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	<title>nova guerra fria | Tricontinental: Institute for Social Research</title>
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		<title>O dilema do Leste Asiático: contradições e possibilidades na Nova Guerra Fria</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Stephanie Sandoval]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 02 Jun 2026 08:00:13 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dossiê]]></category>
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					<description><![CDATA[Presos entre a dependência militar dos EUA e a profunda integração econômica com a China, o Japão, a Coreia do Sul, as Filipinas e Taiwan enfrentam crescentes contradições à medida que a Nova Guerra Fria remodela o Leste Asiático.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="single-post--content--acknowledgments">As imagens deste dossiê, editadas pelo departamento de arte do Instituto Tricontinental, destacam o trabalho de Kinjo Minoru, um escultor okinawano que homenageia as gerações que resistiram à guerra e à ocupação. Durante décadas, Kinjo esculpiu as atrocidades cometidas durante e após a Guerra Mundial Antifascista (amplamente conhecida como Segunda Guerra Mundial). Kinjo trabalha com concreto, gesso e metal – os mesmos materiais que agora estão sendo usados ​​em Okinawa para construir mais uma base militar estadunidense. Em Okinawa – hoje uma linha de frente da Nova Guerra Fria – as esculturas de Kinjo representam memória e refutação material: uma história áspera e pesada que se recusa a ser suavizada.<a href="#_edn1" name="_ednref1"><sup>1</sup></a></div>
<div class="single-post--content--logos-block">
<p class="wider-150"><img decoding="async" class="alignnone size-medium wp-image-145074 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/ISC-300x100.jpeg" alt="" width="300" height="100" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/ISC-300x100.jpeg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/ISC-1024x342.jpeg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/ISC-768x257.jpeg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/ISC.jpeg 1278w" sizes="(max-width: 300px) 100vw, 300px"></p>
<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignnone size-medium wp-image-123601 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/06/ncw-logo-300x260.jpg" alt="" width="300" height="260" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/06/ncw-logo-300x260.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/06/ncw-logo-768x666.jpg 768w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/06/ncw-logo.jpg 785w" sizes="(max-width: 300px) 100vw, 300px"></p>
<p class="wider-125"><img decoding="async" class="alignnone size-medium wp-image-145151 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/IPA_PT-300x119.png" alt="" width="300" height="119" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/IPA_PT-300x119.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/IPA_PT.png 663w" sizes="(max-width: 300px) 100vw, 300px"></p>
<p class="wider-150"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-medium wp-image-145162 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/Logo_PT_Tricontinental-300x73.png" alt="" width="300" height="73" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/Logo_PT_Tricontinental-300x73.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/06/Logo_PT_Tricontinental.png 674w" sizes="auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px"></p>
</div>
<p>Quando os Estados Unidos e Israel iniciaram sua guerra ilegal de agressão contra o Irã em 28 de fevereiro de 2026, era inevitável que o Irã retaliasse restringindo o tráfego pelo Estreito de Ormuz. Embora o país nunca tenha fechado ou limitado a circulação pelo estreito anteriormente, o governo de Teerã deixou claro que a geografia do estreito passaria a fazer parte de sua estratégia defensiva caso fosse provocado. Para as nações da Ásia, o Estreito de Ormuz e o Estreito de Malaca são rotas vitais — pontos de controle — para o fluxo de mercadorias, especialmente energia. Cerca de 90% do petróleo do Japão e 75% do da Coreia do Sul passam pelo estreito. Qualquer lentidão no estreito afeta drasticamente as economias industriais do Leste Asiático, que consomem muita energia. Do ponto de vista econômico, a guerra dos EUA e de Israel contra o Irã é também uma guerra contra os interesses do Japão e da Coreia do Sul — e, na verdade, de todos os países asiáticos que dependem do petróleo do Golfo Pérsico. Apesar disso, muitos países asiáticos mantiveram silêncio diplomático ou, como no caso do Japão e da Coreia do Sul, apoiaram abertamente os Estados Unidos.</p>
<p>Países como o Japão e a Coreia do Sul alinham-se com os Estados Unidos contra seus próprios interesses econômicos porque foram integrados à estrutura militar estadunidense após o fim da Guerra Mundial Antifascista (amplamente conhecida como Segunda Guerra Mundial) (Instituto Tricontinental, 2025). A presença contínua de enormes bases militares estadunidenses nesses países acaba por arrastá-los inexoravelmente para as guerras intermináveis dos Estados Unidos. Esses países não podem romper com os EUA na questão da guerra contra o Irã enquanto estiverem militarmente subordinados a ele.</p>
<p>O principal alvo militar dos EUA na Ásia não é o Irã, mas a China, que é um dos principais parceiros comerciais do Japão, da Coreia do Sul, das Filipinas, de Taiwan e da maioria dos outros países asiáticos. Dado o papel central da China nas cadeias industriais da região, qualquer ação hostil contra o país perturbaria todo o paradigma de desenvolvimento do Leste Asiático. Em contrapartida, os Estados Unidos continuam sendo o principal patrocinador militar do Japão, da Coreia do Sul, das Filipinas e de Taiwan, além de constituírem um importante mercado de exportação para vários desses países. Isso coloca essas economias em uma <em>situação delicada</em>: elas não conseguem romper facilmente com sua dependência militar e financeira dos EUA, nem com sua relação econômica vital com a China — a nova fábrica do mundo.</p>
<p>Em<em> O dilema da Ásia Oriental: contradições e possibilidades na Nova Guerra Fria</em>, analisamos como o Japão, a Coreia do Sul, as Filipinas e Taiwan se encontram presos em uma contradição intransponível que persiste independentemente das mudanças no governo. Embora nosso foco seja o Leste Asiático, também analisamos brevemente o papel de países como a Austrália e a Índia neste contexto. As contradições exploradas neste dossiê são principalmente de natureza econômica e geopolítica; no entanto, elas oferecem possibilidades para impulsionar a luta de classes nessas sociedades, ao revelarem a necessidade de romper com as alianças subordinadas ao imperialismo.</p>
<hr class="single-post--content--separator-section">
<h2 style="margin:3em 0;">O Leste Asiático e o papel da China</h2>
<p>Nos últimos trinta anos, o Japão, a Coreia do Sul, as Filipinas e Taiwan passaram por uma mudança radical em seus padrões comerciais e trajetórias de desenvolvimento (Glawe; Wagner, 2021; Asian Development Bank, 2025). Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos foram o principal pilar da ordem econômica da região, seguidos pelo Japão no final do século XX (Chalmers, 1982; Aoki, 1995). Hoje, o novo centro de gravidade é a China, que desempenha um papel central — embora desigual — nessas economias. Embora cada um tenha seu próprio modelo de desenvolvimento e relação política com Beijing, os quatro estão profundamente integrados a uma rede de produção na qual a China atua como centro de manufatura, âncora da cadeia de suprimentos e principal mercado.</p>
<p>Estudos realizados pelo Banco Mundial e pelo Banco Asiático de Desenvolvimento demonstraram claramente a importância econômica da China no Leste Asiático (Asian Development Bank, 2025). A China é o maior parceiro comercial do Japão e da Coreia do Sul, respondendo por cerca de 20% a 25% das exportações de cada um desses países. A relação de Taiwan é ainda mais forte, com 30% a 40% de suas exportações destinadas à China. As Filipinas estão menos integradas, mas a China continua figurando entre seus principais parceiros comerciais, absorvendo cerca de 15% a 20% de suas exportações. Esses números indicam que uma parcela significativa da atividade econômica do Leste Asiático está diretamente ligada à demanda das indústrias chinesas (Yifu, 2012).</p>
<p>Quando analisada em relação à produção econômica global, a importância da China torna-se ainda mais evidente. O comércio com a China, ou seja, o total das exportações para o país, representa um décimo do Produto Interno Bruto (PIB) da Coreia do Sul. Um quarto do PIB de Taiwan está ligado ao comércio com a China continental. O Japão, cuja economia é muito mais voltada para o mercado interno, tem, no entanto, 5% do seu PIB vinculado às exportações para a China (aproximadamente a mesma porcentagem do seu PIB está vinculada aos EUA, o que inclui o impacto econômico das 120 instalações militares estadunidenses no Japão). Embora as Filipinas sejam um país menos dependente das exportações, cerca de 6% do seu PIB está ligado às exportações para a China (Comtrade, s.d.). A vitalidade da economia chinesa está, portanto, diretamente ligada aos níveis de produção, emprego e investimento em todo o Leste Asiático.</p>
<p>Na cúpula da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean) de 2011, realizada em Bali, na Indonésia, os Estados-membros discutiram a necessidade de criar um enquadramento regional para a integração econômica. Essas discussões acabaram por conduzir à Parceria Econômica Regional Abrangente (RCEP), um acordo comercial assinado em 2020 e que entrou em vigor em janeiro de 2022. A RCEP representa cerca de 30% da população mundial e 30% do PIB global. Abrangendo economias que vão da Nova Zelândia ao Japão, o bloco reúne uma variedade de setores, da mineração à alta tecnologia, e um mercado de 2,2 bilhões de consumidores. Os signatários concordaram em reduzir ou eliminar 92% das tarifas ao longo de vinte anos. O Japão, a Coreia do Sul e as Filipinas fazem parte da RCEP, que reforça os fluxos comerciais e formaliza o espaço econômico interconectado no qual a China é a maior economia (Cheng, 2023).</p>
<p>Por trás dos dados comerciais agregados, a estrutura da produção reforça ainda mais essa integração. A China não é apenas um mercado de destino, mas também um nó central nas cadeias industriais regionais e globais, na qualidade de grande consumidora e produtora de bens intermediários. Empresas japonesas e sul-coreanas exportam componentes de alto valor — como máquinas e peças automotivas, produtos petroquímicos e semicondutores — que muitas vezes são montados ou processados na China antes de serem exportados globalmente. A indústria de semicondutores de Taiwan está intimamente ligada à indústria manufatureira chinesa, já que os <em>chips</em> produzidos em Taiwan são frequentemente enviados para a China para serem incorporados em produtos eletrônicos acabados (Tinn, 2025; Sinha, 2026). Essas estruturas de produção integradas geraram interdependências setoriais. A indústria de semicondutores da Coreia do Sul — liderada por empresas como a Samsung Electronics e a SK Hynix — depende da demanda da indústria eletrônica chinesa. Os setores automotivo e de maquinário do Japão — liderados por empresas como Toyota, Honda, Nissan, Mazda, Komatsu, Hitachi e Mitsubishi — dependem dos consumidores chineses e das redes de produção do país.</p>
<p>Em conjunto, essas ligações comerciais e de produção mostram que todas as quatro economias estão estruturalmente ligadas à China, embora o grau de integração varie (sendo mais elevado em Taiwan e na Coreia do Sul e mais moderado no Japão e nas Filipinas). Isso gera tanto oportunidades de crescimento quanto pontos vulneráveis, à medida que a pressão dos EUA sobre a China se reflete em toda a região.</p>
<h2 style="margin:3em 0;">A rede de bases militares dos EUA</h2>
<p>Na última década, os Estados Unidos consolidaram uma estratégia militar coerente com o objetivo de cercar a China. Essa “estratégia de negação” foi formalizada em sucessivos documentos da Estratégia de Defesa Nacional dos EUA e exposta de forma proeminente no livro de Elbridge A. Colby, de 2021<em>, </em>intitulado<em> The Strategy of Denial: American Defense in an Age of Great Power Conflict</em>. Colby liderou a elaboração da Estratégia de Defesa Nacional de 2018 enquanto subsecretário adjunto de Defesa para Estratégia e Desenvolvimento de Forças durante o primeiro mandato de Trump e é, atualmente, subsecretário de Guerra para Políticas dos Estados Unidos, além de ser um dos principais estrategistas por trás da abordagem do governo Trump em relação à China (Colby, 2021). No cerne da estratégia de negação está a ideia de que o Indo-Pacífico — que se estende da África Oriental até a costa oeste dos Estados Unidos e abrange os oceanos Índico e Pacífico — é a região economicamente mais importante do mundo. Os interesses estratégicos dos EUA dependem de impedir que a China suplante a primazia estadunidense na região do Indo-Pacífico. A estratégia se baseia na dissuasão por meio da superioridade militar e da coordenação entre aliados, que foi institucionalizada por meio do Diálogo Quadrilateral de Segurança, ou Quad, que reúne Austrália, Índia, Japão e Estados Unidos (2017); do AUKUS, a parceria trilateral de segurança entre Austrália, Reino Unido e Estados Unidos (2021); da Iniciativa de Dissuasão do Pacífico, um quadro de financiamento militar e postura de forças dos EUA para a região Indo-Pacífico (2021); e do Acordo Trilateral EUA-Japão-Coreia do Sul (2023) (Fernandes, 2022; Fowler, 2024; Wagner; Song, 2023).</p>
<p>Em vez de um confronto direto, como no caso do Irã, os EUA buscam elevar os custos de defesa da China a um nível inaceitável, fortalecendo o sistema de alianças baseado em Washington e o posicionamento avançado das bases militares americanas. Atualmente, existem cerca de 270 instalações militares dos EUA, que se estendem desde Diego Garcia, no Arquipélago de Chagos, até Guam. No cerne dessa estratégia está a convicção de Washington de que uma capacidade militar confiável dos EUA pode limitar as opções estratégicas da China, ao mesmo tempo que preserva uma ordem regional liderada pelos EUA e continua aproveitando o papel da China como motor econômico da região.</p>
<p>Taiwan ocupa um lugar fundamental nesse enquadramento estadunidense (Zhao; Yang, 2024). Em 1º de janeiro de 1979, os Estados Unidos reconheceram formalmente a República Popular da China e aceitaram a posição de Beijing de que existe uma “China Única”, da qual Taiwan faz parte. No entanto, em 10 de abril de 1979, o Congresso dos Estados Unidos aprovou a Lei de Relações com Taiwan, que estabeleceu a base jurídica para que Washington mantivesse relações não oficiais com Taiwan. Isso permitiu que os EUA adotassem uma postura ambígua, reconhecendo formalmente o princípio de “Uma China”, ao mesmo tempo que provocavam Beijing por meio da venda de armas a Taiwan e mantinham laços econômicos e culturais diretos com Taipei. Desde 1950, os Estados Unidos venderam a Taiwan quase 50 bilhões de dólares em equipamentos e serviços de defesa (Council on Foreign Relations, 2023). Para os EUA, a questão do <em>status</em> de Taiwan não é apenas política, mas também estratégica, pois a reunificação de Taiwan com o continente proporcionaria à China um acesso significativamente maior ao Oceano Pacífico. Para Washington, Taiwan funciona como um instrumento para pressionar Beijing e conter a China.</p>
<p>A estratégia de contenção dos EUA está organizada geograficamente por meio de um sistema de cerco que começa com a primeira cadeia de ilhas (um arco de ilhas que se estende do Japão às Filipinas e funciona como uma barreira ao acesso da China ao Oceano Pacífico). Isso se estende à “profundidade do cerco” mais ampla que abrange Diego Garcia, o Sri Lanka e as bases estadunidenses na região do Golfo Pérsico.<a href="#_ftn1" name="_ftnref1"><sup>2</sup></a> Os Estados Unidos desenvolveram uma rede de bases e acordos de acesso ao longo dessa cadeia para controlar pontos-chave e rotas marítimas, restringindo a mobilidade militar chinesa. Essa estratégia de cerco inclui não apenas grandes instalações militares permanentes (como as do Japão e da Coreia do Sul), mas também, cada vez mais, uma rede dispersa de bases menores e mais flexíveis espalhadas pelos oceanos Pacífico e Índico, destinadas a reforçar a resiliência militar. As bases estão integradas a sistemas de vigilância, inteligência e mísseis que permitem o monitoramento e uma resposta rápida. Em conjunto, essa rede militar constitui um sistema estruturado de contenção. Embora os documentos de segurança nacional dos EUA apresentem isso como dissuasão defensiva, o posicionamento efetivo das forças estadunidenses ao longo da fronteira com a China <em>gera </em>tensões, em vez de <em>resolvê-las</em>.</p>
<p>O quadro estratégico dos EUA de contenção e cerco tem sido posto em prática por meio de uma expansão contínua das capacidades militares e da infraestrutura dos EUA no Leste Asiático, especialmente nas últimas duas décadas e com intensidade crescente desde 2020. Os EUA também têm financiado exercícios militares em grande escala, como o Exercício Balikatan (com as Filipinas), o Exercício Malabar (com a Austrália, a Índia e o Japão) e o Exercício Talisman Sabre (com a Austrália). Esses esforços são elaborados de forma a melhorar a interoperabilidade militar e transformar os aliados dos EUA de parceiros regionais em participantes de primeira linha na contenção da China.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-145011 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/D101_Kinjo_1.jpg" alt="" width="505" height="780" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/D101_Kinjo_1.jpg 505w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/D101_Kinjo_1-194x300.jpg 194w" sizes="auto, (max-width: 505px) 100vw, 505px"></div>
<p>Um dos marcos mais recentes promovidos pelos EUA é a Iniciativa de Dissuasão do Pacífico (PDI, na sigla em inglês), estabelecida pela Lei de Autorização de Defesa Nacional dos EUA de 2021 (Prashad <em>et al</em>., 2022). A PDI garante financiamento específico para o envio de forças, infraestrutura de bases, defesa antimísseis e exercícios conjuntos com aliados dos EUA, como Japão, Coreia do Sul e Filipinas. No Japão, a PDI garantiu melhorias na defesa antimísseis e nas forças de mobilização rápida. Na Coreia do Sul, ela possibilitou a realização de exercícios conjuntos, enquanto nas Filipinas permitiu a modernização das bases estadunidenses e dos sistemas de vigilância. A PDI também sustenta a integração e a implantação de sistemas de mísseis de precisão de longo alcance em toda a região do Indo-Pacífico. Isso inclui o reforço das capacidades de defesa aérea e antimísseis que foram implementadas em bases militares dos EUA em locais como Guam e as Ilhas Marianas, bem como na Base Aérea de Basa, nas Filipinas (para a qual o governo dos EUA destinou cerca de 66 milhões de dólares em 2023) (Heydarian, 2023). A PDI garante sistemas de inteligência, vigilância e reconhecimento que aprimoram o monitoramento das atividades militares na região e possibilitam o que é conhecido como “ataques de precisão” — a identificação rápida e o ataque preciso de alvos militares.</p>
<p>Esses acontecimentos transformaram países como o Japão, a Coreia do Sul e as Filipinas em plataformas operacionais avançadas para a agressão dos EUA.</p>
<h2 style="margin:3em 0;">Semeando o conflito: contradições de classe e os limites da democracia</h2>
<p>A estratégia de contenção dos EUA depende não apenas da integração militar, mas também do alinhamento das classes dominantes ao longo da primeira cadeia de ilhas em uma postura coordenada contra a China — particularmente no Japão, em Taiwan e nas Filipinas, e, de forma mais ampla, na vizinha Coreia do Sul. Essa aliança reflete os interesses das elites industriais, militares e políticas nacionais ligadas ao poder dos Estados Unidos. Em todo o Japão, Coreia do Sul, Filipinas e Taiwan, o aprofundamento da integração militar com os EUA agrava as contradições de classe existentes e expõe as limitações dos sistemas eleitorais. Embora isso gere resistência da base, esses sistemas políticos são concebidos para impedir o crescimento de qualquer força que seja contrária à intervenção dos EUA. Além disso, cada uma dessas sociedades carrega as marcas da Guerra Mundial Antifascista e da presença militar estadunidense no pós-guerra, incluindo bases militares que hoje parecem permanentes — uma experiência que continua definindo a visão política desses “Estados clientes”.<a href="#_ftn2" name="_ftnref2"><sup>3</sup></a></p>
<h3 style="margin:2em 0;"><em>Japão</em></h3>
<p>O sistema político japonês do pós-guerra tem sido dominado pelo Partido Liberal Democrático (PLD), uma formação política de direita a extrema direita com laços estreitos com o Estado e o capital dos Estados Unidos. Embora seja formalmente democrático, o sistema político do Japão é, na prática, dominado por um único partido, com o PLD no poder durante todos os anos, exceto quatro, desde sua fundação em 1955. Embora o artigo 9 da Constituição japonesa de 1947, por vezes denominado “cláusula pacifista”, proíba o reforço militar para além da defesa mínima, a direita política tem defendido a sua revogação desde o mandato do primeiro-ministro Nobusuke Kishi (1957-1960). Em 2014, durante o mandato do neto de Kishi, Shinzō Abe (2012-2020), o artigo 9 foi reinterpretado para permitir a “autodefesa coletiva”, possibilitando a expansão dos gastos militares japoneses — que aumentaram significativamente desde 2022, sob os mandatos dos primeiros-ministros Fumio Kishida, Shigeru Ishiba e Sanae Takaichi. Entre 2023 e 2024, os gastos militares do Japão aumentaram 21%, representando 1,4% do PIB do país (Sipri, 2025). Em abril de 2026, sob o governo de Takaichi, o Japão suspendeu a proibição da exportação de armas letais, que havia sido instituída com base na lógica de que um país pacifista não deveria lucrar com as guerras.</p>
<p>A contradição entre o aumento dos gastos militares e as demandas democráticas para que a riqueza do Japão seja investida em necessidades sociais — exemplificada pelos protestos contra as bases militares em regiões mais pobres, como Okinawa — revela as limitações da democracia formal do país. A sociedade japonesa continua subordinada às prioridades militares definidas por uma elite interna permanente alinhada com os Estados Unidos.</p>
<p>A construção de uma nova base do Corpo de Fuzileiros Navais na área da Baía de Henoko-Oura, em Okinawa, destinada a substituir a Base Aérea de Futenma — há muito criticada por estar localizada no meio da densamente povoada Ginowan —, tem enfrentado oposição contínua desde 1996. Em 2018, Denny Tamaki foi eleito governador de Okinawa com uma plataforma contrária à base; em um referendo provincial realizado em 2019, 70% dos votantes se opuseram à sua construção. Apesar desses mandatos democráticos e de décadas de contestação judicial, o governo central do Japão prossegue com as operações de aterro que estão destruindo os ecossistemas de corais da Baía de Oura em nome das Forças Armadas dos Estados Unidos (Mitchell, 2026). Organizações como o Conselho de Toda Okinawa contra a Construção da Nova Base em Henoko, o Centro do Movimento pela Paz de Okinawa, o Projeto de Justiça Ambiental de Okinawa e os manifestantes do acampamento de Henoko — que mantêm uma resistência diária há mais de duas décadas — representam uma política que vincula a luta local a questões mais amplas de imperialismo e autodeterminação (McCormack, 2018).</p>
<h3 style="margin:2em 0;"><em>Coreia do Sul</em></h3>
<p>A história política da Coreia do Sul é marcada por uma intensa luta de classes. Nascida em meio à Guerra da Coreia, que teve início em 1950 e permanece formalmente sem solução – uma vez que o armistício de 1953 não resultou em um tratado de paz –, a Coreia do Sul tem sido tratada pelos Estados Unidos como uma base militar e um baluarte econômico contra o comunismo. Embora o país tenha sido governado por governos pró-EUA, incluindo uma ditadura militar de 1967 a 1988, seu sistema político tem se mostrado mais dinâmico do que o do Japão: nenhum partido isolado governou de forma ininterrupta. No entanto, os governos eleitos, tanto conservadores quanto liberais, continuam estruturalmente dependentes dos Estados Unidos. Essa dinâmica se evidenciou tanto durante o governo de Yoon Suk-yeol, um conservador fortemente alinhado com os Estados Unidos e os <em>chaebols</em> (conglomerados sul-coreanos), quanto durante o governo de Moon Jae-in, um liberal que buscava uma autonomia limitada, mas continuava vinculado ao capital orientado para a exportação e aos <em>chaebols</em>. De fato, em 2018, durante a presidência liberal de Moon Jae-in, os gastos militares da Coreia do Sul subiram para 2,5% do PIB, estabelecendo um patamar que os orçamentos anuais subsequentes continuaram buscando (subindo para 2,6% em 2022) (World Bank, s.d.).</p>
<p>Desde meados da década de 2010, a Coreia do Sul tem vivenciado uma onda de lutas democráticas, que vão da Revolução das Velas ou <em>Chot-bul Hyuk-myung </em>(2016-2017), que destituiu a presidenta Park Geun-hye do cargo, até a Revolução das Luzes ou <em>Bit-eh Hyuk-myung</em> (2024-2025), que buscou defender a democracia sul-coreana contra a lei marcial imposta pelo presidente Yoon Suk-yeol em dezembro de 2024. Apesar das repetidas mobilizações da classe trabalhadora e da sociedade civil contra a desigualdade e dos apelos por uma maior independência na política externa, a subordinação da Coreia do Sul aos Estados Unidos tem impedido essa transformação. Além disso, a dependência econômica e militar da Coreia do Sul em relação aos EUA significa que o país é obrigado a adotar medidas profundamente impopulares, como o envio de tropas coreanas ao Iraque ou a instalação do sistema antimísseis balísticos, o Terminal High Altitude Area Defense (THAAD). Desde a sua fundação, a Coreia do Sul tem alinhado sua política externa à dos Estados Unidos. Uma das consequências disso é que o fracasso da Cúpula de Hanói entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos, em 2019, levou a um congelamento nas relações intercoreanas (Song, 2024). Enquanto isso, o estreitamento das relações entre a República Popular Democrática da Coreia (RPDC) e a Rússia ampliou a margem de manobra de Pyongyang.</p>
<p>Em junho de 2025, Lee Jae-myung foi eleito presidente após ter contribuído para impedir que o presidente Yoon impusesse a lei marcial alguns meses antes. Apesar de ser advogado especializado em direitos humanos e direito do trabalho, o presidente Lee continuou estreitando os laços entre o complexo militar-industrial da Coreia do Sul e os Estados Unidos. Embora Lee tenha tentado recuperar o controle operacional das Forças Armadas da Coreia do Sul em tempo de guerra, suas concessões econômicas ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, integraram ainda mais a Coreia do Sul à máquina de guerra estadunidense. Lee não só concordou com os apelos dos EUA para que os aliados destinem 3,5% do PIB à defesa, como também estabeleceu que a Coreia do Sul também investirá 350 bilhões de dólares nos próximos dez anos para aumentar a produção de semicondutores nos EUA (cujo uso duplo permite a expansão da IA militar) e ampliar a construção naval estadunidense, ajudando a aliviar os gargalos crônicos na base industrial marítima dos EUA — um impulso refletido no <em>slogan</em> coreano bajulador MASGA: Make American Shipbuilding Great Again [Tornemos a construção naval dos EUA grande novamente]. Mais especificamente, a aquisição do Estaleiro da Filadélfia pelo Grupo Hanwha da Coreia do Sul, em 2024, permite que este sirva como uma solução potencial para a demanda reprimida por submarinos de propulsão nuclear na Marinha dos Estados Unidos e contribua para a produção de navios de guerra da corporação. Além disso, a Coreia do Sul acolhe a presença da Força Espacial dos EUA e coopera na criação de uma rede de satélites interoperáveis para o “Golden Dome” de Trump, um sistema de defesa antimíssil (Song, 2024). Todas essas medidas permitiram que a Coreia do Sul se unisse a Israel no seleto grupo de “aliados exemplares” dos Estados Unidos (US Department of war, 2026).</p>
<h3 style="margin:2em 0;"><em>Filipinas</em></h3>
<p>As Filipinas têm enfrentado dificuldades para afirmar sua soberania desde a ocupação pelos Estados Unidos em 1898. O poder político no país tem sido dominado por algumas famílias da elite (por exemplo, o atual presidente, Bongbong Marcos, é filho de Ferdinand Marcos, que governou o país de 1965 a 1986). O país dependia inteiramente dos Estados Unidos para seus planos de segurança até 1991 e, em 1995, lançou o Programa de Modernização das Forças Armadas das Filipinas, que permitiu a expansão da Marinha e da Força Aérea filipinas, principalmente por meio da aquisição de equipamento militar estadunidense. As Forças Armadas das Filipinas se tornaram integradas às dos Estados Unidos por meio de intervenções e exercícios conjuntos.</p>
<p>A estrutura do domínio dos Estados Unidos sobre as Filipinas é mais bem ilustrada pelo Acordo de Cooperação Reforçada em Defesa (EDCA, na sigla em inglês), assinado pela primeira vez em 2014 e posteriormente ampliado em 2022. O EDCA permite que as forças militares dos EUA tenham acesso rotativo às bases militares filipinas, possibilitando o pré-posicionamento de equipamentos, o treinamento conjunto e a construção de infraestrutura militar dos EUA nessas instalações, com supervisão mínima por parte do governo filipino.</p>
<p>Em 2023, no início do governo de Marcos Jr., o número de locais designados no âmbito do EDCA quase dobrou (passando de cinco para nove). A Base Naval Camilo Osias e o Aeroporto de Lal-lo estão localizados no extremo norte das Filipinas, permitindo uma “resposta rápida” a conflitos no Estreito de Taiwan (Guzman, 2023). Essas duas bases contam com o apoio do Acampamento Melchor F. Dela Cruz, localizado no vale montanhoso de Cagayan, que funciona como base logística. A presença dos EUA nessas instalações ajuda Washington a projetar sua força por meio do Estreito de Luzon, que as Filipinas compartilham geograficamente com Taiwan. O quarto local recém-designado ainda não foi divulgado publicamente, mas sua localização deixa clara sua importância para a projeção de poder dos EUA no Mar da China Meridional. Por meio do EDCA, as forças estadunidenses realizam o Exercício Balikatan, que atingiu uma escala sem precedentes durante o governo de Marcos Jr., com a participação do Japão prevista para 2025. Organizações da sociedade civil e ativistas pela paz continuam debatendo as implicações da estreita aliança do governo de Marcos Jr. com os Estados Unidos. Essa aliança tem se desenvolvido em paralelo a uma repressão cada vez mais intensa contra ativistas e militantes rurais, incluindo o assassinato de dezenove pessoas pelas tropas filipinas em Toboso, Negros Ocidental, em abril de 2026 — um incidente que grupos de direitos humanos têm exigido que seja investigado de forma independente.</p>
<h3 style="margin:2em 0;"><em>Taiwan</em></h3>
<p>Após a derrota do partido nacionalista Kuomintang (KMT) na Revolução Chinesa, este se refugiou na ilha de Taiwan sob a liderança de Jiǎng Jièshí (Chiang Kai-shek na antiga transliteração) e ali estabeleceu o seu governo. O KMT governou Taiwan sob a lei marcial por trinta e oito anos, até 1987, e depois continuou a governar em um sistema eleitoral dominado por um único partido até 2000. Desde então, o Partido Democrático Progressista (PDP) tem estado, em grande parte, no poder, conduzindo a política taiwanesa cada vez mais na direção do separatismo em relação à China continental e de uma integração mais profunda da ilha nos planos estratégicos dos Estados Unidos. O PDP reflete uma coalizão de tecnocapitalistas, elites separatistas e instituições militares, enquanto o KMT conta com o apoio de empresas com interesses no comércio entre os dois lados do Estreito com a China. Ambos, no entanto, atuam dentro de um escopo definido pelas prioridades estratégicas dos Estados Unidos. Desde 2022, os gastos militares de Taiwan e o apoio militar dos EUA têm apresentado um padrão de fortalecimento constante e coordenado, em vez de um rearmamento repentino. O orçamento militar de Taiwan disparou, chegando a aproximadamente 30 bilhões de dólares em 2026. Os gastos militares aumentaram de 2% do PIB na década de 2010 para 3,3% em 2026, com planos de chegar a 5% até 2030. Esse enorme desvio de recursos recai sobre uma sociedade que já enfrenta salários estagnados e aumento do custo de vida.</p>
<p>O orçamento militar financia a compra de armas e enriquece as empresas do setor de defesa dos EUA. As vendas de armamento estadunidense a Taiwan tornaram-se mais frequentes, com pacotes de armas regulares focados em mísseis, defesa aérea e drones. Entre 2019 e 2024, os Estados Unidos aprovaram mais de 32 bilhões de dólares em vendas de armas para a ilha, incluindo caças F-16V (8 bilhões), tanques M1A2 Abrams (2 bilhões), sistemas de foguetes HIMARS (436 milhões) e mísseis de defesa costeira Harpoon, com novos pacotes de grande porte, no valor de mais de 11 bilhões de dólares, anunciados em 2025 (No Cold War, 2023). Mas a venda de armas já não é o único limite do envolvimento militar dos EUA. Desde 2024, as Forças Especiais do Exército dos EUA, conhecidas popularmente como Boinas Verdes, estão estacionadas nas ilhas de Kinmen e Penghu, marcando a primeira presença militar duradoura dos EUA em território taiwanês em mais de quarenta anos. A escalada militar é, sem dúvida, impulsionada por Washington, criando as condições para uma crise que se autoalimenta por meio da militarização, ao mesmo tempo que as respostas chinesas são apresentadas como “provocações”.</p>
<p>A fragilidade política desse caminho rumo à militarização merece destaque. Lai Ching-te, do escritório do DPP, assumiu a presidência em 20 de maio de 2024 após obter apenas 40,1% dos votos, enquanto o KMT conquistou 33,5% e o Partido Popular de Taiwan (TPP), 26,5%. É importante destacar que a oposição, formada pelo KMT e pelo TPP, controla o Yuan — o órgão legislativo máximo de Taiwan — pela primeira vez desde 2016. Dos 113 assentos, 52 são ocupados pelo KMT, 8 pelo TPP e 51 pelo DPP. Essa abertura política ficou evidente em abril de 2026, quando a presidenta do KMT, Cheng Li-wun, visitou Beijing e se reuniu com Xi Jinping — a primeira visita desse tipo realizada por uma liderança do partido em uma década —, sinalizando que parte da oposição está tentando retomar o diálogo entre os dois lados do estreito, em vez de seguir o caminho de escalada militar traçado pelo DPP. O legislativo, portanto, não tem respaldado a escalada militar defendida pelo DPP.</p>
<p>Uma pesquisa de opinião pública realizada pelo Centro de Estudos Eleitorais da Universidade Nacional Chengchi revela que apenas 3,8% da população, o menor índice desde 2002, apoia a “independência imediata”, enquanto 1,2% defende a unificação imediata. Enquanto isso, de 83% a 88% preferem a manutenção do <em>status quo</em>, com um recorde de 33,2% que desejam o “<em>status quo</em> indefinidamente” (National Chengchi University Election Study Center, 2025). A postura de confronto do DPP com a China continental, intensificada com a Lei Anti-Infiltração de 2019 – que visava conter a suposta influência política da China em Taiwan – carece agora tanto de mandato legislativo quanto de apoio popular.</p>
<p>Organizações unificacionistas de esquerda, como o Partido Trabalhista de Taiwan, têm argumentado que a base social do separatismo do DPP tem suas raízes nos colaboradores japoneses da era colonial e que a questão de Taiwan é um legado da intervenção dos EUA na Guerra Civil Chinesa. Os EUA não precisam ampliar formalmente sua presença na ilha da mesma forma que fazem no Japão ou nas Filipinas, já que o DPP apoia incondicionalmente a estratégia de contenção estadunidense. Essas tendências indicam uma integração militar cada vez mais estreita entre os EUA e Taiwan, aproximando-se, na prática, de uma quase-aliança, uma vez que um tratado formal provocaria uma reação de Beijing. Desde 2022, tem havido uma militarização contínua de Taiwan, marcada por momentos de total indiferença em relação ao próprio desenvolvimento nacional — os EUA chegaram até a sugerir a destruição das fábricas de semicondutores de Taiwan para proteger os interesses estadunidenses na ilha.<a href="#_ftn3" name="_ftnref3"><sup>4</sup></a></p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-144941 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/D101_Kinjo_2.jpg" alt="" width="505" height="780" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/D101_Kinjo_2.jpg 505w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/D101_Kinjo_2-194x300.jpg 194w" sizes="auto, (max-width: 505px) 100vw, 505px"></div>
<h2 style="margin:3em 0;">Além da primeira cadeia de ilhas</h2>
<p><strong><br>
</strong>A estratégia dos EUA para conter a China vai além da primeira cadeia de ilhas, operando por meio de alianças como o Aukus e o Quad. Esses acordos criam camadas sobrepostas de cooperação militar que restringem a mobilidade da China nas águas vizinhas e em toda a região do Indo-Pacífico. Eles também revelam tensões entre a interdependência econômica com a China e as alianças militares voltadas para o confronto. As contradições resultantes levantam dúvidas quanto à durabilidade dessas formações. Dois atores importantes destacam-se como figuras centrais nessa estrutura mais ampla: a Austrália e a Índia.</p>
<h3 style="margin:2em 0;"><em>Austrália</em></h3>
<p>A Austrália é membro da Five Eyes — uma rede de compartilhamento de informações liderada pelos EUA — e é um dos seis “Parceiros de Oportunidades Alargadas” da Otan. Nesse sentido, o país sempre desempenhou um papel fundamental na estratégia dos Estados Unidos na Ásia. O desenvolvimento mais significativo na aliança entre os EUA e a Austrália é o acordo Aukus, de 2021, que, em seu primeiro pilar, prevê o fornecimento de submarinos de ataque movidos a energia nuclear à Austrália. O programa teve início com o aumento das visitas de submarinos estadunidenses a portos australianos, seguidas por destacamentos rotativos em bases locais, e deverá culminar na aquisição, pela Marinha Real Australiana, de pelo menos oito submarinos de propulsão nuclear a partir da década de 2030 (sendo que uma parte deles será construída no país por meio de cooperação conjunta na década de 2040). Com um custo total estimado em mais de 264 bilhões de dólares, esses submarinos de propulsão nuclear são estratégicos, pois permitem operações de longo alcance nos oceanos Índico e Pacífico. Embora isso não seja explicitamente declarado, a interoperabilidade e a profunda dependência operacional em relação aos Estados Unidos fariam com que a Austrália se integrasse à posição dos EUA diante da China, inclusive nos esforços para controlar as rotas marítimas e apoiar as operações estadunidenses no Estreito de Taiwan ou no Mar da China Meridional.</p>
<p>Embora a Austrália já tenha pago 500 milhões de dólares a Washington, o governo Trump, que enfrenta seu próprio gargalo no programa de submarinos, está avaliando se fornecerá à Austrália os submarinos prometidos. Um relatório do Congresso chegou a considerar a possibilidade de manter os submarinos sob controle dos EUA e operá-los a partir de bases australianas, dada a relutância da Austrália em prometer intervenção militar em uma eventual guerra entre os EUA e a China, já que esta última é o maior parceiro comercial da Austrália (Doherty, 2026). Isso é revelador das contradições e tensões entre os interesses nacionais e os compromissos de aliança.</p>
<h3 style="margin:2em 0;"><em>Índia</em></h3>
<p>A posição da Índia na estrutura de contenção difere daquela do Japão ou de Taiwan. A Índia não mantém nenhuma aliança formal com os EUA, faz parte do Brics e da Organização para Cooperação de Xangai (OCX) e herda uma forte tradição de não-alinhamento. No entanto, a trajetória da política externa indiana na última década revela uma tendência de alinhamento com as preferências estratégicas dos EUA, muitas vezes disfarçada pela retórica da autonomia estratégica. A Índia assinou acordos de defesa com os EUA que integram as forças indianas às estruturas de comando, controle e inteligência estadunidenses. A aproximação da Índia com Washington torna-se ainda mais evidente quando analisada no contexto do enfraquecimento de suas relações com o Irã, um tradicional parceiro comercial e aliado. Quando o governo Trump restabeleceu as sanções contra o Irã em 2018 e exigiu a interrupção das compras de petróleo iraniano, a Índia atendeu à exigência, reduzindo as importações de 500 mil barris por dia para quase zero em maio de 2019. O cumprimento das exigências por parte da Índia significou abrir mão do petróleo iraniano mais barato e colocar em risco seus investimentos no porto de Chabahar, no Irã, um projeto de importância estratégica para a Índia, pois garante acesso à Ásia Central sem passar pelo Paquistão (Prashad, 2013; Karat, 2007; Bhadrakumar <em>et al</em>., 2007). Em 12 de março de 2025, entraram em vigor tarifas globais de 25% sobre o aço e o alumínio, elevando as tarifas sobre o aço e o alumínio indianos para 26%. Em 6 de agosto, Trump impôs uma tarifa adicional de 25% sobre os produtos indianos em resposta à compra de petróleo russo a preço reduzido pela Índia, elevando a alíquota acumulada para 50%. A Índia acabou concordando em suspender as compras de petróleo russo, mas não chegou a assinar um acordo comercial decisivo com os EUA após a Suprema Corte anular as tarifas impostas por Trump.</p>
<p>Apesar desses acordos com os EUA, a Índia continua sendo membro do grupo Brics e mantém relações econômicas importantes tanto com a China quanto com a Rússia. O comércio bilateral entre a Índia e a China cresceu 12% em relação ao ano anterior em 2025, atingindo 155,6 bilhões de dólares. A participação indiana na Organização para a Cooperação de Shanghai (OCX) se intensificou, especialmente após a visita do primeiro-ministro indiano Narendra Modi à cúpula de 2025 em Tianjin. Em 2018, a Índia assinou um contrato de 5,4 bilhões de dólares para adquirir o sistema de defesa aérea S-400 da Rússia, apesar das ameaças de sanções por parte dos Estados Unidos. O comércio entre a Índia e a Rússia cresceu significativamente nos últimos anos, impulsionado principalmente pelas compras de petróleo bruto russo a preços reduzidos, que passaram de níveis insignificantes antes de 2022 para um pico de dois milhões de barris por dia em 2025, tornando a Rússia o maior fornecedor de petróleo da Índia. O fato de a Índia manter relações comerciais com a Rússia e a China contrasta com sua participação no Quad e nos acordos de parceria com os EUA, revelando uma contradição no cerne do posicionamento da Índia. A Índia ilustra um padrão de coerção gradual por parte dos EUA; mesmo como parceira estratégica, a Índia não está imune à coerção imperial (Srujana, 2025; Instituto Tricontinental, 2026).</p>
<h2 style="margin:3em 0;">Fragilidade da aliança e contradições econômicas</h2>
<p>A estratégia de negação parte do pressuposto de que os EUA podem convencer seus aliados a conter a China — uma suposição que se desmorona quando analisada com mais cuidado. A prosperidade material dos aliados dos EUA depende cada vez mais da integração econômica com a China, mesmo que os alinhamentos militares os comprometam em um possível conflito. Todas as regiões analisadas neste dossiê enfrentam a mesma contradição fundamental: o dilema entre a integração econômica <em>com</em> a China e o alinhamento militar <em>contra</em> ela. Em 2025, o comércio desses países com a China — 331 bilhões de dólares da Coreia do Sul, 322 bilhões do Japão, 73 bilhões das Filipinas e 207 bilhões da Austrália — superou em muito o comércio com os EUA — 241,2 bilhões de dólares com a Coreia do Sul, 228 bilhões com o Japão, 27 bilhões com as Filipinas e 89,6 bilhões com a Austrália. Até mesmo o comércio da Índia com a China (156 bilhões de dólares) é maior do que o comércio com os EUA (149 bilhões de dólares). Esses fluxos representam riqueza, empregos e receitas públicas que seriam devastados por uma guerra ou por um confronto prolongado com a China. Quando um conflito real se aproxima, esses interesses econômicos podem revelar-se mais decisivos do que compromissos militares abstratos.</p>
<p>Durante a guerra dos EUA contra o Iraque, importantes aliados estadunidenses se recusaram a participar, apesar da enorme pressão exercida pelos EUA e da invocação dos compromissos das alianças. Na Ásia, o Japão e a Coreia do Sul se recusaram a enviar forças de combate, embora tenham fornecido assistência logística e recursos para a reconstrução. Mais recentemente, nenhum dos aliados dos EUA (incluindo o Japão e a Coreia do Sul) atendeu às exigências de Trump para que enviassem navios para abrir o Estreito de Ormuz. Se os aliados se mostraram pouco confiáveis em uma guerra contra um adversário mais fraco, qual seria a probabilidade de sua participação em uma guerra contra a China, uma potência industrial e nuclear? A Austrália enviaria forças de combate para lutar contra a China, arriscando sofrer retaliações contra cidades australianas e a perder seu maior parceiro comercial? A Coreia do Sul participaria, se uma guerra regional pudesse desencadear uma intervenção da Coreia do Norte? Será que o povo japonês, traumatizado pelos bombardeios nucleares dos EUA, aceitaria baixas em combate? A Índia enviaria tropas, considerando que a situação de Taiwan não tem relevância direta para a segurança indiana e que tal participação colocaria em risco suas relações com a China e a Rússia? As Filipinas entrariam em conflito se isso significasse o risco de uma retaliação chinesa?</p>
<p>As alianças funcionam bem quando os custos permanecem hipotéticos e abstratos: exercícios conjuntos, compartilhamento de informações, aquisição de armamentos e coordenação diplomática. Elas enfrentam provações severas quando uma guerra real exige o sacrifício de vidas, a aceitação da devastação econômica e o risco da própria existência nacional em prol dos interesses de outra potência, especialmente quando essa potência é a agressora. A dependência da estratégia de negação em relação à participação dos aliados pode ser sua falha fatal caso surja um conflito, especialmente quando as alianças se baseiam na subordinação e na coerção, em vez de em interesses comuns genuínos.</p>
<h2 style="margin:3em 0;">Resistindo à máquina de guerra e construindo o multilateralismo</h2>
<p>A Nova Guerra Fria que está surgindo, com foco no Leste Asiático, é uma resposta estratégica dos Estados Unidos à mudança do centro de gravidade da economia mundial. À medida que as capacidades econômicas e tecnológicas da China se expandem, a política dos EUA depende cada vez mais da força militar e das estruturas de alianças para manter sua influência estratégica na região do Indo-Pacífico (Instituto Tricontinental, 2024). Essa estratégia de contenção visa conter a China por meio da militarização, da coordenação de alianças e da modernização da defesa. Washington está construindo uma estrutura militar provocativa na região por meio de uma rede de iniciativas e parcerias.</p>
<p>Em toda a Ásia Oriental e na região do Indo-Pacífico, as implicações da crescente militarização são profundas. O Japão, a Coreia do Sul, as Filipinas, Taiwan, a Austrália e a Índia possuem infraestrutura militar significativa ou participam de uma cooperação militar que poderia colocá-los no centro de um grande conflito. Para muitas sociedades da região, a perspectiva de uma maior militarização suscita preocupações quanto aos custos de oportunidade, uma vez que os recursos destinados aos gastos com defesa competem com os investimentos em bem-estar social, infraestrutura, resiliência climática e desenvolvimento econômico.</p>
<p>Analistas de política externa e formuladores de políticas progressistas da região propuseram várias reformas com o objetivo de promover a paz e a redução das tensões. Entre elas estão medidas de fortalecimento da confiança em zonas de atrito, como o Estreito de Taiwan, novas iniciativas de controle de armas e mecanismos multilaterais para a gestão de disputas marítimas no Mar da China Meridional. As organizações regionais, em particular a Asean, são frequentemente citadas como plataformas potenciais para a promoção do diálogo e a gestão de conflitos.</p>
<p>Embora essas propostas sejam bem-vindas, qualquer transformação deve, inevitavelmente, partir do próprio povo organizado da região. Diversos movimentos sociais em toda a região continuam defendendo a diplomacia, a cooperação regional e a desmilitarização. Em Okinawa, organizações como o Projeto de Justiça Ambiental de Okinawa e o movimento “No More Battle of Okinawa” protestam contra a expansão das bases estadunidenses. Nas Filipinas, organizações como a Bagong Alyansang Makabayan (Bayan) se opõem à ampliação dos acordos de acesso militar e reivindicam maior soberania nacional. Na Coreia do Sul, partidos políticos e movimentos sociais, como a Ação Internacional Popular contra Trump, apoiam a retomada do diálogo diplomático para reduzir as tensões na Península Coreana. Debates semelhantes ocorrem em Taiwan, na Austrália, na Índia e em outras regiões que enfrentam o militarismo dos EUA.</p>
<p>A Assembleia Internacional dos Povos (AIP) — uma rede de cerca de 200 movimentos sociais, partidos políticos e sindicatos fundada em 2015 — tem trabalhado em estreita colaboração com organizações de base locais, promovendo a solidariedade e o consenso em questões fundamentais. Nesta conjuntura crucial, em que a militarização ameaça a paz e o desenvolvimento na Ásia e, na verdade, em todo o mundo, a AIP lançou a campanha “Hands-Off Asia” [<a href="https://ipa-aip.org/pt-br/campaign/tirem-as-bases-da-asia/">Tire as mãos da Ásia</a>]. Essa iniciativa gira em torno de quatro reivindicações para amenizar as tensões dessa Nova Guerra Fria na região:</p>
<ol>
<li><strong>Retirar todas as bases militares estrangeiras e democratizar a segurança</strong>. As centenas de bases militares estrangeiras espalhadas pela região asiática devem ser removidas para que a política regional possa ser democratizada e a paz possa ser mais do que apenas uma preparação para a próxima guerra. Os Estados devem evitar a formação de blocos militares rígidos, limitar as mobilizações avançadas e se comprometer a impedir uma corrida armamentista. A política militar deve prestar contas ao público — deve haver supervisão por parte do Parlamento, dos governos locais e da sociedade civil sobre acordos militares, orçamentos de defesa e o envio de tropas ao exterior.</li>
<li><strong>Aumentar o contato entre as pessoas</strong>. Apoiar a cooperação entre sindicatos, grupos estudantis, organizações pela paz e movimentos sociais em toda a Ásia para se opor à corrida armamentista, às bases estrangeiras e à escalada do confronto. Incentivar o intercâmbio entre os povos, os laços culturais e a diplomacia de base além das fronteiras — especialmente entre sociedades em conflito ou sob tensão elevada — para construir uma cultura regional comum de paz.</li>
<li><strong>Institucionalizar um diálogo contínuo.</strong> Estabelecer canais de comunicação regulares e de alto nível, tanto políticos quanto entre as Forças Armadas, para gerenciar crises, reduzir erros de avaliação e construir a confiança mútua. Promover mecanismos práticos de fortalecimento da confiança, como linhas diretas e acordos de prevenção de incidentes.</li>
<li><strong>Priorizar a segurança cooperativa e os desafios comuns.</strong> Mudar o foco da competição de soma zero para a colaboração em questões fundamentais, como as mudanças climáticas, a saúde pública, a estabilidade econômica e o desenvolvimento, reforçando a interdependência como base para a paz. Promover campanhas pela redução dos gastos militares e pela realocação de recursos para a saúde, a ação climática, a educação e a redução da desigualdade, vinculando diretamente a paz à justiça social.</li>
</ol>
<p>Por trás dessas dificuldades está uma mudança estrutural mais ampla na economia global. O crescimento da China como grande potência industrial remodelou as redes de produção globais e alterou a distribuição da influência econômica. Essas mudanças deram um novo impulso aos movimentos que lutam pela soberania em todo o Sul Global. Ainda não se sabe se essa transição levará a um multilateralismo estável e pacífico ou a uma competição mais acirrada. Muito depende de se a luta de classes poderá avançar de forma a orientar a agenda para a paz e o desenvolvimento, em vez de para a guerra e a austeridade.</p>
<hr class="single-post--content--separator-section single-post--content--separator-section-end">
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone size-full wp-image-144933 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/D101_Kinjo_3.jpg" alt="" width="505" height="780" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/D101_Kinjo_3.jpg 505w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2026/05/D101_Kinjo_3-194x300.jpg 194w" sizes="auto, (max-width: 505px) 100vw, 505px"></div>
<h3 class="single-post--content--citations-title" style="margin:2em 0;">Notas</h3>
<div class="single-post--content--citations-block">
<p><a href="#_ednref1" name="_edn1"><sup>1</sup></a> Embora Okinawa represente apenas 0,6% da área territorial do Japão, abriga cerca de 70% de todas as instalações militares estadunidenses no país. Leia mais sobre Kinjo e a história de Okinawa em nosso boletim de arte n. 26 (abril de 2026), “Não se pode engolir uma agulha, por menor que seja: o escultor da resistência de Okinawa” <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/boletim-arte-escultor-resistencia-okinawa/">https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/boletim-arte-escultor-resistencia-okinawa/</a>.</p>
<p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1"><sup>2</sup></a> Sobre o papel do Sri Lanka no epicentro da estratégia indo-pacífica dos EUA, ver Illanperuma, 2024. Sobre Diego Garcia, ver Sands, 2022.</p>
<p><a href="#_ftnref2" name="_ftn2"><sup>3</sup></a> Estamos seguindo a narrativa apresentada por McCormack, 2007.</p>
<p><a href="#_ftnref3" name="_ftn3"><sup>4</sup></a> A sugestão dessa estratégia de “terra arrasada” foi apresentada pela primeira vez por McKinney &amp; Harris, em 2021, e retomada dois anos depois pelo ex-conselheiro de segurança nacional dos EUA, Robert O’Brien. Ver também: Clemons, 2023.</p>
</div>
<h3 class="single-post--content--citations-title" style="margin:2em 0;">Referências</h3>
<div class="single-post--content--citations-block">
<p>AOKI, Masahiko. <em>Hikaku Seido Bunseki ni Mukete. </em>Tóquio: Toyo Keizai Shinposa, 1995.</p>
<p>ASIAN DEVELOPMENT BANK. <em>Asian Economic Integration Report 2025: Harnessing the Benefits of Regional Cooperation and Integration.</em> Manila: Asian Development Bank, 2025.</p>
<p>BHADRAKUMAR, M. K.; KOSHY, Ninan; PURKAYASTHA<em>, </em>Prabir. <em>Uncle Sam’s Nuclear Cabin. </em>LeftWord Books, 2007.</p>
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</div>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Eles estão tornando as águas do Pacífico perigosas</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/alerta-vermelho-18-rimpac/</link>
		
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		<pubDate>Thu, 18 Jul 2024 08:00:54 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Presos entre a dependência militar dos EUA e a profunda integração econômica com a China, o Japão, a Coreia do Sul, as Filipinas e Taiwan enfrentam crescentes contradições à medida que a Nova Guerra Fria remodela o Leste Asiático.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-107641 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/07/20240717_Red-Alert-18-Cards_PT_IG-e1721334366213.jpg" alt="" width="950" height="950"></div>
<h2 style="margin:3em 0;">Eles estão tornando as águas do Pacífico perigosas</h2>
<h3 style="margin:2em 0;">O que é o Rimpac?</h3>
<p>Os EUA e seus aliados têm realizado o Rim of the Pacific (<a href="https://www.cpf.navy.mil/RIMPAC/">Rimpac</a>) desde 1971. Os parceiros iniciais desse projeto militar foram a Austrália, o Canadá, a Nova Zelândia, o Reino Unido e os Estados Unidos, que também são os membros originais do Five Eyes (atualmente <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/estudos-sobre-dilemas-contemporaneos-4-hiper-imperialismo/">Quatorze Olhos</a>), rede de inteligência criada para compartilhar informações e realizar exercícios conjuntos de vigilância. Eles também são os principais países anglófonos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan, criada em 1949) e são membros do tratado de estratégia Anzus entre Austrália, Nova Zelândia e EUA, assinado em 1951. O Rimpac cresceu e se tornou um importante exercício militar bienal que atraiu diversos países com várias formas de fidelidade ao Norte Global (Bélgica, Brasil, Brunei, Chile, Colômbia, Equador, França, Alemanha, Índia, Indonésia, Israel, Itália, Japão, Malásia, México, Holanda, Peru, Filipinas, República da Coreia, Cingapura, Sri Lanka, Tailândia e Tonga).</p>
<p>O Rimpac 2024<a href="https://www.mindef.gov.sg/news-and-events/latest-releases/14jul24_nr"> começou</a> em 28 de junho e vai até 2 de agosto. Está ocorrendo no Havaí, que legalmente é território ocupado pelos EUA. O movimento pela independência do Havaí tem um histórico de resistência ao Rimpac, que é entendido como parte da ocupação estadunidense. O exercício inclui mais de 150 aeronaves, 40 navios de superfície, três submarinos, 14 forças terrestres nacionais e outros equipamentos militares de 29 países, embora a maior parte da frota seja dos Estados Unidos. O objetivo do exercício é a “interoperabilidade”, o que efetivamente significa integrar as forças militares (principalmente navais) de outros países com as dos Estados Unidos. O principal comando e controle do exercício é gerenciado pelos EUA, que é o coração e a alma do Rimpac.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">Por que o Rimpac é tão perigoso?</h3>
<p>Documentos e declarações oficiais relacionados ao Rimpac indicam que os exercícios permitem que essas marinhas<a href="https://www.aljazeera.com/news/2024/6/28/worlds-largest-maritime-drills-begin-in-an-increasingly-tense-asia-pacific"> treinem</a> “para uma ampla gama de operações potenciais em todo o mundo”. No entanto, os documentos estratégicos dos EUA e o comportamento das autoridades estadunidenses que dirigem o Rimpac deixam claro que o foco é a China. Os documentos estratégicos também deixam claro que os EUA veem a China como uma grande ameaça, até mesmo como a principal ameaça ao domínio dos EUA e acreditam que ela deve ser contida.</p>
<p>Essa contenção se deu por meio da guerra comercial contra a China, mas, mais especificamente, por meio de uma rede de manobras militares dos Estados Unidos. Isso inclui o estabelecimento de mais bases militares dos EUA em territórios e países vizinhos da China; o uso de embarcações militares dos EUA e de aliados para provocar a China por meio de exercícios de liberdade de navegação; a ameaça de posicionar mísseis nucleares de curto alcance dos EUA em países e territórios aliados dos EUA, incluindo Taiwan; a ampliação do campo de pouso em Darwin, na Austrália, para posicionar aeronaves dos EUA com mísseis nucleares; o aprimoramento da cooperação militar com aliados dos EUA no Leste Asiático com uma linguagem que mostra precisamente que o objetivo é intimidar a China; e a realização de exercícios do Rimpac, principalmente nos últimos anos. Embora a China tenha sido convidada a participar do Rimpac 2014 e do Rimpac 2016, quando os níveis de tensão não estavam tão altos, ela não tem sido convidada desde o Rimpac 2018.</p>
<p>Embora os documentos do Rimpac sugiram que o exercício militar está sendo realizado para fins humanitários, trata-se de um Cavalo de Troia. Isso foi exemplificado, por exemplo, no Rimpac 2000, quando as forças armadas realizaram o exercício de treinamento <a href="https://www.pacaf.af.mil/News/Article-Display/Article/1975329/pacific-angel-provides-aid-builds-partnerships-throughout-indo-pacific-communit/">de resposta humanitária internacional</a> Strong Angel. Em 2013, os Estados Unidos e as Filipinas cooperaram no fornecimento de assistência humanitária após o devastador <a href="https://ndupress.ndu.edu/JFQ/Joint-Force-Quarterly-82/Article/793262/the-us-pacific-command-response-to-super-typhoon-haiyan/">tufão Haiyan</a>. Pouco depois dessa cooperação, os dois países <a href="https://ph.usembassy.gov/enhanced-defense-cooperation-agreement-edca-fact-sheet/">assinaram</a> o Acordo de Cooperação de Defesa Aprimorada (2014), que permite que os EUA acessem as bases das forças armadas filipinas para manter seus depósitos de armas e tropas. Em outras palavras, as operações humanitárias abriram as portas para uma cooperação militar mais profunda.</p>
<p>O Rimpac é um exercício militar de fogo real. A parte mais espetacular do exercício é chamada de Exercício de Afundamento (Sinkex), um exercício que afunda navios de guerra desativados na costa do Havaí. O navio-alvo do Rimpac 2024 será o navio desativado <a href="https://www.history.navy.mil/content/history/museums/nmusn/explore/photography/ships-us/ships-usn-t/uss-tarawa-lha-1.html"><i>USS Tarawa</i></a>, um navio de assalto anfíbio de 40 mil toneladas que foi um dos maiores durante seu período de serviço. Não há nenhuma pesquisa de impacto ambiental sobre o afundamento regular desses navios em águas próximas a nações insulares, nem há nenhuma compreensão do impacto ambiental de sediar esses vastos exercícios militares não apenas no Pacífico, mas em outras partes do mundo.</p>
<p>O Rimpac faz parte da Nova Guerra Fria contra a China que os EUA impõem na região. Ele foi projetado para provocar conflitos. Isso torna o Rimpac um exercício muito perigoso.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">Qual é o papel de Israel no Rimpac?</h3>
<p>Israel, que não é um país com litoral no Oceano Pacífico, participou pela primeira vez do Rimpac 2018 e depois novamente nas edições de 2022 e 2024. Embora não tenha aeronaves ou navios no exercício militar, está, no entanto, participando de seu componente de “interoperabilidade”, que inclui o estabelecimento de comando e controle integrados, bem como a colaboração na parte de inteligência e logística do exercício. Israel está participando do Rimpac 2024 ao mesmo tempo em que comete um genocídio contra os palestinos em Gaza. Embora vários dos Estados observadores no Rimpac 2024 (como Chile e Colômbia) tenham sido diretos em sua condenação do genocídio, eles continuam a participar <i>ao lado das forças armadas de Israel</i> no Rimpac 2024. Não houve nenhuma indicação pública de sua hesitação quanto ao envolvimento de Israel nesses perigosos exercícios militares conjuntos.</p>
<p>Israel é um país colonial que continua com seu apartheid assassino e seu genocídio contra o povo palestino. Em todo o Pacífico, as comunidades indígenas de Aotearoa (Nova Zelândia) ao Havaí lideraram os protestos contra o Rimpac ao longo dos últimos 50 anos, afirmando que esses exercícios são realizados em terras e águas roubadas, que eles desconsideram o impacto negativo sobre as comunidades nativas em cujas terras e águas são realizados os exercícios de fogo vivo (incluindo áreas onde testes nucleares atmosféricos foram realizados anteriormente) e que eles contribuem para o desastre climático que eleva o nível das águas e ameaça a existência das comunidades insulares. Embora a participação de Israel não seja surpreendente, o problema não é apenas seu envolvimento no Rimpac, mas a existência do próprio Rimpac. Israel é um Estado de apartheid que está realizando um genocídio, e o Rimpac é um projeto colonial que traz a ameaça de uma guerra aniquilacionista contra os povos do Pacífico e da China.</p>
<blockquote><p>Te Kuaka (Aotearoa)<br>
Red Ant (Austrália)<br>
Partidos dos Trabalhadores de Bangladesh (Bangladesh)<br>
Coordenação pela Palestina (Chile)<br>
Judíxs Antissionistas contra a Ocupação e o Apartheid (Chile)<br>
Partido Comuns (Colômbia)<br>
Congresso dos Povos (Colômbia)<br>
Coordenação Política e Social, Marcha Patriótica (Colômbia)<br>
Partido Socialista de Timor (Timor Leste)<br>
Hui Aloha ʻĀina (Havaí)<br>
Partido Comunista da Índia (Marxista–Leninista) Liberação (Índia)<br>
Federasi Serikat Buruh Demokratik Kerakyatan (Indonésia)<br>
Federasi Serikat Buruh Militan (Indonésia)<br>
Federasi Serikat Buruh Perkebunan Patriotik (Indonésia)<br>
Pusat Perjuangan Mahasiswa untuk Pembebasan Nasional (Indonésia)<br>
Solidaritas.net (Indonésia)<br>
Gegar Amerika (Malásia)<br>
Parti Sosialis Malaysia (Malásia)<br>
Basta de Guerra Fria<br>
Awami Workers Party (Paquistão)<br>
Haqooq-e-Khalq Party (Paquistão)<br>
Mazdoor Kissan Party (Paquistão)<br>
Partido Manggagawa (Filipinas)<br>
Partido Sosyalista ng Pilipinas (Filipinas)<br>
The International Strategy Center (República da Coreia)<br>
Janatha Vimukthi Peramuna (Sri Lanka)<br>
Instituto Tricontinental de Pesquisa Social<br>
Partido Comunista do Nepal (Socialista Unificado)<br>
CodePink: Women for Peace (EUA)<br>
Nodutdol (EUA)<br>
Party for Socialism and Liberation (EUA)</p></blockquote>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A nova guerra fria causa tremores no nordeste da Ásia</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-76-nova-guerra-fria-nordeste-asia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[ariana]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 May 2024 08:00:48 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[A militarização do Pacífico liderada pelos EUA, e cujo alvo é a China, se intensifica. Os exercícios militares Rimpac em curso contam com 25 mil militares de 29 países.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div class="single-post--content--acknowledgments">Este dossiê foi produzido em colaboração com o International Strategy Center (ISC) em Seul, Coreia do Sul, e escrito por Dae-Han Song. Agradecimentos especiais aos membros da equipe de conteúdo do ISC (Alice Kim, Giovani Vastida, Greg Chung, Mariam Ibrahim, Matthew Philipps e Zoe Yungmi Blank) e à equipe do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social pelo apoio, contribuições e edições que tornaram este dossiê possível.</div>
