida que as certezas maniqueístas que marcam o primeiro momento de luta começam a desmoronar, “a clareza idílica e irreal do princípio é seguida por uma penumbra que desarticula a consciência”. Com o tempo, à medida que a luta se desenvolve, “a consciência se desobstrui laboriosamente diante de verdades parciais, limitadas e instáveis”. As coisas são repensadas à luz da experiência da luta, do movimento coletivo, contra o colonialismo. Sekyi-Otu argumenta que o objetivo fundamental do relato de Fanon sobre esse afastamento da lógica maniqueísta do colonialismo é “encenar o surgimento de modos mais ricos de raciocínio, julgamento e ação” do que aqueles imediatamente acessíveis dentro dos limites do pensamento colonial.</p>
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<div id="attachment_15778" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-15778" class="size-full wp-image-15778 img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/08_October-30-1974-Anniversary-of-Algerian-War-for-Independence-credit-Alamy-images-1.jpg" alt="30 October 1974: The anniversary of the 1962 Algerian War for Independence." width="950" height="698" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/08_October-30-1974-Anniversary-of-Algerian-War-for-Independence-credit-Alamy-images-1.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/08_October-30-1974-Anniversary-of-Algerian-War-for-Independence-credit-Alamy-images-1-300x220.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/08_October-30-1974-Anniversary-of-Algerian-War-for-Independence-credit-Alamy-images-1-768x564.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-15778" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #ba2025;"><strong>30 de outubro de 1974: o aniversário da Guerra de Independência da Argélia, em 1962.</strong><br>Alamy</span></small></p></div>
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<p>Fanon testemunhou os primeiros anos do Termidor africano, o momento em que, como ele explica, a “lava libertadora” das grandes lutas anticoloniais foi esfriada quando o povo foi expulso da história, “enviado de volta às suas cavernas” pelos líderes que, “em vez de acolher a expressão do descontentamento popular” e o “fluxo livre de ideias”, assumiu a tarefa de proclamar que “a vocação de seu povo é seguir, seguir uma vez mais e sempre”. Em seu último livro, ele tinha claro que manter os princípios significava empreender uma luta dentro da luta, além de enfrentar o inimigo colonial. Ele adverte que “para evitar esses múltiplos obstáculos é necessário bater-se com tenacidade para que o partido jamais se torne um instrumento dócil nas mãos de um líder”. Fanon argumenta que, para estabelecer a rebelião sobre uma base racional, é necessário resistir àqueles dentro do movimento “que algumas vezes tendem a pensar que as nuances constituem perigo” e líderes que insistem que esse é “o único dogma que vale a pena (…), a unidade da nação contra o colonialismo”.</p>
<p>Sua crítica à burguesia nacional, “à burguesia voraz”, seu uso do Estado como instrumento para atacar a sociedade e seu uso indevido da história da luta coletiva para reforçar sua própria autoridade são inigualáveis. Fanon deixa claro que existem formas de militância nacionalista que possuem “os mesmos julgamentos desfavoráveis” sobre os mais oprimidos entre os colonizados que são mantidos pelos colonizadores. Ele insiste que a consciência nacional – “aquela canção magnífica que fez o povo se levantar contra seus opressores” – deve ser complementada com consciência política e social.</p>
<p>Fanon emite um aviso claro sobre partidos que objetivam “erigir uma estrutura em torno das pessoas que segue um cronograma <i>a priori</i>” e os intelectuais que decidem “seguir os caminhos comuns da vida real” com fórmulas “estéreis ao extremo”. Para Fanon, a vocação do intelectual militante é estar na “zona de instabilidade oculta onde as pessoas habitam”, no “caldeirão fervilhante do qual emergirá o aprendizado do futuro” e, lá, “colaborar no plano físico”. Ele deixa claro que o intelectual treinado na universidade deve evitar tanto a incapacidade de “manter uma discussão bilateral”, de se envolver em um diálogo genuíno, quanto o seu anverso, tornando-se “uma espécie de homem sim que concorda com cada palavra que vem das pessoas”. Contra isso, ele recomenda “a inclusão do intelectual na onda ascendente das massas”, com o objetivo de alcançar, como observado acima, “uma corrente mútua de iluminação e enriquecimento”.</p>
<p>Fanon afirma a prática da mutualidade enraizada em um compromisso imediato com a igualdade radical, algo como a visão juvenil de Marx de “uma associação de seres humanos livres que se educam”. Seu compromisso consistente com o reconhecimento da “porta aberta de toda consciência” o leva a uma compreensão radicalmente democrática da luta enraizada em práticas locais nas quais a dignidade é afirmada, a discussão é realizada e as decisões são tomadas. Para Fanon, a principal tarefa da educação política é mostrar que “não há homem ilustre e responsável por tudo, que o demiurgo é o próprio povo e as mãos mágicas são em última análise as mãos do povo”. Ele afirma a importância da “livre circulação de um pensamento elaborado a partir das necessidades reais das massas”. Existem ressonâncias claras com a famosa afirmação de C. L. R. James de que, em uma frase emprestada de Vladimir Lenin, “todo cozinheiro pode governar”. Fanon, comprometido até o fim com a emancipação da razão, com sua emancipação na e pela luta, encerrou seu último livro com o imperativo de “elaborar novos conceitos”.</p>
<p>Para ser digno de seu nome, o pensamento comunista deve ser uma expressão do intelecto em movimento, do intelecto fundamentado no movimento real e, portanto, em permanente diálogo com outros em luta. Deve levar o desejo militante de – no resumo conciso de Étienne Balibar de um impulso central da Ética de Benedict Spinoza – “tanto quanto possível, pensar o máximo possível”. Esta é a forma de militância a partir da qual Fanon nos fala hoje, com um poder tão convincente, com o brilho do metal.</p>
