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	<title>Sukarno | Tricontinental: Institute for Social Research</title>
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	<description>international, movement-driven institution focused on stimulating intellectual debate that serves people’s aspirations.</description>
	<lastBuildDate>Sat, 04 Oct 2025 22:58:15 +0000</lastBuildDate>
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		<title>O povo indonésio inspira Taring Padi a criar</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/boletim-de-arte-taring-padi-bandung/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ricardo Vaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 27 Apr 2025 03:00:39 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Boletim de Arte]]></category>
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					<description><![CDATA[De Bandung a Yogyakarta, o coletivo Taring Padi transmite o espírito de Bandung com arte radical enraizada na herança artística da Indonésia. Tings Chak explora sua visão de cultura internacionalista e criatividade coletiva.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<h4 style="text-align:center;">Boletim de Arte Tricontinental n. 14 (Abril 2025)</h4>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><img fetchpriority="high" decoding="async" class="alignnone wp-image-122114 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/04/AB14_Header.jpg" alt="" width="950" height="550" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/04/AB14_Header.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/04/AB14_Header-300x174.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/04/AB14_Header-768x445.jpg 768w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px"></div>
<div></div>
<p class="single-post--content--text-small" style="text-align: center;">[Ouça “<a href="https://www.youtube.com/watch?v=aqU2wsyTV34">Check Your People”</a> dos artistas de hip hop indonésios, Morgue Vanguard de Bandung e Doyz de Jacarta.]</p>
<p>Neste mês, há setenta anos, os líderes de 29 Estados africanos e asiáticos recém-independentes ou em vias de se tornarem independentes reuniram-se em Bandung, Indonésia, representando metade da população mundial. Tal como como o Projeto do Terceiro Mundo estava nascendo durante a Conferência Asiático-Africana de 1955, também nascia o espírito de uma cultura internacionalista. Marcando esse momento histórico, ocorreu a primeira exposição coletiva internacional de artistas indonésios, incluindo pinturas contemporâneas e tradicionais. Essa diversidade de estilos marcou o pluralismo do não alinhamento, tendo a cultura anti-imperialista como fio condutor. Em seu discurso de abertura da conferência, o presidente indonésio Sukarno falou sobre a persistente “linha vital do imperialismo”, que forma a base da unidade afro-asiática. “Nenhum povo pode se sentir livre enquanto parte de sua pátria não for livre. Assim como a paz, a liberdade é indivisível”, afirmou Sukarno. “Não existe meio-livre, assim como não existe meio-vivo”. Nosso<a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-bandung-conferencia/"> dossiê</a> deste mês, <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-bandung-conferencia/"><i>O espírito de Bandung</i></a>, homenageia essa história ao mesmo tempo em que examina sua relevância hoje.</p>
<p>Para o aniversário de Bandung, conversamos com o coletivo artístico indonésio Taring Padi, que significa “a espiga da planta do arroz”, referindo-se ao grão espinhoso que causa coceira e desconforto. Alex Supartono, Setu Legi, Dodi Irwandi, Fitri DK, Bayu Widodo, Lidyja Trianadewi, S. Lilik e M. Ucup se juntaram a nós via Zoom, direto da cozinha de seu espaço coletivo, onde conversas, trocas, refeições e criações acontecem. Fundado em Yogyakarta em 1998, o Taring Padi nasceu das cinzas do regime da Nova Ordem de Suharto. Uma ditadura de 32 anos se seguiu ao golpe apoiado pela CIA que depôs Sukarno em 1965, e mais de um milhão de comunistas, incluindo trabalhadores culturais, e seus simpatizantes foram assassinados. A sociedade indonésia ainda é marcada por essa ferida aberta, que levou muitas das gerações mais jovens de artistas e ativistas à vida política e à luta para recuperar, lembrar e aprender com essa história brutal que desde então foi violentamente apagada.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_122134" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-122134" class="wp-image-122134 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/04/Web_AB14_1.jpg" alt="" width="950" height="576" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/04/Web_AB14_1.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/04/Web_AB14_1-300x182.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/04/Web_AB14_1-768x466.jpg 768w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-122134" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Instalação <em>Memedi Sawah/Espantalho</em> de Taring Padi exibida na Bienal de Busan, Coreia do Sul, 2024.</small></p></div>
</div>
<p>M. Ucup, um dos fundadores do Taring Padi, relembra: “Aprendemos sobre 1965 com nossos pais, vizinhos e amigos, pois foi a experiência direta de cada indonésio. É um tema constante que reaparece em nosso trabalho de uma forma ou de outra”. Como militantes estudantis, alguns dos membros fundadores também se envolveram no movimento clandestino que acabou derrubando Suharto. Mas seu trabalho não estava concluído. “Entendíamos que a arte política ainda era necessária em nosso país”, disse Ucup. “O sistema ainda persistia, então a arte política precisava continuar, e declaramos a criação do Taring Padi”. Para eles, a queda de Suharto não era seu objetivo final. Segundo Alex Supartono, a prioridade era “promover e desenvolver ativamente práticas culturais verdadeiramente voltadas para o povo”. Esse compromisso com a cultura popular — ou <i>kebudayaan rakyat </i>— tem uma longa história nos movimentos culturais revolucionários do país.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><div id="attachment_122144" class="wp-caption aligncenter"><img decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-122144" class="wp-image-122144 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/04/Web_AB14_2.jpg" alt="" width="950" height="439" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/04/Web_AB14_2.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/04/Web_AB14_2-300x139.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/04/Web_AB14_2-768x355.jpg 768w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-122144" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Esquerda: <i>Podho podho </i>[“O mesmo”] (1999) de Taring Padi em um protesto na Indonésia pedindo que Suharto responda por seus crimes. Direita: a contracapa da edição de julho de 2002 do zine <i>Terompet Rakyat </i>(“Trompeta do Povo”) de Taring Padi. Diz: “Lawanlah / Anda seniman, pekerja seni, budayawan, penulis / yang mempunyai keinginan membantu rakyat / bergabunglah bersama kami!” [Resista / Você é um artista, trabalhador artístico, trabalhador cultural, escritor / que deseja ajudar o povo / junte-se a nós!].</small></p></div></div>
<p>O nome original do Taring Padi, <i>Lembaga Budaya Kerakyatan Taring Padi </i>[Instituto de Cultura Popular de Taring Padi], ecoa o legado do <i>Lekra </i>ou <i>Lembaga Kebudayaan Rakyat </i>[Instituto de Cultura Popular], uma frente cultural intimamente ligada ao Partido Comunista da Indonésia (PKI) que alcançou mais de 200 mil membros na época do genocídio de 1965. Nascido junto com a independência do país na Revolução de Agosto de 1945, o Lekra foi fundado devido à essencial “conexão entre a revolução e a cultura, uma consciência de que a revolução tem grande significado para a cultura e, ao mesmo tempo, a cultura tem grande significado para a Revolução de Agosto”. Foi assim que o Secretário-Geral, Joebaar Ajoeb, o descreveu no congresso nacional do Lekra em 1959.</p>
<p>Ao longo de seus quinze anos de existência, o Lekra não apenas mobilizou milhões, mas também desenvolveu práticas culturais enraizadas nas condições concretas e materiais do povo. De sua organização, surgiram novas formas expressivas e teorias artísticas — eles estavam, em essência, escrevendo a história da arte na tradição marxista. Um de seus princípios para orientar o trabalho dos artistas-militantes Era <i>Turun ke bawah </i>ou <i>turba </i>[“descer do alto” ou “descer até as massas”], que significava trabalhar, comer e dormir ao lado do povo. O poeta Lekra, Martin Aleida, compartilhou comigo como esse princípio permitia “intensificar sua imaginação e inspiração, aguçar seus sentimentos sobre o quão difícil é a vida do povo”. A conversa completa e a história do Lekra podem ser encontradas em nosso dossiê de 2020, <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-35-lekra/"><i>O legado do Lekra: organizando a cultura revolucionária na Indonésia</i></a>.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_122154" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-122154" class="wp-image-122154 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/04/Web_AB14_3.jpg" alt="" width="950" height="564" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/04/Web_AB14_3.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/04/Web_AB14_3-300x178.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/04/Web_AB14_3-768x456.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-122154" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Um carnaval com faixas de Taring Padi relembrando quatro anos da Tragédia da Lama de Lapindo em Siring Barat, Porong, Sidoarjo, Java Oriental (2010).</small></p></div>
</div>
<p>No tópico que conecta Lekra a Taring Padi, Aleida<a href="https://19651966perpustakaanonline.wordpress.com/2019/10/24/sebuah-gagasan-yang-tak-mati-mati-taring-padi-dan-kebudayaan-kerakyatan-unduh-ebook-taring-padi-seni-membongkar-tirani-dan-bara-lapar-jadikan-palu/#:~:text=Terinspirasi%20oleh%20semangat%20Lekra%2C%20sejumlah,pendiri%20Taring%20Padi%2C%20September%20lalu"> escreveu</a> :</p>
<blockquote><p>A história se repete, e o poder de moldar essa repetição está agora nas mãos do Taring Padi. Pelas linhas que esculpem, fica claro que a arte visual não é uma arena inebriante de acrobacias estéticas, nem meramente um local de descanso na busca da satisfação individual… As linhas — e também as cores – devem indicar inequivocamente uma direção clara, apoiando as vítimas, em tempos de paz ou de conflito, notadamente camponeses e trabalhadores, as duas forças cruciais que impulsionam o progresso da civilização. Essa era uma convicção outrora orgulhosamente defendida por Lekra.</p></blockquote>
<p>Semelhante ao Lekra, o conteúdo e a forma da obra de Taring Padi estão profundamente enraizados nas tradições folclóricas indonésias e no realismo socialista. O próprio logotipo do coletivo é um símbolo dessa síntese. A estrela vermelha, um ramo de arroz, uma roda dentada e uma corrente de metal são uma combinação de símbolos agrários locais e socialistas clássicos. Assim como seus bonecos de papelão [<i>wayang kardus</i>] que eles fazem para mobilizações se inspiram na tradição indonésia de fantoches de sombra, suas gravuras em xilogravura [<i>cukil kayu</i>] e pinturas murais ao ar livre são inspiradas na longa história das formas populares de comunicação javanesas. Em suas diversas mídias artísticas, autoridades corruptas, capitalistas gananciosos e generais violentos são retratados usando expressões populares satíricas. Usando uma linguagem visual familiar aos indonésios comuns, o que Mao Zedong teria<a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-yanan-forum/"> chamado de</a> “a linguagem viva do povo”, Taring Padi conta a história da resistência popular em seu próprio realismo socialista localizado. Expandindo o princípio estético soviético, o secretário-geral do Lekra, Joebaar Ajoeb, definiu o realismo socialista não como sendo “simplesmente realista”, mas sim aquilo que “dá esperança e direção”.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><div id="attachment_122164" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-122164" class="wp-image-122164 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/04/Web_AB14_4.jpg" alt="" width="950" height="394" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/04/Web_AB14_4.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/04/Web_AB14_4-300x124.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/04/Web_AB14_4-768x319.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-122164" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Esquerda: <em>Rakyat Demokratik</em> [Democracia Popular], de Taring Padi, foi criado em 1998, após a queda de Suharto. Foi incendiado em 1999 por um grupo de fundamentalistas islâmicos. Uma réplica foi produzida em 2021 e exibida na Documenta 15. Direita: Exposição da Documenta quinze. Almoço de despedida no Gudkitchen, onde cozinhamos comida indonésia.</small></p></div></div>
<p>Nos “Cinco Males da Cultura” formulados no<a href="https://www.taringpadi.com/?lang=en"> manifesto de Taring Padi</a>, o coletivo condena a “arte pela arte”, aquilo que afasta as pessoas do desenvolvimento da arte, e os artistas que exploram as lutas das pessoas para ganho pessoal. Em vez disso, sua prática insiste em criar arte <i>com </i>e <i>para </i>comunidades oprimidas para resistir a males sociais e políticos, como corrupção e violência militar, enquanto lutam por um futuro por meio de lutas pela reforma agrária e igualdade de gênero. A arte coletiva de Taring Padi, de mais de 27 anos, os trouxe aos holofotes internacionais, exemplificado por sua participação na Documenta quinze em Kassel, Alemanha. No entanto, essa atenção traz suas próprias contradições. “O mundo da arte pode ser muito sedutor, mas tentamos nos manter enraizados”, acrescentou Alex. “Estabelecemos algumas regras, por exemplo, não fazemos exposições em galerias comerciais. Vendemos nosso trabalho não reproduzível apenas para instituições com financiamento público”.</p>
<p>Para navegar por esses mundos, Alex disse: “A resposta é simplesmente continuar trabalhando com o coletivo, com as pessoas, com nossos companheiros”. Eles priorizam o trabalho com movimentos e comunidades locais, como o<a href="https://artebrasileiros.com.br/arte/residencias/retomar-nossa-terra-residencia-artistica-aproxima-brasil-e-indonesia/"> Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra</a> (MST) do Brasil em 2023 e o coletivo aborígene australiano <a href="https://www.artlink.com.au/articles/5186/taring-padi-tanah-tumpah-darah/">ProppaNow</a> em 2024, além de manter sua<i> kampung </i>[comunidade] intergeracional unida em Yogyakarta. Trabalhar coletivamente e sempre assinar suas obras coletivamente é uma prática fundamental da Taring Padi. “Trabalhar coletivamente é importante porque não podemos resolver problemas sozinhos”, reflete Setu Legi. “Não é um problema apenas para nós na Indonésia. Nós, como artistas, não podemos fazer isso sozinhos; precisamos estar juntos para nos fortalecermos”. É por meio da colaboração que a Taring Padi aprende e cultiva seu próprio espírito de internacionalismo.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_122174" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-122174" class="wp-image-122174 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/04/Web_AB14_5.jpg" alt="" width="950" height="473" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/04/Web_AB14_5.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/04/Web_AB14_5-300x149.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/04/Web_AB14_5-768x382.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-122174" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Colaboração entre Taring Padi e militantes do MST na produção do cartaz <em>Retomar Nossa Terra / Rebut Tanah Kita</em> (2023) no Brasil.</small></p></div>