<div style="margin: 3rem 0; font-size: 0.75em;">Os Painéis de Hiroshima foram criados pelos artistas japoneses Maruki Iri (1901–1995) e Maruki Toshi (1912–2000) ao longo de um período de 32 anos para retratar os horrores causados pelas bombas nucleares lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki pelos Estados Unidos em agosto de 1945. Durante este período, eles pintaram cerca de 900 figuras humanas, representando algumas das pessoas mortas em Hiroshima e Nagasaki (embora a contagem exata de mortes seja desconhecida, estima-se que seja de 220 mil) (Wallerstein, 2020). Reproduzida no tradicional estilo de pintura japonesa conhecido como sumi-e, esta série de quinze painéis dobráveis carrega uma mensagem poderosa contra a guerra e pela paz – uma bandeira que este dossiê continua a carregar para a região e o mundo.</div>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image single-post--content--image--scroll-x" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div class="single-post--content--image--scroll-x--container"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/05/01-Ghosts.jpg" alt="" width="3005" height="740"></div>
<p class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small> Iri e Toshi Maruki, I Fantasmas, 1950, de <i>Paineis de Hiroshima</i>. Tinta sumi e carvão ou conté sobre papel, 180 × 720 cm.</small></p>
</div>
<p>Em 18 de agosto de 2023, os chefes de Estado dos Estados Unidos, Japão e Coreia do Sul se reuniram para uma cúpula histórica em Camp David. No isolado retiro presidencial dos EUA no Condado de Frederick, Maryland, os três líderes anunciaram um novo acordo de “cooperação de segurança trilateral” no nordeste da Ásia, com o objetivo principal de conter a ascensão da China (Casa Branca, 2023). Os esforços anteriores de Washington para criar esse pacto não foram capazes de superar as relações desgastadas entre o Japão e a Coreia do Sul, decorrentes do legado do colonialismo japonês. Mas, dessa vez, para abrir caminho para esse bloco militar, o presidente sul-coreano Yoon Suk Yeol isentou o Japão de pagar reparações por seus crimes coloniais e de guerra.</p>
<p>A Nova Guerra Fria liderada pelos EUA contra a China está desestabilizando o nordeste da Ásia, utilizando-se de problemas históricos da região, como parte de uma campanha de militarização mais ampla que se estende do Japão e da Coreia do Sul, passa pelo Estreito de Taiwan e pelas Filipinas, até a Austrália e as Ilhas do Pacífico. Com o apoio de Washington, o primeiro-ministro japonês Fumio Kishida acelerou o rearmamento de seu país, com o objetivo de dobrar os gastos militares até 2027 e adquirir mísseis de longo alcance para atingir alvos inimigos (Yeo, 2022). Enquanto isso, o processo de paz da Coreia tem sido prejudicado à medida que os EUA expandem sua projeção de poder na região. Embora a Coreia do Norte tenha sido frequentemente apontada como a razão para o aumento da militarização, isso sempre foi uma desculpa para as estratégias de contenção dos EUA – primeiro contra a União Soviética e hoje contra a China.</p>
<p>De fato, a “velha” Guerra Fria nunca terminou no nordeste da Ásia, suas brasas ainda ardem na Península Coreana e no Estreito de Taiwan. Apesar do colapso da União Soviética e da integração da China à economia global, a rede de alianças militares bilaterais dos EUA, criada após a Segunda Guerra Mundial, manteve a região dividida. Ao mesmo tempo, ao lado desses pontos de conflito, movimentos de resistência estão lutando pela paz, pela sobrevivência ecológica e pelo bem-estar das pessoas em todo o nordeste asiático, desde as ilhas Okinawa até a agitada metrópole de Seul. Para construir um futuro de paz e cooperação, é necessário interromper a Nova Guerra Fria liderada pelos EUA e desmantelar o sistema de alianças bilaterais que impediram a justiça e a reconciliação na região por mais de 70 anos.</p>
<hr class="single-post--content--separator-section">
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image single-post--content--image--scroll-x" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div class="single-post--content--image--scroll-x--container"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/05/02-Fire-1.jpg" alt="" width="3042" height="740"></div>
<p class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Iri e Toshi Maruki, II Fogo, 1950, de <i>Paineis de Hiroshima</i>. Tinta sumi, pigmento, cola, carvão ou conté sobre papel, 180 × 720 cm.</small></p>
</div>
<h2 style="margin:3em 0;">Parte I: a nova Guerra Fria</h2>
<h3 style="margin:2em 0;">O pivô dos EUA para a Ásia</h3>
<p>Desde a crise financeira internacional de 2008, a ordem global mudou de um sistema firmemente centrado no Grupo dos Sete (G7), liderado pelos Estados Unidos, para um sistema menos unipolar, embora ainda não bem definido. As potências ocidentais estão atoladas em uma crise de liderança e legitimidade gerada pela incapacidade dos EUA e de seus aliados de lidar com a crise econômica em curso (ou Terceira Grande Depressão), a ascensão econômica da China e a chegada dos principais países do Sul Global à arena política mundial, especialmente por meio do BRICS.<a href="#_ftn1" name="_ftnref1"><sup>1</sup></a></p>
<p>Nesse contexto, o foco da política externa dos EUA em sucessivas administrações tem se voltado cada vez mais para o leste, de modo a contestar a ascensão da China, que Washington vê como a principal ameaça à sua proeminência global. O governo Obama chamou isso de “pivô asiático”, uma mudança estratégica que deveria ter dimensões econômicas e militares. Por um lado, a Parceria Transpacífica (TPP, na sigla em inglês) tinha como objetivo, nas palavras de Obama, “garantir que os Estados Unidos – e não países como a China – sejam os responsáveis por escrever as regras da economia mundial deste século” (Casa Branca, 2015). Por outro lado, a expansão do Comando do Pacífico dos EUA (posteriormente renomeado como “Comando Indo-Pacífico” em 2018) colocaria 60% dos navios de guerra dos EUA na Ásia-Pacífico até 2020 (BBC News, 2012). É importante observar que os EUA iniciaram essa virada hostil na política externa apesar de o governo chinês ter indicado que não buscava a primazia global. Em seu 18º Congresso Nacional, em 2012, por exemplo, o Partido Comunista da China (PCCh) definiu uma política externa que buscava criar “um novo tipo de relações entre grandes potências” em que a “ascensão pacífica” da China não confrontaria frontalmente os Estados Unidos (Xiao, 2013).</p>
<p>Tanto Donald Trump quanto Joe Biden, com suas próprias características, deram continuidade ao Pivô Asiático de Obama, com uma diferença importante. Quando Trump assumiu o cargo, ficou claro que o Congresso dos EUA não aprovaria a TPP, que logo entrou em colapso (no entanto, os países asiáticos – com a China como a maior economia entre eles – avançaram com a Parceria Econômica Regional Abrangente, assinada em 2020). A guerra comercial de Trump contra a China substituiu a intervenção econômica multilateral de Obama na região, já que Washington adotou uma postura mais beligerante em relação a Beijing.<a href="#_ftn2" name="_ftnref2"><sup>2</sup></a> Em sua <em>Estratégia de Segurança Nacional</em> (2017), o governo Trump delineou uma estrutura de “Indo-Pacífico Livre e Aberto” que retratava explicitamente a China como uma ameaça, alegando que o país busca “desafiar o poder, a influência e os interesses americanos, tentando corroer a segurança e a prosperidade estadunidenses” e, por fim, “moldar um mundo antitético aos valores e interesses dos EUA” (Casa Branca, 2017).</p>
<p>O governo Biden aprofundou a política protecionista de Trump (geralmente chamada de “dissociação”) e militarismo. Por meio de amplos controles de exportação, o governo Biden procurou restringir o acesso da China a semicondutores de última geração (um dos pilares da Quarta Revolução Industrial) e a tecnologias relacionadas, ao mesmo tempo em que pressionou os líderes do setor de semicondutores, como Coreia do Sul, Japão, Taiwan e Holanda, a adotar restrições semelhantes (Shivakumar <em>et. al</em>., 2024). Enquanto isso, com a “lei dos chips” (em inglês, CHIPS and Science Act), de 2022, Biden procurou atrair novamente a fabricação de semicondutores para os EUA (Lovely, 2023). Como disse o ex-funcionário do Pentágono, Jon Bateman, referindo-se às políticas do governo Biden, “o objetivo estratégico e o compromisso político estão mais claros do que nunca. A ascensão tecnológica da China será desacelerada a qualquer preço. (…) [Os EUA] bloquearão abertamente o caminho da China para se tornar um jogador econômico avançado” (Bateman, 2022).</p>
<p>O mais alarmante é que Biden intensificou a estratégia militarista do Indo-Pacífico de seu antecessor. O governo Biden desenvolveu ainda mais o Diálogo de Segurança Quadrilateral (“Quad”), um agrupamento estratégico que inclui a Austrália, a Índia e o Japão revivido sob Trump, e criou novos blocos, como o pacto de submarinos movidos a energia nuclear entre Austrália, Reino Unido e Estados Unidos (AUKUS) e a parceria de segurança entre Japão, Coreia do Sul e Estados Unidos (JAKUS). Essas ações estão aumentando as tensões e alimentando uma corrida armamentista na Ásia, especialmente no nordeste asiático, que contém a maior presença militar dos EUA no exterior do mundo (Hussein; Haddad, 2021).</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image single-post--content--image--scroll-x" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div class="single-post--content--image--scroll-x--container"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/05/03-Water.jpg" alt="" width="3008" height="740"></div>
<p class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small> Iri e Toshi Maruki, III Água, 1950, de <i>Paineis de Hiroshima</i>. Tinta sumi, carvão ou conté sobre papel, 180 × 720 cm.</small></p>
</div>
<h3 style="margin:2em 0;">Construindo uma Otan asiática?</h3>
<p>Na região da Ásia-Pacífico, a “ordem baseada em regras” liderada pelos EUA é mantida por meio de sua imensa presença militar no exterior, que se estende do Havaí e de Guam até a costa da China. No nordeste da Ásia, essa força está estacionada principalmente no Japão e na Coreia do Sul, que juntos contêm mais de 80 mil soldados e 193 bases militares dos EUA, representando quase um quarto de todas as bases estrangeiras dos EUA (Hussein; Haddad, 2021). Baseando-se nessa presença armada, a parceria militar trilateral dos EUA com o Japão e a Coreia do Sul está se aproximando de um nível de compromisso semelhante ao da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Na conclusão da Cúpula de Camp David de 2023, os EUA, o Japão e a Coreia do Sul emitiram uma declaração conjunta descrevendo sua “cooperação de segurança trilateral”. Nele, eles declararam o “compromisso de se consultarem mutuamente” e “coordenarem [suas] respostas aos desafios, provocações e ameaças regionais”, mencionando a China e a Coreia do Norte entre suas “preocupações comuns”. Além disso, os Estados Unidos “reafirmaram inequivocamente” que seus “compromissos de dissuasão” com o Japão e a Coreia do Sul eram “rígidos e apoiados por toda a gama de capacidades dos Estados Unidos” (Casa Branca, 2023). Como um todo, essas promessas estão perigosamente próximas do princípio da “defesa coletiva” que sustenta a aliança militar da Otan.</p>
<p>Os Estados Unidos estão ansiosos para minimizar essas comparações, com o conselheiro de segurança nacional Jake Sullivan afirmando enfaticamente que o acordo JAKUS “explicitamente não é uma Otan para o Pacífico” e insistindo que “não é algo novo” em termos de política externa dos EUA. Ao mesmo tempo, porém, Sullivan comemorou a parceria como um “avanço significativo” (Casa Branca, 2023b). Embora os compromissos da JAKUS de “consultar” e “coordenar respostas” possam ficar aquém do princípio de “defesa coletiva” da Otan, os funcionários dos EUA elogiaram o acordo por elevar “a segurança e a coordenação mais ampla para o próximo nível de uma forma realmente fundamental” (Katz, 2023). Com todos os três países se comprometendo a proteger um conjunto comum de valores, identificando a China como uma ameaça e se comprometendo com a defesa antimísseis e exercícios trilaterais anuais, a cooperação de segurança JAKUS possui elementos importantes de uma aliança militar que poderia arrastar a Coreia do Sul e o Japão para um conflito entre os EUA e a China, especialmente em torno de Taiwan.</p>
<p>Do ponto de vista militar, o pacto JAKUS aumentará o acesso dos EUA à “primeira cadeia de ilhas” na costa da China, que se estende do Japão, passando por Taiwan e Filipinas, até a Malásia. Durante a Guerra Fria, as autoridades dos EUA conceituaram essa “cadeia” de ilhas como a linha de frente de sua estratégia de contenção contra a União Soviética e a China. Os exercícios militares que antes ocorriam em uma base criada para este fim agora foram institucionalizados como exercícios trilaterais anuais de múltiplos domínios, promovendo a interoperabilidade das Forças Armadas dos três países (Comando do Pacífico dos EUA, 2023). Em termos mais amplos, os Estados Unidos pretendem usar essa aliança trilateral para preservar e fortalecer sua projeção de força na região, tendo como alvo o sistema de mísseis A2/AD (estratégia anti-acesso/Negação de área) da China – que impede o acesso e a capacidade de manobra dos navios de guerra dos EUA na região – por meio de uma estratégia de Defesa Integrada contra Ar e Mísseis (IAMD, na sigla em inglês) (Savage, 2022). A estratégia A2/AD da China envolve a implantação de mísseis de longo alcance para impedir que os porta-aviões dos EUA realizem operações perto da costa chinesa. Para combater isso, o IAMD planeja conectar ativos militares – desde mísseis Terminal de Defesa da Área de Alta Altitude (Terminal High Altitude Area Defence – THAAD) na Coreia até navios de guerra Aegis japoneses – em uma rede unificada com “integração ofensiva-defensiva” para proteger as operações de ataque (Comando do Pacífico dos EUA, 2021). Além disso, os radares dos três países seriam integrados a uma plataforma comum dos EUA no Havaí (Dominguez, 2023).</p>
<p>A criação dessa rede unificada está no centro da pressão dos EUA para que a Coreia do Sul e o Japão estabeleçam uma maior cooperação de segurança, inclusive compartilhando inteligência militar por meio do Acordo de Segurança Geral de Informações Militares (GSOMIA, na sigla em inglês), assinado em 2016. Embora o GSOMIA tenha sido anunciado como uma medida destinada a combater as atividades de mísseis norte-coreanos, seu compartilhamento abrangente de inteligência significa que as partes também são legalmente obrigadas a compartilhar informações relacionadas à China e à Rússia (Fórum do Pacífico, 2020). Com base nos acordos bilaterais existentes dos EUA com a Coreia do Sul e o Japão, o GSOMIA abriu caminho para o compartilhamento trilateral de inteligência, incluindo dados de alerta de mísseis em tempo real (Dominguez, 2023).</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image single-post--content--image--scroll-x" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div class="single-post--content--image--scroll-x--container"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/05/04-Rainbow.jpg" alt="" width="3048" height="740"></div>
<p class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small> Iri e Toshi Maruki, IV Arco iris, 1951, de <i>Paineis de Hiroshima</i>. Tinta sumi, pigmento, cola e carvão ou conté sobre papel, 180 x 720 cm.</small></p>
</div>
<h3 style="margin:2em 0;">O bicho-papão norte-coreano</h3>
<p>Duas das principais justificativas para o aumento das capacidades militares dos EUA e dos aliados no nordeste da Ásia são a “ameaça” representada pela Coreia do Norte e a necessidade de “defender” Taiwan. No entanto, é importante observar que a paz com a Coreia do Norte sempre foi secundária em relação às estratégias mais amplas de contenção dos EUA voltadas para a União Soviética e a China. Os EUA ainda não buscaram seriamente a paz de forma consistente com a Coreia do Norte desde que o acordo de armistício da Guerra da Coreia foi assinado em 1953. Ao longo das décadas, quaisquer avanços nas negociações foram sabotados, interrompidos e/ou negligenciados por mudanças na administração. Por exemplo, durante o governo Clinton, os EUA e a Coreia do Norte assinaram o Agreed Framework (1994), que quase ofereceu um caminho para a paz e a desnuclearização até ser paralisado por um Congresso dos EUA dominado pelos republicanos e depois inviabilizado pelos neoconservadores John Bolton e Robert Joseph durante o governo Bush Jr. (Hecker, 2023, p. 77 e 86). Essa dinâmica se repetiu novamente em 2019, quando as negociações entre os EUA e a Coreia do Norte entraram em colapso depois que o governo Trump mudou abruptamente os termos de um possível acordo durante uma cúpula em Hanói, no Vietnã (com Bolton mais uma vez desempenhando um papel fundamental) (Seong, 2020).</p>
<p>A manutenção de um estado de tensão e conflito controlado na Península Coreana serve como um pretexto útil para a atividade militar dos EUA na região. Por exemplo, a instalação do sistema antimísseis THAAD, de propriedade dos EUA, na Coreia do Sul em 2017 foi justificada como uma medida defensiva contra mísseis norte-coreanos, embora o local escolhido o impeça de defender metade da população do país, incluindo a área metropolitana de Seul (Kang, 2017). No entanto, a localização do THAAD permite que ele examine profundamente o sistema de mísseis da China (Taylor, 2017). Por meio da Nova Guerra Fria, os EUA continuam a inviabilizar a busca pela paz na Península Coreana e a promover divisões geopolíticas mais nítidas, com o sul se movendo em direção aos Estados Unidos e o norte em direção à Rússia e à China.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image single-post--content--image--scroll-x" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div class="single-post--content--image--scroll-x--container"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/05/05-Boys-and-Girls.jpg" alt="" width="3048" height="740"></div>
<p class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small> Iri e Toshi Maruki, V Meninos e meninas, 1951, de <i>Paineis de Hiroshima</i>. Tinta sumi, carvão ou conté sobre papel, 180 × 720 cm.</small></p>
</div>
<h3 style="margin:2em 0;">Taiwan, um ponto quente</h3>
<p>Da mesma forma, a paz nunca foi o principal objetivo dos EUA no Estreito de Taiwan. Embora Beijing, Taipei e Washington reconheçam oficialmente que a ilha e o continente fazem parte da “China Única”, a intervenção dos EUA manteve as duas regiões divididas desde o fim da Guerra Civil Chinesa em 1949. As tensões mais recentes em torno de Taiwan começaram em 2016, com a eleição de Tsai Ing-wen, do Partido Democrático Progressista de Taiwan (DPP, na sigla em inglês), pró-EUA e com tendência separatista, que defende a posição de que Taiwan é um “Estado soberano” e “não faz parte da República Popular da China” (Democratic Progressive Party of Taiwan, 2024). A situação se agravou tanto com Trump quanto com Biden, pontuada por uma série de visitas polêmicas e sem precedentes à ilha por autoridades e legisladores dos EUA de ambos os principais partidos. Em 2020, o secretário de Saúde e Serviços Humanos de Trump, Alex Azar, tornou-se o mais alto funcionário do gabinete dos EUA a visitar Taiwan desde 1979. Dois anos depois, durante o governo Biden, a então presidente da Câmara dos Deputados dos EUA, Nancy Pelosi, visitou a ilha, tornando-se a primeira presidente da Câmara a fazê-lo desde 1997. Essas reuniões fizeram com que a China respondesse com exercícios militares em larga escala, de acordo com sua Lei Antissecessão de 2005, que declara que “empregará meios não pacíficos e outras medidas necessárias para proteger a soberania e a integridade territorial da China” caso “as possibilidades de uma reunificação pacífica (…) se esgotem completamente” (Embaixada da República Popular da China, 2005). No 20<sup>º</sup> Congresso Nacional do PCCh em 2022, o presidente chinês Xi Jinping enfatizou novamente essa posição:</p>
<blockquote><p>Taiwan é Taiwan da China. Resolver a questão de Taiwan é um assunto para os chineses, um assunto que deve ser resolvido pelos chineses. Continuaremos a nos empenhar pela reunificação pacífica com a maior sinceridade e o maior esforço, mas nunca prometeremos renunciar ao uso da força e nos reservamos a opção de tomar todas as medidas necessárias. Isso é direcionado apenas à interferência de forças externas e aos poucos separatistas que buscam a “independência de Taiwan” e suas atividades separatistas; não é de forma alguma direcionado aos nossos compatriotas de Taiwan (Jinping, 2022).</p></blockquote>
<p>O maior foco de Washington em Taiwan reflete o declínio relativo da força militar apoiada pelos EUA na ilha em relação ao continente. Conforme observado em um relatório de 2022 do Serviço de Pesquisa do Congresso dos EUA, “Durante décadas, as Forças Armadas de Taiwan eram mais avançadas do que as da China (…) À medida que as forças aéreas, navais, de mísseis e anfíbias da China se tornaram mais capazes, o equilíbrio de poder no Estreito de Taiwan mudou significativamente a favor da RPC” (Lawrance; Campbell, 2022). Diante de uma China muito mais capaz, os Estados Unidos pressionaram Taiwan a adotar uma “estratégia do porco-espinho”, aumentando as vendas de armas para a ilha a fim de dar a ela a capacidade de infligir danos suficientes contra a China continental para evitar que Beijing consiga obter a reunificação por meios forçados (Kaushal, 2020). A estratégia depende, em última análise, da disposição de infligir pesadas baixas e danos contra a China continental e aceitar níveis ainda maiores de destruição para Taiwan.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image single-post--content--image--scroll-x" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div class="single-post--content--image--scroll-x--container"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/05/06-Atomic-Desert.jpg" alt="" width="3011" height="740"></div>
<p class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small> Iri e Toshi Maruki, VI Deserto atômico, 1952, de <i>Paineis de Hiroshima</i>. Tinta sumi, pigmento, cola, carvão ou conté sobre papel, 180 × 720 cm.</small></p>
</div>
<h3 style="margin:2em 0;">A ameaça de escalada militar</h3>
<p>Se os temores em relação a uma possível escalada militar na Nova Guerra Fria forem dissipados pela noção de que as tecnologias de defesa antimísseis podem proteger os Estados Unidos e seus aliados, um contra-argumento seria a porosidade dos sistemas de defesa antimísseis. Não importa quantos recursos sejam investidos na criação de radares para detectar mísseis e interceptores para neutralizá-los, o custo relativamente mais barato e a produção mais fácil de mísseis permitem que o país ofensivo “simplesmente construa mais mísseis para superar a defesa” (Arms Control Center, 2024). Isso ocorre porque os sistemas de defesa exigem maior precisão do que os mísseis ofensivos, pois eles têm a tarefa de abater um alvo em movimento no céu. O fato é que a defesa deve abater uma bala com uma bala. O sistema de Ground-based Midcourse Defense (GMD), que protege os Estados Unidos de ataques de mísseis, só foi eficaz em 55% das vezes em exercícios altamente programados. Para atingir um nível de confiança de 90%, o sistema GMD teria que disparar três interceptores por ogiva de entrada. Em toda a rede de defesa antimísseis dos EUA, incluindo os sistemas de alcance mais curto, a taxa de sucesso nos testes ainda é limitada a aproximadamente 80% (Arms Control Center, 2024). As tecnologias de defesa antimísseis são simplesmente incapazes de proteger completamente os Estados Unidos, muito menos Taiwan, Coreia do Sul ou Japão. Dessa forma, o único “impedimento” realmente viável é a ameaça de retaliação imediata em massa, que corre o risco de desencadear conflitos que saiam do controle e resultem em destruição mútua.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image single-post--content--image--scroll-x" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div class="single-post--content--image--scroll-x--container"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/05/07-Bamboo-Grove.jpg" alt="" width="2997" height="740"></div>
<p class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small> Iri e Toshi Maruki, VII Arvoredo de bambú, 1954, de <i>Paineis de Hiroshima</i>. Tinta sumi, carvão ou conté sobre papel, 180 × 720 cm.</small></p>
</div>
<h2 style="margin:3em 0;">Parte II: a “antiga” Guerra Fria nunca terminou</h2>
<p>As tensões atuais no nordeste da Ásia estão fervilhando com base em linhas históricas divisórias que se abriram na região durante a “antiga” Guerra Fria. De um lado estavam os Estados Unidos, a Coreia do Sul, o Japão e Taiwan e, do outro, a União Soviética, a China e a Coreia do Norte. Para dar sentido à Nova Guerra Fria, é importante entender como essa história moldou o Japão, a Península Coreana e Taiwan.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image single-post--content--image--scroll-x" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div class="single-post--content--image--scroll-x--container"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/05/08-Relief.jpg" alt="" width="3037" height="740"></div>
<p class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Iri e Toshi Maruki, VIII Socorro, 1954, de <i>Paineis de Hiroshima</i>. Tinta sumi, pigmento, cola, carvão ou conté sobre papel, 180 × 720 cm.</small></p>
</div>
<h3 style="margin:2em 0;">O rearmamento do Japão</h3>
<p>Em 1947, após a derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial, uma nova “constituição de paz” foi promulgada no país, na qual se comprometeu a “renunciar para sempre à guerra (…) e à ameaça ou uso da força como meio de resolver disputas internacionais” (Gabinete do Primeiro Ministro do Japão, 1947). Entretanto, diante da iminente Revolução Chinesa e temendo a disseminação do comunismo, os Estados Unidos decidiram apoiar o Japão como um baluarte anticomunista na região. Conforme relatam os historiadores do Departamento de Estado dos EUA, “a ideia de um Japão rearmado e militante já não alarmava as autoridades estadunidenses; em vez disso, a verdadeira ameaça parecia ser o avanço do comunismo, principalmente na Ásia” (Departamento de Estado dos EUA, 2024). A partir do Tratado de Paz de São Francisco de 1951 entre as potências aliadas e o Japão, os EUA construíram uma rede de alianças bilaterais na região conhecida como Sistema de São Francisco, que dividiu o nordeste da Ásia ao longo do Estreito de Taiwan e da Península Coreana (San Francisco Peace Treaty Project, 2024). Por mais de sete décadas, o Sistema São Francisco manteve as divisões regionais e manteve acesas as brasas do conflito no Estreito de Taiwan e na Península Coreana.</p>
<p>A principal preocupação dos Estados Unidos não era construir uma paz duradoura na Ásia do pós-guerra, mas aumentar sua força militar para a guerra contra o comunismo. John Foster Dulles, principal negociador dos EUA para o Tratado de Paz de São Francisco, descreveu a postura de Washington da seguinte maneira: “temos o direito de colocar quantas tropas quisermos no Japão, onde quisermos e pelo tempo que quisermos? Essa é a questão principal” (Departamento de Estado dos EUA, 1977, p. 812). Para atingir seus objetivos, os Estados Unidos obstruíram o processo de justiça após a guerra, ignorando a responsabilidade do Japão por seus crimes coloniais e de guerra (incluindo massacres, guerra biológica, escravidão sexual, experimentos com humanos e trabalho forçado).<a href="#_ftn3" name="_ftnref3"><sup>3</sup></a> O tratado isentou o Japão de pagar indenizações às suas maiores vítimas. No entanto, entre os 51 participantes das negociações do Tratado de São Francisco, estavam ausentes a China continental, Taiwan e as Coreias do Norte e do Sul, todas submetidas à ocupação japonesa. Além disso, vários criminosos de guerra e oficiais de alto escalão do Estado Imperial Japonês (1868-1945) foram perdoados após a Segunda Guerra Mundial e restaurados ao poder pelos EUA, que estavam focados exclusivamente em fortalecer sua posição na Guerra Fria.</p>
<p>Entre eles estava Nobusuke Kishi, ex-governador do estado fantoche japonês de Manchukuo, no nordeste da China, que era conhecido como o “Monstro da Era Shōwa”.<a href="#_ftn4" name="_ftnref4"><sup>4</sup></a> Preso após a guerra como suspeito de ser um criminoso de guerra de Classe A, Kishi foi libertado e, com o apoio dos EUA, tornou-se primeiro-ministro do Japão de 1957 a 1960 (Levidis, 2022). O Partido Liberal Democrático, nacionalista e de direita de Kishi, recebeu milhões de dólares em apoio da Agência Central de Inteligência dos EUA (CIA) durante a Guerra Fria e governa o país quase ininterruptamente desde 1955 (com exceção de 1993-1994 e 2009-2012) (Weiner, 1994). Como observa o historiador Andrew Levidis (2022), “uma linha reta corre entre Kishi e o presente, ligando a elite conservadora [atual] do Japão à era imperialista e do tempo de guerra”.</p>
<p>Ao manter a ala direita no poder, os Estados Unidos evitaram que o Japão tivesse que lidar com seu passado imperialista e encobriram sua história a fim de promover a remilitarização do Japão e fortalecer a posição estratégica dos EUA na Ásia. Desde o final da Segunda Guerra Mundial, os EUA mantêm uma presença militar maciça no Japão, incluindo a ocupação de Okinawa de 1945 a 1972 (quando Okinawa foi devolvida ao Japão, embora o exército dos EUA tenha mantido sua presença na ilha). Durante esse período, o Japão, pressionado pelos EUA, tem se rearmado constantemente e expandido o escopo de suas Forças Armadas. Talvez mais perceptivelmente:</p>
<ul>
<li>Em 1954, foi criado um novo exército chamado de Forças de Autodefesa do Japão (JSDF), apesar da resistência da população do país, cansada da guerra.</li>
<li>Em 1960, a JSDF se comprometeu a responder a ataques contra as Forças Armadas dos EUA em território japonês.</li>
<li>Em 1992, o exército japonês começou a participar de missões internacionais de manutenção da paz.</li>
<li>Em 1997, os EUA e o Japão adotaram novas diretrizes que permitiam que a JSDF operasse em “áreas vizinhas”.</li>
<li>Na década de 2000, o Japão participou de operações militares no exterior no Afeganistão e no Iraque em apoio aos EUA (Maizland; Cheng, 2021).</li>
</ul>
<p>Atualmente, o Japão tem mais bases militares (120) e efetivo (cerca de 54 mil) estadunidenses do que qualquer outro país do mundo (Hussein; Haddad, 2021).</p>
<p>Em meio ao pivô dos EUA para a Ásia, a remilitarização do Japão se acelerou significativamente. Em 2014, o então primeiro-ministro Abe Shinzo (neto de Nobusuke Kishi) apresentou a noção de “pacifismo proativo” para reinterpretar a constituição do Japão do pós-guerra.<a href="#_ftn5" name="_ftnref5"><sup>5</sup></a> A reinterpretação permitiu o uso da força pelo Japão em situações de “autodefesa coletiva”, inclusive se “ocorrer um ataque armado contra um país estrangeiro que esteja em um relacionamento próximo com o Japão e, como resultado, ameaçar a sobrevivência do Japão” (Ministério das Relações Exteriores do Japão, 2014). Em dezembro de 2022, sob o comando do primeiro-ministro Fumio Kishida, o Japão emitiu uma nova <em>Estratégia de Segurança Nacional</em> que apontou a China como “o maior desafio estratégico para garantir a paz e a segurança do Japão e a paz e a estabilidade da comunidade internacional” (Governo do Japão, 2022). Ao mesmo tempo, Kishida derrubou um teto que, desde 1976, limitava os gastos militares a 1% do Produto Interno Bruto (PIB) do país e anunciou que o Japão dobraria os gastos para 2% do PIB até 2027– igual à meta de gastos dos membros da Otan e que faria do Japão o terceiro na lista de países com maior gasto militar do mundo (Yeo, 2022). Em 2022, os seus gastos militares <em>per capita</em> já eram quase o dobro dos da China, uma diferença que continuará a crescer com o aumento dos gastos militares do Japão (Stockholm International Peace Research Institute, 2024).</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image single-post--content--image--scroll-x" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div class="single-post--content--image--scroll-x--container"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/05/09-Yaizu.jpg" alt="" width="2994" height="740"></div>
<p class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Iri e Toshi Maruki, IX Yaizu, 1955, de <i>Paineis de Hiroshima</i>. Tinta sumi, pigmento, cola, carvão ou conté sobre papel, 180 × 720 cm.</small></p>
</div>
<h3 style="margin:2em 0;"> A divisão da Coreia</h3>
<p>Em 15 de agosto de 1945, imediatamente após a Coreia ter conquistado sua independência do domínio colonial japonês (1910-1945), os Estados Unidos dividiram a península ao longo do paralelo 38, que se tornaria a República da Coreia, no sul, e depois a República Popular Democrática da Coreia no norte. Essa divisão, que perdura até hoje, não teve nenhuma base histórica ou material além da intervenção dos Estados Unidos: dois coronéis estadunidenses traçaram uma linha arbitrária em um mapa da <em>National Geographic</em> e, em um instante, dividiram um povo em dois (Fry, 2013). Cinco anos depois, estourou a Guerra da Coreia. Apesar de afirmar que defendia os valores democráticos liberais, o Governo Militar do Exército dos Estados Unidos na Coreia, no sul, recusou-se, como disse o historiador Bruce Cumings, a “entregar a Coreia aos coreanos” (Cumings, 2005). Em vez de reconhecer as assembleias populares democráticas de base em toda a Península Coreana, o Governo Militar do Exército dos EUA na Coreia as oprimiu e perseguiu como comunistas. Em um esforço para inculcar relações de mercado entre a população do sul – “cuja grande maioria consistia de camponeses pobres e uma pequena minoria que detinha a maior parte da riqueza”, como escreveu Cumings (2005) – os EUA apoiaram a pequena e ofendida elite que havia colaborado com a ocupação japonesa.</p>
<p>Esse foi o pano de fundo para a divisão da Península Coreana e a eclosão da Guerra da Coreia. Apesar da natureza de procuração da guerra, seus horrores, mortes e destruição criaram a base material para uma ideologia anticomunista no sul que apoiou ditadores e reprimiu a dissidência por décadas sob a Lei de Segurança Nacional (Kyung-san, 2018). Embora os períodos de reaproximação com a Coreia do Norte tenham diminuído a eficácia polarizadora da “caça aos comunistas”, o anticomunismo continua a impedir um debate verdadeiro e aberto na Coreia do Sul. Além disso, o legado da colaboração durante a ocupação colonial não foi abordado e continua a moldar o sul. Para o 70º aniversário da libertação da Coreia, o meio de comunicação Newstapa lançou <em>Collaboration and Forgetting </em>(2015) [Colaboração e esquecimento], um documentário que revelou que, no sul, muitos descendentes dos combatentes da independência coreana vivem na pobreza porque suas famílias foram estigmatizadas como comunistas, enquanto os descendentes dos colaboradores japoneses vivem de suas consideráveis heranças de terras.<a href="#_ftn6" name="_ftnref6"><sup>6</sup></a></p>
<p>O pacto de segurança trilateral JAKUS é o mais recente capítulo dessa história. No passado, o legado colonial do Japão na Coreia impediu que essa parceria entre o Japão e a Coreia do Sul fosse concretizada. Para contornar esse impedimento, o governo conservador de Yoon Suk Yeol da Coreia do Sul renunciou à responsabilidade do Japão por seus crimes. Por exemplo, Yoon ignorou uma decisão da Suprema Corte sul-coreana de 2018 que responsabilizou empresas japonesas, como a Mitsubishi, pelo trabalho forçado de coreanos (Je-Hun, 2023). Em contraste com a abordagem mais equilibrada adotada pelo governo anterior de Moon Jae-in em relação aos Estados Unidos e à China, o governo de Yoon adotou uma postura pró-EUA muito mais clara.<a href="#_ftn7" name="_ftnref7"><sup>7</sup></a> O Partido do Poder Popular, ao qual Yoon pertence, é a mais recente encarnação política do movimento conservador da Coreia do Sul, cujas raízes remontam à colaboração com o colonialismo japonês e a ocupação estadunidense.<a href="#_ftn8" name="_ftnref8"><sup>8</sup></a></p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image single-post--content--image--scroll-x" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div class="single-post--content--image--scroll-x--container"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/05/10-Petition.jpg" alt="" width="3006" height="740"></div>
<p class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small> Iri e Toshi Maruki, X Petição, 1955, de <i>Paineis de Hiroshima</i>. Tinta sumi, pigmento, cola, carvão ou conté sobre papel, 180 × 720 cm.</small></p>
</div>
<h3 style="margin:2em 0;">Taiwan, um “porta-aviões inafundável”</h3>
<p>A Guerra Civil Chinesa foi travada intermitentemente de 1927 a 1945 entre o Partido Comunista da China (PCCh) e o nacionalista Guomindang (KMT). Com a intenção de impedir uma vitória comunista, os EUA apoiaram fortemente o KMT, fornecendo, por exemplo, mais de 2 bilhões de dólares em ajuda entre 1945 e 1949 (Departamento de Estado dos Estados Unidos, 1967). No entanto, o PCCh prevaleceria, estabelecendo a República Popular da China (RPC) no continente, enquanto o KMT fugiu para Taiwan, onde estabeleceu um governo rival no exílio, a República da China. Situada a cerca de 150 quilômetros da costa do continente, Washington utilizou Taiwan como uma plataforma para pressionar Beijing e isolá-la da comunidade internacional (por exemplo, de 1949 a 1971, os EUA e o KMT manobraram com sucesso para excluir a RPC da Organização das Nações Unidas (ONU), argumentando que Taiwan era o único governo legítimo de toda a China). De fato, as autoridades dos EUA se referiram abertamente à ilha como um “porta-aviões inafundável” (Time Magazine, 1950).</p>
<p>Durante a Guerra Fria, a República da China, apoiada pelos Estados Unidos, estabeleceu uma ditadura repressiva em Taiwan, incluindo um período de 38 anos de lei marcial, de 1949 a 1987, conhecido como “Terror Branco”, que foi marcado por severa repressão política, prisão e tortura de 140 mil a 200 mil pessoas e execução de 3 mil a 4 mil outras (Ministério da Cultura de Taiwan, 2014). Embora Washington tenha encerrado suas relações oficiais com Taiwan na década de 1970, quando normalizou suas relações com a China, manteve relações “não oficiais” com a ilha, incluindo amplos laços militares, políticos e econômicos. Como parte de sua Nova Guerra Fria, os EUA estão aumentando o armamento de Taiwan em parceria com forças separatistas (Wingfield-Hayes, 2023). Como a China deixou claro que considera Taiwan uma questão de “linha vermelha que não deve ser ultrapassada”, a intervenção contínua dos EUA ameaça desencadear um grande conflito na região (Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, 2023c).</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image single-post--content--image--scroll-x" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div class="single-post--content--image--scroll-x--container"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/05/11-Mother-anda-Child.jpg" alt="" width="3008" height="740"></div>
<p class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Iri e Toshi Maruki, XI Mãe e filho, 1959, de <i>Paineis de Hiroshima</i>. Tinta sumi, pigmento, cola, carvão ou conté sobre papel, 180 × 720 cm.</small></p>
</div>
<h2 style="margin:3em 0;">Parte III: um caminho para a paz no nordeste da Ásia</h2>
<p>Para evitar o surgimento de conflitos no nordeste da Ásia, é necessário desfazer o sistema de alianças militares liderado pelos EUA e a tendência mais ampla de militarização que está aumentando as tensões na região. No entanto, para construir uma paz duradoura, os movimentos sociais e os governos também devem ir além e desmantelar as divisões históricas subjacentes semeadas pelo colonialismo, pela Guerra Fria e pela intervenção estrangeira contínua. Deve-se permitir que ambas as Coreias escolham seu próprio caminho de paz e reconciliação. A China continental e Taiwan devem ter permissão para determinar seu futuro sem interferência externa. O Japão deve assumir a responsabilidade por seu passado imperialista e enfrentá-lo. E, acima de tudo, as Forças Armadas dos EUA devem sair.</p>
<p>Em 28 e 29 de outubro de 2023, o International Strategy Center (ISC) realizou um fórum internacional intitulado “Building Peace: Preventing War in Northeast Asia” [Construindo a paz: evitando a guerra no nordeste da Ásia], que apresenta organizações e indivíduos envolvidos em lutas na linha de frente contra o militarismo dos EUA (International Strategy Center, 2023). As experiências dos movimentos locais de base na região, extraídas deste fórum e de outros locais, ajudam a ilustrar tanto os obstáculos quanto os possíveis caminhos para a paz.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image single-post--content--image--scroll-x" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div class="single-post--content--image--scroll-x--container"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/05/12-Floating-Lanterns.jpg" alt="" width="3013" height="740"></div>
<p class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Iri e Toshi Maruki, XII Lanternas flutuantes, 1968, de <i>Paineis de Hiroshima</i>. Tinta sumi, pigmento, cola, carvão, 180 × 720 cm.</small></p>
</div>
<h3 style="margin:2em 0;">Lutas contra a militarização em Okinawa</h3>
<p>As Ilhas Okinawa representam menos de 1% da massa terrestre do Japão, mas abrigam 74% das bases militares dos EUA no país (Hibbett, 2019). Em um referendo não vinculativo de 2019, 72% dos okinawanos votaram contra uma proposta de construção de uma nova base militar dos EUA na baía de Henoko-Oura, que substituiria a Futenma Marine Corps Air Station (Hibbett, 2019). Essa oposição está enraizada na história violenta da ocupação estadunidense – incluindo o estupro coletivo de uma menina de 12 anos por soldados americanos em 1995 – e na história de traição do Japão à ilha. Por exemplo, os civis de Okinawa foram usados como escudo do Japão continental contra o exército estadunidense que se aproximava em algumas das batalhas mais sangrentas no Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial (Song, 2023). Okinawa foi então sacrificada ao domínio militar dos EUA para que o Japão pudesse recuperar sua soberania nacional como parte do Tratado de Paz de São Francisco.</p>
<p>Além de buscar a paz, os movimentos sociais em Okinawa estão lutando contra a presença das bases militares dos EUA por motivos relacionados ao meio ambiente, à saúde pública e à violência de gênero. Por exemplo, o Projeto de Justiça Ambiental de Okinawa está contestando a realocação da base de Futenma para a área costeira da Baía de Henoko-Oura, dada a poluição tóxica produzida pelas bases militares dos EUA (Projeto de Justiça Ambiental de Okinawa, 2024). Enquanto isso, a luta contra a Base Aérea de Kadena, nos EUA, está ligada à violência sexual dos soldados estadunidenses, bem como aos acidentes relacionados aos aviões dos EUA que sobrevoam áreas urbanas. Muitas vezes, os movimentos que surgem inicialmente em resposta a outras questões evoluem para lutas mais amplas por paz e justiça.</p>
<p>A expansão dos gastos militares japoneses exigirá que o governo aumente os impostos ou reduza o bem-estar social, o que pode diminuir o apoio do público. Para angariar apoio, o governo japonês pressionou pelo posicionamento das forças da JSDF em algumas das ilhas do sul de Okinawa, cujas populações não compartilham as mesmas experiências de guerra ou ocupação, e contou com uma enxurrada de propaganda sobre ameaças relacionadas à China, Taiwan e Coreia do Norte. De acordo com Hideki Yoshikawa, diretor do Okinawa Environmental Justice Project Peace [Projeto de Paz e Justiça Ambiental de Okinawa], a resposta das organizações de base é trabalhar para “criar um movimento de paz maior e mais coeso”, realizando eventos e mobilizações para reunir grupos de paz do Japão continental e do exterior. A crescente aliança trilateral da JAKUS, observa Yoshikawa, “provocou uma contra-aliança entre os movimentos pacifistas” em cada um dos três países (Song, 2023).</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image single-post--content--image--scroll-x" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div class="single-post--content--image--scroll-x--container"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/05/13-Death-of-the-American-Prisoner-of-War.jpg" alt="" width="3009" height="740"></div>
<p class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small> Iri e Toshi Maruki, XIII Morte dos prisioneiros de guerra estadunidenses, 1971, de <i>Paineis de Hiroshima</i>. Tinta sumi sobre papel, 180 × 720 cm.</small></p>
</div>
<h3 style="margin:2em 0;">Um tratado de paz na Península Coreana</h3>
<p>De junho de 2020 a julho de 2023, datas que marcaram o 70<sup>º</sup> aniversário da eclosão da Guerra da Coreia e do acordo de armistício, respectivamente, movimentos e povos da Coreia do Sul e de todo o mundo coletaram centenas de milhares de assinaturas para uma petição pedindo um tratado de paz para finalmente encerrar a Guerra da Coreia. Essa luta pela paz e reunificação tem sua origem nos esforços da sociedade civil que culminaram na primeira cúpula intercoreana, realizada de 13 a 15 de junho de 2000 em Pyongyang, e na declaração conjunta emitida pelo presidente sul-coreano Kim Dae-Jung e pelo presidente norte-coreano Kim Jong-il (United Nations Peacemaker, 2000). A reunião, que ocorreu na Coreia do Norte sob sigilo absoluto (para evitar a intervenção dos EUA), declarou que a paz e a reunificação seriam alcançadas por meio dos “esforços conjuntos do povo coreano, que é o dono do país”. Os EUA, no entanto, tinham outras ideias. Após os ataques de 11 de setembro ao World Trade Center, o presidente dos EUA, George W. Bush, agrupou a Coreia do Norte, o Irã e o Iraque como parte do “eixo do mal”, inviabilizando o incipiente processo de paz que havia se transformado em uma grande esperança para a Coreia do Sul e que havia sido apoiado pelo antecessor de Bush, Bill Clinton. Esse foi mais um caso em que a paz na Península Coreana foi mantida como refém dos interesses geopolíticos dos EUA.</p>
<p>Além desses esforços civis e diplomáticos para acabar com a Guerra da Coreia, a Coreia do Sul também continua a luta contra a presença militar dos EUA na península. Desde 2007, os moradores de Gangjeong têm manifestado sua oposição à construção de uma base naval que estacionaria navios de guerra dos EUA na Ilha de Jeju. Assim como a luta em Henoko-Oura Bay, em Okinawa, esse movimento surgiu inicialmente devido a preocupações com a destruição ambiental que a construção da base causaria, mas logo se transformou em uma luta maior contra a militarização. Embora o movimento antibase em Jeju tenha diminuído de tamanho ao longo do tempo, ele continua revelando como a militarização pode transformar as comunidades afetadas em bastiões da paz.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image single-post--content--image--scroll-x" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div class="single-post--content--image--scroll-x--container"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/05/14-Crows.jpg" alt="" width="2994" height="740"></div>
<p class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Iri e Toshi Maruki, XIV Corvos, 1972, de <i>Paineis de Hiroshima</i>. Tinta sumi sobre papel, 180 × 720 cm.</small></p>
</div>
<h3 style="margin:2em 0;">Paz no Estreito de Taiwan</h3>
<p>Em comparação com a Coreia do Sul e o Japão, o movimento pela paz em Taiwan é menos desenvolvido. De acordo com Daiwie Fu, professor da Universidade Nacional Yang-Ming Chao-Tong, em Taipei, e participante do fórum internacional do ISC, a população de Taiwan está praticamente dividida em relação à posição internacional da ilha, com 50% desejando um maior alinhamento com os Estados Unidos (dos quais 10% são a favor da independência e 40% de um <em>status quo</em> pró-EUA) e os 50% restantes preferindo um maior equilíbrio em relação à China (dos quais 10% são a favor da reunificação e 40% de um <em>status quo</em> mais neutro). No entanto, Fu observou que há uma contradição entre a militarização de Taiwan e a necessidade de maiores gastos sociais, criticando a “estratégia do porco-espinho” promovida pelos EUA e adotada por Taipei por pressupor uma eventual guerra de atrito que mataria  muitos civis em todo o Estreito de Taiwan.</p>
<p>Embora o Partido Democrático Progressista de Taiwan, com tendência separatista, tenha vencido as eleições gerais de janeiro de 2024, dados de pesquisas recentes indicam que as opiniões da população de Taiwan podem estar mudando. Enquanto as eleições de 2016 e 2020 resultaram em maiorias do PDP, a sua participação eleitoral caiu para 40% nas eleições de 2024, 17 pontos a menos do que em 2020. Enquanto isso, os partidos de oposição mais favoráveis a Beijing – o KMT e o Partido Popular de Taiwan  – obtiveram juntos 60% dos votos em 2024. Além disso, no período que antecedeu a eleição, a pesquisa American Portrait descobriu que apenas 34% da população de Taiwan achava que os EUA eram um país confiável, uma queda de 11 pontos em relação a 2021, com alguns comentaristas apontando a guerra na Ucrânia como tendo prejudicado a credibilidade dos EUA (The Guardian, 2023).</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image single-post--content--image--scroll-x" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div class="single-post--content--image--scroll-x--container"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2024/05/15-Nagasaki.jpg" alt="" width="3002" height="740"></div>
<p class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small> Iri e Toshi Maruki, XV Nagasaki, 1982, de <i>Paineis de Hiroshima</i>. Tinta sumi, pigmento, cola, carvão ou conté sobre papel, 180 × 720 cm.</small></p>
</div>
<h3 style="margin:2em 0;">Uma proposta para o Movimento pela Paz</h3>
<p>Os Estados Unidos estão travando uma nova Guerra Fria contra a China para manter sua primazia global e a “ordem baseada em regras” que construíram. Embora essas “regras” sejam frequentemente equiparadas aos princípios da Carta das Nações Unidas, as duas não são a mesma coisa.<a href="#_ftn9" name="_ftnref9"><sup>9</sup></a> Enquanto a Carta da ONU reflete o consenso de seus 193 Estados-membros, as “regras” da “ordem baseada em regras” não derivam do direito internacional, mas são autodeclaradas pelos EUA para atender a seus interesses nacionais. Sobre esse ponto, um relatório de 2022 do Council on Foreign Relations observou que “os Estados Unidos têm um dos piores registros de qualquer país na ratificação de tratados de direitos humanos e ambientais”(Wahal, 2022).</p>
<p>A desumanidade da “ordem baseada em regras” tem sido abertamente demonstrada durante o genocídio de Israel contra os palestinos em Gaza, que recebeu total apoio dos Estados Unidos. Acima de tudo, não são os direitos humanos, a justiça ou a liberdade que essa ordem busca defender, mas um mundo dominado pelos EUA e sustentado por uma rede global de mais de 900 bases militares estadunidenses – várias centenas das quais cercam a China (Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, 2024b).</p>
<p>As mudanças sísmicas que estão ocorrendo no nordeste da Ásia estão empurrando a região para a guerra. Durante esse período, os movimentos pela paz na região devem se unir em um conjunto comum de demandas e princípios, incluindo os seguintes:</p>
<ol start="1">
<li><strong>Encerrar a cooperação de segurança da JAKUS.</strong> Os acordos militares multilaterais que isolam ou visam outros países, por sua natureza, tendem a dividir as regiões em blocos ou campos opostos, promovendo tensões e gastos militares. O pacto trilateral entre os EUA, o Japão e a Coreia do Sul não é diferente.</li>
<li><strong>Pôr fim dos exercícios de guerra dos EUA.</strong> Embora rotulados como “rotina”, esses exercícios militares são hostis e provocativos. Por exemplo, exercícios de guerra conjuntos entre os EUA e a Coreia do Sul ensaiaram o lançamento de ataques nucleares contra a Coreia do Norte, a “decapitação” de sua liderança e uma invasão em grande escala. Enquanto isso, os exercícios de guerra dos EUA com a Austrália e as Filipinas ensaiaram ataques de longo alcance contra a China continental. Essas atividades agressivas fecham a porta para aberturas diplomáticas e deixam os países visados sem outra opção real a não ser mobilizar suas Forças Armadas em resposta.</li>
<li><strong>Pôr fim à intervenção dos EUA. </strong>Por mais de 70 anos, os EUA alimentaram as chamas do conflito no nordeste da Ásia, principalmente na Península Coreana e no Estreito de Taiwan. Em toda a Ásia-Pacífico, os povos da região devem ter direito de determinar seus futuros e caminhos para a paz, livres de interferência estrangeira e militarismo.</li>
<li><strong>Apoiar as lutas uns dos outros</strong>. A luta pela paz no nordeste da Ásia deve ser regional. Embora seja fácil ser absorvido pelas demandas imediatas de sua luta local, os problemas que a região enfrenta estão interconectados. Para enfrentá-los, é necessário ter uma visão de longo prazo e um compromisso de fortalecer todas essas lutas. Isso exige que as organizações participem ativamente de campanhas e lutas em toda a região, não apenas em seu próprio país, como a marcha anual pela paz em Okinawa, que ocorre todo mês de maio, as comemorações da cúpula intercoreana de 15 de junho de 2000 e outras iniciativas.</li>
<li><strong>Apoiar as lutas da linha de frente.</strong> Embora a guerra e a militarização possam parecer abstratas e distantes da vida cotidiana, elas são concretas e imediatas para aqueles que vivem perto dos locais de luta da linha de frente, como a Base Aérea de Kadena e a Baía de Henoko, em Okinawa, e a instalação do THAAD em Soseong-ri e a Base Naval de Jeju, na Coreia do Sul. As lutas nesses locais, que em grande parte começaram como uma resposta ao impacto local imediato que as pessoas sentiam em suas vidas diárias, oferecem focos de resistência que transformam os envolvidos e o público em geral.</li>
</ol>
<p>Estamos em tempos perigosos. É imperativo que encontremos um terreno comum e um entendimento para que possamos trabalhar juntos em objetivos táticos e estratégicos. Nossa capacidade de fazer isso determinará se conseguiremos evitar a guerra e alcançar a paz na região e no mundo, permitindo que voltemos nosso foco para a melhoria do bem-estar das pessoas e do planeta.</p>
<hr class="single-post--content--separator-section single-post--content--separator-section-end">
<h3 class="single-post--content--citations-title" style="margin:2em 0;">Notas</h3>
<div class="single-post--content--citations-block">
<p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1"><sup>1</sup></a> Leia mais sobre a Terceira Grande Depressão em: Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, 2023a; para saber mais sobre as economias do Norte Global e o imperialismo contemporâneo, ver: Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, 2024a.</p>
<p><a href="#_ftnref2" name="_ftn2"><sup>2</sup></a> Para saber mais sobre guerras comerciais, ver: Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, 2018.</p>
<p><a href="#_ftnref3" name="_ftn3"><sup>3</sup></a> Para ler mais sobre o papel dos Estados Unidos na reabilitação de criminosos de guerra no Japão, ver: Guillemin, 2017.</p>
<p><a href="#_ftnref4" name="_ftn4"><sup>4</sup></a> A era Shōwa refere-se ao reinado do imperador Shōwa (1926-1989), cujo início marcou a ascensão do militarismo no Japão.</p>
<p><a href="#_ftnref5" name="_ftn5"><sup>5</sup></a> A reinterpretação de 2014 da constituição do pós-guerra contornou o processo estabelecido de emenda constitucional e, em vez disso, foi feita por meio de uma decisão do gabinete. O gabinete de Abe era dominado por membros da Nippon Kaigi, uma organização não governamental japonesa de extrema direita da qual o próprio Abe também é membro. Ver Kawasaki; Nahory, 2014.</p>
<p><a href="#_ftnref6" name="_ftn6"><sup>6</sup></a> Dos 430 quilômetros quadrados de terras sul-coreanas que pertenciam aos colaboracionistas durante a ocupação japonesa – o equivalente a cerca de dois terços do tamanho de Seul – apenas 3% voltaram a ser propriedade do Estado desde a libertação.  Ver: Kim Ri-taek, 2019.</p>
<p><a href="#_ftnref7" name="_ftn7"><sup>7</sup></a> O governo Moon se comprometeu com os “três nãos”: não à implantação adicional do THAAD; não à participação na rede de defesa antimíssel dos EUA; e não ao estabelecimento de uma aliança militar trilateral com os EUA e o Japão. O governo Yoon, em contrapartida, abraçou o “Indo-Pacífico livre e aberto” dos EUA. Além disso, Yoon foi o primeiro presidente a participar de uma cúpula da Otan. Ver: Byong-su, 2017.</p>
<p><a href="#_ftnref8" name="_ftn8"><sup>8</sup></a> As raízes do Partido do Poder Popular e do movimento conservador mais amplo na Coreia do Sul remontam à ditadura militar de Park Chung-hee (1961-1979) e estão impregnadas de uma ideologia anticomunista. Antes da libertação da Coreia do Japão, Park serviu no Exército Imperial Japonês, ajudando a caçar combatentes da independência. Mais tarde, o Japão forneceria tanto a inspiração quanto os fundos para os projetos de modernização de Park. A filha de Park, Park Geun-hye, foi presidente da Coreia do Sul de 2013 a 2017, quando sofreu <em>impeachment </em>e foi condenada por acusações de corrupção. Após esse escândalo, o Partido do Poder Popular foi formado pela fusão de vários partidos conservadores, incluindo o sucessor do Partido Saenuri (Partido Coreia Liberdade) de Park Geun-Hye.</p>
<p><a href="#_ftnref9" name="_ftn9"><sup>9</sup></a> Para saber mais sobre a “ordem baseada em regras” e o sistema da ONU, ver: Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, 2023b.</p>
</div>
<h3 class="single-post--content--citations-title" style="margin:2em 0;">Referências bibliográficas</h3>
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<p>Wingfield-Hayes, Rupert. “The US Is Quietly Arming Taiwan to the Teeth”. <em>BBC News</em>, 5 nov. 2023. Disponível em: <a href="https://www.bbc.com/news/world-asia-67282107">https://www.bbc.com/news/world-asia-67282107</a>.</p>
<p>Xiao,  Ren. “Modeling a ‘New Type of Great Power Relations’: A Chinese Viewpoint”. <em>The Asan Forum</em>, 4 out. 2013. Disponível em: <a href="https://theasanforum.org/modeling-a-new-type-of-great-power-relations-a-chinese-viewpoint/">https://theasanforum.org/modeling-a-new-type-of-great-power-relations-a-chinese-viewpoint/</a>.</p>
<p>Yeo, Mike. “New Japanese Strategy to up Defence Spending, Counterstrike Purchases”. <em>Defence News</em>, 20 dez. 2022. Disponível em: <a href="https://www.defensenews.com/global/asia-pacific/2022/12/20/new-japanese-strategy-to-up-defense-spending-counterstrike-purchases/">https://www.defensenews.com/global/asia-pacific/2022/12/20/new-japanese-strategy-to-up-defense-spending-counterstrike-purchases/</a>.</p>
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		<title>Oito contradições da “ordem baseada em regras” imperialista</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/oito-contradicoes-da-ordem-baseada-em-regras-imperialista/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[ariana]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 13 Mar 2023 08:00:26 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Este dossiê analisa como a Nova Guerra Fria liderada pelos EUA contra a China está desestabilizando o Nordeste da Ásia, concentrando-se na Península Coreana, no Estreito de Taiwan e no Japão.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-74901 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/20230310_Eight-contradictions_SM_PT.png" alt="" width="950" height="499" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/20230310_Eight-contradictions_SM_PT.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/20230310_Eight-contradictions_SM_PT-300x158.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2023/03/20230310_Eight-contradictions_SM_PT-768x403.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<p> </p>
<p>Estamos agora entrando em uma fase qualitativamente nova da história mundial. Mudanças globais significativas surgiram nos anos que se seguiram à Grande Crise Financeira de 2008. Isso pode ser visto em uma nova fase do imperialismo e em mudanças explicitadas nessas oito contradições.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><b><span style="color: #ba2025;">1. A contradição entre o imperialismo moribundo e um socialismo emergente bem sucedido liderado pela China</span>.</b></h3>
<p>Essa contradição se intensificou com a ascensão pacífica do socialismo com características chinesas. Pela primeira vez em 500 anos, as potências imperialistas atlânticas são confrontadas por uma grande potência econômica não-branca que pode competir com elas. Isso ficou claro em 2013, quando o PIB da China, na busca por paridade de poder de compra (PPP), ultrapassou o dos Estados Unidos. A China conseguiu isso em um período muito mais curto que o Ocidente, com uma população muito maior e sem colônias, sem escravizar trabalhadores ou promover conquistas militares. Enquanto a China defende relações pacíficas, os EUA tornaram-se cada vez mais belicosos.</p>
<p>Os EUA lideram o campo imperialista desde a Segunda Guerra Mundial. Pós-Angela Merkel e com o advento da operação militar na Ucrânia, os EUA subordinaram estrategicamente setores dominantes da burguesia européia e japonesa. Isso resultou no enfraquecimento das contradições intra-imperialistas. Os EUA primeiro permitiram e depois exigiram que tanto o Japão (a terceira maior economia do mundo) quanto a Alemanha (a quarta maior economia) – duas potências fascistas durante a Segunda Guerra Mundial – aumentassem consideravelmente seus gastos militares. O resultado foi o fim do relacionamento econômico da Europa com a Rússia, danos à economia europeia e benefícios econômicos e políticos para os EUA. Apesar da capitulação da maior parte da elite política da Europa à total subordinação dos Estados Unidos, alguns grandes setores do capital alemão dependem fortemente do comércio com a China, muito mais do que de suas contrapartes estadunidenses. Os EUA, no entanto, agora estão pressionando a Europa para reduzir seus laços com a China.</p>
<p>Mais importante, a China e o campo socialista agora enfrentam uma entidade ainda mais perigosa: a estrutura consolidada da Tríade (Estados Unidos, Europa e Japão). A crescente decadência social interna dos EUA não deve mascarar a unidade quase absoluta de sua elite política na política externa. Assistimos à burguesia colocando seus interesses políticos e militares acima de seus interesses econômicos de curto prazo.</p>
<p>O centro da economia mundial está mudando, com a Rússia e o Sul Global (incluindo a China) representando agora 65% do PIB mundial (medido em PPP). De 1950 até o presente, a participação dos EUA no PIB global (em PPP) caiu de 27% para 15%. O crescimento do PIB dos EUA também vem caindo há mais de cinco décadas e agora caiu para apenas cerca de 2% ao ano. Não há grandes novos mercados para onde expandir. O Ocidente sofre uma crise geral contínua do capitalismo, bem como das consequências da tendência de longo prazo da queda da taxa de lucro.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><b>2.A contradição entre as classes dominantes do pequeno grupo de países imperialistas do G7 e a elite política e econômica dos países capitalistas do Sul Global. </b></span></h3>
<p>Essa relação passou por uma grande mudança desde o auge da década de 1990 e o auge do poder unilateral e da arrogância dos EUA. Hoje, há rachaduras crescentes na aliança entre o G7 e as elites do poder do Sul Global. Mukesh Ambani e Gautam Adani, os maiores bilionários da Índia, precisam de petróleo e carvão da Rússia. O governo de extrema-direita liderado por Modi representa a burguesia monopolista da Índia. Assim, o ministro das Relações Exteriores indiano agora faz declarações ocasionais contra a hegemonia dos EUA nas finanças, sanções e outras áreas. O Ocidente não tem capacidade econômica e política para fornecer sempre o que as elites do poder na Índia, Arábia Saudita e Turquia precisam. Essa contradição, no entanto, não se agudizou a ponto de ser um ponto focal de outras contradições, ao contrário da contradição entre a China socialista e o bloco G7 liderado pelos EUA.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><b>3. A contradição entre a ampla classe trabalhadora urbana e rural e setores da pequena burguesia (conhecidas coletivamente como as classes populares) do Sul Global </b><b><i>versus </i></b></span><b><span style="color: #ba2025;">a elite do poder imperial liderada pelos EUA.</span> </b></h3>