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<div id="attachment_15787" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-15787" class="wp-image-15787 img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/09_DANO-Workers-Hammarsdale-1982-courtesy-Wits-Historical-Papers-jpg.jpg" alt="A strike organised by Dano textile workers in Hammarsdale, South Africa, 1982. " width="700" height="994" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/09_DANO-Workers-Hammarsdale-1982-courtesy-Wits-Historical-Papers-jpg.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/09_DANO-Workers-Hammarsdale-1982-courtesy-Wits-Historical-Papers-jpg-211x300.jpg 211w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/09_DANO-Workers-Hammarsdale-1982-courtesy-Wits-Historical-Papers-jpg-721x1024.jpg 721w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/03/09_DANO-Workers-Hammarsdale-1982-courtesy-Wits-Historical-Papers-jpg-768x1091.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px"><p id="caption-attachment-15787" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #ba2025;"><strong>Greve organizada por trabalhadoras têxteis da fábrica Dano, em Hammarsdale, África do Sul, em 1982.</strong> <br>Wits Historical Papers</span></small></p></div>
<h3 style="margin:2em 0;"></h3>
<hr>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;">Para saber mais (leituras em inglês)</span></h3>
<p>Cherki, Alice. <i>Frantz Fanon: A portrait</i>. Ithaca, New York: Cornell University Press,</p>
<p>2006.</p>
<p>Elhen, Patrick. <i>Franz Fanon: A spiritual biography</i>. New York: The Crossroad Publishing</p>
<p>Company, 2000.</p>
<p>Fanon, Frantz. <i>A Dying Colonialism</i>. New York: Grove Press, 1967.</p>
<p>Fanon, Frantz. <i>Alienation and Freedom</i>. London: Bloomsbury, 2009.</p>
<p>Fanon, Frantz. <i>Black Skin, White Masks</i>. New York: Grove Press, 1967.</p>
<p>Fanon, Frantz. <i>The Wretched of the Earth</i>. London: Penguin, 1976.</p>
<p>Fanon, Frantz. <i>Toward the African Revolution</i>. New York: Grove Press, 1967.</p>
<p>Gibson, Nigel. <i>Fanon: The postcolonial imagination</i>. Londo:. Polity, 2003.</p>
<p>Gibson, Nigel. <i>Fanonian Practices in South Africa: From Steve Biko to Abahlali </i></p>
<p><i>baseMjondolo</i>. Pietermaritzburg: University of KwaZulu-Natal Press, 2011.</p>
<p>Gibson, Nigel &amp; Beneduce, Roberto. <i>Frantz Fanon, Psychiatry and Politics</i>.</p>
<p>Johannesburg: University of the Witwatersrand Press, 2017.</p>
<p>Gordon, Lewis. <i>Fanon and the Crisis of European Man: An essay on philosophy and the </i></p>
<p><i>human sciences</i>. New York: Routledge, 1995.</p>
<p>Gordon, Lewis. <i>What Fanon Said: A Philosophical Introduction to His Life and Thought</i>.</p>
<p>Johannesburg: University of the Witwatersrand Press, 1996.</p>
<p>Lee, Christopher. <i>Frantz Fanon: Toward a Revolutionary Humanism</i>. Johannesburg: Jacana</p>
<p>Press, 2015.</p>
<p>Mbembe, Achille. <i>Necropolitics</i>. Johannesburg: University of the Witwatersrand Press, 2016.</p>
<p>Neocosmos, Michael. <i>Thinking Freedom in Africa: Towards a theory of emancipatory politics</i>.</p>
<p>Johannesburg: University of the Witwatersrand Press, 2016.</p>
<p>Sekyi-Otu, Ato. <i>Fanon’s Dialectic of Experience</i>. Cambridge, MA: Harvard University Press,</p>
<p>1996.</p>
<p>Sekyi-Otu, Ato. <i>Left Universalism, Africacentric Essays</i>. New York: Routledge, 2019.</p>
<p>Sharpley-Whiting, Tracey. <i>Frantz Fanon: Conflicts and Feminisms</i>. Lanham: Roman &amp;</p>
<p>Littlefield, 1998.<b> </b></p>
<p>Wynter, Sylvia. “No Humans Involved: An Open Letter to My Colleagues.” <i>Forum H.H.I. </i></p>
<p><i>Knowledge for the 21st Century</i> 1.1 (Fall 1994): 42-73.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Por que os Estados Unidos desprezam o Irã tão ferozmente?</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/por-que-os-estados-unidos-desprezam-o-ira-tao-ferozmente/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Tech Tricontinental]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 23 Jan 2020 10:00:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Alerta Vermelho]]></category>
		<category><![CDATA[Hegemonía]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[<h2 style="margin:3em 0;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-14209 img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/01/20200121_Red-Alert-5_Site-Feature_small.jpg" alt="" width="700" height="525" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/01/20200121_Red-Alert-5_Site-Feature_small.jpg 700w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/01/20200121_Red-Alert-5_Site-Feature_small-300x225.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/01/20200121_Red-Alert-5_Site-Feature_small-20x15.jpg 20w" sizes="auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px"></h2>
<p>Tal ódio não marcou as relações dos EUA com o Irã durante o reinado do Xá (1941-1979). Somente quando um nacionalista na economia – Mohammed Mosaddeq – chegou ao poder entre 1951 e 1953 e ameaçou nacionalizar a indústria petrolífera do Irã é que a CIA, o Xá e a direita do exército iraniano – liderada pelo general Fazlollah Zahedi – se posicionaram contra ele. No entanto, eles eram os que viam os comunistas como uma ameaça, não o povo iraniano. Durante esse período, os reis sauditas e o Xá iraniano uniram-se em uma causa comum contra movimentos populares e comunistas; nenhuma divisão entre xiita-sunita os incomodava.</p>
<p>O que irritou os Estados Unidos, sauditas e árabes do Golfo foi a agitação na região no final da década de 1970, o que incluiu uma revolução no Afeganistão (1978) e outra no Irã (1979), bem como a tomada da embaixada dos EUA em Islamabad, Paquistão (1979) e da principal mesquita da Arábia Saudita (1979). Foi o surgimento de correntes antimonárquicas – geralmente comunistas – que incomodaram os EUA e os sauditas. Essas correntes deveriam ser destruídas.</p>
