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	<title>Boletim Nuestra América Archives - Tricontinental: Institute for Social Research | Tricontinental: Institute for Social Research</title>
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	<description>international, movement-driven institution focused on stimulating intellectual debate that serves people’s aspirations.</description>
	<lastBuildDate>Fri, 03 Jul 2026 18:04:00 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-PT</language>
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		<title>O bicentenário do Congresso do Panamá e  a unidade latino-americana</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/boletim-bicentenario-congresso-do-panama/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Amilcar]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 03 Jul 2026 15:10:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Neocolonialismo]]></category>
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					<description><![CDATA[No marco dos 200 anos do Congresso do Panamá, analisamos o desafio da unidade, a constante sabotagem imperialista dos EUA e a necessidade urgente de cerrar fileiras para concretizar a emancipação latino-americana]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><div id="attachment_149201" class="wp-caption alignnone"><img fetchpriority="high" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-149201" class="size-full wp-image-149201 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Pavel-E%CC%81gu%CC%88ez-La-Patria-Naciendo-de-la-Ternura_A-pa%CC%81tria-nascendo-da-ternura-Caracas-Venezuela-2006.jpg" alt="" width="898" height="1024" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Pavel-Égüez-La-Patria-Naciendo-de-la-Ternura_A-pátria-nascendo-da-ternura-Caracas-Venezuela-2006.jpg 898w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Pavel-Égüez-La-Patria-Naciendo-de-la-Ternura_A-pátria-nascendo-da-ternura-Caracas-Venezuela-2006-263x300.jpg 263w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Pavel-Égüez-La-Patria-Naciendo-de-la-Ternura_A-pátria-nascendo-da-ternura-Caracas-Venezuela-2006-768x876.jpg 768w" sizes="(max-width: 898px) 100vw, 898px"><p id="caption-attachment-149201" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Pavel Égüez, La Patria Naciendo de la Ternura [A Pátria Nascida da Ternura], Caracas, Venezuela, 2006.</small></p></div></div>
<p>Estimados amigos e amigas:</p>
<p>Saudações do nosso escritório Nuestra América do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.</p>
<p><em>Neste mês de junho celebramos o bicentenário do Congresso Anfictiônico do Panamá, marco inicial do projeto de unidade e integração da América Latina, que buscava não apenas reafirmar a independência conquistada na guerra contra o império espanhol, mas também avançar em um projeto de profunda transformação social capaz de superar heranças nefastas, como a escravidão, e contribuir para a construção de um equilíbrio universal, no qual as relações entre as nações se estabelecessem sem que o interesse de uma se impusesse sobre as demais. Para refletir sobre a importância desse marco histórico para as lutas do presente, convidamos a mexicana Georgette Kuri — país onde o Congresso realizou sua última sessão — a compartilhar suas reflexões conosco. </em></p>
<p>Há 200 anos ocorreu o Congresso Anfictiônico do Panamá convocado por Simón Bolívar. Trata-se do primeiro grande sonho de Nuestra América e de um ponto de partida de uma tarefa histórica que permanece tão necessária ainda hoje: concretizar a unidade latino-americana. O peso dos Estados Unidos, a ambivalência do México e a permanente mira neocolonial e imperialista voltada para os territórios latino-americanos continuam dificultando o caminho de nossa emancipação. Ainda assim, nossa capacidade revolucionária de ação e a compreensão dos obstáculos históricos que sempre nos acompanharam são as luzes que devem orientar nossos passos.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><div id="attachment_149212" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-149212" class="size-large wp-image-149212 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Alfredo-Sinclair-Panama%CC%81-Mujer-Con-Cesta-De-Pescado-Ubicacio%CC%81n-desconocida-854x1024.jpg" alt="" width="854" height="1024" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Alfredo-Sinclair-Panamá-Mujer-Con-Cesta-De-Pescado-Ubicación-desconocida-854x1024.jpg 854w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Alfredo-Sinclair-Panamá-Mujer-Con-Cesta-De-Pescado-Ubicación-desconocida-250x300.jpg 250w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Alfredo-Sinclair-Panamá-Mujer-Con-Cesta-De-Pescado-Ubicación-desconocida-768x920.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Alfredo-Sinclair-Panamá-Mujer-Con-Cesta-De-Pescado-Ubicación-desconocida-1282x1536.jpg 1282w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Alfredo-Sinclair-Panamá-Mujer-Con-Cesta-De-Pescado-Ubicación-desconocida.jpg 1335w" sizes="(max-width: 854px) 100vw, 854px"><p id="caption-attachment-149212" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Alfredo Sinclair (Panamá), Mulher com cesta de peixes/[Mulher com cesta de peixes], (local desconhecido).</small></p></div></div>
<h3 style="margin:2em 0;">Ponto de partida: o Congresso Anfictiônico</h3>
<p>Diversos fatores contribuíram para que a Doutrina Anfictiônica e o projeto bolivariano de unidade latino-americana não prosperassem: a influência externa do Reino Unido e dos Estados Unidos; a diversidade de posições entre os países hispano-americanos; a falta de ratificação dos acordos pelos governos; a disputa territorial entre Brasil e as Províncias Unidas pela Banda Oriental; a invasão do Peru à Bolívia; a abstenção do Chile; a fragilidade da recém-criada República Federal da América Central; e a insistência do México em sediar a Assembleia e definir seu caráter como transitório.</p>
<p>Entretanto, é importante reconhecer que a transferência da sede para a Assembleia de Tacubaya, na Cidade do México, culminou em sua dissolução em 1828. O apoio mexicano voltou-se principalmente para a Liga Americana, centrada na defesa militar conjunta diante de possíveis tentativas europeias de reconquista. Essa posição refletia a preocupação do México em evitar uma eventual concentração de poder em outros territórios hispano-americanos que pudesse ameaçar a integridade das jovens nações. Esse papel de mediador para conter hegemonias no continente acabou criando precedentes para a posterior anexação de territórios mexicanos pelos Estados Unidos, tanto pelo isolamento em que esse processo ocorreu quanto pelo tipo de relação estabelecida entre os dois países.</p>
<p>Por sua vez, os Estados Unidos aproveitaram as sessões do Congresso Anfictiônico para ampliar suas relações comerciais com os países hispano-americanos, revelando seu caráter essencialmente expansionista e passando das relações bilaterais à disputa pelo próprio projeto de unidade continental. Aliaram-se ao Reino Unido e buscaram acordos com o Brasil, explorando inclusive o distanciamento e as rivalidades existentes entre alguns países hispano-americanos e o Brasil império, colocando em prática a antiga — e ainda atual — máxima de “dividir para conquistar”.</p>
<p>Além disso, a proclamação da Doutrina Monroe, em 1823, inaugurou formalmente a política intervencionista dos Estados Unidos em nosso continente. Desde então, o país utilizou seus corpos diplomáticos como instrumentos de ingerência para promover o endividamento externo e a dependência financeira das nações latino-americanas, além de recorrer repetidamente a invasões, bloqueios, ocupações e anexações territoriais ao longo de todo o século XIX.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><div id="attachment_149223" class="wp-caption alignnone"><img decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-149223" class="size-large wp-image-149223 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Jose%CC%81-Clemente-Orozco-Me%CC%81xico-Pueblo-mexicano-1929-1024x749.jpg" alt="" width="1024" height="749" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/José-Clemente-Orozco-México-Pueblo-mexicano-1929-1024x749.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/José-Clemente-Orozco-México-Pueblo-mexicano-1929-300x219.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/José-Clemente-Orozco-México-Pueblo-mexicano-1929-768x561.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/José-Clemente-Orozco-México-Pueblo-mexicano-1929.jpg 1316w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-149223" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>José Clemente Orozco (México), Pueblo mexicano, [Povo mexicano], 1929.</small></p></div></div>
<h3 style="margin:2em 0;">Horizonte revolucionário e a convicção latino-americana</h3>
<p>Diante do papel desempenhado pelo México na Anfictionia de 1826, cabe também recordar outros acontecimentos da história para equilibrar a balança. Consolidada a independência, o México se posicionou como vanguarda insurgente contra os regimes oligárquicos instalados em nossos países, por meio da irrupção das massas populares camponesas e operárias que protagonizaram a primeira grande revolução de nosso tempo.</p>
<p>A Revolução Mexicana estabeleceu a reforma agrária e os direitos das classes trabalhadoras como as principais reivindicações sociais, cujo eco ressoou nos movimentos sufragistas de mulheres em todo o continente, nos Movimentos de Libertação Nacional da América Central, nas reflexões de José Carlos Mariátegui e Haya de la Torre, no Peru, na Primavera Guatemalteca, na Revolução Cubana, nas múltiplas e diversas organizações guerrilheiras — inclusive nos Partidos Comunistas —, na Revolução Sandinista, no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), no levante do Exército Zapatista de Libertação Nacional e na Revolução Bolivariana, que coroou o rebelde e longo século XX latino-americano.</p>
<p>Nesse período efervescente, o México teve a oportunidade de tornar-se exemplo de profundas transformações sociais e estatais: educação socialista, movimentos culturais de alcance regional, como o muralismo, assembleia constituinte, expropriação do petróleo e outros paradigmas de diplomacia, solidariedade e soberania. Também demonstrou a convicção política de manter uma estreita relação com a Cuba socialista e de acolher grandes contingentes do exílio latino-americano produzidos pelas ditaduras militares entre as décadas de 1960 e 1980. Ainda hoje, continua recebendo vítimas de perseguição política e acolhendo, de forma solidária, aqueles que o escolhem como lugar para viver.</p>
<p>Com a implantação do neoliberalismo no México, no final da década de 1980, iniciou-se um processo de descontinuidade — ou, em determinados momentos, de distanciamento — de seus esforços em favor da unidade latino-americana, que inevitavelmente se diversificaram e passaram a se expressar em múltiplas dimensões. Ainda assim, na década de 1990, o México atuou como mediador nos diferentes processos de paz da América Central, bem como na resolução de conflitos internos na Colômbia e na Venezuela já no presente século. Esse breve percurso ajuda a compreender a complexa ambivalência que o México tem mantido em sua relação com Nuestra América, marcada também pela vizinhança com os Estados Unidos, por sua dependência econômica, pelos quarenta milhões de pessoas de origem mexicana que vivem naquele país e por sua localização geográfica na porção norte do continente.</p>
<p>Por tudo isso, adquire hoje um significado especial reivindicar, a partir do México, os ideais de unidade e integração legados pela doutrina anfictiônica e impulsionados neste século XXI pela geopolítica bolivariana da Venezuela revolucionária.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_149234" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-149234" class="size-large wp-image-149234 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Arte-urbana-de-Eva-Bracamontes-Me%CC%81xico-1024x683.jpg" alt="" width="1024" height="683" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Arte-urbana-de-Eva-Bracamontes-México-1024x683.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Arte-urbana-de-Eva-Bracamontes-México-300x200.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Arte-urbana-de-Eva-Bracamontes-México-768x512.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Arte-urbana-de-Eva-Bracamontes-México.jpg 1440w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-149234" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Arte urbana de Eva Bracamontes (México). Mais informações: <a href="https://utopix.cc/columnas/eva-bracamontes/">Utopix</a>.</small></p></div>
</div>
<h3 style="margin:2em 0;">Romper para sempre as correntes imperialistas e neocoloniais</h3>
<p>É importante recordar a hipótese de que a Anfictionia se dissolveu porque as tentativas de reconquista deixaram de representar uma ameaça comum. Embora essa ideia tenha sido, em geral, descartada, vale retomá-la porque remete à sensação de <em>estar fora de perigo</em>, recorrente na história latino-americana e da qual ainda não aprendemos plenamente a lição. Em primeiro lugar, porque as ameaças de conquista neocolonial e imperialista jamais desapareceram. Em segundo, porque é justamente quando os tempos parecem favoráveis que devemos aproveitar para avançar com firmeza.</p>
<p>O século XXI tem sido palco de avanços progressistas na América Latina e no Caribe, impulsionados por nossas sociedades por meio de governos populares. Retomamos a unidade latino-americana como horizonte, sendo a geopolítica bolivariana — inspirada também pelo internacionalismo solidário de Cuba — o projeto que mais se aproximou de tornar esse sonho realidade. Hoje, assim como ontem, o imperialismo estadunidense continua sendo o principal opositor, disposto a cometer qualquer atrocidade para impedir esse processo, e estamos testemunhando isso.</p>
<p>O ano de 2026 começou com uma verdadeira declaração de guerra dos Estados Unidos contra nossos povos latino-americanos, tendo na linha de frente as repúblicas irmãs de Cuba e Venezuela, por representarem as experiências mais radicais e mais bem-sucedidas no caminho de nossa libertação. A ameaça imperialista e neocolonial está mais ativa do que nunca, e ninguém está a salvo. De fato, são poucos os governos progressistas que resistem à ofensiva imperial ao lado de seus povos, sobretudo daqueles mais oprimidos pelas direitas ultraliberais e autoritárias.</p>
<p>Convém recordar que parte do jugo colonial consiste em um continente fragmentado em repúblicas, mais vinculadas às metrópoles ocidentais do que entre si, apesar de compartilharem uma mesma história, identidade e cultura. Também será necessário romper com as hierarquias territoriais herdadas dos impérios, vice-reinados e capitanias, assim como com as rivalidades e desconfianças próprias da modernidade ocidental, tão úteis à sua geopolítica de guerra.</p>
<p>É preciso defender a geopolítica da paz e o equilíbrio do universo que Bolívar nos propôs como alternativa para a vida. Na árdua tarefa de concretizar a unidade latino-americana, é necessário romper para sempre as correntes imperialistas e neocoloniais. E, sobretudo, assumir o compromisso de que é justamente nos momentos de maior ameaça que devemos cerrar fileiras e radicalizar nossas posições.</p>
<p>Saudações cordiais,</p>
<p><strong>Georgette Kuri<br>
</strong>Tacubaya-Mixcoac, Cidade do México</p>
<hr style="border:none; border-top:1px solid #999; margin:32px 0 24px;" /><table style="border:none;"><tbody><tr><td width="20%" style="vertical-align:top; border:none; padding-right:24px;"><img src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/07/Georgette-Kuri-color.jpg" width="779" height="779"></td><td style="vertical-align: middle; border:none;"><p><strong>Georgette Kuri</strong></p><small>Georgette Kuri é mexicana, professora e pesquisadora da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM) e integrante da Rede de Intelectuais, Artistas e Movimentos Sociais em Defesa da Humanidade. É também co-coordenadora do Grupo de Trabalho &#8220;Imperialismo, neocolonialismo e políticas de intervenção&#8221; do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO).</small></td></tr></tbody></table>]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O debate sobre segurança pública e a disputa pelo território</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/o-debate-sobre-seguranca-publica-e-a-disputa-pelo-territorio/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Stephanie Sandoval]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 28 May 2026 08:00:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Segurança pública]]></category>
		<category><![CDATA[Guerra contra os Pobres]]></category>
		<category><![CDATA[Modelo Bukele]]></category>
		<category><![CDATA[Nuestra América]]></category>
		<category><![CDATA[América Latina]]></category>
		<category><![CDATA[crime]]></category>
		<category><![CDATA[human rights]]></category>
		<category><![CDATA[direitos humanos]]></category>
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					<description><![CDATA[No marco dos 200 anos do Congresso do Panamá, analisamos o desafio da unidade, a constante sabotagem imperialista dos EUA e a necessidade urgente de cerrar fileiras para concretizar a emancipação latino-americana]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><div id="attachment_144545" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-144545" class="size-full wp-image-144545 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Sidney-Amaral-Brasil-Mae-Preta-ou-A-Furia-de-Iansa-2014.png" alt="" width="970" height="681" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Sidney-Amaral-Brasil-Mae-Preta-ou-A-Furia-de-Iansa-2014.png 970w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Sidney-Amaral-Brasil-Mae-Preta-ou-A-Furia-de-Iansa-2014-300x211.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Sidney-Amaral-Brasil-Mae-Preta-ou-A-Furia-de-Iansa-2014-768x539.png 768w" sizes="auto, (max-width: 970px) 100vw, 970px"><p id="caption-attachment-144545" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><a href="https://www.wikiart.org/en/sidney-amaral"><span style="font-weight: 400;">Sidney Amaral </span></a>(Brazil), <em>Mãe Preta ou A Fúria de Iansã</em> [Black Mother or the Fury of Iansa], 2014.</small></p></div></div>
<p>Saudações do escritório de Nuestra América do <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/">Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.</a></p>
<p>Há uma guerra longa, silenciosa e lucrativa em curso em Nuestra América: <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-guerra-contra-os-pobres/">a guerra contra os pobres</a>. Embora mudem os uniformes, as doutrinas ou os <em>slogans </em>— que vão desde “pacificação” até <a href="https://jacobin.com/2026/01/el-salvador-us-bukele-trump-authoritarianism">“linha dura” </a>ou “tolerância zero” —, seja sob o escudo da “<a href="https://dev.thetricontinental.org/es/argentina/adictos2-geopolitica/">guerra às drogas</a>” ou da “guerra contra o crime”, a guerra produzida pela desigualdade da ordem econômica dominante é travada para criminalizar a pobreza ao mesmo que tempo que serve para aterrorizar a população.</p>