<p>Essa contradição está lentamente se tornando mais nítida. O Ocidente tem uma grande vantagem no <i>soft power</i> no Sul Global em meio a todas as classes. No entanto, pela primeira vez em décadas, jovens africanos saíram para apoiar a expulsão das tropas francesas do Mali e Burkina Faso, na África Ocidental. Pela primeira vez, as classes populares na Colômbia puderam eleger um novo governo que rejeitou a função de posto avançado e vassalo das forças militares e de inteligência dos EUA. As mulheres da classe trabalhadora estão na vanguarda de muitas batalhas críticas tanto da classe trabalhadora quanto da sociedade em geral. Os jovens estão se levantando contra os crimes ambientais do capitalismo. Um número crescente da classe trabalhadora está identificando suas lutas pela paz, desenvolvimento e justiça como explicitamente anti-imperialistas. Eles agora são capazes de ver por meio das mentiras da<a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-17-venezuela-e-as-guerras-hibridas-na-america-latina/"> ideologia dos “direitos humanos”</a> dos EUA, a destruição do meio ambiente pelas empresas ocidentais de energia e mineração e a violência da<a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-35-crepusculo/"> guerra híbrida</a> e das sanções dos EUA.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><b> 4. A contradição entre o capital financeiro rentista avançado </b><b><i>versus </i></b></span><b><span style="color: #ba2025;">as necessidades das classes populares, e até mesmo de alguns setores do capital em países não socialistas, no que diz respeito à organização dos requisitos das sociedades para investimento na indústria, agricultura ambientalmente sustentável, emprego e desenvolvimento.</span> </b></h3>
<p>Essa contradição é resultado da queda da taxa de lucro e da dificuldade do capital em aumentar a taxa de exploração da classe trabalhadora a um patamar suficiente para financiar as crescentes necessidades de investimento e manter a competitividade. Fora do campo socialista, em quase todos os países capitalistas avançados e na maior parte do Sul Global – com algumas exceções, especialmente na Ásia – há uma crise de investimento. Surgiram novos tipos de empresas que incluem fundos de cobertura [<i>hedge</i>], como a Bridgewater Associates, e firmas de patrimônio privado [<i>private equity</i>], como a BlackRock. Os “mercados privados” controlaram 9,8 trilhões de dólares em ativos em 2022. Os derivativos, uma forma de capital fictício e especulativo, valem agora 18,3 trilhões de dólares em valor de “mercado”, mas têm um valor nocional de 632 trilhões – cinco vezes maior que o PIB real total do mundo.</p>
<p>Uma nova classe de monopólios de efeito de rede baseados em tecnologia da informação, incluindo Google, Facebook/Meta e Amazon – todos sob controle total dos EUA – surgiu para atrair rendas de monopólio. Os monopólios digitais dos EUA, sob a supervisão direta de suas agências de inteligência, controlam a arquitetura da informação de todo o mundo, exceto alguns países socialistas e nacionalistas. Esses monopólios são a base para a rápida expansão do <i>soft power</i> dos EUA nos últimos 20 anos. O complexo militar-industrial, mercador da morte, também atrai investimentos crescentes.</p>
<p>Essa intensificada fase de acumulação rentista especulativa e monopolista do capital está aprofundando uma greve do capital contra os investimentos sociais necessários. A África do Sul e o Brasil têm registrado níveis dramáticos de desindustrialização sob o neoliberalismo. Mesmo os países imperialistas avançados ignoraram sua própria infraestrutura, como rede elétrica, pontes e ferrovias. A elite global engendrou uma greve fiscal ao fornecer enormes reduções nas alíquotas e impostos, bem como paraísos fiscais legais para capitalistas e suas corporações aumentarem sua parcela de mais-valia.</p>
<p>A evasão fiscal do capital e a privatização de grandes áreas do setor público dizimaram a disponibilidade de serviços públicos básicos como educação, saúde e transporte para bilhões de pessoas. Isso contribuiu para a capacidade do capital ocidental de manipular e obter altas receitas advindas dos juros da crise “fabricada” da dívida enfrentada pelo Sul Global. Em seu nível mais alto, investidores de fundos de cobertura [<i>hedge</i>] como George Soros especulam e destroem as finanças de países inteiros.</p>
<p>O impacto sobre a classe trabalhadora é severo, pois seu trabalho se tornou cada vez mais precário e o desemprego permanente está destruindo grandes setores da juventude mundial. Uma parte crescente da população é supérflua sob o capitalismo. Desigualdade social, miséria e desespero são abundantes.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><b><span style="color: #ba2025;">5. A contradição entre as classes populares do Sul Global e suas elites internas políticas e econômicas.</span> </b></h3>
<p>Isso se manifesta de maneira bastante diferente por país e região. Nos países socialistas e progressistas, as contradições entre os povos são resolvidas de formas pacíficas e diversas. No entanto, em vários países do Sul Global, onde a elite capitalista está totalmente ligada ao capital ocidental, a riqueza é mantida por uma pequena porcentagem da população. A miséria é generalizada entre os mais pobres e o modelo de desenvolvimento capitalista não atende aos interesses da maioria. Devido à história do neocolonialismo e do <i>soft power</i> ocidental, há um consenso decididamente pró-Ocidente da classe média na maioria dos grandes países do Sul Global. Essa hegemonia de classe da burguesia local e do estrato superior da pequena burguesia é usada para impedir que as classes populares (que constituem a maior parte da população) tenham acesso ao poder e à influência.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><b>6. A contradição entre o imperialismo liderado pelos EUA </b><b><i>versus </i></b><b>nações que defendem fortemente a soberania nacional.</b> </span></h3>
<p>Essas nações se enquadram em quatro categorias principais: países socialistas, países progressistas, outros países que rejeitam o controle dos EUA e o caso especial da Rússia. Os EUA criaram essa contradição antagônica por meio de métodos de guerra híbrida, como assassinatos, invasões, agressão militar liderada pela Otan, sanções, leis, guerra comercial e uma agora incessante guerra de propaganda baseada em mentiras absolutas. A Rússia está em uma categoria especial, pois sofreu mais de 25 milhões de mortes nas mãos dos invasores fascistas europeus quando era um país socialista. Hoje, a Rússia – que possui notavelmente imensos recursos naturais – é mais uma vez alvo de aniquilação completa pela Otan. Alguns elementos de seu passado socialista ainda estão presentes no país, e ainda persiste um alto grau de patriotismo. O objetivo dos EUA é terminar o que começou em 1992: no mínimo, destruir permanentemente a capacidade militar nuclear da Rússia e instalar um regime fantoche em Moscou para desmembrar a Rússia a longo prazo e substituí-la por muitos estados do Ocidente que são vassalos menores e permanentemente enfraquecidos.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><b>7. A contradição entre os milhões de pobres da classe trabalhadora descartados no Norte Global </b><b><i>versus </i></b><b>a burguesia que domina esses países.</b> </span></h3>
<p>Esses trabalhadores estão mostrando alguns sinais de rebelião contra suas condições econômicas e sociais. No entanto, a burguesia imperialista está jogando a carta da supremacia branca para impedir uma maior unidade dos trabalhadores nesses países. Nesse momento, os trabalhadores não são consistentemente capazes de evitar de serem vítimas da propaganda de guerra racista. O número de pessoas presentes em eventos públicos contra o imperialismo diminuiu vertiginosamente nos últimos trinta anos.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><b>8. A contradição entre o capitalismo ocidental </b><b><i>versus </i></b></span><b><span style="color: #ba2025;">o planeta e a vida humana.</span> </b></h3>
<p>O caminho inexorável desse sistema é destruir o planeta e a vida humana, ameaçar a aniquilação nuclear e trabalhar contra as necessidades da humanidade de recuperar coletivamente o ar, a água e a terra do planeta e impedir a loucura militar nuclear dos Estados Unidos. O capitalismo rejeita o planejamento e a paz. O Sul Global (incluindo a China) pode ajudar o mundo a construir e expandir uma “zona de paz” e comprometer-se a viver em harmonia com a natureza.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Nota sobre os autores:</strong> </span></h3>
<p><strong>Kyeretwie Opoku</strong> é organizador do Movimento Socialista de Gana<br>
<strong>Manuel Bertoldi</strong> é da Patria Grande/Federación Rural para la Producción y el Arraigo<br>
<strong>Deby Veneziale</strong> é pesquisadora sênior do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social<br>
<strong>Vijay Prashad</strong> é diretor-executivo do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social</p>
<div class="cc-by-nc-40">Esta publicação está sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International (CC BY-NC 4.0). O resumo legível da licença está disponível em<br>
<a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc/4.0/">https://creativecommons.org/licenses/by-nc/4.0/</a></div>
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			</item>
		<item>
		<title>Em direção ao horizonte da paz e do não alinhamento</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/estudos-sobre-dilemas-contemporaneos-2-paz-e-nao-alinhamento/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[ariana]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 27 Sep 2022 07:00:47 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Mudanças globais significativas surgiram desde a Grande Crise Financeira de 2008. Isso pode ser visto em uma nova fase do imperialismo e nas particularidades de oito contradições, resumidas em nosso último texto: thetricontinental.org/pt-pt]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p> </p>
<p>Catástrofes de um tipo ou de outro irradiaram da Ucrânia, incluindo uma inflação galopante e fora de controle. As áreas do mundo diretamente envolvidas no conflito estão sendo duramente atingidas pelo aumento dos preços, com a agitação política como consequência inevitável. Nesse contexto, o <a href="https://thecorbynproject.com/">Projeto Paz e Justiça</a>, instituto de pesquisa liderado por Jeremy Corbyn, uniu-se ao <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/">Instituto Tricontinental de Pesquisa Social</a> e a dois parceiros de mídia, <a href="https://globetrotter.media/">Globetrotter</a> e <a href="https://www.morningstaronline.co.uk/">Morning Star</a>, para produzir uma série de reflexões sobre os conceitos de não alinhamento e paz. O primeiro relatório, de Roger McKenzie e Vijay Prashad, apresenta as questões que são mais exploradas pelo restante dos artigos desta série.</p>
<p>Estes textos foram originalmente produzidos e distribuídos em inglês, espanhol e português pela Globetrotter e pela Morning Star entre abril e julho de 2022. Eles foram atualizados pelo Instituto Tricontinental de Pesquisa Social para publicação em setembro de 2022. A equipe da <a href="https://revistaopera.com.br/">Revista Ópera</a> contribuiu com a tradução dos artigos para o português.</p>
<p> </p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-66978 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/09/Logos-Post-66056.png" alt="" width="626" height="70"></p>
<p> </p>
<hr class="line">
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #403b99;"><strong>Sumário</strong></span></h3>
<ol>
<li><a href="#section_1">Agora é hora de não-alinhamento e paz</a> – Roger Mackenzie y Vijay Prashad</li>
<li><a href="#section_2">Agora, falemos de paz</a> – Jeremy Corbyn</li>
<li><a href="#section_3">Por que o não alinhamento é um imperativo urgente para o Sul Global</a> – Nontobeko Hlela</li>
<li><a href="#section_4">A América Latina entre o não alinhamento e a multipolaridade</a> – Marco Fernandes</li>
<li><a href="#section_5">A Índia tem um papel fundamental a desempenhar em uma possível nova ordem mundial</a> – Prasanth Radhakrishnan</li>
<li><a href="#section_6">Europa na encruzilhada: entre o neoliberalismo e o desejo popular</a> – Nora García Nieves</li>
<li><a href="#section_7">O não-alinhamento de Cuba: uma política internacional por paz e socialismo</a> – Manolo De Los Santos</li>
<li><a href="#section_8">Não basta rechaçar a guerra: o racismo impossibilita a paz</a> – Claudia Webbe</li>
<li><a href="#section_9">Por que a paz e o desarmamento estão no coração do não-alinhamento?</a> – Kate Hudson</li>
<li><a href="#section_10">2 trilhões de dólares para a guerra, 100 bilhões para salvar o Planeta</a> – Murad Qureshi</li>
</ol>
<p> </p>
<hr class="line">
<p> </p>
<p><a name="section_1"></a></p>
<h1><span style="color: #403b99;"><strong>Agora é hora de não-alinhamento e paz </strong></span></h1>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #403b99;">Por Roger McKenzie e Vijay Prashad</span></h2>
<p> </p>
<p>A guerra é uma parte feia da experiência humana. Tudo nela é horrível. A guerra é, obviamente, o ato de invasão e a brutalidade que acompanha suas operações. Nenhuma guerra é cirúrgica; toda guerra fere civis. Cada ato de bombardeio provoca um estremecimento neurológico na sociedade.</p>
<p>A Segunda Guerra Mundial demonstrou essa feiúra no Holocausto e no bombardeio atômico de Hiroshima e Nagasaki. De Hiroshima e do Holocausto surgiram dois movimentos poderosos, um pela paz e contra os perigos de novos ataques nucleares, e o outro pelo fim das divisões da humanidade e pelo não alinhamento com essas segmentações. O Apelo de Estocolmo, de 1950, assinado por quase 300 milhões de pessoas, pedia a proibição absoluta das armas nucleares. Cinco anos depois, 29 países da África e da Ásia, representando 54% da população mundial, reuniram-se em Bandung, na Indonésia, para assinar um compromisso de 10 pontos contra a guerra e pela “promoção de interesses mútuos e cooperação”. O Espírito Bandung se posicionava pela paz e pelo não alinhamento, para que os povos do mundo se esforçassem na construção de um processo para erradicar as mazelas da história (analfabetismo, doenças, fome) usando sua riqueza social. Por que gastar dinheiro em armas nucleares se ele pode ser gasto em salas de aula e hospitais?</p>
<p>Apesar dos grandes ganhos de muitas das novas nações que emergiram do colonialismo, a força esmagadora das antigas potências coloniais impediu o Espírito de Bandung de definir a história humana. Em vez disso, a civilização da guerra prevaleceu. Essa civilização da guerra se revela no enorme desperdício da riqueza humana na produção de forças armadas – suficientes para destruir centenas de planetas – e no uso dessas forças como o primeiro recurso na resolução de disputas. Desde a década de 1950, o campo de batalha dessas ambições não tem sido a Europa ou a América do Norte, mas sim a África, Ásia e América Latina – áreas do mundo onde velhas sensibilidades coloniais acreditam que a vida humana é menos importante. Essa divisão internacional da humanidade – que diz que uma guerra no Iêmen é normal, enquanto uma guerra na Ucrânia é horrível – define nosso tempo. Há 40 guerras ocorrendo em todo o mundo; é preciso haver vontade política para lutar para acabar com cada uma delas, não apenas aquelas que estão ocorrendo na Europa. A bandeira ucraniana está onipresente no Ocidente; quais são as cores da bandeira iemenita, da bandeira saharaui e da bandeira somali?</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #403b99;"><strong>Retorno à paz, retorno ao não-alinhamento</strong></span></h3>
<p>Estamos aturdidos nos dias de hoje com certezas que parecem cada vez menos reais. À medida que a guerra da Rússia na Ucrânia continua, há uma visão desconcertante de que as negociações são fúteis. Essa visão circula mesmo quando pessoas razoáveis concordam que todas as guerras devem terminar em negociações. Se for esse o caso, por que não pedir um cessar-fogo imediato e construir a confiança necessária para as negociações? As negociações só são viáveis se houver respeito de todos os lados e se houver uma tentativa de entender que todos os lados em um conflito militar têm exigências razoáveis. Ou seja, pintar esta guerra como fruto dos caprichos do presidente russo Vladimir Putin faz parte do exercício da guerra permanente. São necessárias garantias de segurança para a Ucrânia; mas também para a Rússia, o que inclui o regresso a um regime internacional sério de controle de armas.</p>
<p>A paz não vem meramente porque a desejamos. Requer uma luta nas trincheiras das ideias e das instituições. As forças políticas no poder lucram com a guerra, e assim se vestem de “machos” para melhor representar os traficantes de armas que querem mais guerra, não menos. Não se deve confiar a esses burocratas de ternos azuis o futuro do mundo. Eles falham quando se trata da catástrofe climática; falham quando se trata da pandemia; falham quando se trata de pacificação. Precisamos convocar os velhos espíritos de paz e não-alinhamento e trazê-los à vida dentro de movimentos de massa, que são a única esperança deste planeta.</p>
<p>Não é meramente nostalgia fazer uma volta ao passado para dar vida ao Movimento dos Não-Alinhados de hoje. As contradições do presente já levantaram o espectro do não alinhamento em partes da África, Ásia e América Latina. A maioria desses países votou contra a condenação da Rússia não porque eles apoiam a guerra na Ucrânia, mas porque reconhecem que a polarização é um erro fatal. O que é necessário é uma alternativa ao mundo de dois campos da Guerra Fria. Essa é a razão pela qual muitos dos líderes desses países – de Xi Jinping (China) a Narendra Modi (Índia) e Cyril Ramaphosa (África do Sul) – pediram, apesar de suas orientações políticas muito diferentes, um afastamento da “mentalidade da Guerra Fria”. Eles já estão caminhando em direção a uma nova plataforma não alinhada. É esse movimento real da história que nos provoca a refletir sobre um retorno aos conceitos de não-alinhamento e paz.</p>
<p>Ninguém quer imaginar todas as implicações do cerco da China e da Rússia pelos Estados Unidos e seus aliados. Mesmo países que estão intimamente aliados aos Estados Unidos – como Alemanha e Japão – reconhecem que, se uma nova cortina de ferro descer ao redor da China e da Rússia, isso será fatal para seus próprios países. A guerra e as sanções já criaram sérias crises políticas em Honduras, Paquistão, Peru e Sri Lanka, e outras surgem à medida que os preços dos alimentos e dos combustíveis aumentam astronomicamente. A guerra é muito cara para as nações mais pobres. Gastar com a guerra está consumindo o espírito humano, e a própria guerra aumenta o sentimento geral de desespero das pessoas.</p>
<p>Os belicistas são idealistas. Suas guerras não resolvem os principais dilemas da humanidade. As ideias de não-alinhamento e paz, por outro lado, são realistas; seu enquadre tem respostas para as crianças que querem comer, aprender, brincar e sonhar.</p>
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<p><a name="section_2"></a></p>
<h1><span style="color: #403b99;"><strong>Agora, falemos de paz</strong></span></h1>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #403b99;">Por Jeremy Corbyn</span></h2>
<p> </p>
<p>Com bombas russas caindo sobre cidades ucranianas, um cessar-fogo inquieto no Iêmen, o ataque aos palestinos em oração em Jerusalém e muitos outros conflitos ao redor do mundo, pode parecer inadequado para alguns falarem de paz.</p>
<p>Quando uma guerra está acontecendo, porém, é definitivamente o momento de falar de paz. De que outra forma podemos evitar a perda de mais vidas ou ainda que milhões sejam forçados a se refugiar em algum outro lugar do mundo? É positivo que, finalmente, as Nações Unidas tenham tomado a iniciativa de colocar em prática o pedido do secretário-geral, António Guterres, de que se façam reuniões presenciais com o presidente russo Vladimir Putin e o presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy.</p>
<p>Deve haver um cessar-fogo imediato na Ucrânia, seguido de uma retirada das tropas russas e um acordo entre ambos os países sobre futuros acordos de segurança.</p>
<p>Todas as guerras terminam com algum tipo de negociação — então por que não agora?</p>
<p>Todos sabem que isso é o que acontecerá em algum momento. Não há razão em adiá-lo para que ocorram mais bombardeios e assassinatos, mais refugiados, mais mortos e mais famílias em luto na Ucrânia e na Rússia. Mas, em vez de pedir a paz, a maioria das nações europeias aproveitou a oportunidade para aumentar o fornecimento de armas, alimentar a máquina de guerra e aumentar os preços das ações dos fabricantes de armas.</p>
<p>É também a hora de falar sobre nossa humanidade, ou falta dela, para pessoas em profunda angústia como resultado de conflitos armados, violação de seus direitos ou a pobreza opressiva que muitos enfrentam como resultado do sistema econômico global.</p>
<p>Quase 10% da população da Ucrânia está agora no exílio, sofrendo traumas, perdas e medo. A maioria dos países da Europa tem apoiado os refugiados ucranianos. O governo britânico finge fazê-lo também, mas depois afoga os ucranianos em burocracias governamentais deliberadamente labirínticas e dignas de um pesadelo para desencorajá-los. Em vez disso, os refugiados ucranianos devem ser apoiados e bem-vindos. Isso é o que o povo britânico em geral quer; a enorme generosidade das pessoas comuns está mostrando o melhor da nossa humanidade.</p>
<p>No entanto, com relação ao tratamento de refugiados em desespero, vindos de guerras em que a Grã-Bretanha tem responsabilidade direta, como Afeganistão, Iraque, Líbia e Iêmen, a história é dolorosamente diferente.</p>
<p>Se alguém está tão desesperado a ponto de arriscar tudo para tentar cruzar o Canal da Mancha em um bote perigoso e frágil, merece simpatia e apoio. Em vez disso, o plano do governo é removê-los para Ruanda. Se acreditamos na humanidade e nos direitos dos refugiados, todos devem ser tratados de forma igual e decente e deve ser permitido que eles possam dar sua contribuição à nossa sociedade, e não sofrerem criminalização e encarceramento. Se o Partido Conservador se safar com essa “terceirização”, outros países europeus farão o mesmo. O governo dinamarquês já falou animadamente sobre essa proposta cruel e impraticável.</p>
<p>Os efeitos dessa guerra na política e nas esperanças de nossa sociedade serão enormes, principalmente para as instituições do mundo. As Nações Unidas foram estabelecidas após a Segunda Guerra Mundial para “salvar gerações sucessivas do flagelo da guerra”. Desde então, podemos desenrolar a longa e extensa lista de conflitos e guerras por procuração que o mundo enfrentou e que tirou a vida de milhões. Coréia, Vietnã, Irã-Iraque, Iugoslávia, Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria, Índia-Paquistão, República Democrática do Congo e muitos outros conflitos foram pouco noticiados pela grande mídia, talvez por serem conflitos contra a ocupação colonial, como ocorre no Quênia.</p>
<p>Uma grande questão deve ser feita à ONU sobre o conflito na Ucrânia. Quando a Rússia invadiu a Ucrânia de forma brutal e ilegal, não era esse o momento para a ONU enviar seu secretário-geral a Moscou para exigir um cessar-fogo? A ONU tem sido muito lenta para agir, e boa parte do sistema inter Estados pressionou pela escalada, não pela negociação.</p>
<p>O apelo por instituições internacionais mais eficazes e proativas para apoiar a paz foi feito com força em abril de 2022, em Madri, em uma conferência organizada pelo partido de esquerda Podemos, da Espanha, após um diálogo iniciado pela organização ativista de esquerda Internacional Progressista. Cada um dos 17 oradores condenou a guerra e a ocupação e pediu um cessar-fogo e um futuro de paz para o povo da Ucrânia e da Rússia. Os participantes sabiam dos perigos da escalada desse conflito e das novas guerras quentes e violência que uma nova Guerra Fria traria. Existem 1.800 ogivas nucleares no mundo preparadas e prontas para uso. Uma arma “tática” mataria centenas de milhares; uma bomba nuclear mataria milhões. Não pode ser contida, tampouco seus efeitos podem ser controlados.</p>
<p>Em junho de 2022, Viena sediou uma grande série de eventos de paz em torno do Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares. Esse tratado, apoiado pela Assembleia Geral da ONU e contestado pelos Estados declarados com armas nucleares, oferece a melhor esperança e oportunidade para um futuro sem armas nucleares. A oportunidade deve ser agarrada com as duas mãos.</p>
<p>Alguns dizem que discutir a paz em tempos de guerra é sinal de algum tipo de fraqueza; a verdade é justamente o oposto. É a bravura dos manifestantes pela paz em todo o mundo que impediu alguns governos de se envolverem no Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria, Iêmen ou qualquer uma das dezenas de outros conflitos em andamento.</p>
<p>A paz não é apenas a ausência de guerra; é a verdadeira segurança. A segurança de saber que você poderá comer, seus filhos serão educados e cuidados e que um serviço de saúde estará lá quando você precisar. Para milhões, isso não é uma realidade agora; os efeitos posteriores da guerra na Ucrânia tirarão isso de outros milhões de pessoas.</p>
<p>Enquanto isso, muitos países estão aumentando os gastos com armas e investindo recursos em armamentos cada vez mais perigosos. Os Estados Unidos acabam de aprovar seu maior orçamento de defesa de todos os tempos. Esses recursos usados para armas são todos os recursos não usados para saúde, educação, habitação ou proteção ambiental.</p>
<p>Este é um momento perigoso. Observar o horror se desenrolar e se preparar para mais conflitos no futuro não garantirá que a crise climática, a crise da pobreza ou o suprimento de alimentos sejam resolvidos. Cabe a todos nós construir e apoiar movimentos que possam traçar outro rumo para a paz, segurança e justiça para todos.</p>
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<p><a name="section_3"></a></p>
<h1><span style="color: #403b99;"><strong>Por que o não alinhamento é um imperativo urgente para o Sul Global</strong></span></h1>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #403b99;">Por Nontobeko Hlela</span></h2>
<p> </p>
<p>A África do Sul e outros <a href="https://news.un.org/en/story/2022/04/1115782">países que se abstiveram de votar contra a Rússia</a> na Assembleia Geral das Nações Unidas em resposta à guerra na Ucrânia enfrentam intensas críticas internacionalmente. Na África do Sul, as críticas domésticas foram extraordinariamente estridentes e muitas vezes claramente racializadas. Supõe-se frequentemente que a abstenção significa que a África do Sul apoia a invasão russa, e que isso se deva a relações corruptas entre as elites russas e sul-africanas, ou à nostalgia em relação ao apoio soviético à luta anti-apartheid, ou ambas.</p>
<p>Raramente há qualquer reconhecimento de que o não alinhamento, neste caso a recusa em se alinhar com os Estados Unidos e seus aliados ou com a Rússia, pode ser uma posição de princípios, bem como um compromisso tático sagaz com as realidades geopolíticas. Como duas figuras fundadoras do Movimento dos Não-Alinhados (MNA), o então presidente da Iugoslávia, Josip Broz Tito, e o então primeiro-ministro da Índia, Jawaharlal Nehru, disseram em uma <a href="https://www.jstor.org/stable/26924448">declaração conjunta</a> de 22 de dezembro de 1954: “a política de não-alinhamento com blocos (…) não representa ‘neutralidade’ ou ‘neutralismo’; nem representa passividade, como às vezes é alegado. Representa a política positiva, ativa e construtiva que tem, como objetivo, a paz coletiva como fundamento da segurança coletiva”.</p>
<p>O Sul Global abriga <a href="https://www.un.org/en/global-issues/population">mais de 80% da população mundial</a>, mas seus países são sistematicamente excluídos de qualquer tomada de decisão nas organizações internacionais que determinam como a “comunidade internacional” opera. Por décadas, os países do Sul Global têm defendido que as Nações Unidas sejam reformadas para que se distanciem do jogo de soma zero da mentalidade da Guerra Fria que continua a conduzi-la. Gabriel Valdés, então Ministro das Relações Exteriores do Chile, conta que em junho de 1969, Henry Kissinger lhe disse: “nada importante pode vir do Sul. A história nunca foi produzida no Sul. O eixo da história começa em Moscou, vai para Bonn, cruza para Washington e depois vai para Tóquio. O que acontece no Sul não tem importância”.</p>
<p>Poucos anos antes, em 30 de setembro de 1963, Jaja Wachuku, então ministro das Relações Exteriores da Nigéria, <a href="https://www.jstor.org/stable/1035325">fez uma pergunta</a> urgente à 18ª Sessão da ONU: “essa organização quer (…) que os Estados africanos sejam apenas membros vocais, sem qualquer direito de expressar sua visão sobre qualquer assunto em particular em órgãos importantes das Nações Unidas…? Vamos continuar apenas assistindo?” Os países do Sul Global ainda são como “crianças assistindo o debate”, observando os adultos fazerem as regras e decidirem o caminho que o mundo deve tomar. Eles continuam a ser repreendidos e a levar sermões quando não fazem o que é deles esperado.</p>
<p>É hora de um Movimento dos Não-Alinhados (MNA) revitalizado. O MNA só terá sucesso se os líderes dos países do Sul Global colocarem seus egos de lado, pensarem estrategicamente em escala global e usarem melhor seu considerável capital humano, recursos naturais e engenhosidade tecnológica. O Sul Global inclui uma China ascendente, a segunda maior economia do mundo. Inclui também a Índia, um dos países líderes em assistência médica e inovação tecnológica. E ainda a África, um continente com uma população crescente e os recursos naturais necessários para a multiplicação das indústrias de Inteligência Artificial (IA) e energia mais limpa. No entanto, esses recursos ainda são extraídos para que o lucro seja acumulado em capitais distantes, enquanto a África e grande parte do Sul Global permanecem subdesenvolvidos, com milhões ainda presos no desespero do empobrecimento.</p>
<p>Um MNA renovado tem um potencial real e é necessário tempo para edificar novas instituições e construir amortecedores contra a guerra econômica que os Estados Unidos vêm travando contra países, como Cuba e Venezuela, e agora contra a Rússia. A autonomia financeira é fundamental.</p>
<p>O BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) desenvolveu um <a href="https://www.prnewswire.com/news-releases/new-development-bank-updates-ndb-enters-2022-in-expansion-mode-301460273.html">banco</a> para seus membros, e para as 16 nações da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (<a href="https://www.sadc.int/">SADC</a>, na sigla em inglês) existe o Banco de Desenvolvimento da África Austral; no entanto, as reservas dos países vinculados a esses projetos ainda são mantidas nos Estados Unidos ou em capitais europeias. Esse é o momento de os líderes do Sul Global acordarem e perceberem que, dado o tipo de guerra econômica que está sendo desencadeada atualmente contra um país como a Rússia, os países mais fracos do Sul Global não têm autonomia significativa.</p>
<p>Esse é o momento de repensar como conduzimos a política, a economia e a política externa quando estiver claro que o Ocidente pode decidir dizimar países inteiros. As armas econômicas que estão sendo construídas contra a Rússia estarão disponíveis para serem usadas contra outros países que tenham a temeridade de não seguir a linha de Washington.</p>
<p>O BRICS foi decepcionante em muitos aspectos, mas abriu espaço para os países do Sul Global – com suas muitas diferenças de credo, cultura, sistemas políticos e econômicos – encontrarem uma maneira de trabalhar juntos. O rechaço à pressão intensa para que se curvassem coletivamente no Conselho de Segurança das Nações Unidas é um exemplo encorajador do Sul Global rejeitando a suposição de que seus países deveriam permanecer como espectadores.</p>
<p>À medida que os Estados Unidos intensificam rapidamente sua nova Guerra Fria contra a Rússia e a China, e esperam que outros países fiquem na linha, há agora um imperativo urgente de rejeitar essa mentalidade de guerra fria que divide o mundo em velhas linhas. O Sul Global deve rejeitar essa visão e exigir o respeito ao direito internacional por todos os países. Quando os direitos humanos e o direito internacional são evocados apenas quando os países de quem o Ocidente não gosta ou discorda os violam, eles zombam desses conceitos.</p>
<p>Somente unindo-se e falando a uma só voz, os países do Sul Global podem esperar ter alguma influência nos assuntos internacionais e não continuar a ser apenas carimbadores das posições do Ocidente.</p>
<p>O Movimento dos Não-Alinhados precisa ser confiante e corajoso e não buscar permissão do Ocidente. Os líderes do MNA precisam entender que estão lá para servir e proteger os interesses de seu povo e não permitir que a tentação de ser incluído no “clube dos meninos grandes” influencie sua posição sobre as questões. Eles precisam ter em mente que foram mantidos como “café com leite” por muito tempo e, a menos que realmente tomem seu destino em suas mãos, estarão para sempre aos pés da mesa, com seu povo se alimentando apenas dos restos da riqueza acumulada pela economia global, grande parte obtida com a exploração do Sul.</p>
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<p><a name="section_4"></a></p>
<h1><span style="color: #403b99;"><strong>A América Latina entre o não alinhamento e a multipolaridade</strong></span></h1>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #403b99;">Por Marco Fernandes</span></h2>
<p> </p>
<p>O mundo urge pelo fim da guerra na Ucrânia. No entanto, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) parece apostar no prolongamento do conflito, aumentando o envio de armas à Ucrânia e declarando que seu objetivo é “<a href="https://www.wsj.com/articles/u-s-to-return-embassy-to-ukraine-boost-military-aid-blinken-and-austin-tell-zelensky-in-visit-to-kyiv-11650859391">enfraquecer a Rússia</a>”. Até 3 de março de 2022, somente os EUA já haviam aprovado 13,6 bilhões de dólares em orçamentos de emergência, a maior parte em armas. Em abril, o presidente dos EUA, Joe Biden, solicitou outros 33 bilhões ao Congresso. Para efeito de comparação, seriam necessários 45 bilhões de dólares por ano <a href="https://ceres2030.org/wp-content/uploads/2020/10/ceres2030-what-would-it-cost_.pdf">para acabar com a fome no mundo</a> até 2030.</p>
<p>Mesmo que as negociações avancem e a guerra acabe, uma solução pacífica talvez não seja possível. Nada leva a crer que as tensões geopolíticas diminuam de fato e que cessem as tentativas do Norte Global de frear o desenvolvimento da China, de quebrar seus laços com a Rússia e de conter as parcerias estratégicas chinesas com o Sul Global.</p>
<p>Por exemplo, em depoimento dado em março de 2022 ao Senado estadunidense, os comandantes do <a href="https://www.washingtonexaminer.com/policy/defense-national-security/southcom-commander-warns-about-russian-and-chinese-influence-in-latin-america">Comando do Sul</a> (General Laura Richardson) e do <a href="https://www.news24.com/news24/africa/news/us-army-general-concerned-about-china-and-russias-growing-influence-in-africa-20220323">Comando da África</a> (General Stephen J. Townsend) alertaram para os “perigos” do aumento da influência da Rússia e da China na África e na América Latina e Caribe. Reafirmando a nova doutrina de segurança nacional lançada em 2018 pelo governo de Donald Trump – que elegeu Rússia e China como os “<a href="https://www.cnn.com/2018/01/19/politics/trump-defense-strategy-china-russia/index.html">desafios centrais</a>” aos EUA – os generais recomendam ações para enfraquecer a influência de Moscou e Pequim. Com suas ações e retórica cada vez mais agressivas, os EUA e seus aliados parecem dispostos a levar o mundo a uma nova guerra fria.</p>
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<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #403b99;"><strong>Basta de Guerra Fria</strong></span></h3>
<p>A América Latina não quer uma nova guerra fria. Nossa região já sofreu uma experiência traumática com a polarização do mundo pós II Guerra. A propaganda da “ameaça comunista” serviu de pretexto para a derrubada de inúmeros governos democraticamente eleitos. Buscavam alternativas, nos marcos do capitalismo, para superar o subdesenvolvimento e a histórica desigualdade social. Mesmo assim, sofreram golpes operados pelas elites locais com <a href="https://www.theguardian.com/news/2020/sep/03/operation-condor-the-illegal-state-network-that-terrorised-south-america">apoio da Casa Branca</a>. Dezenas de milhares de pessoas foram torturadas, assassinadas e exiladas, inúmeros países da região viveram muitos anos sob ditaduras militares e as condições de vida do povo pioraram.</p>
<p>A América Latina quer paz. Mas somente a unidade regional será capaz de nos defender das pressões internacionais que devem crescer. Esse processo já foi iniciado há mais de 20 anos, após uma série de revoltas populares em inúmeros países e do sucesso eleitoral de governos progressistas na região, como reação ao esgotamento do tsunami de políticas neoliberais de austeridade. Venezuela (1999), Brasil (2002), Argentina (2003), Uruguai (2004), Bolívia (2005), Nicarágua (2006), Equador (2007) e Paraguai (2008) se juntaram a Cuba e impulsionaram pela primeira vez uma tentativa de integração regional por meio de organismos como a Aliança Bolivariana para as Américas (Alba), em 2004, a União das Nações Sul-americanas (Unasul), em 2008, e a Comunidade de Estados da América Latina e Caribe (Celac), em 2011. Estas plataformas visavam aumentar o comércio regional e a integração política. Seus avanços foram respondidos por crescentes agressões de Washington, que buscou <a href="https://therealnews.com/the-role-the-us-played-in-reversing-latin-americas-pink-tide">enfraquecer o processo</a>, ao tentar derrubar governos dos países-membros e dividir os blocos conforme os interesses da Casa Branca.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #403b99;"><strong>O tropeço do Brasil</strong></span></h3>
<p>Por seu tamanho e relevância, o Brasil foi um dos protagonistas destas articulações. Em 2009, voou ainda mais alto ao compor os BRICS, junto a Rússia, Índia, China e África do Sul, uma nova aliança com potencial para rearranjar as relações de forças do comércio e da política globais.</p>
<p>Mas o protagonismo brasileiro não agradou a Casa Branca, que sofisticou seus métodos de intervenção. Em vez de um golpe militar, o Brasil foi palco de uma bem-sucedida operação de “guerra híbrida”, combinando o uso do Judiciário, do Legislativo e da mídia (tradicional e redes sociais). Baseados em investigações sobre corrupção na Petrobras (estatal petroleira), criaram as condições políticas para o <em>impeachment</em> da presidenta Dilma Rousseff em 2016 e a prisão do ex-presidente Lula em 2018, quando liderava as pesquisas da eleição presidencial.</p>
<p>Graças ao <a href="https://theintercept.com/2019/06/09/brazil-archive-operation-car-wash/">vazamento</a> da conta de <a href="https://thewire.in/world/lula-de-silva-brazil-cia">Telegram</a> de <a href="https://www.conjur.com.br/2021-fev-08/deltan-disse-prisao-lula-presente-cia">um dos promotores</a>, temos provas sobre a ilegalidade do processo e sobre o papel do Departamento de Justiça dos EUA e do <a href="https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-publica/2020/07/01/o-fbi-e-a-lava-jato.htm">FBI</a> na operação que acusou injustamente os ex-presidentes. Algum tempo depois, a Suprema Corte anulou todos os processos. Mas o afastamento de Lula e Dilma já havia semeado o solo para a ascensão da extrema direita. Com a eleição de Jair Bolsonaro (2018), o Brasil abandonou a <a href="https://www.radiohc.cu/en/noticias/internacionales/188489-brazil-quits-unasur-after-receiving-pro-tempore-presidency">Unasul</a> e a <a href="https://www.reuters.com/article/us-brazil-diplomacy-celac-idUSKBN1ZF2U9">Celac</a>, e se mantém no BRICS apenas formalmente – como é também o caso da Índia –, enfraquecendo a perspectiva de alianças estratégicas do Sul Global contra a hegemonia estadunidense.</p>
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<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #403b99;"><strong>A maré está virando</strong></span></h3>
<p>Nos últimos anos, o continente latino-americano vive uma nova onda de governos progressistas e a ideia de integração regional volta a ter força. Após quatro anos sem uma reunião de cúpula, a <a href="https://elpais.com/mexico/2021-09-18/lopez-obrador-pide-la-integracion-comercial-y-el-fin-de-los-bloqueos-en-america-latina.html#?rel=mas">Celac se reuni</a><u>u novamente</u> em setembro de 2021, graças à liderança do presidente mexicano, López Obrador, e do argentino, Alberto Fernández. Com a vitória de <a href="https://www.reuters.com/world/americas/colombian-leftist-petro-leads-presidential-election-poll-2022-04-29/">Gustavo Petro</a> na Colômbia, em maio, e a provável vitória de <a href="https://www.theguardian.com/world/2022/apr/30/is-brazil-ready-for-the-next-incarnation-of-president-lula">Lula </a>em outubro, pela primeira vez em décadas, teremos as <a href="https://es.statista.com/grafico/26372/paises-latinoamericanos-con-el-mayor-pib-a-traves-del-tiempo/">quatro maiores economias</a> da região (<a href="https://www.statista.com/statistics/802640/gross-domestic-product-gdp-latin-america-caribbean-country/">Brasil, México, Argentina e Colômbia</a>) governadas pela centro-esquerda, notadamente apoiadores da integração latino-americana e caribenha. Em inúmeras entrevistas, Lula já defendeu o <a href="https://lula.com.br/integra-do-discurso-de-lula-na-camara-dos-deputados-do-mexico/">retorno do Brasil à Celac</a> e a retomada de uma postura ativa nos <a href="https://www.brasil247.com/blog/vitoria-de-lula-na-onu-incomoda-washington-porque-fortalece-geopolitica-dos-brics-x-eua-otan">BRICS</a>.</p>
<p>O Sul Global pode estar criando as condições para a retomada de um novo lugar na ordem mundial até o fim de 2022. A tentativa da Otan de criar uma grande aliança global contra a Rússia despertou reações contrárias em várias partes do <a href="https://www.theguardian.com/commentisfree/2022/mar/10/russia-ukraine-west-global-south-sanctions-war">Sul Global</a>. Mesmo governos que condenam a guerra (como Brasil, México, Argentina, África do Sul e Índia) não concordam em sancionar a Rússia unilateralmente, e preferem apoiar as negociações por uma solução pacífica. A ideia da retomada de um “<a href="https://www.nytimes.com/2022/04/24/world/asia/cold-war-ukraine.html">movimento dos não alinhados</a>”, inspirado pela histórica iniciativa lançada na Conferência de Bandung (Indonésia), em 1955, tem encontrado ressonância em inúmeros círculos.</p>
<p>Sua intenção é correta, pois buscam conter a escalada de tensões políticas globais, que são uma ameaça à soberania dos países e tendem a impactar negativamente a economia global. Na pior das hipóteses, elas podem nos arrastar para uma nova guerra mundial. O espírito de não confrontação, e de paz, de Bandung é urgente hoje.</p>
<p>Mas o “movimento dos não alinhados” surgiu como uma recusa dos países do “terceiro mundo” em escolher um dos lados na polarização entre EUA e URSS. Eles lutavam por sua soberania e pelo direito a ter relações com os países de ambos sistemas, sem que sua política externa fosse decidida em Washington ou Moscou.</p>
<p>Este não é o cenário atual. É somente o Eixo Washington-Bruxelas (e aliados) que exige alinhamento à sua chamada “<a href="https://mronline.org/2022/01/12/the-u-s-makes-a-mockery-of-treaties-and-international-law/">ordem internacional baseada em regras</a>”. Aqueles que não se alinham, sofrem com as sanções, aplicadas contra dezenas de países (devastando economias inteiras, como <a href="https://www.wola.org/2020/10/new-report-us-sanctions-aggravated-venezuelas-economic-crisis/">Venezuela</a> e <a href="https://www.jacobinmag.com/2021/07/us-policy-cuba-blockade-embargo-protests-rubio-history-war-covid-food-medicine-shortages">Cuba</a>), o confisco ilegal de centenas de bilhões de dólares em ativos (Venezuela, Irã, <a href="https://www.nytimes.com/2022/02/13/world/asia/afghanistan-funds-biden.html">Afeganistão</a>, <a href="https://www.globaltimes.cn/page/202203/1255112.shtml">Rússia</a>) as invasões militares que resultam em genocídios (Iraque, Síria, Líbia e Afeganistão) e o apoio a “<a href="https://www.scmp.com/news/china/diplomacy/article/3124567/china-and-russia-should-work-together-combat-colour">revoluções coloridas</a>” (da <a href="https://www.wsws.org/en/topics/event/2014-coup-ukraine">Ucrânia em 2014</a> ao Brasil em 2016). A exigência de “alinhamento” só vem do Norte Global, não da China, nem da Rússia.</p>
<p>A humanidade se defronta com desafios urgentes, como a desigualdade, a fome, a crise climática e a ameaça de novas pandemias. Para superá-los, alianças regionais no Sul Global precisam ser capazes de instituir uma nova multipolaridade na política global. Mas os suspeitos de sempre podem ter outros planos para a humanidade.</p>
<hr class="separator">
<p><a name="section_5"></a></p>
<h1><span style="color: #403b99;"><strong>A Índia tem um papel fundamental a desempenhar em uma possível nova ordem mundial</strong></span></h1>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #403b99;">Por Prasanth Radhakrishnan</span></h2>
<p> </p>
<p>Na primeira quinzena de abril de 2022, o ministro de Relações Exteriores da Índia, Subrahmanyam Jaishankar, <a href="https://www.businesstoday.in/latest/economy/story/indias-monthly-oil-purchase-from-russia-less-than-europes-in-an-afternoon-jaishankar-329481-2022-04-12">fez algumas observações reveladoras</a> durante uma coletiva de imprensa em Washington, D.C. Ele estava ao lado do secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, e do secretário de Defesa dos EUA, Lloyd Austin. Quando perguntado sobre a compra de petróleo russo pela Índia, Jaishankar respondeu: “Se você estiver analisando as compras de energia da Rússia, sugiro que sua atenção se concentre na Europa. Nós compramos alguma energia, que é necessária para a nossa segurança energética. Mas suspeito, olhando para os números, que nossas compras totais para o mês seriam menores do que a Europa compra em uma tarde”.</p>
<p>A declaração de Jaishankar não foi incomum. Ele e seus colegas <a href="https://www.business-standard.com/article/international/don-t-patronize-us-indian-envoy-at-un-to-dutch-ambassador-on-unga-voting-122050600161_1.html">têm pressionado contra as “preocupações” e “conselhos” do Ocidente</a> sobre a posição da Índia em relação à Rússia no conflito na Ucrânia, incluindo a <a href="https://www.ndtv.com/india-news/india-abstains-on-resolution-to-call-for-un-general-assembly-session-on-ukraine-2793567">recusa indiana</a> de <a href="https://thewire.in/diplomacy/un-general-assembly-india-abstain-resolution-criticise-russia-ukraine-invasion">votar contra o país nas Nações Unidas</a>, bem como as discussões da Índia com a Rússia para estabelecer um <a href="https://www.livemint.com/politics/policy/russia-india-explore-opening-alternative-payment-channels-amid-sanctions-11647371750761.html">mecanismo de pagamento</a> que contornaria as sanções impostas pelo Ocidente. <a href="https://indianexpress.com/article/world/india-united-states-daleep-singh-russia-ukraine-war-7847094/">As visitas</a> de <a href="https://www.gov.uk/government/news/foreign-secretary-in-india-as-part-of-diplomatic-push-on-ukraine">diplomatas ocidentais</a> à Índia não ajudaram a alterar as ações do governo indiano.</p>
<p>Sob o comando do primeiro-ministro Narendra Modi, a Índia tem se mantido firmemente no campo pró-EUA, <a href="https://thediplomat.com/2017/11/us-japan-india-and-australia-hold-working-level-quadrilateral-meeting-on-regional-cooperation/">tendo tomado parte na revitalização da aliança Quad</a> (Austrália, Índia, Japão e EUA) e assinado <a href="https://theprint.in/defence/the-3-foundational-agreements-with-us-and-what-they-mean-for-indias-military-growth/531795/">três acordos de defesa fundamentais com os Estados Unidos</a>. Esses movimentos sugerem que a Índia teve uma forte concordância com o foco estadunidense na contenção da China. Mas teria a Índia deixado de lado seu alinhamento com os Estados Unidos em função das suas relações com a Rússia? O não-alinhamento está de volta à mesa? As respostas a estas perguntas são muito mais complicadas do que parece na superfície.</p>
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<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #403b99;"><strong>Economia</strong></span></h3>
<p>A recente resposta da Índia pode ser explicada, em parte, simplesmente por razões econômicas. Para um governo lidando com uma inflação galopante, a <a href="https://www.livemint.com/news/india/russia-offers-oil-to-india-at-35-bbl-discount-from-pre-war-price-11648704105136.html">possibilidade de obter petróleo com descontos da Rússia</a> era <a href="https://www.financialexpress.com/economy/indias-russian-oil-purchases-since-ukraine-invasion-more-than-double-2021-total/2502873/">muito boa para ser negada</a>. Além disso, <a href="https://www.business-standard.com/article/economy-policy/russia-accounted-for-half-of-india-s-arms-imports-during-2016-20-122022600072_1.html">a Rússia continua sendo a maior fornecedora de armas da Índia</a>, apesar desta dependência aparentemente <a href="https://www.business-standard.com/article/economy-policy/russia-accounted-for-half-of-india-s-arms-imports-during-2016-20-122022600072_1.html">estar diminuindo</a> (importações de Israel e dos Estados Unidos <a href="https://warontherocks.com/2022/04/after-ukraine-where-will-india-buy-its-weapons/">aumentaram</a> nos últimos 30 anos). Um fato ainda menos notado é que a Índia <a href="https://www.thehindubusinessline.com/opinion/russia-ukraine-war-choking-fertiliser-supply/article65210842.ece">também depende da Rússia para obter fertilizantes vitais para seu setor agrícola</a>. Esses laços econômicos são muito lucrativos para serem cortados. Há precedentes para isso também. Afinal, a Índia não cedeu às pressões dos EUA, <a href="https://www.hindustantimes.com/india-news/s400-missile-system-deal-us-may-still-sanction-india-says-top-diplomat-101646281899828.html">nem sob ameaça de sanções</a>, quando esta tratava de adquirir o sistema de mísseis S-400 da Rússia. Geopoliticamente, a Rússia continua sendo fundamental se a Índia quiser se envolver com sua vizinhança imediata, onde anteriormente perdeu a janela em momentos-chave, como durante a crise no Afeganistão.</p>
<p>No entanto, atualmente, perspectivas puramente econômicas e geopolíticas talvez sejam inadequadas.</p>
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<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #403b99;"><strong>Autonomia estratégica</strong></span></h3>
<p>A abordagem da Índia no pós-Guerra Fria muitas vezes foi definida como autonomia estratégica, conceito que abrangeu agrupamentos tão diversos quanto a aliança BRICS de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul; a Organização de Cooperação de Xangai; e o Quad, composto pelos Estados Unidos, Índia, Japão e Austrália. No entanto, a política externa da Índia nas últimas décadas tem se caracterizado por uma abordagem mais transacional, buscando mais aproveitar o que faz sentido financeiro e estratégico em um determinado momento do que qualquer perspectiva de longo prazo.</p>
<p>As respostas do Ocidente e seus aliados à guerra na Ucrânia indicam que tal abordagem tem uma utilidade limitada. <a href="https://economictimes.indiatimes.com/news/international/world-news/russia-becomes-worlds-most-sanctioned-country/articleshow/90070310.cms">O regime de sanções</a>, a apreensão de bens, o <a href="https://qz.com/2135316/the-g-7-froze-all-of-russias-reserve-assets-in-their-countries/">congelamento de reservas</a> e o ataque à moeda russa não são meras respostas a um conflito armado. São métodos que foram usados como armas e <a href="https://inthesetimes.com/article/sanctions-war-economic-punishment-afghanistan-iran-cuba-venezuela">implementados, em um determinado momento, contra países</a> como Cuba, Venezuela e Irã, e constituem como um aviso para qualquer um que busque desafiar a hegemonia dos Estados Unidos e seus aliados. São um sinal de que qualquer contestação à atual ordem global será recebida com uma dura resposta. Hoje o alvo é a Rússia. Poderia ser a China amanhã? A Índia no dia seguinte?</p>
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<h3 style="margin:2em 0;"><strong>Um robusto não-alinhamento</strong></h3>
<p>O momento atual exige uma nova abordagem, e é aqui que a proposta de não-alinhamento surge. Embora não se trate de uma nova ideia, ela pode ter encontrado agora o seu momento de urgência.</p>
<p>A gênese do Movimento dos Não-Alinhados (NAM) está na tradição das <a href="https://www.telesurenglish.net/multimedia/The-Non-Aligned-Movement-was-Heart-of-Anti-Colonial-Struggle-20160711-0017.html">lutas anticoloniais</a>. Um emergente MNA, por exemplo, interviu criticamente nos movimentos de libertação nacional na África. Em contraste com o colonialismo, que se desenvolveu e continuou com suas atividades predatórias, o MNA foi reduzido a uma voz moral, e seus membros foram isolados e perseguidos pela ordem global neoliberal que surgiu a partir dos anos 1970.</p>
<p>Então, o que significa o não-alinhamento hoje, quando alguns homens e mulheres, com um golpe de caneta, podem apreender bilhões em reservas estrangeiras e barrar o comércio entre dois países soberanos? Está claro que para o não-alinhamento ser efetivo, ele não pode se restringir a relacionamentos transacionais ou meras posturas morais.</p>
<p>Também está claro que o não-alinhamento hoje precisa se basear na exigência da <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/texto-um-plano-para-salvar-o-mundo/">transformação da ordem mundial</a>, o que implica a rejeição da ditadura do Banco Mundial e do FMI e o impacto duradouro do endividamento, a abolição das sanções como ferramentas de guerra, e uma Organização das Nações Unidas mais igualitária. Isso requer a construção de estruturas para as quais já existem precedentes. As nações do BRICS tiveram a <a href="https://peoplesdispatch.org/2022/05/02/why-nonalignment-is-an-urgent-imperative-for-the-global-south/">ideia certa</a> com o Novo Banco de Desenvolvimento, anteriormente chamado de Banco de Desenvolvimento dos BRICS, que pode ser um modelo para futuros blocos. Organizações como a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) e a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) na <a href="https://peoplesdispatch.org/2022/05/10/why-latin-america-needs-a-new-world-order/">América Latina</a> deram exemplos de tais agrupamentos em ação.</p>
<p>Tais estruturas, no entanto, não são construídas isoladamente ou simplesmente porque alguns líderes o decretam. Sua fundação deve basear-se em uma estratégia de duas frentes em cada país. Uma frente deve ser uma ênfase renovada na autodeterminação no desenvolvimento econômico e na pesquisa científica e tecnológica. Isso talvez seja o que a Índia perdeu quando abandonou o planejamento central e acabou sendo uma fornecedora de recursos humanos qualificados e uma mera receptora de tecnologia e bens.</p>
<p>A outra frente há de ser o desenvolvimento de relações econômicas que beneficiam os pontos fortes de cada um dos países, e que possa ser alcançado apesar das diferenças políticas e diplomáticas entre eles. Blocos comerciais no Sudeste Asiático, África e América Latina nos forneceram sugestões do que isso poderia significar e quão profundamente isso pode afetar a ordem global.</p>
<p>Para a Índia e outros países do Sul Global, esse momento oferece enormes desafios e fornece vislumbres de um possível novo mundo. A Índia transcenderá sua abordagem de transição e abraçará essa possibilidade? Há poucas razões para esperar qualquer desejo de mudança da classe dominante – mas essa possibilidade é parte integrante da agenda dos movimentos populares.</p>
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<p><a name="section_6"></a></p>
<h1><span style="color: #403b99;"><strong>Europa na encruzilhada: entre o neoliberalismo e o desejo popular</strong></span></h1>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #403b99;">Por Nora García Nieves</span></h2>
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<p>“Nem guerra que nos destrua, nem paz que nos oprima”: este lema histórico do movimento feminista espanhol contra a guerra detém uma das chaves fundamentais para a construção de um horizonte de paz. Ele proclama que a paz não é apenas um cessar-fogo ou a rendição e o silêncio diante daqueles que nos impõem suas guerras. Mas sim que a paz é a construção das bases para relações baseadas no respeito mútuo e na cooperação.</p>
<p>Não se trata de uma ideia ingênua, nem algo impossível, porque se há vontade, há um caminho.</p>
<p>A construção deste caminho é a única alternativa possível para a sustentabilidade da vida das pessoas e do planeta. O contrário é a paz dos cemitérios, a perda de vidas humanas, um mundo partido em dois, em guerra permanente, armas nucleares e miséria para os povos.</p>
<p>Os que dizem defender a liberdade não querem que aqueles que não são como eles a desfrutem. O que se coloca é um “comigo ou contra mim”, ou, <a href="https://mobile.twitter.com/dw_espanol/status/1498829189482356739">nas palavras de Josep Borrell</a>, Alto Representante da União Europeia para Assuntos Exteriores e Política de Segurança, “lembraremos daqueles que não estão do nosso lado”.</p>
<p>A liberdade, portanto, não é simplesmente escolher entre duas opções, mas sim a possibilidade de criar opções próprias. Por isso é fundamental que frente a esta visão <em>mainstream</em> do mundo, que nos retira a capacidade de construir novos imaginários, articulemos um em que possamos entrar todas juntas. A guerra não é inevitável.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #403b99;"><strong>“A Europa é indefensável”</strong></span></h3>
<p>No contexto em que vivemos, com a invasão russa na Ucrânia, nos vemos cercados por uma amnésia e a sensação de estar de volta ao século 20. De novo a guerra, de novo o ódio, de novo o “nós” e os “outros”. É chocante que, diante da guerra na Ucrânia, a <a href="https://www.amnesty.org/en/documents/eur05/001/2014/en/">Fortress Europe</a> agora ache que é tão fácil fazer mudanças nas políticas e abrir suas portas para os brancos de olhos azuis. Essa é a mesma abordagem que, na resposta da Europa aos refugiados e migrantes de países pobres e devastados pela guerra no Sul Global, transformou o Mar Mediterrâneo em uma <a href="https://www.clarin.com/mundo/mediterraneo-gran-fosa-comun-inmigrantes-europa_0_FhU7-2XHT.html">vala comum</a>; que desrespeita <a href="https://www.theguardian.com/global-development/2021/may/05/revealed-2000-refugee-deaths-linked-to-eu-pushbacks">ilegalmente</a> os migrantes; e que <a href="https://www.nbcnews.com/news/world/frontex-europes-border-agency-fire-aiding-libyas-brutal-migrant-detent-rcna6778">prende</a> os requerentes de asilo em centros de detenção, sem acesso a advogados. No entanto, a guerra na Ucrânia mostrou que a UE é perfeitamente capaz de receber refugiados, mas para aqueles presos na Líbia – aquele país que destruímos com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) – não há rotas seguras, nem trens, nem ônibus gratuitos. Isso nos diz novamente que <em>se há vontade, há um caminho</em>.</p>
<p>Todas as pessoas têm direito de fugir da guerra e de refazer suas vidas, como os afegãos, curdos e sírios vivendo sob superlotação em Moria, o campo de refugiados na ilha de Lesbos, na Grécia, que pegou fogo durante a pandemia com <a href="https://www.bbc.com/news/world-europe-54082201">quase 13 mil pessoas dentro</a> e onde crianças de 10 anos <a href="https://tdh-europe.org/news/lesbos-prisoners-of-the-horror-camp-story-in-lillustre-magazine/7402">tentaram suicídio</a> por conta da violência, fome e superlotação. Parece que a História da Europa colonial persiste, com vidas que importam e vidas que não importam.</p>
<p>Mas há poucos anos, milhares de famílias espanholas fugiam de um fascismo que também perseguia “os outros”, como o povo cigano, pessoas da comunidade LGTBI ou defensores da República Espanhola. Como escreveu Aimé Césaire em seu <em>Discurso sobre o colonialismo</em>, “a Europa é indefensável”. O nível de contradições é tão alto que seria suicídio continuar nesse caminho em que falamos de paz e mandamos armas, falamos de democracia e apoiamos a censura, falamos de direitos humanos e desmantelamos a ONU, falamos de liberdade e fechamos os olhos ao fascismo. E no centro de tudo isso: a OTAN. Como se não bastasse entregar nossa soberania aos mercados, também a entregamos às guerras dos EUA.</p>
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<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #403b99;"><strong>“Não se come dignidade, mas um povo sem dignidade se ajoelha e acaba sem comer”</strong></span></h3>
<p>A famosa frase do dirigente <a href="https://elpais.com/opinion/2020-05-16/julio-y-el-hilo-rojo.html">Julio Anguita González</a>, ex-prefeito de Córdoba e influente líder político da esquerda espanhola, “não se come dignidade, mas um povo sem dignidade se ajoelha e acaba sem comer” ressoa na minha cabeça enquanto tento discernir o que está ocorrendo na Europa, ou, mais importante: o que é a Europa e como podemos torná-la o contrário do que é. Mas para entender o que é a Europa hoje, devemos recordar que os debates que construíram os consensos no sentido da criação desta União Europeia se deram em termos abstratos e aspiracionais, associando a modernidade ao neoliberalismo. Enquanto os povos absorviam uma identidade europeia vazia, se construíam os andaimes para uma economia independente do poder político e democrático.</p>
<p>Como a pequena sereia do conto popular de Hans Christian Andersen, vendemos nossas vozes por uma ideia de amor romântico. Sem a nossa voz, os construtores da UE preencheram o abismo entre o econômico e o social com instituições geradoras de desigualdades e um projeto europeu de segurança a serviço de Washington. As decisões da UE face à crise de 2008, à pandemia de Covid-19 ou à guerra na Ucrânia não poderiam estar mais longe das reais e cotidianas necessidades de segurança das pessoas. Com a pequena sereia, aprendemos que sem a nossa voz não pode haver amor verdadeiro.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #403b99;"><strong>A luta contra a amnésia</strong></span></h3>
<p>Aqueles de nós que lutam contra a amnésia sabem que não precisamos de alianças militares, porque a guerra é um sintoma terrível, mas não é a doença do mundo. Para erradicá-la, a Europa precisa urgentemente de um transplante de coração, de um coração antifascista e anticolonial, que seja responsável pelo mundo que constrói e pelas pessoas que vivem e chegam a ele. Então, como podemos tornar a Europa o oposto do que é? Em primeiro lugar, partindo do princípio de que não podemos adiar o abrir dos olhos, olhar para a Europa como ela é e enfrentar a tarefa mais difícil: construir o nosso próprio caminho. Com a memória, seremos capazes de enfrentar esse caminho, porque ele já foi tentado antes. Escutemos o passado e tornemos ele melhor. Esse caminho passa por Rosa Luxemburgo, o Movimento dos Países Não Alinhados, os BRICS, o pan-africanismo ou a luta das Mães da Praça de Maio. Toda essa história nos lembra que a luta para construir outro caminho de paz é cheia de coragem, e que quem lutou aprendeu que sua vontade também contava.</p>
<p>Porque <em>se há vontade, há um caminho.</em></p>
<p>Mais armas não nos salvarão. Nós mesmas o faremos.</p>
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<p><a name="section_7"></a></p>
<h1><span style="color: #403b99;"><strong>O não-alinhamento de Cuba: uma política internacional por paz e socialismo</strong></span></h1>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #403b99;">Por Manolo De Los Santos</span></h2>
<p> </p>
<p>Apesar do fato de que as cidades de Bandung, na Indonésia, e Havana, em Cuba, não poderiam estar mais distantes geograficamente – com cada uma delas localizadas em distantes ilhas em seus respectivos países e separadas por mais de 17 mil quilômetros – as duas cidades estiveram bastante próximas ideologicamente na imaginação de muitas pessoas no Sul Global. O <a href="https://www.globallearning-cuba.com/blog-umlthe-view-from-the-southuml/the-third-world-project-1948-79">Projeto do Terceiro Mundo</a>, nascido da colaboração contínua dos novos Estados recém independentes e suas lutas por libertação nacional, definiu e continua a definir a história dos movimentos por paz e não-alinhamento ainda hoje.</p>
<p>Quando a Conferência de Bandung começou, em 18 de abril de 1955, Fidel Castro ainda era um preso político na então chamada Ilha de Pinhos, ao sul de Havana. Ele cumpria uma sentença de 15 anos de prisão por ter organizado um ataque fracassado contra o Quartel Moncada, dois anos antes. Naqueles anos de prisão, durante os quais o jovem Fidel leu ferozmente, ele começou a solidificar suas ideias sobre os conceitos de soberania e independência, e como eles precisavam ser redefinidos no contexto da Guerra Fria, no qual o imperialismo desenvolvia novas abordagens no sentido de manter a subjugação de continentes inteiros.</p>
<p>À medida que Fidel e seus camaradas na prisão traçavam um novo caminho para Cuba, ficava claro que sua causa de libertação nacional precisaria estar intimamente conectada a um projeto mais amplo, visando o desenvolvimento e o trabalho por um não-alinhamento ativo para os povos do Terceiro Mundo.</p>
<p>Numa mesa redonda em Bandung, na Indonésia, os líderes do Terceiro Mundo lançavam uma luta global para <a href="https://www.globallearning-cuba.com/blog-umlthe-view-from-the-southuml/the-third-world-project-1948-79">reestruturar</a> o sistema mundial prevalecente naqueles tempos. A conferência foi lugar de convergência dos países socialistas e do Terceiro Mundo, e testemunhou uma crescente unidade entre essas nações nas lutas para aprofundar o processo de descolonização.</p>
<p>Na Conferência de Bandung, os governos independentes da Ásia e África levantaram a urgência de reviver a luta anticolonial e anti-imperialista e a necessidade de unir e solidificar cada vez mais os interesses e aspirações de seus povos. Enquanto isso, a vasta maioria dos governos da América Latina estavam contra os interesses e aspirações de seus povos, e profundamente submetidos ao imperialismo estadunidense sob o disfarce da Organização dos Estados Americanos (OEA), que já funcionava como o Ministério das Colônias do Departamento de Estado dos EUA, <a href="https://mondediplo.com/2020/05/13oas">como Fidel depois a apelidaria</a>.</p>