</div>
<p>O Espírito de Bandung de sete décadas atrás estava enraizado no internacionalismo, que o Presidente Sukarno entendia estar no centro da resistência anticolonial e anti-imperialista. Em 1959, ele convocou os artistas a se juntarem às fileiras dessas lutas. “Devemos ser mais vigilantes, mais tenazes e mais perseverantes na oposição à cultura imperialista, especialmente à cultura imperialista dos EUA, que na realidade continua a nos ameaçar de todas as formas e maneiras”. Esse também foi o ano da Revolução Cubana. Tanto a Indonésia quanto Cuba estavam unidas contra o imperialismo e organizavam conjuntamente a Conferência Tricontinental de 1966, que aconteceria em Havana — a mesma conferência à qual prestamos homenagem em nosso próprio nome no<a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/"> Instituto Tricontinental de Pesquisa Social</a> . Nem os comunistas indonésios, o Lekra, nem a presidência de Sukarno viveriam para ver essa conferência. Para Taring Padi, a arte política é necessária porque essa luta nascida há sete décadas permanece inacabada.</p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;">
<div id="attachment_122184" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-122184" class="wp-image-122184 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/04/Web_AB14_6.jpg" alt="" width="950" height="535" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/04/Web_AB14_6.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/04/Web_AB14_6-300x169.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/04/Web_AB14_6-768x433.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-122184" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small>Instalação do banner <em>Justiça Popular: Palestina</em> na Exposição Nandur Srawung, Yogyakarta, 2024.</small></p></div>
</div>
<p>“Ainda lutamos pela humanidade, pela democracia, pelo meio ambiente”, afirma Setu Legi. “Na Indonésia, agora, existem diferentes dimensões de fascismo e militarismo; parece a luta que tivemos em 1998. A extrema direita está em todo o mundo. Este é um momento importante. Mas o que estamos fazendo a respeito? Esta é uma questão que temos no Taring Padi. Precisamos lutar juntos. Precisamos lutar juntos”.</p>
<p>Para encerrar este boletim neste espírito de unidade, aqui está um <i>pantun não atribuído</i>, uma forma popular de poesia oral que foi documentada nas páginas do jornal <i>Harian Rakyat do PKI </i>.</p>
<blockquote><p>O barquinho navega para lá e para cá<br>
E chega a Surabaya<br>
Em Cuba repeliram o ataque<br>
América Latina unida à Afro-Ásia.</p></blockquote>
<p>Cordialmente,</p>
<p>Tings Chak,<br>
Diretora de Arte do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social</p>
<p>PS: Confira <a href="https://utopix.cc/descargas/april-portraits-retratos-abril/">aqui</a> nossos retratos de abril em homenagem a revolucionários e trabalhadores culturais do mundo todo.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O espírito de Bandung</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-bandung-conferencia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ricardo Vaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 08 Apr 2025 08:00:37 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dossiê]]></category>
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		<guid isPermaLink="false">https://thetricontinental.org/?p=121456</guid>

					<description><![CDATA[De Bandung a Yogyakarta, o coletivo Taring Padi transmite o espírito de Bandung com arte radical enraizada na herança artística da Indonésia. Tings Chak explora sua visão de cultura internacionalista e criatividade coletiva.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p class="single-post--content--text-small">A arte deste dossiê honra a Conferência de Bandung, na qual diversos povos, nações e projetos políticos, cada um seguindo sua própria trajetória – ou órbitas – se uniram, gravitando em torno de uma luta em comum pela construção de um mundo além do colonialismo. Líderes anticoloniais e nações se reuniram em torno do espírito de Bandung, representado por um fio amarelo que costura as páginas deste dossiê. Das aspirações daquela era por libertação nacional, novos fios, novas trajetórias e um novo clima surgem no Sul Global hoje.</p>
<hr class="single-post--content--separator-narrow">
<p>Há sete décadas, em 1955, os chefes de governo de 29 países africanos e asiáticos, bem como representantes de colônias que ainda não haviam conquistado sua independência, se encontraram em Bandung (Indonésia) para a Conferência Asiático-Africana. Foi um dos pontos altos no processo de descolonização, um encontro histórico. Pela primeira vez, representantes de centenas de milhões de pessoas do Terceiro Mundo se reuniram para discutir o enorme processo social conhecido como descolonização e avaliar suas implicações. Sukarno (1901–1970), que chefiou o governo da Indonésia e sediou a conferência, abriu-a com um discurso que indicava as ambições dos organizadores. Ele disse que queria que a conferência “oferecesse orientação à humanidade” e que esta “mostraria à humanidade o caminho a ser tomado para atingir a segurança e a paz”. Esses líderes se reuniram não apenas para celebrar a independência da Índia (1947), a Revolução Chinesa (1949) e a devolução de poder na Costa do Ouro (1951), que eventualmente levaria a uma Gana livre (1957); eles queriam “dar evidências de que uma Nova Ásia e uma Nova África nasceram” (Sukarno, 1955, p. 19-29).</p>
<p>O aliado de Sukarno, Roeslan Abdulgani (1914–2005), foi o secretário-geral da Conferência de Bandung. Durante e após o evento, ele falou sobre um “espírito de Bandung”, que descreveu como “o espírito de amor pela paz, antiviolência, antidiscriminação e desenvolvimento para todos, sem tentar intervir uns pelos outros de forma errada, mas prestar grande respeito uns aos outros” (Abdulgani, 1964 [1955], p. 89). Esse “espírito de Bandung” não era idealista; tinha uma base material enraizada nas lutas pela liberdade dos povos no mundo colonizado, que a Assembleia Geral das Nações Unidas descreveu cinco anos depois na <i>Declaração sobre a Concessão de Independência aos Países e Povos Coloniais </i>como “um processo de libertação” que é “irresistível e irreversível”.<a href="#_edn1" name="_ednref1"><sup>1</sup></a></p>
<p>Esse espírito nasceu nas lutas de massa contra o colonialismo e confluia por meio dos militantes anticoloniais quando se encontravam em lugares como o Sexto Congresso Democrático Internacional pela Paz em Bierville, França (1926), e o Primeiro Congresso Internacional contra o Colonialismo e o Imperialismo em Bruxelas, Bélgica (1927). Abdulgani refletiu mais tarde que aqueles que se encontravam nessas conferências tinham “o mesmo espírito apaixonado, e todos falavam com a mesma voz reverberante: esse é o espírito e a voz de seus povos, que foram colonizados, oprimidos e humilhados” (Abdulgani, 1955, p. 11). O espírito de Bandung era a voz de centenas de milhões que viveram sob o domínio colonial e que falavam contra o horror colonial, bem como sua esperança por um novo mundo.</p>
<p>Por uma série de razões, em grande parte estimuladas pelas pressões da estrutura neocolonial que se seguiram apesar do fim do domínio colonial formal, o espírito de Bandung se dissipou. Restou apenas a nostalgia por ele. As gerações nascidas após o domínio colonial não mais guardavam junto a elas o resíduo das longas e difíceis lutas anticoloniais. A agenda de libertação nacional foi corroída dentro dessas estruturas neocoloniais; os camponeses e trabalhadores da era pós-colonial viam suas próprias classes dominantes como o problema e não enxergavam os problemas herdados dessa estrutura intratável como seu inimigo. Setenta anos após a Conferência de Bandung, vale a pena perguntar se o espírito de Bandung permanece intacto, ainda que como uma etérea névoa no Sul Global. Esse é o objetivo deste dossiê, mais um ensaio que levanta algumas provocações do que o fruto de um programa de pesquisa de longo prazo.<a href="#_edn2" name="_ednref2"><sup>2</sup></a> Esperamos que essas provocações produzam discussões e debates.</p>
<hr class="single-post--content--separator-section">
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-121315 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/04/D87_2_I-Part.jpg" alt="" width="624" height="780" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/04/D87_2_I-Part.jpg 624w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/04/D87_2_I-Part-240x300.jpg 240w" sizes="auto, (max-width: 624px) 100vw, 624px"></div>
<h2 style="margin:3em 0;">Parte I: O significado do espírito de Bandung</h2>
<h3 style="margin:2em 0;">Intrusos em um mundo oriental</h3>
<p>De 5 de outubro a 14 de dezembro de 1953, o vice-presidente dos EUA, Richard Nixon, fez uma extensa viagem pela Ásia, visitando 14 países na região (do Japão ao Irã) e dois países em sua borda (Austrália e Nova Zelândia). Nixon foi à Ásia com alguns objetivos importantes: tranquilizar os aliados dos EUA sobre o armistício assinado na península coreana em julho; avaliar a posição estadunidense na Indochina, onde já havia assumido a maior parte do financiamento militar da França e mais tarde assumiria o papel militar após a derrota francesa em Dien Bien Phu, em maio de 1954; e para entender o novo papel da Revolução Chinesa na Ásia. Em suas memórias, escritas duas décadas depois, Nixon refletiu sobre essa visita e disse que “quando pensadores otimistas em Washington e outras capitais ocidentais estavam dizendo que a China comunista não seria uma ameaça na Ásia porque era muito atrasada e subdesenvolvida”, ele viu “em primeira mão que sua influência já estava se espalhando por toda a área”. Ao contrário dos soviéticos, escreveu Nixon, que “como nós, ainda eram intrusos em um mundo oriental”, “os comunistas chineses estabeleceram programas de intercâmbio estudantil, e um grande número de estudantes estava sendo enviado para a China Vermelha para treinamento universitário gratuito” (Nixon, 1978 [1967], p. 136). Os Estados Unidos, relatou Nixon a seu governo, tiveram que responder vigorosamente aos novos desenvolvimentos na Ásia que foram estimulados pela Revolução Chinesa.</p>
<p>Em setembro de 1954, oito países formaram a Organização do Tratado do Sudeste Asiático (Seato, na sigla em inglês) após a assinatura de um tratado de defesa coletiva chamado Pacto de Manila. Apenas três dos países estavam situados na Ásia (Paquistão, Filipinas e Tailândia), enquanto dois estavam na Europa (França e Reino Unido). Os outros três membros da Seato já haviam assinado um pacto militar em 1951 chamado Tratado de Segurança da Austrália, Nova Zelândia e Estados Unidos (Anzus, na sigla em inglês). Este tratado e a Seato vieram ao lado de três outros tratados importantes no flanco do Pacífico da Ásia: o Tratado de Paz de São Francisco, de 1951, entre o Japão e as Potências Aliadas; o Tratado de Defesa Mútua, de 1953, entre a Coreia do Sul e os EUA; e o Tratado de Defesa Mútua, de 1954, entre a República da China (então Formosa, agora Taiwan) e os EUA (Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, 2024). Em 1951, John Foster Dulles, que se tornou secretário de Estado em 1953, argumentou que os Estados Unidos precisavam construir uma cadeia de bases navais em ilhas, do Japão até a Península Malaia (que abrange partes de Mianmar, Tailândia, Malásia e Cingapura), para cercar a União Soviética e a República Popular da China (RPC). Esses cinco tratados estabeleceram as bases para tal cadeia do Japão até a Tailândia (Foster Dulles, 1958). Em 1956, um funcionário do Departamento de Estado dos EUA (1956) recebeu um memorando britânico “sobre o processo de Planejamento Militar da Seato partindo da suposição de que armas nucleares e não nucleares serão usadas na defesa da área (…) Qualquer planejamento que não levasse em consideração armas nucleares seria obviamente irrealista e não valeria a pena” (Gleenon <i>et al</i>., 1990, p. 180-181). Em outras palavras, os cinco tratados que cercaram a China incentivaram a colocação de armas nucleares nos limites da Ásia e autorizaram seu uso, se necessário.</p>
<p>É importante lembrar que nada disso era mera teoria. Os Estados Unidos já tinham usado bombas atômicas no Japão em 1945 e bombardeado qualquer infraestrutura disponível na parte norte da Coreia até o final de 1951 (os bombardeios, no entanto, continuaram até 1953) (Hwang, 2016). O Major General Emmett O’Donnell, comandante da Força Aérea dos EUA que bombardeou a Coreia, disse ao Senado dos EUA em junho de 1951: “Está tudo destruído. Não há nada de pé digno dessa palavra”. O’Donnell acrescentou que, quando as forças chinesas cruzaram o Rio Yalu na fronteira com a Coreia do Norte em novembro de 1950, a Força Aérea dos Estados Unidos aterrou seus bombardeiros porque “Não havia mais alvos na Coreia” (Stone, 1969, p. 312). Em dezembro de 1953, o presidente dos EUA Dwight Eisenhower sugeriu a Winston Churchill que os EUA lançariam bombas atômicas na China se Pequim violasse o armistício coreano. Pouco depois, em março de 1955, o governo dos Estados Unidos deixou claro para a RPC que estava disposto a usar armas nucleares se o Exército de Libertação Popular entrasse em Formosa (atual Taiwan).<a href="#_edn3" name="_ednref3"><sup>3</sup></a></p>
<h3 style="margin:2em 0;">Coexistência Pacífica</h3>
<p>Após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos estavam lentamente se estabelecendo como a principal força do antigo bloco imperialista, particularmente por causa de sua enorme vantagem militar e econômica sobre uma Europa maltratada. Ao mesmo tempo, a Grã-Bretanha estava processando uma contrainsurgência violenta na Península Malaia (a Emergência Malaia, 1948-1960) e a França estava lutando uma miserável guerra de retaguarda na Indochina (os holandeses já haviam sido derrotados na Indonésia em 1949). O sangue encharcou o solo da Ásia e encheu as narinas dos líderes anticoloniais que vieram para Bandung. É por isso que as discussões na conferência se centraram tanto na paz e no racismo: os líderes anticoloniais presentes temiam que a velha mentalidade colonial da divisão internacional da humanidade persistisse na era pós-colonial, assim como o uso desenfreado da violência contra aqueles vistos pelos colonialistas como estando do outro lado dessa divisão. O <i>Dasasila</i>, ou dez princípios, de Bandung, foi elaborado com base no <i>Panchsheel</i>, ou cinco princípios, que a China e a Índia elaboraram em 1954 para ajudar a guiá-las em suas diferenças. Esses princípios de “coexistência pacífica” se opunham fortemente à construção de alianças e bases militares ao redor da Ásia e à ameaça de países com ataques nucleares.</p>
<p>Em 1956, quatro anos após a Turquia aderir à Otan, o poeta comunista turco Nazim Hikmet escreveu uma elegia para uma menina de sete anos de Hiroshima intitulada “Criança de Hiroshima”, mais conhecida pelo verso “quando as crianças morrem, elas não crescem”:</p>
<blockquote><p>Tudo o que eu preciso é que pela paz<br>
Você lute hoje, lute hoje<br>
Para que as crianças deste mundo<br>
Possam viver, crescer, rir e brincar.</p></blockquote>
<p>Essa era a essência do espírito de Bandung. Era tão simples quanto isso. Essa essência permeia os dez princípios, que foram publicados no comunicado final da conferência, em 24 de abril de 1955:</p>
<ol>