<p><a href="https://www.nodal.am/2025/12/la-marea-furiosa-de-la-extrema-derecha-latinoamericana-por-vijay-prashad/">A “Maré Furiosa” </a>que nos últimos tempos avançou sobre os governos da América Latina teve como um de seus focos combater a crise de segurança percebida em toda a região. Em sua estratégia de desmoralização do progressismo latino-americano, a nova direita apresenta as forças de esquerda como ineficientes e incapazes — e até cúmplices — da criminalidade. Com frequência, no debate político, utiliza-se de pesquisas que revelam a segurança pública como uma das principais preocupações do eleitorado da região; essa seria uma das razões pela qual a população estaria preferindo governos que prometem linha dura e implacável contra a criminalidade. Não surpreende, nesse sentido, que mesmo sendo as mais afetadas por políticas de criminalização da pobreza, as pessoas se manifestem a favor do combate ao crime via aumento do processo repressivo. Segundo pesquisa da AtlasIntel, por exemplo, <a href="https://www.reuters.com/world/americas/brazils-deadliest-police-raid-puts-lula-political-bind-2025-11-05/">62%</a> dos próprios habitantes do Rio de Janeiro apoiaram uma operação policial que deixou 121 vítimas no último mês de outubro. De Kast a Keiko Fujimori, as <a href="https://www.chathamhouse.org/2026/05/if-jair-bolsonaro-was-trump-tropics-lula-bossa-nova-biden">campanhas da direita</a> destacaram o combate à violência entre suas prioridades. O próprio presidente uruguaio, Yamandú Orsi, <a href="https://casillerovacio.substack.com/p/yamandu-orsi-gobernar-despues-de">afirmou em entrevista</a> que 50% dos eleitores da Frente Ampla também simpatizam com o presidente salvadorenho Nayib Bukele. “A direita tomou a bandeira da segurança, que é um direito humano, e a monopolizou por muito tempo”, acrescentou.</p>
<p>Atualmente, o grande aparato midiático nos apresenta o chamado<a href="https://elmaipo.cl/el-espejismo-de-la-seguridad-el-peligroso-modelo-bukele-por-carmen-navas-reyes/"> “modelo Bukele”</a> como a fórmula mais eficaz para combater a insegurança e o crime organizado. No entanto, uma análise mais profunda nos leva a perguntar: a quem serve esta política e sobre quais corpos ela é edificada? Bukele <a href="https://elmaipo.cl/el-espejismo-de-la-seguridad-el-peligroso-modelo-bukele-por-carmen-navas-reyes/">construiu um sistema</a> por meio de uma política de desmonte do Estado e de precarização social amparada na prorrogação indefinida de um Estado de Exceção. Em El Salvador, a maior taxa de encarceramento do mundo, com 1.650 pessoas presas para cada 100 mil habitantes, criminaliza-se a infância por meio da redução da idade penal, realizam-se julgamentos coletivos e encarceramentos em massa e persegue-se pensamentos políticos diferentes, como no caso do defensor dos direitos humanos <a href="https://cispes.org/article/update-human-rights-attorneys-targeted-after-fidel-zavala-and-la-floresta-community-leaders">Fidel Zavala</a>.</p>
<p>Entre os números que Bukele esconde, porém, estão o crescimento da pobreza para 9,6% e os 10 mil estudantes que abandonaram os estudos.</p>
<p>Isso demonstra que tanto a insegurança que persiste quanto essa ilusão de ordem e segurança acabam atingindo com mais força quem vive nas periferias — pessoas que, ainda assim, orientaram seus votos para soluções tangíveis diante dos discursos mais conciliadores e sociológicos da esquerda regional. Segundo pesquisa da CB Consultora de abril de 2026, Bukele lidera a popularidade regional com 70,1% de imagem positiva, enquanto Lula da Silva tem cerca de 48,4% de apoio e 49,1% de rejeição, e Gustavo Petro alcança apenas 38,2% de aprovação. O próprio Lula viu-se obrigado, em sua campanha, a apresentar um plano contra o crime organizado prometendo padrões de segurança máxima nas prisões.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><div id="attachment_144561" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-144561" class="size-full wp-image-144561 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Rosa-Mena-Valenzuela-El-Salvador-Calles-1983.-Coleccion-MARTE-1.webp" alt="" width="1500" height="1236" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Rosa-Mena-Valenzuela-El-Salvador-Calles-1983.-Coleccion-MARTE-1.webp 1500w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Rosa-Mena-Valenzuela-El-Salvador-Calles-1983.-Coleccion-MARTE-1-300x247.webp 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Rosa-Mena-Valenzuela-El-Salvador-Calles-1983.-Coleccion-MARTE-1-1024x844.webp 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Rosa-Mena-Valenzuela-El-Salvador-Calles-1983.-Coleccion-MARTE-1-768x633.webp 768w" sizes="auto, (max-width: 1500px) 100vw, 1500px"><p id="caption-attachment-144561" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Rosa Mena Valenzuela (El Salvador), <em>Calles</em> [Streets], 1983. MARTE Collection.</small></p></div></div>
<p>Esse “autoritarismo pop” que cultiva medos, esconde, por trás de sua repressão e propaganda, sua incapacidade de resolver a desigualdade estrutural que conduz à pobreza e, em alguns casos, à própria criminalidade. Vende-se como um modelo para o qual não existe alternativa, e a geração de lideranças da Maré Furiosa que busca restaurar um domínio colonial sobre toda a região soma-se obedientemente ao chamado Escudo das Américas, liderado pelos Estados Unidos como solução para a criminalidade. Mas acontece que existem alternativas.</p>
<p>Recentemente, a cientista política Viri Ríos, do Mexico Decoded, assinalou que o governo progressista de Claudia Sheinbaum vem construindo uma proposta diferente. Em apenas 18 meses, a taxa diária de homicídios caiu 41%, embora sua população seja 20 vezes maior que a de El Salvador e os desafios de segurança no México vão além das gangues e organizações criminosas, incluindo o grande crime organizado transnacional e os cartéis de drogas. Sem implementar um Estado de Exceção, a população carcerária mexicana aumentou 11% após a mudança de sua política de segurança.</p>
<p>A chave, destaca Ríos, é que a estratégia não evita confrontar diretamente as fontes do crime, abandonando tanto a política de decapitação dos cartéis — que nos seis anos anteriores disparou exponencialmente a violência — quanto a abordagem de baixa confrontação que predominou entre 2018 e 2024. A política mexicana ataca diretamente as causas materiais da criminalidade: busca, em primeiro lugar, frear as fontes de financiamento do crime, enfrentando nacionalmente problemas de acordo com a realidade territorial: combate ao contrabando de combustível nas zonas petrolíferas, supervisão dos pontos alfandegários nas regiões de fronteira, combate à extorsão no campo e assim por diante. Ríos reconhece que no México persistem problemas estruturais como a corrupção, mas assinala que, apesar de suas limitações, o país está conseguindo reduzir a criminalidade por meio de uma política que não recorre à violência desenfreada de Bukele.</p>
<p>Outra experiência de esquerda que vale a pena estudar é a da Grande Missão Quadrantes de Paz, na Venezuela. Aqui surge outra chave conceitual decisiva: a territorialização da segurança sob uma lógica preventiva e de trabalho conjunto entre a comunidade e as forças policiais, em vez da lógica carcerária. Segundo dados oficiais, a taxa de homicídios passou de 56 por 100 mil habitantes em 2016 para cerca de 4 em 2024. No final de 2025, as autoridades relataram uma redução de mais de 25% dos assassinatos em relação ao ano anterior.</p>
<p>O que o modelo dos Quadrantes de Paz propõe é que uma política de segurança construída com participação comunitária organizada, a partir do bairro onde vive a classe trabalhadora — e não contra ela, como no modelo Bukele — pode gerar resultados efetivos. Pode servir de orientação para a esquerda, já que vincular a segurança à construção do poder popular no território é mais eficaz do que a punição.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><div id="attachment_144553" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-144553" class="size-full wp-image-144553 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Vlady-Mexico-Mecanismo-Carcelario-1958-1959.avif" alt="" width="1480" height="840" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Vlady-Mexico-Mecanismo-Carcelario-1958-1959.avif 1480w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Vlady-Mexico-Mecanismo-Carcelario-1958-1959-300x170.avif 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Vlady-Mexico-Mecanismo-Carcelario-1958-1959-1024x581.avif 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/Vlady-Mexico-Mecanismo-Carcelario-1958-1959-768x436.avif 768w" sizes="auto, (max-width: 1480px) 100vw, 1480px"><p id="caption-attachment-144553" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><a href="https://www.wikiart.org/en/vlady-kibalchich-rusakov">Vlady</a> (Mexico), <em>Mecanismo Carcelario</em> [Prison Mechanism], (1958-1959).</small></p></div></div>
<p>As forças populares que, nos próximos anos, quiserem disputar o campo eleitoral devem estudar profundamente essas soluções e também construir suas próprias propostas. Em primeiro lugar, o tema da segurança não pode ser ignorado, porque não se trata de um capricho da elite, mas de uma preocupação real da população trabalhadora, ainda que, em alguns casos, a construção de narrativas ultraconservadoras busque aterrorizar a população exagerando as condições de criminalidade em nossos países. A segurança também deve ser assumida como um direito da população trabalhadora, e deve-se reconhecer sua dupla vulnerabilidade pelo fato de ser atacada tanto pela criminalidade quanto por políticas reacionárias de repressão.</p>
<p>Em segundo lugar, devemos nos perguntar qual é a institucionalidade concreta que um governo popular deve construir e financiar no âmbito da segurança pública — uma maior profissionalização das forças de investigação e segurança? O combate direto às fontes de financiamento do crime e aos escalões intermediários que o operam? A construção de uma agenda de trabalho entre a comunidade e as autoridades no território baseado no respeito e na colaboração, e não na perseguição?</p>
<p>Em terceiro lugar, é preciso demonstrar que a repressão e o terror, a longo prazo, exacerbam a exclusão e fomentam práticas criminosas. A repressão é custosa e, muitas vezes, acaba sendo terceirizada para forças mercenárias ou, pior ainda, estrangeiras, o que, a longo prazo, coloca em risco a soberania nacional.</p>
<p>Abordar a segurança sem ilusões é fundamental para o desenvolvimento saudável de uma sociedade. O campo popular não pode ignorar esse desafio, nem minimizá-lo. Mas deve, sobretudo, convencer a população de que possui uma alternativa viável, que não implique nem a desarticulação do Estado nem a repressão letal e que, ao contrário, convide a classe trabalhadora a fazer parte de sua própria estratégia de segurança.</p>
<p>O debate está aberto. Gostaríamos de conhecer suas opiniões.</p>
<p>Atenciosamente,</p>
<p>Carmen Navas Reyes e Carlos Ron</p>
<p>Tricontinental Nuestra América</p>
<hr style="border:none; border-top:1px solid #999; margin:32px 0 24px;" /><table style="border:none;"><tbody><tr><td width="20%" style="vertical-align:top; border:none; padding-right:24px;"><img src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/08/Carmen.jpg" width="300" height="300"></td><td style="vertical-align: middle; border:none;"><p><strong>Carmen Navas Reyes</strong></p><small>Carmen Navas Reyes é pesquisadora do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. É feminista venezuelana e ex-diplomata. Suas áreas de pesquisa incluem democracia e sistemas políticos, movimentos sociais, história da diáspora africana e afrodescendência.</small></td></tr></tbody></table><hr style="border:none; border-top:1px solid #999; margin:32px 0 24px;" /><table style="border:none;"><tbody><tr><td width="20%" style="vertical-align:top; border:none; padding-right:24px;"><img src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/08/Carlos.jpg" width="300" height="300"></td><td style="vertical-align: middle; border:none;"><p><strong>Carlos Ron</strong></p><small>Carlos Ron é co-coordenador do escritório de Nuestra América no Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. É ex-diplomata venezuelano e atuou como vice-ministro para a América do Norte (2018–2025) e presidente do Instituto Simón Bolívar para a Paz e a Solidariedade entre os Povos (2020–2025).</small></td></tr></tbody></table>]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Intelectuais, artistas e movimentos em defesa da humanidade: uma trincheira necessária para o século XXI</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/redh-uma-trincheira-necessaria/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Amilcar]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 30 Apr 2026 08:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Nuestra América]]></category>
		<category><![CDATA[Nova Intelectualidade]]></category>
		<category><![CDATA[batalha de ideias]]></category>
		<category><![CDATA[América Latina]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://thetricontinental.org/?p=141350</guid>

					<description><![CDATA[É fundamental abordar o tema da segurança pública sem ilusões para o desenvolvimento saudável de uma sociedade. O campo popular não pode ignorar esse desafio, nem minimizá-lo.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_141300" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-141300" class="size-large wp-image-141300 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/1_Taller-4-Rojo-1024x725.jpg" alt="" width="1024" height="725" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/1_Taller-4-Rojo-1024x725.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/1_Taller-4-Rojo-300x212.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/1_Taller-4-Rojo-768x544.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/1_Taller-4-Rojo-1536x1087.jpg 1536w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/1_Taller-4-Rojo.jpg 2000w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-141300" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Taller 4 Rojo (Colômbia), A luta é longa — vamos começar agora, 1973.</small></p></div>
</div>
<p><em>Saudações desde o Escritório Nuestra América do </em><a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/"><em>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.</em></a></p>
<p><em>O teórico marxista libanês Mahdi Amel assinalou que o intelectual “que não luta pela revolução em todo momento é um falso intelectual, e seu intelecto é enganoso e superficial”. Em tempos de ofensiva </em><a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/estudos-sobre-dilemas-contemporaneos-4-hiper-imperialismo/"><em>hiperimperialista </em></a><em>e de avanço da direita neofascista, torna-se ainda mais urgente que a intelectualidade em Nuestra América mantenha viva sua convicção revolucionária. Há 22 anos, um grupo de intelectuais, artistas e militantes de movimentos sociais vem acompanhando os processos revolucionários e populares, defendendo a aspiração a uma sociedade de dignidade para todos e todas. Para conhecer sua história e compreender melhor esse espaço, pedimos a Ximena González Broquen, coordenadora internacional da </em><a href="https://humanidadenred.org/"><em>Rede de Intelectuais, Artistas e Movimentos Sociais em Defesa da Humanidade</em></a><em> (REDH), uma contribuição para este debate. Segue abaixo.</em></p>
<p>No tecido de poder que atravessa o Sul Global, a guerra cognitiva tornou-se uma trincheira decisiva. Diante dela, existem ferramentas de resistência que transcendem o conjuntural e se erguem como faróis de esperança e ação organizada. A Rede de Intelectuais, Artistas e Movimentos Sociais em Defesa da Humanidade (REDH) é uma delas. Nasceu do abraço fundacional entre dois gigantes, Hugo Chávez e Fidel Castro, no calor da luta contra a agressão imperial e, desde então, constitui-se como um movimento de pensamento e ação, uma trincheira coletiva diante da pretensão hegemônica do imperialismo global.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">Origem: um grito do Sul diante da barbárie</h3>
<p>A origem da REDH é fruto de uma urgência histórica. No final de 2003, a comoção mundial provocada pelas guerras do Afeganistão e do Iraque atravessou como uma lâmina a consciência da América Latina. O grande pensador mexicano Pablo González Casanova, preocupado com a ofensiva imperial, convocou um encontro no México, reunindo figuras como Rigoberta Menchú, Evo Morales e Eduardo Galeano. A ideia germinou: era necessário articular uma frente global de intelectuais e artistas que colocasse sua capacidade de criar e pensar a serviço da defesa da humanidade.</p>
<p>Esse chamado culminou em dezembro de 2004, em Caracas, com o Primeiro Encontro Mundial de Intelectuais e Artistas em Defesa da Humanidade. A conferência inaugural foi realizada pelo prêmio Nobel José Saramago, e a convocatória foi um ato de afirmação anti-imperialista. Ali, mais de 300 pensadores e pensadoras de mais de 40 países se reuniram para construir, a partir da palavra e da ação, um cerco coletivo contra a dominação. Era a materialização de um sonho compartilhado, a certeza de que a inteligência crítica deveria abandonar as torres de marfim para se misturar ao sopro dos povos.</p>
<p>Sob o sol do Caribe, a voz de Chávez se fez verbo encarnado, traçando o rumo para sempre: “Esta é a ofensiva pela humanidade. Só nos enchendo de humanidade, fazendo carne e alma os valores verdadeiramente humanos, poderemos defender a humanidade e tecer futuros de libertação a partir da memória viva de nossos povos. Outro mundo é possível se nós o tornarmos possível, com o amor como valor supremo e com a convicção de que estamos no ataque pela humanidade, na ofensiva para defender esta bela humanidade.”</p>
<p>“A humanidade se trata de viver no dia a dia fazendo alma e carne com o humano, o verdadeiramente humano. Viver no humano, preencher o vazio com sentimentos e ações profundamente humanas. Os valores do ser humano e o valor sublime, o amor (…) caso contrário, não poderemos defender nenhuma humanidade. E menos ainda partir para a ofensiva por ela. Creio que este é um dos maiores desafios do mundo hoje: começando por nós mesmos, nos encher de humanidade, fazer carne, nervo, músculo, alma e corpo, a humanidade.” Essas palavras foram a certidão de nascimento de uma trincheira que ainda hoje segue de pé, sustentada pelo amor revolucionário como prática cotidiana.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_141311" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-141311" class="size-full wp-image-141311 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/2_TeleSUR.jpeg" alt="" width="1280" height="853" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/2_TeleSUR.jpeg 1280w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/2_TeleSUR-300x200.jpeg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/2_TeleSUR-1024x682.jpeg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/2_TeleSUR-768x512.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 1280px) 100vw, 1280px"><p id="caption-attachment-141311" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Comemorando o 20º aniversário da teleSUR com o Grande Concerto de Gala “O Nascimento de um Novo Mundo”, uma noite dedicada à cultura, à unidade e à resistência latino-americanas. Venezuela, 2025. Foto: La Radio del Sur.</small></p></div>
</div>
<h3 style="margin:2em 0;">Importância histórica: para além das palavras</h3>