<p>Em 1959, a Revolução Cubana triunfou. Ela marcou um ponto transformador sem volta para a América Latina e suas relações com os Estados Unidos. O governo estadunidense decidiria não reconhecer o processo revolucionário na ilha. Em 1961, Cuba se tornou o foco da agressão norte-americana na região, levando a um bloqueio que hoje <a href="https://www.midwesternmarx.com/articles/the-blockade-against-cuba-turns-60-by-rosa-miriam-elizalde">já tem seis décadas</a>. Pela primeira vez na história, um movimento guerrilheiro tinha levado adiante uma revolução e confrontado o imperialismo dos Estados Unidos bem debaixo de seu nariz, desencadeando profundas transformações em sua estrutura socioeconômica, que se opunham aos interesses neocoloniais de dominação estadunidense.</p>
<p>Pouco tempo depois, Cuba se tornou o único país da América Latina a fazer parte do Movimento dos Não-Alinhados (MNA), criado na Iugoslávia em 1961. Fidel Castro e a Revolução Cubana começariam a ter <a href="https://www.e-ir.info/2020/12/19/cuban-cold-war-internationalism-and-the-nonaligned-movement/">um papel estratégico</a> na solidariedade internacionalista com as lutas de libertação anticoloniais e anti-imperialistas dos povos do Terceiro Mundo.</p>
<p>A Revolução Cubana estava plenamente consciente de que seu destino estava ligado ao dos povos da América Latina, Ásia e África. Como Fidel <a href="https://tinyurl.com/yu36wvwa">declarou</a> em 1962, “qual é a história de Cuba senão a história da América Latina? E qual é a história da América Latina senão a história da Ásia, África e Oceania? E qual é a história de todos esses povos senão a história da exploração mais implacável e cruel do imperialismo em todo mundo?”</p>
<p>Quando Cuba ingressou no MNA, em 1961, sua política externa estava em um estágio de definição estratégica. O compromisso de Cuba com o Terceiro Mundo tornou-se um pilar de sua estratégia internacionalista, seja por meio do Movimento dos Não-Alinhados ou da <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/nossa-historia/">Conferência Tricontinental</a>, ou ainda da posterior <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/newsletterissue/carta-semanal-31-2019-homenagem-a-ospaaal-a-organizacao-de-solidariedade-dos-povos-da-asia-africa-e-america-latina/">Organização de Solidariedade com os Povos de Ásia, África e América Latina</a> (OSPAAAL). Nas décadas seguintes, muitos dos movimentos de libertação nacional que se encontraram em Havana em janeiro de 1966, durante a primeira conferência da OSPAAAL, estariam no governo de novos estados que passaram a participar no Movimento dos Não-Alinhados, tornando-se este o novo paradigma do Terceiro Mundo.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #403b99;"><strong>Comprometidos com nossos próprios princípios de não-alinhamento</strong></span></h3>
<p>Na reunião de fundação do Movimento dos Não-Alinhados na Belgrado socialista (então capital da Iugoslávia) em 1961, Osvaldo Dorticós Torrado, então presidente de Cuba, afirmou que o não-alinhamento “não significa que não somos países comprometidos. Estamos comprometidos com nossos próprios princípios. E aqueles de nós que são amantes da paz, que lutam para afirmar sua soberania e alcançar a plenitude do desenvolvimento nacional, estão, finalmente, comprometidos em responder a essas aspirações transcendentes e não trair esses princípios”. Numa época em que muitos criticavam o aparente “alinhamento” de Cuba com a União Soviética e atacavam a premissa de que a libertação nacional estava vinculada a um projeto socialista, Dorticós, em seu discurso de abertura, durante a reunião de fundação do MNA, procurou definir melhor o não-alinhamento, afirmando que o momento exigia “mais do que formulações gerais, [e que] problemas concretos devem ser considerados”.</p>
<p>Essa definição ativa do não-alinhamento tem sido importante para a política externa de Cuba em sua relação com as forças mais progressistas do Terceiro Mundo. O pensamento do Movimento dos Não Alinhados, a partir de 1973, parece ter abandonado as ideias de “neutralidade” que permeavam o movimento desde sua criação e expandido suas atividades para as relações econômicas internacionais com muito mais força do que em seu período anterior, em defesa da necessidade de uma nova ordem econômica internacional.</p>
<p>Desde a queda da URSS e a ascensão dos Estados Unidos a uma posição de quase primazia, o MNA teve problemas para se adaptar às novas realidades e ficou à deriva. Nos últimos anos, no entanto, com o ressurgimento do regionalismo na América Latina e com o surgimento da integração eurasiana, a importância do não-alinhamento e do MNA está gradualmente sendo reconsiderada. Povos de todo o mundo resistem às táticas de coerção adotadas pelos Estados Unidos, que vêm tentando isolar os países que não se submetem à vontade de Washington. Isso ficou especialmente claro com a Cúpula das Américas da Organização dos Estados Americanos de junho de 2022, onde países como Bolívia e México ameaçaram <a href="https://www.usnews.com/news/politics/articles/2022-05-21/biden-risks-troubled-americas-summit-in-los-angeles">boicotar</a> a cúpula em Los Angeles se Cuba, Nicarágua e Venezuela fossem proibidas de participar. Como alternativa, a <a href="https://www.usnews.com/news/politics/articles/2022-05-21/biden-risks-troubled-americas-summit-in-los-angeles">Cúpula dos Povos pela Democracia</a> leva adiante o legado de Bandung e Havana, reunindo as vozes dos excluídos.</p>
<hr class="separator">
<p><a name="section_8"></a></p>
<h1><span style="color: #403b99;"><strong>Não basta rechaçar a guerra: o racismo impossibilita a paz</strong></span></h1>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #403b99;">Por Claudia Webbe</span></h2>
<p> </p>
<p>A guerra e o racismo sempre foram violenta e tragicamente inseparáveis. Durante séculos, os conflitos mais devastadores e brutais do mundo foram impulsionados pelas destrutivas ideias de superioridade racial e afirmações assassinas sobre diferenças étnicas.</p>
<p>A invasão russa na Ucrânia é abominável e profundamente preocupante: trata-se de um atropelo não provocado e injustificável, e uma terrível violação do direito internacional que terá consequências duradouras e trágicas. A agressão russa, o bombardeio militar e o envio de tropas à Ucrânia devem terminar imediatamente.</p>
<p>A guerra e a escalada militar não podem trazer nada de bom. Como <a href="https://peoplesdispatch.org/2022/02/26/vijay-prashad-war-itself-is-a-crime/">disse</a> o jornalista da <a href="https://globetrotter.media/author/vijayprashad/">Globetrotter</a>, Vijay Prashad, durante o <a href="https://peoplesforum.org/">Fórum dos Povos</a>, em fevereiro de 2022: “A guerra nunca é boa para os pobres. A guerra nunca é boa para os trabalhadores. A guerra é em si mesma um crime”. A comunidade internacional deve redobrar seus esforços para encontrar uma solução diplomática que garanta a paz e proteja a vida dos habitantes da Ucrânia e de outros países assolados pela guerra.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #403b99;"><strong>Racismo e guerras</strong></span></h3>
<p>A onipresença do apoio à Ucrânia – especialmente por parte dos Estados ocidentais – é um espelho que mostra como, pelo prisma do racismo, alguns conflitos, guerras e incidentes de sofrimento massivo são considerados mais importantes e merecedores de simpatia do que outros. Houve inúmeros casos de jornalistas que expressaram sua comoção pelo fato de que as espantosas imagens de sofrimento na Ucrânia vinham de um país europeu com uma população majoritariamente branca. Assim se expressou a correspondente da <em>NBC News</em> em Londres, Kelly Cobiella, que <a href="https://www.youtube.com/watch?v=CBWuDajHdCo">disse</a>: “Para dizer claramente, estes não são refugiados da Síria, são refugiados da vizinha Ucrânia… São cristãos, são brancos. São muitos similares [a nós]”. Ecoando essa referência explícita à raça, o ex-procurador-chefe adjunto da Ucrânia, David Sakvarelidze, <a href="https://www.youtube.com/watch?v=pU-8gKaUO_Y">declarou</a> à <em>BBC</em>: “É muito emocionante para mim, porque vejo que matam pessoas europeias com olhos azuis e cabelos loiros”.</p>
<p>Se contrastamos isso com a linguagem desumanizada que se utiliza para descrever os refugiados não-brancos, os solicitantes de asilo e vítimas de guerra (como a <a href="https://www.bbc.com/news/av/uk-politics-33714282">descrição</a> feita pelo primeiro-ministro britânico David Cameron dos refugiados e refugiadas como um “enxame”), evidencia-se o muito preocupante racismo, inerente à forma como a mídia, os líderes e o público de todo o mundo informam, discutem e respondem à crise. Essa omissão em relação aos não-brancos e não-europeus serve para descartar seu sofrimento. Deveríamos nos opor ao trauma injustificável das pessoas na Ucrânia com a mesma veemência com a qual nos opomos ao sofrimento das vítimas dos conflitos na Palestina, Síria, Iraque, Afeganistão e outros países que sofrem dos males da guerra.</p>
<p>Os meios de comunicação e o governo do Reino Unido devem reconhecer que todos os cenários de conflito merecem tanto nossa solidariedade quanto nossa compaixão. Portanto, o governo do Reino Unido deve garantir o ingresso e o refúgio para as pessoas deslocadas, refugiadas e solicitantes de asilo que chegam da Ucrânia, bem como de todos os demais cenários de conflito ao redor do mundo. A contínua hipocrisia do governo do Reino Unido fica evidente com o abominável <a href="https://news.un.org/en/story/2022/04/1116342">plano de processamento no exterior de Ruanda</a> e a <a href="https://bills.parliament.uk/bills/3023">Lei de Nacionalidade e Fronteiras de 2022</a>, uma lei “anti-refugiados” que prevê mudanças drásticas no sistema de asilo da Grã Bretanha. Estas políticas devem ser descartadas imediatamente.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #403b99;"><strong>A l</strong><strong>onga tradição de não-alinhamento</strong></span></h3>
<p>No dia 2 de março de 2022, as Nações Unidas <a href="https://news.un.org/en/story/2022/03/1113152">votaram</a> uma moção que condenava a invasão russa na Ucrânia. Esta foi apoiada por 141 dos 193 estados membros, e só <a href="https://theweek.com/russo-ukrainian-war/1010836/only-5-countries-including-north-korea-vote-against-un-resolution">cinco Estados</a> (Rússia, Bielorrússia, Coreia do Norte, Eritréia e Síria) votaram contra. Para entender por que 35 Estados – em sua imensa maioria antigas colônias no Sul Global – se abstiveram de votar, temos de tomar em conta a larga tradição do não-alinhamento sobre a qual se sustentam.</p>
<p>A <a href="https://www.globallearning-cuba.com/blog-umlthe-view-from-the-southuml/the-third-world-project-1948-79">Conferência de Bandung</a> de 1955 é considerada, justificadamente, uma das reuniões mais importantes da história da humanidade, por ser enormemente inspiradora para os povos anteriormente colonizados e representar uma forte afirmação do pan-africanismo e da solidariedade anti-imperialista. A conferência também contribuiu para popularizar o Movimento dos Não-Alinhados, um esforço para responder à rápida polarização do mundo durante a Guerra Fria, na qual duas grandes potências formaram blocos e embarcaram em uma política para atrair o resto do mundo às suas órbitas. Um desses blocos era o bloco comunista pró-soviético, unido sob o Pacto de Varsóvia, e outro era o grupo de países capitalistas pró-estadunidenses, muitos dos quais eram membros da OTAN. Milhões de civis morreram durante as guerras por procuração entre Estados Unidos e União Soviética na segunda metade do século 20, e a ameaça sempre presente da aniquilação nuclear pendia como uma espada de Dâmocles sobre todo o planeta.</p>
<p>O não-alinhamento nos orienta a um futuro mais seguro e pacífico. Em 1961, baseando-se nos princípios acordados na Conferência de Bandung de 1955, se estabeleceu formalmente o Movimento dos Não-Alinhados em Belgrado, então parte da Iugoslávia. Na atualidade, o Movimento dos Não-Alinhados inclui 120 países, que representam <a href="https://espace-mondial-atlas.sciencespo.fr/en/topic-regulatory-efforts/focus-6F02-EN-contemporary-aspects-of-nonalignment.html">quase dois terços</a> dos membros das Nações Unidas, onde vive 55% da população mundial. Kwame Nkrumah, primeiro presidente de Gana e líder do Movimento dos Não-Alinhados, <a href="https://www.nytimes.com/1960/11/21/archives/ghana-tells-us-she-is-a-neutral-nkrumah-assures-envoy-in-accra-his.html">disse</a>: “não olhamos nem ao Leste nem ao Oeste; olhamos para a frente”.</p>
<p>Apesar do Movimento dos Não-Alinhados ter se desenvolvido durante a geopolítica da Guerra Fria, ele foi fundado e perdurou sobre o reconhecimento de que nada de bom pode sair da guerra e que os conflitos violentos, o colonialismo e o racismo sempre estiveram estreitamente vinculados. Por exemplo, dos 35 países que se abstiveram de votar no 2 de março, <a href="https://www.brookings.edu/blog/africa-in-focus/2022/03/09/figure-of-the-week-african-countries-votes-on-the-un-resolution-condemning-russias-invasion-of-ukraine/">17 eram nações africanas</a>, que durante séculos sofreram a extração violenta do colonialismo. A abstenção não foi, de forma alguma, um reflexo do apoio à invasão russa. Foi uma afirmação do pacifismo, feita por países que durante séculos viveram debaixo dos abomináveis resultados racistas da guerra colonial.</p>
<p>Em todo o mundo, os casos de assassinatos e atroz violência pelas mãos do Estado britânico foram apagados de nossa imperial “memória do presente”. É chegado o momento dos antigos Estados coloniais se desculparem e levarem a sério a dívida histórica que têm com os países, comunidades e pessoas que suportaram suas crueldades. Um Movimento dos Não-Alinhados revitalizado, guiado pelos princípios do pacifismo, da justiça e da cooperação internacional, poderia ajudar a equilibrar a balança da política mundial, distanciando-a das guerras racistas e a aproximando de um futuro de paz.</p>
<hr class="separator">
<p><a name="section_9"></a></p>
<h1><span style="color: #403b99;"><strong>Por que a paz e o desarmamento estão no coração do não-alinhamento?</strong></span></h1>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #403b99;">Por Kate Hudson</span></h2>
<p> </p>
<p>Nunca houve maior necessidade de um novo equilíbrio global, do rechaço à guerra, à exploração e à agressão das grandes potências do que agora que nosso mundo se aproxima da catástrofe da guerra nuclear. Hoje, mais do que nunca, é necessário rechaçar a brutal agenda unipolar dos Estados Unidos, a distribuição do mundo entre potências hostis e a supressão dos direitos de muitos em função do interesse de uns poucos. Isso se vê mais claramente quando tratamos da posse de armas nucleares: somente nove Estados possuem essas armas de destruição massiva por excelência, e, apesar de serem tão poucos, podem manter o resto do mundo em xeque com seu terror nuclear.</p>
<p>A luta por um mundo genuinamente multipolar, alinhado só com os povos do mundo e não com blocos militares, tem a paz e o desarmamento em seu centro: isso é tão verdadeiro agora como foi há 60 anos, quando foi fundado o Movimento dos Não-Alinhados (MNA). Além da oposição à colonização e à submissão econômica, os fundadores do Movimento defendiam a autodeterminação e a igualdade nas relações entre os Estados, e também coincidiam em sua oposição aos blocos militares, seu compromisso com a paz mundial e uma defesa muito firme do desarmamento nuclear mundial.</p>
<p>Praticamente todo o Sul Global está auto-organizado em zonas livres de armas nucleares reconhecidas internacionalmente, proposta que tem suas origens na década de 1960. Em 1968, 20 países da América Latina estabeleceram uma zona livre de armas nucleares, renunciando à aquisição e transferência delas em seus territórios. Os firmantes desse tratado, o Tratado de Tlatelolco, também aceitaram a jurisdição da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) sobre suas instalações nucleares. Em troca, os Estados com armas nucleares concordaram em não utilizar – nem ameaçar utilizar – armas nucleares contra nenhum dos Estados firmantes. O Tratado de Rarotonga foi assinado em 1985 e proibiu os dispositivos explosivos nucleares no Pacífico Sul, assim como os testes e uso de tecnologias de explosivos nucleares. A zona livre de armas nucleares da África se formalizou em 1996, com a assinatura do Tratado de Pelindaba, após a renúncia, por parte da África do Sul, das armas nucleares que tinha desde a época do <em>apartheid</em>.</p>
<p>Tivemos um forte desenvolvimento regional em matéria de desarmamento, liderado pelo Sul Global, mas também houve – e segue havendo – tentativas de globalizar estas propostas. O Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), negociado durante a década de 1960, mas que entrou em vigor em 1970, foi impulsionado, em grande parte, pela Índia, para controlar a proliferação e a expansão dos arsenais. Depois, tanto a Índia quanto o Paquistão se negaram a aderir ao TNP, afirmando que ele consagrava em lei aqueles que tinham e aqueles que não tinham armas nucleares, um sistema de dois pesos e duas medidas. Lamentavelmente, ambos países testaram e desenvolveram seus próprios arsenais. Mas seu ponto era correto: os Estados com armas nucleares não cumpriram com suas obrigações de desarmamento segundo o TNP. De fato, posteriormente trataram de reinterpretar o TNP como se este lhes permitisse manter suas armas nucleares.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #403b99;"><strong>O afastamento do Ocidente</strong></span></h3>
<p>Nos primeiros anos do século 21, no contexto da chamada “guerra contra o terror”, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, e o primeiro-ministro do Reino Unido, Tony Blair, tentaram alterar o marco jurídico que trata das armas nucleares. Buscaram anular a exigência do desarmamento, centrando-se em evitar que mais países adquirissem armas nucleares. Seu objetivo era reinterpretar o TNP para legitimar a posse de armas por parte dos Estados nucleares existentes, ao mesmo tempo que o utilizavam como justificativa para a confrontação com os Estados acusados de proliferação. Afirmavam que era necessário um novo documento que refletisse as drásticas mudanças nas condições da segurança internacional, incluindo os atentados do 11 de setembro de 2001.</p>
<p>A realidade era que os Estados Unidos e o Reino Unido estavam fazendo pesquisas para novas armas (que estariam dispostos a usar inclusive contra Estados que não tivessem armas nucleares) ao mesmo tempo que desenvolviam armas para enfrentar Estados mais poderosos, como a Rússia e a China. Este foi o verdadeiro motor da proliferação nuclear, junto com a determinação dos Estados Unidos de converter Israel no único Estado com armas nucleares do Oriente Médio.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #403b99;"><strong>Um novo caminho</strong></span></h3>
<p>Foi a frustração com o NPT que levou à fundação, em 2013, da Iniciativa Humanitária sobre as consequências das armas nucleares. Essa iniciativa se materializou no Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares (TPAN), que entrou em vigor em janeiro de 2021.</p>
<p>O tratado pela primeira vez torna as armas nucleares ilegais, proibindo o desenvolvimento, posse e uso de armas nucleares por parte dos Estados participantes. Atualmente, o tratado conta com 61 Estados, que estão legalmente obrigados a cumpri-lo, e muitos outros estão em processo de adesão. Os países do Sul Global estão na vanguarda da concretização deste tratado; entendem que qualquer uso de armas nucleares por parte dos estados do Norte Global afetará de forma desastrosa suas próprias populações, terras e produção de alimentos. Sustentam o que sempre foi sua postura: qualquer posse de armas nucleares é inaceitável; não há garantias quando se trata deste tipo de arma.</p>
<p>Sem dúvida, é notável que o tratado imponha aos firmantes a obrigação de ajudar as vítimas do uso e testes de armas nucleares. Ele exige a reparação de terrenos contaminados pelos testes nucleares. Também reconhece explicitamente o impacto desproporcional das atividades de armamento nuclear sobre os povos indígenas, dadas as escolhas feitas pelas potências nucleares para seus locais de teste. Por exemplo, muitos dos testes do Reino Unido foram feitos nos territórios dos Primeiros Povos Australianos em Emu Field e Maralinga, contaminando amplas zonas do sul da Austrália. A França também realizou testes nucleares em suas antigas colônias, incluindo 17 na Argélia e 193 na Polinésia Francesa. Estes erros históricos devem ser corrigidos.</p>
<p>As iniciativas da maior parte do mundo pela paz e o desarmamento demonstram que outro mundo é possível. A guerra é terrível. Em todas as guerras, os povos sofrem, e as consequências afetam várias gerações. O futuro de inúmeras pessoas é destruído, como vemos na Ucrânia, Afeganistão, Palestina, Iêmen, Líbia, Síria, Iraque e Sahel. As prioridades da humanidade são a luta contra a desigualdade e a pobreza, o enfrentamento à crise climática e a ampliação do acesso à saúde e às vacinas. O gasto maciço dos Estados na produção e destruição militar é um desperdício criminoso dos recursos. As alianças militares não resolvem nossos problemas, mas o diálogo, a desmilitarização e a cooperação internacional sim.</p>
<hr class="separator">
<p><a name="section_10"></a></p>
<h1><span style="color: #403b99;"><strong>2 trilhões de dólares para a guerra, 100 bilhões para salvar o Planeta</strong></span></h1>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #403b99;">Por Murad Qureshi</span></h2>
<p> </p>
<p>Entre o fim de abril e o começo de maio, o sul da Ásia foi afetado pelos terríveis impactos do aquecimento global. As temperaturas <a href="https://www.npr.org/2022/05/03/1096085028/climate-scientists-say-south-asias-heat-wave-120f-is-a-sign-of-whats-to-come">alcançaram quase 50 graus celsius</a> em algumas cidades da região. Essa alta nas temperaturas veio junto de perigosas enchentes no nordeste da Índia e em Bangladesh, com rios transbordando em inundações repentinas que <a href="https://reliefweb.int/report/bangladesh/flash-flooding-northeast-bangladesh-sylhet-sunamganj-and-netrokona-district-briefing-note-19062022">atingiram lugares como Sunamganj</a>, em Sylhet, no Bangladesh.</p>
<p>O diretor do <a href="https://www.iied.org/users/saleemul-huq#:~:text=Saleemul%20Huq%20is%20the%20director,the%20perspective%20of%20developing%20countries.">Centro Internacional de Mudanças Climáticas e Desenvolvimento</a>, Saleemul Huq, é de Bangladesh. Ele é um veterano das negociações sobre mudanças climáticas da ONU. Quando Huq leu um tuíte de Marianne Karlsen, co-presidente do Comitê de Adaptação da ONU, que <a href="https://twitter.com/LossandDamage/status/1537434616809725953">dizia</a> que “mais tempo é preciso para alcançarmos um acordo” sobre as negociações sobre o financiamento de perdas e danos, ele <a href="https://twitter.com/SaleemulHuq/status/1537437290263216128">respondeu</a>: “a única coisa que nos falta é o tempo! Os impactos das mudanças climáticas já estão acontecendo, e os pobres estão sofrendo perdas e danos devido às emissões dos ricos. Conversas não são mais substitutas aceitáveis para a ação (dinheiro!)”. O comentário de Karlsen se referia ao <a href="https://time.com/6188699/loss-damages-blocked-from-cop27-agenda/">lento processo de negociação</a> sobre a agenda de “perdas e danos” da 27ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2022, ou COP27, a ser realizada em Sharm el-Sheikh, no Egito, em novembro desse ano.</p>
<p>Em 2009, durante a COP15, os países desenvolvidos acordaram colaborar com um fundo de assistência para a adaptação de <a href="https://www.unep.org/news-and-stories/story/what-does-cop26-mean-adaptation">100 bilhões de dólares</a>, que deveria ser pago até 2020. Esse fundo tinha o objetivo de ajudar países do Sul Global a mudar sua dependência em fontes de emissão de carbono para fontes de energia renováveis, e para adaptar suas realidades à catástrofe climática. Na altura da COP26, realizada em Glasgow em novembro de 2021, no entanto, os países desenvolvidos não tinham cumprido com esse compromisso. Os 100 bilhões de dólares podem parecer um financiamento modesto, mas são muito menos do que o “<a href="https://news.un.org/en/story/2021/06/1094762">Desafio de Financiamento Climático de um Trilhão de Dólares</a>” que será necessário para garantir uma ação climática abrangente.</p>
<p>Os estados mais ricos – liderados pelo Ocidente – não só se recusaram a financiar seriamente essa adaptação, como também renegaram os acordos originais, como o <a href="https://unfccc.int/kyoto_protocol">Protocolo de Kyoto</a> (1997), um importante passo para mitigar a crise climática que o Congresso dos EUA se <a href="https://edition.cnn.com/2013/07/26/world/kyoto-protocol-fast-facts/index.html">recusou</a> a ratificar. Os Estados Unidos mudaram as metas de redução de suas emissões de metano e se recusaram a contabilizar a <a href="https://watson.brown.edu/research/2019/pentagon-fuel-use-climate-change-and-costs-war">enorme produção</a> de emissões de carbono das Forças Armadas dos EUA.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #403b99;"><strong>O dinheiro da Alemanha vai para a guerra, não para o clima</strong></span></h3>
<p>A Alemanha abriga o secretariado da Convenção das Nações Unidas sobre Mudança Climática. Em junho, como prelúdio da COP27, a ONU realizou uma <a href="https://unfccc.int/SB56">conferência</a> em Bonn sobre as mudanças climáticas. As conversas terminaram em choques sobre o financiamento do que se conhece como “perdas e danos”. A União Europeia bloqueou sistematicamente todos os debates sobre compensações. Eddy Pérez, da Rede de Ação pelo Clima do Canadá, <a href="https://climatenetwork.org/2022/06/16/eu-hypocrisy-as-a-climate-champion-exposed-at-bonn-climate-conference%EF%BF%BC/">declarou</a>: “consumidos por seus interesses estreitos, os países ricos e em particular blocos como a União Europeia vieram para a Conferência do Clima de Bonn para bloquear, atrasar e minar os esforços dos povos e comunidades nas linhas de frente no enfrentamento a perdas e danos causados por combustíveis fósseis”.</p>
<p>Sobre a mesa estava a hipocrisia de países como a Alemanha, que reivindica ser um líder nessas questões, mas vem de fato adquirindo combustíveis fósseis no exterior e gastando cada vez mais dinheiro em suas forças armadas. Ao mesmo tempo, esses países negaram o apoio a países em desenvolvimento que enfrentam a devastação do aumento do nível do mar e de supertempestades causadas pelas mudanças climáticas.</p>
<p>Após as eleições alemãs de setembro de 2021, havia esperança de que a nova coalizão dos social-democratas com o Partido Verde levantaria a agenda verde. No entanto, o chanceler alemão Olaf Scholz <a href="https://www.ft.com/content/a9045654-f378-4f42-a012-e35f9e43b135">prometeu</a> 100 bilhões de euros para as forças armadas, o que o repórter Guy Chazan do <em>Financial Times</em> descreveu como “o maior aumento nos gastos militares do país desde o fim da Guerra Fria”. O chanceler Scholz também se comprometeu a “[gastar] mais de 2% do PIB do país nas forças armadas”. Isso significa mais dinheiro para os militares e menos dinheiro para a mitigação dos problemas climáticos e para a transformação verde.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #403b99;"><strong>As forças armadas e a catástrofe climática</strong></span></h3>
<p>O dinheiro que está sendo engolido pelos estabelecimentos militares ocidentais não só se afasta de qualquer gasto climático, mas também promove uma maior catástrofe climática. As Forças Armadas dos EUA são as maiores poluidoras institucionais do planeta. A manutenção de suas mais de 800 bases militares ao redor do mundo, por exemplo, <a href="https://worldbeyondwar.org/climate-collapse-and-the-responsibility-of-the-military/">consome</a> 395 mil barris de petróleo diariamente. Em 2021, os governos do mundo <a href="https://www.sipri.org/media/press-release/2022/world-military-expenditure-passes-2-trillion-first-time#:~:text=(Stockholm%2C%2025%20April%202022),2021%2C%20to%20reach%20%242113%20billion.">gastaram</a> 2 trilhões de dólares em armas, com os países líderes sendo os mais ricos (assim como os mais hipócritas no debate climático). O dinheiro está disponível para a guerra, mas não para lidar com a catástrofe climática.</p>
<p>A forma como as armas foram despejadas no conflito na Ucrânia faz muitos de nós refletir. O prolongamento dessa guerra <a href="https://www.washingtonpost.com/climate-environment/2022/06/13/climate-disasters-collide-with-ukraine-war-deepen-hunger-crisis/">colocou mais 49 milhões de pessoas</a> de 46 países em risco de fome, de acordo com o <a href="https://www.fao.org/documents/card/en/c/cc0364en/">relatório “Hunger Hotspots”</a> das agências das Nações Unidas, como resultado de condições climáticas extremas e devido aos conflitos. Os conflitos e a violência organizada foram as principais fontes de insegurança alimentar na África e no Oriente Médio, concretamente no norte da Nigéria, no centro do Sahel, no leste da República Democrática do Congo, Etiópia, Somália, Sudão do Sul, Iêmen e Síria. A guerra na Ucrânia agravou a crise alimentar ao fazer os preços de produtos agrícolas subirem. A Rússia e a Ucrânia representam conjuntamente cerca de 30% do comércio mundial de trigo. Portanto, quanto mais durar a guerra na Ucrânia, mais “focos de fome” crescerão, levando a maior concentração de insegurança alimentar para além da África e do Oriente Médio.</p>
<p>Embora já se tenha celebrado uma reunião da COP no continente africano, outra ocorrerá no final deste ano. Abidjã, na Costa do Marfim, sediou a Convenção das Nações Unidas de Luta contra a Desertificação em maio de 2022, e depois Sharm el-Sheikh, Egito, acolherá a Conferência das Nações Unidas sobre a Mudança Climática, em novembro de 2022 (COP27). Se tratam de fóruns importantes para que os estados africanos ponham sobre a mesa os grandes danos causados pela catástrofe climática em algumas partes do continente.</p>
<p>Quando os representantes dos países de todo o mundo se reunirem em Sharm el-Sheikh, no Egito, em novembro de 2022, para participarem da COP27, escutarão os representantes ocidentais falando de mudanças climáticas, fazendo promessas, para logo depois seguirem fazendo todo o possível para seguir agravando a catástrofe. O que vimos em Bonn é um prelúdio do que será um fiasco em Sharm el-Sheikh.</p>
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<h1><span style="color: #403b99;"><strong>Notas sobre os colaboradores</strong></span></h1>
<p> </p>
<div class="footnotes">
<p><strong>Jeremy Corbyn</strong> é membro do parlamento britânico, ex-líder do Partido Trabalhista e fundador do <a href="https://thecorbynproject.com/">Peace and Justice Project</a>.</p>
<p><strong>Claudia Webbe</strong> representa Leicester East no parlamento do Reino Unido. Você pode segui-la no <a href="https://www.facebook.com/claudiaforLE/">Facebook</a> e no Twitter <a href="https://twitter.com/ClaudiaWebbe">@ClaudiaWebbe</a>.</p>
<p><strong>Vijay Prashad</strong> é historiador, editor e jornalista indiano, articulista e correspondente-chefe da Globetrotter e editor-chefe da LeftWord Books. É diretor do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social e membro sênior não residente do Instituto de Estudos Financeiros de Chongyang, Universidade Renmin (China). Escreveu mais de 20 livros, incluindo <em>The Darker Nations </em>e <em>The Poorer Nations</em>. Seus últimos livros são <em>Struggle Makes Us Human: Learning from Movements for Socialism</em> e <em>The Withdrawal: Iraq, Libya, Afghanistan, and the Fragility of U.S. Power</em>, com Noam Chomsky.</p>
<p><strong>Roger McKenzie</strong> é repórter do <a href="https://morningstaronline.co.uk/author/roger-mckenzie">Morning Star</a> e secretário-geral de <a href="https://liberationorg.co.uk/about-us/">Libe</a><a href="https://liberationorg.co.uk/about-us/">ration</a>, uma das mais antigas organizações de direitos humanos do Reino Unido.</p>
<p><strong>Nontobeko Hlela</strong> foi a primeira secretária (política) do Alto Comissariado da África do Sul em Nairobi, no Quênia. Ela atualmente trabalha como pesquisadora para o escritório sul-africano do <a href="https://dev.thetricontinental.org/south-africa/">Instituto Tricontinental de</a> <a href="https://dev.thetricontinental.org/south-africa/">Pesquisa Social</a></p>
<p><strong>Marco Fernandes</strong> é pesquisador do <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/">Instituto Tricontinental de Pesquisa</a> <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/">Social</a>. É membro da campanha <a href="https://nocoldwar.org/">No Cold War</a> e é co-fundador e co-editor do Notícias da China (<a href="https://dongshengnews.org/pt/">Dongsheng</a>). Mora em Xangai.</p>
<p><strong>Prasanth Radhakrishnan </strong>é jornalista da Newsclick e do Peoples Dispatch.</p>
<p><strong>Nora García Nieves</strong> é membro da organização <a href="https://nocoldwar.org/">No Cold War</a>, vive em Madrid, onde desenvolve o seu ativismo na luta feminista, internacionalista e cultural.</p>
<p><strong>Manolo De Los Santos</strong> é co-diretor executivo do <a href="https://peoplesforum.org/">People’s Forum</a> e pesquisador do <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/">Instituto Tricontinental de Pesquisa Social</a>. Coeditou, mais recentemente, <em>Viviremos: Venezuela vs. Guerra Híbrida</em> (<a href="https://mayday.leftword.com/catalog/product/view/id/22050">LeftWord Books</a><a href="https://mayday.leftword.com/catalog/product/view/id/22050">/</a><a href="https://1804books.com/products/viviremos-venezuela-vs-hybrid-war">1804</a> <a href="https://1804books.com/products/viviremos-venezuela-vs-hybrid-war">Books</a>, 2020) e <em>Comrade of the Revolution: Selected Speeches of Fidel Castro</em> <a href="https://mayday.leftword.com/catalog/product/view/id/22524">(</a><a href="https://mayday.leftword.com/catalog/product/view/id/22524">LeftWord Books</a><a href="https://mayday.leftword.com/catalog/product/view/id/22524">/</a><a href="https://1804books.com/products/comrade-of-the-revolution-selected-speeches-of-fidel-castro">1804 Books</a><a href="https://1804books.com/products/comrade-of-the-revolution-selected-speeches-of-fidel-castro">,</a> 2021). É co-coordenador da <a href="https://peoplessummit2022.org/">Cúpula dos</a> <a href="https://peoplessummit2022.org/">Povos pela Democracia</a>.</p>
<p><strong>Kate Hudson</strong> é secretária-geral da <a href="https://cnduk.org/">Campanha para o Desarmamento</a> <a href="https://cnduk.org/">Nuclear</a>. É uma destacada ativista antinuclear e antibélica tanto no Reino Unido como a nível internacional.</p>
<p><strong>Murad Qureshi</strong> é um antigo membro da Assembleia de Londres e ex-presidente da Stop the War Coalition.</p>
</div>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Os Estados Unidos em busca de uma Nova Guerra Fria: uma perspectiva socialista</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/estudos-sobre-dilemas-contemporaneos-1-os-estados-unidos-em-busca-de-uma-nova-guerra-fria/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[ariana]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 13 Sep 2022 03:00:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dilemas contemporâneos]]></category>
		<category><![CDATA[United States]]></category>
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		<category><![CDATA[Cambio Climático]]></category>
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					<description><![CDATA[Em nossa colaboração com o Projeto Paz e Justiça, Globetrotter e Morning Star, exploramos as realidades da guerra e as possibilidades de não alinhamento e paz.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><b>Sumário</b></span></h3>
<ol start="1">
<li><a href="#section_1">Introdução</a> Vijay Prashad</li>
<li><a href="#section_2">O que motiva os EUA a aumentarem a ofensiva militar internacional?</a> John Ross (Luo Siyi)</li>
<li><a href="#section_3">Quem está levando os Estados Unidos à guerra?</a> Deborah Veneziale</li>
<li><a href="#section_4">“Notas sobre exterminismo” para os movimentos de ecologia e paz do século 21</a> John Bellamy Foster</li>
</ol>
<p> </p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-64189 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/09/mrs_logos.png" alt="Tricontinental Institute, Monthly Review Press and " width="600" height="51" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/09/mrs_logos.png 600w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/09/mrs_logos-300x26.png 300w" sizes="auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px"></p>
<p> </p>
<p><a name="section_1"></a></p>
<h1 class="mrst_section_title mrst_section_title_1"><span style="color: #ba2025;"><strong>Introdução</strong></span></h1>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #ba2025;">Vijay Prashad</span></h2>
<p> </p>
<p>Na reunião do Fórum Econômico Mundial em Davos (Suíça), em 23 de maio de 2022, o ex-secretário de Estado estadunidense Henry Kissinger fez algumas observações sobre a Ucrânia que foram ao ponto. Em vez de ser pego “no clima do momento”, disse Kissinger, o Ocidente — liderado pelos Estados Unidos — precisa permitir um acordo de paz que satisfaça os russos. “Buscar a guerra além [deste] ponto não seria [algo] sobre a liberdade da Ucrânia, mas uma nova guerra contra a própria Rússia”, comentou Kissinger. A maioria das reações do <em>establishment</em> da política externa ocidental foi revirar os olhos e rejeitar os comentários de Kissinger. Kissinger, que não é nenhum pacifista, no entanto, apontou não só para o grande perigo da escalada em direção ao estabelecimento de uma nova cortina de ferro ao redor da Ásia, mas também para uma possível guerra aberta e letal entre o Ocidente e a Rússia e a China. Esse tipo de resultado impensável foi demais, mesmo para Henry Kissinger, cujo chefe, o presidente Richard Nixon, falava frequentemente da “Teoria do Louco” nas relações internacionais; Nixon disse a seu chefe de gabinete, Bob Haldeman, que ele tinha “a mão no botão nuclear” para assim amedrontar Ho Chi Minh e forçá-lo a ceder.</p>
<p>Durante a invasão ilegal do Iraque pelos EUA em 2003, falei com um membro sênior do Departamento de Estado estadunidense que me disse que a teoria predominante em Washington equivalia a um simples <em>slogan</em>: dor de curto prazo para ganho de longo prazo. Ele explicou que a visão geral era de que as elites do país estão dispostas a tolerar a dor de curto prazo para outros países – e talvez dos trabalhadores dos Estados Unidos, que poderiam passar por dificuldades econômicas devido às perturbações e carnificinas criadas pela guerra. Esse preço, no entanto, resultará, se tudo correr bem, em ganhos de longo prazo, pois os Estados Unidos conseguiriam manter o que tem procurado conservar desde o fim da Segunda Guerra Mundial: sua primazia. Se tudo correr bem foi a premissa que me fez tremer enquanto ele falava, mas o que me abalou igualmente foi a insensibilidade sobre quem deve suportar a dor e quem irá desfrutar do ganho. Foi também cinicamente repetido que valia a pena o preço que o povo iraquiano e os soldados da classe trabalhadora dos EUA pagariam (com a vida inclusive), desde que grandes empresas petrolíferas e financeiras pudessem desfrutar das conquistas de um Iraque derrotado. Essa atitude — dor a curto prazo, ganho a longo prazo — é a alucinação definitiva das elites dos Estados Unidos, que não estão dispostas a tolerar o projeto de construção da dignidade humana e da longevidade da natureza.</p>
<p>Dor a curto prazo, ganho a longo prazo define a perigosa escalada dos Estados Unidos e seus aliados ocidentais contra a Rússia e a China. O que é impressionante sobre a postura dos Estados Unidos é que busca evitar um elemento histórico que parece inevitável: o processo de integração eurasiano. Após o colapso do mercado imobiliário dos EUA e a maior crise de crédito no setor bancário ocidental, o governo chinês buscou, ao lado de outros países do Sul Global, construir plataformas que não dependessem dos mercados da América do Norte e da Europa. Essas plataformas incluíram a criação dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) em 2009 e o anúncio do “Um Cinturão, Uma Rota” (posteriormente, “Iniciativa do Cinturão e Rota” – ICR -, ou a “Nova Rota da Seda”), em 2013. O fornecimento de energia russa e suas enormes explorações metálicas e minerais, ao lado da capacidade industrial e tecnológica chinesa, atraíram muitos países a se associarem à ICR (a exportação russa de energia está implícita nesse processo), independente de sua orientação política. Esses países incluíam Polônia, Itália, Bulgária e Portugal. A Alemanha é hoje o maior parceiro comercial da China no comércio de mercadorias.</p>
<p>O fato histórico da integração eurasiana ameaça a primazia dos Estados Unidos e das elites atlânticas. É essa ameaça que impulsiona a perigosa tentativa dos Estados Unidos de usar qualquer meio para “enfraquecer” tanto a Rússia quanto a China. Velhos hábitos continuam a dominar Washington, que há muito busca primazia nuclear para negar a teoria da distensão [<em>détente</em>]. Os Estados Unidos desenvolveram uma capacidade nuclear e uma postura que lhe permitiria destruir o planeta para manter sua hegemonia. As estratégias para enfraquecer a Rússia e a China incluem uma tentativa de isolar esses países por meio da escalada da guerra híbrida imposta pelos EUA (sanções e guerra de informações) e o desejo de desmembrá-los e dominá-los perpetuamente.</p>
<p>Os três ensaios neste volume analisam de perto e de forma racional as tendências de longo prazo que se manifestam agora na Ucrânia.</p>
<p>John Bellamy Foster, editor da revista Monthly Review, catalogou a teoria da “dominação por escalada” do <em>establishment</em> estadunidense, que está disposto a encarar os riscos de um inverno nuclear — ou seja, a aniquilação — para manter sua supremacia. Para além do número real de armas nucleares detidas pela Rússia e pelos Estados Unidos, este último desenvolveu toda uma arquitetura de contra-ataque que acredita poder destruir a Rússia e as armas nucleares chinesas e, em seguida, pulverizar esses países até a submissão. Essa fantasia emerge não apenas nos documentos empolados dos formuladores de políticas dos EUA, mas também aparece ocasionalmente na imprensa, na qual se argumenta sobre a importância de um ataque nuclear contra a Rússia.</p>
<p>Deborah Veneziale, uma jornalista que vive na Itália, escava o mundo social do militarismo nos Estados Unidos, olhando como as várias frações da elite política deste país se uniram para apoiar essa estratégia de confronto contra a Rússia e a China. O mundo íntimo dos <em>think tanks</em> e das empresas de produção de armas, dos políticos e seus escribas, negou as proteções constitucionais de pesos e contrapesos. Há uma corrida ao conflito para que as elites dos EUA possam proteger seu controle extraordinário sobre a riqueza social global (o patrimônio líquido combinado dos 400 cidadãos mais ricos dos EUA está agora perto de 3,5 trilhões de dólares, enquanto as elites globais, muitas delas dos Estados Unidos, acumulam quase 40 trilhões de dólares em paraísos fiscais ilícitos).</p>
<p>John Ross, membro do coletivo No Cold War, escreve que, com o conflito na Ucrânia, os Estados Unidos intensificaram qualitativamente seu ataque militar ao planeta. Esta guerra é perigosa porque mostra que eles estão dispostos a confrontar diretamente a Rússia, uma grande potência, e a intensificar seu conflito com a China “ucranizando” Taiwan. O que pode frear os Estados Unidos, argumenta Ross, é a resiliência da China e seu compromisso em defender sua soberania e seu projeto e o crescente descontentamento no Sul Global contra a imposição dos objetivos da política externa estadunidense. A maioria dos países do mundo não vê esse conflito como seu, uma vez que estão tomados pela necessidade de enfrentar dilemas mais amplos da humanidade. O chefe da União Africana, Moussa Faki Mahamat, disse em 25 de maio de 2022, que a África se tornou “a vítima colateral de um conflito distante entre a Rússia e a Ucrânia”. O conflito está distante não só em termos de espaço, mas também em termos dos objetivos políticos dos países da África, bem como na Ásia e na América Latina.</p>
<p>Este caderno é produzido conjuntamente pela Monthly Review, No Cold War e pelo Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. Nós convidamos você a lê-lo, compartilhá-lo com amigos/as e companheiros/as e discuti-lo onde quer que você tenha a oportunidade. A preciosa vida humana e a longevidade do planeta estão em jogo. É impossível ignorar esses fatos. A maioria das pessoas do mundo gostaria de lidar com nossos problemas reais. Não queremos ser arrastados para um conflito que é impulsionado por um desejo paroquial da elite ocidental de manter seu poder preponderante. Nós defendemos a vida.</p>
<p> </p>
<p><a name="section_2"></a></p>
<h1 class="mrst_section_title mrst_section_title_2"><span style="color: #ba2025;"><strong>O que motiva os Estados Unidos a aumentarem a ofensiva militar internacional?</strong></span></h1>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #ba2025;">John Ross</span></h2>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Introdução</strong></span></h3>
<p>Os eventos que levaram à Guerra da Ucrânia representam uma aceleração qualitativa de uma tendência de mais de duas décadas, nas quais os Estados Unidos intensificaram sua ofensiva militar internacionalmente. Antes da Guerra da Ucrânia, os EUA haviam realizados confrontos militares apenas contra países em desenvolvimento, que tinham forças armadas muito mais fracas e não possuíam armas nucleares: o bombardeio da Sérvia em 1999, a invasão do Afeganistão em 2001, do Iraque em 2003, e o bombardeio da Líbia em 2011. No entanto, a ameaça dos EUA de estender a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) à Ucrânia, que é a principal causa desta guerra, representa algo fundamentalmente diferente. Os Estados Unidos estavam cientes de que levar a Otan para a Ucrânia confrontaria diretamente os interesses nacionais da Rússia, um país com grandes forças militares e um enorme arsenal nuclear. Embora tal atitude cruze as linhas vermelhas russas, os Estados Unidos estavam prontos para correr esse risco.</p>
<p>Os Estados Unidos (ainda) não comprometeram seus próprios soldados neste recente conflito, afirmando que isso ameaçaria uma guerra mundial e arriscaria uma catástrofe nuclear. Mas está, de fato, envolvido em uma guerra por procuração contra a Rússia. Não só insistiram em deixar em aberto a possibilidade de que a Ucrânia pudesse se juntar à Otan, mas também treinaram o exército ucraniano na liderança da guerra, forneceram enormes quantidades de armas e passaram informações satelitais e de inteligência. Até agora, a ajuda de Washington a Kiev foi de cerca de 50 bilhões de dólares.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Como os Estados Unidos empurraram a Ucrânia para a guerra</strong></span></h3>
<p>Os Estados Unidos e seus aliados vêm preparando a Ucrânia para a guerra desde pelo menos 2014, com o envio de centenas de instrutores para treinar os militares ucranianos. A abordagem durante a Guerra do Golfo no Iraque em 1990 foi semelhante, refletindo um modelo que Washington parece estar usando para alcançar seus objetivos geopolíticos. A Rússia foi propositalmente atraída para a situação na Ucrânia a partir do golpe de 2014, quando as forças anti-russas tomaram o poder em Kiev, apoiadas por neonazistas ucranianos, bem como pelos Estados Unidos. Naquela época, o exército ucraniano não era uma poderosa força militar, pois havia sofrido consideravelmente com as “reformas” iniciadas em 1991 após o colapso da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Décadas de negligência e subfinanciamento levaram à deterioração da infraestrutura e dos equipamentos militares, juntamente com o esgotamento moral entre oficiais e soldados. Como diz Vyacheslav Tetekin, membro do Comitê Central do Partido Comunista da Federação Russa, “o exército ucraniano não queria e não podia lutar”.</p>
<p>Após o golpe de 2014, os gastos do Estado foram desviados dos investimentos em bem-estar social e direcionados para a construção de estrutura militar. De 2015 a 2019, o orçamento militar ucraniano aumentou de 1,7 bilhão para 8,9 bilhões de dólares, equivalente a 6% do PIB do país em 2019. Levando em conta a porcentagem em relação ao PIB, os gastos militares foram três vezes maiores comparado à maioria dos países desenvolvidos no Ocidente. Foram alocados fundos volumosos na restauração e modernização da estrutura militar do país, restabelecendo, assim, sua capacidade de combate.</p>
<p>Durante a guerra contra Donbass entre 2014 e 2015  (a região de língua russa no leste do país), a Ucrânia tinha pouco apoio de combate aéreo, já que quase todas as aeronaves de combate estavam precisando de reparos. No entanto, em fevereiro de 2022, a Força Aérea estava equipada com aproximadamente 150 caças, bombardeiros e aeronaves de ataque. O tamanho das Forças Armadas ucranianas também se expandiu enormemente. No final de 2021, a remuneração dos soldados aumentou três vezes, de acordo com os dados de Tetekin. Esse fortalecimento do poder militar, ao lado de poderosas fortificações erguidas perto de Donbass, indica a intenção dos EUA de iniciar conflitos na região.</p>
<p>No entanto, apesar desses preparativos para a guerra, o exército ucraniano não foi capaz de combater seriamente a Rússia. O equilíbrio de forças claramente não estava a favor de Kiev. Isso não importava para os Estados Unidos, que buscavam usar a Ucrânia como bala de canhão contra a Rússia. Segundo Tetekin, “os Estados Unidos planejaram duas opções para a nova e militarizada Ucrânia (…) A primeira foi conquistar Donbass e invadir a Crimeia. A segunda opção era provocar a intervenção armada da Rússia”.</p>
<p>Em dezembro de 2021, ciente do crescente perigo que enfrentava diante de uma Ucrânia sob influência dos EUA, a Rússia buscou um conjunto de garantias de segurança da Otan para desarmar a crise. Em particular, a Rússia exigiu que a Organização encerrasse sua expansão para o leste, incluindo a adesão da Ucrânia. “O Ocidente (…) ignorou essas exigências”, escreveu Tetekin, “sabendo que os preparativos para a invasão de Donbass estavam em pleno andamento. A maioria das unidades prontas para combate do Exército ucraniano, somando 150 mil pessoas, estavam concentradas perto de Donbass. Eles poderiam vencer a resistência das tropas locais em poucos dias, com a destruição completa de Donetsk e Lugansk e a morte de milhares” (Tetekin, 2022)<a href="#_section_2_ftn1" name="_section_2_ftnref1"><sup>1</sup></a>.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Ucrânia é uma escalada qualitativa da agressão militar estadunidense</strong></span></h3>
<p>É evidente tanto pelos fatos políticos fundamentais (a insistência dos EUA no “direito” da Ucrânia de entrar na Otan) quanto pelos fatos militares (o acúmulo de forças armadas da Ucrânia), que os Estados Unidos estavam preparando um confronto, embora isso inevitavelmente envolvesse um embate direto com a Rússia. Consequentemente, ao avaliar a crise da Ucrânia, é importante destacar que os EUA estavam preparados para intensificar suas ameaças militares, indo de ataques a países em desenvolvimento — sempre injustos, mas que não traziam risco direto de conflitos militares com grandes potências ou guerras mundiais — à agressão contra Estados muito fortes, como a Rússia, abrindo a possibilidade de conflitos militares globais. É crucial analisar o que funda essa escalada de ofensiva militar dos EUA. Seria algo temporário, retomando depois um curso mais conciliador, ou o aumento da escalada militar é uma tendência de longo prazo na política dos EUA?</p>
<p>Isso é, naturalmente, de extrema importância para todos os países, mas particularmente para a China, um Estado poderoso. Para tomar apenas um importante exemplo, paralelamente à escalada contra a Rússia, os Estados Unidos não apenas impuseram tarifas contra a economia chinesa e realizaram uma campanha internacional sistemática de mentiras sobre a situação em Xinjiang; como também tentaram minar a política conhecida como “Uma só China” em relação à província de Taiwan.</p>
<p>Entre as ações dos Estados Unidos em relação à província de Taiwan estão:</p>
<ul>
<li>Pela primeira vez desde o início das relações diplomáticas entre EUA e China, o presidente Biden convidou um representante de Taipei para a posse de um presidente estadunidense.</li>
<li>A presidente da Câmara dos Deputados, Nancy Pelosi – o terceiro cargo mais alto dos EUA na ordem de sucessão presidencial – visitou Taipei no dia 12 de agosto de 2022.</li>
<li>Os EUA pediram a participação de Taipei na ONU.</li>
<li>Os EUA intensificaram as vendas de armamentos e equipamentos militares para a ilha.</li>
<li>As delegações estadunidenses que visitam Taipei aumentaram.</li>
<li>Os EUA aumentaram sua presença militar no Mar do Sul da China e tem enviado regularmente navios de guerra através do Estreito de Taiwan.</li>
<li>As Forças de Operações Especiais treinaram tropas terrestres e marinhas</li>
</ul>
<p>Assim como na Ucrânia e Rússia, os Estados Unidos estão plenamente conscientes de que a política “Uma Só China” afeta os interesses nacionais mais fundamentais do país asiático, e tem sido a base das relações EUA-China durante os 50 anos desde a visita de Nixon a Pequim em 1972. Abandoná-la é cruzar as linhas vermelhas chinesas. É, portanto, evidente que os Estados Unidos estão tentando de forma confrontativa minar a política chinesa da mesma forma que deliberadamente decidiram cruzar as linhas vermelhas russas na Ucrânia.</p>
<p>Quanto à questão de saber se essas provocações dos EUA contra a China e a Rússia são temporárias, de longo prazo ou mesmo permanentes, minha conclusão clara é que a tendência de escalada militar dos EUA continuará. No entanto, dado que tal questão, potencialmente envolvendo guerras, é de extrema seriedade e tem consequências práticas extremamente importantes, exageros e meras propagandas são inaceitáveis. O objetivo aqui é, portanto, apresentar de forma factual, objetiva e ponderada as razões pelas quais os Estados Unidos tentarão aumentar ainda mais a sua ofensiva militar durante o próximo período. Além disso, verificarei quais tendências podem servir para neutralizar essa perigosa política dos EUA e quais podem exacerbá-la.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>A posição econômica e militar dos EUA durante a “Velha Guerra Fria” e a “Nova Guerra Fria”</strong></span></h3>
<p>Reduzidas aos fatos mais essenciais, as forças fundamentais que impulsionaram essa escalada da política estadunidense de agressão militar, que já dura mais de duas décadas, são claras. Em primeiro lugar está a perda permanente do peso esmagador da economia dos EUA na produção global, e, em segundo lugar, a preponderância do poder e dos gastos militares dos EUA. Essa assimetria cria um período muito perigoso para a humanidade, no qual os EUA podem tentar compensar seu relativo declínio econômico por meio do uso da força militar. Isso ajuda a explicar os ataques a países em desenvolvimento, bem como seu crescente confronto com a Rússia na Ucrânia. Uma questão importante é se a ofensiva dos EUA aumentará a ponto de incluir um confronto crescente com a China, chegando a cogitar uma guerra mundial. Para responder a essa pergunta, é necessário fazer uma análise precisa da situação econômica e militar dos Estados Unidos.</p>
<p>No aspecto econômico, em 1950, perto do início da primeira Guerra Fria, os Estados Unidos representavam 27,3% do PIB mundial. Em comparação, a URSS, a maior economia socialista do período, representava 9,6%. Em outras palavras, a economia dos EUA era quase três vezes maior que a economia soviética (Maddison, 2001)<a href="#_section_2_ftn2" name="_section_2_ftnref2"><sup>2</sup></a>. Durante todo o período pós-Segunda Guerra Mundial (a primeira Guerra Fria), a URSS nunca chegou perto do PIB dos EUA, pois representava apenas 44,4% dele em 1975. Ou seja, mesmo no auge do relativo desenvolvimento econômico soviético, a economia dos EUA ainda era duas vezes maior que a da URSS. Durante a “Velha Guerra Fria”, os Estados Unidos tiveram uma vantagem econômica significativa sobre a URSS, pelo menos em termos de medidas convencionais de produção.</p>
<p>Voltando para a situação atual, os Estados Unidos, em termos comparativos, possuem uma fatia do PIB global consideravelmente menor que em 1950, com uma variação de cerca de 15 a 25%, dependendo de como é medido. A China, principal rival econômica dos Estados Unidos hoje, está muito mais próxima da paridade com a economia estadunidense. Mesmo com as taxas de câmbio de mercado, que oscilam um pouco independentemente dos rendimentos reais com as flutuações cambiais, o PIB da China já representa 74% o PIB dos Estados Unidos, um nível muito superior ao que a URSS alcançou. Além disso, a taxa de crescimento econômico da China tem sido há algum tempo muito mais rápida que a dos Estados Unidos, o que significa que continuará a se aproximar do país americano.</p>
<p>Calculada em paridades de poder aquisitivo (que respondem pelos diferentes níveis de preços dos países), a medida usada por Angus Maddison e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), em 2021, apontava que os EUA tinham apenas 16% da economia mundial — ou seja, os outros 84% estão fora dos EUA. Segundo essa mesma medida, a economia chinesa já é 18% maior que a estadunidense. Até 2026, de acordo com as projeções do FMI, a economia da China será pelo menos 35% maior que a dos Estados Unidos. A brecha econômica entre os dois países está muito mais estreita que qualquer distância que a URSS tenha alcançado.</p>
<p>Levando em conta outros fatores, não importa a medição, a China tornou-se de longe a maior potência fabril do mundo. Em 2019, os últimos dados disponíveis mostram que o país asiático foi responsável por 28,7% da produção mundial de manufaturas, contra 16,8% dos Estados Unidos. Em outras palavras, a participação global da China na produção manufatureira foi 70% maior que a dos Estados Unidos. A URSS, por outro lado, nunca esteve próxima de ultrapassar os EUA na produção manufatureira.</p>
<p>No tocante ao comércio de bens, a derrota dos Estados Unidos pela China na guerra comercial lançada por Donald Trump é até um pouco humilhante para ele e seu país. Em 2018, a China já comercializava mais mercadorias que qualquer outra nação, embora seu comércio de bens fosse apenas 10% maior que o dos Estados Unidos no mesmo período. Em 2021, o comércio de bens da China superou os EUA em 31%. A situação foi ainda pior em termos de exportação de mercadorias: em 2018, as da China foram 58% maiores que as dos EUA e, em 2021, 91% maiores. Em resumo, não só a China se tornou de longe a maior nação comercial do mundo, mas os EUA sofreram uma clara derrota na guerra comercial travada pelos governos Trump e Biden.</p>
<p>Ainda mais fundamental do ponto de vista macroeconômico é a liderança da China em reservas financeiras (familiar, empresarial e estatal), a fonte do investimento real de capital e a força motriz do crescimento econômico. De acordo com os dados mais recentes disponíveis em 2019, a economia bruta de capital da China foi, em termos absolutos, 56% maior que a dos Estados Unidos — o equivalente a 6,3 trilhões de dólares, em comparação com 4,03 trilhões. No entanto, esse número subestima muito a liderança da China: se a depreciação for levada em conta, a criação líquida de capital anual da China foi 635% maior que a dos Estados Unidos — o equivalente a 3,9 trilhões de dólares, ante 600 bilhões. Em resumo, a China está aumentando muito seu capital a cada ano, enquanto os Estados Unidos, em termos comparativos, aumenta pouco.</p>
<p>O resultado líquido dessas tendências é que a China superou esmagadoramente os Estados Unidos em termos de crescimento econômico, não apenas em todo o período de quatro décadas desde 1978, como é amplamente sabido, mas também no período recente. Nos preços ajustados pela inflação, desde 2007 (um ano antes da crise financeira internacional), a economia dos EUA cresceu 24%, enquanto a da China cresceu 177% — ou seja, a economia chinesa cresceu sete vezes mais rápida. No terreno da competição relativamente pacífica, a China está ganhando<a href="#_section_2_ftn3" name="_section_2_ftnref3"><sup>3</sup></a>.</p>
<p>A liderança dos EUA em produtividade, tecnologia e dimensão das empresas significa que, no geral, sua economia ainda é mais forte que a da China, mas a diferença entre os dois países é muito menor que aquela entre Estados Unidos e URSS em outro momento. Além disso, seja lá o que se possa dizer sobre a força desses dois gigantes, está claro que os EUA perderam sua predominância econômica global. Do ponto de vista puramente econômico, já estamos em uma era multipolar.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>As forças militares dos EUA em um momento de declínio econômico</strong></span></h3>
<p>Esses reveses econômicos para os Estados Unidos levaram alguns a acreditar, particularmente em alguns círculos do Ocidente, que a derrota da potência é inevitável ou já ocorreu. Uma visão semelhante foi expressa por um pequeno número de pessoas na China que têm a opinião de que a abrangente força chinesa já ultrapassou a estadunidense. Essas visões estão incorretas. Esquecem as famosas palavras de Lênin, de que “a política deve prevalecer sobre a economia, que é o ABC do marxismo”, e, em relação à política, que “o poder político cresce do cano de uma arma”, no famoso ditado do presidente Mao Zedong. O fato de os Estados Unidos estarem perdendo sua superioridade econômica não significa que simplesmente permitirão que essa tendência continue pacificamente: presumir isso seria cometer o erro de colocar a economia antes da política. Pelo contrário, o fato de que os Estados Unidos estão perdendo terreno economicamente tanto para a China quanto para outros países faz com que se lance a táticas militares e político-militares que visam superar as consequências de suas derrotas econômicas.</p>
<p>Mais precisamente, o perigoso para todos os países é que os Estados Unidos não perderam sua supremacia militar. Na verdade, os gastos militares dos EUA são maiores que os dos próximos nove países juntos – da lista dos dez que mais gastam. Apenas em uma área, armas nucleares, o poderio estadunidense só pode ser comparado com a Rússia, devido à herança de armas nucleares da URSS. O número exato de armas nucleares dos países em geral são segredos de Estado, mas, a partir de 2022, uma estimativa ocidental da Federação de Cientistas Americanos aponta que a Rússia possua 5977 armas nucleares, enquanto os Estados Unidos têm 5428. A Rússia e os Estados Unidos têm cada um cerca de 1600 ogivas nucleares estratégicas ativas implantadas (porém os Estados Unidos têm muito mais armas nucleares que a China). Enquanto isso, no campo das armas convencionais, os gastos estadunidenses são muito maiores que os de qualquer outro país.</p>
<p>Essa divergência na posição dos Estados Unidos está por trás de sua política agressiva e cria a distinção entre suas posições econômicas e militares na atual “Nova Guerra Fria”, em comparação com a “Velha Guerra Fria” travada contra a URSS. Na Velha Guerra Fria, as forças militares dos EUA e da URSS eram aproximadamente iguais, mas, como já foi observado, a economia dos EUA era muito maior. Portanto, na Velha Guerra Fria, a estratégia dos EUA era tentar levar as questões para um terreno econômico. Mesmo o acúmulo militar de Reagan na década de 1980 não tinha a intenção de ser usado para travar uma guerra contra a URSS, mas sim para enfrentá-la em uma corrida armamentista que prejudicaria a economia soviética. Consequentemente, apesar da tensão, a Guerra Fria nunca se transformou em uma guerra quente. A situação atual dos EUA é oposta: sua posição econômica relativa enfraqueceu tremendamente, mas seu poder militar é grande. Por isso, tenta mover as questões para o terreno militar, o que explica sua escalada de agressões e porque essa é uma tendência permanente.</p>
<p>Isso significa que a humanidade entrou em um período muito perigoso. Os Estados Unidos podem estar perdendo a competição econômica pacífica, mas ainda mantêm uma vantagem militar sobre a China. A tentação é, então, que usem meios militares “diretos” e “indiretos” para tentar deter o desenvolvimento chinês.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>O uso direto e indireto de força militar estadunidense</strong></span></h3>
<p>Os EUA empregam meios “diretos” e “indiretos” para mostrar sua força militar, que são muito mais expansivas que a possibilidade “direta” mais extrema de uma guerra frontal contra a China. Algumas dessas abordagens já estão em uso, enquanto outras estão sendo discutidas. A primeira inclui, por exemplo:</p>
<ul>
<li>Subordinar outros países às forças armadas dos EUA e tentar pressioná-los a adotar políticas econômicas mais hostis em relação à China, como é o caso em relação à Alemanha e à União Europeia.</li>
<li>Tentar superar o caráter econômico multipolar do mundo, que já foi estabelecido, criando alianças dominadas unilateralmente pelos Estados Unidos. É claramente o caso da Otan, do Quad (Estados Unidos, Japão, Austrália, Índia) e de sua relação com algumas outras nações.</li>
<li>Tentar forçar países que têm boas relações econômicas com a China a enfraquecer essas relações. Isso é particularmente evidente com a Austrália, mas está agora sendo aplicado em todo lugar.</li>
</ul>
<p>Enquanto isso, as abordagens que estão sendo discutidas incluem a possibilidade de travar guerras contra aliados da China e da Rússia e tentar levar a China a uma guerra “limitada” com os Estados Unidos em relação à província de Taiwan.</p>