<li aria-level="1">Respeito pelos direitos humanos fundamentais e pelos propósitos e princípios da Carta das Nações Unidas.</li>
<li aria-level="1">Respeito pela soberania e integridade territorial de todas as nações.</li>
<li aria-level="1">Reconhecimento da igualdade de todas as raças e da igualdade de todas as nações, grandes e pequenas.</li>
<li aria-level="1">Abstenção de intervenção ou interferência nos assuntos internos de outro país.</li>
<li aria-level="1">Respeito ao direito de cada nação de se defender individual ou coletivamente, em conformidade com a Carta das Nações Unidas.</li>
<li aria-level="1">(a) Abstenção de utilizar mecanismos de defesa coletiva para servir a interesses particulares de qualquer uma das grandes potências.<br>
(b) Abstenção de qualquer país em exercer pressões sobre outros países.</li>
<li aria-level="1">Abster-se de atos ou ameaças de agressão ou uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer país.</li>
<li aria-level="1">Solução de todas as disputas internacionais por meios pacíficos, como negociação, conciliação, arbitragem ou solução judicial, bem como outros meios pacíficos escolhidos pelas partes, em conformidade com a Carta das Nações Unidas.</li>
<li aria-level="1">Promoção de interesses mútuos e cooperação.</li>
<li aria-level="1">Respeito pela justiça e pelas obrigações internacionais (Ministério das Relações Exteriores da República da Indonésia, 1955, p. 161-169).</li>
</ol>
<p>Ao fim e ao cabo, esses princípios defendiam uma ordem internacional enraizada na Carta da ONU (1945) em vez de uma baseada na criação de blocos militares e no uso da força militar para moldar o mundo e subverter a soberania. Em suas reflexões sobre a Conferência de Bandung, Abdulgani sugeriu que esta era um fórum para “determinar os padrões e procedimentos das relações internacionais atuais” e que defendia a coexistência em vez da codestruição (Abdulgani, 1964, p. 161-169). Em 1955, 76 países haviam assinado a Carta da ONU, que mantinha obrigações de tratado para com seus signatários; cerca de 80 territórios, incluindo a maior parte do continente africano e a maioria das ilhas do Pacífico, permaneceram sob controle colonial. A Carta da ONU era então, e continua sendo agora, o documento de consenso mais importante do mundo; à medida que os países conquistaram sua independência do final dos anos 1950 até os anos 1970, eles se juntaram às Nações Unidas como membros plenos.</p>
<p>O espírito de Bandung viajou rapidamente, chegando no Cairo (Egito) para a Conferência de Solidariedade dos Povos Afro-Asiáticos de 1957-1958 e depois em Acra (Gana) para a Conferência dos Povos Africanos de 1958, antes de seguir para Túnis (Tunísia), para a Conferência dos Povos Africanos de 1960, Belgrado (ex-Iugoslávia), para a Conferência de Cúpula de Chefes de Estado ou Governo do Movimento dos Não-Alinhados de 1961 e, finalmente, para Havana (Cuba), para a Conferência Tricontinental de 1966. Cada uma dessas conferências estabeleceu órgãos institucionais: a Organização de Solidariedade dos Povos Afro-Asiáticos, o Movimento dos Não-Alinhados e a Organização em Solidariedade com os Povos da África, Ásia e América Latina. No centro deles estava a luta contra o imperialismo, com foco na ameaça nuclear e no desarmamento e no reconhecimento de que o desperdício da valiosa riqueza social em armas significava que a agenda de desenvolvimento estava sendo deixada de lado. Esse cálculo entre armas e comida estava no cerne das deliberações. Quaisquer mecanismos de controle de armas que se desenvolveram durante esse período, como o Tratado de Proibição Limitada de Testes Nucleares de 1963, foram um produto das negociações forçadas por esses projetos de Estados não alinhados do Terceiro Mundo.<a href="#_edn4" name="_ednref4"><sup>4</sup></a></p>
<h3 style="margin:2em 0;">Cooperação para o desenvolvimento</h3>
<p>Além do apelo por soberania e paz, a era de Bandung também carregou consigo a semente para uma nova ordem econômica internacional. A cooperação Sul-Sul foi o chamado claro em Bandung. A primeira seção de seu comunicado final foi dedicada inteiramente à cooperação econômica e delineou o desejo de desenvolvimento econômico e assistência técnica. Houve também um apelo para estabelecer o Fundo Especial das Nações Unidas para o Desenvolvimento Econômico, a fim de financiar investimentos nesses países. Como o imperialismo só havia considerado adequado desenvolver as colônias como locais para produzir matérias-primas, muita ênfase foi colocada na necessidade de estabilizar os preços das <i>commodities</i> e desenvolver capacidades domésticas para processar essas<i> commodities</i> antes da exportação.</p>
<p>Um dos efeitos duradouros da Conferência de Bandung foi sua influência na formação de instituições e processos multilaterais que continuam até hoje, embora em uma forma quase sempre limitada ou cooptada (Rist, 2008). Isso inclui o estabelecimento do Fundo Especial das Nações Unidas para o Desenvolvimento Econômico em 1958, que mais tarde se transformaria no Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento em 1965. Houve também o estabelecimento da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad) em 1964 e sua Nova Ordem Econômica Internacional, um conjunto de propostas que foram adotadas pela Assembleia Geral da ONU em 1974. No sexagésimo aniversário da Unctad, em 2024, o Secretário-Geral Adjunto Pedro Manuel Moreno declarou: “É com o mesmo espírito [da Conferência de Bandung] que, nove anos depois, nasceu a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, Unctad” (Moreno, 2024).</p>
<h3 style="margin:2em 0;">Um mundo de golpes</h3>
<p>Poucas semanas antes da Conferência de Bandung, em abril de 1955, o Secretário de Estado dos EUA, John Foster Dulles, teve uma reunião com o embaixador britânico nos EUA, Sir Roger Makins. Dulles disse a Makins que ele estava “consideravelmente deprimido” sobre a “situação geral na Ásia”. Essa “situação” foi incorporada por um discurso feito por Jawaharlal Nehru, o primeiro primeiro-ministro da Índia após sua independência, no Parlamento Indiano, em 31 de março de 1955, em antecipação à reunião de Bandung, na qual ele atacou a Seato como sendo um pacto hostil, a Otan, por dar apoio a Portugal para manter Goa na Índia, o regime do<i> apartheid</i> na África do Sul e o Ocidente, por “se intrometer” na Ásia Ocidental. O discurso de Nehru, disse Dulles, “tomou a linha geral de que a civilização ocidental havia falhado e que algum novo tipo de civilização era necessário para substituí-la”. Isso abalou Dulles, que queria sabotar a Conferência de Bandung, pois ela era, segundo ele, “por sua própria natureza e conceito, antiocidental” (Glennon <i>et al</i>., 1955, p. 454).</p>
<p>Golpes no Irã (1953) e na Guatemala (1954) anunciaram a recusa do Ocidente em permitir que uma nova ordem mundial pudesse ser construída. Isso foi seguido por uma série de golpes na África (contra o povo do Congo, em 1961, e de Gana, em 1966), América Latina (contra o povo do Brasil, em 1964) e Ásia (contra o povo da Indonésia, em 1965). Cada um desses quatro golpes produziu epicentros de reação imperialista, com os novos regimes militares nesses países desempenhando um papel continental em sufocar quaisquer desenvolvimentos progressistas. O golpe na Indonésia, que resultou no assassinato de um milhão de comunistas, foi praticamente uma vingança por Bandung.<a href="#_edn5" name="_ednref5"><sup>5</sup></a></p>
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-121325 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/04/D87_3_II-Part.jpg" alt="" width="624" height="780" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/04/D87_3_II-Part.jpg 624w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/04/D87_3_II-Part-240x300.jpg 240w" sizes="auto, (max-width: 624px) 100vw, 624px"></div>
<h2 style="margin:3em 0;">Parte II: Por que não existe o espírito de Bandung hoje?</h2>
<h3 style="margin:2em 0;">Banhado em nostalgia</h3>
<p>Em abril de 1965, o governo sitiado de Sukarno realizou uma conferência de aniversário de 10 anos com delegados de 37 países. No entanto, foi uma pálida sombra da conferência original: a Indonésia suspendeu sua filiação às Nações Unidas em janeiro, e seus militares deixariam os quartéis em outubro para derrubar Sukarno. Em 1965, uma tentativa de realizar uma segunda Conferência Afro-Asiática em Argel, Argélia, teve que ser cancelada devido à derrubada de Ben Bella em junho de 1965; a disputa sino-soviética; e divisões entre os Estados africanos recém-independentes, com o Grupo de Casablanca ansioso por uma forma fortemente alinhada de pan-africanismo e o Grupo de Brazzaville defendendo laços mais estreitos com os antigos mestres coloniais. Como muitas das instituições que saíram da Conferência de Bandung permaneceram intactas e teriam uma influência marcante nos assuntos mundiais nas décadas seguintes, o fracasso em realizar uma segunda conferência não foi tão indicativo quanto parece. O que destruiu o espírito de Bandung foi a crise da dívida do Terceiro Mundo, que catapultou os países do mundo em desenvolvimento para uma situação permanente de dívida e austeridade e implodiu suas aspirações de desenvolvimento. Foi quando o espírito de Bandung evaporou.</p>
<p>A crise da dívida do Terceiro Mundo foi em si uma indicação da incapacidade do espírito de Bandung de superar, em pouco tempo, a base material da divisão neocolonial do trabalho. Ao passo que as condições subjetivas para a cooperação e a troca existiam, as condições objetivas não. Toda a infraestrutura herdada pelos Estados recém-independentes tinha sido construída pelo imperialismo para facilitar a extração da periferia para o centro. Em 1963, mais de 70% das exportações de países em desenvolvimento eram destinadas a países desenvolvidos (Balassa, 1991). Antigos laços comerciais dentro do que hoje chamamos de Sul Global tinham sido rompidos pelo colonialismo, e reconstruí-los não era uma tarefa fácil. Além disso, esses Estados recém-independentes eram responsáveis por uma pequena parte do comércio global, apesar de abrigarem a maioria da população mundial. Seu baixo nível de desenvolvimento tecnológico também impedia qualquer compartilhamento efetivo de conhecimento técnico.</p>
<p>Cada um dos Estados recém-independentes no processo de Bandung tinha um caráter único de formação de capital e estrutura interna de classe, e cada um permaneceu compartimentado na divisão internacional do trabalho determinada pelo imperialismo (Ahmad, 1992). Incapaz de superar o padrão de subdesenvolvimento colonial e o ataque imperialista de golpes e contrainsurgência, a crise da dívida do Terceiro Mundo inaugurou uma mudança de um espírito de cooperação para a lei da competição. Essa crise foi usada para dividir e disciplinar a periferia e reincorporá-la a um mercado global em termos favoráveis ao capital multinacional (Silva, 1982).</p>
<p>Em 2005, quase todos os países da África e da Ásia — 106 de 177 — compareceram à Cúpula Asiático-Africana de 50 anos em Bandung (Israel não foi convidado, nem Austrália ou Nova Zelândia, mas a maioria dos Estados insulares do Pacífico e Palestina participaram), e vários países latino-americanos estavam presentes como observadores. Chefes de governo deixaram o hotel Sovay Homann e caminharam pela Rua Asiático-Africana (nomeada em comemoração à primeira conferência) até o local, assim como seus antecessores fizeram 50 anos antes. O encontro foi banhado em nostalgia, mas também em uma sensação de que o mundo estava em transição, apesar de essa conferência ter sido realizada em meio à desprezível Guerra ao Terror, que já havia destruído o Afeganistão e o Iraque e logo devastaria uma série de outros países (incluindo a própria Indonésia, onde os bombardeios de outubro de 2002 em Bali levaram a Guerra ao Terror para o Sudeste Asiático). O comunicado final, <i>Uma Nova Parceria Estratégica Asiático-Africana</i>, estava cheio de conceitos neoliberais de vantagem comparativa e metas de desenvolvimento, um afastamento da lógica anti-imperialista da declaração original. O espírito de Bandung em exibição tinha sido bem engarrafado; não pairava no ar. O ponto, então, não era meramente reviver o fantasma de Bandung, mas encontrar seu espírito mais uma vez.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">O novo estado de espírito no Sul Global</h3>
<p>Foi somente com a Terceira Grande Depressão (2007-2008) que houve uma percepção vital de que o Ocidente não permitiria nem possibilitaria o avanço do Sul Global. Em 2009, essa percepção produziu a formação do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul) que, em 2025, se expandiu para incluir cinco outros países (Egito, Etiópia, Indonésia, Irã e Emirados Árabes Unidos) e 13 Estados parceiros.<a href="#_edn6" name="_ednref6"><sup>6</sup></a> Enquanto as primeiras cúpulas do BRICS se concentraram na cooperação Sul-Sul, ou comércio e investimento em todo o Sul Global, as cúpulas subsequentes reintroduziram a ideia de independência econômica do Norte Global e a ideia de multilateralismo político em vez da unipolaridade impulsionada pelos EUA. Dezesseis anos não é tempo suficiente para que o projeto BRICS seja submetido a uma avaliação completa. Mesmo durante esses anos, ele sofreu com as diferenças políticas entre seus países-membros (China e Índia, por exemplo) e com a natureza mutável de seus líderes (como o Brasil, passando do governo de centro-esquerda de Dilma Rousseff para o governo neofascista de Jair Bolsonaro e depois retornando para a centro-esquerda sob Luiz Inácio Lula da Silva). A flutuação do processo de formação dos BRICS e outras estruturas Sul-Sul veio por causa do crescimento econômico que começou a definir os grandes países da Ásia (China, Vietnã, Índia, Bangladesh e Indonésia em particular). Em janeiro de 2025, no septuagésimo aniversário da Conferência de Bandung, a Indonésia se tornou um membro pleno do BRICS.</p>
<p>A mudança do centro de gravidade da economia mundial para a Ásia deu origem ao início de uma nova confiança, ou “novo humor”, no Sul Global, uma vez que os países da África, Ásia e América Latina não precisavam mais depender tão completamente das instituições do Norte Global para finanças e tecnologia. A Iniciativa do Cinturão e Rota (ICR) da China, adotada em 2013 em resposta à Terceira Grande Depressão, foi um desenvolvimento extremamente importante a esse respeito, pois forneceu condições objetivas para a cooperação Sul-Sul que simplesmente não existiam na época da Conferência de Bandung. Iniciativas como a construção de ferrovias na África Oriental e a abertura de um novo porto no Peru criam pré-condições para o comércio interno entre os países do Sul Global. Em 2023, 46,6% do comércio da China era com países na rede BRI (The State Council Information Office, 2024). Embora seja muito cedo para dizer que algo parecido com “desvinculação” tenha acontecido, é evidente que uma grande mudança vem ocorrendo, já que a China agora é o principal parceiro comercial de mais de 120 países (Nicita &amp; Razo, 2021).<a href="#_edn7" name="_ednref7"><sup>7</sup></a> Enquanto isso, a própria ICR teve sua cota de altos e baixos e exige que seus países-membros tragam seus próprios projetos nacionais de desenvolvimento para a mesa.</p>