<p>É por isso que os árabes do Ocidente e do Golfo pagaram a Saddam Hussein para que lançasse um ataque ao Irã em setembro de 1980. A guerra Irã-Iraque impactou profundamente o Irã e durou até 1988. Durante essa guerra, as orações de sexta-feira, em Teerã, eram frequentemente lideradas por Ali Khamenei, hoje o Supremo Líder do Irã, . Na oração de 17 de janeiro deste ano, Khamenei se referiu àquela guerra com grande amargura. Ele perguntou a seus colegas iranianos como poderiam confiar no Ocidente depois desses países (Alemanha, França, Reino Unido e EUA) terem fornecido a Saddam Hussein fundos e suprimentos para suas armas de destruição em massa.</p>
<p>Durante a guerra, o aiatolá Khomeini, antecessor de Khamenei, disse ao ministro de Defesa, Mohsen Rafighdoost, que proibia o Irã de produzir gás mostarda e mesmo falar em armas nucleares. “Se produzirmos armas químicas, qual a diferença entre mim e Saddam?”, perguntou Khomeini a Rafighdoost. Em outubro de 2003, Ali Khamenei repetiu as palavras de Khomeini com uma <i>fatwa</i> (determinação) contra as armas de destruição em massa. Ali Khamenei disse muitas vezes que não foi o Ocidente que impediu o Irã de desenvolver armas nucleares, mas o próprio Irã se recusou a desenvolvê-las por motivos religiosos.</p>
<p>A questão da agenda nuclear do Irã nunca foi o principal problema, mas sim tornar o país subordinado, enfraquecê-lo e torná-lo irrelevante na Ásia Ocidental.</p>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #bb332e;">Como o Irã se defendeu da guerra híbrida?</span></h2>
<p>Entre 2001 e 2003, os EUA travaram duas guerras contra os adversários do Irã – o Talibã e Saddam Hussein. A derrota dessas duas forças permitiu ao Irã espalhar suas asas pela região. Ao reconhecer esse erro estratégico, fruto dessas guerras, os EUA, bruscamente, tentaram fazer o Irã voltar às suas fronteiras. Buscaram enfraquecer o vínculo entre Irã e Síria por meio da Lei de Responsabilidade da Síria, de 2005, e depois com a guerra na Síria a partir de 2011. Tentou também destruir a força política libanesa Hezbollah por meio do ataque israelense de 2006 ao Líbano. Não funcionou. Em 2006, os EUA fabricaram uma crise sobre o programa de energia nuclear do Irã; projetou sanções contra a economia iraniana junto à ONU e União Europeia. Isso também não funcionou e, em 2015, os EUA estabeleceram um acordo nuclear (rejeitado agora por Trump). Acabaria aí? Não, a guerra híbrida continuou.</p>
<p>Em 1980, os iranianos criaram a Força Quds. “Quds” é a palavra árabe para Jerusalém. O objetivo desta Força era desenvolver vínculos regionais para um Irã sitiado. Nos seus primeiros anos, a Força Quds participou de operações tanto contra os interesses ocidentais como contra a esquerda regional (incluindo ataques ao governo comunista afegão de Mohammad Najibullah). Mas na década passada, sob a liderança do Major-general Qassem Soleimani e de outros veteranos da guerra Irã-Iraque, a Força Quds desenvolveu uma agenda mais precisa.</p>
<p>A liderança iraniana sabia que não poderia suportar um ataque dos Estados Unidos e de seus aliados; a enxurrada de mísseis e bombas estadunidenses representam uma ameaça que coloca em xeque a existência do Irã. Esse tipo de guerra precisa ser evitada. Ao contrário da Coréia do Norte, o Irã não tem escudo nuclear nem potencial ou desejo de construí-lo; no entanto, os exemplos do Iraque e da Líbia, que abandonaram suas armas de destruição em massa, mostram o que pode ser feito para países que não têm poder nuclear. Nem o Iraque nem a Líbia ameaçaram o Ocidente, e ambos os países foram destruídos. Foi a Força Quds que desenvolveu um impedimento parcial contra um ataque ocidental ao Irã. A Força de Soleimani foi do Líbano ao Afeganistão para estabelecer relações com grupos pró-iranianos e os incentivou e apoiou na criação de grupos de milícias. A guerra na Síria foi um campo de testes para esses grupos, que estão preparados para atacar aliados dos EUA se o Irã for atacado de alguma forma. Após o assassinato de Soleimani, os iranianos disseram que caso fossem atacados de novo, destruiriam Dubai (Emirados Árabes Unidos) e Haifa (Israel). Mísseis iranianos de curto alcance podem atingir Dubai; mas é o Hezbollah que atacaria Haifa. Isso significa que os Estados Unidos e seus aliados enfrentarão uma guerra de guerrilhas regional em larga escala se houver algum bombardeio contra o Irã. Essas milícias são um impedimento para o Irã. Por isso Trump hesitou; mas pode não hesitar por muito tempo.</p>
<p>A política do Irã é definida pela imensa pressão exercida sobre o país pelos Estados Unidos e por seus aliados regionais (Israel e Arábia Saudita). A extensão da Revolução Iraniana, em 1979, trazia consigo uma esquerda que agora não existe mais (Saeed Soltanpour, como muitas de suas gerações à esquerda, foi executado em 1981). No Iraque, os comunistas ressurgiram hesitantes e participam das revoltas desde 2011 contra um governo cujas políticas são totalmente ditadas por uma agenda do FMI. “Queremos uma pátria”, gritam os iraquianos em seus recentes protestos. O mesmo acontece com as pessoas do Líbano e do Afeganistão. Durante a Revolução Iraniana, um grupo de esquerda escreveu nas paredes do Ministério da Justiça: no alvorecer da liberdade, o lugar da liberdade está vazio (<i>dar tulu-e azadi, ja-ye azadi khali</i>). A revolta aconteceu, mas a promessa completa da revolução foi interrompida.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
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		<title>Nuestra América latina e caribenha. Entre a ofensiva neoliberal conservadora e as novas resistências</title>