<p>Um exemplo do uso integrado de pressão militar direta e indireta pelos EUA foi dado pelo comentarista político estadunidense do Financial Times, Janan Ganesh, após a eclosão da guerra na Ucrânia, ao dizer que “a América será a ‘vencedora’ final da crise ucraniana”. Três dias após a intervenção russa, escreve Ganesh, a Alemanha acelerou a construção dos dois primeiros terminais de gás natural liquefeito (GNL) do país. Em 2026, os EUA provavelmente se tornarão o principal fornecedor de GNL para a Alemanha, pois estão mais próximos geográfica e politicamente, eliminando assim a dependência alemã das importações de energia russas. Ganesh também argumenta que a promessa alemã de aumentar seu orçamento de defesa também beneficiará os EUA porque a Alemanha “compartilharia mais do fardo financeiro e logístico da Otan” que atualmente recai sobre os EUA. Por fim, aponta o que pode ser um enorme avanço para os EUA:</p>
<p style="padding-left: 40px;">Uma Europa mais ligada aos EUA e, ao mesmo tempo, menos dependente deles (…) Longe de acabar com a volta dos EUA para a Ásia, a guerra na Ucrânia pode ser o evento que a possibilite.</p>
<p style="padding-left: 40px;">Quanto a essa parte [do Pacífico] do mundo (…) o Japão dificilmente poderia estar se esforçando mais para ficar do lado de Kiev, e, portanto, com Washington (Ganesh, 2022).</p>
<p>Em suma, os Estados Unidos utilizaram sua pressão militar para aumentar a subordinação econômica da Alemanha e do Japão. Embora muitas outras variantes possam ser previstas, sua característica comum é que os Estados Unidos usam sua força militar para tentar compensar sua posição econômica enfraquecida. Compreendido dessa forma, é evidente que os EUA já embarcaram nessa política fundamental de uso direto e indireto de sua força militar.</p>
<p>Uma vez que a China está experimentando um desenvolvimento econômico mais rápido do que os Estados Unidos, é provável que sua força militar eventualmente se torne similar. Levaria anos para a China construir um arsenal nuclear equivalente ao dos Estados Unidos, mesmo que decidisse embarcar em tal política. Provavelmente levaria ainda mais tempo para criar armamentos convencionais equivalentes aos dos Estados Unidos, dado o enorme desenvolvimento tecnológico e treinamento de pessoal necessário para tais forças aéreas e navais avançadas. Portanto, os Estados Unidos terão forças armadas mais fortes do que a China por um número muito significativo de anos, criando a tentação permanente de usar meios militares para compensar sua posição econômica em declínio.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>O significado da guerra na Ucrânia</strong></span></h3>
<p>Duas lições fundamentais podem ser tiradas dos eventos que levaram à guerra na Ucrânia.</p>
<p>Primeiro, confirma a inutilidade de pedir compaixão aos Estados Unidos. Após a dissolução da URSS, em 1991, durante 17 anos a Rússia prosseguiu uma política de tentar ter relações amistosas com seu rival. Sob Boris Yeltsin, a Rússia era humilhantemente subordinada aos Estados Unidos. Durante o início da presidência de Putin, deu assistência direta aos Estados Unidos na chamada guerra contra o terror e na invasão dos EUA no Afeganistão. A resposta estadunidense foi violar todas as promessas que havia feito de que a Otan não avançaria “um centímetro” em relação à Rússia, tudo isso enquanto aumentava agressivamente a pressão militar sobre Moscou.</p>
<p>Em segundo lugar, essa dinâmica deixa claro que o resultado da guerra na Ucrânia é crucial não só para a Rússia, mas também para a China e todo o mundo. A Rússia é o único país que se iguala aos Estados Unidos em termos de armas nucleares, e as boas relações entre a China e a Rússia são um grande impedimento para os EUA adotar qualquer política de ataque direto à China. O objetivo estadunidense na Ucrânia é justamente tentar trazer uma mudança fundamental na política russa e instalar um governo em Moscou que não defenda mais seus próprios interesses nacionais — e que seja hostil à China e subordinado aos EUA. Se isso for alcançado, não só a China enfrentará uma ameaça militar muito maior dos EUA, mas sua longa fronteira norte com a Rússia se tornará uma ameaça estratégica; a China estaria cercada no norte. Em outras palavras, tanto os interesses nacionais russos como chineses seriam prejudicados. Nas palavras de Sergei Glazyev (2022), um comissário russo do corpo executivo da União Econômica Eurasiana: “Depois de não conseguirem enfraquecer a China frontalmente por meio de uma guerra comercial, os estadunidenses mudaram o golpe principal para a Rússia, que eles veem como um elo fraco na geopolítica e na economia global. Os anglo-saxões estão tentando implementar suas eternas ideias russofóbicas para destruir nosso país e, ao mesmo tempo, enfraquecer a China, porque a aliança estratégica da Federação Russa e da RPC é muito dura para os Estados Unidos”.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Ações militares estadunidenses e as restrições enfrentadas</strong></span></h3>
<p>Como os Estados Unidos estão sendo pressionados tanto por sua posição econômica em declínio quanto por sua força militar, não há limite para um nível “interno” (doméstico) à sua abordagem ofensiva. A história mostra claramente que os EUA estão preparados para realizar os mais violentos ataques militares a ponto de estarem dispostos a destruir países inteiros. Em um dos muitos exemplos, na Guerra da Coreia, os EUA destruíram quase todas as cidades e vilas do país,  incluindo cerca de 85% de seus edifícios.</p>
<p>O bombardeio dos EUA na Indochina durante a Guerra do Vietnã foi ainda maior em escala, usando dispositivos explosivos e armas químicas, como o notório Agente Laranja, que produz deformidades horripilantes. De 1964 a 15 de agosto de 1973, a Força Aérea estadunidense lançou mais de 6 milhões de toneladas de bombas e outras artilharias na Indochina, enquanto a Marinha e o Corpo de Fuzileiros Navais lançaram mais 1,5 milhões de toneladas no Sudeste Asiático. Como Micheal Clodfelter observa em <em>The Limits of Air Power:</em></p>
<p style="padding-left: 40px;">Essa proporção em toneladas excedeu em muito o gasto na Segunda Guerra Mundial e na Guerra da Coreia. A Força Aérea estadunidense consumiu 2,150 milhões de toneladas de munições na Segunda Guerra Mundial e na Guerra da Coreia — 1,613 milhões de toneladas no teatro europeu e 537 mil toneladas no teatro do Pacífico — e 454 mil toneladas na Guerra da Coreia (Clodfelter apud Miguel; Roland, 2011).</p>
<p>Edward Miguel e Gerard Roland discorrem sobre o mesmo ponto em seu estudo sobre o impacto a longo prazo do bombardeio no Vietnã, observando que:</p>
<p style="padding-left: 40px;">Os bombardeios da Guerra do Vietnã representaram, portanto, pelo menos três vezes mais (em peso) que os bombardeios da Segunda Guerra Mundial, e cerca de quinze vezes a tonelagem total na Guerra da Coreia. Considerando a população vietnamita pré-guerra de aproximadamente 32 milhões, os bombardeios se traduzem em centenas de quilos de explosivos per capita durante o conflito. Para outra comparação, as bombas atômicas lançadas em Hiroshima e Nagasaki tinham o poder de cerca de 15 mil e 20 mil toneladas de TNT. (…) O bombardeio na Indochina representa 100 vezes o impacto combinado das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki.</p>
<p>Na invasão do Iraque, os Estados Unidos estavam preparados para (e assim fizeram) devastar o país, usando armas hediondas como urânio empobrecido, que ainda produz terríveis defeitos congênitos muitos anos após o ataque. Em seu bombardeio à Líbia em 2011, reduziram o que havia sido um dos países com maior renda per capita da África, com um Estado de bem-estar desenvolvido a uma sociedade na qual existem conflitos tribais e em que pessoas escravizadas são vendidas abertamente. A lista continua.</p>
<p>Em suma, as evidências mostram que não há nenhum nível de crime ou atrocidade para o qual os EUA não estejam prontos para descer. Se afirmassem que poderiam eliminar a competição econômica da China lançando uma guerra atômica, não há evidências para acreditar que não fariam isso de fato. Além disso, embora haja certamente movimentos antiguerra nos Estados Unidos, eles não são suficientemente fortes para impedir que usem armas nucleares se assim decidirem. Não há restrições internas adequadas que os impeça de iniciar uma guerra contra a China.</p>
<p>Mas certamente há grandes restrições externas. A primeira é a posse de armas nucleares por outros países. É por isso que a explosão da primeira bomba nuclear da China em 1964 é justamente considerada uma grande conquista nacional. A posse de armas nucleares pela China é um impedimento fundamental para um ataque nuclear estadunidense. No entanto, ao contrário de seu adversário, a China tem uma política de “No First Use” [sem primeiro uso, isto é, só usar armas nucleares em resposta a um ataque nuclear em seu território], mostrando sua contenção e postura militar defensiva.</p>
<p>Uma guerra nuclear em larga escala envolvendo os Estados Unidos, a China e a Rússia seria uma catástrofe sem precedentes na história humana, na qual, no mínimo, centenas de milhões morreriam. Seria infinitamente preferível evitar a escalada militar estadunidense antes de chegar a esse ponto. Mas quais são as chances disso?</p>
<p>A tendência geral da política dos Estados Unidos desde a Segunda Guerra Mundial mostra um padrão claro e lógico. Quando sentem que estão em uma posição forte, sua política é agressiva; quando se sentem enfraquecidos, tornam-se mais conciliadores. Isso ficou demonstrado mais claramente antes, durante e depois da Guerra do Vietnã, mas também em outros períodos.</p>
<p>Imediatamente após a Segunda Guerra Mundial, consideraram-se — e de fato estavam — em uma posição forte e, portanto, preparados para realizar uma guerra contra a Coreia. Mesmo depois de não ter vencido essa guerra, ainda se sentia confiante o suficiente para tentar isolar diplomaticamente a China durante as décadas de 1950 e 1960, privando o país de um assento na ONU, bloqueando relações diplomáticas diretas, e assim por diante. No entanto, sofreram severas derrotas devido ao fracasso de sua guerra contra o Vietnã, na qual procurou derrotar a luta de libertação nacional do povo vietnamita e o apoio militar em larga escala que receberam da China e da URSS. O enfraquecimento da posição global dos Estados Unidos como resultado de sua derrota no Vietnã (começando antes mesmo do fim oficial da guerra em 1975) levou a nação a adotar uma política mais conciliatória, simbolizada pela visita de Nixon a Pequim em 1972 e seguida pelo estabelecimento de relações diplomáticas completas com a China. Logo após 1972, os Estados Unidos abriram uma política de <em>détente</em> com a URSS. No entanto, na década de 1980, tendo se reorganizado e recuperado da derrota no Vietnã, os Estados Unidos, sob o então presidente Ronald Reagan, voltaram a adotar uma política mais agressiva em relação à URSS.</p>
<p>Esse mesmo padrão ofensivo dos EUA em momentos de força ou uma atitude mais conciliadora em momentos de fraqueza pode ser visto em torno da crise financeira internacional que começou em 2007-2008. Essa crise causou um duro golpe na economia dos EUA, que começaram a dar mais peso à cooperação internacional. Embora o G20, que inclui as maiores economias do mundo e dois terços de sua população, tenha sido criado em 1999, ele só começou a realizar reuniões anuais após a crise econômica de 2007-2008. Em 2009, o G20 se configurou como a principal força para a cooperação econômica e financeira internacional, com os Estados Unidos desempenhando um papel importante. Em particular, como se sentiu enfraquecido, os Estados Unidos mostraram uma atitude mais cooperativa em relação à China nessas áreas.</p>
<p>À medida que se recuperava da crise financeira internacional, sua postura em relação à China tornou-se cada vez mais agressiva, culminando no lançamento da guerra comercial de Trump contra o país. Isto é, assim que os Estados Unidos se sentiram mais fortes, retomaram a postura mais agressiva.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Uma comparação da realidade de hoje e do período pré-Segunda Guerra Mundial</strong></span></h3>
<p>Em uma comparação histórica, podemos cotejar a situação atual com o período que antecede a Segunda Guerra Mundial. O caminho imediato para essa guerra começou com o fortalecimento do militarismo japonês e a consequente invasão do nordeste da China em 1931, seguido pela ascensão de Hitler ao poder na Alemanha, em 1933. No entanto, apesar desses eventos sinistros, a guerra não era inevitável. As primeiras vitórias do militarismo japonês e do fascismo alemão escalaram para a guerra mundial como resultado de uma série de derrotas e capitulações das potências aliadas entre 1931 e 1939, bem como seu fracasso em confrontar os militares japoneses e nazistas alemães.</p>
<p>O partido político governante na China, o Kuomintang, concentrou seus esforços durante a maior parte da década de 1930 não em repelir o Japão, mas em lutar contra os comunistas. Enquanto isso, os EUA falharam em intervir para deter o Japão até ser atacado em Pearl Harbor em 1941. Na Europa, a Grã-Bretanha e a França não conseguiram impedir a remilitarização da Alemanha nazista, mesmo quando tinham o direito de fazê-lo sob o Tratado de Versalhes. Além disso, não apoiaram o governo legítimo da Espanha em 1936 contra o golpe fascista e a guerra civil iniciada por Francisco Franco, que teve o apoio de Hitler. Depois, capitularam diretamente ao desmembramento da Tchecoslováquia por Hitler sob o notório Pacto de Munique, em 1938.</p>
<p>Hoje, vemos um padrão semelhante ao de 1931, que marcou o início da preparação para a Segunda Guerra Mundial. Embora o apoio a uma guerra mundial certamente não conte com as maiorias nos Estados Unidos, tal apoio existe entre um elemento pequeno e, até agora, marginal dentro da política externa/estrutura militar do país. Se os Estados Unidos sofrerem derrotas políticas, não avançarão diretamente para a guerra frontal com a China ou a Rússia. No entanto, existe o perigo a médio prazo de que possam obter vitórias em conflitos menores, o que provavelmente encorajaria o avanço a um grande conflito militar global  — como ocorreu após a invasão japonesa na China, em 1931, e a chegada de Hitler ao poder em 1933.  A luta decisiva deve ser para evitar um conflito mundial desse tipo. Isso significa que é de extrema importância que os Estados Unidos não ganhem lutas imediatas, como a guerra que provocou na Ucrânia, sua tentativa de minar a política da China em relação a Taiwan e suas guerras econômicas contra muitos outros países.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>As principais forças que se opõem aos EUA</strong></span></h3>
<p>Há duas forças poderosas que se opõem à agressão militar dos EUA. A primeira, e mais poderosa, é a China, cujo desenvolvimento econômico não é somente crucial para melhorar os padrões de vida de sua população, mas também para eventualmente permitir que o país coloque suas forças militares no mesmo patamar da dos Estados Unidos. Esse provavelmente será o último impedimento à agressão militar dos EUA. A segunda força é a oposição de um grande número de países à agressão dos EUA — incluindo muitos do Sul Global, que compreende a maioria do povo do mundo — não apenas do ponto de vista moral, mas também do ponto de vista dos interesses diretos. A tentativa dos EUA de superar as consequências de seus fracassos econômicos por meios militares e políticos inevitavelmente o leva a tomar atitudes contra os interesses de vários outros países.</p>
<p>Um dos muitos exemplos dos impactos dessas ações é que a provocação dos EUA na guerra na Ucrânia ajudou a criar um aumento maciço nos preços mundiais dos alimentos, porque a Rússia e a Ucrânia são os maiores fornecedores internacionais de trigo e fertilizantes do mundo. Enquanto isso, impedir a empresa chinesa de telecomunicações Huawei de participar no desenvolvimento de telecomunicações 5G significa que os habitantes de todos os países que concordam com tal boicote dos EUA pagarão mais por serviços desse tipo. A pressão dos EUA para forçar a Alemanha a comprar seu gás natural liquefeito em vez de gás natural russo eleva os preços da energia no país. Na América Latina, os Estados Unidos tentam impedir que os países desenvolvam políticas de independência nacional. As tarifas estadunidenses sobre as exportações chinesas aumentam o custo de vida das famílias nos EUA. O fato de que, na prática, as populações de outros países estão sendo forçadas a financiar o militarismo dos EUA está destinado a gerar oposição a tais políticas e seus resultados.</p>
<p>Essas duas forças que se nutrem mutuamente — o próprio desenvolvimento da China e o fato de que a política dos EUA se posiciona contra os interesses da esmagadora maioria da população mundial — constituem os principais obstáculos à ofensiva estadunidense. Integrar o desenvolvimento chinês às forças internacionais que se opõem aos ataques dos EUA é, portanto, a tarefa mais crucial para a maioria da população global. Embora nós que estamos fora do país não consigamos compreender completamente as complexidades enfrentadas pelos líderes da China, é possível afirmar que eles assumem uma grande responsabilidade não apenas para empurrar o mundo em direção à paz e a um planeta sustentável, mas também para cumprir as promessas de sua revolução e justificar os grandes sacrifícios de camponeses e trabalhadores — os próprios sacrifícios que tornaram possível a posição atual da China no mundo.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>As escolhas que os Estados Unidos enfrentam</strong></span></h3>
<p>Os EUA recorrem à escalada da ofensiva militar ao lado de sua perda de supremacia econômica, que já começou. Na Ucrânia, os EUA desafiam direta e vigorosamente a Rússia, um Estado com poderosas armas atômicas, aumentando assim o risco potencial de uma guerra nuclear. Simultaneamente, exerce pressão máxima sobre seus aliados, como a Alemanha, em prejuízo dos próprios interesses alemães, subordinando-os à política dos EUA.</p>
<p>No entanto, ainda hesitam em utilizar força militar total, evidentemente pesando os ganhos e riscos de aumentar a ofensiva. Embora os Estados Unidos tenham provocado a guerra na Ucrânia, ameaçando estender a Otan para o país, dando-lhe acesso à inteligência e armas cada vez mais letais, ela ainda não se atreveu a comprometer diretamente suas forças militares  nessa guerra, mostrando que ainda há uma incerteza considerável nos níveis mais altos das máquinas estatais dos EUA.</p>
<p>Tudo isso afeta diretamente as relações entre a Rússia e a China, e torna o resultado da guerra na Ucrânia crucial para todo o mundo. Como as relações sino-russas amistosas representam um formidável obstáculo econômico e militar às ameaças de guerra dos EUA, o objetivo estratégico central da política dos EUA é separar a Rússia e a China. Se isso puder ser alcançado, então terão uma maior capacidade de atacar os dois países separadamente, inclusive através do uso de sua força militar.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Conclusão</strong></span></h3>
<p>Os Estados Unidos aumentarão suas ofensivas em relação à China, bem como a outros países, não apenas no campo econômico, mas em particular pelo uso direto e indireto do poder militar, hesitando apenas quando sofrer derrotas. Naturalmente, toda abertura para desenvolver uma abordagem conciliatória pelos Estados Unidos deve ser aproveitada, mas é essencial deixar claro que a política dos EUA durante tais períodos, quando sofreu derrotas, é a de reagrupar suas forças para lançar uma nova ofensiva.</p>
<p>Derrotar as agressões militares estadunidenses depende em grande parte do desenvolvimento interno global da China nos campos econômicos, militares e outros, o que também é do interesse de outros países que sofrem com a agressão estadunidense. Após o próprio desenvolvimento interno da China, a força mais importante que bloqueia a agressão dos EUA é a oposição da maioria da população mundial e países cuja posição é agravada pela política do país. O grau em que a agressão militar dos EUA, direta e indireta, se intensificará depende da proporção de suas derrotas em batalhas isoladas. Quanto mais forem bem sucedidos, mais agressivos se tornarão; quanto mais estiverem enfraquecidos, mais conciliadores se tornarão.</p>
<p>A curto prazo, o resultado da guerra na Ucrânia será, portanto, crucial para a realidade geopolítica mais ampla. Embora os detalhes da política externa dos EUA não possam ser vistos com uma bola de cristal, a escalada geral das agressões depende claramente da combinação de enfraquecimento econômico e força militar, a menos que sofram derrotas significativas.</p>
<p> </p>
<div class="footnotes">
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Referências bibliográficas</strong></span></h3>
<p>Angus Maddison, The World Economy: A Global Perspective. Paris: Organisation for Economic Cooperation and Development, 2001.</p>
<p>Edward Miguel; Gerard Roland, “The Long-run Impact of Bombing Vietnam,” Journal of Development Economics 96, v. 1, 2011, p. 1–15. Disponível em: <a class="footnote-link" href="https://eml.berkeley.edu/~groland/pubs/vietnam-bombs_19oct05.pdf">https://eml.berkeley.edu/~groland/pubs/vietnam-bombs_19oct05.pdf</a></p>
<p>Federation of American Scientists, “Status of World Nuclear Forces,” 2022. Disponível em: <a class="footnote-link" href="https://fas.org/issues/nuclear-weapons/status-world-nuclear-forces/">https://fas.org/issues/nuclear-weapons/status-world-nuclear-forces/</a></p>
<p>Janan Ganesh, “The US will be the ultimate winner of Ukraine’s crisis,” Financial Times, April 5, 2022, Disponível em: <a class="footnote-link" href="https://www.ft.com/content/cd7270a6-f72b-4b40-8195-1a796f748c23">https://www.ft.com/content/cd7270a6-f72b-4b40-8195-1a796f748c23</a></p>
<p>Micheal Clodfelter apud Edward Miguel; Gerard Roland, “The Long-run Impact of Bombing Vietnam”. Journal of Development Economics 96, v. 1. 2011, p. 1-15. Disponível em: <a class="footnote-link" href="https://eml.berkeley.edu/~groland/pubs/vietnam-bombs_19oct05.pdf">https://eml.berkeley.edu/~groland/pubs/vietnam-bombs_19oct05.pdf</a></p>
<p>Sergey Glazyev. <em>The Saker</em>, 28 mar. 2022. Disponível em: <a class="footnote-link" href="https://thesaker.is/events-like-this-happen-once-a-century-sergey-glazyev-on-the-breakdown-of-epochs-and-changing-ways-of-life/">https://thesaker.is/events-like-this-happen-once-a-century-sergey-glazyev-on-the-breakdown-of-epochs-and-changing-ways-of-life/</a></p>
<p>Vyacheslav Tetekin, “How the US Pushed Ukraine into the War”, Communist Party of the Russian Federation, 4 abr. 2022, Disponível em: <a class="footnote-link" href="https://cprf.ru/2022/04/how-the-us-pushed-ukraine-into-the-war/">https://cprf.ru/2022/04/how-the-us-pushed-ukraine-into-the-war/</a></p>
</div>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Notas</strong></span></h3>
<div class="footnotes">
<p><a href="#_section_2_ftnref1" name="_section_2_ftn1"><sup>1</sup></a> As citações e análises nesta seção são desta fonte.</p>
<p><a href="#_section_2_ftnref2" name="_section_2_ftn2"><sup>2</sup></a> Outras fontes dão à economia dos EUA uma parcela muito maior do PIB global em 1950, com estimativas superiores a 40%.</p>
<p><a href="#_section_2_ftnref3" name="_section_2_ftn3"><sup>3</sup></a> Os dados que comparam o desempenho econômico dos Estados Unidos e da China são retirados do banco de dados do FMI publicado no World Economic Outlook de abril de 2022, https://www.imf.org/en/Publications/WEO/weo-database/2022/April; U.S. Bureau of Economic Analysis, International Data, https://apps.bea.gov/iTable/iTable.cfm?ReqID=62&amp;step=1#reqid=62&amp;step=9&amp;isuri=1&amp;6210=4; Trading Economics, https://tradingeconomics.com/; World Bank, World Development Indicators, https://databank.worldbank.org/reports.aspx?source=world-development-indicators.</p>
</div>
<p> </p>
<p><a name="section_3"></a></p>
<h1 class="mrst_section_title mrst_section_title_3"><span style="color: #ba2025;"><strong>Quem está levando os Estados Unidos à guerra?</strong></span></h1>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #ba2025;">Deborah Veneziale</span></h2>
<p> </p>
<p>O mundo está sentindo a crescente avidez dos Estados Unidos para a guerra.<a href="#_section_3_ftn1" name="_section_3_ftnref1"><sup>1</sup></a> Em meio ao desenvolvimento da crise na Ucrânia, os Estados Unidos e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) têm tentado intensificar sua guerra por procuração com a Rússia, enquanto continuam a aumentar seu cerco e provocações contra a China. Essa intenção foi exibida durante o programa de TV <em>Meet the Press</em>, da rede NBC<em>, </em>de 15 de maio de 2022, que simulou uma guerra dos EUA contra a China<em>.</em> Esse “jogo de guerra” foi organizado pelo Center for a New American Security (CNAS), um proeminente <em>think tank</em> de Washington financiado pelos EUA e seus aliados, incluindo o Escritório de Representantes Econômicos e Culturais de Taipei, a Fundação Open Society (de George Soros) e uma série de empresas militares e de tecnologia estadunidenses, como a Raytheon, Lockheed Martin, Northrop Grumman, General Dynamics, Boeing, Facebook, Google e Microsoft (Center for a New American Security, 2022).</p>
<p>Essa simulação está em linha com outros sinais alarmantes em direção à guerra tanto do Congresso quanto do Pentágono. Em 5 de abril, Charles Richard, chefe do Comando Estratégico dos EUA, defendeu diante do Congresso estadunidense que a Rússia e a China representavam ameaças nucleares aos Estados Unidos, alegando que a China provavelmente usará coerção nuclear para seu próprio benefício (Tiron, 2022). Pouco depois, em 14 de abril, uma delegação bipartidária de legisladores estadunidenses visitou Taiwan. Em 5 de maio, a Coreia do Sul anunciou que havia se unido a uma organização de defesa cibernética ligada à Otan. Em junho, em sua cúpula anual, a Otan nomeou a Rússia como sua “ameaça mais significativa e direta” e apontou a China como um “desafio [aos nossos interesses]”. Além disso, Coreia do Sul, Japão, Austrália e Nova Zelândia participaram da cúpula pela primeira vez, o que sugere a possibilidade de que uma filial asiática possa ser formada no futuro. Finalmente, em 2 de agosto, em uma provocação descarada a Pequim, a presidente da Câmara dos Deputados dos EUA, Nancy Pelosi – a terceira mais alta autoridade do governo de Joe Biden – visitou Taiwan, escoltada pela força aérea dos EUA (Otan, 2022).</p>
<p>Diante da agressiva política externa do governo Biden, não se pode deixar de pensar: quem está defendendo a guerra no interior da classe dominante dos EUA? Existe um mecanismo para conter tal beligerância?</p>
<p>Este artigo chega a três conclusões. Primeiro, no governo Biden, dois grupos da elite da política externa que costumavam competir entre si – liberais belicistas e neoconservadores — fundiram-se estrategicamente, formando o mais importante consenso na política externa dentro do alto escalão do país desde 1948, levando a política de guerra dos EUA a um novo nível. Em segundo lugar, em consideração aos seus interesses de longo prazo, a grande burguesia estadunidense chegou a um consenso de que a China é um rival estratégico, e estabeleceu um sólido apoio a essa política externa. Em terceiro, as chamadas instituições democráticas de pesos e contrapesos são completamente incapazes de impedir que essa política beligerante se expanda devido ao desenho da Constituição estadunidense, à expansão das forças de extrema-direita e à monetização das eleições.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>A fusão das elites beligerantes na política externa</strong></span></h3>
<p>Os primeiros representantes do intervencionismo liberal dos EUA incluíram presidentes democratas como Harry Truman, John F. Kennedy e Lyndon B. Johnson, cujas raízes ideológicas podem ser ligadas à ideia de Woodrow Wilson, de que a América deveria estar no cenário mundial lutando pela democracia. A invasão do Vietnã foi guiada por essa ideologia.</p>
<p>Após sua derrota, o Partido Democrata reduziu temporariamente os pedidos de intervenção como parte de sua política externa. No entanto, o senador democrata Henry “Scoop” Jackson (também conhecido na época como “o senador da Boeing”), um “falcão liberal”<a href="#_section_3_ftn2" name="_section_3_ftnref2"><sup>2</sup></a>, juntou-se a outros anticomunistas e intervencionistas, inspirando o movimento neoconservador. Estes, incluindo vários apoiadores e ex-funcionários de Jackson, deram aval ao republicano Ronald Reagan no final dos anos 1970 por seu compromisso em enfrentar o suposto expansionismo soviético.</p>
<p>Com a dissolução da União Soviética em 1991 e a ascensão do unilateralismo dos EUA, os neoconservadores entraram no <em>mainstream</em> da política externa dos EUA com seu líder intelectual, Paul Wolfowitz, que tinha sido ex-assessor de Henry Jackson. Em 1992, poucos meses após a desintegração da União Soviética, Wolfowitz, então subsecretário de Defesa, introduziu seu <em>Guia de política de defesa</em>, que defendia explicitamente que os Estados Unidos mantivessem uma posição unipolar permanente. Isso seria realizado, explicou ele, por meio da expansão do poder militar dos EUA na esfera de influência da antiga União Soviética e ao longo de todos os seus perímetros, com o objetivo de impedir o ressurgimento da Rússia como uma grande potência. A estratégia unipolar liderada pelos EUA, implementada por meio da projeção da força militar, guiou as políticas externas de George H. W. Bush e seu filho George W. Bush, bem como de Bill Clinton e Barack Obama. Os EUA foram capazes de lançar a primeira Guerra do Golfo em grande parte devido à fraqueza soviética. A essa guerra se seguiu o desmembramento militar da Iugoslávia pelos EUA e a Otan. Após o 11 de Setembro, a política externa do governo Bush Jr. foi completamente dominada pelos neoconservadores, incluindo o vice-presidente Dick Cheney e o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld.</p>
<p>Embora tanto os liberais belicistas quanto os neoconservadores tenham defendido arduamente intervenções militares estrangeiras, historicamente houve duas diferenças importantes entre eles. Em primeiro lugar, os liberais tendiam a acreditar que os Estados Unidos deveriam influenciar as Nações Unidas e outras instituições internacionais a realizar uma intervenção militar, enquanto os neoconservadores tendiam a ignorar instituições multilaterais. Em segundo lugar, os falcões liberais procuraram liderar intervenções militares ao lado de aliados ocidentais, enquanto os neoconservadores estavam mais dispostos a realizar operações militares unilaterais e violar flagrantemente o direito internacional. Como disse Niall Ferguson, historiador da Universidade de Harvard, os neoconservadores ficaram felizes em aceitar o título de Império Americano e decidir unilateralmente atacar qualquer país enquanto poder hegemônico do mundo (Ferguson, 2005);</p>
<p>Embora republicanos e democratas tenham historicamente desenvolvido suas próprias instituições políticas e de <em>advocacy</em>, é um equívoco pensar que eles têm abordagens distintas para a estratégia de política externa. É verdade que <em>think tanks</em> como a Heritage Foundation são grandes redutos neoconservadores que se aproximaram da política republicana, enquanto outros como a Brookings Institution e o posteriormente estabelecido CNAS têm sido o lar de falcões liberais pró-Democratas. No entanto, membros de ambos os partidos têm trabalhado em cada uma dessas organizações, com diferenças centradas em propostas políticas específicas, não em filiação partidária. Na realidade, por trás da Casa Branca e do Congresso, uma rede bipartidária de planejamento de políticas composta por fundações sem fins lucrativos, universidades, <em>think tanks</em>, grupos de pesquisa e outras instituições formatam coletivamente as agendas das corporações na forma de propostas e relatórios políticos.</p>
<p>Outro equívoco comum é achar que o chamado setor progressista do liberalismo pode promover o desenvolvimento social, fornecer assistência internacional e limitar gastos militares. No entanto, o período neoliberal, iniciado em meados da década de 1970, tem sido caracterizado pela subordinação do Estado às forças de mercado e à austeridade nos gastos sociais em áreas como saúde, assistência alimentar e educação, ao mesmo tempo que incentiva gastos militares ilimitados, prejudicando severamente a qualidade de vida da grande maioria da população. Tanto republicanos quanto democratas seguem os princípios do neoliberalismo, como exemplificado pelo orçamento anual de Biden para 2022, que inclui um aumento de 4% nos gastos militares, e o fato de que, durante a recente pandemia, 1,7 trilhão de dólares – dos 5 trilhões que o governo dos EUA forneceu em financiamento de estímulos – foram diretamente para os bolsos das corporações (Greve, 2022). O neoliberalismo teve um impacto particularmente devastador no Sul Global, onde arrastou os países em desenvolvimento para armadilhas de dívidas e os coagiu a fazer pagamentos intermináveis dessas dívidas ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e ao Banco Mundial.</p>
<p>No campo da política externa, o mais influente <em>think tank</em> dos EUA desde a Segunda Guerra Mundial foi o Council on Foreign Relations (CFR), financiado por uma série de fontes com origem na classe dominante. Os membros fundadores do conselho incluem líderes em energia (Chevron, ExxonMobil, Hess, Tellurian), finanças (Bank of America, BlackRock, Citi, Goldman Sachs, JPMorgan Chase, Morgan Stanley, Moody’s, Nasdaq), tecnologia (Accenture, Apple, AT&amp;T, Cisco), e internet (Google, Meta), entre outros setores, e o atual conselho do CFR inclui Richard Haass, o conselheiro de Bush pai para o Oriente Médio, e Ashton Carter, secretário de Defesa de Obama. A revista alemã <em>Der Spiegel</em> descreveu a CFR como “a instituição privada mais influente dos Estados Unidos e do mundo ocidental” e “o comitê central do capitalismo”, enquanto Richard Harwood (1993), ex-editor sênior e ouvidor do <em>The Washington Post</em>, chamou o conselho e seus membros de “a coisa mais próxima que temos de um <em>establishment</em> governante nos Estados Unidos” (Swiss Policy Research, 2022; Shoup, 2019). As propostas políticas da CFR refletem o pensamento estratégico de longo prazo da burguesia do país, como visto por sua proposta de “fortalecer a coordenação EUA-Japão em resposta à questão de Taiwan” em janeiro de 2022, antes da visita de Pelosi a Taiwan em agosto do mesmo ano.</p>
<p>Independentemente de qual partido os funcionários dessas várias instituições apoiam nas eleições, essa rede bipartidária e colaborativa de longa data tem mantido uma política externa consistente em Washington. Essa rede promove uma visão de mundo supremacista dos EUA que nega o direito de outros países de se envolverem em assuntos internacionais, uma ideologia que remonta à Doutrina Monroe de 1823, aquela que proclamou a dominação dos EUA sobre todo o hemisfério ocidental. A elite da política externa estadunidense de hoje estendeu a aplicação da Doutrina Monroe para o mundo inteiro. Sinergia entre partidos e troca de partidos são comuns para esse grupo de formuladores de política externa, que está intimamente ligado à classe capitalista dominante e seus substitutos dentro da elite do poder político que controlam a política externa dos EUA, bem como o Estado Profundo (os serviços de inteligência juntamente com os militares).</p>
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<div id="attachment_64433" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-64433" class="wp-image-64433 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/09/Graph-1_PT.jpg" alt="" width="950" height="725" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/09/Graph-1_PT.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/09/Graph-1_PT-300x229.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/09/Graph-1_PT-768x586.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-64433" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Processo de formação de políticas, de Who Rules America?, por William Domhoff.</small></p></div>
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<p>Na virada do século, os neoconservadores, reunidos no Partido Republicano, estavam mais preocupados com a desintegração e desnuclearização da Rússia do que com a China. Por volta de 2008, no entanto, as forças dentro da elite política dos EUA começaram a perceber que a economia chinesa continuaria sua forte ascensão e que seus futuros líderes não cederiam à influência dos EUA; não haveria um equivalente chinês de Gorbachev ou Yeltsin. A partir desse período, os neoconservadores começaram a adotar uma abordagem totalmente confrontativa com a China e buscar sua contenção. Ao mesmo tempo, alguns falcões liberais pró-democratas fundaram a CNAS, e Hillary Clinton, então secretária de Estado, liderou o desenvolvimento e a implementação do Pivô Asiático, uma mudança estratégica na política externa dos EUA que foi aplaudida pelos neoconservadores, que ainda estavam no campo republicano na época. Clinton foi saudado como uma “voz forte” por Max Boot, um comentarista político e membro sênior da CFR, que, em 2003, escreveu que, “dada a bagagem histórica que o ‘imperialismo’ carrega, não há necessidade de o governo dos EUA abraçar o termo. Mas deve definitivamente abraçar a prática” (Daalder, Lindsay, 2003). Hoje, estender a Otan à Ucrânia e confrontar a Rússia continua a ser uma prioridade para os neoconservadores e os falcões liberais. Ambos os grupos discordam dos realistas que propõem uma distensão com a Rússia, a fim de fortalecer o confronto com a China.</p>
<p>No entanto, a eleição de Donald Trump em 2016 criou uma breve turbulência no consenso dentro da CFR. Como John Bellamy Foster escreveu em seu livro de 2017 <em>Trump in the White House: Tragedy and Farce</em> [Trump na Casa Branca: Tragédia e Farsa], o ex-presidente chegou ao poder em parte pela mobilização de um movimento neofascista formado pela classe média-baixa branca. Apenas um pequeno número de pessoas do grande capital o apoiou inicialmente. Entre eles estavam Dick Uihlein, o dono da gigante de transporte Uline; Bernie Marcus, o fundador do varejista de materiais de construção Home Depot; Robert Mercer, um investidor na mídia de extrema-direita Breitbart News Network; e Timothy Mellon, neto do magnata bancário Andrew Mellon. A tendência de Trump de reduzir o engajamento nos assuntos globais — como visto com a retirada das tropas da Síria e o início da retirada do Afeganistão, bem como o contato diplomático com a Coreia do Norte — favoreceu os interesses de curto prazo da pequena burguesia e ganhou o apoio de realistas da política externa, incluindo Henry Kissinger, mas isso perturbou os neoconservadores. Um grupo da elite neoconservadora desempenhou um papel importante na campanha contra Trump, com cerca de 300 funcionários que apoiaram a administração Bush defendendo o Partido Democrata na eleição de 2020. Isso incluiu o já citado Boot, que se tornou um líder do pensamento na política externa e teve um forte impacto na administração Biden.</p>
<p>Sob Biden, o consenso da CFR foi retomado, e os neoconservadores e falcões liberais tornaram-se completamente alinhados na orientação estratégica do país. A consciência da ascensão da China promoveu uma unidade entre esses dois grupos nunca vista em décadas. Essa unidade se baseia na teoria dos assuntos internacionais que estipula que os Estados Unidos devem intervir ativamente na política de outros países, fazer todos os esforços para promover a “liberdade e a democracia”, reprimir os Estados que desafiam o domínio econômico e militar ocidental, remover governos indesejados e garantir a hegemonia global por todos os meios – com a Rússia e a China como seus principais alvos. Em maio de 2021, o secretário de Estado Antony Blinken (que anteriormente foi secretário-adjunto de Estado sob Obama) declarou que os EUA defendiam uma ambígua “ordem internacional baseada em regras”, um termo que se refere a organizações internacionais e de segurança dominadas pelos EUA, em vez de instituições mais amplas baseadas na ONU. A posição de Blinken sugere que, sob o governo Biden, os falcões liberais abandonaram oficialmente a pretensão de seguir a ONU ou outras organizações multilaterais internacionais, a menos que se curvem ao <em>diktat</em> dos EUA.</p>
<p>Em 2019, o proeminente neoconservador Robert Kagan foi coautor de um artigo com Antony Blinken, instando os Estados Unidos a abandonarem a política <em>America First,</em> de Donald Trump. Eles pediram a contenção (isto é, cerco e enfraquecimento) da Rússia e da China e propuseram uma política de “diplomacia preventiva e dissuasão” contra os adversários estadunidenses, ou seja, tropas e tanques onde for considerado necessário. Aliás, a esposa de Kagan, Victoria Nuland, serviu como secretária assistente de Estado para assuntos europeus e eurasianos no governo Obama. Nuland desempenhou um papel fundamental na organização e apoio à revolução colorida de 2014 na Ucrânia e se gabou dos bilhões de dólares que os Estados Unidos gastaram para “promover a democracia” no país (Nuland, 2013). Atualmente, ela está servindo como subsecretária de Estado para assuntos políticos no governo Biden, a terceira posição mais alta no Departamento de Estado depois do secretário Blinken e da secretária-adjunta Wendy Sherman. Ela também é uma herdeira espiritual de sua mentora, a líder liberal belicista Madeleine Albright.</p>
<p>A orientação dos liberais pró-guerra defendida por Kagan e Blinken foi levada um passo adiante pelo <em>think tank </em>da Otan, o Conselho Atlântico, que tem defendido a <em>Brinkmanship</em><a href="#_section_3_ftn3" name="_section_3_ftnref3"><sup>3</sup></a> nuclear. Em fevereiro, Matthew Kroenig, vice-diretor do Centro de Estratégia e Segurança do Conselho Atlântico, defendeu a possibilidade do uso preventivo de armas nucleares “táticas” pelos EUA (Kroenig, 2022).</p>
<p>A partir desse pequeno círculo de belicistas, pode-se facilmente detectar a profunda integração de dois grupos de elite das relações exteriores, ambos os quais são os verdadeiros impulsionadores da crise da Ucrânia. A evolução dessa crise revela o seguinte conjunto de táticas adotadas por esse grupo beligerante:</p>
<ul>
<li>fortalecer a liderança dos EUA sobre a Otan, usando a aliança militar (e não a ONU) como principal mecanismo de intervenção estrangeira;</li>
<li>provocar um suposto adversário para a guerra, recusando-se a reconhecer sua reivindicação por soberania e por segurança sobre regiões sensíveis;</li>
<li>planejar o uso de armas nucleares táticas e conduzir uma “guerra nuclear limitada” dentro ou ao redor do chamado território adversário; e</li>
<li>impor uma guerra híbrida a fim de enfraquecer e subverter o adversário por meio de medidas coercitivas unilaterais e combinar sanções econômicas com medidas financeiras, informacionais, propagandísticas e culturais, juntamente com uma revolução colorida, guerra cibernética, <em>lawfare</em> e outras táticas.</li>
</ul>
<p>Se os resultados desejados forem alcançados na Ucrânia, a mesma estratégia será, sem dúvida, replicada no Pacífico Ocidental.</p>
<p>O alinhamento estratégico não significa que as elites políticas não estejam divididas em outras questões que considerem de menor importância, como as mudanças climáticas. Mesmo sobre esse assunto, no entanto, os Estados Unidos exigem que a Europa pare de importar gás natural da Rússia. John Kerry, assessor de Biden para assuntos climáticos, não se compromete com os potenciais impactos ambientais negativos de tal movimento, em parte porque os Estados Unidos querem substituir as vendas de gás russo na Europa por seus próprios recursos.</p>
<p>Nos últimos anos, forças progressistas em todo o mundo lançaram várias campanhas internacionais para expressar suas preocupações sobre a estratégia global agressiva que está sendo buscada pelos EUA, muitas vezes usando o termo “Nova Guerra Fria”. No entanto, as narrativas apresentadas às vezes subestimam a depravação de alguns aspectos da atual política externa dos EUA. A “Velha Guerra Fria” com a União Soviética seguiu certas regras e pano de fundo: os Estados Unidos usaram uma variedade de meios políticos e econômicos para exercer pressão e procurar subverter o Estado soviético, e os dois lados reconheceram o escopo de interesses e necessidades de segurança um do outro. No entanto, os EUA não tentaram mudar as fronteiras nacionais dos adversários nucleares. Não é o caso de hoje, como visto pela declaração aberta do<em> The Wall Street Journal, </em>de que os Estados Unidos devem demonstrar sua capacidade de vencer uma guerra nuclear, uma posição que é subjugada pela alegação da elite da política externa de que a Ucrânia e Taiwan devem ser protegidos, pois ambos são locais estratégicos dentro do perímetro militar ocidental (Cropsey, 2022). Até mesmo o líder da Guerra Fria, Kissinger, expressou preocupação e oposição à atual política externa dos EUA, argumentando que a estratégia correta é dividir a China e a Rússia, e advertiu que haverá consequências perigosas se os EUA prosseguirem simultaneamente com a guerra direta contra esses dois Estados nucleares.</p>
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<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>A burguesia dos EUA se prepara para a guerra contra a China</strong></span></h3>
<p>Washington tem procurado economicamente desatrelar os Estados Unidos da China por meio de guerras comerciais e tecnológicas, um processo que foi iniciado pelo governo Trump e continuou sob a liderança de Biden. No entanto, essa política gerou consequências não intencionais. Por um lado, devido à formação de cadeias globais de suprimentos, as indústrias manufatureiras dos EUA e da Europa dependem fortemente das importações da China, e Biden enfrentou a oposição interna com apelos para reduzir as tarifas de guerra comercial, a fim de aliviar a enorme pressão da inflação nos Estados Unidos. Por outro lado, embora a China não tenha iniciado a dissociação econômica, a pressão das guerras comerciais e tecnológicas tem promovido o desenvolvimento da “grande circulação interna” no país (reduzindo a dependência das exportações e confiando mais no consumo interno). Desde a pandemia, houve um aumento superficial do comércio de mercadorias entre os EUA e a China.</p>
<p>Deve-se notar, no entanto, que há uma mudança em curso na lógica básica das relações dos EUA com a China: a burguesia estadunidense vem apertando sua aliança contra a China e apoiando a estratégia belicista de Washington. Essa situação decorre tanto de fatores econômicos quanto ideológicos. Por um lado, os números do PIB dos EUA e de outros países do Ocidente mascaram as contribuições feitas pelo trabalho em fábricas no Sul Global. Por exemplo, as vendas altamente rentáveis da Apple nos Estados Unidos aparecem no PIB estadunidense, mas a fonte real de seus altos retornos é o excedente criado pela força de trabalho qualificada e muito eficiente em Shenzhen, Chongqing e outras cidades da China, onde as fábricas da Foxconn estão localizadas (Smith, 2012).<a href="#_section_3_ftn4" name="_section_3_ftnref4"><sup>4</sup></a> A China percorreu um longo caminho desde a era das grandes fábricas com trabalhadores não qualificados com baixa remuneração e desenvolveu uma infraestrutura industrial, logística e social extremamente sofisticada que, a partir de 2019, representou 28,7% da manufatura global (Richter, 2021). Mudar toda a cadeia de suprimentos da China para a Índia ou México seria um processo de décadas e não pode ser baseado apenas em salários mais baixos.</p>
<p>Poucos setores da economia dos EUA dependem fortemente do mercado chinês local para vendas; os fabricantes de chips dos EUA são a exceção. Grandes empresas como Boeing, Caterpillar, General Motors, Starbucks, Nike, Ford e Apple obtêm menos de 25% de sua receita da China. A Apple, por exemplo, obtêm 17% (Yahoo! Finance, 2020). A receita total das empresas do S&amp;P 500 é de 14 trilhões de dólares, não mais que 5% dos quais estão relacionados às vendas dentro da China (Yardeni Research, Inc., 2022). É improvável que os CEOs estadunidenses se oponham aos rumos da política externa dos EUA sobre a China, uma vez que não está sendo apresentado a eles um caminho claro para aumentar seu acesso a longo prazo ao crescente mercado interno chinês. Essa atitude foi exibida durante a chamada de resultados de maio de 2022 da Disney, quando o CEO Bob Chapek expressou confiança no êxito da empresa, mesmo sem acesso ao mercado chinês (Hall, 2022). Essa abordagem em relação à China é visível nas principais indústrias dos EUA.</p>
<p><strong>Tecnologia/internet</strong>  Nove dos dez americanos mais ricos estão na indústria de tecnologia/internet, o <em>zeitgeist</em> de nosso tempo, com a exceção parcial de Elon Musk, o CEO da fabricante de automóveis elétricos Tesla, cujo primeiro pote de ouro também veio da indústria da internet. Em comparação com as listas dos estadunidenses mais ricos das últimas décadas, aqueles de setores tradicionais como manufatura, bancos e petróleo foram ultrapassados por uma elite tecnológica em ascensão, que está mergulhada em atitudes anti-China por conta das dificuldades que enfrentaram para penetrar no mercado chinês. Gigantes da tecnologia dos EUA, como Google, Amazon e Facebook, praticamente não têm mercado na China, enquanto empresas como Apple e Microsoft enfrentam dificuldades crescentes. Na última década, a empresa chinesa de tecnologia e telecomunicações Huawei ultrapassou a Apple em termos de participação de mercado na China, mas logo a Apple recuperou o primeiro lugar devido às sanções dos EUA, que proibiram a venda de chips semicondutores – um componente chave em smartphones – para Huawei. O governo chinês está supostamente adotando seus próprios sistemas de Produtividade Linux e Office para substituir os softwares Microsoft Windows e Office. Empresas tradicionais de Tecnologia da Informação (TI) como IBM, Oracle e EMC (coletivamente referida como IOE) têm sido marginalizadas no mercado chinês pela onda liderada pelo Alibaba, que busca substituir servidores IBM, bancos de dados Oracle e dispositivos de armazenamento EMC por soluções próprias e de código aberto. Gigantes da tecnologia dos EUA anseiam por uma mudança no sistema político chinês que abriria as portas para o enorme mercado do país, e os principais atores desse setor estão trabalhando ativamente para que a política externa hostil de Washington avance. Eric Schmidt, ex-CEO e presidente executivo do Google, liderou o estabelecimento da Unidade de Inovação em Defesa do governo dos EUA em 2016 e da Comissão Nacional de Segurança Sobre Inteligência Artificial em 2018. Sua fervorosa promoção da teoria da “Ameaça chinesa” reflete a opinião predominante da comunidade <em>tech</em> dos EUA, que também molda o discurso público. O Twitter e o Facebook fizeram parcerias com governos dos EUA e do Ocidente para censurar cada vez mais as críticas à sua política externa e influenciar a discussão em torno de questões-chave — como a pandemia, Hong Kong e Xinjiang — em nome do combate a campanhas de desinformação supostamente lançadas pela China e outros pseudos adversários.</p>
<p><strong>Manufaturas </strong>A indústria manufatureira dos EUA continua dependente da capacidade de produção chinesa. O investimento consistente e a inovação tecnológica no setor de manufaturas dos EUA foram efetivamente abandonados durante o período neoliberal e, apesar dos apelos de Obama e Trump para que o setor se aproximasse novamente ao território estadunidense, pouco foi realizado a esse respeito. No entanto, os investimentos no setor manufatureiro dos EUA na China diminuíram nos últimos anos, com a notável exceção da mega fábrica da Tesla em Xangai. Mesmo nesse caso, no entanto, é importante notar que Elon Musk ganhou inúmeros contratos de aquisição da área militar do governo dos EUA por meio de sua empresa de exploração espacial SpaceX, cujo sistema de satélites Starlink foi criticado pela China por sua “proximidade” com a estação espacial chinesa em duas ocasiões em 2021. O Exército Popular de Libertação Chinês alertou que os EUA podem tentar militarizar o sistema Starlink. A implantação dos serviços da Starlink na Ucrânia durante a guerra é uma evidência dessa dinâmica. A possível aquisição do Twitter por Musk dificilmente mudaria o relacionamento da empresa com os governos dos EUA e do Ocidente e a orientação em relação à China e à Rússia.</p>
<p><strong>Finanças </strong><em> </em>A indústria de serviços financeiros dos EUA há muito espera que os mercados de capitais chineses se abram ainda mais para eles. Sua esperança final é a mudança de regime no país que levaria a um caminho neoliberal. A atitude anti-chinesa do influente magnata financeiro e filantropo húngaro George Soros é bem conhecida. Em janeiro de 2022, Soros tuitou que “a China de Xi Jinping é a maior ameaça que as sociedades abertas enfrentam hoje”. Esses comentários vieram depois que Jamie Dimon, o CEO do JPMorgan Chase, declarou em novembro de 2021 que o banco multinacional sobreviveria ao Partido Comunista da China (embora mais tarde ele tenha se desculpado por esse comentário dizendo que estava brincando). Dimon também insinuou que a China sofreria um forte ataque militar se tentasse unificar Taiwan, uma ameaça pela qual não se desculpou (Henry; Daga, 2021). Essa atitude hostil é uma resposta ao fato de que os mercados de capitais da China não estão avançando na direção que Wall Street gostaria, como evidenciado pelo governo chinês com o fortalecimento dos controles de capital e desindexando uma série de ações chinesas da bolsa de valores dos EUA. Na reunião anual de acionistas do conglomerado de investimentos Berkshire Hathaway em 2022, Charlie Munger, vice-presidente da empresa, afirmou que a China ainda valia o investimento. Mesmo nesse caso, no entanto, Munger aceitou a premissa de seu entrevistador, que caracterizou o governo chinês como um “regime autoritário” que comete “violações dos direitos humanos”. Para Munger, a China só vale o risco extra porque se pode investir em negócios melhores a preços mais baixos.</p>
<p><strong>Setores de varejo e consumo </strong>As indústrias de varejo e consumo dos EUA têm sido espremidas por seus concorrentes chineses. Em março de 2021, a Nike e outras empresas boicotaram o algodão de Xinjiang por alegações falsas de trabalho forçado. Pouco depois, a Nike divulgou um anúncio que foi criticado por promover estereótipos racistas sobre os chineses, resultando em uma nova perda de sua participação de mercado, que já havia começado a ser flanqueada pela marca chinesa Anta.</p>
<p>Além disso, há uma desconexão significativa entre as indústrias cultural e de entretenimento dos dois países, com filmes produzidos internamente representando 85% das bilheterias chinesas em 2021. Os filmes de super-heróis da Marvel, outrora populares entre os cinéfilos chineses, não conseguiram entrar no mercado chinês devido a preocupações ideológicas, com zero bilheteria na China em 2021. A recente produção da Marvel,<em> Doutor Estranho no Multiverso da Loucura, </em>apresenta mais uma vez cenas contrárias à China, incluindo uma referência ao jornal anti-governo de extrema direita<em> The Epoch Times</em>. O filme não foi exibido no gigante asiático. Esses casos refletem as trocas de empresas americanas entre interesses comerciais — atingindo o mercado consumidor chinês — e ideologia política — opondo-se ao sistema político chinês.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><strong><span style="color: #ba2025;">O complexo militar-industrial dos EUA e o desejo pela guerra</span> </strong></h3>
<p>O complexo militar-industrial dos EUA desempenha um papel especial na galvanização da cooperação entre setores estratégicos econômicos, tecnológicos, políticos e militares em direção a interesses imperialistas. Em 2021, os seis maiores contratados militares do mundo — Lockheed Martin, Boeing, Raytheon Technologies, BAE Systems, Northrop Grumman e General Dynamics — tiveram vendas combinadas de mais de 128 bilhões de dólares para o governo dos EUA (Bloomberg, 2021). Grandes empresas de tecnologia, incluindo Amazon, Microsoft, Google, Oracle, IBM e Palantir (fundada pelo extremista Peter Thiel) formaram laços estreitos com os militares dos EUA, assinando milhares de contratos no valor de dezenas de bilhões de dólares nas últimas décadas (Glaser, 2020; Nograles, 2021; Konkel, 2021). A indústria tecnológica desempenha o papel estratégico de coletar dados no vasto império de inteligência dos EUA e está no centro da hegemonia <em>soft power</em> das mídias e redes sociais dos EUA, garantindo a dominação digital sobre a maioria do Sul Global. Como tal, esse setor se tornou imune a uma regulação significativa ou ameaças de desmonopolização.</p>
<p>O impulso estadunidense pela supremacia militar leva a gastos nas áreas de armas, tecnologia computacional (chips de silício, em particular), comunicações avançadas (incluindo guerra cibernética por satélite) e biotecnologia. O governo dos EUA solicitou oficialmente 813 bilhões de dólares para os militares como parte de seu orçamento de 2023 (o que não leva em conta gastos militares adicionais disfarçados em outros setores do orçamento global), e o Pentágono afirma que precisará de pelo menos 7 trilhões de dólares nos próximos dez anos (Stone, 2022; Cohen, 2021).</p>
<p>A privatização do Estado sob o neoliberalismo levou ao desenvolvimento de uma porta giratória entre o governo dos EUA e o setor privado nas últimas quatro décadas. O Estado tornou-se um veículo para altos funcionários do governo, incluindo congressistas, senadores, conselheiros políticos e de segurança, membros do gabinete, coronéis, generais e presidentes de ambos os partidos se tornarem multimilionários, aproveitando seu <em>status</em> e conhecimento de alguém de dentro do governo, a ser usado por grupos de interesse privado.<a href="#_section_3_ftn5" name="_section_3_ftnref5"><sup>5</sup></a> Dentro da burocracia governamental, a frase “segurança nacional” abre a torneira para a ganância pessoal e corporativa e a expansão militar radical ainda mais ampla. Sob essa forma predominante de Primeiro Mundo, corrupção legalizada, as empresas frequentemente fazem pagamentos aos funcionários depois de deixarem cargos públicos. Esses subornos legais são essencialmente pagamentos em atraso por serviços concedidos enquanto estão no cargo. Por exemplo, ao deixar o cargo, ex-funcionários públicos são frequentemente contratados como funcionários privados, membros do conselho ou conselheiros com as mesmas empresas que anteriormente haviam defendido, desde que votassem favoravelmente ou concedessem contratos governamentais como funcionários públicos (Freeman, 2012). Alguns exemplos proeminentes dessa dinâmica difundida incluem o seguinte:</p>
<ul>
<li>Bill Clinton alega ter uma dívida de 16 milhões de dólares quando deixou a Casa Branca em 2001, mas, em 2021, tinha uma fortuna estimada de cerca de 80 milhões de dólares (DiSalvo, 2021).</li>
<li>Com uma chocante impunidade, pelo menos 85 das 154 pessoas de grupos de interesse privado que se reuniram ou tiveram conversas telefônicas agendadas com Hillary Clinton – enquanto ela liderava o Departamento de Estado sob o presidente Obama – doaram um combinado de 156 milhões de dólares para a Fundação Clinton (CNBC, 2016).</li>
<li>James “Mad Dog” Mattis, um general quatro estrelas aposentado, ex-secretário de Defesa de Trump e ex-membro do conselho da CNAS, teve um patrimônio líquido de 7 milhões de dólares em 2018, cinco anos após sua “aposentadoria” militar. Isso foi obtido por meio de pagamentos significativos de uma ampla lista de empresários do setor militar e incluiu de 600 mil a 1,25 milhão de dólares em ações e opções na grande empresa de defesa General Dynamics (Herb, O’brien, 2017).</li>
<li>Lloyd Austin, secretário de Defesa do presidente Biden, anteriormente serviu no conselho de administração de várias empresas militares, como United Technologies e Raytheon Technologies. Austin ganhou a maior parte de seu patrimônio líquido de 7 milhões de dólares depois de “se aposentar” como general quatro estrelas (Alexander, 2021).</li>
</ul>
<p>Entre 2009 e 2011, mais de 70% dos principais generais dos EUA trabalharam para contratistas militares depois de se aposentarem de seu cargo. Os generais também dobram a remuneração ao receber simultaneamente compensações do Pentágono e pagamentos de contratistas militares privados (Johnson, 2012). Só em 2016, cerca de 100 oficiais militares americanos passaram pela porta giratória entre o governo e contratistas militares privados, incluindo 25 generais, 9 almirantes, 43 tenentes-generais e 23 vice-almirantes (Vanden Brook, Dilanian, Locker, 2009).</p>
<p>Durante o governo Trump, muitos funcionários da era Obama se mudaram para o setor privado, dando consultoria e aconselhando as maiores corporações do mundo, para logo na sequência retornarem à Casa Branca sob Biden. Em uma exibição impressionante desta porta giratória, o governo Biden nomeou mais de 15 altos funcionários da empresa de consultoria corporativa WestExec Advisors, fundada em 2017 por uma equipe de ex-funcionários do governo Obama que afirma fornecer “análises incomparáveis de risco geopolítico” para seus clientes – incluindo “Gerenciamento de Risco Relacionado à China em uma Era de Concorrência Estratégica” (Guyer, Grim, 2021; WestExec Advisors, 2022). A empresa facilita a cooperação entre o setor <em>Big Tech</em> e os militares dos EUA, com clientes como Boeing, Palantir, Google, Facebook, Uber, AT&amp;T, a empresa de vigilância de drones Shield AI e a empresa israelense de inteligência artificial Windward. Os ex-funcionários da WestExec que trabalham na administração Biden incluem o secretário de Estado Blinken, o diretor de Inteligência Nacional Avril Haines, o vice-diretor da CIA, David Cohen, o secretário assistente de Defesa para assuntos de segurança indo-pacífico Ely Ratner, e a ex-secretária de Imprensa da Casa Branca Jen Psaki (Guyer, Grim, 2021; Thompson, Meyer, 2021; Lipton, Vogel, 2020).</p>
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<div id="attachment_64443" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-64443" class="wp-image-64443 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/09/Graph-2_PT.jpg" alt="" width="950" height="990" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/09/Graph-2_PT.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/09/Graph-2_PT-288x300.jpg 288w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/09/Graph-2_PT-768x800.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-64443" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #ba2025;">O fluxo da WestExec para a administração Biden, parte um. Gráfico: Soohee Cho/The Intercept</span><a href="#_section_3_ftn6" name="_section_3_ftnref6"> <sup><span style="color: #ba2025;">6</span></sup></a></small></p></div>
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<h3 style="margin:2em 0;"><strong><span style="color: #ba2025;">O enfraquecimento da resistência doméstica ao militarismo dos EUA</span> </strong></h3>
<p>Em 1973, os Estados Unidos aboliram a obrigatoriedade do serviço militar, ou o que era conhecido como o conscrição; depois, os militares dos EUA passaram a se referir inteligente e enganosamente ao seu exército como um exército de voluntários. Isso foi feito para reduzir a oposição interna às guerras dos EUA no exterior, especialmente dos filhos de famílias com propriedades e de classe média que se tornaram explicitamente contra a guerra no Vietnã. Embora a medida tenha se justificado em nome da escolha de soldados mais profissionais e dedicados, na realidade, a burguesia procurou aproveitar as vulnerabilidades econômicas das famílias mais pobres da classe trabalhadora, recrutadas para o serviço militar por meio de ofertas de treinamento técnico e ganhos estáveis. Os avanços tecnológicos permitiram que os Estados Unidos aumentassem simultaneamente sua capacidade de matar civis e combatentes inimigos nos países invadidos, reduzindo a taxa de morte de soldados americanos. Por exemplo, na guerra de 2,2 trilhões de dólares contra o Afeganistão entre 2001 e 2021, apenas 2.442 (1%) das 241 mil pessoas mortas (incluindo mais de 71 mil civis) eram militares dos EUA (Crawford, Lutz, 2021). A redução do número de mortes nos EUA e o aumento de contratistas privados enfraqueceu a conexão emocional doméstica com as campanhas de guerra dos EUA. Em meados da década de 2010, estima-se que quase metade das forças armadas dos EUA no Iraque e no Afeganistão eram empregados de contratistas privados (Stinchfield, 2017). Em 2016, a maior empresa militar privada do mundo, a ACADEMI (inicialmente fundada por Erik Prince como Blackwater) foi comprada pela maior empresa de <em>private equity</em> do mundo, Apollo, por cerca de 1 bilhão de dólares (Wilkers, 2016). Longe de um exército de voluntários, é cada vez mais adequado descrever o atual exército estadunidense como um exército de mercenários.</p>
<p>Os Estados Unidos estão ainda mais encorajados em seu belicismo pelo fato de que, embora tenham invadido ou participado de operações militares em mais de cem países, nunca foi invadido ou experimentou baixas civis em larga escala nas mãos de governos estrangeiros. A psicologia do excepcionalismo dos EUA é moldada pelo fato de que a atual geração de elites políticas cresceu em grande parte após o fim da Guerra Fria, um período definido como o chamado “fim da história”, quando seu país parecia ser invencível. Os Estados Unidos não tinham experimentado um desafiante sério no exterior ou em casa até a ascensão da China. Como resultado, essa elite é particularmente ahistórica em sua visão de mundo, tomada por ilusões de grandeza, e consequentemente se sente sem restrições — uma combinação extremamente perigosa.</p>