<p>Em muitas das publicações da Tricontinental, usamos a frase “novo clima” para definir o presente. Os principais objetivos do “novo clima no Sul Global” estão enraizados em dois conceitos, <i>regionalismo </i>e <i>multilateralismo</i>, ambos motivados pelo desejo de democratizar a ordem mundial em termos econômicos e políticos. Da Organização de Cooperação de Xangai ao Mercado Comum do Sul (Mercosul), esse regionalismo já está sendo desenvolvido e foi reforçado por um aumento no comércio denominado em moeda local, tornando materialmente possível alcançar “autodeterminação econômica” e “complementaridade regional”, nas palavras de Indira López Argüelles, do Ministério das Relações Exteriores de Cuba.<a href="#_edn8" name="_ednref8"><sup>8</sup></a> Ligado a esse regionalismo está a expansão da ideia de multilateralismo, a posição de que institutos globais (como as Nações Unidas e a Organização Mundial do Comércio) não devem ser instrumentos do Norte Global, mas devem permitir que sua agenda seja moldada por todos os seus Estados-membros.</p>
<h3 style="margin:2em 0;">Não há espírito de Bandung hoje</h3>
<p>Nas décadas de 1950 e 1960, os movimentos de libertação nacional tinham uma base popular de massas (frequentemente a maioria de suas populações). Apesar de serem liderados – na maioria dos casos – pela pequena burguesia e setores da elite fundiária, o comprometimento desses movimentos com a libertação nacional os forçou a seguir um caminho socialista, a assumir governos dentro das estruturas do neocolonialismo e a responder à sua base organizada. Esses “socialismos” vieram com diferentes orientações, seja o “caminho socialista para a sociedade” do segundo Plano Quinquenal da Índia (1956–1961), o socialismo africano da Declaração de Arusha (escrita por Julius Nyerere, da Tanzânia, em 1967), ou mesmo a política de massa de variantes do populismo na América Latina, como o peronismo argentino (<i>¡Ni yanquis</i>, <i>ni marxistas!, ¡peronistas!, </i>em português, “Nem ianques, nem marxistas, peronistas!”). Apesar das orientações de classe da liderança dessas tendências e da estreiteza de suas próprias perspectivas, as massas despertas não permitiriam que fosse abandonado o programa de libertação nacional mais amplo. É por isso que podemos falar de uma Bandung vinda de baixo.</p>
<p>Hoje, o estado dos movimentos populares é muito mais fraco. Apenas em alguns países do Sul Global eles comandam a sociedade. Os governos progressistas de nossos tempos são composições de diversas classes – incluindo uma pequena burguesia e uma burguesia liberal que não podem mais tolerar as atrocidades do neoliberalismo, mas não romperão facilmente com suas ortodoxias. Se, por um lado, a segunda maré rosa na América Latina, por exemplo, e o surgimento de governos progressistas em países como Senegal e Sri Lanka são um efeito do colapso do neoliberalismo e uma resposta ao horror da direita, por outro, não se sustentam sobre as costas de movimentos de massa organizados, tampouco estão unidos em torno de um programa que rompa com o neoliberalismo.<a href="#_edn9" name="_ednref9"><sup>9</sup></a> Em toda a região do Sahel na África – no Níger, Mali e Burkina Faso –, golpes militares anti-imperialistas são apoiados por uma nova onda de movimentos sociais que ainda estão no processo de formulação de um projeto mais amplo de soberania e desenvolvimento. Esses desenvolvimentos são capazes de um novo humor – um “Espírito BRICS”, por exemplo –, mas ainda não do equivalente ao espírito de Bandung. Seria prematuro, até mesmo idealista, anunciar tal fenômeno, um espírito de Bandung vindo de baixo para o nosso tempo, um fenômeno de massa capaz de impulsionar o movimento real da história.</p>
<p>O contexto fundamental que molda esse novo clima, e a ameaça iminente que necessita do renascimento do espírito de Bandung, é o hiperimperialismo.<a href="#_edn10" name="_ednref10"><sup>10</sup></a> Em nossa pesquisa no Tricontinental, propusemos que há apenas um verdadeiro bloco político-econômico-militar no mundo: a aliança estabelecida entre Otan e Israel, sob liderança dos EUA. Apesar do poder econômico e tecnológico decrescente, esse bloco retém um poderio militar incomparável e um controle significativo sobre o sistema global de informações. O uso de táticas de guerra híbridas e a ameaça ou uso de violência contra nações modestas em busca de soberania requerem uma resposta coletiva do Sul Global, que pode assumir a forma de um reavivamento do espírito de Bandung.</p>
<p>No entanto, há um conjunto de fatores que limitam o surgimento de uma nova era de Bandung no Sul Global:</p>
<ol>
<li aria-level="1">Permanece tanto o medo quanto o desejo pela liderança ocidental, apesar de seus muitos fracassos, sua decadência e sua periculosidade. É lógico que os Estados do Sul Global temem a possibilidade de guerra por todos os meios (de medidas coercitivas unilaterais a bombardeios aéreos), já que isso não é uma suposição teórica, mas um fato real.<a href="#_edn11" name="_ednref11"><sup>11</sup></a> No entanto, ao mesmo tempo, há uma sensação cativante de que a liderança ocidental é necessária, dada a reminiscência da ordem internacional dominada pelo Ocidente.</li>
<li aria-level="1">Há uma falta de clareza no Sul Global sobre os avanços feitos na Ásia, especialmente pela China. Outros países não veem essas conquistas – particularmente quando se trata de forças produtivas qualitativamente novas – como facilmente replicáveis, o que leva a uma subestimação mútua da força potencial de um Sul Global coletivo. Há, além disso, e contra as evidências disponíveis, uma crença crescente impulsionada pelo Norte Global de que os avanços das locomotivas do Sul Global serão perigosos para os países mais pobres. Está sendo sugerido que os avanços dos países asiáticos, em particular, são mais uma ameaça do que o registro de perigo do Norte Global ao longo de centenas de anos.</li>
<li aria-level="1">Há uma rendição à realidade do controle do Ocidente sobre os cenários digital, de mídia e financeiro, que parece insuperável.</li>
<li aria-level="1">Uma parcela significativa da elite econômica dominante no Sul Global permanece profundamente interligada ao capital financeiro global. Isso é particularmente visível em sua dependência do dólar americano como um porto seguro para investimentos e sua participação na extração de riqueza de seus próprios países para investir nos mercados imobiliários e financeiros do Norte Global. Esses interesses de classe são prontamente apoiados por intelectuais e formuladores de políticas que não conseguem enxergar além das teorias da economia neoclássica e do Consenso de Washington.<a href="#_edn12" name="_ednref12"><sup>12</sup></a> É por isso que nós do Tricontinental defendemos uma nova Teoria de Desenvolvimento para o Sul Global.<a href="#_edn13" name="_ednref13"><sup>13</sup></a></li>
<li aria-level="1">Existem velhos hábitos em muitos dos nossos movimentos sociais de que a esquerda deve se opor permanentemente à realidade da política de classe e que não podemos conquistar o poder nessas condições. Qualquer compromisso com a realidade para tomar o poder e efetivar a nossa agenda é visto como uma dissolução de nossos objetivos finais. A incapacidade de vencer ganhou uma espécie de fascínio inexplicável na era da libertação nacional, quando ganhar o poder do Estado era o objetivo imediato e intratável. Há até mesmo uma orientação que sugere que os movimentos de esquerda devem lutar contra a direita, construir uma dinâmica contra o neoliberalismo e, então, em vez de exigir e tomar o poder do Estado, entregar o poder à centro-esquerda. A pior orientação é não contestar o poder do Estado de forma alguma.</li>
</ol>
<p>Até que os povos do Sul Global sejam capazes de superar alguns desses (e outros) desafios, é improvável que o espírito de Bandung faça parte do movimento real da história. Estamos emergindo lentamente de uma época extinta da história, a época do imperialismo. Mas ainda não entramos em um novo período que esteja além do imperialismo – a mais difícil de todas as estruturas com as quais se romper.</p>
<hr class="single-post--content--separator-section single-post--content--separator-section-end">
<div class="single-post--content--media-block single-post--content--image" style="text-align:center; margin:3em 0;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignnone wp-image-121335 size-full img-responsive" src="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/04/D87_4_Ending.jpg" alt="" width="650" height="780" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/04/D87_4_Ending.jpg 650w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2025/04/D87_4_Ending-250x300.jpg 250w" sizes="auto, (max-width: 650px) 100vw, 650px"></div>
<h3 class="single-post--content--citations-title" style="margin:2em 0;">Notas</h3>
<div class="single-post--content--citations-block">
<p><a href="#_ednref1" name="_edn1"><sup>1</sup></a> A resolução poética foi formalmente colocada perante a Assembleia Geral da ONU pelo diplomata soviético Vasily Kuznetsov. Ver Assembleia Geral das Nações Unidas, <i>Declaração sobre a Concessão de Independência a Países e Povos Coloniais </i>(A/RES/1514), 14 dez. 1960. O presidente da Assembleia Geral naquela época era o diplomata irlandês Frederick Boland. A filha de Boland, Eavan, tornou-se uma poetisa famosa e, em 1998, publicou “Witness” [Testemunha], que contém estas linhas:<q class="single-post--content--quote-inside-note">O que é uma colônia<br>
senão a verdade brutal<br>
de que quando falamos<br>
os túmulos se abrem.<span class="single-post--content--text-as-block">E os mortos andam?</span></q></p>
<p><a href="#_ednref2" name="_edn2"><sup>2</sup></a>A narrativa geral neste dossiê é fortemente baseada nas obras de Vijay Prashad, <i>The Darker Nations: A People’s History of the Third World</i> (2007) [ed. brasileira: <i>Uma história popular do Terceiro Mundo</i>, São Paulo: Expressão Popular, 2022] e <i>The Poorer Nations: A Possible History of the Global South</i> (2013). Ela fará parte da base para o livro no prelo<i>The Brighter Nations </i>(2026).</p>
<p><a href="#_ednref3" name="_edn3"><sup>3</sup></a>Em uma conferência de imprensa em 15 de março de 1955, John Foster Dulles explicou a doutrina de “retaliação menos que massiva”. Se a China cruzasse para Formosa, disse Dulles, os EUA usariam armas nucleares táticas contra as forças chinesas. Ver Abel (1955). Quando Eisenhower foi questionado sobre a confirmação da declaração de Dulles no dia seguinte, ele disse que armas nucleares táticas não deveriam ser usadas “exatamente como você usaria uma bala ou qualquer outra coisa. Acredito que a grande questão sobre essas coisas surge quando você começa a entrar nessas áreas em que não se pode ter certeza de que se está operando meramente contra alvos militares. Mas com essa qualificação, eu diria, sim, é claro que elas seriam usadas”. Ver Klingaman <i>et al</i>., 1990, p. 61. Para as notas do diário de Churchill, ver Colville, 1985, p. 687. Sobre a questão mais ampla da retaliação nuclear, ver Jones, 2008, p. 37–65.</p>
<p><a href="#_ednref4" name="_edn4"><sup>4</sup></a>Por exemplo, o LCN Obi, da Nigéria, foi uma figura-chave, mas agora esquecida, no debate em torno do Tratado de Não Proliferação Nuclear de 1968, enquanto Ismael Moreno Pino, do México, foi o negociador central do Tratado para a Proibição de Armas Nucleares na América Latina e no Caribe de 1967, conhecido como Tratado de Tlatelolco, o primeiro a estabelecer uma zona livre de armas nucleares.</p>
<p><a href="#_ednref5" name="_edn5"><sup>5</sup></a>Alan Burns, administrador colonial da Costa do Ouro e da Nigéria de 1941 a 1947, foi nomeado representante permanente do Reino Unido no Conselho de Tutela da ONU de 1947 a 1956. Logo após deixar a ONU, Burns publicou um livro que resgatou Bandung e argumentou que representava “o ressentimento dos povos mais escuros contra a dominação passada do mundo pelas nações europeias” (Burns, 1957, p. 5). Para mais informações sobre o golpe na Indonésia, ver Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, 2020.</p>
<p><a href="#_ednref6" name="_edn6"><sup>6</sup></a>Ver: Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. <i>O mundo em depressão econômica: uma análise marxista da crise</i>. Caderno n. 4, 10 out. 2023. Disponível em: <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-caderno-4-crise-economica/">https://dev.thetricontinental.org/dossier-notebook-4-economic-crisis/</a>.</p>
<p><a href="#_ednref7" name="_edn7"><sup>7</sup></a>Para mais informações sobre desvinculação, ver: Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, <i>Globalização e sua alternativa: uma entrevista com Samir Amin</i>, Caderno n. 1, 29 out. 2018. Disponível em: <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/globalizacao-e-sua-alternativa/">https://dev.thetricontinental.org/globalisation-and-its-alternative/</a>.</p>
<p><a href="#_ednref8" name="_edn8"><sup>8</sup></a>Para mais informações sobre regionalismo, ver Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, <i>soberania, dignidade e regionalismo na Nova Ordem Internacional</i>, dossiê n. 62, 14 mar. 2023, <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-regionalismo-nova-ordem-internacional/">https://dev.thetricontinental.org/dossier-regionalism-new-international-order/</a>.</p>
<p><a href="#_ednref9" name="_edn9"><sup>9</sup></a>Para mais informações sobre a segunda maré rosa na América Latina, ver: Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. <i>O avanço do neofascismo e os desafios da esquerda na América Latina. </i>Dossiê n. 79, 13 ago. 2024. Disponível em: <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-neofascismo-americalatina/">https://dev.thetricontinental.org/dossier-neofascism-latin-america/</a>.</p>
<p><a href="#_ednref10" name="_edn10"><sup>10</sup></a>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, <i>Hiperimperialismo: Um Novo Estágio Decadente e Perigoso. </i>Dilemas Contemporâneos n. 4, 23 jan. 2024. Disponível em: <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/estudos-sobre-dilemas-contemporaneos-4-hiper-imperialismo/">https://dev.thetricontinental.org/studies-on-contemporary-dilemmas-4-hyper-imperialism/</a>; Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, <i>A Agitação da Ordem Global</i>. Dossiê n. 72, 23 jan. 2024. Disponível em: <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-agitacao-da-ordem-global/">https://dev.thetricontinental.org/dossier-72-a-agitação-da-ordem-global/</a>.</p>
<p><a href="#_ednref11" name="_edn11"><sup>11</sup></a>Para mais informações sobre medidas coercitivas unilaterais, ver Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. <i>Imperialist War and Feminist Resistance in the Global South.</i> Dossiê n. 86, 5 mar. 2025. Disponível em: <a href="about:blank">https://dev.thetricontinental.org/dossier-imperialism-feminist-resistance</a>.</p>
<p><a href="#_ednref12" name="_edn12"><sup>12</sup></a>Para mais informações sobre o papel dos intelectuais em ambos os lados da luta de classes, ver Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, <i>The New Intellectual</i>. Dossiê n. 12, 11 fev. 2019. Disponível em: <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/o-novo-intelectual/">https://dev.thetricontinental.org/the-new-intellectual/</a>.</p>
<p><a href="#_ednref13" name="_edn13"><sup>13</sup></a> Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. <i>Rumo a uma</i> <i>Nova Teoria do Desenvolvimento para o Sul Global</i>. Dossiê n. 84, 14 jan. 2025. Disponível em: <a href="https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-nova-teoria-marxista-desenvolvimento/">https://dev.thetricontinental.org/towards-a-new-development-theory-for-the-global-south/</a>.</p>
</div>
<h3 class="single-post--content--citations-title" style="margin:2em 0;">Referências</h3>
<div class="single-post--content--citations-block">