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		<dc:creator><![CDATA[celina]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 05 Nov 2019 11:41:05 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Desafios para os movimentos populares e para o pensamento crítico Dossiê n°22 Berta Cáceres, 1971-2016 Os povos da América Latina e do Caribe enfrentam há alguns anos um novo avanço do imperialismo e do capital, da direita e dos projetos neoliberais e conservadores. Essa ofensiva, que promove um renovado processo de recolonização de nossos países [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #808080;">Desafios para os movimentos populares e para o pensamento crítico</span></h3>
<h4 style="margin:2em 0;"><a href="https://www.thetricontinental.org/pt-pt/dossie/">Dossiê n°22</a></h4>
<p><img loading="lazy" decoding="async" width="1686" height="951" class="alignnone wp-image-11148 size-full img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2019/11/01_BERTA-C%C3%81CERES_1971-2016-e1572889361264.jpg" alt="" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2019/11/01_BERTA-CÁCERES_1971-2016-e1572889361264.jpg 1686w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2019/11/01_BERTA-CÁCERES_1971-2016-e1572889361264-300x169.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2019/11/01_BERTA-CÁCERES_1971-2016-e1572889361264-768x433.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2019/11/01_BERTA-CÁCERES_1971-2016-e1572889361264-1024x578.jpg 1024w" sizes="auto, (max-width: 1686px) 100vw, 1686px"></p>
<p style="padding-left: 40px;"><span style="color: #ba3533;"><em>Berta Cáceres, 1971-2016</em></span></p>
<hr>
<p>Os povos da América Latina e do Caribe enfrentam há alguns anos um novo avanço do imperialismo e do capital, da direita e dos projetos neoliberais e conservadores. Essa ofensiva, que promove um renovado processo de recolonização de nossos países e uma agenda de reformas pró-mercado reproduzidas em cada país, tem trazido consequências e mudanças regressivas tanto no plano social e econômico como no político e democrático. Diante dela, novos processos de luta e mobilização popular têm ocorrido na região, como mostram os recentes ciclos de protestos e levantamentos no Chile, Equador e Haiti, para mencionar apenas os epicentros atuais das resistências populares. Os efeitos de suas políticas corroeram a legitimidade dos governos que as promoveram, como se expressou na Argentina na recente eleição presidencial, ou no Brasil, com a queda de popularidade de Jair Bolsonaro. Entretanto, tudo isso está longe de significar o fim da ofensiva neoliberal ou o retrocesso dos poderes econômicos que a fomentam, cuja força se sustenta no controle do capital, na violência e nos meios de comunicação.</p>
<p>Esse cenário complexo de uma batalha em curso coloca uma série de desafios e questões para os movimentos populares e o pensamento crítico. Entre as principais perguntas que surgem, a primeira seria: quais são as características deste ciclo regressivo, e qual a profundidade e efeitos, em termos sociais e subjetivos, das transformações que têm sido impostas ou estão sendo levadas adiante? Nesse sentido, quais são as especificidades do capitalismo contemporâneo e da agenda de mudanças atuais? Em contrapartida, a dimensão imperial desses processos nos leva a perguntar: quais são as estratégias e os modos de intervenção promovidos sobre a região pelo governo dos EUA? Qual o papel do contexto global de declínio do império estadunidense e de disputas geopolíticas globais? Quais possibilidades e desafios surgem com a emergência da China como novo centro hegemônico do capitalismo global? Finalmente, está o debate sobre quais são as formas políticas, os modos de governo e de subjetivação social que essa ofensiva neoliberal adota e, particularmente, em qual momento dela nos encontramos em âmbito regional. Diante disso, surgem as perguntas sobre quais resistências, forças e programas populares que aparecem. Como repensar hoje as alternativas e a construção de um projeto popular de mudança? Quais fortalezas e debilidades os projetos progressistas e populares que ocorreram previamente nos deixaram como legado?</p>
<p>Essas perguntas, e outras certamente, condensam os desafios que enfrentam os movimentos populares e o pensamento crítico latino-americano. Começando com uma reflexão sobre o passado e o presente deste último, apresentamos a seguir uma síntese do debate ocorrido no I° Seminário Latino-americano organizado pelos escritórios de Buenos Aires e São Paulo do <b>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social</b>, no final de maio de 2019.</p>
<p> </p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" width="1299" height="733" class="alignnone size-full wp-image-11157 img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2019/11/02_BARTOLINA-SISA_1753-1782-e1572889653210.jpg" alt=""></p>
<p style="padding-left: 40px;"><span style="color: #ba3533;"><em>Bartolina Sisa, 1753-1782</em></span></p>
<hr>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #ba3533;"><b>Passado e presente do pensamento crítico latino-americano</b></span></h2>
<p>Ao longo de todo o século XX e até a atualidade, o pensamento crítico elaborado na América Latina e no Caribe, ou melhor, em <i>Nuestra América</i> — para utilizar a imagem proposta pelo cubano José Martí —, se caracteriza por uma destacada elaboração teórica a partir de uma reflexão sobre a prática política e os desafios que afrontam os povos, os sujeitos subalternos, os explorados e os oprimidos. Realizado por intelectuais comprometidos com esses movimentos e rebeldias — muitas vezes militantes orgânicos —, esse pensamento esteve marcado por intensos debates ao redor de certos núcleos problemáticos que marcaram em cada momento a centralidade dos projetos emancipatórios, a partir das lutas contra a dominação colonial e pela independência dos séculos XVIII e XIX, até os processos de libertação nacional e de mudança social sob as bandeiras do socialismo do século XX.</p>