<p>O legado da REDH é concreto. Uma de suas propostas mais ousadas, surgida naquele primeiro encontro, foi a do brasileiro Beto Almeida: criar uma emissora de televisão para o Sul. Essa ideia se materializou na TeleSur, que durante duas décadas tem sido uma trincheira informativa da nossa região, rompendo o cerco midiático imperial.</p>
<p>A REDH também criou o Prêmio Libertador ao Pensamento Crítico, um reconhecimento sem precedentes, único prêmio global que celebra a palavra que incomoda, que desafia as elites, que coloca o pensamento a serviço das lutas populares e contribui para o socialismo e a emancipação latino-americana. Em suas treze edições, homenageou Franz Hinkelammert, Enrique Dussel, István Mészáros, Marta Harnecker, Juan José Bautista e Atilio Borón, entre muitos outros, construindo um arquivo vivo da rebeldia intelectual do Sul.</p>
<p>A REDH teceu sua própria geografia: onze encontros mundiais em Caracas (Venezuela), reuniões na Itália, Bolívia e Bélgica, demonstrando que sua articulação não conhece fronteiras. Paralelamente, desenvolveu sete Fóruns Internacionais de Filosofia, onde a reflexão coletiva sobre capitalismo, socialismo, humanismo revolucionário, alienação, Estado e hegemonia tornou-se prática militante.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_141322" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-141322" class="size-full wp-image-141322 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/3_Violeta-Parra-Chilesharp_web.jpg" alt="" width="950" height="672" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/3_Violeta-Parra-Chilesharp_web.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/3_Violeta-Parra-Chilesharp_web-300x212.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/3_Violeta-Parra-Chilesharp_web-768x543.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-141322" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Violeta Parra (Chile). Sem título (inconcluso), 1966. Bordado / arpillera natural. 136 x 200 cm.</small></p></div>
</div>
<h3 style="margin:2em 0;">O REDH hoje: Na encruzilhada global</h3>
<p>As múltiplas guerras do presente — expressões do imperialismo — se entrelaçam em um mesmo emaranhado. O genocídio na Palestina, o bloqueio criminoso a Cuba, a agressão contra o Irã, as agressões multifacetadas contra a Venezuela, o saque da África — com o Congo como ferida aberta —, a exploração incessante do Haiti e o avanço de expressões neofascistas na Argentina, Chile, El Salvador e outras nações que desmontam direitos e criminalizam protestos: tudo isso compõe a hidra imperial mostrando suas cabeças. Tudo brota de uma mesma matriz imperialista, colonial e patriarcal.</p>
<p>A guerra cognitiva não busca convencer com argumentos, mas perfurar a percepção da realidade por meio de narrativas, emoções e algoritmos. Fragmenta o tecido social para impor uma premissa brutal: há vidas que importam e vidas que não. Atua no cotidiano das redes e dos meios de comunicação, desenhada para capturar atenção e reforçar identidades isoladas.</p>
<p>Diante dessa ofensiva, a REDH assume a soberania epistêmica libertadora como bússola: a capacidade dos povos de se narrar, governar e se proteger coletivamente. A partir daí, trava diversas batalhas que são um mesmo pulsar. Desmontar a fragmentação mostrando a continuidade histórica de cada agressão é lutar por uma consciência libertadora. Disputar o poder de nomear — dizer “sequestro” onde impõem “detenção” — constitui um ato de autodeterminação do pensamento. Desativar as armadilhas da divisão implica que a memória viva, como reparação histórica, fortaleça o tecido comunitário. E cultivar a confiança como ato político, pois em um mundo onde a suspeita é arma de guerra, a confiança baseada na memória compartilhada de lutas e resistências torna-se revolucionária. Assim se constrói a soberania relacional: a unidade Sul-Sul como autodefesa coletiva se estabelece como horizonte de luta da REDH.</p>
<p>A REDH se organiza em uma estrutura horizontal que materializa o princípio do comum, essa trama de autogoverno e solidariedade que atravessa Nuestra América desde tempos ancestrais. Capítulos nacionais em mais de 30 países, da América Latina à África, Oceania e Península Ibérica, e uma base de 9 mil contatos expressam essa comunalização em movimento. Seus núcleos temáticos — o Movimento Poético Mundial, Canto de Todos, o coletivo feminista “Libertadoras”, REDH Comunicação, REDH-Artistas, juventudes em rede — são células vivas de uma mesma rede de resistência, a partir das quais se co-organizam fóruns, debates, seminários, concertos e espaços de formação.</p>
<p>Em sua atuação cotidiana, seu <a href="https://humanidadenred.org/">site </a>funciona como uma ágora insurgente digital. Ali são publicadas semanalmente as colunas “Olhares desde a RED”, junto com artigos e ensaios críticos, resenhas, entrevistas, poesia militante, dossiês e comunicados de repúdio, tecendo a sororidade internacionalista como mais uma arma na ofensiva pela humanidade.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_141333" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-141333" class="size-full wp-image-141333 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/4_NO-ALCA-2025-esp_08-1.jpg" alt="" width="842" height="1191" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/4_NO-ALCA-2025-esp_08-1.jpg 842w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/4_NO-ALCA-2025-esp_08-1-212x300.jpg 212w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/4_NO-ALCA-2025-esp_08-1-724x1024.jpg 724w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/4_NO-ALCA-2025-esp_08-1-768x1086.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 842px) 100vw, 842px"><p id="caption-attachment-141333" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Cartaz da exposição “20 anos do Não à ALCA”, organizada pelo Instituto Tricontinental, ALBA Movimientos e UTOPIX, 2025.</small></p></div>
</div>
<h3 style="margin:2em 0;">Conclusão: A ofensiva pela humanidade</h3>
<p>A REDH é uma estrutura viva, um movimento em permanente construção que sabe que a defesa da humanidade não é uma abstração. Ela se joga em cada território devastado, em cada povo sitiado, em cada resistência que se levanta contra o imperialismo. Por isso ergue o grito da ofensiva: não se trata apenas de resistir, mas de criar, pensar e organizar um novo mundo de construção coletiva.</p>
<p>Que a poesia tempere o aço da aurora. Que a memória viva teça futuros de libertação. Que a rede seja cada dia mais trama, mais abraço, mais certeza de que, desde o Sul, está sendo construída uma vitória compartilhada.</p>
<p>Saudações a todas e todos,</p>
<p>Ximena González Broquen</p>
<hr style="border:none; border-top:1px solid #999; margin:32px 0 24px;" /><table style="border:none;"><tbody><tr><td width="20%" style="vertical-align:top; border:none; padding-right:24px;"><img src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/04/Ximena-González-Broquen.jpg" width="934" height="1178"></td><td style="vertical-align: middle; border:none;"><p><strong>Ximena González Broquen</strong></p><small>Ximena González Broquen é Coordenadora Internacional da Rede de Intelectuais, Artistas e Movimentos Sociais em Defesa da Humanidade (REDH). É doutora em Estudos Políticos e Filosofia e chefe do Centro de Estudos de Transformações Sociais do Instituto Venezuelano de Investigações Científicas (CETS IVIC).</small></td></tr></tbody></table>]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Os feminismos populares contra a guerra neocolonial na América Latina</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/feminismos-populares-america-latina/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ricardo Vaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 27 Mar 2026 18:51:07 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Feminist Struggle]]></category>
		<category><![CDATA[Feminismo]]></category>
		<category><![CDATA[March 8]]></category>
		<category><![CDATA[cuba]]></category>
		<category><![CDATA[Luta feminista]]></category>
		<category><![CDATA[EUA]]></category>
		<category><![CDATA[Marielle]]></category>
		<category><![CDATA[berta cáceres]]></category>
		<category><![CDATA[Beta Cárceres]]></category>
		<category><![CDATA[Latin America]]></category>
		<category><![CDATA[América Latina]]></category>
		<category><![CDATA[United States]]></category>
		<category><![CDATA[8 de março]]></category>
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					<description><![CDATA[A rede nasceu do abraço fundacional entre dois gigantes, Hugo Chávez e Fidel Castro, no calor da luta contra a agressão imperial. Desde então, constitui-se como um movimento de pensamento e ação, uma trincheira coletiva diante da pretensão hegemônica do imperialismo global.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_138413" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-138413" class="size-large wp-image-138413 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/Paulina-Veloso-Chile-724x1024.jpg" alt="" width="724" height="1024" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/Paulina-Veloso-Chile-724x1024.jpg 724w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/Paulina-Veloso-Chile-212x300.jpg 212w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/Paulina-Veloso-Chile-768x1086.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/Paulina-Veloso-Chile-1086x1536.jpg 1086w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/Paulina-Veloso-Chile.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 724px) 100vw, 724px"><p id="caption-attachment-138413" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Paulina Veloso (Chile), <i>Sin título</i>, 2021. Disponível em <a href="https://capiremov.org/multimidia/galeria/galeria-de-cartazes-feminismo-anti-imperialista-para-mudar-o-mundo/">capiremov.org</a>.</small></p></div>
</div>
<p>Saudações do Escritório Nuestra América do<a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/"> Instituto Tricontinental de Pesquisa Social</a>.</p>
<p>Neste 8 de março, dia em que o mundo honra a mulher trabalhadora, rendemos homenagem às mulheres anti-imperialistas do nosso continente. Elas, com seus corpos-territórios, seu intelecto e seus exemplos, escrevem hoje as páginas mais dignas da história contemporânea de Nuestra América.</p>
<p>Atravessamos uma etapa marcada pela agressão de Donald Trump — uma intensificação da guerra híbrida — e por uma guerra neocolonial que se desdobra por meio da impunidade financeira e do extrativismo voraz. O avanço da extrema direita na região não é casual; busca impor um modelo de espoliação no qual o peso da dívida asfixie a soberania dos povos. Diante da resistência à invasão direta e da guerra silenciosa das Medidas Coercitivas Unilaterais (MCU) contra Cuba e Venezuela, o feminismo popular emerge não apenas enquanto protesto, mas como a espinha dorsal da sobrevivência e da dignidade.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_138437" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-138437" class="size-large wp-image-138437 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/Heroinas-y-Mujeres-venezolanas-Foto-Prensa-Min-Mujer-2025-1024x768.jpg" alt="" width="1024" height="768" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/Heroinas-y-Mujeres-venezolanas-Foto-Prensa-Min-Mujer-2025-1024x768.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/Heroinas-y-Mujeres-venezolanas-Foto-Prensa-Min-Mujer-2025-300x225.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/Heroinas-y-Mujeres-venezolanas-Foto-Prensa-Min-Mujer-2025-768x576.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/Heroinas-y-Mujeres-venezolanas-Foto-Prensa-Min-Mujer-2025.jpg 1280w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-138437" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Mulheres no Monumento às Heroínas da Resistência e da Independência. Caracas, 2025. (Prensa MinMujer).</small></p></div>
</div>
<ol style="list-style-type: upper-roman;">
<li>
<h3 style="margin:2em 0;">As 3 lições da agressão Trump e da guerra neocolonial na América Latina</h3>
</li>
</ol>
<p>A história recente da Nuestra América, marcada pela sombra da Doutrina Monroe e sua atualização sob o “Corolário Trump” — que persiste como lógica de Estado em Washington —, nos deixa três lições fundamentais sobre a natureza da guerra atual contra a soberania.</p>
<ol>
<li><b> O corpo da mulher como primeiro território de defesa</b></li>
</ol>
<p>O ataque de 3 de janeiro contra a Venezuela não foi apenas uma incursão militar; foi uma afronta à dignidade de um povo que decidiu ser livre. Naquele dia, 12 mulheres entregaram suas vidas em combate. Nove delas eram soldadas, integrantes da Guarda de Honra Presidencial.</p>
<p>O imperialismo entende que, para quebrar uma nação, deve quebrar a vontade de quem sustenta o tecido social. Na guerra híbrida, a mulher não é uma vítima passiva, mas um sujeito combatente que reorganiza a vontade em cada comuna e em cada território.</p>
<p>Essa lição se firma com a semeadura de Berta Cáceres em Honduras. Há uma década, a elite extrativista acreditou que, ao assassinar Berta, apagaria a voz do povo Lenca. Não compreenderam que seu corpo, assim como o das milicianas (componente da Força Armada Nacional Bolivariana) e comuneras venezuelanas, representa a resistência contra as barragens e o capital transnacional.</p>
<p>A detenção de Cilia Flores é apresentada como mais uma tentativa de sequestrar esse símbolo de dignidade e resistência política. Detida nos Estados Unidos junto a seu companheiro e presidente venezuelano Nicolás Maduro, ela enfrenta acusações relacionadas ao narcotráfico (<a href="https://www.contextotucuman.com/nota/370459/quien-es-cilia-flores-la-esposa-de-maduro-y-tambien-detenida-en-eeuu-por-narcoterrorismo.html?utm_source=chatgpt.com">Contexto Tucumán</a>). Advogada e figura central do chavismo, foi também defensora de militares envolvidos nas insurreições de 1992, incluindo o comandante Hugo Chávez.</p>
<p>Neste dia, as mulheres do mundo pedem sua libertação e retorno à Venezuela.</p>
<ol start="2">
<li><b> A economia da resistência é feminina</b></li>
</ol>
<p>Em Cuba, a “guerra silenciosa” das MCU assumiu a forma de um cerco energético sem precedentes. Ao impedir a chegada de combustível, Washington busca transformar a vida cotidiana em um inferno de escassez. No entanto, na ilha, a resistência tem rosto de mulher. São elas que, por meio da organização popular e dos vínculos comunitários, inventam soluções diárias para sustentar a vida diante do bloqueio.</p>
<p>Essa economia da resistência não busca o lucro, mas a reprodução da vida. Enquanto o sistema financeiro internacional utiliza a dívida para disciplinar as nações, as mulheres cubanas e venezuelanas contrapõem uma economia de cuidados coletivizados. Na Venezuela, 80% das lideranças das comunas e dos conselhos comunais são mulheres. Elas decidem, planejam e executam os projetos que mantêm de pé a estrutura social sob o bloqueio. A lição é clara: o socialismo em Nuestra América sobrevive porque as mulheres transformaram o âmbito do privado em um espaço de gestão política e de resistência econômica frente à agressão imperialista.</p>
<ol start="3">
<li><b> A solidariedade e a paz como diplomacia dos povos</b></li>
</ol>
<p>A recente ação do governo de Claudia Sheinbaum no México, ao enviar navios com 1.200 toneladas de ajuda a Cuba, rompe com a lógica da submissão financeira. A “sororidade” não é apenas um conceito interpessoal, mas uma categoria política internacional.</p>
<p>Vemos isso também na mobilização de organizações populares que, desafiando pressões externas, coordenam o envio de ajuda e o apoio mútuo entre nações sitiadas. No dia 21 de março, chegou o Convoy Nuestra América, organizado por diversos movimentos e organizações populares. Essa solidariedade popular é o que permite que Cuba resista e que a Venezuela aprofunde seu modelo comunal.</p>
<p>Quando o México desafia as pressões de Washington para apoiar a ilha e quando as mulheres se autoconvocam em brigadas feministas como a Brigada Internacionalista pela Paz Cilia Flores, pratica-se um feminismo que prioriza a vida das famílias e das comunidades acima dos ditames do capital transnacional. A solidariedade é a ternura — e a estratégia — dos povos.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_138429" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-138429" class="size-large wp-image-138429 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/74_Gabriela-Barraza_Viviremos-y-venceremos-1024x1024.jpg" alt="" width="1024" height="1024" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/74_Gabriela-Barraza_Viviremos-y-venceremos-1024x1024.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/74_Gabriela-Barraza_Viviremos-y-venceremos-300x300.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/74_Gabriela-Barraza_Viviremos-y-venceremos-150x150.jpg 150w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/74_Gabriela-Barraza_Viviremos-y-venceremos-768x768.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/74_Gabriela-Barraza_Viviremos-y-venceremos.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-138429" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Gabriela Barraza (Argentina), <i>Viviremos y venceremos</i>, 2021. Disponível em <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/let-cuba-live-exhibition/">eltricontinenal.org</a>.</small></p></div>
</div>
<ol style="list-style-type: upper-roman;" start="2">
<li>
<h3 style="margin:2em 0;">As 3 tarefas às quais os feminismos populares nos convocam</h3>
</li>
</ol>
<p>O diagnóstico não basta; a conjuntura exige um plano de ação que blinde os processos populares contra a reação patriarcal e extrativista.</p>
<ol>
<li><b> Institucionalizar a gestão comunal do poder popular</b></li>
</ol>
<p>Na Venezuela, cerca de 80% das lideranças nos conselhos comunais são exercidas por mulheres. Elas são as porta-vozes de base, as que planejam projetos e executam o orçamento soberano. Diante do avanço da ultradireita, a resposta é mais poder popular. A tarefa urgente é fortalecer a Consulta Popular Nacional e o modelo de comunas. É aí que o feminismo popular realiza gestão e responde à ofensiva imperialista.</p>
<p>Devemos garantir que os recursos do território sejam geridos por quem os habita e defende, fechando caminho para a impunidade das milícias (no Brasil, grupos armados parapoliciais e paramilitares) e das estruturas ilegais de poder, como aquelas que tentaram silenciar Marielle Franco, no Brasil.</p>
<ol start="2">
<li><b> Desmantelar a impunidade do extrativismo neocolonial</b></li>
</ol>
<p>Não podemos avançar para o futuro sem fechar as feridas da impunidade. As histórias de Berta Cáceres em Honduras e de Marielle Franco no Brasil são faróis, mas também lembranças da ferocidade do capital.</p>
<p><b>Justiça para Berta:</b> dez anos após seu assassinato, a tarefa é desmantelar o modelo extrativista que mata quem defende os bens comuns. A punição dos autores intelectuais do crime segue sendo uma dívida de toda a região frente às transnacionais.</p>
<p><b>Justiça para Marielle:</b> a recente condenação dos irmãos Brazão no Brasil representa um avanço contra as milícias e o poder paraestatal. Em 2026, o Supremo Tribunal Federal condenou os mandantes do assassinato a mais de 76 anos de prisão, responsabilizando-os por organização criminosa e duplo homicídio (<a href="https://www.mpf.mp.br/o-mpf/unidades/procuradoria-geral-da-republica-pgr/noticias/stf-condena-os-mandantes-dos-assassinatos-de-marielle-franco-e-anderson-gomes-a-76-anos-de-prisao-1?utm_source=chatgpt.com">MPF</a>). A tarefa agora é erradicar as estruturas de violência política que atingem os tecidos populares e tentam silenciar mulheres negras, periféricas e dissidentes que ocupam espaços de poder.</p>