<p><span style="font-weight: 400;">ABDULGANI, Roeslan. </span><i><span style="font-weight: 400;">Bandung Spirit: Moving on the Tide of History</span></i><span style="font-weight: 400;">. Djakarta: Prapantja, 1964. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">ABDULGANI, Roeslan. </span><i><span style="font-weight: 400;">The Bandung Connection: The Asia-Africa Conference in Bandung in 1955</span></i><span style="font-weight: 400;">. Singapore: Gunung Aguna, 1981.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">ABEL, Elie. “Dulles Says US Pins Retaliation on Small A-Bomb”. </span><i><span style="font-weight: 400;">New York Times</span></i><span style="font-weight: 400;">, 16 mar. 1955. Disponível em: <a href="http://www.nytimes.com/1955/03/16/archives/dulles-says-us-pins-retaliation-on-small-abomb-lessthanmassive.html">www.nytimes.com/1955/03/16/archives/dulles-says-us-pins-retaliation-on-small-abomb-lessthanmassive.html</a>. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">AHMAD, Aijaz.</span><i><span style="font-weight: 400;">Theory: Classes, Nations, Literatures</span></i><span style="font-weight: 400;">. London: Verso, 1992.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">BALASSA, Bela. Trends in Developing Country Exports, 1963-88, Policy, Research, and External Affairs working papers n. WPS 634, World Bank World Development Report, 31 mar. 1991. Disponível em: <a href="http://documents.worldbank.org/curated/en/561401468766799448/Trends-in-developing-country-exports-1963-88">http://documents.worldbank.org/curated/en/561401468766799448/Trends-in-developing-country-exports-1963-88</a>.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">BURNS, Alan. </span><i><span style="font-weight: 400;">In Defence of Colonies</span></i><span style="font-weight: 400;">. London: George Allen and Unwin, 1957. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">COLVILLE, John. </span><i><span style="font-weight: 400;">The Fringes of Power: Downing Street Diaries, 1939-1955</span></i><span style="font-weight: 400;">. London: Hodder and Stoughton, 1985. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">DEPARTAMENTO DE ESTADO DOS EUA. “Memorandum of a Conversation Between the Counsellor of the Department of State (MacArthur) and the British Ambassador (Makins), Department of State, Washington, February 29, 1956”.  Conference Files: Lot 62 D 181, CF 656, Secret.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">FOSTER DULLES, John. “Policy for the Far East Washington”. US Government Publishing Office, 1958.</span></p>
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<p><span style="font-weight: 400;">GLENNON, John P.; SCHWAR, Harriet D.; SMITH, Louis J. (eds.), “Memorandum of a Conversation, Department of State, Washington, April 7, 1955”. In: Foreign Relations of the United States, 1955-1957, China, Volume II. Washington: United States Government Printing Office, 1986. </span></p>
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<p><span style="font-weight: 400;"> JONES, Matthew. “Targeting China: US Nuclear Planning the ‘Massive Retaliation’ in East Asia, 1953-1955”. </span><i><span style="font-weight: 400;">Journal of Cold War Studies 10</span></i><span style="font-weight: 400;">, n. 4 (Fall 2008).</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">KLINGAMAN, William; PATTERSON, David S.; STERN, Ilana (eds.), Foreign Relations of the United States, 1955-1957, National Security Policy, Volume XIX. Washington: United States Government Printing Office, 1990. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES DA REPÚBLICA DA INDONÉSIA. </span><i><span style="font-weight: 400;">Asia-Africa Speak from Bandung.</span></i><span style="font-weight: 400;"> Djakarta: Ministry of Foreign Affairs, Republic of Indonesia, 1955.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">MORENO, Pedro Manuel. 60 years of UNCTAD: Charting a New Development Course in a Changing World. </span><i><span style="font-weight: 400;">UN Trade and Development</span></i><span style="font-weight: 400;">, 14 maio 2024. Disponível em: <a href="https://unctad.org/osgstatement/60-years-unctad-charting-new-development-course-changing-world-session-1">https://unctad.org/osgstatement/60-years-unctad-charting-new-development-course-changing-world-session-1</a>. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">NICITA, Alessandro; RAZO, Carlos. “China: The Rise of a Trade Titan”. </span><i><span style="font-weight: 400;">UN Conference on Trade and Development</span></i><span style="font-weight: 400;">, 27 abr. 2021. Disponível em: <a href="https://unctad.org/news/china-rise-trade-titan">https://unctad.org/news/china-rise-trade-titan</a>.  </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">NIXON, Richard. “Asia After Viet Nam”. </span><i><span style="font-weight: 400;">Foreign Affairs</span></i><span style="font-weight: 400;">, 1 out. 1967. Disponível em: <a href="http://www.foreignaffairs.com/articles/united-states/1967-10-01/asia-after-viet-nam">www.foreignaffairs.com/articles/united-states/1967-10-01/asia-after-viet-nam</a>.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">NIXON, Richard. RN: </span><i><span style="font-weight: 400;">The Memoirs of Richard Nixon</span></i><span style="font-weight: 400;">. New York: Grosset and Dunlap, 1978. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">PRASHAD, Vijay. </span><i><span style="font-weight: 400;">The Darker Nations: A People’s History of the Third World</span></i><span style="font-weight: 400;">. New York: The New Press, 2007.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">PRASHAD, Vijay. </span><i><span style="font-weight: 400;">The Poorer Nations: A Possible History of the Global South</span></i><span style="font-weight: 400;"> New Delhi: LeftWord, 2013. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">RIST, Gilbert. </span><i><span style="font-weight: 400;">The History of Development:</span></i><span style="font-weight: 400;"> From Western Origins to Global Faith. London: Zed Books, 2008.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">SILVAS. B. D. </span><i><span style="font-weight: 400;">The Political Economy of Underdevelopment.</span></i><span style="font-weight: 400;"> London: Routledge, 1982.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">STONE, I. F. </span><i><span style="font-weight: 400;">The Hidden History of the Korean War, 1950-1951</span></i><span style="font-weight: 400;">. New York: Little Brown, 1969.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">SUKARNO, “Opening address given by Sukarno. Bandung, 18 April 1955”. </span><i><span style="font-weight: 400;">Asia-Africa Speak from Bandung.</span></i><span style="font-weight: 400;"> Djakarta: Ministry of Foreign Affairs, Republic of Indonesia, 1955). </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">THE STATE COUNCIL INFORMATION OFFICE, “China’s Trade with BRI Countries Booms in 2023”, </span><i><span style="font-weight: 400;">Press Release</span></i><span style="font-weight: 400;">, 12 jan. 2024, <a href="http://english.scio.gov.cn/m/pressroom/2024-01/12/content_116937407.htm#:~:text=China's%20trade%20with%20countries%20participating,2022%2C%20customs%20data%20showed%20Friday">http://english.scio.gov.cn/m/pressroom/2024-01/12/content_116937407.htm#:~:text=China’s%20trade%20with%20countries%20participating,2022%2C%20customs%20data%20showed%20Friday</a>.</span></p>
</div>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O legado do Lekra: organizando a cultura revolucionária na Indonésia</title>
		<link>https://dev.thetricontinental.org/pt-pt/dossie-35-lekra/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Tech Tricontinental]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Dec 2020 08:00:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Dossiê]]></category>
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					<description><![CDATA[Em 1955, os líderes das antigas colônias do Sul Global se encontraram em Bandung, Indonésia, reunidos por um espírito comum de libertação nacional e cooperação. Setenta anos depois, quais são os vestígios disso?]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_32188" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-32188" class="size-full wp-image-32188 img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/02_Pudjanadi-co%CC%81pia-6.jpg" alt="S. Pudjanadi, Kaum Tani Menuntut (‘Peasants Make Demands’), published in Harian Rakyat, 21 June 1964. The demands read, from top to bottom: UUPA (‘agrarian law 1960’), UUD 45 (‘Indonesian 1945 constitution’) and demokrasi (‘democracy’)." width="950" height="612" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/02_Pudjanadi-cópia-6.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/02_Pudjanadi-cópia-6-300x193.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/02_Pudjanadi-cópia-6-768x495.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-32188" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><strong><span style="color: #0e445c;">S. Pudjanadi, <i>Kaum Tani Menuntut </i>[Camponeses reividicam], publicado em <i>Harian Rakyat</i>, 21 jun. 1964. As reivindicações escritas são (de cima para baixo): <i>UUPA</i> [lei agrária 1960], <i>UUD 45 </i>[Constituição Indonásia de 1945] e <i>demokrasi </i>[democracia].</span></strong></small></p></div>
<p> </p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-32268 img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/10.png" alt="" width="950" height="189" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/10.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/10-300x60.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/10-768x153.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<p> </p>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #0e445c;"><strong>Literatura em defesa das vítimas, não do poder</strong></span></h2>
<p> </p>
<p style="text-align: center;"><strong><span style="color: #0e445c;">nós gritamos</span></strong><br>
<strong><span style="color: #0e445c;">por trás das paredes da segregação,</span></strong><br>
<strong><span style="color: #0e445c;">das garras da cama maldosa,</span></strong><br>
<strong><span style="color: #0e445c;">dos negócios noturnos nas sarjetas,</span></strong><br>
<strong><span style="color: #0e445c;">da vingança do matrimônio forçado:</span></strong><br>
<strong><span style="color: #0e445c;">“Nós somos seres humanos!”</span></strong></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #0e445c;">– “Women” [Mulheres], escrito por Sugiarti Siswadi, líder do Lekra e da organização de mulheres <em>Gerwani</em></span><a href="#_ftn1" name="_ftnref1"><em><span style="color: #0e445c;">[1]</span></em></a></p>
<p> </p>
<p>“O pior foi quando fui libertado. Essa foi a maior prisão que tive que enfrentar”.</p>
<p>Martin Aleida relembra o momento em que saiu da prisão no final de 1966. O então escritor de 22 anos foi libertado após quase um ano atrás das grades em Jacarta, capital da Indonésia, sem poder encontrar seus amigos e camaradas. Seu local de trabalho, <em>Harian Rakjat</em> [Diário Popular], o jornal oficial do Partido Comunista da Indonésia (PKI), já não existia. Seu partido e sua organização cultural, o Instituto para a Cultura do Povo (<em>Lembaga Kebudayaan Rakyat – </em>Lekra), haviam sido banidos e colocados na ilegalidade desde então.</p>
<p>O <em>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social</em> conversou com Martin, agora com 76 anos. Embora seja nativo de Sumatra do Norte, vive em Jacarta desde o início dos anos 1960, onde nos concedeu a entrevista de uma biblioteca local que frequenta todos os sábados.</p>
<p>“Há muitos acontecimentos e sentimentos pelos quais passei durante os últimos 50 anos que não saberia contar”, relata Martin sobre seu livro de memórias publicado recentemente, <em>Romantisme Tahun Kekerasan</em> [<em>Romance nos Anos de Violência</em>]. Martin, no entanto, não é seu verdadeiro nome. “Durante os 32 anos de regime militar sob o general Suharto, tive que usar um pseudônimo – Martin Aleida – para escrever, já que fui proibido pelas autoridades de exercer minha profissão. Tendo sido acusado arbitrariamente e sem provas de que estaria envolvido na tentativa de golpe fracassada do Movimento 30 de setembro, em 1965 [também conhecido como G30S], pelos militares, não pude voltar ao ofício de escritor. O mesmo ocorreu com milhares de professores, funcionários públicos e até titereiros que foram proibidos de voltar a exercer suas profissões, a menos que estivessem preparados para serem investigados repetidamente com a possibilidade de serem presos e, na pior das hipóteses, eliminados”. A palavra “eliminado” não é usada por acaso; durante o processo do golpe de 1965 liderado pelo major-general Suharto, mais de um milhão de comunistas e simpatizantes comunistas foram assassinados pelo governo golpista e seus aliados.</p>
<p>O Movimento 30 de setembro foi um grupo militar dissidente que realizou uma ação na madrugada de 1965, resultando no sequestro e morte de seis altos funcionários do governo. Embora os detalhes do dia continuem obscuros, o que se sabe é que a direita e o exército tornaram os comunistas o bode expiatório. Esse acontecimento serviu como um pretexto conveniente para a repressão genocida ao PKI que estava por vir. Sob a liderança do general Suharto, apoiado pelos EUA – talvez mais conhecido pela CIA do que pelo povo indonésio na época –, o Exército iniciou um massacre sistemático da esquerda; embaixadas dos Estados Unidos e da Austrália providenciaram listas de comunistas que foram então “eliminados”. O embaixador dos EUA, Marshall Green, escreveu que os Estados Unidos “deixaram claro” ao Exército que eram “em geral simpáticos e admiradores” de sua operação. O presidente Sukarno, que foi deposto em 1965, vinha se alinhando à esquerda após liderar o processo de libertação da Indonésia contra o imperialismo holandês em 1949. Em 1955, Sukarno convocou a Conferência Afro-Asiática, em Bandung, um evento-chave na construção do Projeto do Terceiro Mundo. Ele foi expurgado no golpe.</p>
<p> </p>
<div id="attachment_32198" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-32198" class="size-full wp-image-32198 img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/03_Djoko-Pekik-5.jpg" alt="Djoko Pekik, Tuan Tanah Kawin Muda (‘Old Landlord Marries a Youngster’), 1964." width="950" height="497" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/03_Djoko-Pekik-5.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/03_Djoko-Pekik-5-300x157.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/03_Djoko-Pekik-5-768x402.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-32198" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><strong><span style="color: #0e445c;">Djoko Pekik, <i>Tuan Tanah Kawin Muda </i>[<i>Velho senhorio se casa com jovem]</i>, 1964.</span></strong></small></p></div>
<p> </p>
<p>Em 1968, a analista da CIA Helen-Louise Hunter escreveu um relatório chamado <em>1965: O golpe que saiu pela culatra</em><a href="#_ftn2" name="_ftnref2">[2]</a>, no qual escreveu que “Em termos de número de mortos, os massacres anti-PKI na Indonésia são classificados como um dos piores extermínios em massa no século XX”. Entre os mortos estava o secretário-geral do Partido, D. N. Aidit; dois membros-chave do Comitê Central, M. H. Lukman e Lukman Njoto; e dois outros líderes do Partido, Sudisman e Ir Sakirman. Esses cinco principais líderes do PKI foram “eliminados” sem processo judicial. É importante notar que o Major General Suharto, que iria promover a si mesmo general e assumir o título de presidente, permaneceu impune em relação à violência e ao golpe até sua morte, em 2008. A ditadura de Suharto, conhecida como Nova Ordem, permaneceu no poder pelos próximos 32, até 1998, quando um amplo movimento pela democracia a derrubou. Os tentáculos do golpe anti-PKI ainda perduram na Indonésia, onde o marxismo e as organizações comunistas estão proibidas.</p>