<p>A partir dessa perspectiva, o campo do pensamento crítico abarca as diferentes tradições e correntes que dentro do marxismo se desenvolveram e frutificam hoje na região, assim como também a um amplo leque de estudiosos, obras e escolas que, sem se inscrever nessa matriz teórica, propõem uma visão questionadora da ordem social vigente que se vincula de distintos modos com os desejos de transformação social. Durante o século passado, esse pensamento concentrou boa parte de suas energias ao redor dos debates sobre as características da formação econômica e social na região, suas relações e subordinações com o imperialismo e o capitalismo, as configurações dos sujeitos subalternos, seus modos de organização, ação coletiva e ideários, e os programas de mudanças e estratégias políticas que propõem. Uma reflexão marcada também pela afirmação desafiante de José Carlos Mariátegui de que o socialismo indo-americano não pode ser nem decalque nem cópia, mas criação heroica das novas gerações.</p>
<p>Nos anos 1960, o pensamento crítico latino-americano experimentou um profundo impulso de renovação no contexto de um intenso ciclo de lutas sociopolíticas, marcado pela Revolução Cubana e pela onda revolucionária que ela abriu. Isso gerou, em particular, uma revitalização do marxismo latino-americano, que deu uma contribuição criativa ao debate regional e global com um caráter crítico e em contraposição ao difundido pela URSS naquele momento. Nesse contexto e até a atualidade, essa tradição formulou e propôs ao debate mundial uma série de correntes teóricas significativas, entre outras, a perspectiva das teorias da dependência, a filosofia da libertação, a colonialidade do poder, a ecologia política latino-americana, o feminismo popular, a pedagogia do oprimido e um novo constitucionalismo transformador de matriz liberal colonial do Estado-nação.</p>
<p>Nesse sentido, nos anos 1980, o debate pareceu se centrar nos desafios e estratégias diante das transições democráticas e da revolução; e nos anos 1990, no caráter, efeitos e alternativas à globalização neoliberal e ao Consenso de Washington. Da mesma forma, na década de 2000, se concentrou nas perspectivas, alcances e características das transformações pós-neoliberais e os sujeitos subalternos e movimentos sociais que as impulsionaram. Certamente, hoje, o pensar e fazer transformador em <i>Nuestra América</i> lida com o debate sobre as características da ofensiva neoliberal conservadora e os desafios que esta impõe aos movimentos populares e projetos emancipatórios. Um debate que aborda o capitalismo contemporâneo, os novos monstros que o motorizam e os futuros e presentes alternativos e necessários.</p>
<p> </p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" width="1686" height="951" class="alignnone wp-image-11164 size-full img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2019/11/03_EDUARDO-GALEANO_1940-2015-e1572889886957.jpg" alt="" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2019/11/03_EDUARDO-GALEANO_1940-2015-e1572889886957.jpg 1686w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2019/11/03_EDUARDO-GALEANO_1940-2015-e1572889886957-300x169.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2019/11/03_EDUARDO-GALEANO_1940-2015-e1572889886957-768x433.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2019/11/03_EDUARDO-GALEANO_1940-2015-e1572889886957-1024x578.jpg 1024w" sizes="auto, (max-width: 1686px) 100vw, 1686px"></p>
<p style="padding-left: 40px;"><span style="color: #ba3533;"><em>Eduardo Galeano, 1940-2015</em></span></p>
<hr>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #ba3533;"><b>Chaves do capitalismo e o imperialismo contemporâneo</b></span></h2>
<p>No contexto global, uma das chaves da reflexão e ação crítica se refere à compreensão da tendência que atravessa os Estados Unidos e se ela expressa, e em qual dimensão, um período de crise de hegemonia. Assim, a perda de legitimidade de seu projeto imperial parece não ter retorno, e um ponto importante é o deslocamento do eixo da acumulação de capital em escala global do Ocidente para o Oriente. Nesse marco, a China se destaca como o centro desse novo padrão de acumulação global por seu crescimento econômico prolongado, mesmo quando houve desaceleração no último período, e também por um novo ciclo de inovações tecnológicas e investimento em pesquisa e desenvolvimento. O projeto da Nova Rota da Seda está incrementando as interconexões na Ásia e reativando produções de outras regiões do mundo. A partir disso, se coloca inclusive a pergunta sobre se, em alguns anos, voltaremos a presenciar um novo <i>boom</i> de preços de<i> commodities</i> que possa modificar as condições econômicas da América Latina. Entretanto, hoje, a disputa hegemônica aparece como instabilidade econômica generalizada, ciclos de endividamento e crises marcadas pelas lógicas financeiras e monetárias, assim como por uma intensificação das rivalidades e intervenções dos velhos e emergentes centros de poder sobre o Sul do mundo.</p>
<p>Em contrapartida, na América Latina — com exceção talvez da Bolívia que cresceu nos últimos anos a taxas superiores a 4% e está no caminho de repetir essa marca em 2019 — se vê uma fase de desaceleração econômica, inclusive de recessão e crise em alguns países, que se aprofunda pela dinâmica de financeirização que os Estados Unidos impulsionam. Pode-se observar que a progressiva decadência dos EUA como potência hegemônica global se expressa, como em situações similares anteriores, em uma aceleração da financeirização. Esse marco de crescente declínio frente à competência do eixo oriental (ao qual se soma a Rússia, com seu poder de veto para dissuadir a ação militar estadunidense) agiganta a importância que a subordinação absoluta da América Latina tem para os EUA, que consideram historicamente o território como seu “quintal”. Nesse sentido, se desenvolve uma crescente militarização na região, com operações e exercícios, por exemplo, na Amazônia e América Central.</p>