<p>Berta e Marielle nos ensinaram que defender o território indígena, camponês e afro, assim como defender a vida nas cidades, é a mesma luta. Seus nomes são bandeiras que alimentam nossa resistência cotidiana contra o patriarcado, o colonialismo, o racismo e o capitalismo.</p>
<ol start="3">
<li><b> Impulsionar a reforma agrária popular e a soberania alimentar</b></li>
</ol>
<p>Como ensinam as companheiras camponesas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, uma tarefa urgente para o feminismo popular é a defesa da terra. A reforma agrária popular é o direito das mulheres de decidir sobre a produção e as sementes frente ao agronegócio extrativista.</p>
<p>Para as mulheres, a terra é o espaço de reprodução da cultura e da vida. Sem soberania alimentar, a soberania nacional está incompleta. Devemos fortalecer os laços entre as camponesas e as trabalhadoras urbanas para garantir que o alimento seja um direito, e não uma mercadoria subordinada à lógica da dívida.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="size-large wp-image-138461 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/Berta-Marielle-1024x512.jpg" alt="" width="1024" height="512" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/Berta-Marielle-1024x512.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/Berta-Marielle-300x150.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/Berta-Marielle-768x384.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/Berta-Marielle-1536x768.jpg 1536w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/03/Berta-Marielle.jpg 1600w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"></p>
</div>
<ol style="list-style-type: upper-roman;" start="3">
<li>
<h3 style="margin:2em 0;">Mensagem de Berta Cáceres</h3>
</li>
</ol>
<p>Para as mulheres em Nuestra América, a luta é pela própria vida. Berta Cáceres, guardiã dos rios e da dignidade dos povos, nos deixou um mandato que sacode a consciência de todo o continente:</p>
<blockquote><p>Despertemos, humanidade! Já não há tempo. Nossas consciências serão abaladas pelo fato de estarmos contemplando a autodestruição baseada no capitalismo, no racismo e no patriarcado. Em nossas cosmovisões, somos seres que surgem da terra, da água e do milho. Dos rios somos guardiãs ancestrais… Demos a vida, se necessário, pela defesa da humanidade e do planeta!</p></blockquote>
<p>Esse grito de Berta é nossa bússola. Diante da agressão neocolonial, nossa resposta é a unidade, a defesa de nossa terra e a rebeldia inquebrantável.</p>
<p><b>Viva as mulheres que lutam! Viva Nuestra América livre e soberana! Venceremos!</b></p>
<p>Saudações a todos e todas,</p>
<p>Carmen Navas, Maisa Bascuas e Pilar Troya</p>
<hr style="border:none; border-top:1px solid #999; margin:32px 0 24px;" /><table style="border:none;"><tbody><tr><td width="20%" style="vertical-align:top; border:none; padding-right:24px;"><img src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/08/Carmen.jpg" width="300" height="300"></td><td style="vertical-align: middle; border:none;"><p><strong>Carmen Navas</strong></p><small>Carmen Navas é uma cientista política venezuelana e pesquisadora do Escritório Nuestra América do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.</small></td></tr></tbody></table><hr style="border:none; border-top:1px solid #999; margin:32px 0 24px;" /><table style="border:none;"><tbody><tr><td width="20%" style="vertical-align:top; border:none; padding-right:24px;"><img src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Buenos-Aires_Maisa-e1627398964213.png" width="500" height="500"></td><td style="vertical-align: middle; border:none;"><p><strong>Maisa Bascuas</strong></p><small>Maisa Bascuas é uma cientista política argentina, professora e pesquisadora da Universidade de Buenos Aires e co-coordenadora do Departamento de Feminismos do Sul Global do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.</small></td></tr></tbody></table><hr style="border:none; border-top:1px solid #999; margin:32px 0 24px;" /><table style="border:none;"><tbody><tr><td width="20%" style="vertical-align:top; border:none; padding-right:24px;"><img src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/Inter-regional_Pilar-e1627396408577.png" width="500" height="500"></td><td style="vertical-align: middle; border:none;"><p><strong>Pilar Troya</strong></p><small>Pilar Troya é pesquisadora e ativista feminista equatoriana. Ela tem trabalhado com políticas públicas de igualdade e o movimento de mulheres e é co-coordenadora do Departamento de Feminismos do Sul Global do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.</small></td></tr></tbody></table>]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Um dia para ler um “livro vermelho” e alimentar nossa indignação e luta</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/boletim-na-dia-livros-vermelhos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ricardo Vaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 26 Feb 2026 05:25:11 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Marx]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Arte]]></category>
		<category><![CDATA[Communist Manifesto]]></category>
		<category><![CDATA[manifesto comunista]]></category>
		<category><![CDATA[red books day]]></category>
		<category><![CDATA[culture]]></category>
		<category><![CDATA[Dia dos Livros Vermelhos]]></category>
		<category><![CDATA[art]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://thetricontinental.org/newsletter-na-red-books-day/</guid>

					<description><![CDATA[Para quebrar uma nação, o imperialismo entende que é preciso quebrar a vontade de quem sustenta o tecido social. Na guerra híbrida, a mulher não é uma vítima passiva, mas um sujeito combatente que reorganiza a vontade em cada comuna e em cada território.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_136328" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-136328" class="size-large wp-image-136328 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/kael-abello-819x1024.jpg" alt="" width="819" height="1024" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/kael-abello-819x1024.jpg 819w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/kael-abello-240x300.jpg 240w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/kael-abello-768x960.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/kael-abello.jpg 1080w" sizes="auto, (max-width: 819px) 100vw, 819px"><p id="caption-attachment-136328" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Ilustração de Kael Abello (Venezuela/Utopix) para o <a href="https://www.iulp.org/en/red-books-day">calendário do Dia dos Livros Vermelhos 2026</a>.</small></p></div>
</div>
<p>Saudações do Escritório Nuestra América do<a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/"> Instituto Tricontinental de Pesquisa Social</a>,</p>
<p>Um dos principais valores do neoliberalismo é o individualismo e ele moldou as gerações que surgiram a partir de sua implementação no mundo. A frase de Margareth Tatcher é a síntese ideológica desse projeto que procurava minar toda a vida coletiva: “A sociedade não existe, o que existe são os indivíduos”. Este é um dos fundamentos, em termos sociais, da fase atual do capitalismo que concentra cada vez mais riqueza na mão de poucos tornando a vida para a maior parte da população mundial cada vez mais insustentável. Essa lógica de acumulação só pode ser sustentada por uma política cada vez autoritária e violenta, da qual é exemplo os vários regimes de extrema direita no mundo, mas principalmente a da maior potência imperialista, os EUA. Seu governo patrocina o genocídio do povo palestino, o sequestro de um presidente legitimamente eleito e o bloqueio econômico assassino a Cuba  na tentativa de sufocar essa experiência revolucionária, além de muitas outras guerras ao redor do mundo.</p>
<p>Em contraposição a isso, as classes trabalhadoras, os povos de todo o mundo resistem de forma coletiva por meio de sua organização em movimentos, partidos, sindicatos e coletivos. Estes têm como objetivo lutar contras as desigualdades de todo tipo sociais, de gênero e sexualidade, raciais e de classe. Na Nuestra América essa tradição de luta remonta ao período da colonização quando os europeus invadiram nossos territórios para roubar daqui nossas riquezas, não sem resistência por parte dos povos originários que aqui viviam, como bem demonstra Eduardo Galeano em seu clássico <i>As veias abertas da América Latina</i>.</p>
<p>O projeto histórico de emancipação dos trabalhadores e trabalhadoras tem como base principal a teoria social elaborada Karl Marx e Friedrich Engels, dois revolucionários alemães cuja principal preocupação e objetivo na vida era a de construir a de destruir o capitalismo e construir uma sociedade que  não se baseasse na exploração de um ser humano por outro.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_136312" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-136312" class="size-large wp-image-136312 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/shenby-g-819x1024.jpg" alt="" width="819" height="1024" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/shenby-g-819x1024.jpg 819w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/shenby-g-240x300.jpg 240w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/shenby-g-768x960.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/shenby-g.jpg 1080w" sizes="auto, (max-width: 819px) 100vw, 819px"><p id="caption-attachment-136312" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Ilustração de shenby g (Estados Unidos) para o calendário do Dia dos Livros Vermelhos 2026.</small></p></div>
</div>
<p>Em 21 de fevereiro de 1848 foi publicado em Londres um pequeno panfleto com menos de 30 páginas que mudou a história da sociedade e das lutas sociais, o Manifesto do Partido Comunista. Nesse pequeno texto, escrito como programa político de uma organização internacional de trabalhadores – a Liga Comunista – os dois autores fazem uma análise do, então, nascente capitalismo evidenciando suas potencialidades e limites. Ali, eles destacam principalmente a possibilidade e a necessidade da organização dos trabalhadores para construir uma nova sociedade.</p>
<p>Este texto inspirou todos os processos revolucionários desde então na Rússia, na China, em Cuba, no Vietnã, Nicarágua, nas lutas de libertação do continente africano entre outros. Nos países do Sul Global o desenvolvimento dessa tradição foi sendo enriquecido com os elementos da luta dos povos de cada região se configurando como uma síntese entre prática política e teoria revolucionária, lembrando a formulação de V. I. Lenin de que sem “teoria revolucionária não existe movimento revolucionário”.</p>
<p>Na Nuestra America o peruano José Carlos Mariátegui fez uma interpretação criativa da tradição marxista chegando a conclusão que o nosso socialismo não pode ser “nem decalque nem cópia, mas sim uma criação heroica” dos nossos povos. E essa construção tem sido feita a partir das experiências históricas de Cuba, Chile, Nicarágua, Venezuela e das lutas de resistência dos povos do nosso continente.</p>
<p>Essa tradição se mantém viva na Nuestra América pela ação organizada de movimentos populares camponeses e urbanos que mantém acesa a chama da revolução e da construção do projeto histórico dos trabalhadores por meio da organização e da luta popular. Essas forças sociais compreendem como fundamental também aquilo que o comandante em chefe da revolução cubana chamou de Batalha das Ideias, a disputa por corações e mentes para a construção de uma nova sociedade.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_136320" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-136320" class="size-large wp-image-136320 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/ignacio-minaverry-819x1024.jpg" alt="" width="819" height="1024" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/ignacio-minaverry-819x1024.jpg 819w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/ignacio-minaverry-240x300.jpg 240w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/ignacio-minaverry-768x960.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/ignacio-minaverry.jpg 1080w" sizes="auto, (max-width: 819px) 100vw, 819px"><p id="caption-attachment-136320" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Ilustração de Ignacio Minaverry (Argentina) para o calendário do Dia dos Livros Vermelhos 2026.</small></p></div>
</div>
<p>Martha Harnecker, umas das principais marxistas de Nuestra America dedicou sua vida a refletir sobre os diversos processos revolucionários para se avançar na transformação social em nosso continente. Após a implementação do neoliberalismo e analisando a temporária derrota das forças de esquerda em nossa região ela identificou três grandes crises: de projeto, programática e organizativa. Superar essas três crises é um desafio prático e teórico.</p>
<p>Inspirados por essa tradição de luta, diversas organizações populares ao redor do mundo, a partir do chamado de algumas editoras de esquerdas organizadas na União Internacional das Editoras de Esquerda, desde 2020, passaram a comemorar o Dia dos Livros Vermelhos. Um dia para celebrarmos a cultura de esquerda materializada nos livros que questionam a lógica do capital, que anunciam a construção de uma nova sociedade e contribuem para a superação do capitalismo. É uma data também para questionarmos na prática o valor do individualismo tão destacado pelo neoliberalismo e recuperarmos a vida coletiva. É um dia de encontro em que as pessoas se reúnem para ler coletivamente Livros Vermelhos que alimentam nossa indignação e nossa luta.</p>
<p>Nesses 5 anos de realização do Dia dos Livros vermelhos, milhões de pessoas em todas as regiões do mundo desde o Chile até o o Coreia do Sul, participaram da celebração do Dia dos Livros Vermelhos fortalecendo com isso a cultura e as ideias de esquerda que tem como primazia a vida, o ser humano e a coletividade.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_136304" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-136304" class="size-large wp-image-136304 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/cesar-mosquera-819x1024.jpg" alt="" width="819" height="1024" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/cesar-mosquera-819x1024.jpg 819w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/cesar-mosquera-240x300.jpg 240w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/cesar-mosquera-768x960.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/02/cesar-mosquera.jpg 1080w" sizes="auto, (max-width: 819px) 100vw, 819px"><p id="caption-attachment-136304" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Ilustração de César Mosquera (Venezuela/Utopix) para o calendário do Dia dos Livros Vermelhos 2026.</small></p></div>
</div>
<p>Em 2026 celebramos o centenário de Fidel Castro e os 60 anos da Conferência Tricontinental, realizada em Havana, ao mesmo tempo que nos colocamos em extremo alerta contra a ofensiva imperialista que segue o genocídio em Gaza e invade países soberanos e sequestra presidentes. Neste sentido, convidamos a todos e todas para se juntar a essa iniciativa de celebrar a vida coletiva, recuperando assim um valor central da sociedade que queremos construir, e de divulgar as ideias que questionam o regime de morte do capital e anunciam a esperança de uma nova sociedade.</p>
<p>Essa é uma importante maneira de fortalecermos a luta de nossos povos e o espírito internacionalismo, relembrando duas formulações de José Marti, o apóstolo da independência cubana, de que “uma trincheira de ideias vale mais que uma trincheira de pedras” e de que “pátria é humanidade”.  Se reunir para ler livros vermelhos no dia 21 de fevereiro tem este sentido e mantém viva a nossa esperança da construção de uma sociedade em que viveremos não mais a partir da exploração de um ser humano por outro, mas, como formulou Marx, “de cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades!”</p>
<p>Saudações a todos e todas,</p>
<p>Miguel Yoshida</p>
<hr style="border:none; border-top:1px solid #999; margin:32px 0 24px;" /><table style="border:none;"><tbody><tr><td width="20%" style="vertical-align:top; border:none; padding-right:24px;"><img src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/Brazil_Miguel-Y-2.png" width="950" height="950"></td><td style="vertical-align: middle; border:none;"><p><strong>Miguel Yoshida</strong></p><small>Miguel es Membro da oficina Nuestra América, en Brasil, investigador del departamento de arte de tricontinental y editor de Expressão Popular.</small></td></tr></tbody></table>]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Três lições do efeito Trump, 2 tarefas para o futuro e 1 mensagem de Bolívar</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/boletim-na-corolario-trump-bolivar/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ricardo Vaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 29 Jan 2026 05:00:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Novas Direitas]]></category>
		<category><![CDATA[Nuestra América]]></category>
		<category><![CDATA[Guerra]]></category>
		<category><![CDATA[Doutrina Monroe]]></category>
		<category><![CDATA[Hiperimperialismo]]></category>
		<category><![CDATA[Clima en el Sur Global]]></category>
		<category><![CDATA[Nuevas Derechas]]></category>
		<category><![CDATA[Clima Sul Global]]></category>
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					<description><![CDATA[Há 5 anos, milhões de pessoas em todo o mundo participaram do Dia dos Livros Vermelhos, fortalecendo a cultura e as ideias de esquerda que tem como primazia a vida, o ser humano e a coletividade.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_135393" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-135393" class="size-large wp-image-135393 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/ELIAS-TANO-pueblo-digno-731x1024.jpeg" alt="" width="731" height="1024" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/ELIAS-TANO-pueblo-digno-731x1024.jpeg 731w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/ELIAS-TANO-pueblo-digno-214x300.jpeg 214w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/ELIAS-TANO-pueblo-digno-768x1075.jpeg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/ELIAS-TANO-pueblo-digno-1097x1536.jpeg 1097w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/ELIAS-TANO-pueblo-digno.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 731px) 100vw, 731px"><p id="caption-attachment-135393" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Elías Taño (Tenerife), <em>Aquí hay un pueblo digno</em>, 2026.</small></p></div>
</div>
<p>Saudações do Escritório Nuestra América do<a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/"> Instituto Tricontinental de Pesquisa Social</a>,</p>
<p>No dia 3 de janeiro de 2026, os Estados Unidos executaram uma operação militar de grande escala contra a Venezuela, denominada por Washington de “Operação Determinação Absoluta”. Essa ação de guerra da maior potência militar do mundo contra a Revolução Bolivariana deixou ao menos 100 mortos — entre eles 32 internacionalistas cubanos —, mais de uma centena de feridos, danos à infraestrutura militar e civil do país (como depósitos de medicamentos para pacientes renais) e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama e deputada Cilia Flores, que hoje permanecem detidos como prisioneiros de guerra na cidade de Nova York.</p>