<p>O complexo militar-industrial, composto por generais, políticos, empresas de tecnologia e empresas militares privadas, está buscando uma expansão maciça da capacidade militar dos EUA. Hoje, quase todos em Washington usam a China, bem como a Rússia, como pretexto para este acúmulo. Enquanto isso, muitos deles cometeram ou apoiaram crimes de guerra no Iraque, Afeganistão, Síria, Líbia e em outros lugares.</p>
<p>Poucos capitalistas influentes nos Estados Unidos estão dispostos individualmente a se posicionarem abertamente contra o coro que demoniza a China, e aqueles que o fazem são disciplinados ou ostracizados. Raramente se depara com opiniões dissidentes publicamente ou pedidos de contenção nas seções <em>op-ed</em> do <em>The New York Times</em> ou <em>The Wall Street Journal</em>. Durante a campanha presidencial de 2020, Michael Bloomberg foi fortemente criticado por ser “suave” com a China depois que afirmou que o Partido Comunista era responsivo ao povo e se recusou a rotular o presidente Xi Jinping como um ditador. Bloomberg parece ter sido disciplinado com sucesso; sob o governo Biden, juntou-se à histeria belicista e foi nomeado presidente do Conselho de Inovação em Defesa do Pentágono em fevereiro de 2022. A empresa global de consultoria de gestão McKinsey &amp; Company, que tem favorecido um maior engajamento econômico com a China, tem enfrentado crescentes críticas, sendo difamada pelo <em>The New York Times </em>por “ajudar a elevar a estatura de governos autoritários e corruptos em todo o mundo” (Bogdanich, Forsythe, 2018). Consequentemente, a influência de McKinsey nos círculos de negócios dos EUA foi muito enfraquecida. Embora um pequeno número de figuras – como Ray Dalio, investidor bilionário e fundador da Bridgewater Associates – continue a expressar otimismo sobre as relações EUA-China, eles são exceções.</p>
<p>Mais criticamente, aqueles no atual alto escalão da elite burguesa dos EUA diversificaram seus investimentos em uma série de indústrias, permitindo-lhes superar os estreitos interesses econômicos de curto prazo de qualquer setor e se alinhar com o “quadro geral” da estratégia dos EUA. Em contraste com milionários de gerações passadas que estavam focados em uma única indústria, os bilionários de hoje desenvolveram uma consciência mais compartilhada e podem vislumbrar os principais retornos a longo prazo de um mercado chinês totalmente liberalizado que ocorreria após a derrubada do Estado chinês. Consequentemente, esses bilionários são motivados a apoiar a contenção dos EUA em relação à China, apesar das perdas de curto prazo que podem sofrer como resultado. Como detalhado acima, essa grande burguesia financia um grande espectro de <em>think tanks</em> e grupos políticos por meio de fundações sem fins lucrativos, moldando discussões e propostas políticas dos EUA.</p>
<p>Entre a classe média alta, há um pequeno grupo de isolacionistas libertários de extrema-direita compostos principalmente por intelectuais e representados pelo Instituto Cato. Essa rede política se posiciona contra o Sistema da Reserva Federal dos EUA e intervenção estrangeira e se opõe ao papel dos EUA na Ucrânia. No entanto, é marginalizada na área de política externa dos EUA e não exerce muita influência.</p>
<p>Como Karl Marx observou uma vez, os capitalistas sempre foram um “bando de irmãos em guerra”. Esse bando mantém um Estado moderno que tem um corpo maciço e permanente de homens e mulheres armados, funcionários de inteligência e espiões. Em 2015, 4,3 milhões de pessoas nos Estados Unidos tinham autorização para acessar material governamental “confidencial”, “secreto” ou “ultrassecreto” (Congressional Research Service, 2016). Independentemente de qualquer resultado eleitoral, esse aparato estatal é finalmente capaz de exercer seu domínio e orientar a política externa dos EUA, como evidenciado durante a incapacidade do governo Trump de implementar sua própria política externa.</p>
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<h3 style="margin:2em 0;"><strong><span style="color: #ba2025;">A ascensão da extrema direita e a falsa natureza dos pesos e contrapesos no sistema político estadunidense</span> </strong></h3>
<p>A hostilidade da elite burguesa e das classes médias dos EUA em relação à China tem raízes profundas e racistas. Os quatro anos de Trump no cargo coincidiram com a formação de uma coalizão unida de movimentos populistas e supremacistas brancos de direita conhecidos como Alt-Right. Stephen Bannon, porta-voz deste movimento, é um ex-presidente do site supremacista branco<em> Breitbart News Network</em> e é, sem surpresa, um dos mais ativos ativistas anti-China nos Estados Unidos. A base de apoio da Alt-Right vem da classe média baixa: a maioria são pessoas brancas com renda familiar anual de cerca de 75 mil dólares. Enquanto Bannon e até o próprio Trump gostam de se gabar do apoio que recebem da “classe operária branca”, sua base de apoio principal é, na verdade, a classe média baixa — não o operariado.</p>
<p>O Partido Republicano beneficiou eleitoralmente a criação desse bloco de votação neofascista. A Alt-Right tende a idolatrar grandes personalidades capitalistas e deseja mobilidade ascendente para se juntar à elite. Esse bloco expressa ódio tanto aos líderes políticos e culturais da elite por bloquearem seu caminho para a riqueza, bem como para a classe trabalhadora. Em 1951, o proeminente sociólogo americano C. Wright Mills ofereceu a seguinte caracterização das classes médias dos EUA:</p>
<p style="padding-left: 40px;">Elas estão na retaguarda. No curto prazo, buscarão formas assustadoras de prestígio; a longo prazo, buscarão os caminhos do poder, pois, no final, o prestígio é determinado pelo poder. Enquanto isso, no mercado político (…) as novas classes médias estão à venda; quem parece respeitável o suficiente, forte o suficiente, provavelmente pode comprá-los. Até agora, ninguém fez uma oferta séria (Mills, 1951, p. 353).</p>
<p>O governo Trump deslocou o ressentimento da classe média baixa por sua deterioração econômica para a China. A economia dos EUA nunca se recuperou totalmente da crise hipotecária de 2008, quando a política monetária frouxa permitiu que os grandes capitalistas colhessem enormes lucros enquanto a classe trabalhadora e a classe média baixa sofreram grandes perdas. Esse último grupo, irritado e frustrado com sua situação e precisando de um porta-voz, foi mobilizado por Trump e se tornou sua principal fonte de votos com a ajuda dos supremacistas brancos, do capitalismo racial e de uma Nova Guerra Fria para suprimir totalmente a China como um oponente.</p>
<p>Hoje, a hostilidade contra a China se tornou generalizada em toda a população dos EUA. A impressão de que a China é o arqui-inimigo do mundo livre e a maior ameaça aos Estados Unidos tem sido enfaticamente reforçada pelos principais meios de comunicação e plataformas de internet, enquanto a liberdade de expressão para aqueles que se opõem a essa tendência perigosa tem sido cada vez mais restrita. Qualquer reconhecimento das perspectivas russas e chinesas ou críticas à política externa dos EUA em relação a esses países sofre fortes críticas. A opinião pública nos Estados Unidos se assemelha cada vez mais ao período macartista da década de 1950 e, de certa forma, o clima social tem semelhanças perturbadoras com o da Alemanha no início da década de 1930.</p>
<p>Os que estão alheios à política estadunidense não entendem a real natureza dos controles e equilíbrios e a separação de poderes no sistema político dos EUA. Ao contrário da história das reformas constitucionais europeias que foram geradas por movimentos revolucionários sociais, a Constituição dos EUA, originalmente fundada por um grupo de proprietários (incluindo escravistas), foi projetada desde o início para proteger os direitos dos donos de propriedades privadas contra o que temiam que poderia se tornar uma regra mafiosa. Até hoje, a Constituição permite o desmantelamento da maioria dos direitos sociais e legais burgueses tradicionais.</p>
<p>Medidas como o colégio eleitoral, originalmente implementada para proteger os interesses da exploração de escravos do sul e outros estados rurais menores, foram projetadas para impedir o voto direto do povo para presidente (uma pessoa, um voto). Esse sistema antidemocrático, que é protegido por um processo difícil e oneroso para alterar a Constituição, resultou tanto nas vitórias de Bush Jr. quanto na de Trump para a presidência, apesar de terem recebido menos votos que seus respectivos oponentes. Apesar da eventual extensão dos direitos de voto para negros, mulheres e pessoas sem propriedade, a desoneração dos eleitores continua até hoje. Desde 2021, 19 estados promulgaram um total de 34 leis de supressão de votantes que poderiam limitar os direitos de voto de até 55 milhões de eleitores nesses estados (Eskridge; Barnes, 2022). Enquanto isso, a Suprema Corte não eleita tem o poder de derrubar a legislação de direitos de voto, derrubar ações afirmativas e permitir que organizações religiosas apreciem os direitos civis.</p>
<p>Uma decisão da Suprema Corte de 2010 conhecida como <em>Citizens United</em> retirou os limites das contribuições privadas e corporativas para as eleições, tornando-as uma disputa de força financeira (Vandewalker, 2020). Nas eleições de 2020, os gastos totais para as corridas presidenciais e parlamentares foram de 14 bilhões de dólares (Schwartz, 2020). Há também a competição psicológica-tecnológica: as ferramentas persuasivas baseadas em mídias sociais, economia comportamental e Big Data desempenham um papel enorme na formação dos processos eleitorais. Ao mesmo tempo, essas ferramentas são extremamente caras, ajudando a garantir que a política seja um jogo quase exclusivo para os ricos. Em 2015, a riqueza mediana dos senadores dos EUA ultrapassou 3 milhões de dólares (Kopf, 2018). Este é um governo que dificilmente o povo pode fazer valer mecanismos de pesos e contrapesos.</p>
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<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Estamos condenados à guerra?</strong></span></h3>
<p>Em 2014, Xi Jinping, pouco depois de se tornar o principal líder da China, disse então ao presidente Obama que, “o amplo Oceano Pacífico é vasto o suficiente para abraçar tanto a China quanto os Estados Unidos” (Embaixada da República Popular China nos Estados Unidos, 2014). Rejeitando esse aceno diplomático, a então secretária de Estado Hillary Clinton se gabou em um discurso privado de que os Estados Unidos poderiam chamar o Pacífico de “Mar Americano” e ameaçaram “tocar a China com defesa antimísseis” (Gallo, 2016). Em 2020, o Centro de Pesquisa em Economia e Negócios do Reino Unido (CEBR) previu que a China ultrapassaria os Estados Unidos e se tornaria a maior economia do mundo até 2028, um limiar que assombra a elite estadunidense. A política externa dos EUA e a opinião pública nos últimos anos se fixaram nos preparativos para travar uma guerra quente para conter a China antes que isso possa acontecer. A guerra por procuração na Ucrânia pode ser vista como um prelúdio para essa guerra quente. A mobilização ideológica que prepara para a guerra já está em pleno vapor nos Estados Unidos. As rodas do neofascismo estão girando, e uma nova era do macartismo surgiu. As chamadas políticas democráticas são apenas um disfarce para o governo da elite burguesa; elas não servirão como um mecanismo de frenagem para a máquina de guerra.</p>
<p>Há 140 milhões de pessoas que trabalham e são pobres nos Estados Unidos, e 17 milhões  de crianças passando fome — seis milhões a mais que antes da pandemia (Barnes, 2019. Save the Children, 2021).<sup>.</sup> Embora uma parte dessa classe expresse apoio ideológico à política belicista dos EUA, esse apoio contradiz diretamente seus interesses: o orçamento militar de quase trilhões de dólares vem às custas de fundos para garantir saúde, educação, infraestrutura e outros direitos humanos, bem como combater as mudanças climáticas. Historicamente, grupos progressistas nos Estados Unidos, como os movimentos negros e feministas, têm um forte espírito de luta antiguerra, e líderes como Martin Luther King Jr. e Malcolm X lutaram corajosamente para construir uma onda de resistência à agressão dos EUA no sudeste da Ásia. Infelizmente, hoje, alguns (mas não todos) líderes progressistas nos Estados Unidos não estão dispostos a desafiar a campanha anti-China de Washington ou, pior, até se tornaram apoiadores dela.</p>
<p>Há vozes importantes nos Estados Unidos que se posicionam. No entanto, deve-se notar que os poucos grupos progressistas contrários a uma Nova Guerra Fria foram zombados por supostamente justificarem o genocídio em Xinjiang. O sistema político dos EUA trabalha impiedosamente para marginalizar vozes dessa parte da sociedade.</p>
<p>Embora os Estados Unidos e seus aliados estejam agressivamente buscando a expansão militar global por meio da Otan, a grande maioria do mundo não aceita a sua guerra. Em 2 de março de 2022, a Assembleia Geral da ONU realizou a 11ª sessão especial de emergência, e os países que, juntos, constituem mais da metade da população mundial, votaram contra ou se abstiveram de votar o projeto de resolução intitulado “Agressão contra a Ucrânia”. Enquanto isso, países que representam 85% da população mundial não endossaram as sanções lideradas pelos EUA contra a Rússia (No Cold War, 2022). As tentativas de Washington de intensificar e prolongar a guerra e forçar uma dissociação de Moscou e Pequim levarão a um enorme deslocamento econômico, o que trará reações negativas consideráveis ao governo dos EUA. Mesmo países como a Índia e a Arábia Saudita estão profundamente preocupados com os excessos estadunidenses no congelamento das reservas cambiais russas e no reforço da hegemonia do dólar. Da mesma forma, os presidentes do México, Bolívia, Honduras, El Salvador e Guatemala não compareceram à Cúpula das Américas organizada em Los Angeles em junho de 2022 por causa da exclusão de Cuba, Venezuela e Nicarágua. A resistência ao domínio estadunidense está crescendo na América Latina. Deve-se notar, no entanto, que plataformas internacionais como a ONU não são realmente capazes de impedir os Estados Unidos de travar guerras. Washington se recusa a ser obrigado por qualquer coisa, menos por sua própria ordem internacional baseada em regras.</p>
<p>Nos Estados Unidos, o governo Biden está fornecendo ajuda militar maciça à Ucrânia para criar uma guerra prolongada para enfraquecer a Rússia e, na medida do possível, provocar mudança de regime. Também está se desviando do espírito das três declarações conjuntas sino-americanos e desestabilizando o estreito de Taiwan de várias maneiras. Embora os Estados Unidos tenham grande poder militar, sua força econômica atual, embora imensa, está em um estado perpétuo de declínio e crise.</p>
<p>Como John Ross mostra neste estudo em outro artigo, a supremacia econômica dos EUA está diminuindo e pode ser encerrada pelo rolo compressor econômico chinês. Além disso, Washington, juntamente com seus aliados da Otan, enfrentam múltiplas e profundas dificuldades econômicas e ecológicas. A guerra dirigida pelos EUA vai exacerbar esses problemas e pode condenar a Europa a um crescimento do PIB menor e possivelmente negativo, juntamente com a inflação e o aumento dos gastos militares socialmente inúteis. Os Estados Unidos abandonaram efetivamente qualquer pretensão de uma estratégia séria para enfrentar as mudanças climáticas, sem mencionar que sua busca interminável pela guerra exacerba a catástrofe climática. E, ironicamente, apesar do consenso político interno para a dissociação econômica, as empresas estadunidenses continuam aumentando as encomendas para a China – a dissociação substantiva continua sendo um sonho.</p>
<p>Os Estados Unidos, porém, não entrarão em colapso econômico; o impulso de Washington para a guerra, as sanções e a dissociação econômica continuarão a prejudicar sua própria economia e a colocar em risco a cadeia mundial de fornecimento de alimentos. A consequente instabilidade social global, por sua vez, enfraquecerá ainda mais a economia dos EUA e gerará mais desafios ao seu governo, incluindo a crescente oposição à hegemonia do dólar.</p>
<p>A governança social relativamente estável da China, a forte defesa nacional, a estratégia diplomática de paz e a resistência à sucumbência ao poder dos EUA podem, como disse o conselheiro de Estado chinês Yang Jiechi, permitir que o país prossiga “de uma posição de força” e eventualmente force os Estados Unidos a desistir da ilusão de que poderia entrar em guerra com a China e vencer (BBC News, 2021). É do interesse do Sul Global que a China continue sendo um Estado socialista forte e soberano e que continue a promover políticas alternativas para a governança global, como o conceito de “construir uma comunidade com um futuro compartilhado para a humanidade” e a Iniciativa de Desenvolvimento Global. Deve haver um compromisso imediato de revigorar projetos multilaterais viáveis do Sul Global, como os BRICS e o Movimento dos não-Alinhados, iniciativas em que grande parte do mundo compartilha um interesse comum. A população mundial, a grande maioria das quais está localizada no Sul Global, deve resistir à guerra e pedir a paz. Os Estados Unidos não são o primeiro império a exagerar com sua arrogância, e ele, também, eventualmente verá seu poder chegar ao fim.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Referências bibliográficas</strong></span></h3>
<div class="footnotes">
<p>“10 US Companies with Highest Revenue Exposure to China”, Yahoo! Finance, 2 ago. 2020, https://finance.yahoo.com/news/10-us-companies-highest-revenue-225350456.html.</p>
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<p>“China Says U.S. Cannot Speak from ‘a Position of Strength’”, BBC News, 19 mar. 2021, https://www.bbc.com/news/av/world-56456021.</p>
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</div>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Notas</strong></span></h3>
<div class="footnotes">
<p><a href="#_section_3_ftnref1" name="_section_3_ftn1"><sup>1</sup></a> Este artigo foi originalmente escrito para um público chinês e adaptado e publicado em <em>Guancha</em>, um site de notícias chinês.</p>
<p><a href="#_section_3_ftnref2" name="_section_3_ftn2"><sup>2</sup></a> Do inglês, “liberal hawk”. Termo utilizado para designar liberais que defendem políticas externas intervencionistas e belicistas.</p>
<p><a href="#_section_3_ftnref3" name="_section_3_ftn3"><sup>3</sup></a> Brinkmanship é uma estratégia na qual se força uma situação perigosa até à iminência de um desastre, de forma a alcançar o resultado mais vantajoso. Na política externa e nas estratégias militares pode envolver a ameaça do uso de armas nucleares.</p>
<p><a href="#_section_3_ftnref4" name="_section_3_ftn4"><sup>4</sup></a> Ver também o Caderno do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social “O iPhone e a taxa de exploração”, 22 set. 2019. Disponível em: <a class="footnote-link" href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/o-iphone-e-a-taxa-de-exploracao/">https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/o-iphone-e-a-taxa-de-exploracao/</a>  e a Carta Semanal 39 de 2019: “Quantos trabalhadores foram explorados para você ter seu celular?”, 29 set. 2019. Disponível em: <a class="footnote-link" href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/newsletterissue/carta-semanal-39-2019-quantos-trabalhadores-foram-explorados-para-voce-ter-seu-celular/">https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/newsletterissue/carta-semanal-39-2019-quantos-trabalhadores-foram-explorados-para-voce-ter-seu-celular/</a></p>
<p><a href="#_section_3_ftnref5" name="_section_3_ftn5"><sup>5</sup></a> Ver: Open Secrets: <a class="footnote-link" href="https://www.opensecrets.org/">https://www.opensecrets.org/</a>. Acesso em: 9 ago. 2022</p>
<p><a href="#_section_3_ftnref6" name="_section_3_ftn6"><sup>6</sup></a> Guyer, Jonathan; Grim, Ryan. “Meet the Consulting Firm That’s Staffing the Biden Administration”. <em>The Intercept</em>, 6 jul. 2021. Disponível em: <a class="footnote-link" href="https://theintercept.com/2021/07/06/westexec-biden-administration/">https://theintercept.com/2021/07/06/westexec-biden-administration/</a></p>
</div>
<p> </p>
<p><a name="section_4"></a></p>
<h1 class="mrst_section_title mrst_section_title_4"><span style="color: #ba2025;"><strong>“Notas sobre exterminismo” para os movimentos de ecologia e paz do século 21</strong></span></h1>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #ba2025;">John Bellamy Foster</span></h2>
<p> </p>
<p>Em 1980, o grande historiador inglês e teórico marxista E. P. Thompson, autor de <em>A formação da classe operária inglesa</em> e líder do Movimento para o Desarmamento Nuclear Europeu, escreveu o ensaio inovador <em>Notes on Exterminism, the Last Stage of Civilization</em> [Notas sobre o exterminismo, a última etapa da civilização].<a href="#_section_4_ftn1" name="_section_4_ftnref1"><sup>1</sup></a> Embora o mundo tenha sofrido uma série de mudanças significativas desde então, o ensaio de Thompson continua sendo um ponto de partida útil para abordar as contradições centrais de nossos tempos, como a crise ecológica planetária,  a pandemia de Covid-19, a Nova Guerra Fria e o atual “império do caos” — todas decorrentes de características profundamente incorporadas na economia política capitalista contemporânea (Thompson, 1982; Amin, 1992).</p>
<p>Para Thompson, o termo <em>exterminismo</em> não se referia à extinção da vida, uma vez que alguma vida permaneceria mesmo diante de uma troca termonuclear global, mas sim à tendência ao “extermínio de nossa civilização [contemporânea]”, entendida em seu sentido mais universal. No entanto, o exterminismo apontou para a aniquilação em massa e foi definido nessas “características da sociedade — expressas em graus diferentes, dentro de sua economia, política e ideologia — que a impulsiona em uma direção cujo resultado é o extermínio de multidões” (Thompson, 1982, p. 64 e 73). <em>Notas sobre o exterminismo</em> foi escrito oito anos antes do famoso testemunho do climatologista James Hansen, em 1988, sobre o aquecimento global para o Congresso dos EUA e a formação, no mesmo ano, do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) da ONU. Assim, o tratamento de Thompson ao exterminismo se concentrou diretamente na guerra nuclear e não abordou a outra tendência exterminista emergente da sociedade contemporânea: a crise ecológica planetária. No entanto, sua perspectiva era profundamente socioecológica. A tendência ao exterminismo na sociedade moderna era, portanto, vista como diretamente oposta aos “imperativos da sobrevivência ecológica humana”, exigindo uma luta mundial por um mundo socialmente igualitário e ecologicamente sustentável (Thompson, 1982, p. 75–76).</p>
<p>Com o fim da União Soviética e o fim da Guerra Fria em 1991, a ameaça nuclear que pairava sobre o planeta desde a Segunda Guerra Mundial pareceu diminuir. Como resultado, a maioria das considerações subsequentes à tese do exterminismo de Thompson foram mais aplicadas ao contexto da crise ecológica planetária, também uma fonte de “extermínio de multidões” (Bahro, 1994). No entanto, o advento da Nova Guerra Fria na última década trouxe a ameaça do holocausto nuclear de volta ao centro das preocupações mundiais. A Guerra da Ucrânia de 2022, que tem sua origem no golpe de Maidan projetado pelos EUA em 2014, e a consequente Guerra Civil Ucraniana travada entre Kiev e as repúblicas separatistas da região de Donbass, de língua russa, agora evoluiu para uma guerra em larga escala entre Moscou e Kiev. Isso assumiu um significado mundial sinistro em 27 de fevereiro de 2022, com a Rússia, três dias após sua ofensiva militar na Ucrânia, colocando suas forças nucleares em alerta máximo como um aviso contra uma intervenção direta da Otan na guerra, seja por meios não nucleares ou nucleares.<a href="#_section_4_ftn2" name="_section_4_ftnref2"><sup>2</sup></a> O potencial para uma guerra termonuclear global entre as principais potências é agora maior que em qualquer momento no mundo pós-Guerra Fria.</p>
<p>Portanto, é necessário abordar essas duas tendências exterministas duplas: tanto a crise ecológica planetária (incluindo não apenas a mudança climática, mas também o cruzamento das oito outras fronteiras planetárias chave que os cientistas definem como essenciais para a capacidade da Terra de ser um lar seguro para a humanidade) e a crescente ameaça da aniquilação nuclear global. Ao abordar as interconexões dialéticas entre essas duas ameaças existenciais globais, deve-se dar ênfase à atualização da compreensão histórica do impulso ao exterminismo nuclear na forma como se metamorfoseou durante as décadas de poder unipolar dos EUA, enquanto a atenção do mundo era direcionada para outros lugares. Como a ameaça da guerra termonuclear global está novamente pairando sobre o mundo, três décadas após o fim da Guerra Fria e em um momento em que o risco de mudanças climáticas irreversíveis paira no horizonte? Quais abordagens precisam ser adotadas dentro dos movimentos pacifistas e ambientalistas para combater essas ameaças existenciais globais inter-relacionadas? Para responder a essas perguntas, é importante abordar questões como a controvérsia acerca do inverno nuclear, a doutrina da contraforça e a busca dos EUA pela supremacia nuclear global. Só assim podemos perceber todas as dimensões das ameaças existenciais globais impostas pelo “capitalismo catástrofe” de hoje.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Inverno nuclear</strong></span></h3>
<p>Em 1983, equipes de cientistas atmosféricos dos Estados Unidos e da União Soviética produziram modelos que apareceram nas principais revistas científicas prevendo que uma guerra nuclear levaria ao chamado “inverno nuclear”. Isso ocorreu em meio ao acúmulo nuclear do governo Ronald Reagan, associado à Iniciativa Estratégica de Defesa (mais conhecida como Star Wars) e à crescente ameaça de um Armagedom nuclear. Descobriu-se que o resultado de uma ofensiva termonuclear global resultaria em mega incêndios em 100 ou mais cidades, reduzindo enormemente a temperatura média da Terra, uma vez que a fuligem e a fumaça seriam empurradas para a atmosfera, bloqueando a radiação solar. O clima seria alterado muito mais abruptamente e na direção oposta do aquecimento global, introduzindo um rápido resfriamento que faria as temperaturas caírem vários graus ou mesmo “várias dezenas de graus” Celsius em todo o mundo (ou pelo menos em todo o hemisfério) em questão de um mês, com consequências horríveis para a vida na Terra. Assim, embora centenas de milhões de pessoas – talvez um bilhão ou mais – fossem mortas pelos <em>efeitos diretos</em> de uma troca termonuclear global, os <em>efeitos indiretos</em> seriam muito piores, aniquilando a maioria das pessoas no planeta por fome – inclusive aquelas não atingidas pelos efeitos diretos das bombas nucleares. A tese do inverno nuclear teve um efeito poderoso sobre a corrida armamentista nuclear que ocorria na época e contribuiu para que os governos dos EUA e da União Soviética recuassem ao se depararem com o abismo (Schneider, 1988. Francis, 2017. Sagan, Turco, 1990).</p>
<p>No entanto, a elite do poder nos Estados Unidos viu a tese do inverno nuclear como um ataque direto à indústria de armamentos nucleares e ao Pentágono, visando o programa Star Wars em particular. Isso levou a uma das maiores controvérsias científicas de todos os tempos; apesar de que tal controvérsia era mais política, uma vez que cientificamente nunca tenha havido realmente dúvida. Embora tenham sido feitas alegações de que os modelos iniciais do inverno nuclear dos cientistas da NASA eram muito simples e que estudos foram produzidos apontando efeitos menos extremos do que o originalmente imaginado — um “outono nuclear” — a tese do inverno nuclear foi validada repetidamente por modelos científicos (Browne, 1990).</p>
<p>Todavia, se a resposta inicial dos líderes políticos aos estudos sobre o inverno nuclear ajudou a criar um forte movimento para desmantelar as armas nucleares, contribuindo para seu controle e o fim da Guerra Fria, isso foi logo combatido por poderosos interesses militares, políticos e econômicos por trás da máquina de guerra nuclear dos EUA. Assim, a mídia corporativa, juntamente com as forças políticas, lançou várias campanhas destinadas a desacreditar a tese do inverno nuclear (Starr, 2016-17). Em 2000, a popular revista científica <em>Discover</em> chegou ao ponto de listá-lo como um de seus “20 maiores erros científicos dos últimos 20 anos”. Entretanto, o máximo que a <em>Discover</em> poderia alegar era que os principais cientistas por trás do estudo mais influente sobre o tema na década de 1980 haviam recuado em 1990, alegando que a redução média da temperatura resultante de uma troca nuclear global foi estimada como um pouco menor do que originalmente concebida e constituiria no máximo uma queda de 20°C <em>na temperatura média no Hemisfério Norte. Essa estimativa atualizada, no entanto, permaneceu apocalíptica em um nível planetário. </em></p>
<p>Em um dos maiores casos de negacionismo na história da ciência, superando até mesmo aquele em relação às mudanças climáticas, a esfera pública e os militares rejeitaram amplamente essas descobertas científicas com base na acusação de que a estimativa original havia sido de forma “exagerada”. Tal acusação tem sido usada nos círculos dominantes há décadas para minimizar os efeitos de uma guerra nuclear. No caso do capitalismo do Pentágono, tal negação foi claramente motivada pela realidade de que, se os resultados científicos sobre o inverno nuclear fossem mantidos, o planejamento estratégico acerca de uma guerra nuclear “vencível” – ou pelo menos uma em que um lado “prevaleceria” – deixaria de ter sentido. Uma vez considerados os efeitos atmosféricos, a devastação não pode se limitar a um determinado teatro nuclear; efeitos inimagináveis dentro de vários anos destruiriam tudo, exceto uma pequena fração da população da Terra, indo além do que foi imaginado pela Destruição Mútua Assegurada (em inglês, Mutual Assured Destruction, cuja sigla, MAD, forma a palavra “louco”).</p>
<p>Os efeitos catastróficos da guerra nuclear sempre foram minimizados pelos planejadores nucleares. Como Daniel Ellsberg aponta em <em>The Doomsday Machine</em>, o número estimado de mortes em uma guerra nuclear total fornecido pelos analistas estratégicos estadunidenses foi “fantasticamente subestimado” desde o início, “mesmo antes da descoberta do inverno nuclear”, uma vez que eles deliberadamente omitiram os incêndios resultantes de explosões nucleares em cidades — o maior impacto sobre a população urbana global — sob a alegação questionável de que o nível de devastação era muito difícil de estimar.<a href="#_section_4_ftn3" name="_section_4_ftnref3"><sup>3</sup></a> Como Ellsberg (2017) escreve:</p>
<p style="padding-left: 40px;">No entanto, mesmo nos anos 1960 os incêndios causados por armas termonucleares eram conhecidos por presumivelmente causar a <em>maior</em> produção de fatalidades em uma guerra nuclear (…) Além disso, o que ninguém reconheceria… [até que os primeiros estudos sobre o inverno nuclear surgiram cerca de 21 anos após a Crise dos Mísseis Cubanos] eram os efeitos indiretos do nosso primeiro ataque planejado, que ameaçava gravemente os outros dois terços da humanidade. Esses efeitos surgiram de outra consequência negligenciada de nossos ataques às cidades: fumaça. Ao ignorar o fogo, os Chefes [do Estado Maior] e seus planejadores ignoraram o fato de que onde há fogo há fumaça. Mas o perigoso para a nossa sobrevivência não é a fumaça de incêndios comuns, mesmo os muito grandes – fumaça que permanece na atmosfera inferior e logo é dispersada pela chuva – mas a fumaça propagada para a atmosfera superior que os incêndios que nossas armas nucleares certamente produziriam nas cidades alvejadas.</p>
<p style="padding-left: 40px;">Correntes ferozes dessas múltiplas tempestades de fogo levantariam milhões de toneladas de fumaça e fuligem na estratosfera, que não seriam dispersas pela chuva e rapidamente cercariam o globo, formando um cobertor que bloquearia a maior parte da luz solar ao redor da Terra por uma década ou mais. Isso reduziria a luz solar e as temperaturas em todo o mundo a um ponto em que destruiria as plantações e mataria de fome — não todos, mas quase todos — seres humanos (e outros animais que dependem da vegetação para comer). A população do Hemisfério Sul — poupada de quase todos os efeitos diretos de explosões nucleares, inclusive de precipitações radioativas — seria quase aniquilada, assim como a da Eurásia (a partir de efeitos diretos, como previsto), África e América do Norte (Ellsberg, 2017, p. 141-42).</p>
<p>Pior do que a reação original contra a tese do inverno nuclear, de acordo com escritos de Ellsberg de 2017, foi o fato de que, ao longo das décadas seguintes, planejadores nucleares nos Estados Unidos e na Rússia “continuaram a incluir ‘opções’ para detonar centenas de explosões nucleares perto de cidades, o que levantaria fuligem e fumaça suficientes na estratosfera para levar [via inverno nuclear] à morte pela fome quase todos na Terra,  incluindo, afinal, nós mesmos” (Ellsberg, 2017, p.142).</p>
<p>O negacionismo embutido na máquina do fim do mundo (o impulso para o exterminismo entrincheirado no capitalismo do Pentágono) é ainda mais significativo dado que não apenas os estudos originais sobre o inverno nuclear nunca foram refutados, mas aqueles produzidos no século 21, baseados em modelos de computador mais sofisticados que os do início da década de 1980, passaram a mostrar que o inverno nuclear pode ser desencadeado em níveis mais baixos de troca nuclear do que os previstos nos modelos originais (Toon, Robrock, Turco, 2008. Robock, Toon, 2009). A importância desses novos estudos é simbolizada pelo fato de que a revista <em>Discover</em>, em 2007 — apenas sete anos depois de ter incluído o inverno nuclear em sua lista dos vinte “maiores erros científicos” das duas décadas anteriores – trazia um artigo intitulado “O retorno do inverno nuclear”, essencialmente repudiando seu artigo anterior (Saarman, 2007).</p>
<p>Os estudos mais recentes, motivados em parte pela proliferação nuclear, demonstraram que uma hipotética guerra nuclear entre a Índia e o Paquistão travada com 100 bombas atômicas do tamanho de Hiroshima poderia produzir mortes diretas comparáveis a todas as fatalidades da Segunda Guerra Mundial, além das resultantes da fome global a longo prazo. As explosões atômicas imediatamente provocariam incêndios de três a cinco milhas quadradas. Cidades em chamas liberariam cerca de cinco milhões de toneladas de fumaça na estratosfera, cercando a Terra em duas semanas, que não seriam dispersa por chuvas e permaneceriam por mais de uma década. Ao bloquear a luz solar, a produção global de alimentos se reduziria em 20 a 40%. A camada estratosférica de fumaça absorveria a luz solar aquecida, aquecendo a fumaça a temperaturas próximas ao ponto de ebulição da água, resultando em uma redução da camada de ozônio de 20 a 50% perto de áreas povoadas e gerando aumentos de raios UVB sem precedentes na história humana, de tal forma que indivíduos de pele clara poderiam ter queimaduras solares graves em cerca de seis minutos e os níveis de câncer de pele sairiam do controle. Enquanto isso, estima-se que até 2 bilhões de pessoas morreriam de fome (Starr, 2016-17. Robock, Oman, Stenchikov, 2007).</p>
<p>A nova série de estudos sobre o inverno nuclear, publicada nas principais revistas científicas e revisada por pares de 2007 até o presente, não para por aí. Esses estudos também analisaram o que aconteceria se houvesse uma troca termonuclear global envolvendo as cinco principais potências nucleares: Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido. Só os dois primeiros, que representam a maior parte do arsenal nuclear mundial, têm milhares de armas nucleares com um poder explosivo que varia de sete a oitenta vezes a bomba de Hiroshima (embora algumas delas desenvolvidas nos anos 1950-1960 e que foram descontinuadas chegaram a ser mil vezes mais poderosas que a bomba atômica). Uma única arma nuclear estratégica atingindo uma cidade provocaria um incêndio cobrindo uma área de 90 a 152 milhas quadradas. Os cientistas calcularam que os incêndios de uma troca termonuclear global em larga escala lançaria na estratosfera de 150 a 180 milhões de toneladas de fuligem de carbono negro e fumaça que permaneceriam por 20 a 30 anos e impediriam que até 70% da energia solar chegasse ao Hemisfério Norte e até 35% ao Hemisfério Sul. O sol do meio-dia acabaria parecendo uma lua cheia à meia-noite. As temperaturas médias globais ficariam abaixo de zero todos os dias por um ou dois anos, ou até mais nas principais regiões agrícolas do Hemisfério Norte. As temperaturas médias cairiam abaixo das experimentadas na última Era Glacial. A época de crescimento dos cultivos nas áreas agrícolas desapareceria por mais de uma década, enquanto as chuvas diminuiriam em até 90%. A maioria da população humana morreria de fome (Starr, 2016-17. Robock, Oman, Stenchikov, 2007. Coupe et al., 2019. Robock, Toon, 2012. Starr, 2015).</p>
<p>Em seu livro <em> Sobre a </em><em>guerra</em> <em>termonuclear</em>, o físico da RAND Corporation Herman Kahn apresentou a noção da “máquina do juízo final”, que mataria todos na Terra em caso de uma guerra nuclear (Kahn, 2007). Kahn não defendia a construção de tal máquina, nem afirmava que os Estados Unidos ou a União Soviética a haviam feito ou estavam procurando construí-la. Ele apenas sugeriu que um mecanismo que garantisse não haver nenhuma forma de sobreviver da guerra nuclear seria uma alternativa barata para alcançar uma dissuasão completa e irrevogável de todos os lados para tirar a guerra nuclear da mesa. Como Ellsberg, ele também um ex-estrategista nuclear, tem afirmado desde então — em linha com Carl Sagan e Richard Turco, que ajudaram a desenvolver o modelo de inverno nuclear — os arsenais estratégicos de hoje nas mãos das potências nucleares dominantes, se detonadas, constituem uma máquina real do juízo final. Uma vez posta em movimento, a máquina do juízo final quase certamente aniquilaria direta ou indiretamente a maior parte da população do planeta (Ellsberg, 2017. Sagan, Turco, 1990).<a href="#_section_4_ftn4" name="_section_4_ftnref4"><sup>4</sup></a></p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Contraforça e os EUA</strong><strong>: desejo pela primazia nuclear</strong></span></h3>
<p>Desde a década de 1960, quando Moscou alcançou uma dura paridade nuclear com Washington, até o fim da União Soviética, a estratégia nuclear dominante durante a Guerra Fria foi baseada na noção de Destruição Mútua Assegurada (MAD). Esse princípio, que se refere à possibilidade de devastação total de ambos os lados, incluindo a morte de centenas de milhões de pessoas, efetivamente se traduz em paridade nuclear. No entanto, como os estudos sobre o inverno nuclear indicam, as consequências de uma guerra nuclear seriam muito além disso, estendendo-se à destruição de quase toda a vida humana (assim como a maioria das outras espécies) em todo o planeta. Ainda assim, ignorando os alertas de inverno nuclear, os Estados Unidos, com muito mais recursos que a União Soviética, procuraram transcender a MAD na direção da “primazia nuclear”, de modo a restaurar o nível de preeminência nuclear dos EUA nos primeiros anos da Guerra Fria. <em>A primazia</em> nuclear, em oposição à <em>paridade</em> nuclear, significa “eliminar a possibilidade de um ataque retaliatório” e, portanto, também é referida como “capacidade de primeiro ataque” (Lieber, Press, 2006, p. 44). A esse respeito, é significativo que a postura oficial de defesa de Washington tenha consistentemente incluído a possibilidade de realizar um primeiro ataque nuclear contra Estados nucleares ou não nucleares.</p>
<p>Além de introduzir o conceito de máquina do juízo final, Kahn, como um dos principais planejadores estratégicos dos EUA, também cunhou os termos-chave <em>contravalor e</em>  <em>contraforça </em>(Sagan, Turco, 1990).<em> O contravalor </em>se refere a atingir cidades, população civil e economia de um inimigo e tem como objetivo a aniquilação completa, levando assim ao MAD. <em>A contraforça</em>, em contraste, se refere a atacar as instalações de armas nucleares do inimigo para evitar retaliações.</p>
<p>Quando a estratégia de contraforça foi originalmente introduzida por Robert McNamara, o secretário de defesa dos EUA na administração de John F. Kennedy, foi visto como uma estratégia “sem cidades” que atacaria as armas nucleares do oponente em vez de populações civis, e tem sido justificada falaciosamente nesses termos desde então. McNamara, no entanto, logo percebeu as falhas na estratégia de contraforça, nomeadamente, que ela provoca uma corrida armamentista nuclear direcionada a alcançar (ou negar) a primazia nuclear. Além disso, a ideia de que um ataque de contraforça “preventivo” não envolvia ataques às cidades estava incorreta desde o princípio, já que os alvos incluíam centros de comando nuclear nas cidades. Ele, portanto, abandonou o esforço pouco depois em favor de uma estratégia nuclear baseada no MAD, que ele via como a única abordagem verdadeira para a dissuasão nuclear (Correll, 2005; Ellsberg, 2017).</p>
<p>Essa estratégia nuclear dos EUA prevaleceu durante a maior parte das décadas de 1960 e 1970 e foi caracterizada pela aceitação da paridade nuclear áspera com a União Soviética e, portanto, da possível realidade do MAD. No entanto, isso se quebrou no último ano da administração Jimmy Carter. Em 1979, Washington armou fortemente a Otan para permitir que o cruzeiro nuclear e os mísseis Pershing II, ambos contraforças destinadas ao arsenal nuclear soviético, fossem colocados na Europa, uma decisão que incendiou o movimento antinuclear europeu (Magdoff, Sweezy, 1981. Barnet, 1984). Na subsequente administração dos EUA sob Ronald Reagan, Washington adotou em pleno vigor a estratégia de contraforça (Correll, 2005). A administração Reagan introduziu o Star Wars, com o objetivo de desenvolver um sistema abrangente de mísseis antibalísticos capazes de defender os EUA. Embora isso tenha sido posteriormente abandonado como impraticável, levou a outros sistemas de mísseis antibalísticos em administrações posteriores (Pifer, 2015). Além disso, sob a administração Reagan, os Estados Unidos empurraram o míssil MX (que mais tarde ficou conhecido como Pacificador), visto como uma arma de contraforça capaz de destruir mísseis soviéticos antes de serem lançados. Todas essas armas ameaçaram a “decapitação” das forças soviéticas em um primeiro ataque, bem como a capacidade de interceptação através de sistemas de mísseis antibalísticos ao qual poucos mísseis soviéticos sobreviveriam (Roberts, 2020. Correll, 2005). As armas de contraforça exigiam maior precisão, uma vez que não eram mais concebidas como destruidoras de cidades como em ataques de contravalor, mas sim como arma de precisão contra silos de mísseis endurecidos, mísseis terrestres móveis, submarinos nucleares e centros de comando e controle. Foi aqui, em armas de contraforça, que os Estados Unidos tinham uma vantagem tecnológica.</p>
<p>Esse grande acúmulo de armas nucleares, iniciado a partir de 1979 com a implantação planejada na Europa de sistemas de entrega de mísseis transportando ogivas nucleares, gerou grandes protestos contra a guerra nuclear dos anos 1980 na Europa e na América do Norte, bem como a crítica de Thompson ao exterminismo e à pesquisa científica sobre o inverno nuclear. No entanto, hoje, “a contraforça continua a ser o princípio sacrossanto da estratégia nuclear estadunidense”, voltado para a primazia nuclear, nas palavras de Janne Nolan, da Associação de Controle de Armas (Nolan apud Correll, 2005).</p>
<p>Com a dissolução da União Soviética em 1991 e o fim da Guerra Fria, Washington imediatamente iniciou o processo de traduzir sua nova posição unipolar em uma visão de supremacia permanente dos EUA em todo o mundo, começando com a <em>Orientação da Política de Defesa</em> de fevereiro de 1992, emitida pelo então subsecretário de Defesa Paul Wolfowitz. Isso deveria ser decretado através de uma expansão geopolítica das áreas de domínio ocidental para regiões anteriormente pertencentes à União Soviética ou em sua esfera de influência, a fim de impedir o ressurgimento da Rússia como uma grande potência. Ao mesmo tempo, em um clima de desarmamento nuclear e com a deterioração da força nuclear russa sob Boris Yeltsin, os Estados Unidos procuraram “modernizar” suas armas nucleares, substituindo-as por armamentos estratégicos tecnologicamente mais avançados com o objetivo não de aumentar a dissuasão, mas sim de alcançar a primazia nuclear.</p>
<p>A busca dos EUA pela primazia nuclear no mundo pós-Guerra Fria, continuando a promover armas de contraforça, era conhecida como a estratégia “maximalista” nos debates sobre política nuclear na época e foi contraposta por aqueles que defendiam uma estratégia “minimalista” que dependia do MAD. No final, os maximalistas venceram e a Nova Ordem Mundial passou a ser definida tanto pelo alargamento da Otan, com a Ucrânia vista como o pivô geopolítico e estratégico final, quanto pela busca dos EUA por um objetivo maximalista de domínio nuclear absoluto e capacidade de primeiro ataque (Paulsen, 1994. Mazarr, 1992. Brzezinski, 1997).</p>
<p>Em 2006, Keir A. Lieber e Daryl G. Press publicaram o artigo <em>The Rise of U.S. Nuclear Primacy</em> [A ascensão da primazia nuclear dos EUA], na <em>Foreign Affairs</em>, a principal revista de Relações Exteriores. Em seu artigo, Lieber e Press argumentaram que os Estados Unidos estavam “à beira de alcançar a primazia nuclear”, ou capacidade de primeiro ataque, e que este tinha sido seu objetivo desde pelo menos o fim da Guerra Fria. “O peso das evidências sugere que Washington está, de fato, deliberadamente buscando primazia nuclear”, afirmam (Lieber, Press, 2006, p. 43, 50).</p>
<p>O que colocou essa capacidade de primeiro ataque aparentemente ao alcance de Washington foram os novos armamentos nucleares associados à modernização nuclear que, aliás, acelerou após a Guerra Fria. Cruzeiros armados com mísseis nucleares, submarinos nucleares capazes de disparar seus mísseis perto da costa e bombardeiros B-52 furtivos, que carregam mísseis de cruzeiro com armas nucleares e bombas de gravidade nuclear, poderiam penetrar mais efetivamente nas defesas russas ou chinesas. Mísseis balísticos intercontinentais mais precisos poderiam eliminar totalmente silos de mísseis endurecidos. Uma melhor vigilância poderia permitir o rastreamento e destruição de mísseis terrestres móveis e submarinos nucleares. Enquanto isso, os mísseis Trident II D-5, mais precisos, que estavam sendo introduzidos em submarinos nucleares dos EUA, carregavam ogivas de maior rendimento para usar em silos endurecidos. Tecnologia de sensoriamento remoto mais avançada, a qual os Estados Unidos tiveram a liderança, aumentou consideravelmente sua capacidade de detectar mísseis terrestres móveis e submarinos nucleares. A capacidade de atingir os satélites de outras potências nucleares poderia enfraquecer ou eliminar a capacidade de usar mísseis nucleares (Lieber, Press, 2006, p. 45).</p>
<p>A localização de armas estratégicas em países recentemente admitidos na Otan e perto ou nas fronteiras russas serviria para aumentar a velocidade com que as armas nucleares poderiam atingir Moscou e outros alvos russos, não dando ao Kremlin tempo de reação. As instalações de defesa de mísseis balísticos Aegis, que os Estados Unidos estabeleceram na Polônia e na Romênia, também são potenciais armas ofensivas capazes de lançar mísseis de cruzeiro Tomahawk com armas nucleares (Detsch, 2022. Baud, 2022. Starr, 2016-17).<a href="#_section_4_ftn5" name="_section_4_ftnref5"><sup>5</sup></a> Instalações de defesa de mísseis nucleares, principalmente úteis no caso de combater uma retaliação a um primeiro ataque dos Estados Unidos, poderiam derrubar um número limitado de mísseis que sobreviveram e foram lançados do outro lado, mas esses sistemas de mísseis antibalísticos seriam ineficazes diante de um primeiro ataque, uma vez que seriam sobrecarregados pelo grande número de mísseis e iscas. Além disso, nas últimas décadas, os Estados Unidos desenvolveram um grande número de armas aeroespaciais não nucleares de alta precisão para<em> s</em>erem usadas em um ataque de contraforça direcionado a mísseis inimigos ou instalações de comando e controle que são comparáveis às armas nucleares em seus efeitos devido à precisão de alvos baseados em satélites.</p>
<p>De acordo com Lieber e Press, em 2006, “as chances de Pequim adquirir uma dissuasão nuclear sobrevivente na próxima década são pequenas”, e a sobrevivência da dissuasão russa estava em questão diante de um grande primeiro ataque dos EUA. “O que nossa análise sugere é profundo: os líderes da Rússia não podem mais contar com um sistema de dissuasão nuclear sobrevivente”. Como eles escreveram, os Estados Unidos estavam “buscando primazia em todas as dimensões da tecnologia militar moderna, tanto em seu arsenal convencional quanto em suas forças nucleares”, algo conhecido como “domínio da escalada” (Lieber, Press, 2006, 2017).<a href="#_section_4_ftn6" name="_section_4_ftnref6"><sup>6</sup></a></p>
<p>A assinatura do Novo Tratado Estratégico de Redução de Armas ou Novo START (na sigla em inglês) entre os Estados Unidos e a Rússia, em 2010, ao mesmo tempo que limitou as armas nucleares, não impediu uma corrida para a modernização das armas de contraforça que permitiriam que um lado destruísse os armamentos do outro. Limitar o número de armas nucleares permitidas tornou mais viável o fortalecimento de uma estratégia de contraforça; nessa área, os Estados Unidos tinham a vantagem, uma vez que uma das três bases primárias para a sobrevivência de um arsenal de retaliação nuclear (juntamente com o endurecimento de locais de mísseis terrestres e ocultação) é o número absoluto e, portanto, a redundância de tais armas (Lieber, Press, 2017). Com a primazia nuclear como meta estabelecida em Washington, os Estados Unidos começaram unilateralmente a se retirar de alguns dos principais tratados nucleares estabelecidos na Guerra Fria. Em 2002, sob a administração George W. Bush, os Estados Unidos se retiraram unilateralmente do Tratado de Mísseis Antibalísticos. Em 2019, sob o governo Donald Trump, Washington retirou-se do Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário, alegando que a Rússia o havia violado. Em 2020, ainda sob Trump, os Estados Unidos se retiraram do Tratado de Céu Aberto (que impôs limites aos voos de reconhecimento sobre outros países); a isso se seguiu a retirada da Rússia em 2021. Há pouca dúvida de que a saída desses tratados foi favorável a Washington, permitindo ao país expandir suas opções de contraforça em sua busca pela primazia nuclear.</p>
<p>Dada a busca dos EUA pelo domínio nuclear global, a Rússia tentou modernizar seus sistemas de armas nucleares nas últimas duas décadas, embora esteja em uma desvantagem distinta em termos de capacidade de contraforça. Sua estratégia nuclear fundamental é, portanto, determinada por temores de um primeiro ataque dos EUA que poderia efetivamente eliminar seu sistema de dissuasão nuclear e sua capacidade de retaliação. Assim, tem se esforçado para restabelecer uma dissuasão plausível. Como Cynthia Roberts, do Instituto Saltzman de Guerra e Paz da Universidade de Columbia, escreveu em <em>Revelações sobre a </em><em>política de dissuasão nuclear da Rússia</em>, em 2020, os russos percebem mais melhorias dos EUA para as forças estratégicas convencionais e nucleares como parte de um esforço contínuo para “perseguir a dissuasão nuclear russa e negar a Moscou uma opção viável de segundo ataque”, eliminando efetivamente sua dissuasão por meio da “decapitação” (Roberts, 2020. Sankaran, 2022). Embora os Estados Unidos tenha adotado uma postura máxima de “defesa” nuclear de ameaçar o “primeiro uso nuclear e a escalada em fases”, em que mantém o domínio em todos os níveis da escalada, isso se compara à abordagem russa de “guerra total se a dissuasão falhar” enquanto continua a depender principalmente do MAD (Arbatov, 2016. Roberts, 2015).</p>
<p>No entanto, nos últimos anos, a Rússia e a China avançaram em tecnologia e sistemas estratégicos de armas. A fim de combater as tentativas de Washington de desenvolver a capacidade de primeiro ataque e neutralizar seus impedimentos nucleares, tanto Moscou quanto Pequim recorreram a sistemas de armas estratégicas assimétricas projetadas para combater a superioridade dos EUA na defesa antimísseis e na mira de alta precisão. Mísseis balísticos intercontinentais são vulneráveis porque, embora atinjam velocidades hipersônicas — geralmente definidas como Mach 5, ou cinco vezes a velocidade do som ou mais — quando entram novamente na atmosfera seguem um arco que constitui um caminho balístico previsível, como uma bala. Portanto, não há surpresa; seus alvos são previsíveis, e podem teoricamente ser interceptados por mísseis antibalísticos. Silos de mísseis endurecidos, que abrigam mísseis balísticos intercontinentais, também são alvos distintos e hoje são muito mais vulneráveis, tanto a mísseis nucleares como a não nucleares estadunidenses de alta precisão, guiados por satélite. Confrontadas com essas ameaças de contraforça aos seus impedimentos básicos, a Rússia e a China avançaram em relação aos Estados Unidos no desenvolvimento de mísseis hipersônicos com manobras aerodinâmicas, a fim de evitar mísseis de defesa e impedir que o adversário saiba o alvo final pretendido. A Rússia desenvolveu um míssil hipersônico chamado Kinzhal, que tem fama de alcançar Mach 10 ou mais por conta própria, e outra arma hipersônica, a Avangard, que, impulsionada por um foguete, pode atingir a velocidade surpreendente de Mach 27. A China tem um míssil de cruzeiro hipersônico “waverider” que atinge Mach 6. Emprestado do folclore chinês, seu nome se refere a uma “maçã assassina”, uma arma eficaz contra um adversário muito mais bem armado (Stone, 2020. Brito et al., 2002). A Rússia e a China, por sua vez, vêm desenvolvendo armas antisatélites “contraespaço” projetadas para remover a vantagem dos EUA de armas nucleares e não nucleares de alta precisão (Sankaran, 2022).<a href="#_section_4_ftn7" name="_section_4_ftnref7"><sup>7</sup></a></p>
<p>A chamada primazia nuclear permaneceu um pouco além do alcance de Washington, dada a proeza tecnológica das outras potências nucleares líderes. Além disso, uma corrida armamentista nuclear, estimulada por uma estratégia de contraforça, é fundamentalmente irracional, ameaçando uma conflagração termonuclear global com consequências muito maiores do que aquelas imaginadas pelo cenário MAD, com suas centenas de milhões de mortes de ambos os lados. O inverno nuclear significa que, em uma guerra nuclear global, <em>todo o planeta</em> seria engolido pela fumaça e fuligem, que engoliria a estratosfera, matando quase toda a humanidade.</p>
<p>Dada essa realidade, a postura nuclear dos EUA, que se baseia na noção de vencer em uma guerra nuclear total, é particularmente perigosa, uma vez que nega o papel dos incêndios nas cidades e, assim, os efeitos da fumaça que se levantaria na atmosfera superior e apagaria a maioria dos raios solares. A busca pela primazia nuclear, portanto, nos leva da MAD à loucura (Johnstone, 2017). Como Ellsberg (2017) escreve:</p>
<p style="padding-left: 40px;">A esperança de evitar com êxito a aniquilação mútua por um ataque decapitador sempre foi tão mal fundamentada quanto qualquer outra. A conclusão realista seria que uma troca nuclear entre os Estados Unidos e os soviéticos [russos] era — e é — virtualmente certa de ser uma catástrofe absoluta, não apenas para ambos, mas para o mundo. … [Os formuladores de políticas] optaram por agir como se acreditassem (e talvez realmente acreditassem) que tal ameaça não é o que é: uma prontidão para desencadear o onicídio global.<a href="#_section_4_ftn8" name="_section_4_ftnref8"><sup>8</sup></a></p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>A Nova Guerra Fria e o teatro europeu</strong></span></h3>
<p>Em <em>Notas sobre exterminismo</em> e sua posição geral como líder do Movimento para o Desarmamento Nuclear Europeu na década de 1980, Thompson argumentou que o acúmulo de armas nucleares na Europa ocorrido na época era um produto de máquinas militares e imperativos tecnológicos “tendo lugar independentemente da flutuação da diplomacia internacional, embora seja dado um impulso ascendente a cada crise ou a cada inovação por parte do ‘inimigo’” (Thompson, 1992). Seu argumento era parte de uma estratégia para unir os movimentos pacifistas do Ocidente e do Oriente contra os respectivos <em>establishments</em>, com base na premissa de que o acúmulo nuclear era igualmente um produto de ambos os lados. No entanto, a esse respeito, ele desmentiu suas próprias evidências, que apontavam para o agressivo acúmulo nuclear de armas de contraforça de Washington e a colocação de armas estratégicas na Europa visando a União Soviética. Em um artigo intitulado <em>Nuclear Chicken</em> na edição de setembro de 1982 da Monthly Review, Harry Magdoff e Paul M. Sweezy desafiaram essa parte do argumento de Thompson, apontando não apenas para as expansões estratégicas da Otan sob os Estados Unidos, mas também para o fato de que a ordem imperial dos EUA era fortemente dependente de ameaças críveis de primeiros ataques direcionados a outros países, tanto nucleares quanto não nucleares (Magdoff, Sweezy, 1981).</p>
<p>Em uma introdução de 1981 à edição americana de <em>Protest and Survive</em> editada por Thompson e Dan Smith, Ellsberg listou uma longa série de casos documentados, a partir de 1949, nos quais os Estados Unidos ameaçaram ataques nucleares para pressionar outros países (nucleares e não nucleares) a recuar para alcançar seus fins imperiais (Ellsberg, 1981). Somente entre 1945 e 1996, foram documentados 25 casos de ameaças nucleares, embora outros tenham ocorrido desde então (Ellsberg, 2017). Nesse sentido, o uso da guerra nuclear como ameaça é incorporado à estratégia dos EUA. O desenvolvimento da primazia nuclear através de armas de contraforça sustentou a possibilidade de que tais ameaças pudessem ser novamente dirigidas com credibilidade até mesmo para grandes potências nucleares, como a Rússia e a China. Magdoff e Sweezy chamaram toda essa abordagem de “frango nuclear”, no qual os Estados Unidos eram o jogador mais agressivo.</p>
<p>O “Frango nuclear” não pôs fim à Guerra Fria. O Estado de segurança nacional dos EUA, influenciado por figuras-chave como Zbigniew Brzezinski, conselheiro de segurança nacional de Carter e um dos principais arquitetos da expansão pós-Guerra Fria da Otan, continuou a buscar a hegemonia geopolítica final dos EUA sobre a Eurásia, que ele chamou de “grande tabuleiro de xadrez”. Xeque-mate, segundo Brzezinski, constituiria trazer a Ucrânia para a Otan como uma aliança nuclear estratégica (embora Brzezinski tenha cuidadosamente excluído o aspecto nuclear ao apresentar sua estratégia geopolítica), soletrando o fim da Rússia como uma grande potência e possivelmente levando ao seu rompimento em vários Estados, marcando assim a supremacia dos EUA sobre todo o mundo (Brzezinski, 1997). Essa tentativa de transformar o poder unipolar dos EUA após a Guerra Fria em um império global permanente exigiu a expansão da Otan para o leste, que começou em 1997 durante o governo Bill Clinton, gradualmente anexando à Aliança Atlântica praticamente todos os países entre a Europa Ocidental e a Ucrânia, com este último como o prêmio final e uma adaga no coração da Rússia (The Editors, 2022). Aqui, havia uma espécie de unidade exibida entre a estratégia dirigida pelos EUA de expandir a Otan e o desejo de Washington por primazia nuclear, que foi posta em prática quase à risca.</p>
<p>O fato de a Rússia ter sido obrigada a considerar a questão de sua própria segurança nacional diante da tentativa da Otan de expandir militarmente para a Ucrânia dificilmente deve surpreender alguém. Uma década após a expansão da Otan, que já englobava onze nações que antes estavam no Pacto de Varsóvia ou em parte da União Soviética, e apenas um ano depois da primazia nuclear dos EUA quase ter sido destacada na <em>Foreign Affairs</em>, o presidente russo Vladimir Putin assustou o mundo ao declarar inequivocamente na Conferência de Segurança de Munique de 2007 que “o modelo unipolar não é apenas inaceitável, mas impossível no mundo de hoje” (Johnstone, 2017). No entanto, consistente com sua estratégia de longo prazo para estender-se ao que Brzezinski havia chamado de “pivô geopolítico” da Eurásia, enfraquecendo fatalmente a Rússia, em 2008 a Otan declarou abertamente em sua Cúpula de Bucareste que pretendia trazer a Ucrânia para a aliança militar-estratégica (nuclear).</p>
<p>Em 2014, o golpe de Maidan, projetado pelos EUA na Ucrânia, depôs o presidente democraticamente eleito do país e impôs em seu lugar um líder escolhido pela Casa Branca, colocando a Ucrânia nas mãos de forças ultranacionalistas de direita. A resposta da Rússia foi incorporar a Crimeia em seu território após um referendo popular que deu à população, predominantemente russa, que se considerava independente e não parte da Ucrânia, uma escolha sobre permanecer na Ucrânia ou se juntar à Rússia. O golpe (ou “revolução colorida”) levou à violenta repressão de Kiev às populações da região de Donbass, de língua russa, na Ucrânia, resultando na Guerra Civil Ucraniana entre Kiev (apoiada por Washington) e as repúblicas separatistas de Donbass nas áreas de Donetsk e Luhansk (apoiadas por Moscou). A Guerra Civil Ucraniana, que resultou em mais de 14 mil mortes entre 2014 e início de 2022, continuou em baixa nos oito anos seguintes, apesar da assinatura dos acordos de paz de Minsk em 2014, destinados a acabar com o conflito e dar autonomia às repúblicas de Donbass dentro da Ucrânia. Em fevereiro de 2022, Kiev havia juntado 130 mil soldados nas fronteiras de Donbass, no leste da Ucrânia, atirando em Donetsk e Luhansk (The Editors, 2022. Johnstone, 2022. Mearsheimer, 2022).</p>
<p>À medida que a crise ucraniana piorou, Putin insistiu em várias linhas vermelhas da Rússia relacionadas às necessidades essenciais de segurança do país, consistindo em:</p>
<ol>
<li>adesão ao acordo anterior de Minsk (elaborado pela Rússia, Ucrânia, França e Alemanha e assinado pelas repúblicas do povo de Donbass e apoiado pelo Conselho de Segurança da ONU), garantindo assim a autonomia e a segurança de Donetsk e Luhansk,</li>
<li>o fim da militarização da Otan sobre a Ucrânia, e</li>
<li>um acordo de que a Ucrânia permaneceria fora da Otan (Episkopos, 2021. Associated Press, 2021).</li>
</ol>
<p>A Otan, instada pelos Estados Unidos, continuou a cruzar todas essas linhas vermelhas, fornecendo ajuda militar  crescente a Kiev em sua guerra contra as repúblicas de Donbass, no que a Rússia interpretou como uma tentativa de fato de incorporar a Ucrânia na Otan.</p>
<p>Em 24 de fevereiro de 2022, a Rússia interveio na Guerra Civil Ucraniana ao lado de Donbass, atacando as forças militares do governo de Kiev. Em 27 de fevereiro, Moscou colocou suas forças nucleares em alerta máximo pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria, confrontando o mundo com a possibilidade de um holocausto nuclear global, dessa vez entre grandes potências capitalistas rivais. Figuras em Washington, como o senador Joe Manchin III (Democrata, Virgínia Ocidental), apoiaram a ideia de uma imposição dos EUA de uma zona de exclusão aérea na Ucrânia, o que significaria derrubar aviões russos, com toda a probabilidade de escalar para uma Terceira Guerra Mundial (Broadwater, Cameron, 2022).</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Exterminismo em duas direções</strong></span></h3>
<p>É comum hoje reconhecer que a mudança climática representa uma ameaça existencial global que coloca em risco a própria sobrevivência da humanidade. Estamos diante de uma situação em que a contínua expansão do capitalismo baseada na queima de quantidades cada vez maiores de combustíveis fósseis aponta para a possibilidade — mesmo a probabilidade, se o sistema de produção não for alterado radicalmente em questão de décadas — da queda da civilização industrial, colocando em questão a sobrevivência da humanidade. Esse é o significado do exterminismo ambiental em nosso tempo. De acordo com o Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (IPCC), as emissões líquidas de dióxido de carbono zero devem ser alcançadas até 2050 para que o mundo tenha uma esperança razoável de manter as mudanças das temperaturas médias globais abaixo de 1,5°C, ou bem abaixo de 2°C. Não conseguir isso é dar espaço à devastação da Terra tal como um lar seguro para a humanidade e inúmeras outras espécies.</p>
<p>A mudança climática faz parte de uma crise ecológica planetária mais geral associada ao cruzamento das nove fronteiras planetárias, incluindo aquelas – além da mudança climática em si – relacionadas à extinção de espécies, esgotamento estratosférico do ozônio, acidificação dos oceanos, interrupção dos ciclos de nitrogênio e fósforo, perda de cobertura/florestas terrestres, declínio das fontes de água doce associada à desertificação, carga atmosférica de aerossóis e introdução de novas entidades, como novos produtos químicos sintéticos e novas formas genéticas (Stephen, 2015). Para isso deve-se adicionar o surgimento de novas zoonoses, como mostra a pandemia de Covid-19, resultante principalmente da transformação da relação dos seres humanos com o meio ambiente, estimulada pelo agronegócio (Walace, 2020).</p>