<p>Nessa direção, se intensificou nos últimos anos e meses uma “guerra híbrida” ou “não convencional” na Venezuela e Cuba que combinou bloqueio econômico, financeiro, político e midiático com estratégias de intervenção e desestabilização internas, com o objetivo de assegurar interesses tanto econômicos (o acesso às reservas venezuelanas de hidrocarbonetos e de minerais) como políticos (enterrar definitivamente o ciclo de governos populares que se seguiram às rebeliões contra a ofensiva neoliberal dos anos 1990). A ciberguerra, a intervenção paramilitar a partir da Colômbia, a profundidade da guerra econômica em todas as suas dimensões, as sabotagens, as operações de inteligência sobre os mandos militares, as tentativas de constituição de um governo paralelo e a ameaça de intervenção militar externa demonstram como se aplicam todos os preceitos elaborados para as guerras híbridas — inclusive alguns nunca vistos antes — diante de processos populares que não se subordinam ao império. Sobre esse tema, confira o dossiê n° 17, <i>Venezuela e as guerras híbridas na América Latina.</i></p>
<p>Nesse sentido, as diferentes formas de intervenção promovidas pelo imperialismo e pela direita interna na Venezuela demonstram o quão estratégica é sua defesa para os movimentos populares. Em resumo, o que está em jogo na Venezuela é a possibilidade de que o império consiga impor uma reestruturação econômica, social, política e cultural duradoura na região. Obviamente, isso também dependerá do resultado das lutas populares que ocorrem em diferentes âmbitos e também em diferentes territórios. Os ciclos de lutas sociopolíticas recentes, particularmente intensas no Chile, Equador e Haiti, indicam a resistência popular que surge diante do programa único dessa ofensiva neoliberal e das organizações internacionais que a promovem, como o Fundo Monetário Internacional. Sua permanência nos últimos anos, bem como sua intensificação atual, nos faz questionar até que ponto isso pode significar uma mudança nas relações de força regionais e o início de um ciclo de amplo conflito social, talvez semelhante ao vivido na região entre o final dos anos 1990 e início dos anos 2000 e, particularmente, sobre as especificidades desses movimentos e protestos que os diferenciam do que aconteceu no passado recente.</p>
<p>Para uma avaliação global do momento no qual se encontra a ofensiva neoliberal, assim como do potencial dos conflitos e crise que ela desperta e dos novos cenários de mudança que se colocam, é fundamental considerar os resultados das eleições na Bolívia — com a reeleição de Evo Morales – das eleições na Argentina — com a derrota eleitoral do projeto macrista e o triunfo de Frente de Todos —, Uruguai — com a vitória da Frente Ampla no primeiro turno, ainda que com um cenário complexo para o segundo turno agora em novembro — e Colômbia — com o resultado das eleições regionais e a derrota do governo nas principais cidades do país. Esses resultados recentes nos fazem pensar sobre em que medida começa a se gestar na América Latina um novo momento de mudança política a nível regional. Por outro lado, ainda que possivelmente as limitações geopolíticas e econômicas do novo governo na Argentina sejam maiores que no período anterior, a mudança de tendência, somada à experiência mexicana e a continuidade na Bolívia e Venezuela, permitiria começar a pensar ao menos em uma situação mais aberta em direção à multipolaridade na região.</p>
<p> </p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" width="1686" height="951" class="alignnone wp-image-11171 size-full img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2019/11/04_NELA-MARTINEZ_1912-2004-e1572889989574.jpg" alt="" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2019/11/04_NELA-MARTINEZ_1912-2004-e1572889989574.jpg 1686w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2019/11/04_NELA-MARTINEZ_1912-2004-e1572889989574-300x169.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2019/11/04_NELA-MARTINEZ_1912-2004-e1572889989574-768x433.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2019/11/04_NELA-MARTINEZ_1912-2004-e1572889989574-1024x578.jpg 1024w" sizes="auto, (max-width: 1686px) 100vw, 1686px"></p>
<p style="padding-left: 40px;"><span style="color: #ba3533;">Nela Martínez, <i>1912-2004</i></span></p>
<hr>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #ba3533;"><b>Os novos monstros e a ofensiva neoliberal-neoconservadora</b></span></h2>
<p>Nesse marco global, a ofensiva neoconservadora e neoliberal assume características específicas que hoje são parte crucial do estudo e debate do pensamento crítico e dos movimentos populares. A necessidade do imperialismo e do capital de recuperar posições conduziu a uma nova onda de projetos neoliberais e de direita de caráter ultraconservador ou neofascista, que vêm disputando a hegemonia política em escala nacional em diferentes países, avançando sobre os trabalhadores e os povos, seus direitos e condições de vida. Sob essas forças se promove uma série de políticas comuns que caracterizam as transformações em curso. Invocadas com a denominação de “reformas”, essas medidas regressivas são promovidas no terreno trabalhista, previdenciário, tributário e fiscal, econômico, energético, na saúde e na educação. Remetendo ao chamado Consenso de Washington, aplicado na região nos anos 1990, o avanço, retardamento ou interrupção dessas “reformas” configuram um mapa móvel dos contornos que adquirem a ofensiva neoliberal e as resistências no continente. Merecem um capítulo particular os processos de regulação, privatização e apropriação privada transnacional dos bens comuns da natureza que ocorrem em toda a região, aprofundando o modelo extrativista exportador e tentando desmantelar as conquistas obtidas nos anos passados, com seus efeitos de saque e destruição socioambiental. Sobre isso, e em particular sobre suas consequências na Amazônia, confira nosso dossiê nº 14, <i>Amazônia: a pobreza do povo como resultado da riqueza da terra</i>.</p>