<p>No entanto, ao contrário do que imaginaria qualquer analista político ou historiador, o governo revolucionário não foi derrubado. Ele segue de pé e lidera uma resistência organizada para preservar a paz, a estabilidade e a soberania do país. Esse fato, aparentemente paradoxal, revela as contradições internas do projeto imperial e a força dos processos enraizados na organização popular.</p>
<p>A brutalidade do ataque poderia ter nos surpreendido, mas os sinais já o anunciavam com clareza. O Projeto 2025, elaborado pela Heritage Foundation e seus aliados para preparar um exército de burocratas ideologicamente comprometidos com o segundo governo Trump, recomendava uma “re-hemisferização” do continente. A Estratégia de Segurança Nacional, publicada semanas antes, reavivava a doutrina Monroe e lhe acrescentava um corolário Trump: os Estados Unidos tomarão todas as medidas necessárias — incluindo o uso unilateral da força militar — para garantir que nenhuma potência estrangeira possa se apropriar dos recursos do continente americano que consideram de seu interesse. Na prática, isso significa que condicionarão a soberania das nações do continente à sua disposição de atender às necessidades da superpotência.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_135417" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-135417" class="size-large wp-image-135417 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/ivan-lira-TRUMP-1-819x1024.png" alt="" width="819" height="1024" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/ivan-lira-TRUMP-1-819x1024.png 819w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/ivan-lira-TRUMP-1-240x300.png 240w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/ivan-lira-TRUMP-1-768x960.png 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/ivan-lira-TRUMP-1.png 1080w" sizes="auto, (max-width: 819px) 100vw, 819px"><p id="caption-attachment-135417" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Iván Lira (Venezuela), <em>Dtrump</em>, 2025.</small></p></div>
</div>
<p>Do novo corolário Trump à doutrina Monroe, podemos extrair três lições:</p>
<p><strong>1. A ofensiva do hiperimperialismo é brutal e busca impor uma nova ordem mundial por meio da força.</strong> Começou em setembro de 2025 com execuções extrajudiciais de supostos narcotraficantes em alto-mar — alguns deles pescadores colombianos e trinitensis, como denunciou o presidente da Colômbia, Gustavo Petro — e iniciou o ano com um ataque militar que, em menos de duas horas, violou a Carta das Nações Unidas, o Estatuto de Roma e a própria Constituição dos Estados Unidos, que reserva ao Congresso a prerrogativa exclusiva de declarar guerra.</p>
<p>A política de “paz através da força” é o novo método para avançar a agenda estadunidense. Ficaram no passado as tentativas de cooptar organismos multilaterais e instrumentalizá-los, assim como o chamado “ordenamento baseado em regras”, que Washington invocava de forma seletiva. Já não é necessário manter aparências. O imperialismo conta com sua força bruta para criar uma nova ordem internacional, e quem quiser disputá-la terá de demonstrar a sua. Enquanto isso, os Estados Unidos reconfiguram seu domínio sobre o continente: intervieram nas eleições da Argentina e de Honduras, ameaçam a Colômbia e o México com operações antinarcóticos em seus territórios, exigem de Cuba um acordo “antes que seja tarde demais”, expandem sua presença militar no Equador, no Panamá (buscando exercer controle sobre o Canal) e no Haiti (impulsionando na ONU uma “força de supressão de gangues”) e, mais recentemente, lançam um ultimato à Dinamarca e a outros aliados da OTAN para que cedam o controle da Groenlândia ou o tomarão “pela força”.</p>
<p><strong>2. O novo estado de ânimo do Sul Global se fortalece a partir de conquistas concretas dos povos, não do idealismo nem da timidez:</strong> apesar do avassalador poderio militar, os Estados Unidos não ocuparam militarmente a Venezuela nem derrubaram o governo. A estabilidade do país tem sido garantida pela Revolução Bolivariana, um projeto alternativo à lógica imperialista que conseguiu se consolidar por meio da organização territorial (comunas), da criatividade produtiva, da participação política e da consciência social.</p>
<p>Existe um novo estado de ânimo no Sul Global, contrário à ação unilateral e favorável à cooperação por meio do multilateralismo e da unidade regional para enfrentá-la. A solidariedade desempenha um papel fundamental, e a defesa da soberania da Venezuela fez-se sentir em espaços tão distantes quanto Kerala, Roma, Pretória ou Havana, para citar apenas alguns dos centenas de lugares que manifestaram sua rejeição ao ataque estadunidense. O que esses povos defendem é o direito de existirem alternativas políticas reais e transformadoras. São esses projetos que podem liderar um novo futuro para o Sul Global. Em dezembro, foi realizada no Rio de Janeiro uma Cúpula Popular do BRICS, na qual o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e outros movimentos defenderam a formulação de propostas concretas para tornar realidade projetos de cooperativas e empresas sociais. São as transformações verdadeiras — e não propostas inalcançáveis por seu idealismo ou tímidas ao confrontar os esquemas de dominação — que geram estabilidade e unidade.</p>
<p><strong>3. A nova direita ocupa cada vez mais espaços, mas é facilmente descartável na ofensiva hiperimperialista.</strong> Os Estados Unidos surpreenderam ao impor um aumento de tarifas contra o Brasil e medidas coercitivas unilaterais contra o ministro da Suprema Corte Alexandre de Moraes, responsável pela condenação de Jair Bolsonaro. Por meio de ameaças nas redes sociais e na imprensa, o governo Trump acusou as instituições brasileiras e o próprio governo de perseguição ao seu principal aliado no país.</p>
<p>No entanto, com Bolsonaro condenado, o hiperimperialismo rapidamente mudou sua estratégia, promovendo um diálogo com Lula. Em uma operação semelhante, María Corina Machado, que recebeu o Prêmio Nobel da Paz após indicação do próprio secretário de Estado, foi descartada como opção política na Venezuela por não contar com apoio ou legitimidade suficientes. Embora as direitas estejam ocupando os espaços deixados abertos pelas fragilidades do campo popular, o hiperimperialismo não hesitará em descartá-las diante de qualquer conjuntura estratégica. Isso revela que devemos trabalhar urgentemente por um projeto mínimo comum que permita avançar as causas populares sem depender das contradições internas do campo inimigo.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_135409" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-135409" class="size-large wp-image-135409 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/OLFEr-abyayala-contra-trump-742x1024.jpg" alt="" width="742" height="1024" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/OLFEr-abyayala-contra-trump-742x1024.jpg 742w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/OLFEr-abyayala-contra-trump-217x300.jpg 217w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/OLFEr-abyayala-contra-trump-768x1060.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/OLFEr-abyayala-contra-trump-1112x1536.jpg 1112w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/OLFEr-abyayala-contra-trump.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 742px) 100vw, 742px"><p id="caption-attachment-135409" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Olfer Leonardo (Perú), <em>Abyayala contra Trump</em>, 2026.</small></p></div>
</div>
<p>Em <i>O Dezoito Brumário de Luís Bonaparte</i>, Marx nos lembra que “os homens fazem sua própria história, mas não a fazem de livre arbítrio, sob circunstâncias escolhidas por eles mesmos, e sim sob aquelas circunstâncias com que se deparam diretamente”. Depois deste início abrupto de 2026, assumamos as tarefas históricas diante das circunstâncias que nos coube viver:</p>
<p><b>1. Não basta a multipolaridade, devemos buscar o “equilíbrio do universo”: </b>Há duzentos anos foi realizado o Congresso Anfictiônico do Panamá, que tentou criar a unidade do continente americano para salvaguardar sua independência e soberania. Diferente do pan-americanismo impulsionado a partir de Washington, esse congresso não pretendia impor uma tutela, mas apostava em alcançar aquilo que Bolívar concebia como o equilíbrio do universo: “(…) todas estas partes [do mundo] devem buscar estabelecer uma balança entre elas e a Europa, para destruir a preponderância desta última”. A ordem mundial construída após a Guerra Mundial Antifascista dividiu o mundo em zonas de influência a serem repartidas na Guerra Fria. O que precisamos construir hoje, mais do que uma simples multipolaridade, é um equilíbrio entre todos os atores internacionais que garanta a cooperação, o desenvolvimento justo e compartilhado e a resolução das grandes ameaças, como a guerra e a mudança climática.</p>
<p><b>2. Nossa luta deve ser comum e simultânea: </b>Há 60 anos realizou-se a Conferência Tricontinental de Havana, onde pela primeira vez se uniram as lutas do que hoje chamamos de Sul Global. Ali, o comandante Fidel Castro apresentou, em seu discurso de encerramento, uma fórmula que segue mais atual do que nunca:</p>
<blockquote><p>“Na América Latina não deve restar um, nem dois, nem três povos lutando sozinhos contra o imperialismo. A correlação de forças dos imperialistas neste continente, a proximidade de seu território metropolitano, o zelo com que tratarão de defender seus domínios nesta parte do mundo, exige neste continente, mais do que em qualquer outra parte, uma estratégia comum, uma luta comum e simultânea”.</p></blockquote>
<p>Durante o mês de maio de 2026, e no marco do centenário de Fidel, será realizada em Cuba a IV Assembleia Continental da ALBA Movimentos. Será o cenário propício para que os movimentos e as organizações populares do continente, com uma visão realista dos desafios, tracem uma nova estratégia de luta comum e simultânea para preservar a soberania e a dignidade frente ao avanço hiperimperialista.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_135401" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-135401" class="size-large wp-image-135401 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/kael-venceremos-731x1024.jpg" alt="" width="731" height="1024" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/kael-venceremos-731x1024.jpg 731w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/kael-venceremos-214x300.jpg 214w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/kael-venceremos-768x1075.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/kael-venceremos-1097x1536.jpg 1097w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/01/kael-venceremos.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 731px) 100vw, 731px"><p id="caption-attachment-135401" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Kael Abello (Venezuela), <em>Venceremos: Bolívar vs Donroe</em>, 2026.</small></p></div>
</div>
<p><b>Uma mensagem de Bolívar: </b>Em 1825, poucos meses após a Batalha de Ayacucho, que selou definitivamente a independência sul-americana do império espanhol, a França cogitava uma invasão à Colômbia. Bolívar, à frente do Peru, enviou a Santander, na Colômbia, uma carta dura, carregada de realismo, pragmatismo e, sobretudo, visão estratégica.</p>
<p>Diante da superioridade militar francesa, recomendava não resistir frontalmente para evitar maior destruição ao país. Preferia recuar para o sul e iniciar uma guerra de guerrilhas; e, em torno de um ou dois anos, começar a guerra ativa que traria a vitória. Bolívar defendia a unidade do Congresso Anfictiônico e o fortalecimento de alianças com potências estrangeiras, enquanto considerava medidas mais sagazes. “Ainda que sacrifique minha popularidade e minha glória, quero salvar a Colômbia de seu extermínio nesta nova guerra. Se me sair bem, ficarei satisfeito, e se me sair mal, também, porque terei dado o último passo de salvação”.</p>
<p>O cenário hoje, francamente, não é alentador. A incursão militar na Venezuela e o sequestro de seu presidente foram um golpe duro; também o são as ameaças a outros países ao longo da região, as derrotas eleitorais, os desafios econômicos e sociais e a ausência de um projeto mínimo comum para os novos tempos.</p>
<p>Mas, ao mesmo tempo, Nuestra América não é uma região subjugada. A paciência deve ser estratégica e a determinação inquebrantável, mesmo diante da adversidade. É tempo de construir um novo momento mais favorável a partir das conquistas alcançadas. Como escreveu o Libertador em sua carta: “devemos saber perder no início, para saber ganhar depois”.</p>
<p>Saudações a todos e todas,</p>
<p>Carlos Ron</p>
<hr style="border:none; border-top:1px solid #999; margin:32px 0 24px;" /><table style="border:none;"><tbody><tr><td width="20%" style="vertical-align:top; border:none; padding-right:24px;"><img src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/08/Carlos.jpg" width="300" height="300"></td><td style="vertical-align: middle; border:none;"><p><strong>Carlos Ron</strong></p><small>Carlos Ron é co-coordenador do Escritório de Nuestra América do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.</small></td></tr></tbody></table>]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A falsa Geração Z e o fascismo mexicano</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/boletim-na-genz-fascismo-mexico/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ricardo Vaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 31 Dec 2025 08:00:09 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Geração Z]]></category>
		<category><![CDATA[América Latina]]></category>
		<category><![CDATA[fascismo]]></category>
		<category><![CDATA[Mexico]]></category>
		<category><![CDATA[Gen Z]]></category>
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					<description><![CDATA[No dia 3 de janeiro de 2026, os Estados Unidos executaram uma operação militar de grande escala contra a Venezuela, denominada por Washington de “Operação Determinação Absoluta”. Essa ação de guerra da maior potência militar do mundo contra a Revolução Bolivariana deixou ao menos 100 mortos — entre eles 32 internacionalistas cubanos —, mais de uma centena de feridos, danos à infraestrutura militar e civil do país (como depósitos de medicamentos para pacientes renais) e o sequestro do presidente Nicolás&hellip;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><div id="attachment_134015" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-134015" class="size-large wp-image-134015 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/David-Alfaro-Siqueiros-1024x768.jpg" alt="" width="1024" height="768" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/David-Alfaro-Siqueiros-1024x768.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/David-Alfaro-Siqueiros-300x225.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/David-Alfaro-Siqueiros-768x576.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/David-Alfaro-Siqueiros.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-134015" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>David Alfaro Siqueiros (México), <em>El nacimiento del fascismo [O nascimento do fascismo]</em>, 1936.</small></p></div></div>
<p>Saudações do escritório Nuestra América do<a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/"> Instituto Tricontinental de Pesquisa Social</a>.</p>
<p><i>No mês passado, em novembro, o México passou por protestos organizados pela direita sob o disfarce de ‘Geração Z’, promovendo táticas violentas e uma agenda de extrema direita contra o atual governo mexicano. Para compreender o contexto desses acontecimentos, convidamos o bacharel em Relações Internacionais Rodrigo Guillot, militante do Movimento de Regeneração Nacional (Morena) do México.</i></p>
<p>Em novembro de 2025, a direita mexicana convocou uma marcha em todas as capitais do México sob a bandeira do anime <i>One Piece</i>, que havia sido usada recentemente por manifestantes nepaleses – majoritariamente jovens – para protestar contra medidas restritivas daquele governo. A aposta em uma imagem estrangeira e descontextualizada da realidade mexicana parece bizarra, porque de fato o é. Trata-se de um sintoma da falta de causas concretas e de identidades próprias que os setores reacionários no México vêm experimentando desde a chegada da <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-mexico-quarta-transformacao/">Quarta Transformação em 2018</a>.</p>
<p>Durante o período de López Obrador (2018–2024), os mesmos atores políticos que saíram às ruas no último mês de novembro realizaram manifestações semelhantes, sobretudo contra o que eles entendiam enquanto a destruição das instituições liberais: um processo de devolução de capacidades estatais iniciado por Obrador, em oposição aos preceitos neoliberais que governaram o país durante os 30 anos que precederam o início de seu governo.</p>
<p>O caráter dos protestos contra o governo progressista de Cláudia Sheinbaum mudou da mesma forma que o cenário geopolítico. Em um mundo no qual as direitas têm apostado com êxito na via do fascismo, na política de identidades xenófobas e no apelo à sociedade de livre mercado levada ao extremo, a direita mexicana abandonou o discurso de defesa institucional e optou pelo da liberdade. O grande articulador dessa guinada é Ricardo Salinas Pliego, proprietário do Banco Azteca, da rede de Lojas Elektra (conhecida por oferecer créditos impagáveis aos setores de menor poder aquisitivo) e concessionário da TV Azteca, uma das duas redes de televisão mais poderosas do México.</p>
<p>Durante a reta final do mandato de Andrés Manuel e nos primeiros meses do governo de Claudia, o empresário endureceu sua postura de oposição ao governo mexicano devido a um litígio contra ele, que poderia obrigá-lo a pagar 3,5 bilhões de pesos mexicanos — pouco mais de 192 milhões de dólares — em impostos atrasados. Para se contrapor a esta ofensiva, Salinas ameaçou a se tornar candidato à presidente, ideia que agrada alguns setores dos partidos políticos da direita mexicana.</p>
<p>Durante o processo de convocação da marcha de novembro, porém, o México foi abalado pelo assassinato do prefeito de Uruapan, Michoacán, Carlos Manzo, conhecido por enfrentar o crime organizado em seu estado. Os organizadores da marcha de oposição se aproveitaram do episódio para colocar no centro da pauta a demanda por segurança dirigida ao governo mexicano, e incluíram em seus protestos a imagem do prefeito assassinado. A esposa de Carlos Manzo, Grecia Quiroz, que assumiu a prefeitura interina de Uruapan, viu-se obrigada a se desvincular publicamente da marcha.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><div id="attachment_134025" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-134025" class="size-large wp-image-134025 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Cucarachas-fascistas.Intervenciones-en-las-calles-de-la-ciudad-de-Oaxaca-mayo-2025-1024x1024.jpeg" alt="" width="1024" height="1024" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Cucarachas-fascistas.Intervenciones-en-las-calles-de-la-ciudad-de-Oaxaca-mayo-2025-1024x1024.jpeg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Cucarachas-fascistas.Intervenciones-en-las-calles-de-la-ciudad-de-Oaxaca-mayo-2025-300x300.jpeg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Cucarachas-fascistas.Intervenciones-en-las-calles-de-la-ciudad-de-Oaxaca-mayo-2025-150x150.jpeg 150w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Cucarachas-fascistas.Intervenciones-en-las-calles-de-la-ciudad-de-Oaxaca-mayo-2025-768x768.jpeg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Cucarachas-fascistas.Intervenciones-en-las-calles-de-la-ciudad-de-Oaxaca-mayo-2025.jpeg 1080w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-134025" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Coletivo Subterráneos (México), <em>Cucarachas fascistas [Baratas fascistas]</em>, 2025.</small></p></div></div>