<p>Diante de um dos massacres de comunistas mais sangrentos e silenciados da história, Martin aprofundou seu compromisso com a literatura que, como diz, “defende as vítimas, não o poder”. Sob o pseudônimo, escreveu romances e contos, ficção e não ficção, abordou o sofrimento do povo, os desaparecidos e as aspirações silenciadas de uma geração. Escreve em bahasa indonésio – uma das línguas reconhecidas na luta nacional em 1928 e que amadureceu por necessidade diante das lutas anticoloniais e antifeudais das décadas de 1930 e 1940.</p>
<p>Em um conto, a protagonista Dewangga está em seu leito de morte, revivendo memórias de um casamento inteiro com Abdullah, seu marido. Somente em seus momentos finais, após uma vida passada juntos em silêncio, eles finalmente encontram a coragem de revelar seu passado militante um ao outro – ele, um ativista preso em 1965; ela, uma militante e dirigente camponesa sem terra. Martin espera que suas memórias recentes possam reviver essas histórias tão comuns para a geração mais jovem, trazendo elementos sobre a vida antes de 1965 e os anos seguintes e as condições que levaram a essa ferida ainda aberta na história da Indonésia.</p>
<p> </p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-32278 img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/11.png" alt="" width="950" height="189" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/11.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/11-300x60.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/11-768x153.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #006556;"><strong>Somos os herdeiros legítimos da cultura mundial</strong></span></h2>
<p> </p>
<p style="text-align: center;"><strong><span style="color: #006556;">Nasceu</span></strong><br>
<strong><span style="color: #006556;">há trinta e cinco anos</span></strong><br>
<strong><span style="color: #006556;">das dores</span></strong><br>
<strong><span style="color: #006556;">da classe mais progressista</span></strong><br>
<strong><span style="color: #006556;">um filho de uma era</span></strong><br>
<strong><span style="color: #006556;">que dará origem a uma era</span></strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong><span style="color: #006556;">enfrentando tempestades</span></strong><br>
<strong><span style="color: #006556;">embalado pela brisa</span></strong><br>
<strong><span style="color: #006556;">ele penetrou no coração das pessoas</span></strong><br>
<strong><span style="color: #006556;">mais profundo que o mar de Banda</span></strong><br>
<strong><span style="color: #006556;">adornando a vida</span></strong><br>
<strong><span style="color: #006556;">mais bonita que a flor de chempaka</span></strong></p>
<p style="text-align: center;"><strong><span style="color: #006556;">ele vive da vida</span></strong><br>
<strong><span style="color: #006556;">resiste ao terror e à provocação</span></strong><br>
<strong><span style="color: #006556;">ontem, hoje, amanhã</span></strong><br>
<strong><span style="color: #006556;">é Anteaeus, filho de Poseidon</span></strong><br>
<strong><span style="color: #006556;">invencível enquanto permanecer fiel à terra</span></strong><br>
<strong><span style="color: #006556;">filho de uma era que dará à luz uma era</span></strong><br>
<strong><span style="color: #006556;">agora chegou à maioridade.</span></strong></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #006556;">– <em>Chegada de uma era,</em> por D.N. Aidit<a style="color: #006556;" href="#_ftn3" name="_ftnref3">[3]</a></span></p>
<p><a href="#_ftn3" name="_ftnref4"></a></p>
<p>Quando dizem que “o leste era vermelho”, é porque o leste era de fato vermelho. Em 1965, o PKI tinha 3,5 milhões de quadros, e 20 milhões de pessoas em suas organizações de massa, entre jovens, mulheres, camponeses/as e trabalhadores/as. Foi o terceiro maior partido comunista do mundo, depois da República Popular da China e da União Soviética. A frente cultural do PKI, Lekra, era uma de suas organizações de massa com mais de 200 mil membros, chegando a 1,5 milhão se contados os apoiadores. O Lekra era provavelmente a maior organização cultural não estatal que já existiu no mundo. Como ex-integrante do Lekra, Martin lembra que foi “atraído pelo ponto de vista da organização de que a literatura deveria tomar partido e defender a justiça da maioria oprimida – os trabalhadores, camponeses e pescadores. A literatura e a arte em geral estão predestinadas a defender os oprimidos”. Pouco se conhece sobre essa organização histórica; isso não é por acaso, mas se deu por meio do apagamento e destruição de seus trabalhos e pela desaparição física de seus integrantes.</p>
<p>Em agosto deste ano, o Lekra teria comemorado 70 anos de fundação – compartilhando a data de 17 de agosto com a independência da Indonésia, país que conquistou sua liberdade contra o imperialismo neste mesmo dia, em 1945, dia conhecido também como <em>Tujuhbelasan</em> [décimo sétimo]. Demorou mais quatro anos para os britânicos, holandeses e japoneses serem totalmente derrotados e para que a Mesa Redonda de 1949 fosse realizada em Haia; nessa conferência, os holandeses concordaram relutantemente em deixar a Indonésia, mas pressionaram por muitas concessões. Uma delas foi um acordo cultural que institucionalizou uma relação “especial” pró-holandesa nos campos do pensamento e da cultura. Para os artistas revolucionários, a Revolução de Agosto foi incompleta e eles se comprometeram a construir uma cultura nacional anti-imperialista e independente para inaugurar a revolução socialista. Em 1950,<em> Gelanggang</em>, um grupo de artistas associados à revista semanal <em>Siasat,</em> alinhada ao Partido Socialista da Indonésia, publicou seu “Testemunho de crenças”, um manifesto cultural para o jovem Estado-nação:</p>
<p style="padding-left: 40px;">Somos os herdeiros legítimos da cultura mundial e vamos perpetuar essa cultura à nossa maneira. Nascemos das fileiras de pessoas comuns e, para nós, o conceito de “povo” significa uma mistura confusa da qual nascem mundos novos e robustos. Nossa identidade indonésia não deriva apenas de nossa pele morena, nossos cabelos pretos ou nossas testas proeminentes, mas pela forma na qual se expressam nossos pensamentos e sentimentos […] Revolução para nós é estabelecer novos valores sobre os obsoletos que devem ser destruídos […] A nossa apreciação das condições ao nosso redor (sociedade) é a de pessoas que reconhecem a reciprocidade de influências entre a sociedade e o artista<a href="#_ftn4" name="_ftnref4">[4]</a>.</p>
<p>Concluir a Revolução de Agosto seria uma grande tarefa. Durante este período do início dos anos 1950, o movimento comunista ainda era fraco em termos de organização, sofrendo as derrotas da repressão anticomunista na Rebelião Madiun (1948) e ataques de Sukiman (1951), que resultaram em dezenas de milhares mortes e prisões de quadros e apoiadores do PKI. Quando D. N. Aidit foi eleito secretário-geral em 1951, o número de membros do Partido estava em um ponto baixo de apenas 8 mil membros. Foi sob sua liderança que o PKI cresceria exponencialmente para mais de 1 milhão de pessoas nos quatro anos seguintes, e para três milhões e meio na época de sua destruição, no golpe de 1965. O movimento comunista foi capaz de crescer a taxas surpreendentes, desenvolvendo suas frentes de massa e amplas alianças políticas. A adoção de uma estratégia de Frente Única Nacional permitiu ao Partido construir um programa comum com setores progressistas da sociedade unidos por uma política anti-imperialista. No centro desse processo estava a relação com setores da esquerda do partido no governo, o Partido Nacional Indonésio (PNI), sob a liderança de Sukarno. Embora um produto da revolução burguesa, Sukarno adotou, ao longo desse período, cada vez mais uma afiada postura pró-<em>rakyat</em> (ou “pró-povo”) e anti-imperialista. À medida que o PKI e suas frentes de massa cresciam, o movimento comunista se tornaria um pilar importante do PNI no poder.</p>
<p> </p>
<div id="attachment_32208" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-32208" class="size-full wp-image-32208 img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/04_S.-Nar-Peoples-iron-broom-from-the-Afro-Asian-Peoples-Anti-Imperialist-Caricature-Exhibition-1966-4.jpg" alt="S. Nar, People’s Iron Broom, from the Afro-Asian People’s Anti-Imperialist Caricature Exhibition, 1966." width="950" height="582" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/04_S.-Nar-Peoples-iron-broom-from-the-Afro-Asian-Peoples-Anti-Imperialist-Caricature-Exhibition-1966-4.jpg 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/04_S.-Nar-Peoples-iron-broom-from-the-Afro-Asian-Peoples-Anti-Imperialist-Caricature-Exhibition-1966-4-300x184.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/04_S.-Nar-Peoples-iron-broom-from-the-Afro-Asian-Peoples-Anti-Imperialist-Caricature-Exhibition-1966-4-768x471.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"><p id="caption-attachment-32208" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><strong><span style="color: #006556;">S. Nar, <i>People’s Iron Broom [Vassoura de ferro do povo]</i>, Exposição de Caricaturas Anti-imperialistas do Povo Afro-Asiático, 1966.</span></strong></small></p></div>
<p>Foi neste momento que floresceram muitas organizações culturais revolucionárias. O Lekra não era apenas a maior, mas também a alinhada mais à esquerda. Muitos de seus membros mais experientes eram quadros do PKI, incluindo dois dos membros fundadores do Lekra: Njoto, editor do <em>Harian Rakjat</em>, eleito para o comitê central de cinco membros do PKI, e D. N. Aidit. Lekra, no entanto, não era uma organização oficial do PKI, tampouco a linha política vinha diretamente do Partido. Em um exemplo, o jornalista sênior Amarzan Ismail Hamid estava editando uma seleção de poemas de Harian Rakyat quando o poema de D. N. Aidit apareceu diante dele. “Não é bom o suficiente”, Hamid disse a Njoto. “Tudo bem”, respondeu este último.</p>
<p>O objetivo do Lekra era contribuir para a construção de um movimento comunista robusto para além do Partido. O Lekra era a vanguarda do trabalho cultural comunista. Enquanto isso, os trabalhadores estavam organizados na <em>Sentral Organisasi Buruh Seluruh Indonesia – Sobsi</em> [Federação de Organizações de Trabalhadores da Indonésia], as mulheres organizadas no <em>Gerwani</em> [Movimento de Mulheres da Indonésia], os camponeses na<em> Barisan Tani Indonesia – BTI</em> [Frente de Camponeses da Indonésia] e os jovens na <em>Pemuda Rakyat</em> [Juventude do Povo]. Essas frentes de massa – todas legais e com vínculos abertos com o PKI – formaram o movimento comunista que liderou a luta nacional anti-imperialista. Sob a liderança de D. N. Aidit e Njoto, o trabalho de reconstrução do Partido e do movimento comunista exigiu uma abordagem sistemática da cultura, que combinasse consciência de classe, anti-imperialismo e nacionalismo cultural. No centro desse projeto está o povo, para quem e por quem a cultura é feita. Conforme resumido nas definições do Lekra em 1955, <em>Mukadimah</em> [Introdução], “o povo é o único criador da cultura”.</p>
<p>No primeiro Congresso Nacional do Lekra, em 1959, o secretário-geral Joebaar Ajoeb disse: “O Lekra foi fundado em 1950 devido à consciência da essência da Revolução de agosto de 1945 e da conexão entre a Revolução e a cultura, uma consciência de que a Revolução tem grande significado para a cultura e, ao mesmo tempo, a cultura tem grande significado para a Revolução de Agosto”<a href="#_ftn5" name="_ftnref5">[5]</a>. Uma das primeiras tarefas foi “reviver” a arte popular em face da opressão dupla do feudalismo interno e do imperialismo estrangeiro. Esse avivamento “não tinha um sentido negativo de simplesmente impedir que a arte popular morresse”, reflete Ajoeb, “mas sim revivê-la em um sentido positivo, dando-lhe especialmente um novo conteúdo que corresponda ao caráter e aos objetivos da Revolução de Agosto”<a href="#_ftn6" name="_ftnref6">[6]</a>.</p>
<p>As tarefas culturais eram ambiciosas e numerosas; variaram da sistematização da música popular e tradicional à identificação dos aspectos decadentes, feudais ou antirrevolucionários que persistiam, do desenvolvimento de um programa de educação político cultural ao incentivo à nova produção criativa, da redescoberta da “música popular” e seus instrumentos à organização de intercâmbios culturais internacionais. Ao longo de seus 15 anos de existência, o Lekra não apenas mobilizou milhões de pessoas, mas desenvolveu práticas culturais enraizadas nas condições materiais e concretas do povo. De sua organização, novas formas expressivas e novas teorias artísticas emergiram – eles estavam, em essência, escrevendo a história da arte na tradição marxista.</p>
<p> </p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-32288 img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/12.png" alt="" width="950" height="189" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/12.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/12-300x60.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/12-768x153.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #7e335c;"><strong>Construindo uma cultura enérgica</strong></span></h2>
<p> </p>
<p>O Lekra trabalhou por muitas regiões e escalas, por meio de suas próprias estruturas, organizações afiliadas e frentes culturais regionais. O abrangente estudo<a href="#_ftn7" name="_ftnref7">[7]</a> de Stephen Miller sobre a organização e as páginas do <em>Kebudayaan</em>, o suplemento cultural do jornal <em>Harian Rakyat</em>, revelam pistas sobre como o Lekra se organizou. A secretaria nacional era um órgão centralizado, com divisões baseadas em setores artísticos. Durante o primeiro congresso nacional, o Lekra foi formalmente dividido em sete institutos: literatura, artes plásticas, cinema, teatro, música, dança e ciência.</p>
<p>Abaixo da instância nacional estavam as organizações regionais, e depois as afiliadas locais. Foram formadas 21 afiliadas em seu primeiro ano de existência, principalmente em Java, mas também em Sumatra, Sulawesi, Bali e Kalimantan. As afiliadas proeminentes estavam sediadas na capital nacional de Jacarta e no baluarte do PKI em Yogyakarta, ao longo de Medan, Sumatra, que cresceu a partir da extensa economia de <em>plantation </em>e das lutas pela terra na área. Cada afiliada tinha suas próprias características, trazendo as culturas e tradições de cada região. Durante sua primeira década, o Lekra se expandiu para 200 afiliadas locais, chegando a 100 mil membros em 1963, apenas dois anos antes de a organização ser destruída pelo golpe brutal. Desde então, está na ilegalidade. O Lekra não viveria para ver seu segundo congresso nacional, previsto para ocorrer em dezembro daquele ano sangrento.</p>
<p> </p>
<div id="attachment_35381" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-35381" class="size-full wp-image-35381 img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/12/Mereka-Yang-Terusir-Dari-Tanahnya.jpg" alt="Amrus Natalsya, Mereka Yang Terusir Dari Tanahnya (‘Those Chased Away from Their Land’), 1960, oil on canvas, 80 x 187 cm, Collection of National Gallery Singapore." width="1200" height="502" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/12/Mereka-Yang-Terusir-Dari-Tanahnya.jpg 1200w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/12/Mereka-Yang-Terusir-Dari-Tanahnya-300x126.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/12/Mereka-Yang-Terusir-Dari-Tanahnya-1024x428.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/12/Mereka-Yang-Terusir-Dari-Tanahnya-768x321.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px"><p id="caption-attachment-35381" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #403b99;">Amrus Natalsya, <i>Mereka Yang Terusir Dari Tanahnya </i>[Aqueles expulsos de suas terras], 1960, óleo sobre tela, 80 x 187 cm, Coleção da Galeria Nacional de Singapura.</span></small></p></div>