<p>Em contrapartida, essa ofensiva neoliberal parece se caracterizar por uma dissociação entre o que ocorre no plano econômico e no plano político. No primeiro caso, no contexto global referido, os projetos neoliberais estão sujeitos a uma extrema instabilidade e resultam incapazes de assegurar um ciclo de crescimento econômico, ainda que de caráter modesto e perene. Trata-se de um “neoliberalismo zumbi” que promove uma maior abertura das economias latino-americanas, inclusive com o retorno dos tratados de livre comércio, quando nos velhos centros do capitalismo ressurgem políticas protecionistas e se restringem os fluxos de capitais na periferia. Promove-se também um maior alinhamento com os Estados Unidos, particularmente no terreno geopolítico, pois necessita manter os laços econômicos com a China. Um “neoliberalismo zumbi” que — impulsionando processos ampliados de mercantilização e saque dos bens comuns, particularmente os bens naturais, e de incremento da exploração trabalhista — tem profundos limites para construir consentimentos majoritários em relação a suas políticas em condições democráticas e que, portanto, apela crescentemente a formas políticas e de subjetivação social conservadoras, sustentadas na intensificação da violência no laço social e na restrição das formas liberais de governo.</p>
<p>Assim, é no plano político que essa ofensiva neoliberal parece ter uma margem de inovação maior devido a uma série de questões próprias da situação global e regional. Por um lado, é evidente que a democracia liberal se encontra em uma crise profunda. Não só devido ao peso das estratégias de <i>lawfare</i> sobre lideranças populares, mas também por causa da produção neoliberal de certa subjetividade popular baseada no individualismo, na meritocracia e em um senso comum conservador que no Brasil tem tido muito peso, inclusive durante a campanha eleitoral de Bolsonaro. Evidentemente, a lógica das <i>fake news</i> está completamente ligada a essas intervenções políticas que tentam se apresentar, em ocasiões, como despolitizadas ou antipolíticas. Por outro lado, o avanço dos setores mais conservadores dentro do evangelismo tem sido um dos novos elementos dessa etapa em muitos de nossos países. É claro que no caso do Brasil isso adquire uma centralidade, devido tanto à grande porcentagem de fiéis que incluem as variantes neopentecostais como pelo peso político que mostraram durante e depois do processo eleitoral. Por último, há uma série de elementos que nos conduzem a pensar que efetivamente há indícios de certo ativismo de tipo neofascista “por baixo”, com capacidade de gerar mobilizações e ações de rua no Brasil, Colômbia e, claro, Venezuela.</p>
<p>Esses apontamentos nos permitem refletir sobre as razões pelas quais esses projetos não consolidam uma hegemonia estável, embora, em grande parte, mobilizem com sucesso os piores elementos subjetivos que a sociedade capitalista produz em sua fase atual e – através do uso maciço das redes sociais, novas indústrias culturais e TICs – dialogam com as preocupações de setores importantes das classes populares com relativo sucesso.</p>
<p>Estamos em uma conjuntura complexa do avanço neoliberal. No campo econômico, a estabilização não foi alcançada, enquanto na esfera política modelos ultraconservadores, repressivos, punitivos e até neofascistas são afirmados e implantados. Um contexto em que a crise social e as intervenções autoritárias parecem se complementar, fundamentando a perspectiva crítica que afirma que a implantação do neoliberalismo, longe de conjurar crises, implica sua imposição e gestão. Em vista dessas complexidades, é necessário repensar estratégias de disputa a partir de movimentos populares e projetos emancipatórios.</p>
<p> </p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" width="1200" height="677" class="alignnone wp-image-11178 size-full img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2019/11/05_RITA-SEGATO_1951--e1572890102439.jpg" alt=""></p>
<p style="padding-left: 40px;"><span style="color: #ba3533;">Rita Segato, <i>1951-</i></span></p>
<hr>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #ba3533;"><b>O futuro e os desafios para os movimentos populares e o pensamento crítico</b></span></h2>
<p>Nesse contexto, a consideração sobre o futuro e os desafios e possibilidades de mudança e resistência que nossos povos enfrentam levantam a reflexão sobre os modos e as capacidades de promover uma subjetividade alternativa, antineoliberal, antirracista, antipatriarcal e anticapitalista, bem como os desafios que dialogam com os processos de organização popular. Em relação a esses problemas, algumas das questões que suscitam nosso exame e debate coletivo podem ser apresentadas:</p>
<ol>
<li>A necessidade de elaborar e promover um projeto político, cultural e ideológico a partir de nossos povos abre a pergunta: qual é a utopia de nosso tempo que pode se universalizar na América Latina? É um tema central em relação à construção tanto de um projeto de futuro como das narrativas e mitos associados a esses projetos de sociedade. Isso se vincula, ademais, à importância de repensar uma estratégia comum em todo o continente que coloque o horizonte da construção da Nossa América em um sentido político de transformação.</li>
<li>A situação de guerra que se vive em diferentes países, o recurso à guerra social, violência e militarização como modo de governo dessa ofensiva neoliberal, bem como a crescente legitimação da eliminação do outro por meio do aparato estatal ou dos atores da sociedade civil em um processo de intensificação da violência nos laços sociais, ressaltam a importância de afirmar e refletir sobre a paz, o empoderamento e a politização dos laços sociais solidários e comunitários.</li>