<p>Como resultado, no dia 15 de novembro, em diferentes cidades do país, diversos agrupamentos e setores de oposição ao governo mexicano se reuniram para marchar e se concentrar nas praças públicas, sem que houvesse uma causa comum ou um discurso unificado, exceto o chamado à derrubada da presidenta Claudia Sheinbaum. No Zócalo da Cidade do México, a principal praça pública do país, pessoas encapuzadas e armadas com ferramentas metálicas e correntes agrediram fisicamente integrantes da polícia.</p>
<p>Em geral, a oposição tem se caracterizado pelo uso violento da linguagem, mas ao longo dos seis anos do governo de López Obrador, não havia ocorrido nenhum episódio de violência física durante as manifestações opositoras. Esse fato coincide com a guinada estratégica da direita mexicana e está sendo investigado pelo Congresso da Cidade do México, uma vez que há indícios de que dois prefeitos do Partido da Ação Nacional teriam financiado os agressores.</p>
<p>Sem dúvida, a oposição mexicana considerou as manifestações um sucesso. No dia seguinte já se convocava uma segunda marcha para 20 de novembro, na Cidade do México, cujo percurso coincidia com o caminho percorrido pelo desfile militar que ocorre justamente nessa data para celebrar o aniversário da Revolução Mexicana. A presidenta anunciou uma mudança na rota do desfile, a fim de evitar qualquer ato violento, mas o episódio evidencia a determinação da direita em provocar a violência.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><div id="attachment_134045" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-134045" class="size-large wp-image-134045 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Frida-812x1024.jpg" alt="" width="812" height="1024" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Frida-812x1024.jpg 812w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Frida-238x300.jpg 238w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Frida-768x969.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/Frida.jpg 951w" sizes="auto, (max-width: 812px) 100vw, 812px"><p id="caption-attachment-134045" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Frida Khalo (México), <em>El marxismo dará salud a los enfermos [O marxismo dará saúde aos doentes]</em>, ca. 1954.</small></p></div></div>
<p>A segunda convocação foi um fracasso. Além de não ter conseguido provocar um confronto entre civis e integrantes do Exército, reuniu apenas cerca de uma centena de pessoas. Porém, deixou claro as intenções dos grupos oposicionistas: forçar ao máximo as condições para provocar um enfrentamento violento com o Estado.</p>
<p>Em um contexto nacional em que os partidos Ação Nacional e Revolucionário Institucional apelam abertamente à intervenção dos Estados Unidos sob o pretexto do narcotráfico, e acusam o governo mexicano de ser autoritário e comunista, o recrudescimento da direita e sua guinada para posições fascistas e abertamente violentas só podem ser compreendidos como uma tática funcional à estratégia intervencionista dos Estados Unidos.</p>
<p>Saudações a todos e todas,</p>
<p>Rodrigo Guillot</p>
<hr style="border:none; border-top:1px solid #999; margin:32px 0 24px;" /><table style="border:none;"><tbody><tr><td width="20%" style="vertical-align:top; border:none; padding-right:24px;"><img src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/12/guillot.jpg" width="640" height="640"></td><td style="vertical-align: middle; border:none;"><p><strong>Rodrigo Guillot</strong></p><small>Rodrigo Guillot é licenciado em Relações Internacionais, militante de Morena e assessor em comunicação política.</small></td></tr></tbody></table>]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>COP30: entre a vitrine do capital verde e a urgência de um projeto popular de transição ecológica</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/boletim-na-cop30-transicao-ecologica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ricardo Vaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 26 Nov 2025 08:00:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[crise ambiental]]></category>
		<category><![CDATA[COP30]]></category>
		<category><![CDATA[meio ambiente]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://thetricontinental.org/?p=131815</guid>

					<description><![CDATA[No mês passado de novembro, o México passou por protestos por parte da oposição de direita, sob o disfarce de ‘Geração Z’, mas que promove táticas violentas e uma agenda de extrema direita contra o atual governo mexicano. Para compreender o contexto desses acontecimentos, convidamos ao bacharel em Relações Internacionais Rodrigo Guillot, militante do Movimento de Regeneração Nacional (Morena) do México, esta contribuição ao debate.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_131838" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-131838" class="size-large wp-image-131838 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/releitura-de-candido-portinari-o-lavrador-de-cafe-pintada-com-cinzas-1666109571870_v2_1x1-1024x1024.jpg" alt="" width="1024" height="1024" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/releitura-de-candido-portinari-o-lavrador-de-cafe-pintada-com-cinzas-1666109571870_v2_1x1-1024x1024.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/releitura-de-candido-portinari-o-lavrador-de-cafe-pintada-com-cinzas-1666109571870_v2_1x1-300x300.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/releitura-de-candido-portinari-o-lavrador-de-cafe-pintada-com-cinzas-1666109571870_v2_1x1-150x150.jpg 150w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/releitura-de-candido-portinari-o-lavrador-de-cafe-pintada-com-cinzas-1666109571870_v2_1x1-768x768.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/releitura-de-candido-portinari-o-lavrador-de-cafe-pintada-com-cinzas-1666109571870_v2_1x1.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-131838" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="font-weight: 400;">Mundano </span><span style="font-weight: 400;">(Brasil)</span><span style="font-weight: 400;">, </span><i><span style="font-weight: 400;">O Brigadista da Floresta</span></i><span style="font-weight: 400;">, 2021. Mural de 46 metros de altura, feito com cinzas coletadas de 4 biomas brasileiros devastados pelo fogo. Releitura de </span><i><span style="font-weight: 400;">O Lavrador de Café</span></i><span style="font-weight: 400;"> (1934), de Cândido Portinari.</span></small></p></div>
</div>
<p>Saudações do escritório Nuestra América do <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/">Instituto Tricontinental de Pesquisa Social</a>.</p>
<p>A 30ª Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima, ou COP30, acaba de ser realizada na Amazônia brasileira. Para compreender melhor as dinâmicas em jogo, pedimos a contribuição de Bárbara Loureiro, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), para este debate:</p>
<blockquote><p>A COP30, realizada em Belém do Pará, em plena Amazônia, entre os dias 10 a 21 de novembro, colocou na centralidade o debate sobre a crise climática. Ao mesmo tempo, revelou com nitidez o quanto a política ambiental segue capturada pelos interesses corporativos, pelo capital financeiro e pela racionalidade colonial que transforma florestas, rios, sol, vento e povos em objetos de gestão para benefício dos países ricos e das elites econômicas.</p>
<p>Mais do que um encontro diplomático, a COP30 funcionou como um espelho: de um lado, a celebração das chamadas “soluções de mercado” e da descarbonização financeira; do outro, e de forma paralela e autônoma, a força crescente do campo popular, que fez de Belém um território de denúncia, solidariedade internacionalista e construção de alternativas reais. Essa tensão atravessou todos os debates, decisões e disputas que marcaram o evento.</p>
<p>A política climática dominante baseia-se na ideia de que é possível enfrentar a crise ecológica sem enfrentar seus motores, ao acreditar que só é possível enfrentá-la por meio do seu alinhamento com os princípios do mercado: a acumulação capitalista, a exploração e expropriação colonial dos territórios e o poder das corporações transnacionais.</p>
<p>Em Belém, essa contradição ficou ainda mais evidente no contexto da celebração dos dez anos do Acordo de Paris. Apesar de ser amplamente saudado como um marco histórico, o Acordo não conseguiu colocar o mundo em uma rota viável de enfrentamento ao aquecimento global. Na prática, serviu apenas para aprofundar a regulamentação e a disseminação de mecanismos de financeirização da natureza, sem enfrentar as causas estruturais da crise climática.</p>
<p>As próprias projeções oficiais indicam um aquecimento em cerca de 2,5ºC até o final do século, enquanto cortes profundos em emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE), necessários para manter o aquecimento em “apenas” 1,5ºC, continuam distantes e politicamente bloqueados.</p>
<p>A COP30 deixou ainda mais evidente que a política ambiental contemporânea está profundamente subordinada ao capital e estruturada por uma racionalidade colonial que persiste no século XXI. As decisões climáticas de âmbito internacional – que supostamente deveriam enfrentar a crise ecológica – não partem da conservação e recuperação dos ecossistemas, mas da necessidade de garantir a continuidade da acumulação, transformando florestas, rios, sol, vento e territórios em ativos financeiros estratégicos.</p>
<p>Essa lógica é articulada a partir de dois pilares centrais: a primazia absoluta da acumulação (que coloca as soluções de mercado acima da integridade ecológica) e a visão colonial que trata o Sul Global como zonas de sacrifício, destinadas a prestar “serviços ambientais” para manter o padrão de vida e de consumo das potências do Norte. Assim, enquanto a Amazônia e os biomas são fatiados em métricas de carbono, “planos de manejo” e energias ditas renováveis, não há qualquer disposição internacional para enfrentar o núcleo do problema: o modo de produção capitalista, que continua definindo padrões tecnológicos, regulatórios e financeiros que aprisionam o Sul Global em um papel subalterno.</p></blockquote>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_131828" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-131828" class="size-large wp-image-131828 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/Coletivo-MAHKU-o-Movimento-dos-Artistas-Huni-Kuin-1024x641.jpg" alt="" width="1024" height="641" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/Coletivo-MAHKU-o-Movimento-dos-Artistas-Huni-Kuin-1024x641.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/Coletivo-MAHKU-o-Movimento-dos-Artistas-Huni-Kuin-300x188.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/Coletivo-MAHKU-o-Movimento-dos-Artistas-Huni-Kuin-768x481.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/Coletivo-MAHKU-o-Movimento-dos-Artistas-Huni-Kuin.jpg 1155w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-131828" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="font-weight: 400;">Coletivo MAHKU (Brasil), </span><i><span style="font-weight: 400;">Rashuaka</span></i><span style="font-weight: 400;">, 2022.</span></small></p></div>
</div>
<blockquote>
<h3 style="margin:2em 0;">Promessas trilionárias, entregas simbólicas</h3>
<p>O chamado Roteiro Baku–Belém prometeu mobilizar 1,3 trilhões de dólares para mitigação e adaptação. Mas é um gigante de papel: mistura recursos internacionais com fundos nacionais que muitos países sequer possuem, carece de mecanismos de monitoramento e segue a lógica do capital financeiro, que privilegia projetos de baixo risco mas com alto retorno econômico, exatamente o oposto das necessidades de adaptação dos países periféricos.</p>
<p>Governos, cientistas e especialistas criticaram a falta de mecanismos vinculantes, a ausência de clareza sobre as fontes reais dos recursos e a imprecisão das metas. O documento final da COP30 foi amplamente interpretado como insuficiente e desconectado da urgência climática. A principal crítica é de que não há garantias de implementação e não há instrumentos de responsabilização. Na prática, os países só concordaram em “se esforçar” para triplicar o financiamento, mas sem dizer quem paga, quanto e de onde vem o recurso financeiro.</p>
<p>Sem um financiamento climático robusto e redistributivo, as NDCs (planos nacionais de redução de emissões) permanecem frágeis e insuficientes. No caso brasileiro, por exemplo, embora o país apresente metas de reduzir entre 59% e 67% das emissões até 2035 (em relação a 2005), zerar o desmatamento ilegal até 2030 e eliminar todo o desmatamento até 2035, não há nenhum indicativo de que o modelo de produção do agronegócio – a origem do desmatamento – será enfrentado. Este é um modelo que segue em expansão, especialmente sobre o bioma amazônico, mesmo que seu discurso defenda que esta expansão predatória não faça parte de um suposto “agronegócio racional, moderno e tecnológico”, mas de uma parte atrasada da agropecuária.</p>
<p>Além disso, o governo brasileiro continua rendido pelo agronegócio, que captura as estruturas públicas, como empresas públicas, universidades e centros de pesquisa, em busca de um “esverdeamento”. Uma das consequências desta captura é que o governo se recusa a impor metas específicas e restritivas ao setor, <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/brasil/a-transicao-energetica-para-alem-do-debate-combustiveis-fosseis-e-fontes-renovaveis/">justamente o maior emissor de GEE do país</a>. Assim, as promessas climáticas convivem com a manutenção de um modelo agrícola que bloqueia avanços reais e impede a transformação estrutural necessária.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">A vitrine brasileira e a armadilha para os povos</h3>
<p>O Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), uma proposta do governo brasileiro para criar um financiamento global e permanente para a conservação de florestas tropicais e anunciado como uma grande inovação para proteger florestas, sintetiza a lógica colonial da financeirização. É concebido a partir da ideia de que a floresta só será preservada se ela tiver uma valoração econômica. Ou seja, a floresta não tem um valor em si, mas só será preservada se for aferida a ela um preço. Bilhões de dólares seriam captados por bancos multilaterais que comprariam títulos públicos e privados do Sul Global, e estes países terminam pagando juros aos mesmos agentes que “financiam” sua preservação. É um mecanismo que transfere riqueza do Sul para o Norte enquanto transforma florestas em ativos, territórios e modos de vida em métricas de risco.</p>
<p>Com pagamentos de no máximo quatro dólares por hectare e critérios que criminalizam práticas tradicionais, o TFFF não reduz o desmatamento nem enfrenta suas causas, mas apenas reforça o controle financeiro sobre a Amazônia. Não por acaso, países europeus recuaram diante do “alto risco”. As expectativas iniciais de 125 bilhões dólares se revelaram fantasia; nem a meta reduzida de 10 bilhões de dólares foi atingida até o final desta COP.</p>
<p>O mais preocupante é que esta iniciativa foi aceita por alguns segmentos progressistas e defendida, inclusive, enquanto um avanço por estes setores, ainda que represente um aprofundamento da financeirização da natureza, já que com o TFFF não somente o carbono será precificado, mas vários outros “serviços ambientais”. Tal tese vem na esteira de uma suposta defesa do protagonismo internacional do governo Lula frente ao tema ambiental. No entanto, este será um protagonismo esvaziado de sentido caso seu conteúdo não aponte a saídas concretas construídas pelos povos para a crise ambiental.</p></blockquote>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_131848" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-131848" class="size-large wp-image-131848 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/WEB_DB_MASP_11130_01-1024x724.jpg" alt="" width="1024" height="724" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/WEB_DB_MASP_11130_01-1024x724.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/WEB_DB_MASP_11130_01-300x212.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/WEB_DB_MASP_11130_01-768x543.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/WEB_DB_MASP_11130_01.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-131848" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="font-weight: 400;">Denilson Baniwa (Brasil), </span><i><span style="font-weight: 400;">Natureza morta 1, </span></i><span style="font-weight: 400;">2016.</span></small></p></div>
</div>
<blockquote>
<h3 style="margin:2em 0;">O protagonismo das corporações na COP</h3>
<p>A COP30 consolidou a captura corporativa da crise climática. Bancos e grandes transnacionais transformaram pavilhões, eventos e casas temáticas em centros de <i>lobby</i> e oportunidade de negócios. <a href="https://racismoambiental.net.br/2025/11/11/de-olho-nos-ruralistas-e-fase-lancam-estudo-sobre-lobbies-na-cop30/">A mídia corporativa recebeu patrocínios ambientais de empresas com extensos passivos socioambientais</a>, afetando a independência da cobertura. Uma cena reveladora mostrou <a href="https://www.oc.eco.br/numero-de-lobistas-fosseis-na-cop30-supera-delegacoes-de-todos-os-paises-exceto-brasil/">1.602 lobistas de combustíveis fósseis circulando livremente pelas negociações</a>, uma presença maior que a de quase todos os países, exceto a da própria delegação brasileira.</p>
<p>Embora o Brasil tenha defendido a construção de um “Mapa do caminho para a eliminação dos combustíveis fósseis”, o texto final não inclui qualquer compromisso concreto de eliminação do uso destes recursos, não estabeleceu datas para o fim da produção de petróleo, gás e carvão e ignorou recomendações científicas para um abandono rápido das fontes fósseis. A ausência desse compromisso foi considerada por especialistas internacionais um “fracasso estrutural” da COP30 e se deve à pressão direta do <i>lobby </i>dos países produtores e das empresas do setor.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">Agronegócio: o general invisível da COP</h3>
<p>O agronegócio atuou como um dos blocos mais organizados e influentes da COP30. Seus objetivos foram nítidos: apresentar-se como protagonista da solução climática por meio de soluções tecnológicas, ampliar seu acesso a financiamentos públicos e privados, bloquear regulações ambientais mais rígidas e direcionar o debate climático global conforme seus interesses.</p>
<p>Para isso, utilizou-se exaustivamente de termos como “agricultura regenerativa”, “agricultura tropical” e “bioeconomia”, discursos que procuram pintar de verde práticas baseadas em monoculturas, uso intensivo de agrotóxicos e expansão territorial. Essa estratégia apoia-se na narrativa de que o agronegócio brasileiro é altamente tecnológico e, portanto, automaticamente sustentável, mesmo quando seus impactos ambientais indicam o contrário.</p>