<p>Além de aumentar a quantidade de membros, um dos sucessos do Lekra na década de 1950 – e pelo qual se tornou perigoso para as ambições imperialistas e capitalistas – foi se engajar na “ecologia cultural” mais ampla, dentro e em torno do movimento comunista, conforme descrito por Miller. Frentes culturais em toda a cidade foram criadas em várias regiões como parte da Frente Unida Nacional, sendo a <em>Masyarakat Seniman Jakarta Raya</em> (MSDR) [Sociedade de Artistas da Grande Jacarta] a mais significativa. Trabalhando com o governo da capital do país, um dos principais projetos era organizar um entretenimento popular que estimulasse o desenvolvimento “saudável” da sociedade indonésia, tanto para jovens como para idosos. A frente cultural estudou intimamente as formas vivas de arte popular e os resquícios da cultura colonial holandesa e o conteúdo imperialista estadunidense ainda difundido que essas formas continham. Eles também estudaram o potencial revolucionário da cultura popular existente, como apresentações de rua <em>tanjidor</em> [enérgicas] na luta pela libertação nacional. Liderar um processo cultural com o governo de Jacarta ajudou a levar o Lekra da marginalidade a uma força nacional robusta em meados da década de 1950.</p>
<p> </p>
<h2 style="margin:3em 0;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-32298 img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/13.png" alt="" width="950" height="189" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/13.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/13-300x60.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/13-768x153.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></h2>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #3f3573;"><strong>Realismo socialista é aquele que dá esperança e direção </strong></span></h2>
<p> </p>
<p style="text-align: center;"><strong><span style="color: #3f3573;">não diga que a noite é tão dura quanto granito</span></strong><br>
<strong><span style="color: #3f3573;">já que aqui na China nem uma pedra é deixada sem ser trabalhada pelo povo</span></strong><br>
<strong><span style="color: #3f3573;">aqui a natureza é como o mármore</span></strong><br>
<strong><span style="color: #3f3573;">Tudo é polido e esculpido pelas mãos dos trabalhadores</span></strong><br>
<strong><span style="color: #3f3573;">que constroem a cultura</span></strong><br>
<span style="color: #3f3573;">– Rivai Apin, <em>Peking</em><a style="color: #3f3573;" href="#_ftn8" name="_ftnref8"><em>[8]</em></a>, 1961</span><br>
<span style="color: #3f3573;"><a style="color: #3f3573;" href="#_ftn8" name="_ftnref9"></a></span></p>
<p> </p>
<p>Enquanto o movimento comunista se recuperava – e começava rapidamente a ganhar velocidades impressionantes –, também buscava as formas apropriadas de expressar as aspirações de uma jovem nação. Seria incorreto tentar enquadrar a experiência indonésia nos moldes da União Soviética ou da China. O “realismo socialista” era o estilo estético oficial da URSS dos anos 1930 e de grande parte do movimento comunista internacional. Mas o realismo socialista soviético de 1930 não pode ser transposto em todas as tradições estéticas de esquerda, e os membros do Lekra mergulharam na cultura indonésia para criar sua própria estética.</p>
<p>As interpretações do Lekra sobre sua ideologia estética foram diversas, como destaca o acadêmico literário Michael Bodden em seu estudo das produções teatrais da organização<a href="#_ftn9" name="_ftnref9">[9]</a>. Embora as diretrizes das cinco combinações de Lekra para trabalhadores culturais enfatizassem a unidade do “realismo socialista e romantismo revolucionário”, ainda há debates sobre se o realismo socialista foi oficialmente adotado pela organização. Na Conferência Nacional de Arte e Literatura Revolucionária de 1964, D. N. Aidit argumentou que o realismo socialista era impróprio para o momento histórico indonésio, uma vez que ainda não havia passado por um processo revolucionário socialista, optando pelo termo “realismo revolucionário”. Enquanto isso, um dos grandes romancistas da Indonésia, Pramoedya Ananta Toer – perseguido e preso por 13 anos na Ilha de Buru por ser comunista – às vezes se referia a um “romantismo patriótico”, combinando a realidade cotidiana com os aspectos mais heroicos da luta para construir o socialismo.</p>
<p>Tanto a teoria quanto a expressão artística do realismo socialista estavam em processo de formação. O movimento comunista permaneceu aberto a uma ampla gama de estilos e formas; foi pró-<em>rakyat</em> e levou adiante o espírito da Revolução de agosto de 1945. A arte abstrata nunca foi proibida, e Lekra defendeu uma diversidade de estilos, conforme declarado no <em>Mukaddimah</em> [Introdução] do Lekra de 1959: “o Lekra estimula iniciativas criativas, estimula a bravura criativa e o Lekra aprova todos os tipos de formas e estilos, desde que fiel à verdade e que se esforce para criar a mais alta beleza artística”<a href="#_ftn10" name="_ftnref10">[10]</a>.</p>
<p> </p>
<div id="attachment_32228" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-32228" class="size-full wp-image-32228 img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/06_Viva-Cuba-collection-of-Lekra-poetry-in-homage-to-the-Cuban-Revolution-1963-3.jpg" alt="Cover of Viva Cuba, a collection of poetry, including by Lekra members, in homage to the Cuban Revolution, 1963. " width="577" height="950" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/06_Viva-Cuba-collection-of-Lekra-poetry-in-homage-to-the-Cuban-Revolution-1963-3.jpg 577w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/06_Viva-Cuba-collection-of-Lekra-poetry-in-homage-to-the-Cuban-Revolution-1963-3-182x300.jpg 182w" sizes="auto, (max-width: 577px) 100vw, 577px"><p id="caption-attachment-32228" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><strong><span style="color: #3f3573;">Capa de <i>Viva Cuba, </i>uma coleção de poesias, incluindo algumas por membros do Lekra, em homenagem à Revolução Cubana, 1963. </span></strong></small></p></div>
<p> </p>
<p>Essa negociação dinâmica entre teoria e prática se estendeu a vários campos artísticos. Na área da literatura, por exemplo, Joebaar Ajoeb definiu o realismo socialista através da análise da obra do escritor soviético Maxim Gorky como não apenas “simplesmente realista”, mas também aquela que “dá esperança e direção”. “A literatura será mais importante e útil se não apenas criticar realidades”, observou Ajoeb, “mas mostrar uma saída”.<a href="#_ftn11" name="_ftnref11">[11]</a> Dar esperança e direção – em vez de prescrever um estilo – é como os artistas socialistas se tornam agentes na luta revolucionária.</p>
<p>A ideologia estética do Lekra encontrou sua práxis nas noites culturais, onde artistas, militantes e pessoas comuns se encontravam. Liderados pelo Lekra e muitas vezes hospedados por suas líderes femininas, esses eventos foram organizados em momentos oficiais do movimento, como comemorações de momentos significativos e celebrações internacionalistas. Com uma mistura de música, dança e teatro, essas noites culturais eram locais para praticar, testar, avaliar e transformar teorias abstratas em seres concretos. Foi na dança, como observa Miller, que o movimento comunista fez incursões ao infundir conteúdo político com as tradições folclóricas existentes. Com nomes como <em>A dança da juventude consciente</em>, <em>Dança da revolução</em> e <em>A dança do camponês</em>, essas peças e performances foram produtos de debate e inovação. Alguns desses ricos desenvolvimentos foram documentados e sistematizados nas páginas de <em>Kebudayaan</em>: qual era a importância de “imbuir a dança com a nova política progressista da Indonésia?” Como era a “acessibilidade às danças”, para que os trabalhadores e camponeses participassem? Qual é a relação entre “formas e conteúdo com a vida dos indonésios comuns”.<a href="#_ftn12" name="_ftnref12">[12]</a></p>
<p>Encenadas na arena pública, essas noites culturais eram parte do objetivo do <em>meluas dan meninggi</em> – ampliar a base de forma simultânea à elevação dos padrões artísticos. As complicadas questões sendo confrontadas giram em torno de até que ponto as artes tradicionais podem – e devem – ser levadas adiante, modificadas ou descartadas. O sucesso desses eventos foi que eles puderam atender às necessidades do povo – uma noite cultural de comício eleitoral do PKI em 1955, em Surakarta, atraiu 1 milhão de pessoas. Pessoas comuns participaram ativamente da cultura aos milhões, tanto na expressão de suas aspirações coletivas quanto engajando-se nos processos de criação.</p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-32308 img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/14.png" alt="" width="950" height="189" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/14.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/14-300x60.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/14-768x153.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #d58500;"><strong>Captar a batida do coração dos “debaixo”</strong></span></h2>
<p> </p>
<p>Um dos princípios-chave do Lekra era <em>Turun ke bawah ou turba</em><a href="#_ftn13" name="_ftnref13"><em>[13]</em></a> (“descer de cima”), que foi concretizado no primeiro Congresso Nacional como uma teoria para orientar o trabalho do artista militante. “Significa, literalmente, ir para a base – trabalhar, comer, viver com trabalhadores, camponeses sem terra e pescadores”, explica Martin. De acordo com as “três formas” – trabalhar, comer e dormir da mesma forma –, essa metodologia “foi uma maneira de intensificar a imaginação e inspiração, aguçar os sentimentos sobre o quão difícil é a vida do povo”.</p>
<p>Hersri Setiawan foi outro membro do Lekra e representante da Indonésia na Associação de Escritores Afro-Asiáticos na década de 1960. Ele foi preso na Ilha de Buru por muitos anos por seu trabalho na organização. No documentário <em>Tjidurian 19</em> (2009) – que leva o nome do endereço da sede do Lekra em Jacarta, invadida durante a repressão – ele se lembra de passar dias capinando e noites discutindo contos folclóricos enquanto tecia com os camponeses. Para ele, o objetivo de um artista era “captar a batida do coração dos ‘debaixo’”.<a href="#_ftn14" name="_ftnref14">[14]</a></p>
<p>No estudo de Keith Foulcher sobre a literatura e as artes dramáticas do Lekra, Kusni Sulang (usando seu pseudônimo Helmi) relembra sem romantismo sua experiência de <em>turba</em> como as “sensações físicas imediatas de aprender a viver humildemente em condições desconfortáveis e até desagradáveis para o intelectual urbanizado, bem como o tempo que levou para aprender a falar não a terminologia de sua formação, mas na língua viva do povo”. Foulcher acrescenta: “a política cultural de Lekra estava sendo testada, questionada e fortalecida no processo de luta revolucionária”.<a href="#_ftn15" name="_ftnref15">[15]</a></p>
<p><sup><a href="#_ftn15" name="_ftnref16"></a></sup></p>
<div id="attachment_32349" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-32349" class="size-full wp-image-32349 img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/07_Pudjanadi.jpg" alt="S. Pudjanadi, Tanah untuk Penggarap (‘Land for Tenants’) in Harian Rakyat, 25 October 1964." width="1523" height="1232" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/07_Pudjanadi.jpg 1523w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/07_Pudjanadi-300x243.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/07_Pudjanadi-1024x828.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/07_Pudjanadi-768x621.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 1523px) 100vw, 1523px"><p id="caption-attachment-32349" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><strong><span style="color: #d58500;">S. Pudjanadi, <i>Tanah untuk Penggarap </i>[Terra para rendeiros] em <i>Harian Rakyat</i>, 25 out. 1964.</span></strong></small></p></div>
<p> </p>
<p>Dramas “realistas revolucionários” foram desenvolvidos de acordo com as necessidades conjunturais da época, muitas vezes assumindo temas como as campanhas de reforma agrária do PKI, lideradas pela frente de camponeses do BTI. A peça <em>Api di pematang</em> [Fogo nos arrozais, 1964] de Kusni Sulang foi escrita após seu intenso trabalho com <em>turba</em>. Depois de receber retornos e críticas de líderes partidários regionais e locais, atores camponeses foram recrutados e dois ensaios foram realizados, incluindo um com 600 camponeses na plateia. Através desse processo elaborado, as preocupações dos camponeses foram elevadas a uma produção criativa e trazidas de volta aos camponeses para representação e avaliação. O processo foi definido por uma negociação contínua entre as visões do Partido e as realidades da vida camponesa. As contribuições do pensamento marxista nas práticas e princípios artísticos do Lekra são claras. “A arte é uma ferramenta científica para compreender a realidade objetiva da divisão de classes na sociedade”, escreve a acadêmica indonésia Brigitta Isabella; “a arte pode capturar as emoções das pessoas e produzir o espírito revolucionário necessário para alcançar um futuro socialista”<a href="#_ftn16" name="_ftnref16">[16]</a>.</p>
<p>Martin falou sobre Amrus Natalsya, um proeminente escultor do Lekra cujo trabalho foi admirado pelo presidente Sukarno e exposto na conferência de exposição de arte de Bandung. Amrus viveu entre os camponeses javaneses centrais e criou uma de suas esculturas de madeira mais famosas após uma disputa de terras que resultou na morte de 11 camponeses sem terra. O trabalho era um registro de um acontecimento, uma análise da luta de classes e uma personificação do princípio do Lekra <em>kreativitas individual dan kearifan massa</em> [criatividade individual e a sabedoria das massas]. Amrus, de 86 anos, realizou sua última exposição individual em Jacarta no ano passado, intitulada <em>Terakhir, selamat tinggal dan terima kasih</em> [O último, adeus e obrigado].</p>
<p> </p>
<p> </p>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-32318 img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/15.png" alt="" width="950" height="189" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/15.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/15-300x60.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/15-768x153.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<h2 style="margin:3em 0;"><span style="color: #b31f1f;"><strong>O espírito vive, se estiver certo</strong></span></h2>
<p> </p>
<p style="text-align: center;"><strong><span style="color: #b31f1f;">O pequeno barco navega indo e voltando</span></strong><br>
<strong><span style="color: #b31f1f;">E chega em Surabaya</span></strong><br>
<strong><span style="color: #b31f1f;">Em Cuba eles evitaram o ataque</span></strong><br>
<strong><span style="color: #b31f1f;">América Latina unida à Afro-Ásia.</span></strong></p>
<p style="text-align: center;"><span style="color: #b31f1f;">– um <em>pantun</em> (uma forma popular de poesia oral documentada no <em>Harian Rakyat</em>) de autoria desconhecida<em>.</em><a style="color: #b31f1f;" href="#_ftn17" name="_ftnref17"><em>[17]</em></a></span></p>