<li>Os avanços neoliberais e o retrocesso das forças populares aumentam a urgência de refletir sobre a maneira pela qual os processos de organização popular ocorrem. Por um lado, isso se refere à visibilidade e análise das experiências de lutas e ações coletivas que se desenrolam hoje em nossos países. Por outro, questiona as formas que o trabalho de base adota e exige, como enraizamento e construção de uma força social capaz de corporificar propostas e projetos emancipatórios, bem como a importância, conteúdo e práticas exigidas pelos processos de formação política e disputa ideológica.</li>
<li>Outro ponto relevante diz respeito a como pensar a oxigenação de organizações políticas e movimentos populares, a fim de radicalizar a democracia e a participação. Se é necessário contribuir para um novo ciclo de lutas que ponha em questão a (des)ordem que essa ofensiva neoliberal promove, surge um questionamento sobre quais seriam os elementos que permitiriam sair de certa letargia, naturalização e/ou desmoralização que ocorrem em momentos de refluxo.</li>
<li>Outra das questões levantadas se referem à necessidade de plataformas políticas incorporarem de forma transversal pautas LGBTs, feministas, afros, indígenas etc. de modo a contribuir para uma visão integral das opressões de nossos povos e colocar as políticas de identidade em uma perspectiva revolucionária.</li>
<li>Diante do avanço dos movimentos evangélicos aliados à direita, levanta-se a questão do valor da construção de uma espiritualidade alternativa, que dispute os sentidos da vida e da sociabilidade e construa valores e ética socialista contra o consumismo, individualismo e os desconfortos do projeto neoliberal. A abordagem dos modos e matrizes de produção coletiva e a disseminação de uma narrativa popular que configura as linhas centrais da sociedade alternativa que buscamos é uma questão central. Nesse sentido, propõe-se não apenas investigar as práticas e subjetivações promovidas pelas igrejas neopentecostais, mas também traçar e examinar as experiências da teologia da libertação, outras formas de religiosidade popular e visões de mundo seculares e sua ligação com a construção de saídas coletivas populares e alternativas.</li>
<li>Dados os limites que os projetos progressistas tinham no passado, é claro que pensar e construir um futuro emancipatório na <i>Nuestra América</i> hoje exige tanto discuti-lo como reformular a inserção internacional de nossas economias; postular e elaborar propostas para um novo modelo produtivo, distributivo, de consumo e de vida baseado na soberania popular e na justiça social e ambiental; e avançar nos caminhos de transição necessários para marchar nessa direção. Em particular, trata-se de refletir e construir saídas efetivas em relação ao endividamento externo, financeirização e extrativismo, que hoje se apresentam como uma nova espada de Dâmocles no âmbito regional. Isso anda de mãos dadas com a necessidade de repensar modelos alternativos de desenvolvimento e projetos de integração regional (terreno que no passado imediato deu vida à Alba, Unasul e Celac, entre outras experiências), bem como construir, no plano de ideias e práticas, a referência de Nossa América, Pátria Grande e Abya Yala.</li>
<li>Outra questão importante referente à construção de possíveis cenários futuros envolve os atuais avanços científico-tecnológicos. Seus efeitos no campo da comunicação social, da subjetividade e da mudança cultural, bem como nas formas e modos estatais de governo das populações (com segurança cibernética e a chamada “transparência” ou “governo aberto”), precisam ser estudados e debatidos. Da mesma forma, é necessário repensar as alternativas e os projetos de mudanças que permitam postular novas formas de intervenção nesses planos.</li>
</ol>
<p>Essa lista de questões certamente não esgota as dimensões colocadas pela reflexão acerca dos futuros necessários e possíveis que alimentam e orientam o trabalho emancipatório. Da mesma forma, não é apenas uma questão de imaginar teoricamente esses futuros com base em nosso passado, mas também de refletir e espalhar as experiências populares que no presente atualizam e antecipam os futuros que buscamos. Nos dois casos, eles apontam as questões e os horizontes que norteiam a caminhada de nosso trabalho do Instituto Tricontinental.</p>
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<p style="padding-left: 40px;"><span style="color: #ba3533;"><em>Paulo Freire, 1921-1997</em></span></p>
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		<title>Dossiê 17: Venezuela e as guerras híbridas na América Latina</title>
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		<dc:creator><![CDATA[celina]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 03 Jun 2019 16:29:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dossiê]]></category>
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					<description><![CDATA[Este dossiê, com o objetivo de contribuir para o debate sobre as formas de dominação que acompanham a ofensiva neoliberal e imperialista atualmente na América Latina, faz uma reflexão sobre as diferentes dimensões dessa guerra híbrida que recai sobre a Venezuela e as razões que a motivam, e também sobre outras experiências latino-americanas recentes onde [&#8230;]]]></description>
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<p class="p1">Este dossiê, com o objetivo de contribuir para o debate sobre as formas de dominação que acompanham a ofensiva neoliberal e imperialista atualmente na América Latina, faz uma reflexão sobre as diferentes dimensões dessa guerra híbrida que recai sobre a Venezuela e as razões que a motivam, e também sobre outras experiências latino-americanas recentes onde estão sendo ou foram aplicadas táticas similares.</p>
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