<p>O espaço liderado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) durante a COP30, a Agrizone, contou com forte patrocínio de corporações como Bayer e Nestlé, além de abrigar estruturas do próprio governo federal, e funcionou como vitrine privilegiada desse projeto: um ambiente de negócios, <i>lobby</i> e engenharia de reputação que reforça a captura corporativa da política climática.</p>
<p>Vale lembrar que o Brasil é um dos países com maior número de assassinatos de ambientalistas e lideranças dos povos do campo e da floresta no mundo. Este ato é a linha de frente antes da derrubada das florestas. Dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) revelam um quadro alarmante: 2024 apresentou o segundo maior número de conflitos no campo desde 1985. A Amazônia permanece como a região mais vulnerável, e o estado do Pará, local da COP30, lidera registros de assassinatos e tentativas de assassinato. Esse cenário de violência estrutural está diretamente ligado à expansão do agronegócio e ao seu modelo de modernização conservadora, que aprofunda contradições históricas sobre uso, posse e propriedade da terra no Brasil, mas também sobre diferentes formas de compreender a relação entre humanidade e natureza.</p></blockquote>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_131858" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-131858" class="size-large wp-image-131858 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/WEB_HG_MASP_11052_01-1024x626.jpg" alt="" width="1024" height="626" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/WEB_HG_MASP_11052_01-1024x626.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/WEB_HG_MASP_11052_01-300x184.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/WEB_HG_MASP_11052_01-768x470.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/WEB_HG_MASP_11052_01.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-131858" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="font-weight: 400;">Hulda Guzmán (República Dominicana)</span><i><span style="font-weight: 400;">, Venha dançar – convidou a natureza gentilmente, </span></i><span style="font-weight: 400;">2019-20.</span></small></p></div>
</div>
<blockquote>
<h3 style="margin:2em 0;">A Cúpula dos Povos e o contraponto popular</h3>
<p>Enquanto a COP30 expressava o avanço das cercas financeiras sobre a natureza, a Cúpula dos Povos, realizada entre 12 e 16 de novembro em paralelo à Conferência oficial, expressou a força da resistência. Foram mais de 25 mil inscritos, mais de 1.200 organizações articuladas e uma barqueata internacionalista com mais de 200 embarcações; a marcha global contou com 70 mil pessoas. Delegações de 60 países construíram um documento que denuncia o racismo ambiental, o poder das corporações e as falsas soluções do capitalismo verde, identificando o capitalismo como o motor da crise climática.</p>
<p>A Cúpula reafirmou que não há saída climática dentro do sistema que criou a crise, e que apenas a organização popular é capaz de enfrentar o inimigo comum: o capitalismo em suas expressões imperialistas, racistas e patriarcais.</p>
<p>A quantidade de manifestações em diversos espaços da COP30 e na Agrizone também expressaram um descontentamento com a incapacidade destas governanças globais lideradas sobretudo pela ONU, incapazes de apresentar soluções efetivas para os diversos conflitos globais.</p>
<p>A COP30 evidenciou que o debate climático também é um debate sobre modelo de sociedade, bem como demonstrado pelo dossiê do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-crise-ambiental/"><i>A crise ambiental como parte da crise do capital</i></a>. Para os movimentos populares, há três tarefas urgentes e necessárias:</p>
<ol>
<li aria-level="1"><b>Politizar a disputa ambiental: </b>é fundamental seguir construindo a luta ambiental a partir do enfrentamento direto ao agronegócio e à mineração, setores que seguem intocados no centro das emissões e da destruição territorial. Politizar a disputa significa também denunciar as falsas soluções que vêm ganhando força, baseadas na financeirização da natureza, nos mercados de carbono e nos fundos “verdes” que aprofundam dependências e invisibilizam as causas estruturais da crise.</li>
<li aria-level="1"><b>Ampliar a mobilização popular: </b>Para que a agenda climática se torne força social transformadora, é urgente ampliar a capacidade de mobilização popular, fortalecendo organizações de base, territorializando o debate ambiental e conectando pautas como moradia, saneamento, alimentação, transporte, energia e acesso à terra com a luta climática.</li>
<li aria-level="1"><b>Construir um programa próprio de transição ecológica justa e popular: </b>os movimentos precisam projetar um programa de transição que enfrente o poder corporativo, recupere a centralidade dos bens comuns e reorganize a economia a partir das necessidades dos povos. Isso implica massificar a produção de alimentos saudáveis, fortalecer a agroecologia, garantir soberania energética e colocar água, solo, floresta e energia fora dos mercados financeiros.</li>
</ol>
<p>A COP30 escancarou que a política climática dominante segue alinhada ao capital, e que não há saída capaz de enfrentar as causas estruturais da crise ecológica sob estes marcos. Ao mesmo tempo, mostrou que existe um caminho insurgente, construído por povos, movimentos e territórios que, no cotidiano, produzem as únicas soluções realmente enraizadas na vida e na justiça socioambiental.</p>
<p>A tarefa histórica diante de nós é transformar essa força social em projeto político: uma transição ecológica popular, anticolonial, agroecológica e anticapitalista, porque não há saída real para a crise climática sem ruptura com o modelo capitalista, e não há ruptura possível sem organização popular, sem luta coletiva e sem enfrentamento às estruturas que lucram com a devastação.</p>
<p>Saudações a todos e todas,</p>
<p>Bárbara Loureiro</p></blockquote>
<hr style="border:none; border-top:1px solid #999; margin:32px 0 24px;" /><table style="border:none;"><tbody><tr><td width="20%" style="vertical-align:top; border:none; padding-right:24px;"><img src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/11/barbara-loureiro.jpeg" width="449" height="493"></td><td style="vertical-align: middle; border:none;"><p><strong>Bárbara Loureiro</strong></p><small>Bárbara Loureiro faz parte da coordenação nacional do MST e é mestre em meio ambiente e desenvolvimento rural.</small></td></tr></tbody></table>]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>20 anos do “não à Alca”: por soberania, justiça social e unidade latino-americana</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/boletim-na-20-no-alca/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ricardo Vaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 29 Oct 2025 08:00:22 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[ALBA]]></category>
		<category><![CDATA[Tratados de Livre Comércio]]></category>
		<category><![CDATA[integração regional]]></category>
		<category><![CDATA[Nuestra América]]></category>
		<category><![CDATA[ALCA]]></category>
		<category><![CDATA[integración regional]]></category>
		<category><![CDATA[libre comercio]]></category>
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					<description><![CDATA[A COP30 deixou ainda mais evidente que a política ambiental está profundamente subordinada ao capital. As decisões climáticas não partem da conservação e recuperação dos ecossistemas, mas da necessidade de garantir a continuidade da acumulação, transformando florestas, rios, sol, vento e territórios em ativos financeiros estratégicos.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_129933" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-129933" class="size-large wp-image-129933 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/1_Felipe-Noe-1024x931.jpg" alt="" width="1024" height="931" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/1_Felipe-Noe-1024x931.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/1_Felipe-Noe-300x273.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/1_Felipe-Noe-768x698.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/1_Felipe-Noe.jpg 1080w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-129933" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Luis Felipe Noé (Argentina), <i>Introducción a la esperanza</i>, 1963.</small></p></div>
</div>
<p>Recebam uma saudação do Escritório Nuestra América do <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/">Instituto Tricontinental de Pesquisa Social</a>.</p>
<p>Às vésperas do 20º aniversário da Cúpula que gritou “NÃO à ALCA”, na cidade de Mar del Plata, na Argentina, em 2005, consideramos importante refletir sobre alguns aspectos dessa façanha soberana que marcou um ponto de inflexão na luta pela unidade regional.</p>
<p>No período em que os Estados Unidos desenvolvia a ideia da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), a Europa dava passos importantes para conformar a União Europeia, e o Japão ressurgia das cinzas como uma potência econômica com forte desenvolvimento tecnológico. Ambos os territórios, reconstruídos com apoio estadunidense após a Segunda Guerra Mundial, começavam a projetar uma sombra sobre a hegemonia norte-americana.</p>
<p>A Alca foi o projeto mais ambicioso dos Estados Unidos para materializar a Doutrina Monroe em nosso continente. Esse tratado começou a ser delineado em 1994, durante a Primeira Cúpula das Américas organizada pela Organização dos Estados Americanos (OEA), em pleno auge do Consenso de Washington. Nesse mesmo ano, entrou em vigor o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (TLCAN) entre México, Estados Unidos e Canadá, e o Exército Zapatista de Libertação Nacional emergia publicamente em oposição a esse tratado.</p>
<p>A expansão do TLCAN para o restante da América apresentava-se como uma estratégia perfeita para reforçar o poder imperial: garantia aproximadamente 800 milhões de consumidores para as empresas norte-americanas, o controle sobre os recursos naturais e o domínio político de 34 países, com a exclusão de Cuba.</p>
<p>Nessa primeira Cúpula foi estabelecida uma agenda de trabalho que incluía comissões de equipes técnicas, reuniões entre ministros da economia e encontros presidenciais ao longo de dez anos, para que fosse construído o caminho que conduzisse à aceitação do tratado na Cúpula de 2005.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_129983" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-129983" class="size-large wp-image-129983 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/2_Imperialismo-724x1024.jpg" alt="" width="724" height="1024" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/2_Imperialismo-724x1024.jpg 724w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/2_Imperialismo-212x300.jpg 212w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/2_Imperialismo-768x1086.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/2_Imperialismo.jpg 800w" sizes="auto, (max-width: 724px) 100vw, 724px"><p id="caption-attachment-129983" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Túlio Carapiá e Clara Cerqueira (Brasil), <i>O Imperialista</i>, 2020.</small></p></div>
</div>
<p>A proposta da Alca consistia em criar uma zona de livre comércio em todo o continente. Isso implicava liberar as fronteiras para a comercialização de bens e serviços, sem impostos nem tarifas, como recomendava a Organização Mundial do Comércio (OMC). Também incentivava-se que os países modificassem suas leis para liberalizar a entrada de investimentos estrangeiros, eliminassem subsídios, barreiras <i>antidumping </i>e estabelecessem regras comuns de propriedade intelectual.</p>
<p>Tudo isso vinha envolto em muitos discursos que pregavam a necessidade de consenso — institucional — para a assinatura do acordo, com argumentos sobre a melhoria das condições de trabalho, o suposto desenvolvimento igualitário dos países e a erradicação da pobreza na região, que não passavam de eufemismos destinados a ocultar o verdadeiro caráter neocolonial do acordo.</p>
<p>No entanto, à medida que avançava a agenda de reuniões presidenciais e ministeriais programadas para a constituição da Alca, a história das nações e dos povos de Nuestra América seguia seu curso.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_129943" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-129943" class="size-large wp-image-129943 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/3_Mural-Chavez-1024x683.jpg" alt="" width="1024" height="683" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/3_Mural-Chavez-1024x683.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/3_Mural-Chavez-300x200.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/3_Mural-Chavez-768x512.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/3_Mural-Chavez.jpg 1080w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-129943" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Comando Creativo (Venezuela), <i>El Morral del comandante Chávez</i>, 2015.</small></p></div>
</div>
<p>Entre 1994 e 2005, vivemos a decolagem e o pouso forçado que implicaram a aplicação do modelo neoliberal em nossos países. Vivemos a destruição de nossos aparatos produtivos, a desintegração da ideia de Estado de bem-estar social, a perda de direitos trabalhistas, as privatizações de recursos estratégicos nacionais, o endividamento externo e as condicionalidades impostas pelo Banco Mundial e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e, sobretudo, o aprofundamento da desigualdade, do desemprego e da pobreza.</p>
<p>Entre esses anos, ocorreu uma multiplicidade de levantes sociais na maior parte dos países da região. A organização popular ocupou as universidades, os sindicatos, os quartéis, as ruas, as estradas e, em alguns casos, até os governos.</p>
<p>O debate sobre as consequências de assinar o tratado da Alca ganhou força não apenas na voz de intelectuais e políticos críticos ao modelo, mas também nas assembleias dos movimentos sociais, nos círculos bolivarianos, nos sindicatos e nos partidos políticos de toda a região. O espelho das consequências do TLCAN para o México era o reflexo mais evidente a ser observado: não havia mais desenvolvimento, havia mais dependência. Não havia maior valor agregado, havia maquiladoras. Não havia melhores salários, e sim piores. Não havia livre circulação de pessoas, havia deportação.</p>
<p>Em 2005, chegamos em um estado de alerta e mobilização. George W. Bush (filho) era o presidente dos Estados Unidos e tinha a tarefa de encerrar o tratado com chave de ouro. Enquanto isso, a influência dos Estados Unidos pesava como um jugo opressor sobre cada um dos presidentes reunidos na IV Cúpula das Américas. Néstor Kirchner, Lula e o Comandante Hugo Chávez falavam de soberania, democracia e trabalho digno para os povos.</p>
<p>Do outro lado, a Cúpula dos Povos. Alba, centrais sindicais confederadas em nível internacional, Fórum de São Paulo, movimentos sociais e partidos políticos mobilizados exerciam pressão popular. O cenário era diverso: artistas reconhecidos liderando a marcha pelo “NÃO à ALCA”, a delegação cubana presente com suas equipes esportivas, Diego Maradona com a camiseta “Bush criminoso de guerra”, as Mães da Praça de Maio com a faixa “Fora Bush”, a bandeira com Fidel, Chávez, Néstor, Lula e Tabaré simbolizando uma nova unidade, e Chávez discursando para as massas no estádio de Mar del Plata.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_129953" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-129953" class="size-full wp-image-129953 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/4_Madres-y-Chavez.jpg" alt="" width="1024" height="725" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/4_Madres-y-Chavez.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/4_Madres-y-Chavez-300x212.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/4_Madres-y-Chavez-768x544.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-129953" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Discurso do Comandante Chávez em Mar del Plata, 2005. Foto: Asociación Madres de Plaza de Mayo (Argentina). Intervenção visual realizada pelo Departamento de Arte, Tricontinental Nuestra América.</small></p></div>
</div>
<p>O “NÃO à ALCA” foi a semente para a criação da Unasul; para que a Argentina rompesse relações com o FMI; para que Evo Morales expulsasse o embaixador dos Estados Unidos; para o nascimento da ALBA-TCP e da Alba Movimentos; para a criação da Celac; para o pronunciamento regional contra o golpe em Honduras em 2009, contra a tentativa de golpe contra Rafael Correa (Equador) em 2010, contra o golpe institucional contra Fernando Lugo (Paraguai) em 2013; e para a força de uma região que, naqueles anos, trabalhando em conjunto, pôde retomar uma posição soberana, reduzir a pobreza e a desigualdade.</p>
<p>Hoje, à distância, com um presidente argentino que fala em livre comércio com os Estados Unidos, que volta a adotar uma posição submissa diante de Trump, a poucos dias da assinatura de um tratado que, sem dúvida, comprometerá a soberania argentina, aquele 5 de novembro de 2005, quando dissemos NÃO à ALCA, parece mais distante do que nunca.</p>
<p>Com esse espírito, queremos recordar essa façanha e trazer nossa história ao presente: saber de onde viemos e até onde chegamos, saber que a história de luta dos povos não se apaga.</p>
<p>Assim como a Venezuela e Cuba resistem ao bloqueio dos Estados Unidos; como o Brasil prendeu Bolsonaro pela tentativa de um golpe de Estado; como o México e a Colômbia se rebelaram contra a dominação política norte-americana e hoje são a ponta de lança da resistência regional; assim como Maradona continua driblando criminosos de guerra pelo mar Mediterrâneo — desde o Tricontinental seguimos combatendo o <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/estudos-sobre-dilemas-contemporaneos-4-hiper-imperialismo/">hiperimperialismo </a>e trabalhando por um novo projeto de desenvolvimento, desde e para os povos do Sul global.</p>
<p>Saudações a todos e todas,</p>
<p align="justify">Lucía Converti, militante de Nuestramérica e investigadora de Tricontinental</p>
<hr style="border:none; border-top:1px solid #999; margin:32px 0 24px;" /><table style="border:none;"><tbody><tr><td width="20%" style="vertical-align:top; border:none; padding-right:24px;"><img src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/10/Lucia-Converti.jpg" width="300" height="300"></td><td style="vertical-align: middle; border:none;"><p><strong>Lucía Converti</strong></p><small>Lucia é uma militante do Movimento Popular Nuestramérica, nascida em Buenos Aires, Argentina. É formada em Economia e mestranda em Estudos Sociais Latino-americanos, ambos na Universidade de Buenos Aires. Recentemente se especializou em Ciências de Dados e Inteligência Artificial pela Universidade Nacional de San Martin (Unsam) e atualmente trabalha como cientista de dados. Com foco em temas relacionados à política econômica, foi pesquisadora do Centro Estratégico Latino-americano de Geopolítica (Celag) e trabalhou na estrutura estatal durante mais de 10 anos em diferentes setores, nos níveis local, regional e nacional.</small></td></tr></tbody></table>]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Argentina: do lawfare  ao neocolonialismo fascista</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/nuestra-america/argentina-lawfare-neocolonialismo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ricardo Vaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 24 Sep 2025 08:00:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Nuestra América]]></category>