<p>No entanto, não há dúvida de que a mudança climática está no centro da atual crise ecológica global. Assim como o inverno nuclear, representa uma ameaça à civilização e à continuação da espécie humana. O IPCC nos diz em seus relatórios de 2021-2022 sobre a ciência física das mudanças climáticas e seus impactos que o cenário mais otimista, embora afastando mudanças climáticas irreversíveis, ainda é uma das crescentes catástrofes globais nas próximas décadas. Ações imediatas são necessárias para proteger as condições de vida de centenas de milhões de pessoas, talvez bilhões, que serão expostas a eventos climáticos extremos de um tipo que a civilização global nunca viu antes (IPCC, 2022). Para combater isso é necessário o maior movimento de trabalhadores e povos que o mundo já viu para restaurar as condições que permitam sua existência, usurpadas pelo regime do capital, e restabelecer  um mundo ecologicamente sustentável enraizado na igualdade substancial.<a href="#_section_4_ftn9" name="_section_4_ftnref9"><sup>9</sup></a></p>
<p>Ironicamente, o relatório do IPCC de 2022, que deveria chamar a atenção do mundo para a natureza catastrófica da crise climática atual, foi publicado em 28 de fevereiro de 2022, quatro dias após a entrada russa na Guerra Civil Ucraniana em desafio à Otan, resultando em uma preocupação crescente sobre a possibilidade de uma troca termonuclear global. Assim, a atenção do mundo foi afastada em relação à ameaça existencial global que coloca em risco toda a humanidade, <em>o onicídio</em> de carbono, pelo súbito ressurgimento de outro <em>onicídio </em>nuclear.</p>
<p>À medida que o mundo voltava sua atenção para a possibilidade de guerra entre as principais potências nucleares e toda a escala planetária da ameaça nuclear, entendido pela ciência como inverno nuclear, o aquecimento global ficou ausente do quadro. O aquecimento global e o inverno nuclear, embora surgindo de diferentes formas, estão intimamente ligados em termos climáticos, demonstrando que o mundo está à beira de destruir a maioria dos habitantes da Terra de uma forma ou de outra: o aquecimento global levando a um ponto sem retorno para a humanidade, e/ou a morte de centenas de milhões por fogo nuclear,  seguido por dias e meses de resfriamento global (inverno nuclear) e o extermínio da maioria da população mundial através da fome. Assim como as implicações destrutivas da mudança climática que ameaçam a própria existência da humanidade são negadas em grande parte pelas potências, os efeitos planetários completos da guerra nuclear também são negados, ainda que as evidências científicas sobre o inverno nuclear demonstrem que ele efetivamente aniquilará a população de todos os continentes da Terra. Além disso, se o aquecimento global aumentar na medida em que a civilização global se desestabilizar, algo que os cientistas acreditam que pode acontecer se as temperaturas médias globais aumentarem em 4°C, a concorrência entre os Estados-nação capitalistas crescerá, aumentando assim o risco de uma conflagração nuclear e, portanto, do inverno nuclear (Ellsberg, 2017, p. 18).</p>
<p>Hoje, somos confrontados com uma escolha entre <em>exterminismo</em> e o <em>imperativo </em>ecológico humano (Thompson, 1982, p. 76). O agente causal nas duas crises existenciais globais que agora ameaçam a espécie humana é o mesmo: o capitalismo e sua busca irracional por aumentar exponencialmente a acumulação de capital e o poder imperial em um ambiente global limitado. A única resposta possível a essa ameaça ilimitada é um movimento revolucionário universal enraizado tanto na ecologia quanto na paz, que se afaste da destruição sistemática atual da Terra e seus habitantes e caminhe em direção a um mundo de igualdade substancial e sustentabilidade ecológica: ou seja, o socialismo.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Referências bibliográficas</strong></span></h3>
<div class="footnotes">
<p>Angus, Ian. Facing the Anthropocene, Nueva York: Monthly Review Press, 2016. 178-81.</p>
<p>Amin, Samir. Empire of Chaos, Nueva York: Monthly Review Press, 1992.</p>
<p>Arbatov, Alexey. “The Hidden Side of the U.S.-Russian Strategic Confrontation”, Arms Control Association, septiembre de 2016.</p>
<p>Associated Press. “Russia Publishes ‘Red Line’ Demands of U.S. and NATO Amid Heightened Tension Over Kremlin Threat to Ukraine”, Marketwatch, 18 dez. 2021.</p>
<p>Axe, David. “Estonia’s Getting a Powerful Cruise Missile. Now It Needs to Find Targets”, Forbes, 12 out. 2021.</p>
<p>Bahro, Rudolf. Avoiding Social and Ecological Disaster, Bath: Gateway Books, 1994.</p>
<p>Barnet, Richard J. “Why Trust the Soviets?”, World Policy Journal 1, n. 3, 1984.</p>
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</div>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Notas</strong></span></h3>
<div class="footnotes">
<p><a href="#_section_4_ftnref1" name="_section_4_ftn1"><sup>1</sup></a> As citações desse ensaio no presente artigo foram retiradas da versão ligeiramente revisada em E. P. Thompson, <em>Beyond the Cold War</em>. Nova York: Pantheon, 1982, p. 41–79. Ver também E. P. Thompson et al., <em>Exterminism and the Cold War</em>. London: Verso, 1982. E. P. Thompson; Dan Smith (ed.), <em>Protest and Survive</em>. New York: Monthly Review Press, 1981. As traduções para o português foram todas feitas livremente a partir do original.</p>
<p><a href="#_section_4_ftnref2" name="_section_4_ftn2"><sup>2</sup></a> Para uma breve discussão sobre os eventos que antecederam a atual Guerra da Ucrânia, consulte: The Editors, “Notes from the Editors”, <em>Monthly Review</em> 73, n. 11, abr. 2022.</p>
<p><a href="#_section_4_ftnref3" name="_section_4_ftn3"><sup>3</sup></a> O fracasso em incluir a principal causa de morte por armas termonucleares dirigidas a cidades sob a forma de incêndio está profundamente arraigada no Pentágono. O guia prático desclassificado sobre o estoque e o gerenciamento de armas nucleares publicado pelo Departamento de Defesa dos EUA em 2008 inclui mais de vinte páginas sobre os efeitos de uma explosão de armas nucleares em uma cidade sem uma única menção a incêndios. Ver também: U.S. Department of Defense. <em>Nuclear Matters: A Practical Guide</em>. Washington: Pentagon, 2008, p. 135–58.</p>
<p><a href="#_section_4_ftnref4" name="_section_4_ftn4"><sup>4</sup></a> Aqui, a máquina do juízo final não deve ser confundida com a versão da máquina do juízo final no filme <em>Dr. </em><em>Fantástico</em>. No entanto, o filme de Kubrick se baseou nas ideias de Kahn e mantém um significado concreto no contexto da realidade nuclear contemporânea. Ver Ellsberg (2017).</p>
<p><a href="#_section_4_ftnref5" name="_section_4_ftn5"><sup>5</sup></a> A Rússia também está preocupada com a possível reintrodução dos mísseis balísticos intermediários Pershing II na Europa.</p>
<p><a href="#_section_4_ftnref6" name="_section_4_ftn6"><sup>6</sup></a> Um elemento-chave do impedimento nuclear de Pequim é reduzir a hidroacústica ou o nível de ruído de seus submarinos nucleares. Em 2011, acreditava-se que a China levaria décadas para reduzir a hidroacústica de seus submarinos o suficiente para sobreviver a um primeiro ataque dos EUA. No entanto, em menos de uma década, a China fez avanços significativos em direção a esse objetivo. Ver: Lieber, Press, 2017, 2020. Ver também Riqiang, 2011. O artigo de Lieber e Press na Foreign Affairs em 2006 resultou em críticas tanto pela Rússia quanto pela China, e também serviu para gerar preocupações nesses Estados que levaram ao reavivamento e modernização de suas capacidades nucleares. No entanto, a ameaça representada pelos EUA e seu desejo pela primazia nuclear continua perseguindo os planejadores estratégicos russos e chineses. Ver Lieber, Press, 2016.</p>
<p><a href="#_section_4_ftnref7" name="_section_4_ftn7"><sup>7</sup></a> O desenvolvimento de estratégias e tecnologias de “contramedida” para iludir o ataque contraforça à dissuasão nuclear de uma nação é enfatizado pela Rússia e pela China, dada a liderança dos EUA na contraforça. Ver Lieber, Press, 2017.</p>
<p><a href="#_section_4_ftnref8" name="_section_4_ftn8"><sup>8</sup></a> Hoje, há mais uma vez uma discussão crescente nos círculos estratégicos dos EUA de uma capacidade de “de baixo risco” ou “decapitação” por parte dos Estados Unidos, o que parece tornar os incêndios nucleares menos prováveis. Ver Lieber, Press, 2017.</p>
<p><a href="#_section_4_ftnref9" name="_section_4_ftn9"><sup>9</sup></a> Essa conclusão é de fato consistente com a terceira parte do Sexto Relatório de Avaliação do IPCC na forma do relatório de mitigação a ser publicado em março, mas vazado antecipadamente pelos cientistas. Ver “Summary for Policymakers” of Part III of the UN Intergovernmental Panel on Climate Change’s <em>Sixth Assessment Report on Climate Change</em>.</p>
</div>
<p> </p>
<div class="creative-commons-license">Esta publicação está sob uma licença Creative Commons Attribution-NonCommercial 4.0 International (CC BY-NC 4.0). O resumo legível da licença está disponível em <a href="https://creativecommons.org/licenses/by-nc/4.0/">https://creativecommons.org/licenses/by-nc/4.0/</a>.</div>
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		<title>Construiremos o futuro: um plano para salvar o planeta</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-48-plano-para-salvar-o-planeta/</link>
		
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		<pubDate>Mon, 10 Jan 2022 12:03:30 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Os Estados Unidos se empenham em travar uma Nova Guerra Fria contra a Rússia e a China, mesmo correndo o risco de destruir o planeta.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Dossiê n. 48</strong></p>
<p>O <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/alerta-vermelho-12-um-mundo-sem-fome/">fato</a> mais escandaloso da atualidade é que 2,37 bilhões de pessoas estão tendo dificuldade em se alimentar. A maioria delas está nos países em desenvolvimento, mas muitas estão em Estados industriais avançados. Os governos dos países desenvolvidos afirmam que não há dinheiro suficiente para abolir a fome ou qualquer uma das outras mazelas da era moderna, seja analfabetismo, problemas de saúde ou falta de moradia. No entanto, durante a pandemia, os bancos centrais desses países <a href="https://blogs.imf.org/2021/07/20/seizing-the-opportunity-for-a-pro-growth-post-pandemic-world/">garantiram</a> 16 trilhões de dólares para proteger o oscilante sistema capitalista. Recursos estavam prontamente disponíveis para salvar empresas, mas não para pessoas famintas: essa é a bússola moral de nossos tempos.</p>
<p>Nesse período, os institutos de pesquisa dos Estados capitalistas criaram novas entidades e publicaram uma série de relatórios oferecendo supostos remédios para “salvar o capitalismo”. Entre essas novas instituições estão o Council for Inclusive Capitalism [Conselho por um Capitalismo Inclusivo] (cujos parceiros incluem o Banco da Inglaterra e o Vaticano) e o B Corporation Movement [Movimento Corporativo B]. O <a href="https://www.weforum.org/agenda/2018/11/the-power-of-inclusive-capitalism/">Fórum Econômico Mundial</a> (WEF, na sigla em inglês) e o <a href="https://aboutus.ft.com/press_release/ft-sets-the-agenda-with-new-brand-platform"><em>Financial Times</em></a> defenderam uma “grande reinicialização” para tornar o capitalismo “mais inclusivo”. “A pandemia representa uma rara, mas estreita janela de oportunidade para refletir, reimaginar e redefinir nosso mundo”, <a href="https://www.weforum.org/focus/the-great-reset">diz o fundador e presidente executivo da WEF</a>, Klaus Schwab. Aqueles que nos levaram ao limiar da extinção e aniquilação afirmam que sabem como consertar nosso mundo. Como esperado, seu “capitalismo inclusivo” não oferece um programa claro, nada além de retórica vazia.</p>
<p>Enquanto isso, em meados de 2021, vinte e seis institutos de pesquisa de todo o mundo começaram a se reunir e discutir a produção de um esboço de um programa para enfrentar a crise atual. Sob a liderança da Aliança Bolivariana para os Povos de Nuestra América – Tratado de Comércio Popular (Alba-TCP), nossos encontros levaram à elaboração do documento <em>Um plano para salvar o planeta</em>, que publicamos neste dossiê. O objetivo é que ele seja discutido e debatido.</p>
<p>Um dos pontos-chave de diferenciação entre <em>Um Plano para Salvar o Planeta</em> e os vários documentos do “capitalismo inclusivo” é que não acreditamos que o capitalismo é um sistema que possa beneficiar a humanidade – independentemente de estar sendo apresentado com uma suposta cara nova – e tampouco acreditamos que o dilema que enfrentamos possa ser atribuído a uma “crise do coronavírus”. Em vez disso, argumentamos que estamos enfrentando uma crise do capitalismo em geral, uma crise que só pode ser superada por uma mudança em direção a um sistema projetado em torno das necessidades da classe trabalhadora e do campesinato e das exigências de um mundo natural sustentável. A maior parte deste dossiê apresentará nossa orientação, princípios e horizonte. Esta introdução examina os argumentos do “capitalismo inclusivo” e revela como – ao fim e ao cabo – eles procuram obsessivamente desviar a atenção das falhas do capitalismo e culpam a China por todos os seus males.</p>
<p> </p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-55172 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_17.png" alt="" width="950" height="160" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_17.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_17-300x51.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_17-768x129.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<p> </p>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>A crise do capitalismo</strong></span></h2>
<p>Ao chamá-la de “crise do coronavírus”, os gestores do capitalismo estão sugerindo que a pandemia é a culpada pela decadência econômica global e não a própria ordem social. Isso tem duas consequências: primeiro, esconde a crise do capitalismo; em segundo lugar, atribui a piora das condições da classe trabalhadora à pandemia, e não a um sistema que busca maximizar o lucro acima de tudo.</p>
<p>Quando a pandemia eclodiu, as esvaziadas instituições do Estado e da sociedade nos países capitalistas desmoronaram. A pandemia jogou luz na podridão, mas não a criou. A erosão de longo prazo das instituições do Estado e da vida social, na verdade, foi produto de uma crise estrutural com três dimensões centrais:</p>
<ol start="1">
<li>A crise geral do capitalismo, infligida ao sistema pela ferocidade da competição e pela motivação do lucro. Essa crise secular é capaz de altos e baixos periódicos, com a recuperação baseada na eliminação dos capitalistas mais fracos, no desenvolvimento de novas formas de exploração e na criação de novos mercados.</li>
<li>A crise engendrada pelo neoliberalismo, por meio do qual as classes capitalistas exercem seu poder sobre o Estado para reduzir sua capacidade de intervir no mercado e de garantir serviços sociais para a força de trabalho, o que inclui cortes drásticos em investimentos em saúde e bem-estar social.</li>
<li>A crise-depressão prolongada que se seguiu ao colapso financeiro de 2007-08, cujo impacto permanece profundamente enraizado na estrutura da financeirização e no sistema da cadeia de valor global. O lucro das finanças é maior do que o da manufatura, o que direciona o investimento para setores não produtivos; o sistema da cadeia de valor global impulsiona empregos produtivos para áreas do mundo onde os salários são mantidos indecentemente baixos pelas pressões do imperialismo.</li>
</ol>
<p>Essas três dimensões da crise infligiram um golpe sério ao capitalismo, cada uma com um ritmo diferente. A recuperação parece impossível de ser alcançada, a menos que um conjunto de novas tecnologias surja para aumentar a produtividade e o crescimento do emprego nos Estados capitalistas avançados. Setores oportunistas da classe capitalista estão fazendo uso do discurso da mudança climática para direcionar fundos públicos para mãos privadas, em uma tentativa de modernizar o capitalismo.</p>
<p>Como sinal do problema, a dívida total em 2007 era de <a href="https://www.theguardian.com/news/datablog/2015/feb/05/global-debt-has-grown-by-57-trillion-in-seven-years-following-the-financial-crisis">269%</a> do PIB mundial; ao final de 2020, <a href="https://www.iif.com/Portals/0/Files/content/Research/Global%20Debt%20Monitor_July2020.pdf">atingiu 331%</a>. Os mercados financeiros vivem em outro planeta. As bolhas financeiras continuam a inflar, com o capital ocioso sendo escoado para instrumentos cada vez mais arriscados. Enquanto isso, as condições de trabalho são uberizadas: os trabalhadores são forçados a condições precárias, muitas vezes sem contratos ou qualquer proteção, absorvendo todos os riscos enquanto os capitalistas colhem os lucros.</p>
<p>A crise permitiu às empresas capitalistas “reformarem” os mercados de trabalho em todo o mundo, erodir as proteções trabalhistas e uberizar todos os tipos de trabalho. O aprofundamento do capitalismo de plataforma agora é rotina (<a href="https://www.ilo.org/wcmsp5/groups/public/---dgreports/---dcomm/---publ/documents/publication/wcms_771749.pdf">em 2020, havia cinco vezes mais empresas de plataformas que em 2010</a>). Novas leis foram aprovadas e as regulamentações, enfraquecidas em nome da aceleração dos produtos ao longo da obstruída cadeia de suprimentos até o mercado. Se esta crise é devido ao coronavírus, então essas medidas de “emergência” devem ser retiradas quando a pandemia terminar. Mas não é o que acontecerá. O que o capital ganha, mesmo em uma emergência, ele retém. Nada é devolvido aos trabalhadores sem uma grande luta. Algumas das <a href="https://www.ilo.org/wcmsp5/groups/public/@ed_dialogue/@actrav/documents/meetingdocument/wcms_164286.pdf">formas mais comuns</a> de erosão dos direitos trabalhistas incluem empregadores que assumem o controle dos procedimentos de demissão, dos salários, das horas de trabalho e das condições de trabalho, ao mesmo tempo que dão preferência a trabalhadores que não podem <a href="https://www.ilo.org/wcmsp5/groups/public/---dgreports/---dcomm/---publ/documents/publication/wcms_771749.pdf">negociar</a> e obter coletivamente proteções sociais, tirando vantagem dos <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/nas-ruinas-do-presente/">desenvolvimentos tecnológicos</a> para fragmentar os trabalhadores ao longo do processo de produção e facilitar, para as empresas, a tarefa de travar os esforços de organização do trabalho. Esses são dois sintomas do período atual: o capital esconde sua crise sistemática por trás da pandemia e usa a pandemia para obter ganhos à custa do trabalho.</p>
<p>Apesar desse esforço conjunto para desviar a culpa do capitalismo, até mesmo os críticos liberais estão tendo que reconhecer que há sérios problemas com o sistema. Duas questões são amplamente reconhecidas na literatura hegemônica:</p>
<ol start="1">
<li>O aumento das taxas de <a href="https://www.oecd.org/social/inequality-and-poverty.htm">desigualdade é uma ameaça</a> à estabilidade social. A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) – composta pelos 38 países mais ricos do planeta – <a href="https://www.oecd.org/social/inequality.htm">admite</a> que a desigualdade de renda entre seus membros está “em seu nível mais alto desde a última metade do século. A renda média dos 10% mais ricos da população é cerca de nove vezes a dos 10% mais pobres em toda a OCDE; há 25 anos, em comparação, era de sete vezes”. Isso apenas dentro da OCDE. Se olharmos para a desigualdade global, o <a href="https://www.oxfam.org/en/5-shocking-facts-about-extreme-global-inequality-and-how-even-it">1% mais rico do mundo tem mais do que o dobro da riqueza de 6,9 bilhões de pessoas</a>. Colocando de forma ainda mais clara, 22 dos homens mais ricos do mundo têm mais riqueza que todas as mulheres na África. Essa extrema desigualdade produz imensos problemas sociais.</li>
<li>A atividade econômica está cada vez mais <a href="https://harvardlawreview.org/2020/12/demands-for-a-democratic-political-economy/">divorciada</a> das instituições democráticas. Como os ricos acumulam a maior parte da riqueza do mundo, inundando a política nos Estados capitalistas avançados com seu dinheiro, eles definem as políticas públicas. A democracia está erodida. E mais: à medida que a atividade econômica ocorre cada vez mais além da regulamentação governamental, vastas áreas da vida social são empurradas para fora do alcance do escrutínio democrático e entregues a tecnocratas e corporações. Isso permite que as empresas se comportem de maneira profundamente autoritária, como o uso de práticas trabalhistas que abusam do corpo humano sem limites. Implica também uma grave crise do Estado burguês, uma vez que grande parte da população já não acredita em atividades democráticas básicas como o voto.</li>
</ol>
<p>Os gestores dos Estados capitalistas avançados estão cientes da crise, estão até mesmo assombrados por ela. No entanto, eles querem desviar a atenção de qualquer resposta genuína, o que inevitavelmente colocaria em questão o próprio sistema. Em vez disso, eles desenvolveram o costume de culpar a China.</p>
<p> </p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-54951 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_2.png" alt="" width="950" height="160" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_2.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_2-300x51.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_2-768x129.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<p> </p>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>A culpa é da China</strong></span></h2>
<p>Uma <a href="https://www.edelman.com/sites/g/files/aatuss191/files/2020-01/2020%20Edelman%20Trust%20Barometer%20Global%20Report.pdf">pesquisa</a> de 2020 feita por Edelman descobriu que 56% das pessoas em todo o mundo concordam com a afirmação: “o capitalismo como existe hoje faz mais mal que bem no mundo”. A opinião pública parece ansiosa para olhar para o sistema em vez de usar a China como bode expiatório; mas as potências capitalistas desejam disputar a atenção por meio de uma <a href="https://nocoldwar.org/">Nova Guerra Fria</a>. As mesmas narrativas são frequentemente utilizadas:</p>
<ol>
<li>A crise é causada pela pandemia, cujo responsável é a China.</li>
<li>A crise é ocasionada pelas trapaças da China no comércio mundial; ou porque a China e a Índia produzem mercadorias baratas externalizando custos de energia por meio da poluição de carbono; ou por causa do avanço da tecnologia chinesa, que tem prejudicado a segurança global.</li>
</ol>
<p>Cada uma dessas narrativas são falsas. A primeira – de que a pandemia é a culpada pela crise – já foi abordada anteriormente, quando tratamos das três dimensões da crise capitalista de longo prazo. As acusações de violações chinesas de regras de comércio e de propriedade de tecnologia também estão equivocadas (até a revista <em>Foreign Policy</em> rejeita essa visão, <a href="https://foreignpolicy.com/2018/08/08/china-is-cheating-at-a-rigged-game/">reconhecendo, em vez disso, que o jogo comercial é “manipulado”</a>).</p>
<p>A Nova Guerra Fria desenvolvida e aprofundada pelo Ocidente tem quatro impactos imediatos:</p>
<ol>
<li>Desvia a atenção dos traumas que o capitalismo inflige à classe trabalhadora nas sociedades capitalistas.</li>
<li>Permite que os Estados capitalistas avançados gerem uma imensa quantidade de propaganda contra a China, acusando-a de violações dos direitos humanos e de ser uma ameaça à segurança global.
<ol>
<li style="list-style-type: none;">
<ol>
<li>Isso permite que o Ocidente esconda notícias de que a China <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/estudos-1-socialismo-em-construcao/">erradicou a pobreza extrema</a> ou que <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/estudos-2-coronavirus/">conseguiu controlar a pandemia</a>. As notícias anti-China não têm como alvo apenas o país asiático; são pensadas para impedir qualquer pensamento de uma alternativa ao discurso do “capitalismo inclusivo” propagado pelo Ocidente.</li>
<li>Isso dá suporte à tentativa do Ocidente de minar qualquer envolvimento benéfico da China no Terceiro Mundo, como o <a href="http://www.xinhuanet.com/english/2020-06/18/c_139147084.htm">anúncio do presidente Xi</a> de um investimento de 40 bilhões de dólares e a doação de 1 bilhão de doses de vacinas contra a Covid-19 para o continente africano, espalhando o medo sobre a natureza supostamente insidiosa da influência chinesa.</li>
</ol>
</li>
</ol>
</li>
<li>Ele impulsiona a expansão da já massiva indústria de armas, empurrando mais armas para os governos de Estados capitalistas avançados e seus aliados. As vendas de armas <a href="https://www.sipri.org/media/press-release/2021/business-usual-arms-sales-sipri-top-100-arms-companies-continue-grow-amid-pandemic">aumentaram</a> durante a pandemia, de acordo com o Stockholm International Peace Research Institute, e os EUA continuam a dominar o comércio de armas: 54% das vendas entre as 100 maiores empresas de armas em 2020 foram de fabricantes estadunidenses, e os EUA têm, de longe os maiores gastos militares do mundo, respondendo por quase 1 trilhão de dólares – 39% dos gastos militares mundiais. Em contraste com os EUA, a China usa seus gastos militares para defender suas fronteiras, não para ameaçar outros países. No entanto, a natureza da <a href="https://www.nytimes.com/2021/11/28/us/politics/china-nuclear-arms-race.html">mídia ocidental é tal que trata a defesa da China</a> de suas próprias fronteiras como uma ameaça à ordem ocidental.</li>
<li>Isso aumenta as ameaças militares de maneira severa e pode levar a um estopim. Esse militarismo inclui o fortalecimento do Quad na Ásia, o aumento da frequência das chamadas missões de “liberdade de navegação” no Mar da China Meridional, o anúncio do acordo de submarino nuclear AUKUS e as novas manobras de interoperabilidade do Comando Indo-Pacífico dos Estados Unidos com outros países da região. Inclui também os jogos de guerra dos EUA no Caribe – como o recém-concluído Tradewinds 2021, na Guiana, e o Panamex 2021, no Panamá, ambos demonstrações de força para os Estados latino-americanos que desejam defender sua soberania e buscar relações construtivas com a China.</li>
</ol>
<p>Do ponto de vista do Terceiro Mundo, a emergência da China como entidade no cenário global oferece uma alternativa à agenda de desenvolvimento impulsionada pelo Fundo Monetário Internacional. Nas últimas cinco décadas, o FMI avançou com uma estrutura de política que recebeu muitos nomes, mas continua sendo melhor descrita por seu apelido original: políticas de ajuste estrutural. O FMI diz aos governos do mundo em desenvolvimento que não dará boas classificações de crédito, a menos que esses países ajustem estruturalmente suas políticas internas. O ajuste estrutural consiste em privatizar os serviços públicos, construir regimes de metas de inflação, liberalizar a política comercial (incluindo subsídios e cortes tarifários) e cortar gastos para o desenvolvimento humano. Essas políticas corroeram a soberania nacional, aumentaram o sofrimento para a maioria da população, endureceram as hierarquias de gênero, já que aumentou o <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/estudos-4-coronachoque-e-patriarcado/">trabalho de cuidado</a> para as mulheres, e destruíram importantes infraestruturas sociais – tudo isso enquanto os detentores de títulos ricos em países desenvolvidos continuaram a exigir que o fardo da dívida seja pago. Durante a pandemia, a <a href="https://www.oxfam.org/en/no-country-should-be-forced-choose-between-paying-back-debts-or-providing-health-care">Oxfam descobriu</a> que “64 dos países mais pobres do mundo gastaram mais no pagamento de dívidas aos países ricos e instituições financeiras do que em saúde”. Desde 1960, os países desenvolvidos <a href="https://www.aljazeera.com/opinions/2021/5/6/rich-countries-drained-152tn-from-the-global-south-since-1960">drenaram 152 trilhões de dólares</a> do mundo em desenvolvimento: essa é a melhor ilustração do impacto da forma de desenvolvimento do FMI. É por isso que <a href="https://www.telesurenglish.net/news/Peru-Poverty-Could-Reach-the-Highest-Level-in-a-Decade-20201009-0019.html">30% da população peruana</a>, de 33 milhões de pessoas, vive na pobreza, por exemplo.</p>
<p>Está claro que o modelo de austeridade-privatização do FMI está sendo desafiado pelo modelo de desenvolvimento de investimento da Iniciativa do Cinturão e Rota (ICR, ou a Nova Rota da Seda). Por cinquenta anos, o FMI se posicionou como a única opção para o desenvolvimento econômico e promoveu o neoliberalismo como a única estrutura política. Em contraste, o ICR – com uma agenda moldada em torno de investimento em infraestrutura e desenvolvimento humano – oferece uma escolha aos países do Sul Global. O surgimento da ICR como alternativa ao FMI fez com que os EUA contestassem o surgimento de investimentos chineses no mundo em desenvolvimento, não apenas na América Latina, mas também em partes da Ásia e da África. Países como Argentina, Bolívia, Cuba, Nicarágua, Venezuela e Peru acolhem de bom grado as opções oferecidas pela ICR. Em breve, chegará o dia em que os países do Sul não terão que ir com o chapéu na mão aos credores governamentais, como o Clube de Paris, e aos credores privados, como o Clube de Londres, e implorar pelo alívio da dívida, nem terão que atender os caprichos das missões de estudo do FMI, que vêm por alguns dias e fazem um julgamento duradouro sobre um país. Projetos de desenvolvimento soberanos precisam de espaço para serem idealizados; o espaço aberto pela ICR deve permitir que os países do Sul sonhem com seus próprios caminhos. Esse é o benefício líquido da ascensão da China e da competição comercial que ela cria com o Ocidente.</p>
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<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-54951 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_2.png" alt="" width="950" height="160" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_2.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_2-300x51.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_2-768x129.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<p> </p>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Luta de classes global</strong></span></h2>
<p>À medida que a crise do capitalismo se intensifica, o mesmo ocorre com a luta de classes global. Aqui estão três exemplos-chave do atual momento:</p>
<ol>
<li style="list-style-type: none;">
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<li>A <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-41-agricultura-na-india/">luta dos agricultores indianos</a>: os agricultores indianos se posicionaram contra três leis agrícolas que teriam efetivamente <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/newsletterissue/cartasemanal-agricultura-tecnologica/">uberizado</a> a produção agrícola. Eles lutaram por um ano para forçar o governo indiano a <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/newsletterissue/cartasemanal-agricultura-tecnologica/">anular essas leis</a> e ganharam, mas eles estão indo além, lutando por preços mínimos de apoio, eletricidade subsidiada e uma série de outras reivindicações que levariam o governo a um papel mais intervencionista e social no sistema agrícola. Os agricultores reconhecem que essa é uma luta existencial, por isso não vão recuar.</li>
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<ol start="2">
<li><a href="https://makeamazonpay.com/">Make Amazon Pay</a> [Faça a Amazon pagar]: essa campanha internacional que abrange desde trabalhadores de confecções em Bangladesh e Camboja até trabalhadores de entregas na Itália e nos Estados Unidos visa forçar a empresa a pagar “salários justos, seus impostos e por seu impacto no planeta”. A Amazon é uma empresa de 1 trilhão de dólares que pagou <a href="https://itep.org/amazon-has-record-breaking-profits-in-2020-avoids-2-3-billion-in-federal-income-taxes/">apenas 1,2% de imposto</a> em seu país de origem, os EUA, em 2019 e retém indenizações de trabalhadores na Ásia. No Camboja, os trabalhadores da Hulu Garment foram <a href="https://www.publiceye.ch/en/topics/fashion/fashion-brands-fail-to-address-pandemic-era-wage-theft-in-cambodia-garment-workers-deprived-of-109-million">fraudados</a> em 3,6 milhões de dólares em indenizações; ao todo, os trabalhadores do setor de confecções em todo o <a href="https://www.publiceye.ch/en/topics/fashion/fashion-brands-fail-to-address-pandemic-era-wage-theft-in-cambodia-garment-workers-deprived-of-109-million">Camboja precisam receber 393 milhões de dólares</a> em salários pendentes e indenizações acumuladas durante a pandemia. A militância aumentou em toda a cadeia de valor global.</li>
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<ol>
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<ol start="3">
<li>A luta dos profissionais de saúde: <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-29-saude/">profissionais de saúde</a> dos Estados Unidos e África do Sul, passando pela Grécia, Quênia, Guiné-Bissau, Polônia e Turquia realizaram greves para chamar a atenção para os baixos salários e as péssimas condições de trabalho. Na <a href="https://peoplesdispatch.org/2021/11/04/public-healthcare-workers-in-greece-go-on-strike-seeking-greater-investment-pay-hikes/">Grécia</a>, os sindicatos lutaram contra a privatização dos hospitais e a uberização dos trabalhadores da saúde. Enquanto isso, enfermeiras de 28 países apresentaram uma queixa contra “criminosos da Covid-19” nas Nações Unidas, <a href="https://progressive.international/wire/2021-11-29-carers-of-the-world-vs-covid-19-criminals/en">dizendo</a>: “esses países violaram nossos direitos e os direitos de nossos pacientes – e causaram a perda de inúmeras vidas – de enfermeiras e outros cuidadores e daqueles de quem cuidamos”. No ano passado, <a href="https://peoplesdispatch.org/2020/08/11/why-a-growing-force-in-brazil-is-charging-that-president-jair-bolsonaro-has-committed-crimes-against-humanity/">sindicatos brasileiros</a> da área de saúde levaram o governo de Bolsonaro ao Tribunal Penal Internacional e o acusaram de crimes contra a humanidade.</li>
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</li>
</ol>
<p>Estamos operando com o pressuposto, entretanto, de que, embora existam as condições objetivas para a intensificação da luta de classes, as condições subjetivas não estão facilmente disponíveis. Parte disso tem a ver com a tendência do capitalismo de gerar uma consciência reformista entre a classe trabalhadora ou de impulsionar uma ideologia chauvinista entre os trabalhadores. O reformismo favorece tanto os setores social-democratas quanto os neoliberais, que fazem promessas de empreendedorismo para atrair sonhos de mobilidade ascendente; o chauvinismo é a moeda da extrema direita, embora ambas as tendências sejam adotadas pela gama de atores políticos burgueses.</p>
<p>Nossos movimentos ao redor do mundo enfrentam diretamente as limitações do reformismo e do chauvinismo. <em>Um Plano para Salvar o Planeta</em>, o documento no qual este dossiê se baseia, é uma contribuição para a contínua <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/o-novo-intelectual/">batalha de ideias</a> que é uma parte fundamental da luta de classes global. Esse documento, que apenas amplifica as vozes das organizações de trabalhadores e camponeses, já começou a estimular o debate entre as forças do progresso. É a partir das grandes lutas de nosso tempo – que levantam essas idéias e as tornam materiais – que aumentaremos nossa confiança e nosso poder de construir um sistema que nos permitirá ser humanos e permitirá que a natureza prospere.</p>
<p> </p>
<p> </p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-54962 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_3.png" alt="" width="950" height="440" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_3.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_3-300x139.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_3-768x356.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<p> </p>
<p> </p>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Um plano para salvar o planeta</strong></span></h2>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Setembro de 2021</strong></span></h2>
<p><strong> </strong></p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Prefácio</strong></span></h3>
<p><span style="color: #000000;"><em>Sacha Llorenti</em></span></p>
<p>Quase cinco milhões e meio de pessoas morreram infectadas pela covid-19. Essa tragédia global é a lente através da qual devemos analisar como e a favor de quem funciona o sistema que impera no planeta.</p>
<p>A pandemia conseguiu condensar, em poucos meses, fenômenos políticos, econômicos e sociais cujas consequências, em outras circunstâncias, se advertem há muitos anos.</p>
<p>A precariedade trabalhista, o déficit nos sistemas de saúde, a desigualdade, as relações Norte-Sul, a debilidade da Organização das Nações Unidas (ONU) para enfrentar de forma coordenada um esforço coletivo, o uso das medidas coercitivas unilaterais como uma arma de controle e castigo exemplar contra muitos povos, a vulnerabilidade da economia global e o papel do Estado constituem algumas das características claramente ampliadas sob a lente do fenômeno da pandemia.</p>
<p>O caráter multidimensional e existencial das crises que a humanidade e a vida no planeta enfrentam nos obriga a construir e fortalecer todos os espaços de encontro possíveis para que, de maneira coletiva, construamos um horizonte comum, interseccional e inclusivo, que nos permita recuperar a iniciativa social e política.</p>
<p>Nesse contexto, a Secretaria Executiva da ALBA-TCP junto com o Instituto Simón Bolívar para a Paz e a Solidariedade entre os Povos e o Instituto Tricontinental de Pesquisa Social tomamos a iniciativa de realizar um encontro de centros de pensamento com o propósito de levar adiante a ambiciosa e urgente tarefa de elaborar <em>Um plano para salvar o planeta</em>.</p>
<p>Depois de várias semanas de trabalho, temos diante de nós um conjunto sistematizado de propostas, que nos permite fazer uma alteração de rota e assim mudar o rumo para o qual o sistema capitalista está levando a nossa espécie e a todos os seres vivos que habitam o nosso planeta.</p>
<p>Esse documento já tem vida própria e pertence a todas as pessoas e a todos os coletivos que queiram enriquecê-lo e convertê-lo em um instrumento de luta contra o imperialismo, o colonialismo e o capitalismo.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Introdução</strong></span></h3>
<p><em>Carlos Ron e Vijay Prashad</em></p>
<p>Ao longo desta pandemia, cresceu a consciência sobre a fragilidade da sociedade humana. Muitas partes do mundo ruíram diante da covid-19, enquanto a concretude das mudanças climáticas nos apresentou a realidade de que várias espécies de plantas e animais foram e estão sendo extintas. Entre a aniquilação e a extinção está o destino do planeta.</p>
<p>Sacha Llorenti, secretário-geral executivo da ALBA-TCP, reuniu um grupo de institutos de pesquisa para elaborar <em>Um plano para salvar o planeta</em>. Esse plano deveria ser escrito a partir de uma perspectiva centrada nos povos, contra a abordagem centrada no lucro de instituições internacionais, como a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e o Fórum Econômico Mundial. Este documento surge dessa demanda.</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>O que é a ALBA-TCP?</strong></span></h3>
<p>A Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América, ou ALBA, nasceu em 2004, em Havana, Cuba, quando uma declaração conjunta e um acordo de implementação foram assinados pelos comandantes Hugo Chávez Frías e Fidel Castro Ruz. Em abril de 2006, a Bolívia aderiu à Aliança, complementando seus princípios, e foi incorporado o Tratado de Comércio dos Povos (TCP), que propõe o comércio baseado na complementaridade, solidariedade e cooperação.</p>
<p>A ALBA-TCP é um órgão interestatal composto por nove Estados que promove o duplo objetivo de soberania em relação à dominação externa e de integração para o avanço interno. Alguns desses métodos de integração incluem o desenvolvimento de uma moeda regional comum para reconciliar o comércio inter-regional (o Sucre), a criação de empresas regionais de energia para promover objetivos sociais (PetroCaribe e PetroSur) e o estabelecimento de uma rede de televisão para democratizar o sistema global de comunicações (TeleSur). A ALBA-TCP faz parte de um conjunto de dinâmicas regionais que promovem a soberania e a integração, incluindo a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) e a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac).</p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>O que é a rede de institutos de pesquisa?</strong></span></h3>
<p>Para desenvolver <em>Um plano para salvar o planeta</em>, a ALBA-TCP trabalhou com dois institutos de pesquisa: o Instituto Simón Bolívar pela Paz e Solidariedade entre os Povos e o Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. Nossos dois institutos reuniram outros centros de pesquisa com os quais trabalhamos ao longo dos anos e estabeleceram uma rede para a construção deste documento. Essa rede é um encontro informal que foi fortalecido pelo nosso trabalho comum e que conduzirá a mais projetos coletivos no futuro. Se outros institutos de pesquisa estiverem interessados em ingressar nessa rede, escreva para <a href="mailto:plan@thetricontinental.org">plan@thetricontinental.org</a></p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><strong><span style="color: #ba2025;">O que é Um plano para salvar o planeta?</span></strong></h3>
<p>Em 1974, a Assembleia Geral das Nações Unidas adotou uma resolução chamada Nova Ordem Econômica Internacional (NOEI), desenvolvida pelo Movimento dos Não-Alinhados, o G-77 e a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento. Essa resolução foi baseada na “equidade, igualdade soberana, interdependência, interesse comum e cooperação entre todos os Estados, independentemente de seus sistemas econômicos e sociais, que devem corrigir as desigualdades e reparar as injustiças existentes, permitindo eliminar o fosso cada vez maior entre os países desenvolvidos e os em desenvolvimento, e garantir uma aceleração constante do desenvolvimento econômico e social, paz e justiça para as gerações presentes e futuras”. Não há nada a ser atualizado em relação a esses sentimentos.</p>
<p>O enfraquecimento do Projeto do Terceiro Mundo, o fim da União Soviética (URSS) e do sistema de Estado comunista na Europa Oriental e o colapso da social-democracia nos países capitalistas avançados significaram que a NOEI – e toda a sua agenda de desenvolvimento – foram deixados de lado. Em seu lugar, surgiu a agenda de austeridade e segurança (guerra) neoliberal. O estabelecimento da Comissão do Sul sob a liderança de Julius Nyerere, entre 1987 e 1990, foi uma tentativa de ressuscitar a NOEI, mas seu documento final, <em>O Desafio para o Sul</em>, não recebeu a atenção séria que exigia. <em>Um plano para salvar o planeta</em> é elaborado na tradição da NOEI (1974) e de <em>O Desafio do Sul</em> (1990).</p>
<p><em>Um plano para salvar o planeta</em> é um texto provisório, um rascunho construído a partir das análises e reivindicações dos movimentos e governos populares. Deve ser lido e discutido, para ser criticado e desenvolvido cada vez mais. Este é o primeiro rascunho de muitos que virão. Entre em contato conosco pelo e-mail <a href="mailto:plan@thetricontinental.org">plan@thetricontinental.org</a> com suas críticas e sugestões, pois este é um documento vivo que acabará avançando por meio de nossos movimentos e nossas instituições, construindo uma resolução nas Nações Unidas para salvar o planeta.</p>
<p> </p>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Um plano para salvar o planeta</strong></span></h2>
<p>Inseguranças de vários tipos dominam o planeta. O impacto da pandemia de covid-19 produziu a maior retração econômica desde a Grande Depressão. Essa queda não se reflete nos preços das ações ou nos relatórios de lucros das principais empresas multinacionais, mas nos dados sobre desemprego e desigualdade, no aumento da fome e dos sentimentos de desolação e raiva. Estima-se que centenas de milhões de pessoas serão empurradas para a pobreza absoluta pelo impacto da pandemia de covid-19. Este é apenas um dos fatos em meio a uma avalanche de más notícias para aqueles que estão assistindo a queda de muitos países em dívida catastrófica e desespero. Um programa de emergência global deve ser realizado para prevenir esse resultado. É crucial que os países deixem de lado as estreitas preocupações nacionalistas e se engajem em uma resposta comum e cooperativa a esta crise.</p>
<p>Três apartheids – financeiro, sanitário e alimentar – governam a situação imediata no mundo:</p>
<p><strong>Apartheid financeiro</strong>. A dívida externa dos países em desenvolvimento é superior a 11 trilhões de dólares, com projeções de que os pagamentos do serviço da dívida chegarão a quase 4 trilhões até o final de 2021. Em 2020, 64 países gastaram mais com o serviço da dívida do que com saúde. Houve uma conversa modesta sobre a suspensão do serviço da dívida, com uma pequena assistência de várias agências multilaterais. Essa conversa acompanha a política do Fundo Monetário Internacional (FMI) para que os Estados peguem mais dinheiro emprestado, já que as taxas de juros estão baixas. Em vez de emprestar mais, por que não simplesmente cancelar a dívida externa total e, ao mesmo tempo, incorporar os pelo menos 37 trilhões de dólares em paraísos fiscais ilícitos? A palavra que costuma ser usada para definir o cancelamento da dívida é “perdão”. No entanto, não há nada a perdoar, já que essa dívida é consequência de uma longa história de roubo colonial, expropriação imperialista e pilhagem. Os países mais ricos podem tomar empréstimos com taxas de juros baixas, quase a zero, enquanto o mundo em desenvolvimento paga taxas abusivas e tem dívidas odiosas para pagar com fundos preciosos que deveriam ser destinados ao combate à pandemia de covid-19.</p>
<p><strong>Apartheid sanitário</strong>. O diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, disse que o mundo está à beira de um “fracasso moral catastrófico”. Ele estava se referindo ao nacionalismo e à acumulação de vacinas. Os Estados do Atlântico Norte (Canadá, Estados Unidos, Reino Unido e muitos Estados europeus) ignoraram o apelo da Índia e da África do Sul para suspender as regras de propriedade intelectual relacionadas à vacina. Esses Estados do Norte têm subfinanciado o projeto Covax, que, como resultado, corre um alto risco de fracassar, com expectativas crescentes de que muitas pessoas nos países em desenvolvimento não verão uma vacina antes de 2023. Enquanto isso, os Estados do Norte acumularam vacinas: só o Canadá acumulou reservas de cinco vacinas por habitante, tirando algumas dessas vacinas da Covax. Ghebreyesus chama isto de “apartheid vacinal”.</p>
<p><strong>Apartheid alimentar</strong>. A fome no mundo, que havia diminuído de 2005 a 2014, começou a aumentar desde então, com a China – que erradicou a pobreza extrema em 2020 – como uma grande exceção a essa tendência global. A fome mundial está agora nos níveis de 2010. O relatório de 2021 da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), <em>O Estado da Insegurança Alimentar e Nutrição no Mundo</em>, observa que “quase uma em cada três pessoas no mundo (2,37 bilhões) não tinha acesso a alimentos adequados em 2020 – um aumento de quase 320 milhões de pessoas em apenas um ano”. A fome é insuportável. O Programa Mundial de Alimentos da ONU projeta que o número de pessoas que passam fome pode dobrar antes que a pandemia seja contida por completo, “a menos que uma ação rápida seja tomada”.</p>
<p>Qual é a causa desses três apartheids? O controle que um punhado de empresas e governos exercem sobre a economia global:</p>
<p>Controle sobre ciência e tecnologia<br>
Controle sobre os sistemas financeiros<br>
Controle sobre o acesso aos recursos<br>
Controle sobre armamentos<br>
Controle sobre as comunicações</p>
<p>Nós, uma rede de instituições de pesquisa que tem observado de perto as crises de longo prazo da austeridade neoliberal, regimes de dívida induzida e mau desenvolvimento, produzimos um conjunto de políticas voltadas para uma nova ordem mundial. Nosso plano – baseado na linha da NOEI – apresenta uma visão para o presente e o futuro imediato centrada em 12 temas principais: democracia e ordem mundial, meio ambiente, finanças, saúde, habitação, alimentação, educação, trabalho, trabalho de cuidado, mulheres, cultura e o mundo digital. Este é o esqueleto de um plano muito mais completo que produziremos no próximo ano.</p>
<p> </p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-54973 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_4.png" alt="" width="950" height="310" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_4.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_4-300x98.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_4-768x251.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<p> </p>
<p><strong> </strong></p>
<h3 style="margin:2em 0;"><strong><span style="color: #ba2025;">Democracia e a ordem mundia</span>l</strong></h3>
<ol>
<li style="text-align: left;">Afirmar a importância da Carta das Nações Unidas (1945).</li>
<li>Insistir para que os Estados membros das Nações Unidas cumpram a Carta, incluindo seus requisitos específicos sobre o uso de sanções e força (Capítulos VI e VII).</li>
<li>Reconsiderar o poder de monopólio exercido pelo Conselho de Segurança da ONU sobre as decisões que afetam uma grande parte do sistema multilateral; envolver a Assembleia Geral da ONU em um diálogo sério sobre a democracia dentro da ordem global.</li>
<li>Insistir para que os órgãos multilaterais – como a Organização Mundial do Comércio (OMC) – formulem políticas de acordo com a Carta das Nações Unidas e a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948); proibir qualquer política que aumente a pobreza, a fome, a falta de moradia e o analfabetismo.</li>
<li>Afirmar a centralidade do sistema multilateral sobre as principais áreas de segurança, política comercial e regulamentos financeiros, reconhecendo que órgãos regionais como a OTAN e instituições limitadas como a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) suplantaram as Nações Unidas e suas agências (como a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) na formulação dessas políticas.</li>
<li>Formular políticas para fortalecer os mecanismos regionais e aprofundar a integração dos países em desenvolvimento.</li>
<li>Impedir o uso do paradigma de segurança – notadamente, contraterrorismo e antinarcóticos – para enfrentar os desafios sociais do mundo.</li>
<li>Limitar gastos com armas e militarismo; assegurar que o espaço seja desmilitarizado.</li>
<li>Converter os recursos gastos na produção de armas para financiar produções socialmente benéficas.</li>
<li>Garantir que todos os direitos estejam disponíveis para todas as pessoas, não apenas para aqueles que são cidadãos de um Estado; esses direitos devem se aplicar a todas as comunidades até então marginalizadas, como mulheres, povos indígenas, pessoas não brancas, migrantes, pessoas sem documentos, pessoas com deficiência, pessoas LGBTQ+, castas oprimidas e pobres.</li>
</ol>
<p> </p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-54984 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_5.png" alt="" width="950" height="290" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_5.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_5-300x92.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_5-768x234.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>O meio ambiente</strong></span></h3>
<ol>
<li>Com base na formulação da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento de 1992 de “responsabilidades comuns, mas diferenciadas”, obrigar os países desenvolvidos que carregam a responsabilidade histórica de ter causado a catástrofe climática a reduzirem rapidamente suas emissões de carbono para impedir que as temperaturas globais aumentem acima do limite crítico de 1,5 °C</li>
<li>Exigir que os países desenvolvidos reduzam as emissões médias de carbono per capita para um máximo de 2,3 toneladas até 2030, que é o que o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas avalia ser a média global necessária para limitar o aquecimento global a 1,5 °C.</li>
<li>Garantir que os países desenvolvidos do Norte global forneçam compensação climática pelas perdas e danos causados por suas emissões de carbono e financiem fortemente a infraestrutura pública para substituir a dependência de energia baseada em carbono.</li>
<li>Cumprir as promessas do Acordo de Paris sobre Mudança Climática de que os países desenvolvidos forneçam 100 bilhões de dólares por ano para atender às necessidades dos países em desenvolvimento. Essas necessidades incluem adaptação e resiliência ao impacto real e desastroso da mudança climática, que já está sendo suportado por países em desenvolvimento (particularmente países de baixa altitude e pequenos Estados insulares).</li>
<li>Transferir tecnologia e financiamento para países em desenvolvimento para mitigação e adaptação de sistemas de energia baseados em carbono.</li>
<li>Exigir que os países desenvolvidos responsáveis por poluir as águas, o solo e o ar com resíduos tóxicos e perigosos – incluindo resíduos nucleares – arquem com os custos de despoluição e parem de produzir e usar resíduos tóxicos.</li>
<li>Sob uma definição coerente, revisada e ajustada às urgências imediatas dos países em desenvolvimento, elaborar um programa de transição rumo a um paradigma capaz de mitigar e adaptar os sistemas de energia baseados no carbono. Isso deve ser combinado com canais de financiamento racionais para os países em desenvolvimento, incluir o envolvimento direto destes e ser ajustado de acordo com a escala de necessidades e disposição para coordenar o financiamento. Esse roteiro para um paradigma combinado com os principais países, em qualquer caso, precisaria fornecer a matéria-prima para qualquer transição energética no futuro próximo.</li>
</ol>
<p> </p>
<p> </p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-54995 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_6.png" alt="" width="950" height="265" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_6.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_6-300x84.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_6-768x214.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Finanças</strong></span></h3>
<p> </p>
<ol>
<li>Renegociar todas as dívidas externas odiosas dos países em desenvolvimento.</li>
<li>Iniciar discussões sobre reparações por pilhagem colonial, incluindo escravidão.</li>
<li>Apreender ativos mantidos em paraísos fiscais ilícitos.</li>
<li>Adotar limites para as taxas de juros que os credores comerciais e multilaterais cobram dos países em desenvolvimento.</li>
<li>Desestimular as atividades de transferência de lucros das corporações multinacionais e adotar uma abordagem unitária para tributar a parcela dos lucros globais gerados pelas subsidiárias das corporações multinacionais.</li>
<li>Implementar impostos sobre riqueza e herança.</li>
<li>Implementar taxas mais altas de tributação sobre a renda, como ganhos de capital, feitos por meio de especulação financeira por todas as entidades corporativas não bancárias.</li>
<li>Democratizar o sistema bancário, expandindo o papel e o tamanho dos bancos públicos e implementando mais regulamentação e transparência para os bancos privados.</li>
<li>Aplicar limites em porcentagens das responsabilidades sobre a atividade bancária especulativa dos bancos comerciais.</li>
<li>Regular as taxas de juros que os bancos cobram por bens específicos, como empréstimos para habitação.</li>
<li>Definir controles de capital para evitar a fuga de capitais.</li>
<li>Criar alternativas centradas nas pessoas ao financiamento do FMI e do Banco Mundial para programas de desenvolvimento.</li>
<li>Incentivar a criação de mecanismos de reconciliação comercial regional.</li>
<li>Implementar regulamentações rígidas para os fundos de pensão, de modo que as poupanças das pessoas não sejam usadas imprudentemente para especulação financeira; incentivar a criação de fundos de pensão do setor público.</li>
</ol>
<p> </p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-55006 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_7.png" alt="" width="950" height="260" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_7.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_7-300x82.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_7-768x210.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Saúde</strong></span></h3>
<p> </p>
<ol>
<li>Avançar na proposta de uma vacina popular para a covid-19 e para doenças futuras.</li>
<li>Remover os controles de patentes sobre medicamentos essenciais e facilitar a transferência tanto do conhecimento médico quanto da tecnologia para os países em desenvolvimento.</li>
<li>Desmercantilizar, desenvolver e aumentar o investimento em sistemas públicos de saúde robustos.</li>
<li>Desenvolver a produção farmacêutica do setor público, principalmente nos países em desenvolvimento.</li>
<li>Formar um Painel Intergovernamental das Nações Unidas sobre Ameaças à Saúde.</li>
<li>Apoiar e fortalecer o papel que os sindicatos dos trabalhadores da saúde desempenham no local de trabalho e na economia.</li>
<li>Assegurar-se de que as pessoas de territórios desfavorecidos e de áreas rurais tenham acesso à formação para se tornarem médicas.</li>
<li>Ampliar a solidariedade médica, inclusive por meio da Organização Mundial da Saúde e de plataformas de saúde associadas, a órgãos regionais.</li>
<li>Mobilizar campanhas e ações que protejam e ampliem os direitos reprodutivos e sexuais.</li>
<li>Cobrar um imposto de saúde sobre grandes empresas que produzem bebidas e alimentos amplamente reconhecidos por organizações internacionais de saúde como prejudiciais às crianças e à saúde pública em geral (como aqueles que causam obesidade ou outras doenças crônicas).</li>
<li>Limitar as atividades promocionais e despesas de publicidade de empresas farmacêuticas.</li>
<li>Construir uma rede de centros de diagnóstico acessíveis e financiados com recursos públicos, e regular estritamente a prescrição e os preços dos testes de diagnóstico.</li>
<li>Fornecer atendimento psicológico como parte dos sistemas públicos de saúde.</li>
</ol>
<p> </p>
<p> </p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-55017 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_8.png" alt="" width="950" height="265" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_8.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_8-300x84.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_8-768x214.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Habitação</strong></span></h3>
<ol>
<li>Garantir a construção de moradias suficientes, com ênfase no desenvolvimento de diversos bairros com uma mistura de zonas residenciais e comerciais.</li>
<li>Determinar controles de aluguel em unidades habitacionais destinadas à locação.</li>
<li>Transformar propriedades ociosas em centros comunitários ou unidades habitacionais.</li>
<li>Construir e reaproveitar empreendimentos habitacionais ligados aos sistemas de transporte público, para reduzir a necessidade de transporte privado, como carros.</li>
<li>Exigir que todos os edifícios acima de 2 mil metros quadrados tenham telhados verdes ou painéis solares.</li>
<li>Desenvolver novas unidades habitacionais com materiais inovadores que demonstrem resistência térmica.</li>
</ol>
<p> </p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-55028 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_9.png" alt="" width="950" height="255" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_9.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_9-300x81.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_9-768x206.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;">Alimentação</span></h3>
<p> </p>
<ol>
<li>Melhorar os sistemas alimentares nacionais e regionais.</li>
<li>Rever e revogar acordos bilaterais e multilaterais que proíbem ou penalizam os sistemas públicos de alimentos e as compras públicas de alimentos.</li>
<li>Garantir que os países desenvolvidos que usam mecanismos do comércio internacional para impedir que os países em desenvolvimento subsidiem sua agricultura sejam proibidos de seguir políticas hipócritas, como as que subsidiam seus próprios agronegócios; aplicar as regras da OMC para facilitar o desenvolvimento e não para subordinar os países em desenvolvimento.</li>
<li>Redistribuir a terra, reconhecendo-a como um recurso comum do povo; limitar o tamanho da propriedade da terra e colocar limites nas propriedades de famílias e empresas.</li>
<li>Desenvolver irrigação sustentável com financiamento público e infraestrutura relacionada, para ajudar os agricultores a cultivarem em condições climáticas cada vez mais extremas.</li>
<li>Construir sistemas de distribuição pública de alimentos, com foco especial na eliminação da fome.</li>
<li>Aumentar o apoio público aos agricultores nos países em desenvolvimento para garantir que o trabalho agrícola proporcione uma renda decente aos agricultores e trabalhadores agrícolas.</li>
<li>Desenvolver sistemas de crédito para os agricultores para sustentar a agricultura e evitar o esgotamento da receita das unidades rurais.</li>
<li>Aumentar a produção de alimentos do setor cooperativo e incentivar a participação popular nos sistemas de produção e distribuição de alimentos.</li>
<li>Fornecer crédito barato, insumos subsidiados, assistência técnica gratuita e terra para o estabelecimento de propriedades rurais e mercados cooperativos.</li>
<li>Desenvolver redes de transporte com financiamento público, incluindo instalações de armazenamento, para garantir que as pequenas propriedades possam levar seus produtos aos mercados.</li>
<li>Garantir que alimentos saudáveis sejam colocados à disposição de escolas e creches públicas.</li>
<li>Construir capacidade técnica e científica para uma agricultura sustentável e ecológica.</li>
<li>Remover patentes de sementes e promover marcos jurídicos para proteger as sementes nativas contra a mercantilização do agronegócio.</li>
</ol>
<p> </p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-55039 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_10.png" alt="" width="950" height="235" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_10.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_10-300x74.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_10-768x190.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<p> </p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Educação</strong></span></h3>
<ol>
<li>Desmercantilizar a educação, o que inclui o fortalecimento da educação pública e a prevenção da privatização da educação.</li>
<li>Promover o papel dos professores na gestão das instituições de ensino.</li>
<li>Garantir que setores menos privilegiados da sociedade tenham acesso à formação para se tornarem professores.</li>
<li>Garantir acesso à eletricidade e diminuir as desigualdades digitais.</li>
<li>Construir sistemas de internet de banda larga de alta velocidade com financiamento e controle públicos.</li>
<li>Garantir que todas as crianças em idade escolar tenham acesso a todos os elementos do processo educacional, incluindo atividades extracurriculares.</li>
<li>Desenvolver canais por meio dos quais os alunos participem dos processos de tomada de decisão em todas as modalidades de ensino superior.</li>
<li>Fazer da educação uma experiência para a vida toda, permitindo que pessoas em todas as fases da vida possam desfrutar da prática de aprendizagem em vários tipos de instituições. Isso reforçará a ideia de que a educação não é apenas construir carreiras, mas construir uma sociedade que apoie o crescimento e o desenvolvimento contínuos das pessoas e da comunidade.</li>
<li>Subsidiar a educação superior e cursos profissionalizantes para trabalhadores de todas as idades nas áreas relacionadas à sua ocupação.</li>
<li>Tornar a educação, inclusive o ensino superior, disponível a todos em suas línguas nativas; garantir que os governos assumam a responsabilidade de fornecer materiais educacionais nas línguas nativas em seus países, por meio de traduções e outros meios.</li>
<li>Estabelecer institutos de educação em gestão que atendam às necessidades das cooperativas nos setores industrial, agrícola e de serviços.</li>
</ol>
<p><strong> </strong></p>
<p> </p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-55050 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_11.png" alt="" width="950" height="230" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_11.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_11-300x73.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_11-768x186.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<p><strong> </strong></p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Trabalho</strong></span></h3>
<ol>
<li>Exigir que os governos assumam a responsabilidade de garantir que suas leis trabalhistas cumpram as convenções fundamentais da Organização Internacional do Trabalho (OIT), especialmente as convenções 87 e 98 sobre os direitos de organização e negociação coletiva.</li>
<li>Aumentar o nível dos bens sociais – como saúde pública, educação pública e lazer público – para diminuir a pressão sobre os salários.</li>
<li>Incentivar o princípio de salários iguais para trabalho igual.</li>
<li>Fortalecer a cultura sindical e promover a negociação coletiva para conter o desequilíbrio inerente de poder no local de trabalho; dar aos trabalhadores uma voz democrática e evitar que os indivíduos se sintam isolados e sobrecarregados com a tarefa de melhorar seus locais de trabalho por conta própria.</li>
<li>Certificar-se de que todos os que trabalham – incluindo aqueles na economia informal e sazonal – estejam cobertos por proteções básicas no local de trabalho.</li>