<p> </p>
<p>A construção do projeto cultural nacional na Indonésia sempre esteve intimamente ligada a uma visão internacionalista. O intercâmbio cultural com os países socialistas começou nos primeiros dias do Lekra, quando uma delegação oficial do PKI participou do Festival Internacional da Juventude na República Democrática Alemã. Ao mesmo tempo que o Projeto do Terceiro Mundo estava nascendo em Bandung, na Conferência Asiático-Africana de 1955, tendo Sukarno como um de seus grandes proponentes, também nascia o espírito de uma cultura internacionalista. Sem a mediação das potências coloniais, os líderes de 29 Estados recém-independentes ou que em breve se tornariam independentes, na África e na Ásia, reuniram-se, representando metade da população mundial<a href="#_ftn18" name="_ftnref18">[18]</a>. Marcando esse momento histórico, houve a primeira exposição coletiva internacional de artistas indonésios, incluindo pinturas contemporâneas e tradicionais. Essa diversidade de estilos marcou o pluralismo dos não alinhados, com uma cultura anti-imperialista como fio condutor. Em seu discurso de abertura na conferência histórica, Sukarno falou sobre a persistente “linha da vida do imperialismo”, que forma a base da unidade afro-asiática. “Ninguém pode sentir-se livre se parte de sua pátria não estiver livre. Como a paz, a liberdade é indivisível”, afirma Sukarno. “Não existe meio livre, assim como não existe meio vivo”<a href="#_ftn19" name="_ftnref19">[19]</a>.</p>
<p>O internacionalismo foi institucionalizado após a Conferência de Bandung, com a criação da Associação de Escritores Afro-Asiáticos e as suas conferências que aconteceram em Tashkent (1958), Cairo (1962), Beirute (1967), Nova Delhi (1970), Alma Ata (1973), Luanda (1979), Tashkent (1983) e Tunis (1988), como explora Isabella Brigitta em seu trabalho sobre a diplomacia cultural indonésia da época<a href="#_ftn20" name="_ftnref20">[20]</a>. Sociedades diplomáticas de amizade com a Indonésia foram estabelecidas da China à Tchecoslováquia. Intercâmbios de estudos e exposições foram organizados com países socialistas e não socialistas. Como Foucher argumenta, “a batalha não foi apenas pelo controle das artes, mas pela natureza do Estado indonésio e suas relações com o mundo exterior”.</p>
<p>Nenhuma cultura nacional pode ser desenvolvida isoladamente, e a curiosidade do Lekra e do movimento comunista pela cultura mundial era aparente. Na introdução de <em>Poesia Progressiva Contemporânea da Indonésia </em>(1962), a líder do PKI e do <em>Gerwani,</em> Bitang Suradi, escreve que “os poetas indonésios progressistas são cidadãos conscientes, dedicando suas habilidades criativas e talentos para construir uma vida feliz, não apenas para seu próprio povo, mas para todos os povos do mundo, para construir o mundo melhor, sobre o qual os melhores poetas do mundo têm cantado e sonhado ao longo dos tempos”<a href="#_ftn21" name="_ftnref21">[21]</a>. Nas páginas da coleção de poesia estão poemas dedicados ao revolucionário congolês Patrice Lumumba e ao “Tio” Ho Chi Minh, do Vietnã, homenagens ao povo cubano e árabe e saudações ao brasileiro Mário de Andrade aos países afro-asiáticos na Conferência de Bandung. Esses poemas buscaram inspiração no exterior e incorporaram o legado internacionalista do “espírito Bandung”.</p>
<p>Anos antes de Sukarno ser deposto, ele estava se aproximando da ala esquerda do Movimento dos Não Alinhados, uma das plataformas internacionais que originou a Conferência de Bandung, do qual Cuba e Indonésia faziam parte. Em 1959, Sukarno convocou os artistas a se posicionarem nas primeiras fileiras anticoloniais e anti-imperialistas. Ele sabia que desenvolver uma cultura nacional robusta era uma tarefa anti-imperialista. “Devemos ser mais vigilantes, mais tenazes e mais perseverantes na oposição à cultura imperialista, especialmente à cultura dos EUA que, na realidade, continua a nos ameaçar de todas as formas e maneiras”. Este foi também o ano da Revolução Cubana. Tanto Indonésia quanto Cuba se uniram contra o imperialismo e organizaram conjuntamente a Conferência Tricontinental que aconteceria em Havana em 1966 – a mesma conferência que homenageamos no próprio nome do <em>Instituto</em> <em>Tricontinental de Pesquisa Social.</em> Nem a presidência do PKI, Lekra ou Sukarno viveriam para ver essa conferência.</p>
<p>Mas a história nos dá as armas. “É muito importante transmitir para a geração mais jovem o passado recente e a história do país”, insiste Martin. Durante o Tribunal Popular Internacional de 2015 sobre os eventos de 1965, Martin testemunhou sobre os crimes contra a humanidade que presenciou. Quando questionado sobre sua filiação ao PKI – um Partido que continua ilegal –, ele respondeu, com grande risco para si mesmo, que nunca se arrependeu de ter ingressado no Partido aos 20 anos. “Eu sou um ser humano; tenho orgulho de ter ideais, mesmo que todos condenem aquilo pelo qual aspiro”<a href="#_ftn22" name="_ftnref22">[22]</a>.</p>
<p>Em 1966, a Associação de Escritores Afro-Asiáticos [Afro-Asian Writers’ Association] organizou a Exposição de Caricatura Anti-imperialista, em Pequim, que recebeu 180 obras de 24 países dos continentes asiático e africano. Seguindo esta tradição, o <em>Instituto Tricontinental de Pesquisa Social</em> e a <a href="https://antiimperialistweek.org/en/posters/">Semana Internacional de Luta Anti-imperialista</a> organizaram as <a href="https://antiimperialistweek.org/en/posters/">Exposições de Cartazes Anti-imperialistas</a>, com quatro edições, como parte de uma plataforma internacional de centenas de movimentos e organizações populares, pois as lutas contra o imperialismo seguem como nosso elo comum. Mais de 145 artistas de 35 países contribuíram com seus trabalhos para nossos três primeiros ciclos temáticos, <em>Capitalismo</em>, <em>Neoliberalismo</em> e <em>Imperialismo</em>. A quarta e última exibição, com o tema <em>Guerra Híbrida</em>, encerrará o ano de 2020.</p>
<p>“Organizações formais podem desaparecer; as organizações do partido podem ser abolidas”, nos lembra o poeta Lekra Putu Oka Sukanta, “mas o espírito vive, se estiver correto”. Convidamos você a contribuir com sua arte para a nossa exposição para que possamos – no espírito de Lekra em seu 70º aniversário – combinar a criatividade individual com a sabedoria das massas, que fornecem, com suas lutas por emancipação, a esperança e a direção.</p>
<p> </p>
<div id="attachment_32238" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-32238" class="size-full wp-image-32238 img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/08_Anti-imperialist-posters-7.jpg" alt="Posters from the Anti-Imperialist Poster Exhibition series" width="674" height="950" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/08_Anti-imperialist-posters-7.jpg 674w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/08_Anti-imperialist-posters-7-213x300.jpg 213w" sizes="auto, (max-width: 674px) 100vw, 674px"><p id="caption-attachment-32238" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #b31f1f;"><b>Breve seleção das quatro Exposições de Cartazes Anti-Imperialistas.</b><br>Pedro Sartorio, Bendik Vestre, Emily Davidson, Ahmad Mofeed, Choo Chon Kai, Greta Acosta Reyes, Ghalmi Othmane, Edson João Gomes Garcia, Fabiola Sánchez Quiroz, Robert Streader, Madhuri Shukla, Rebel Politik, Ramchandran Viswanathan, Hiroto Morais, Sinead L. Uhle &amp; Paul Meyer e Judy Ann Seidman.</span></small></p></div>
<p> </p>
<h3 style="margin:2em 0;"><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-32328 img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/16.png" alt="" width="950" height="189" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/16.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/16-300x60.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/16-768x153.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></h3>
<div class="page" title="Page 32">
<div class="section">
<div class="layoutArea">
<div class="column">
<h3 style="margin:2em 0;"><strong><span style="color: #b31f1f;">NOTAS</span></strong></h3>
</div>
</div>
</div>
</div>
<p><span style="color: #b31f1f;"><a style="color: #b31f1f;" href="#_ftnref1" name="_ftn1">[1]</a></span> Suradi, Bitang, Ed. <em>Contemporary Progressive Indonesian Poets</em>, League of People’s Culture, 1962.</p>
<p><span style="color: #b31f1f;"><a style="color: #b31f1f;" href="#_ftnref2" name="_ftn2">[2]</a> </span>CIA, <em>Research Study: Indonesia, 1965: The Coup That Backfired</em>. Disponível em: <a href="https://www.cia.gov/library/readingroom/docs/esau-40.pdf">https://www.cia.gov/library/readingroom/docs/esau-40.pdf</a>. Acesso em: 16 nov. 2020.</p>
<p><span style="color: #b31f1f;"><a style="color: #b31f1f;" href="#_ftnref3" name="_ftn3">[3]</a></span>Suradi, Bitang, Ed. <em>Contemporary Progressive Indonesian Poets</em>, League of People’s Culture, 1962.</p>
<p><span style="color: #b31f1f;"><a style="color: #b31f1f;" href="#_ftnref4" name="_ftn4">[4]</a> </span>Traduzido da versão em inglês, feita por Goenawan Mohamad, ‘Forgetting; Poetry and the nation, a motif in Indonesian literary modernism after 1945’, 2002.</p>
<p><span style="color: #b31f1f;"><a style="color: #b31f1f;" href="#_ftnref5" name="_ftn5">[5]</a> </span>Yuliantri, Rhoma Dwi Aria. LEKRA and Ensembles Tracing the Indonesian Musical Stage<em> in Heirs to World Culture</em>. Brill, 2012, p. 421-452.</p>
<p><a href="#_ftnref6" name="_ftn6"><span style="color: #b31f1f;">[6]</span></a> Ibid.</p>
<p><span style="color: #b31f1f;"><a style="color: #b31f1f;" href="#_ftnref7" name="_ftn7">[7]</a> </span>Miller, Stephen. <em>The Communist Imagination: A Study of the Cultural Pages of Harian Rakjat in the Early 1950s</em>, UNSW Canberra, 2015.</p>
<p><a href="#_ftnref8" name="_ftn8"><span style="color: #b31f1f;">[8]</span></a>Escrito depois de uma visita à China, ao final da reunião de escritores Afro-Asiáticos em Tóquio em 1961. Apin era parte da delegação indonésia para as conferências de escritores Afro-Asiáticos em Tashkent (1959) e Cairo (1962). Encontrado em Suradi, Bitang, Ed. <em>Contemporary Progressive Indonesian Poets</em>, League of People’s Culture, 1962.</p>
<p><span style="color: #b31f1f;"><a style="color: #b31f1f;" href="#_ftnref9" name="_ftn9">[9]</a> </span>Bodden, Michael. Dynamics and tensions of LEKRA’s modern national theatre, 1959-1965, <em>in</em>: <em>Heirs to World Culture</em>. Brill: 2012, 453-484.</p>
<p><span style="color: #b31f1f;"><a style="color: #b31f1f;" href="#_ftnref10" name="_ftn10">[10]</a></span> Tradução citada <em>in:</em> Brigitta, Isabella. The Politics of Friendship: Modern Art in Indonesia’s Cultural Diplomacy, 1950-1965, <em>in</em>: <em>Ambitious Alignments: New Histories of Southeast Asian Art, 1945-</em>1990. Power Publications, 2018: 83-106.</p>
<p><span style="color: #b31f1f;"><a style="color: #b31f1f;" href="#_ftnref11" name="_ftn11">[11]</a> </span>Miller, Stephen. <em>The Communist Imagination: A Study of the Cultural Pages of Harian Rakjat in the Early 1950s</em>, UNSW Canberra, 2015.</p>
<p><span style="color: #b31f1f;"><a style="color: #b31f1f;" href="#_ftnref12" name="_ftn12">[12]</a> </span><em>Ibid.</em></p>
<p><a href="#_ftnref13" name="_ftn13"><span style="color: #b31f1f;">[13]</span></a> Há diferentes traduções (para o inglês) para <em>turun ke bawah</em>: “descend from above” [descer de cima] na tradução de Antariksa, Sari D., Sol Aréchiga, Edwina Brennan para a School of Improper Education, KUNCI Cultural Studies Center, 2018, e “going down to the masses” [descer para as massas], por Michael Bodden.</p>
<p><span style="color: #b31f1f;"><a style="color: #b31f1f;" href="#_ftnref14" name="_ftn14">[14]</a> </span>Susatyo, Lasja F.; M. Abduh Aziz, <em>Tjidurian 19 </em>(41 min.), 2009.</p>
<p><span style="color: #b31f1f;"><a style="color: #b31f1f;" href="#_ftnref15" name="_ftn15">[15]</a></span> Foulcher, Keith. Politics and Literature in Independent Indonesia: The View from the Left, <em>in:</em> <em>Southeast Asian Journal of Social Science</em>, v. 15, n. 1, p. 83-103.</p>
<p><span style="color: #b31f1f;"><a style="color: #b31f1f;" href="#_ftnref16" name="_ftn16">[16]</a> </span>Brigitta, Isabella. The Politics of Friendship: Modern Art in Indonesia’s Cultural Diplomacy, 1950-1965, <em>in:</em> <em>Ambitious Alignments: New Histories of Southeast Asian Art, 1945-</em>1990. Power Publications, 2018, p. 83-106.</p>
<p><span style="color: #b31f1f;"><a style="color: #b31f1f;" href="#_ftnref17" name="_ftn17">[17]</a> </span>Suradi, Bitang, Ed. <em>Contemporary Progressive Indonesian Poets</em>, League of People’s Culture, 1962.</p>
<p><span style="color: #b31f1f;"><a style="color: #b31f1f;" href="#_ftnref18" name="_ftn18">[18]</a> </span>Prashad, Vijay. <em>The Darker Nations: A People’s History of the Third World</em>, LeftWord Books, 2008.</p>
<p><span style="color: #b31f1f;"><a style="color: #b31f1f;" href="#_ftnref19" name="_ftn19">[19]</a></span> Discurso de abertura de Sukarno na Conferência de Bandung em 18 de abril de 1955.</p>
<p><a href="#_ftnref20" name="_ftn20"><span style="color: #b31f1f;">[20]</span></a> Brigitta, Isabella. The Politics of Friendship: Modern Art in Indonesia’s Cultural Diplomacy, 1950-1965, <em>in:</em> <em>Ambitious Alignments: New Histories of Southeast Asian Art, 1945-</em>1990. Power Publications, 2018, p. 83-106.</p>
<p><span style="color: #b31f1f;"><a style="color: #b31f1f;" href="#_ftnref21" name="_ftn21">[21]</a> </span>Suradi, Bitang, Ed. <em>Contemporary Progressive Indonesian Poets</em>, League of People’s Culture, 1962.</p>
<p><span style="color: #b31f1f;"><a style="color: #b31f1f;" href="#_ftnref22" name="_ftn22">[22]</a></span> Testemunho de Martin Aleida no Tribunal Internacional Popular em Haia, em 11 nov. 2015. Disponível em: <a href="https://genosidapolitik65.blogspot.com/2017/11/ipt-1965-kesaksian-martin-aleida-saya.html">https://genosidapolitik65.blogspot.com/2017/11/ipt-1965-kesaksian-martin-aleida-saya.html</a>. Acesso em: 16 nov. 2020.</p>
<div id="attachment_35370" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" aria-describedby="caption-attachment-35370" class="size-full wp-image-35370 img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/12/War-and-Peace.jpg" alt="Hendra Gunawan, War and Peace, c. 1950s, oil on canvas, 93.7 x 140.3 cm, Collection of National Gallery Singapore." width="1200" height="793" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/12/War-and-Peace.jpg 1200w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/12/War-and-Peace-300x198.jpg 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/12/War-and-Peace-1024x677.jpg 1024w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/12/War-and-Peace-768x508.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px"><p id="caption-attachment-35370" class="wp-caption-text" style="text-align:center;"><small><span style="color: #ba2025;">Hendra Gunawan, War and Peace [Guerra e Paz], c.1950, óleo sobre tela, 93.7 x 140.3 cm, Coleção da Galeria Nacional de Singapura.</span></small></p></div>
<p><img loading="lazy" decoding="async" class="aligncenter size-full wp-image-32258 img-responsive" src="https://www.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/1.png" alt="" width="950" height="266" srcset="https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/1.png 950w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/1-300x84.png 300w, https://dev.thetricontinental.org/wp-content/uploads/2020/11/1-768x215.png 768w" sizes="auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px"></p>
<p><a href="#_ftn3" name="_ftnref3"></a></p>
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