		<category><![CDATA[lawfare]]></category>
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					<description><![CDATA[Recordar essa façanha e trazer nossa história ao presente é fundamental para saber de onde viemos e até onde chegamos, saber que a história de luta dos povos não se apaga.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_128669" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-128669" class="wp-image-128669 size-large img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/1_-Guayasamin-1011x1024.jpg" alt="" width="1011" height="1024" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/1_-Guayasamin-1011x1024.jpg 1011w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/1_-Guayasamin-296x300.jpg 296w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/1_-Guayasamin-768x778.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/1_-Guayasamin.jpg 1280w" sizes="auto, (max-width: 1011px) 100vw, 1011px"><p id="caption-attachment-128669" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Oswaldo Guayasamín (Equador), <em>Homenagem ao homem latino-americano</em>, 1954.</small></p></div>
</div>
<p>Saudações do escritório Nuestra América do <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/">Instituto Tricontinental de Pesquisa Social</a>,</p>
<p>Nos últimos meses, o poder Judiciário tem desempenhado um papel de liderança em nossa região: desde os processos de <i>lawfare</i> orquestrada contra a ex-presidenta da Argentina, Cristina Kirchner, até as condenações históricas contra ex-presidentes da extrema direita, como Álvaro Uribe Vélez na Colômbia e Jair Bolsonaro no Brasil. No entanto, vale esclarecer que, ao contrário do que a grande imprensa tenta retratar sobre a semelhança dos casos – <i>lawfare</i> com aqueles levados à justiça por crimes comprovados -, os dois respondem a naturezas muito distintas. Para melhor compreender a guerra jurídica como uma estratégia imperialista em <i>Nuestra América</i>, pedimos a Claudia Rocca, da Associação Americana de Juristas, uma contribuição para este debate:</p>
<blockquote><p>Os processos de <i>lawfare</i> são uma guerra política por meios jurídicos e midiáticos, que responde a interesses econômicos, políticos e geopolíticos. Envolve juízes, promotores, empresas de mídia, jornalistas e formadores de opinião, policiais, funcionários de embaixadas e agentes de inteligência, tanto locais quanto estrangeiros. Caracteriza-se pelo abuso de prisão preventiva, acordos de delação premiada e vereditos fabricados sem o devido processo legal, por meio de assédio e desmoralização pela mídia. Inclui invasões a escritórios políticos e casas de militantes, perseguição e ameaças contra familiares, forçando-os ao exílio e ao refúgio político, além de manipulação e disseminação do medo entre os envolvidos em certos processos políticos.</p>
<p>Nos últimos anos, essas táticas foram usadas na Argentina, no Equador, no Chile, no Brasil, na Bolívia, no Peru e em El Salvador contra dezenas de líderes políticos e/ou ex-funcionários de governo, programas ou projetos que desafiam a ortodoxia neoliberal em maior ou menor grau.</p>
<p>Essa guerra opera “desde cima”, por meio de um aparato jurídico que se coloca acima dos poderes Legislativo e Executivo, ampliando o escopo de manobra e poder dos juízes, que se envolvem em operações políticas, e desencadeia uma perda de equilíbrio entre os poderes, permitindo uma crescente “juristocracia” e, em muitos casos, normalizando o duplo padrão da lei. Esse processo histórico de reposicionamento do Judiciário acima de todos os outros é característico do <a href="https://rephip.unr.edu.ar/server/api/core/bitstreams/95a421fc-d71b-433a-b27b-2fa169b93dbe/content">neoconstitucionalismo</a>, a ordem jurídica predominante em grande parte da Europa e da América Latina nas últimas décadas.</p>
<p>A exaltação do Judiciário e a seletividade em casos judiciais articulam-se com o protagonismo da mídia, que opera para criminalizar setores ou lideranças políticas. Soma-se a isso as vozes de “especialistas”, muitos ligados a “think tanks” nos EUA, aos quais é atribuída uma suposta “veracidade” na grande mídia e nas redes sociais.</p>
<p>É impressionante o papel desempenhado por agências governamentais dos EUA, como a Usaid, e por interesses do setor privado estadunidense. Ambos estão envolvidos tanto nos processos judiciais quanto nos resultados e eventos que os seguem, demonstrando a instrumentalização do aparato judiciário-midiático em favor de objetivos econômicos, políticos e geopolíticos estrangeiros, que compartilham interesses e negócios com minorias privilegiadas locais.</p>
<p>Mas esse mecanismo não se limita à esfera doméstica. Para as nações em que a potência econômica ocidental não conseguiu minar os processos políticos nacionais e soberanos, os mesmos remédios são aplicados por meio do sistema internacional de fluxos cambiais, tarifas e rotas comerciais, sistemas de prevenção à lavagem de dinheiro, sistemas de controle de imigração, sanções e medidas coercitivas unilaterais, com acusações baseadas exclusivamente em decisões de órgãos administrativos, ou seja, em decisões meramente políticas da administração estadunidense.</p></blockquote>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_128679" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-128679" class="wp-image-128679 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/2_Tejada.jpeg" alt="" width="893" height="622" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/2_Tejada.jpeg 893w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/2_Tejada-300x209.jpeg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/2_Tejada-768x535.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 893px) 100vw, 893px"><p id="caption-attachment-128679" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Lucy Tejada (Colômbia), <i>Atados</i>, 1977.</small></p></div>
</div>
<blockquote><p>Várias publicações do âmbito militar consideram que o <i>lawfare </i>é um dos componentes das novas guerras “não convencionais”, como a guerra híbrida. Guerra que pode ser exercida por atores estatais ou não estatais, que atuam com todas as modalidades do espectro desse tipo de guerra, considerando as capacidades militares convencionais, táticas e unidades de combate não convencionais, ou mesmo ações terroristas, planejamento do caos por meio de atos de violência, guerra cibernética, guerra financeira ou midiática.</p>
<p>Basta invocar o caráter “não legal” das leis e normas de outros Estados, que não se ajustam ao cânone ocidental, para que sejam classificadas como violentas <a href="https://www.dw.com/es/eeuu-sigue-considerando-a-venezuela-una-amenaza/a-68449576">(“ameaça incomum e extraordinária”</a>), pretendendo assim legitimar ataques que hoje <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-17-venezuela-e-as-guerras-hibridas-na-america-latina/">assumem múltiplas dimensões</a>.</p>
<p>Embora, como já dissemos, o <i>lawfare </i>seja uma ferramenta utilizada pelo Estado, pelo governo ou por minorias privilegiadas a nível local, a nível internacional ele é implementado a partir do Norte Global.</p>
<p>Para as nações subjugadas, esse é o cerne das relações coloniais e da dependência exacerbada com a expansão do capitalismo. No âmbito dessa relação desigual, os EUA e seus aliados reorganizam o cenário em favor dos interesses de uma rede internacional de poder, criando uma espécie de <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/oito-contradicoes-da-ordem-baseada-em-regras-imperialista/">“ordem jurídica legítima”</a>, definindo o alcance de sua jurisdição e ignorando a soberania dos Estados mais fracos, que não têm capacidade de impor sua lei pela força ou de exercer resistência.</p>
<p>A jurisdição não é simplesmente uma regra, mas determina quais regras serão aplicadas, onde, como e por quem. É aí que reside o poder de subjugação do centro de poder ocidental sobre nossos países latino-americanos, veiculado por meio do <i>lawfare</i>.</p>
<p>A instalação dessa “juristocracia” teve como consequência a judicialização da política e da democracia pois, ao deslegitimar e neutralizar líderes políticos incômodos para certos interesses econômicos e geopolíticos, não só afetaram os indivíduos diretamente envolvidos, mas também minaram as bases democráticas dos Estados afetados, comprometendo sua capacidade de autodeterminação e promovendo a subordinação a agendas externas.</p></blockquote>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_128649" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-128649" class="wp-image-128649 size-large img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/3_Hybrid-War-ES-728x1024.jpg" alt="" width="728" height="1024" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/3_Hybrid-War-ES-728x1024.jpg 728w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/3_Hybrid-War-ES-213x300.jpg 213w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/3_Hybrid-War-ES-768x1081.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/3_Hybrid-War-ES-1091x1536.jpg 1091w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/3_Hybrid-War-ES.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 728px) 100vw, 728px"><p id="caption-attachment-128649" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Instituto Tricontinental, <i>Guerras Híbridas</i>, 2020.</small></p></div>
</div>
<blockquote>
<h3 style="margin:2em 0;">O caso argentino</h3>
<p>A perseguição judicial dos líderes políticos e sociais na Argentina vem ocorrendo desde o final do último mandato do governo de Cristina Kirchner, quando começaram a ganhar destaque figuras que apareciam na mídia denunciando a suposta corrupção dos funcionários kirchneristas, sem argumentos probatórios, mas com grande espetacularidade e impacto proporcionados pelos grandes meios de comunicação. Os ataques tinham como epicentro especial a figura da primeira-dama, chegando até mesmo a instalar a ideia de que ela era a autora intelectual da morte do promotor Nisman, apesar de todas as provas coletadas na investigação terem concluído que se tratava de um suicídio.</p>
<p>O Foro Penal Federal, juntamente com outros altos funcionários do poder Judiciário, tornou-se o principal partido da oposição. Esse processo foi determinante para a vitória de Mauricio Macri, cuja gestão mergulhou o país em um processo de desindustrialização, concentração de riqueza por meio da especulação financeira, entrega de recursos estratégicos, enfraquecimento da capacidade do Estado, enquanto as causas que criminalizavam o kirchnerismo e os líderes sociais do campo popular multiplicavam-se. Milagro Sala é o exemplo mais paradigmático. Na última parte de seu mandato, Macri contraiu em tempo recorde uma<a href="https://dev.thetricontinental.org/es/argentina/nuestraamerica1-cantamuttoylopez/"> dívida formidável</a>. Os quase 50 bilhões de dólares concedidos pelo FMI de forma absolutamente irregular fazem parte do montante que <a href="https://www.bcra.gob.ar/Noticias/publicacion-de-informe-mercado-cambios-deuda-2015-2019.asp">fugiu do país posteriormente</a>.</p>
<p>Um dos casos emblemáticos é, sem dúvida, o chamado caso “Vialidad”, no qual Cristina Kirchner foi condenada a seis anos de prisão pelo crime de administração fraudulenta. No âmbito desse processo, foram violadas as garantias de defesa em julgamento, decorrentes do artigo 380 do Código de Processo Penal da Nação, com base no artigo 18 da Constituição Nacional e reforçadas pelos tratados que compõem o Direito Internacional dos Direitos Humanos; também foram violadas as regras de conduta judicial conhecidas como Princípios de Bangalore (adotados pelo Conselho Econômico e Social das Nações Unidas em sua Resolução E/CN.4/2003/65/Anexo de novembro de 2002, aprovados formalmente em 10 de janeiro de 2003), dada a pública e notória falta de imparcialidade do juiz e suas ligações evidentes com o Ministério Público. Na arbitrariedade judicial manifestada nos procedimentos seguidos contra a vice-presidenta, observam-se os mesmos padrões persecutórios políticos de outros líderes latino-americanos, e isso é claramente visível a partir de uma sentença que nada tem a ver com as provas apresentadas no processo, em que não foi incorporado nenhum elemento que comprove as condutas atribuídas à ex-mandatária.</p>
<p>Após a confirmação por parte da Câmara de Cassação — que não atendeu a nenhum dos argumentos acima mencionados —, em apenas dois meses a Suprema Corte de Justiça confirmou a condenação — enquanto outros processos aguardam anos e até décadas. Com o já habitual anúncio prévio e preciso da mídia, a decisão inconstitucional alcançou o objetivo estabelecido desde o início: a proscrição de Cristina.</p></blockquote>
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<div id="attachment_128689" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-128689" class="wp-image-128689 size-large img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/4_Alonso-1024x1024.jpg" alt="" width="1024" height="1024" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/4_Alonso-1024x1024.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/4_Alonso-300x300.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/4_Alonso-150x150.jpg 150w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/4_Alonso-768x768.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/4_Alonso.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px"><p id="caption-attachment-128689" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Carlos Alonso (Argentina), <i>Carne de primera, </i>1972.</small></p></div>
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<blockquote><p>Podemos afirmar que o <i>lawfare </i>foi um fator central na ascensão ao governo de Javier Milei, uma figura com características sinistras, impulsionada e sustentada por três centros de poder econômico: o financeiro especulativo e de investimento em recursos estratégicos (como o JP Morgan, BlackRock e outros), os grupos denominados “senhores tecnofeudais” — senhores das redes — e os meios de comunicação.</p>
<p><a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-neofascismo-americalatina/">Desde sua posse</a>, Milei levou adiante um processo de desmantelamento do Estado; o esvaziamento das políticas públicas para o desenvolvimento, direitos humanos, inclusão, gênero e diversidade, no âmbito de um processo de devastação econômica; a implantação de medidas repressivas com a expansão das forças e órgãos de segurança, destinadas a silenciar os protestos sociais diante do esvaziamento de um sistema estatal para a proteção efetiva dos direitos econômicos, sociais e culturais; e o empobrecimento brutal da população.</p>
<p>Houve demissões em massa, enquanto empresas, recursos estratégicos e outros bens públicos foram privatizados. A tentativa de suprimir os direitos trabalhistas, combinada com a perseguição a organizações sindicais, sociais e da economia popular — denúncias criminais, retirada de alimentos e outros benefícios garantidos por programas sociais que foram abruptamente descontinuados — revelam um projeto político de acumulação pelos setores mais abastados da economia e da especulação financeira. No contexto de um processo inflacionário, devido à desregulamentação de fatores econômicos essenciais, como serviços, benefícios e preços em geral, ocorreu uma perda abrupta do poder de compra dos salários e um aumento do desemprego e da pobreza.</p>
<p>Em 2024, as pequenas e médias empresas registraram uma perda de mais de 217 mil postos de trabalho e o fechamento de 9.923 empresas, <a href="https://urgente24.com/dinero/empleo-y-la-gran-caida-2024-se-perdieron-mas-217000-puestos-trabajo-n592515">segundo informações da Industriales Pymes Argentinos</a> (IPA). Os setores mais afetados foram a <a href="https://www.telesurtv.net/gobierno-de-milei-elimino-mas-de-160-000-puestos-de-trabajo-en-2024/">construção civil e a indústria</a>, com 69.738 e 25.186 postos a menos, respectivamente. No setor público, entre novembro de 2023 e maio de 2025, foram eliminados mais de<a href="https://www.eltribuno.com/nacionales/2025-8-19-19-25-0-se-perdieron-mas-de-180-000-puestos-de-trabajo-en-el-sector-publico-desde-que-asumio-milei"> 180 mil postos de trabalho</a>. Houve um aumento do trabalho informal e das condições de trabalho análogos à escravidão.</p>
<p>Houve uma <a href="https://www.pagina12.com.ar/797155-caida-historica-en-bienes-de-consumo-masivo">contração do consumo</a> de maior magnitude tanto nas vendas de supermercados e lojas de conveniência quanto no comércio varejista de diversos setores. Em 2025, a inflação está diminuindo, apenas como resultado sem precedentes de uma recessão econômica e deterioração de todos os fatores. As consequências em termos humanos são hoje evidentes e alarmantes.</p>
<p>Este acelerado processo de devastação foi acompanhado por uma prática e retórica fascista, com desprezo à condição humana, com uma concepção supremacista, patriarcal e a mais servil e indigna submissão aos interesses dos Estados Unidos e ao governo genocida sionista de Israel, vociferado pelo presidente argentino.</p>
<p>Para concluirmos, poderíamos tentar, nesta altura, uma definição do fascismo no século XXI como uma prática social que se manifesta por meio de movimentos políticos, impulsionados pelo novo poder econômico dominante no Ocidente, que utilizam o ódio e a polarização como estratégias para minar a democracia liberal, romper com a ordem social e o Estado de Direito. Assim, instalam regimes autoritários e nepotistas, com programas econômicos que promovem processos acelerados de concentração de riqueza, em benefício de grupos transnacionais aos quais respondem e favorecendo a especulação financeira. As consequências são a destruição das organizações sociais, a exclusão de grandes maiorias, a devastação econômica e a repressão como método de controle social.</p>
<p>O exemplo argentino — como tantos outros — nos mostra que a submissão ao atual poder econômico ocidental representado pelos Estados Unidos só traz consequências infinitamente mais trágicas do que o custo de resistir a ele. Não há nenhum benefício nem misericórdia: isso nos deixa sem horizonte e sem futuro. Por isso, ceder ou se submeter não é opção para um povo soberano.</p>
<p><span style="font-size: inherit; letter-spacing: -0.01em;">Saudações a todos e todas,</span></p>
<p>Claudia Rocca</p></blockquote>
<hr style="border:none; border-top:1px solid #999; margin:32px 0 24px;" /><table style="border:none;"><tbody><tr><td width="20%" style="vertical-align:top; border:none; padding-right:24px;"><img src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/09/Foto-Claudia-Rocca.jpeg" width="346" height="391"></td><td style="vertical-align: middle; border:none;"><p><strong>Claudia Rocca</strong></p><small>Claudia Rocca é presidente da filial argentina e vice-presidente continental da Associação Americana de Juristas, advogada, professora universitária especialista em Direito Público e Direito Econômico.</small></td></tr></tbody></table>]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
	</channel>
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