<li>Focar na redistribuição do tempo de trabalho por meio do processo de negociação coletiva, proporcionando jornada de trabalho suficiente para todos com um salário mínimo.</li>
<li>Garantir que todo trabalhador tenha direito a condições de trabalho saudáveis ​​e seguras; tornar os governos responsáveis ​​por garantir que os padrões de segurança sejam devidamente monitorados e aplicados.</li>
<li>Criar centros de emprego com financiamento público para ajudar os desempregados na procura de emprego; esses centros podem estar enraizados, por exemplo, em uma rede de sindicatos de desempregados.</li>
<li>Fornecer sistemas robustos de bem-estar social com financiamento público, sem provas de recursos ou requisitos de trabalho.</li>
<li>Garantir pensões adequadas a todos os cidadãos em idade para se aposentar.</li>
<li>Garantir que o Estado forneça indenizações e pensões adequadas para os feridos ou incapacitados durante o trabalho, especialmente para os trabalhadores desorganizados, precários e autônomos.</li>
<li>Garantir que os governos promovam cooperativas de trabalhadores, contribuam para o capital inicial de tais cooperativas e garantam crédito e preços razoáveis.</li>
<li>Desenvolver as infraestruturas dos países em desenvolvimento em colaboração com essas cooperativas, institutos públicos de pesquisa e tecnologia e bancos; garantir que uma parte significativa dos gastos do governo em infraestrutura seja alocada a essas cooperativas.</li>
<li>Construir uma rede de transporte público barata e adequada (ônibus, trem e metrô) nas cidades para economizar o tempo dos trabalhadores e os recursos gastos em transporte.</li>
<li>Construir uma rede de lojas de alimentos cooperativas apoiadas pelo governo nas cidades e atender aos trabalhadores migrantes, precários e desorganizados.</li>
</ol>
<p> </p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-55061 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_12.png" alt="" width="950" height="310" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_12.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_12-300x98.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_12-768x251.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Trabalho de cuidado</strong></span></h3>
<p> </p>
<ol>
<li>Melhorar os sistemas de proteção social, incluindo programas de atendimento a crianças e idosos.</li>
<li>Construir um sistema de creches para crianças com financiamento público e administrado por bairros; criar instalações para creches depois da escola que forneçam refeições, com financiamento público e administradas pela vizinhança.</li>
<li>Construir um sistema de instalações administradas por bairros com financiamento público para a vida social e o cuidado dos idosos.</li>
<li>Garantir que os trabalhadores em creches e instituições para idosos recebam salários decentes, treinamento e controle sobre seu local de trabalho.</li>
</ol>
<p> </p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-55072 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_13.png" alt="" width="950" height="260" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_13.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_13-300x82.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_13-768x210.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Mulheres e população LGBTQ+</strong></span></h3>
<ol>
<li>Nomear lideranças de organizações de mulheres da classe trabalhadora para órgãos influentes que moldam as políticas públicas.</li>
<li>Apoiar organizações e redes de mulheres, incluindo organizações de trabalhadoras, organizações comunitárias e grupos de apoio mútuo.</li>
<li>Reconhecer e contabilizar as trabalhadoras informais, bem como o trabalho doméstico não remunerado nas contas nacionais. Isso deve incluir mulheres trabalhadoras em setores ocultos ou invisíveis.</li>
<li>Estabelecer políticas de licença parental remunerada.</li>
<li>Diminuir a carga crescente de trabalho de cuidados sobre as mulheres; garantir que os pacotes de apoio financeiro considerem o trabalho de cuidado não reconhecido e não remunerado mais frequentemente realizado por mulheres, como o serviço de cuidados infantis.</li>
<li>Fornecer ajuda imediata em dinheiro, ajuda alimentar e medidas de proteção social para mulheres trabalhadoras; garantir que as famílias chefiadas por mulheres recebam tanta ajuda quanto as famílias chefiadas por homens; e garantir que as pessoas LGBTQ+ tenham igual acesso a programas sociais e subsídios.</li>
<li>Reconhecer as necessidades específicas das trabalhadoras de saúde, muitas das quais não são tratadas como trabalhadoras, mas como voluntárias; garantir que elas recebam compensação adequada e equipamento adequado.</li>
<li>Fornecer crédito para cooperativas de mulheres.</li>
<li>Criar programas para encorajar o compartilhamento do trabalho reprodutivo social no lar.</li>
<li>Estabelecer sistemas que eliminem a violência contra mulheres e pessoas LGBTQ+; implementar planos para erradicar a violência patriarcal e garantir que as políticas econômicas não ignorem inadvertidamente o problema da violência patriarcal.</li>
<li>Garantir que todas as pessoas tenham acesso igual a programas e serviços sociais – como o direito à moradia segura e alimentação saudável – independentemente de gênero, identidade de gênero, orientação sexual ou outras identidades excluídas.</li>
</ol>
<p> </p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-55083 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_14.png" alt="" width="950" height="310" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_14.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_14-300x98.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_14-768x251.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<p> </p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Cultura</strong></span></h3>
<ol>
<li>Promover as ideias da Constituição da Unesco de 1945, particularmente a ideia de que a ampla difusão da cultura e da educação é indispensável para a dignidade humana e para a paz mundial.</li>
<li>Estender o apoio público às instituições culturais que defendem os valores da dignidade, igualdade e respeitabilidade.</li>
<li>Incentivar atividades culturais que não sejam reduzidas ao consumismo irracional.</li>
<li>Fomentar iniciativas culturais e artísticas contra a discriminação de todas as formas (como racismo, castismo, misoginia, transfobia etc.).</li>
<li>Endossar atividades culturais que retratam a harmonia ecológica e lutam contra a devastação dos recursos da terra para lucro privado.</li>
<li>Estimular as artes tradicionais populares e evitar sua mercantilização e distorção por um nacionalismo cultural cruel.</li>
<li>Defender o direito dos artistas e intelectuais à liberdade de expressão.</li>
</ol>
<p> </p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter wp-image-55094 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_15.png" alt="" width="950" height="240" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_15.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_15-300x76.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_15-768x194.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"></h3>
<h3 style="margin:2em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Mundo digital</strong></span></h3>
<p><strong> </strong></p>
<ol>
<li>Lutar para estender os bens comuns globais digitais, criando acesso público a espaços controlados e regulamentados publicamente na Internet.</li>
<li>Seguir a Resolução da ONU de 2016, que define o acesso à internet como um direito humano.</li>
<li>Nacionalizar a infraestrutura de telecomunicações e garantir o acesso à Internet e a alfabetização digital a todos os setores da sociedade.</li>
<li>Proteger todos os dados públicos e pessoais de exploração por corporações transnacionais; construir sistemas participativos para análise computacional e para o controle e uso de <em>big data</em> para fins públicos.</li>
<li>Promover e financiar o desenvolvimento de <em>hardware</em> e <em>software</em> gratuito com foco no fornecimento de soluções para problemas públicos.</li>
</ol>
<p> </p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-55158 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_16.png" alt="" width="950" height="681" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_16.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_16-300x215.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2022/01/20220106_D48_Web-Images_16-768x551.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #ba2025;"><strong>Rede de institutos de pesquisa</strong>:</span></h2>
<p>A Rede de Institutos de Pesquisa é um coletivo formado pela ALBA-TCP, Instituto Tricontinental de Pesquisa Social e Instituto Simón Bolívar pela Paz e Solidariedade entre os Povos. O texto acima faz parte de um processo iniciado por este grupo.</p>
<ol>
<li style="list-style-type: none;">
<ol>
<li>América Latina en movimiento, ALAI (Quito, Equador)</li>
<li>Centre for Research on the Congo (Kinshasa, DR Congo)</li>
<li>Centro de Investigaciones de la Economía Mundial (CIEM) (Cuba)</li>
<li>Centro de Investigaciones de Política Internacional (CIPI) (Cuba)</li>
<li>Centro per la Riforma dello Stato (Roma, Itália)</li>
<li>Chris Hani Institute (África do Sul)</li>
<li>Consultation and Research Institute (Beirute, Líbano)</li>
<li>Dominica Association of Industry &amp; Commerce (Roseau, Dominica)</li>
<li>Dominica State College (Roseau, Dominica)</li>
<li>Foundation for Education in Social Transformation and Progress (Quênia)</li>
<li>The Centre for International Gramscian Studies (GramsciLab), University of Cagliari (Itália)</li>
<li>Instituto Simón Bolívar para la Paz y la Solidaridad entre los Pueblos (Venezuela)</li>
<li>Internationale Forschungsstelle DDR (Berlim, Alemanha)</li>
<li>Institute of Employment Rights (Londres, Reino Unido)</li>
<li>Marx Memorial Library (Londres, Reino Unido)</li>
<li>Instituto Internacional de Investigación ‘Andrés Bello’ (Bolívia)</li>
<li>Instituto Patria (Argentina)</li>
<li>Instituto Patria Grande (Bolívia)</li>
<li>Instituto Samuel Robinson (Venezuela)</li>
<li>Observatorio del Sur Global (Argentina)</li>
<li>Research Group of the Popular Education Initiative (Acra, Gana)</li>
<li>Sam Moyo African Institute of Agrarian Studies (Harare, Zimbábue)</li>
<li>Society for Social and Economic Research (Delhi, Índia)</li>
<li>Tricontinental: Institute for Social Research
<ol>
<li>Instituto Tricontinental de Investigación Social (Argentina)</li>
<li>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social (Brasil)</li>
<li>Tricontinental Research Services (Índia)</li>
<li>Tricontinental South Africa</li>
</ol>
</li>
<li>University of the West Indies Open Campus (Roseau, Dominica)</li>
<li>Uralungal Labour Contract Cooperative Society Research Institute (Vadakara, Kerala, Índia)</li>
</ol>
</li>
</ol>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Defendendo nossa soberania: as bases militares dos EUA na África e o futuro da unidade africana</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-42-militarizacao-africa/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[ariana]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 05 Jul 2021 17:44:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dossiê]]></category>
		<category><![CDATA[república democratica do congo]]></category>
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					<description><![CDATA[Co-publicação com Socialist Movement of Ghana Research Group Como se visualiza a pegada do Império? As imagens deste dossiê mapeiam algumas das bases militares do Africom no continente africano &#8211; tanto “duradouras” como “não duradouras&#8217;” como são oficialmente chamadas. As fotos de satélite foram coletadas pelo artista de dados Josh Begley, que liderou um projeto [&#8230;]]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p class="single-post--content--editors-note">Co-publicação com Socialist Movement of Ghana Research Group</p>
<p>Como se visualiza a pegada do Império?</p>
<p>As imagens deste dossiê mapeiam algumas das bases militares do Africom no continente africano – tanto “duradouras” como “não duradouras’” como são oficialmente chamadas. As fotos de satélite foram coletadas pelo artista de dados Josh Begley, que liderou um <a href="http://empire.is/about">projeto</a> de mapeamento para responder à pergunta: “como se mede uma pegada militar?”</p>
<p>Para este dossiê, o Instituto Tricontinental de Pesquisa Social projetou fisicamente as imagens e as coordenadas desses lugares ocultos em um mapa da África, reconstruindo visualmente o aparato atual de militarização. Os pinos e fios conectando esses lugares nos lembram das “salas de guerra” da dominação colonial. Juntos, o conjunto de imagens é um testemunho visual da contínua “fragmentação e subordinação dos povos e governos do continente”, assim como este dossiê descreve.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-44343 img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/01072021-Dossier-42_images_2.jpg" alt="" width="950" height="637" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/01072021-Dossier-42_images_2.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/01072021-Dossier-42_images_2-300x201.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/01072021-Dossier-42_images_2-768x515.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></div>
<div class="single-post--content--epigraph">
<p>Recusamos a simples sobrevivência. Queremos aliviar as pressões, libertar nosso campo da estagnação ou regressão medieval. Queremos democratizar nossa sociedade, abrir nossas mentes para um universo de responsabilidade coletiva, para que tenhamos a ousadia de inventar o futuro. Queremos mudar a administração e reconstruí-la com um tipo diferente de funcionário público. Queremos envolver nosso exército com o povo no trabalho produtivo e lembrá-lo constantemente que, sem formação patriótica, um soldado é apenas um criminoso com poder. Esse é o nosso programa político.</p>
<p class="single-post--content--epigraph--byline">Thomas Sankara (Presidente, Burkina Faso) nas Nações Unidas, 4 de outubro de 1984.</p>
</div>
<p>Em 30 de maio de 2016, o Conselho de Paz e Segurança da União Africana (CPS) realizou sua 601ª reunião. Embora a agenda fosse ampla, os membros do CPS foram à reunião preocupados com uma série de conflitos: o colapso do Estado líbio e o impacto disso em todo o Sahel; as lutas em curso na região do Lago Chade com a persistência do Boko Haram; e as guerras que marcaram a região dos Grandes Lagos (com a perda da soberania da República Democrática do Congo em seu flanco oriental). A “responsabilidade principal por garantir uma prevenção eficaz de conflitos”, <a href="http://www.peaceau.org/en/article/the-601th-meeting-of-the-au-peace-and-security-council-on-early-warning-and-horizon-scanning">observou o CPS</a>, “cabe aos Estados-membros”, nomeadamente os 55 países do continente africano, da Argélia ao Zimbabwe.</p>
<p>O CPS não precisava de explicações de ninguém sobre suas próprias limitações, que eram de dois tipos:</p>
<ol>
<li aria-level="1"><b>Fragmentação interna</b>. Poucos meses antes da reunião de maio, o CPS havia <a href="https://www.peaceau.org/uploads/571-psc-com-burundi-29-1-2016.pdf">autorizado</a> o envio de 5 mil soldados da Missão Africana de Prevenção e Proteção ao Burundi. Isso se deveu em parte às persistentes causas do conflito de longa data nos Grandes Lagos, que incluiu a Guerra Civil do Burundi (1993-2005), bem como a crise política ocasionada pelo sufocamento do sistema político levado a cabo pelo presidente Pierre Nkurunziza, que levou a protestos e repressão estatal em 2015. Nkurunziza promoveu uma agenda entre os chefes de governo africanos para bloquear a decisão do CPS. A União Africana (UA) <a href="http://www.peaceau.org/en/article/the-631th-meeting-of-the-au-peace-and-security-council-on-the-situation-in-burundi">decidiu</a> que a situação no Burundi tinha se acalmado, apesar do fato de as Nações Unidas terem <a href="https://www.ohchr.org/EN/NewsEvents/Pages/DisplayNews.aspx?NewsID=22016&amp;LangID=E">encontrado</a> provas de crimes contra a humanidade. Esse foi um exemplo da fragmentação da liderança africana, que impediu o CPS de mobilizar uma agenda.</li>
<li aria-level="1"><b>Pressões externas. </b>Em fevereiro/março de 2011, o <a href="https://www.accord.org.za/conflict-trends/four-years-fall-gaddafi/">CPS se reuniu</a> para traçar um roteiro completo para conter o conflito na Líbia. Uma missão do CPS se reuniu em Nouakchott, na Mauritânia, para viajar a Trípoli, na Líbia, e abrir negociações com base no parágrafo 7 do <a href="http://www.peaceau.org/uploads/communique-libya-eng.pdf">comunicado do CPS</a>. Esse parágrafo – conhecido como o “roteiro” – continha um elegante caminho de quatro pontos, incluindo a cessação das hostilidades, entrega de assistência humanitária por meio da cooperação, proteção de cidadãos estrangeiros e adoção e implementação de reformas políticas para eliminar as causas da crise. Tanto o governo da Líbia quanto a oposição inicialmente <a href="https://brill.com/view/journals/ajls/7/1/article-p123_6.xml?language=en">rejeitaram o roteiro</a>, mas as vias para o diálogo permaneceram abertas, razão pela qual uma missão do CPS estava pronta para ir a Trípoli. Um dia antes da missão partir, a França e os Estados Unidos começaram a bombardear a Líbia. Esse bombardeio ocorreu sob a égide da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e da resolução 1973 do Conselho de Segurança da ONU (votada por três países africanos: Gabão, Nigéria e África do Sul). A “intervenção humanitária” rapidamente <a href="https://www.thehindu.com/opinion/op-ed/When-protector-turned-killer/article12865814.ece">excedeu</a> o mandato da ONU de proteger os cidadãos, avançando em direção à mudança de regime e empregando imensa violência que resultou em vítimas civis. O desrespeito dos Estados do Atlântico Norte pela União Africana e pelo CPS passou praticamente despercebido.</li>
</ol>
<p>Na esteira da guerra da Otan na Líbia, a região do Sahel passou por uma série de conflitos, muitos deles motivados pelo surgimento de formas de militarismo, pirataria e contrabando. A pretexto desses conflitos, e inflamados pela guerra da Otan, a França e os Estados Unidos intervieram militarmente em todo o Sahel. Em 2014, a <a href="https://www.diplomatie.gouv.fr/fr/politique-etrangere-de-la-france/securite-desarmement-et-non-proliferation/crises-et-conflits/l-action-de-la-france-au-sahel/">França criou o G-5 Sahel</a>, um arranjo militar que incluía Burkina Faso, Chade, Mali, Mauritânia e Níger, e expandiu ou abriu novas bases militares em Gao (Mali), N’Djamena (Chade), Niamey (Níger) e Ouagadougou (Burkina Faso). Os Estados Unidos, por sua vez, construíram uma enorme <a href="https://theintercept.com/2018/08/21/us-drone-base-niger-africa/">base de drones em Agadez</a> (Níger), de onde realizam ataques de drones e vigilância aérea em todo o Sahel e no deserto do Saara. Essa é uma das muitas <a href="https://theintercept.com/2020/02/27/africa-us-military-bases-africom/">bases dos EUA no continente africano</a>; ao total, tem-se conhecimento de 29 instalações militares estadunidenses em 15 países do continente, enquanto a França tem bases em dez países. Nenhum outro país de fora do continente possui tantas bases militares na África.</p>
<p>O número de bases militares estrangeiras no continente africano alarmou o CPS, que <a href="https://www.peaceau.org/en/article/the-601th-meeting-of-the-au-peace-and-security-council-on-early-warning-and-horizon-scanning">levantou essa questão</a> como um ponto importante em sua reunião de maio de 2016:</p>
<blockquote><p>O Conselho registrou com profunda preocupação a existência de bases militares estrangeiras e o estabelecimento de novas em alguns países africanos, juntamente com a incapacidade dos Estados-membros de monitorarem eficazmente o movimento de armas de e para essas bases militares estrangeiras. A esse respeito, o Conselho sublinhou a necessidade de os Estados Membros serem cautelosos sempre que entrem em acordos que conduzam ao estabelecimento de bases militares estrangeiras nos seus países.</p></blockquote>
<p>Desde 2016, pouco avanço foi feito em relação à declaração do CPS. É revelador que o conselho não tenha nomeado os países que têm mais bases no continente, uma questão de quantidade que tem impacto na qualidade da supressão da soberania africana. Se o CPS tivesse identificado os Estados Unidos e a França como os principais países com bases militares na África, teria de reconhecer as razões específicas pelas quais ambas nações continuam a exigir uma presença militar para seus fins.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_44373" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-44373" class="wp-image-44353 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/01072021-Dossier-42_images_3.jpg" alt="" width="950" height="760" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/01072021-Dossier-42_images_3.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/01072021-Dossier-42_images_3-300x240.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/01072021-Dossier-42_images_3-768x614.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-44373" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Arba Minch, Etiópia 6.040864 | 37.588118; Fonte: Google Maps</small></p></div>
</div>
<p>É importante reconhecer que esses desenvolvimentos não são a norma na história moderna da África e que tampouco são inevitáveis. Em 1965, o ex-presidente de Gana, Kwame Nkrumah, publicou um importante livro, <i>Neo-Colonialism: The Last Stage of Imperialism </i>[Neocolonialismo: o último estágio do imperialismo], que refletia sobre o fenômeno das bases militares. Esse foi um lugar comum durante a época do alto colonialismo, com bases em todo o continente, desde a base britânica em Salisbury, na antiga Rodésia (atual Harare, Zimbábue), até a base francesa em Mers El Kébir, na Argélia. Tanto os militares britânicos quanto os estadunidenses tinham bases na Líbia, desde a Base Aérea de Wheelus até os postos militares em Tobruk e El Adem. Em troca da terra e do direito de instalar tropas nesses locais, o Reino Unido e os EUA forneceram “ajuda” à Líbia, o que Nkrumah corretamente disse ser um pagamento pela perda de soberania. Aqui está a <a href="https://www.marxists.org/subject/africa/nkrumah/neo-colonialism/neo-colonialism.pdf">avaliação de Nkrumah dessas bases na África</a>:</p>
<blockquote><p>Uma potência mundial, tendo decidido com base em princípios de estratégia global, que é necessário ter uma base militar nesse ou naquele país nominalmente independente, deve assegurar que o país onde a base está situada seja amigável. Aqui está outra razão para a balcanização. Se a base pode estar situada em um país que é constituído economicamente de tal forma que não pode sobreviver sem “ajuda” substancial do poder militar possuidor da base, então, argumenta-se, a segurança da base pode ser garantida. Como muitas das outras suposições nas quais o neocolonialismo se baseia, isso é falso. A presença de bases estrangeiras desperta a hostilidade popular em relação aos arranjos neocoloniais, que os viabiliza mais rápida e seguramente que qualquer outra coisa, e em toda a África essas bases estão desaparecendo. A Líbia pode ser citada como um exemplo de como essa política falhou.</p></blockquote>
<p>Em 1964, o egípcio Gamal Abdel Nasser exigiu a remoção dessas bases, e em 1970 – depois que o coronel Muammar Gaddafi derrubou a monarquia – as bases foram removidas. Cinco anos antes, Nkrumah julgou corretamente o estado de espírito do povo líbio. Esse humor, de 1965, vai até o presente. Desde que foi criado em 2007, o Comando da África do governo dos Estados Unidos (Africom) não conseguiu encontrar um lar no continente; a sede do Africom é em Stuttgart, Alemanha. O povo africano continua pressionando seus governos para não ceder às exigências dos EUA de transferir a sede do Africom da Europa para a África.</p>
<p>O neocolonialismo, observou Nkrumah, busca fragmentar a África, enfraquecer as instituições estatais africanas, impedir a unidade e a soberania africanas e, assim, inserir seu poder de subordinar as aspirações do continente à consolidação pan-africana. Nem a Organização da Unidade Africana (1963-2002) nem a União Africana (2002 em diante) foram capazes de realizar os dois princípios mais importantes do pan-africanismo: unidade política e soberania territorial. A presença duradoura de bases militares estrangeiras não apenas simboliza a falta de unidade e soberania; também impõe a fragmentação e subordinação dos povos e governos do continente.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_44373" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-44373" class="wp-image-44363 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/01072021-Dossier-42_images_4.jpg" alt="" width="950" height="760" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/01072021-Dossier-42_images_4.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/01072021-Dossier-42_images_4-300x240.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/01072021-Dossier-42_images_4-768x614.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-44373" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Nzara, Sudão do Sul 4.634998 | 28.26727; Fonte: Google Maps</small></p></div>
</div>
<h2 style="margin:3em 0;">A rendição de nossa soberania</h2>
<p>Em 2018, o Departamento de Defesa dos EUA propôs a Gana um Acordo de Status de Forças (Status of Forces Agreement – Sofa), de 20 milhões de dólares, que permitiria às forças militares estadunidenses expandir sua presença em Gana. Em março, a insatisfação generalizada com esse acordo <a href="https://apnews.com/article/de39fee7644347498cd0df049afce2b4">levou grandes setores da população às ruas</a>; os partidos da oposição, preocupados com a possibilidade de os EUA construírem uma base militar no país, levantaram suas objeções no parlamento. Em abril, o presidente de Gana, <a href="https://presidency.gov.gh/index.php/briefing-room/news-style-2/597-no-us-military-base-in-ghana-president-akufo-addo">Nana Akufo-Addo, disse</a> que seu governo “não ofereceu uma base militar e não oferecerá uma base militar aos Estados Unidos da América”. A <a href="https://gh.usembassy.gov/statement-status-forces-agreement/">Embaixada dos EUA em Acra repetiu esta declaração</a>, dizendo que os “Estados Unidos não solicitaram, nem planejam estabelecer uma base ou bases militares em Gana”. O <a href="https://www.state.gov/wp-content/uploads/2019/02/18-531-Ghana-Defense-Status-of-Forces.pdf">acordo Sofa</a> foi assinado em maio de 2018.</p>
<p>Não é necessária uma leitura atenta do texto do acordo para saber que, de fato, existe a possibilidade de os EUA construírem uma base no país. O artigo 5, por exemplo, afirma:</p>
<blockquote><p>Gana fornece, por meio deste, acesso e uso desimpedido das instalações e áreas acordadas às forças pertencentes ou contratadas pelos Estados Unidos e outros, conforme mutuamente acordado. Essas instalações e áreas acordadas, ou partes delas, fornecidas por Gana, serão designadas para uso exclusivo das forças dos Estados Unidos ou para serem usadas em conjunto por forças dos Estados Unidos e Gana. Gana também deve fornecer acesso e uso de uma pista que atenda aos requisitos das forças dos Estados Unidos.</p></blockquote>
<p>Por meio desse artigo, os Estados Unidos têm permissão para criar suas próprias instalações militares em Gana. Seja qual for o entendimento, isso significa que podem estabelecer ali uma base. A rendição da soberania de Gana também vem à tona no artigo 6 do acordo Sofa que afirma que os EUA “teriam prioridade no acesso e uso das instalações e áreas acordadas” e que o referido uso e acesso por terceiros “pode ser autorizado com o consentimento expresso das forças de Gana e dos Estados Unidos”.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_44373" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-44373" class="wp-image-44373 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/01072021-Dossier-42_images_5.jpg" alt="" width="950" height="760" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/01072021-Dossier-42_images_5.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/01072021-Dossier-42_images_5-300x240.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/01072021-Dossier-42_images_5-768x614.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-44373" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Ouagadougou, Burkina Faso 12.361688 | -1.511828; Fonte: Google Maps</small></p></div>
</div>
<p>Além disso, o Artigo 3 diz que as tropas dos EUA “podem possuir e portar armas em Gana enquanto em serviço oficial” e devem receber “os privilégios, isenções e imunidades equivalentes àquelas concedidas ao pessoal administrativo e técnico de uma missão diplomática”. Em outras palavras, as tropas estadunidenses podem estar armadas e, se forem acusadas de um crime, não serão julgadas nos tribunais de Gana.</p>
<p>Em março de 2018, o ministro da defesa de Gana, Dominic Nitiwul, foi questionado em uma estação de rádio por Kwesi Pratt, do Fórum Socialista de Gana (FSG). Nitiwul afirmou que não havia nada de peculiar nesse acordo, uma vez que outros países africanos – como o Senegal – já o tinham assinado. Gana, disse Nitiwul, firmou acordos semelhantes com os EUA em 1998 e 2007, mas estes foram feitos em segredo porque não houve isenção de impostos. Pratt alertou que Gana estaria “renunciando à soberania” ao entrar nesse acordo. O sentimento geral no país era contrário à base, razão pela qual tanto o governo ganense quanto os EUA negaram que ela seria construída.</p>
<p>Pratt estava certo. A presença dos EUA no Aeroporto Internacional de Kotoka, em Acra, tornou-se o coração da Rede de Logística na África Ocidental das forças armadas dos EUA. Em 2018, voos semanais da Base Aérea de Ramstein, na Alemanha, pousaram em Acra com suprimentos (incluindo armas e munições) para pelo menos 1.800 soldados das Forças Especiais dos EUA espalhados pela África Ocidental. O brigadeiro-general <a href="https://www.defenseone.com/policy/2019/02/africom-adds-logistics-hub-west-africa-hinting-enduring-us-presence/155015/">Leonard Kosinski disse em 2019</a> que esse voo semanal era “basicamente uma rota de ônibus”. No aeroporto de Kotoka, os EUA mantêm um Local de Segurança Cooperativa. Essa é, efetivamente, uma base, exceto pelo nome.</p>
<h2 style="margin:3em 0;">A pegada estadunidense</h2>
<p>O continente africano não possui um número excepcionalmente grande de bases militares estrangeiras. Elas podem ser encontradas em todo o mundo, das bases estadunidenses no Japão às bases britânicas na Austrália. Nenhum país tem maior <a href="https://www.ufrgs.br/ufrgsmun/2014/files/DIS1.pdf">pegada militar</a> que os EUA. De acordo com o Plano de Operações Empresariais de Defesa Nacional dos Estados Unidos (2018-2022), suas Forças Armadas <a href="https://cmo.defense.gov/Portals/47/Documents/Publications/NBDOP/TAB%20A%20FY18-22%20NDBOP%20(CMO%20signed%2005_18_18).pdf?ver=2018-05-25-131454-700">administram</a> “um portfólio global que consiste em mais de 568 mil ativos (edifícios e estruturas), localizados em cerca de 4.800 locais em todo o mundo”.</p>
<p>Em 2019, o Africom produziu uma <a href="https://theintercept.com/2020/02/27/africa-us-military-bases-africom/">lista de algumas de suas bases militares conhecidas no continente africano</a>, distinguindo entre aquelas com uma “pegada duradoura” (uma base permanente) e aquelas com uma “pegada não duradoura” ou as chamadas “lily pads” (bases semi-permanentes):</p>
<div class="single-post--table-responsive--wrapper">
<table class="single-post--table single-post--table-responsive">
<thead>
<tr>
<th>Pegadas duradouras</th>
<th>Pegadas não duradouras</th>
</tr>
</thead>
<tbody>
<tr>
<td>1. Chebelley, Djibouti</td>
<td>1. Bizerte, Tunísia</td>
</tr>
<tr>
<td>2. Camp Lemonnier, Djibouti</td>
<td>2. Arlit, Níger</td>
</tr>
<tr>
<td>3. Entebbe, Uganda</td>
<td>3. Dirkou, Níger</td>
</tr>
<tr>
<td>4. Mombasa, Quênia</td>
<td>4. Diffa, Níger</td>
</tr>
<tr>
<td>5. Manda Bay, Quênia</td>
<td>5. Ouallam, Níger</td>
</tr>
<tr>
<td>6. Libreville, Gabão</td>
<td>6. Bamako, Mali</td>
</tr>
<tr>
<td>7. St. Helena, Ilhas de Ascensão</td>
<td>7. Garoua, Camarões</td>
</tr>
<tr>
<td>8. Accra, Gana</td>
<td>8. Maroua, Camarões</td>
</tr>
<tr>
<td>9. Ouagadougou, Burkina Faso</td>
<td>9. Misrata, Líbia</td>
</tr>
<tr>
<td>10. Dakar, Senegal</td>
<td>10. Tripoli, Líbia</td>
</tr>
<tr>
<td>11. Agadez, Níger</td>
<td>11. Baledogle, Somália</td>
</tr>
<tr>
<td>12. Niamey, Níger</td>
<td>12. Bosaso, Somália</td>
</tr>
<tr>
<td>13. N’Djamena, Chade</td>
<td>13. Galkayo, Somália</td>
</tr>
<tr>
<td></td>
<td>14. Kismayo, Somália</td>
</tr>
<tr>
<td></td>
<td>15. Mogadishu, Somália</td>
</tr>
<tr>
<td></td>
<td>16. Wajir, Quênia</td>
</tr>
<tr>
<td></td>
<td>17. Kotoka, Gana</td>
</tr>
</tbody>
</table>
</div>
<p>A lista não contém as bases onde os EUA usam “instalações do país anfitrião”, como em Singo (Uganda) e Theis (Senegal).</p>
<p>A grande presença das Forças Armadas dos Estados Unidos no continente africano não é surpresa. Eles possuem a maior força militar do planeta, tanto em termos do vasto número de recursos que investem em suas forças armadas e do alcance delas por meio de sua estrutura de base, como sua capacidade naval e aérea. Nenhuma outra força militar no mundo se compara à dos Estados Unidos, que <a href="https://www.sipri.org/sites/default/files/2021-04/fs_2104_milex_0.pdf">gasta mais em seu orçamento militar</a> que os 11 países seguintes juntos. A China, segundo lugar nessa lista, desembolsa apenas um terço do que os EUA gastam por ano.</p>
<p>A pegada militar dos EUA no continente africano não é apenas quantitativamente maior que a de qualquer outro país não africano no continente, mas a escala absoluta da presença e atividades dos militares lhes confere um caráter qualitativamente diferente; esse caráter inclui a capacidade dos Estados Unidos de defender seus interesses no continente e de tentar impedir qualquer competição séria ao seu controle de recursos e mercados. Existem duas tarefas que os militares dos EUA cumprem no continente:</p>
<ol>
<li aria-level="1"><b>Função de Gendarme</b>. Os militares dos EUA operam não apenas para fornecer uma vantagem ao seu país e suas elites governantes, mas funcionam – junto com os exércitos de outras nações da Otan, incluindo a França – como fiador dos interesses corporativos ocidentais e dos princípios do capitalismo. Nkrumah chegou à mesma conclusão em 1965, afirmando que “as matérias-primas da África são uma consideração importante na construção militar dos países da Otan (…) Suas indústrias, especialmente as fábricas estratégicas e nucleares, dependem em grande medida dos materiais primários que vêm dos países menos desenvolvidos”. Relatórios das Forças Armadas dos EUA esboçam rotineiramente a responsabilidade da variedade de suas forças armadas para garantir um fluxo constante de matérias-primas para as corporações – especialmente energia – e para manter o livre movimento de mercadorias pelos canais de transporte. Esses relatórios incluem a <a href="https://www.wtrg.com/EnergyReport/National-Energy-Policy.pdf"><i>Política Nacional de Energia</i></a> (maio de 2001) do Grupo de Desenvolvimento de Política Energética Nacional, liderado pelo ex-vice-presidente Dick Cheney, e <a href="https://media.defense.gov/2018/Oct/05/2002048904/-1/-1/1/ASSESSING-AND-STRENGTHENING-THE-MANUFACTURING-AND%20DEFENSE-INDUSTRIAL-BASE-AND-SUPPLY-CHAIN-RESILIENCY.PDF"><i>Avaliação e Fortalecimento da Base Industrial de Manufaturas e Defesa e a Resiliência da Cadeia de Abastecimento dos Estados Unidos</i></a> (setembro de 2018) da Força-Tarefa Interagências em Cumprimento da Ordem Executiva 13806. Nesse sentido, os militares dos EUA – ao lado de seus parceiros da Otan – operam como gendarmes não para a comunidade mundial, mas para os beneficiários do capitalismo. Ao lado dos EUA está a França, cuja presença militar no Níger está intimamente ligada aos imperativos do setor energético francês, que exige o urânio extraído em Arlit (Níger). Uma em cada três lâmpadas francesas é alimentada pelo urânio desta cidade, que é <a href="https://blogs.mediapart.fr/pierre-fimbel/blog/190820/derriere-le-drame-de-koure-que-fait-la-france-au-niger">guarnecida pelas tropas francesas</a>.</li>
<li aria-level="1"><b>A Nova Guerra Fria</b>. À medida que os interesses comerciais públicos e privados da China aumentaram no continente africano, e à medida que as empresas chinesas <a href="https://www.scmp.com/news/china/diplomacy/article/3133670/chinese-contractors-win-majority-mega-projects-africa">superaram</a> de forma consistente as empresas ocidentais, a pressão dos EUA para conter a China no continente aumentou. A <a href="https://www.heritage.org/sites/default/files/2019-02/HL1306.pdf"><i>Nova Estratégia para a África</i></a> do governo dos EUA (2019) caracterizou a situação em termos competitivos: “Grandes potências concorrentes, nomeadamente a China e a Rússia, estão expandindo rapidamente a sua influência financeira e política na África. Eles estão deliberada e agressivamente direcionando seus investimentos para a região para obter uma vantagem competitiva sobre os Estados Unidos”. A União Europeia publicou, em seguida, com um relatório intitulado <a href="https://ec.europa.eu/international-partnerships/system/files/communication-eu-africa-strategy-join-2020-4-final_en.pdf"><i>Em direção a uma Estratégia Abrangente com África</i></a> (2020), que – embora não mencionasse diretamente a China – se preocupava com a “competição pelos recursos naturais”.</li>
</ol>
<p>Esses dois pontos – a função de gendarme e a nova guerra fria – requerem mais elaboração.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_44373" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-44373" class="wp-image-44383 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/01072021-Dossier-42_images_6.jpg" alt="" width="950" height="760" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/01072021-Dossier-42_images_6.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/01072021-Dossier-42_images_6-300x240.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/01072021-Dossier-42_images_6-768x614.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-44373" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Agadez, Níger 16.950278 | 8.013889; Fonte: Google Maps</small></p></div>
</div>
<h2 style="margin:3em 0;">Exploração de Recursos</h2>
<p>A África é a segunda maior porção de terra do mundo, com a <a href="https://www.worldometers.info/world-population/#region">segunda maior população continental</a> (1,34 bilhões de pessoas em 2020) – mais que a população da América do Norte e da Europa juntas (1,1 bilhão de pessoas). A Ásia é o maior continente, com a maior população (4,64 bilhões de pessoas).</p>
<p>O <a href="https://www2.bgs.ac.uk/mineralsuk/download/world_statistics/2010s/WMP_2015_2019.pdf">subsolo africano</a> possui uma série de recursos naturais importantes: 98% do cromo mundial, 90% do cobalto, 90% da platina, 70% do coltan, 70% da tantalita, 64% do manganês, 50% do seu ouro e 33% de seu urânio, bem como uma parcela significativa das reservas mundiais de outros minerais, como bauxita, diamantes, tântalo, tungstênio e estanho. O <a href="https://www.unep.org/regions/africa/our-work-africa">continente detém</a> 30% de todas as reservas minerais, 12% das reservas conhecidas de petróleo, 8% do gás natural conhecido e 65% das terras aráveis do mundo. O <a href="https://www.unep.org/regions/africa/our-work-africa">Programa Ambiental da ONU estima </a>que o capital natural da África representa entre 30% e 50% da riqueza total dos países africanos. Em 2012, <a href="https://web.unep.org/sites/all/themes/Amcen6/AMCEN15Docs/AMCEN-15-3%20-%20e-pdf.pdf">a ONU estimou</a> que os recursos naturais representaram 77% do total das exportações e 42% das receitas governamentais.</p>
<p>A dependência dos Estados africanos da exportação de matérias-primas de vários tipos – devido ao poder das corporações multinacionais e à falta de industrialização suficiente em uma série de países africanos – os colocou em uma posição de dependência do capital estrangeiro. Essa condição de dependência foi estruturada pelas políticas dos governantes coloniais, que mantiveram a atividade econômica no continente baseada no extrativismo e cultivo de matérias-primas que eram então vendidas por meio de concessões coloniais aos países de seus governantes. Essa dependência foi herdada por gerações de elites pós-coloniais que dela derivaram rendas e nada fizeram para alterar a estrutura. Os Estados africanos, portanto, dependem de receitas externas provenientes da exportação de matérias-primas, de programas de ajuda de governos ocidentais e de ajuda institucional.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_44373" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-44373" class="wp-image-44393 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/01072021-Dossier-42_images_7.jpg" alt="" width="950" height="760" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/01072021-Dossier-42_images_7.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/01072021-Dossier-42_images_7-300x240.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/01072021-Dossier-42_images_7-768x614.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-44373" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Entebbe CSL, Uganda 0.046175 | 32.45588; Fonte: Google Maps</small></p></div>
</div>
<p>Essa dependência cria caminhos indevidos para manipulações por parte desses governos estrangeiros que têm um interesse permanente na África. Os governos usam os recursos naturais para garantir a ajuda de parceiros estrangeiros, sem prestar atenção especial aos requisitos e condições da ajuda. Esses termos de ajuda sugam as receitas necessárias dos países africanos. Por exemplo, a <a href="https://unctad.org/news/unctad-uneca-help-african-countries-measure-illicit-financial-flows">Comissão Econômica da ONU para a África relata</a> que, nos últimos 50 anos, fluxos financeiros ilícitos resultaram na perda de pelo menos 1 trilhão de dólares, “uma soma quase equivalente a toda a ajuda oficial ao desenvolvimento que o continente recebeu durante o mesmo período”. Esses são fundos preciosos que poderiam ser usados ​​para diversificar as economias africanas, construir infraestruturas necessárias e aumentar os benefícios sociais no continente. A dependência econômica restringe as opções para os governos africanos, que se tornam cada vez mais subordinados aos interesses e poderes estrangeiros. Entre os governos economicamente subordinados, a vontade política de resistir à intervenção militar – desde o estabelecimento de novas bases estrangeiras até permitir que militares estrangeiros operem em uma miríade de outras maneiras – é insignificante.</p>
<p>Várias plataformas pan-africanas surgiram na última década para retificar esta dependência, incluindo a Estratégia Alternativa Africana para Programas de Ajuste Estrutural para Recuperação e Transformação Socioeconômica (1989), a Visão Mineira de África (2008), a Declaração de Gaborone para o Desenvolvimento Sustentável na África (2012), a Declaração de Arusha sobre a Estratégia de Desenvolvimento Sustentável da África Pós-Rio+20 (2012), o comunicado do Fórum de Desenvolvimento Africano na oitava cúpula (2014) e, depois, culminando com a adoção pela União Africana do primeiro Plano de Implementação Decenal (2014-2023), delineado no terceiro documento da Agenda 2063: A África que queremos (2015). Cada um desses documentos – com diferentes níveis de ênfase – aponta para a necessidade de quebrar a dependência das exportações de matérias-primas, administrar melhor os contratos firmados com empresas multinacionais e usar os recursos auferidos com as exportações para melhorar as condições de vida social, conforme condensado nos acordos da ONU sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.</p>
<p>A falha em aproveitar adequadamente os recursos e conduzir um programa de desenvolvimento centrado nas pessoas produz o contexto social para conflitos políticos e militares, incluindo insurgências que muitas vezes reverberam nas divisões étnicas e religiosas, e para a expansão da migração em todo o continente e em direção à Europa. Esses dois resultados da crise econômica mais profunda dos Estados africanos – conflito e migração – produzem a justificativa superficial para países como os Estados Unidos e a França estabelecerem bases militares no continente:</p>
<ul>
<li aria-level="1"><b>Conflito</b>. O governo dos EUA estabeleceu relações militares regulares – incluindo bases não permanentes – em São Tomé e Príncipe, no Golfo da Guiné. Por um lado, as explicações para a presença dos EUA não se esquivam de dizer diretamente que se trata do movimento do petróleo da Nigéria e do Golfo da Guiné para os Estados Unidos; a Nigéria, membro da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), é o décimo primeiro maior produtor do mundo. Por outro lado, o governo dos Estados Unidos afirma ter presença militar no Golfo da Guiné para conter o crescimento do militarismo islâmico, em particular Isis e Al-Qaeda, embora funcionários do governo concordem que esses grupos não têm uma presença ameaçadora lá.</li>
</ul>
<p style="padding-left: 40px;">Na África Central, o Africom está engajado há mais de uma década no treinamento do exército da República Democrática do Congo (RDC), particularmente em Camp Base, uma base militar nos arredores de Kisangani. De acordo com um <a href="https://www.africom.mil/article/7196/us-and-drc-in-partnership-to-train-model-congolese">comunicado do Africom em 2010</a>, o treinamento militar seria “parte de uma parceria multilateral EUA-RDC de longo prazo para promover a reforma do setor de segurança no país, [que] ajudará o governo da RDC em seus esforços contínuos para transformar as Forças Armadas da RDC”. Essas relações entre a RDC e o Africom se <a href="https://www.africom.mil/pressrelease/33448/us-africa-command-leaders-visit-drc">aprofundaram</a> desde então.</p>
<p style="padding-left: 40px;">Uma grande <a href="https://www.climatechangenews.com/2021/03/19/totals-play-ugandan-oil-tests-climate-commitment-international-banks/">descoberta de petróleo</a> (estimada em 1,7 bilhão de barris) foi feita na fronteira do Congo e Uganda na região do Lago Albert em 2007. Não é surpresa, portanto, ver que essa região se tornou fortemente militarizada. Isso é particularmente evidente na cidade de Beni, Kivu do Norte. Beni é o epicentro de uma série de assassinatos horríveis, muitas vezes atribuídos ao grupo rebelde de Uganda chamado Forças Democráticas Aliadas (FDA), que opera no Congo desde o início dos anos 1990. Em 27 de janeiro de 2021, uma delegação de oficiais do Africom chegou à RDC para <a href="https://www.africom.mil/pressrelease/33444/us-africa-command-senior-leaders-strengthen-foundation-of-partnership-with-african-countri">discutir</a> com os militares congoleses a necessidade de “cooperação e engajamentos, esforços de segurança e estabilidade e trabalho conjunto para profissionalizar ainda mais os militares da RDC e fortalecer os laços”.</p>
<p style="padding-left: 40px;">Em 10 de março de 2021, o Departamento de Estado dos EUA <a href="https://www.state.gov/state-department-terrorist-designations-of-isis-affiliates-and-leaders-in-the-democratic-republic-of-the-congo-and-mozambique/">designou</a> as FDA como uma “Organização Terrorista Estrangeira” e “Terroristas Globais Especialmente Designados”, embora organizações locais e o Grupo de <a href="https://reliefweb.int/report/democratic-republic-congo/final-report-group-experts-democratic-republic-congo-s2019469">Especialistas da ONU na RDC afirmem</a> que não há evidências para vincular as FDA ao Isis. O Departamento de Estado dos EUA adotou essa postura com base em uma <a href="https://www.reuters.com/article/us-usa-africa-islamic-state-idUSKBN2B30QJ">afirmação</a> feita pela Fundação Bridgeway, o braço de caridade da firma de investimentos Bridgeway Capital Management, com sede no Texas. Essa designação permite um aumento da presença militar dos EUA no Congo. A principal área de presença será adjacente às reservas de petróleo. Os militares dos EUA também continuarão a fornecer estabilidade para os ditadores africanos, que passaram a contar com o apoio dos EUA para sua longevidade.</p>
<ul>
<li aria-level="1"><b>Migração</b>. Os programas de austeridade impulsionados pelo FMI e o fracasso dos Estados africanos em administrar as vendas de recursos de uma forma que proporcione vidas decentes às populações resultaram na migração em grande escala em todo o continente. Um quarto dos quase 41,3 milhões de migrantes deslocados devido à violência e ao conflito <a href="https://publications.iom.int/system/files/pdf/wmr_2020.pdf">tentaram migrar</a> para a Europa, enquanto o restante se mudou para dentro do continente. Os migrantes que desejam ir para a Europa atravessam o deserto do Saara até a Líbia, fraturada pela guerra da Otan, e depois cruzam o Mar Mediterrâneo. A viagem é perigosa, mas quando a <a href="https://news.un.org/en/story/2019/10/1049641">ONU fez uma pesquisa</a> entre aqueles que conseguiram atravessar as areias e as águas, mais de 90% dos migrantes afirmaram que fariam tudo novamente.</li>
</ul>
<p style="padding-left: 40px;">As tentativas europeias de impedir o fluxo de migrantes pelo Mar Mediterrâneo foram inúteis. Militares estrangeiros têm sido usados ​​no Sahel para limitar a migração e manter os migrantes o mais longe possível da fronteira europeia. Em parte, é por isso quea França montou a Iniciativa G5 Sahel e os EUA construíram a grande base de drones em Agadez, que fornece importante vigilância aérea da migração na região. O que os países da Europa têm feito é exportar suas fronteiras para longe de seu próprio território e garantir que a dura interdição de refugiados e migrantes seja feita fora da cobertura de seus próprios meios de comunicação. Essa é uma espécie de terceirização da crise dos refugiados: o Ocidente consegue conduzir suas terríveis políticas anti-imigrantes ao mesmo tempo que consegue parecer inocente enquanto suas subsidiárias fazem o trabalho sujo. A Europa mudou sua fronteira sul da costa norte do Mar Mediterrâneo para a borda sul do Deserto do Saara, agora pontilhada com bases militares da Mauritânia ao Chade.</p>
<p>Os argumentos superficiais acerca da prevenção de conflitos e gestão da migração são lugares comuns. Mas, de vez em quando, motivações mais profundas vêm à tona por algumas autoridades americanas. <a href="https://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:cO_KeRhesrYJ:https://www.economist.com/middle-east-and-africa/2008/04/10/americans-go-a-wooing+&amp;cd=1&amp;hl=en&amp;ct=clnk&amp;gl=se">Como disse o Comodoro John Nowell</a>, que dirige a Estação de Parceria da África do Africom, em 2008: “Não estaríamos aqui se não fosse do interesse [dos EUA]”. Por “aqui”, o Comodoro Nowell quis dizer o continente africano.</p>
<h2 style="margin:3em 0;">A Nova Guerra Fria</h2>
<p>Na <i>Revisão Quadrienal de Defesa</i> do governo dos Estados Unidos de 2006, os autores <a href="https://archive.defense.gov/pubs/pdfs/QDR20060203.pdf">escreveram</a> que, “dentre as potências emergentes, a China tem o maior potencial de qualquer nação para competir militarmente com os Estados Unidos e desenvolver tecnologias militares disruptivas que podem, com o tempo, compensar as vantagens tradicionais dos Estados Unidos”. Na verdade, a capacidade militar da China é amplamente defensiva, uma vez que desenvolveu suas habilidades militares para defender seu litoral e seu território. O <a href="https://www.fmprc.gov.cn/mfa_eng/zxxx_662805/t1871430.shtml">ministro das Relações Exteriores, Wang Yi</a>, enfatizou que seu país está comprometido com o multilateralismo: “A China nunca busca hegemonia global”, disse ele em 24 de abril de 2021. O que os planejadores dos EUA indicam mais precisamente é que eles não gostariam de ver o poder comercial e político chinês desafiar a hegemonia geral dos Estados Unidos. Como disse o Comodoro Nowell, os interesses dos EUA são a razão da presença do país na região; qualquer ameaça a esses interesses deve ser minada por todos os meios necessários.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_44373" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-44373" class="wp-image-44403 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/01072021-Dossier-42_images_8.jpg" alt="" width="950" height="760" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/01072021-Dossier-42_images_8.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/01072021-Dossier-42_images_8-300x240.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/01072021-Dossier-42_images_8-768x614.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-44373" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Camp Lemonnier, Djibouti 11.544409 | 43.14707; Fonte: Google Maps</small></p></div>
</div>
<p>Em 2013, o governo chinês inaugurou a Iniciativa do Cinturão e Rota (ICR). Antes de sua formalização, o Fórum de Cooperação China-África foi criado em 2000 entre Pequim e, inicialmente, 44 países africanos (53 dos 55 países do continente <a href="http://www.focac.org/eng/ltjj_3/ltffcy/">estabeleceram</a> relações com a China, desde então, sob o Fórum). Desde 2013, a China investiu em quase todos os países africanos, todos os quais – exceto Eswatini (antiga Suazilândia) – romperam laços com Taiwan e reconheceram a República Popular da China.</p>
<p>Ao longo dos anos, a China assinou vários Memorandos de Entendimento com a União Africana, incluindo um em 2015 no âmbito da Agenda 2063 para apoiar a construção de infraestruturas. A China investiu grandes quantias de dinheiro em infraestruturas essenciais, como o projeto ferroviário Mali-Guiné e a linha ferroviária Sudão-Senegal; em infraestrutura de energia, como o projeto hidrelétrico Mambilla de 2600 MW na Nigéria e a Barragem Bui de 400 MW em Gana; e em telecomunicações, como equipamentos para a Etiópia, Gana, Quênia e Sudão. Em dezembro de 2020, <a href="https://www.scmp.com/news/china/diplomacy/article/3114052/after-us-retreat-china-breaks-ground-africa-cdc-headquarters">deu início</a> à construção da nova sede do Centro Africano para Controle e Prevenção de Doenças, financiado pela China, no valor de 80 milhões de dólares, ao sul de Adis Abeba, na Etiópia. Existem agora cerca de 600 projetos da ICR <a href="https://www.globaltimes.cn/page/202101/1213279.shtml">concluídos</a> em todo o mundo.</p>
<p>A ajuda chinesa – ao contrário da ajuda do FMI, do investimento comercial ocidental e da assistência ao desenvolvimento no exterior – não vem com o vício das condicionalidades debilitantes. A evidência de termos mais favoráveis ​​aparece em vários acordos assinados pela China, mas mais do que isso, vem da teoria chinesa do <a href="https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=2989833">capital paciente</a>, que até agora foi adotada dentro de suas fronteiras, mas lentamente – por meio de bancos estatais chineses – vem emergindo como um grande investidor fora de seu território. A China é agora o <a href="https://unctad.org/system/files/official-document/wir2017_en.pdf">segundo maior país investidor do mundo</a>, sendo o Banco de Exportação e Importação da China [China Export-Import Bank] e o Banco de Desenvolvimento da China [China Development Bank] os principais investidores. Os empréstimos que essas agências estatais oferecem são de longo prazo e não têm cronogramas de reembolso de curto prazo. A China entende perfeitamente que seus empréstimos são concedidos para liberar gargalos de infraestrutura e, portanto, apoiar o desenvolvimento social. Os países mutuários têm flexibilidade, uma vez que os benefícios são previstos a longo prazo. Por exemplo, 30% do investimento na Ásia Central e 80% do <a href="https://www.ft.com/content/e83ced94-0bd8-11e6-9456-444ab5211a2f">investimento no Paquistão</a> não serão recuperados.</p>
<p>Em vez de desenvolver sua própria política humanitária de ajuda comercial e de desenvolvimento que beneficiaria o povo africano, os Estados Unidos inauguraram uma “nova guerra fria” contra a China no continente africano. O desenvolvimento do Africom em 2007, juntamente com a escalada das bases militares americanas e aliadas no Sahel, no Chifre da África e em outros lugares, faz parte dessa nova guerra fria. Fundamentalmente, a nova guerra fria foi estruturada por uma guerra de (des)informação, que consiste em dois elementos principais:</p>
<ul>
<li aria-level="1"><b>O novo “colonialismo” da China</b>. Surpreendentemente, as antigas potências coloniais, que continuam uma política neocolonial em relação à China – conforme ilustrado por Nkrumah e evidenciado na sua estrutura de base – agora voltam seus olhos para a China e a acusam de ser uma potência colonial. A principal retórica usada nessa guerra de (des)informação é que a China supostamente usa seus recursos financeiros para enredar os países em uma armadilha de dívidas, o que os obriga a entregar seus recursos a preços baixos. O termo “diplomacia da armadilha da dívida” é usado contra a China, mas não foi ela que aplicou os empréstimos de ajuste estrutural que levou a maioria dos países africanos a uma armadilha cataclísmica da dívida que só se aprofundou durante a pandemia. Não foi a China, mas o FMI, que levou adiante uma estrutura de política conduzida pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos. Enquanto os <a href="https://www.justice.gov/opa/speech/transcript-attorney-general-barr-s-remarks-china-policy-gerald-r-ford-presidential-museum">EUA acusam a China</a> de “se recusar a renegociar os termos [dos empréstimos] e, em seguida, assumir o controle da própria infraestrutura”, a realidade é que os credores chineses cancelaram, adiaram e reestruturaram os termos dos empréstimos existentes (antes e durante a pandemia) e nunca confiscou ativos soberanos de nenhum país. Dois professores seniores dos EUA publicaram <a href="https://www.theatlantic.com/international/archive/2021/02/china-debt-trap-diplomacy/617953/">um artigo no <i>The Atlantic</i></a> em fevereiro de 2021 com o título revelador “The Chinese Debt Trap is a Myth” [A armadilha da dívida chinesa é um mito]. A acusação de colonialismo contra a China é feita por países que têm uma história bem documentada de colonialismo e neocolonialismo na África.</li>
<li aria-level="1"><b>Capacidade militar da China</b>. As antigas potências coloniais acusam a China de aumentar sua presença militar na África; revivendo um tropo falso e datado, o comandante do Africom, General Townsend, recentemente fez <a href="https://www.theafricareport.com/87554/us-cause-in-africa-not-helped-after-africoms-comments/">afirmações infundadas</a> de que a China pretende construir uma base naval na costa da África Ocidental. Na verdade, a presença militar chinesa é insignificante em comparação com a pegada militar ocidental. Em 2008, a China aderiu às manobras antipirataria no Chifre da África e no Golfo de Aden; essas operações foram baseadas na Resolução 1816 (2008) do Conselho de Segurança da ONU, que pediu aos Estados membros que fornecessem ao governo de transição da Somália “todos os meios necessários para reprimir atos de pirataria e assalto à mão armada”. Uma década após essas operações, a China <a href="http://english.chinamil.com.cn/news-channels/pla-daily-commentary/2016-04/12/content_7002833.htm">desenvolveu</a> sua primeira base militar ultramarina no Djibouti. O objetivo dessa base era duplo: primeiro, fornecer apoio logístico para embarcações de escolta de petroleiros chineses no Golfo de Aden e, segundo, apoiar as campanhas multinacionais antipirataria. Ao mesmo tempo, na região altamente militarizada do Chifre da África, o governo chinês <a href="https://www.globaltimes.cn/content/1013888.shtml">financiou</a> a construção da ferrovia elétrica Etiópia-Djibuti com um projeto de 4 bilhões de dólares, enquanto o Banco de Exportação e Importação da China <a href="https://china.aiddata.org/projects/30888">financiou</a> mais de 300 milhões de dólares em uma tubulação de água para levar água potável da Etiópia para o Djibuti. A <a href="https://theconversation.com/chinas-approach-to-peace-in-africa-is-different-how-and-why-129467">abordagem da China</a> para a paz é qualitativamente diferente das atividades militares estrangeiras ocidentais que se concentram nas funções de gendarme e armamento, optando por se centrar no desenvolvimento econômico liderado pela infraestrutura e redução da pobreza.</li>
</ul>
<h2 style="margin:3em 0;">A União Africana</h2>
<p>Em 2016, a União Africana (UA) levantou a questão das bases militares estrangeiras no continente africano. A discussão não foi aprofundada desde então. A dependência da União Africana de financiamento e recursos externos para as suas operações, incluindo a manutenção da paz, limitou a sua liberdade de tomar decisões independentes, estratégicas e táticas emsuas operações. Para a manutenção da paz, por exemplo, os Estados africanos levantam apenas 2% do custo das operações de paz e segurança da UA, enquanto os financiadores estrangeiros – como a União Europeia – <a href="https://cedricdeconing.net/2017/03/28/can-the-au-finance-its-own-peace-operations-and-if-so-what-would-the-impact-be/">fornecem 98%</a> dos fundos. Isso restringiu a capacidade do Conselho de Paz e Segurança de conduzir a sua própria agenda e é por isso que a UA não foi capaz de continuar a discussão em torno das bases militares estrangeiras de forma eficiente.</p>
<p>Em 15 de outubro de 2003, Nile Gardiner e James Carafano, da Heritage Foundation nos Estados Unidos, publicaram um <a href="https://www.heritage.org/africa/report/us-military-assistance-africa-better-solution">documento oficial</a> chamado <i>US Military Assistance for Africa: A Better Solution </i>[Assistência Militar dos EUA para a África: uma solução melhor]. Eles argumentaram que o governo dos EUA deveria criar um Comando dos EUA na África que interviria no continente “quando interesses nacionais vitais [dos EUA] forem ameaçados”, na mesma tradição doque foi feito na América Latina e no Caribe com o estabelecimento do Comando Sul dos EUA em 1963. Isso se tornou uma realidade em 2007. Dois países africanos, <a href="https://issafrica.org/iss-today/africom-may-be-looking-for-a-new-home">Botswana e Libéria, indicaram</a> que teriam o prazer de abrigar a sede do Africom. Naquela época, a África do Sul expressou oposição à mudança do Africom para o continente. Através da intervenção da UA, tanto o Botswana como a Libéria recuaram.</p>
<p>O ânimo para evitar que a sede do Africom seja sediada no continente continua entre o povo africano. No entanto, isso não impediu os EUA e alguns chefes de Estado africanos. Em uma reunião com o Secretário de Estado dos Estados Unidos, Blinken, em 27 de abril de 2021, o presidente nigeriano Muhammadu Buhari pediu aos Estados Unidos que <a href="https://www.cfr.org/blog/reversal-nigeria-wants-us-africa-command-headquarters-africa">realocassem</a> a sede do Africom de Stuttgart, na Alemanha, para o continente africano, a fim de ajudar a combater as insurgências. A pressão crescente de islâmicos e outros dissidentes e o aumento da instabilidade na Nigéria podem ter contribuído para o apelo do presidente Buhari, embora ele não tenha sugerido a Nigéria como sede. A posição da Nigéria é uma grande mudança em relação à sua posição inicial que, há uma década, era contra a presença do Africom no continente. No entanto, as bases militares dos EUA proliferaram após essa data. A UA fez referência ao perigo dessa proliferação em 2016, mas, mesmo nessa altura, tudo o que a UA conseguiu reunir foram palavras tépidas: “preocupação” e “circunspecto”. Apesar dessas palavras, o Africom se insinuou na UA com um adido do PSC e funcionários da Divisão de Prevenção de Conflitos e Alerta Rápido da UA, bem como da Divisão de Operações de Apoio à Paz. Com a entrada do Africom na UA em nome da “interoperabilidade” para ligar as forças militares dos EUA às forças de manutenção da paz da UA, os EUA começaram a moldar o quadro de segurança da UA de forma mais direta.</p>
<p>Em seu livro sobre o neocolonialismo na África, Nkrumah escreveu:</p>
<blockquote><p>O perigo para a paz mundial advém não da ação daqueles que procuram acabar com o neocolonialismo, mas da inação daqueles que permitem que ele continue. (…) Se a guerra mundial deve não ocorrer, ela deve ser evitada por ações positivas. Essa ação positiva está ao alcance dos povos daquelas áreas do mundo que agora sofrem com o neocolonialismo, mas só está ao seu alcance se agirem de uma vez, com resolução e em unidade.</p></blockquote>
<p>Palavras de 1965 que soam verdadeiras ainda hoje.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_44373" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-44373" class="wp-image-44413 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/01072021-Dossier-42_images_9.jpg" alt="" width="950" height="760" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/01072021-Dossier-42_images_9.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/01072021-Dossier-42_images_9-300x240.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2021/07/01072021-Dossier-42_images_9-768x614.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-44373" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Camp Simba, Quênia -2.171847 | 40.897016; Fonte: Google Maps</small></p></div>
</div>
<h3 class="single-post--content--citations-title" style="margin:2em 0;">Referências</h3>
<div class="single-post--content--citations-block">
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</div>
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			</item>
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